quarta-feira, 20 de junho de 2018

Colecção Novela gráfica IV 3 - O Fantasma de Gaudí


O ARQUITECTO, A CIDADE E O SERIAL KILLER

Novela Gráfica IV - Vol 3
O Fantasma de Gaudí
Argumento – El Torres
Desenhos – Jesús Alonso Iglesias
Quarta-feira, 20 de Junho
Por + 10,90 €
Confirmando a extraordinária vitalidade da actual Novela Gráfica espanhola, o terceiro volume desta nova colecção traz-nos mais dois autores espanhóis (quase) desconhecidos em Portugal, com O Fantasma de Gaudí, um emocionante e divertido triller, centrado na obra de Antoni Gaudí, o famoso arquitecto catalão, cuja arquitectura única, marca de forma indelével a cidade de Barcelona.
Publicado originalmente em Espanha em 2015, O Fantasma de Gaudí venceu o prémio de Melhor Livro de Autor Espanhol no Salão del Comic de Barcelona de 2016 e está nomeada para o Prémio Eisner de Melhor Novela Gráfica Estrangeira, a atribuir em Julho na Comic Con de San Diego. Distinções merecidas para uma história muito bem construída, que aproveita uma intriga policial, que envolve um misterioso serial killer e o inspector da polícia que o persegue, para nos dar a descobrir por dentro a arquitectura de Gaudí e a sua ligação com a cidade de Barcelona, levando o leitor a visitar obras-primas da arquitectura gaudiana, como a Casa Vincens; os Pavilhões, o Palácio e o Parque Guell; a Casa Calvet; a Casa Batlló; a Casa Milà, mais conhecida como La Pedrera e, naturalmente, a inacabada Catedral da Sagrada Família, onde tem lugar o confronto final.
Tudo começa quando Antonia, uma caixa de supermercado, salva um velho de morrer atropelado, precisamente no mesmo local onde Gaudí morreu atropelado por um eléctrico em 1926. O mesmo Gaudí, cuja obra fica no centro de uma investigação policial, quando começam a surgir cadáveres mutilados, em edifícios emblemáticos de Barcelona, projectados pelo arquitecto catalão.
Famoso pelas suas histórias de terror, o argumentista Juan António Torres, mais conhecido por El Torres, tinha aqui um desafio complexo, que lhe foi proposto pelo seu editor. Como refere no posfácio do livro: “Possivelmente esta foi a história mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais fácil que escrevi até hoje. Difícil porque, imagina, estás sentado aí com as tuas coisas, e liga-te Ricardo Esteban, que te aguenta as penúrias e te paga os direitos, e essa pessoa diz-te: “Quero que façamos um livro de Gaudí”.
E dizes-lhe que sim. Demoras dois anos a escrevê-lo. Apesar de Gaudí fazer sempre parte das maravilhosas visitas a Barcelona, nunca tinha conhecido a sua vida em pormenor. Mas, claro, agora tinha uma história entre mãos. Tinha de entender a sua arquitectura, conhecer a sua vida. Era hora de pôr mãos à obra.
Senti-me angustiado. A dimensão da sua arte é gigantesca, quase impossível de estudar na sua totalidade.
Não podia escrever uma biografia. Não é o meu género favorito e, diga-se a verdade, vi-me incapaz de escrever uma história interessante baseada na sua vida.
Assim, teria de ser ficção. Ficção sobre Gaudí, sobre a sua obra. (…) Mais uma vez, senti-me angustiado. Foi assim que me senti, com todos e cada um dos protagonistas de O Fantasma de Gaudí. Odiava-o e amava-o ao mesmo tempo. Deixei os livros e deslumbrei-me quando pude a visitar as suas obras. Embrenhei-me na Casa Battló (não tanto como a personagem), para verificar se podia subir pelas escadas de saída, ia e vinha e a história não saía. Estive quase a dizer ao Ricardo que desistia. E de repente surgiu. Um assassino que em simultâneo odeia e ama Gaudí. Que se sente tão confuso e aborrecido quanto eu. De toda essa confusão de sentimentos surgiu esta banda desenhada.”
Uma bela banda desenhada, diga-se, muito bem ilustrada de forma dinâmica por Jesús Alonso Iglesias, com um estilo semi-caricatural no tratamento das personagens e realista nos cenários marcados pela espectacular arquitectura de Gaudí. Uma obra que prende e faz pensar o leitor e que está mesmo a pedir por uma adaptação ao cinema.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 16/06/2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Colecção Bonelli 10 - Dylan Dog: Os Inquilinos Arcanos

No caso deste último volume da colecção Bonelli, o texto que saiu no jornal Público é apenas uma versão reduzida, a menos de metade, do texto que tinha escrito originalmente. Como felizmente na Net não existem problemas de espaço, deixo-vos com a versão integral do último texto da colecção da Levoir que me deu mais gozo co-coordenar. Uma colecção que dificilmente teria sido possível sem o apoio do José Carlos Francisco, Mário João Marques e (em menor escala) do Pedro Bouça e Pedro Cleto, a quem agradeço.


DYLAN DOG ENCERRA COLECÇÃO BONELLI

Colecção Bonelli - Vol 10 
Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Quinta-feira, 14 de Junho
Por + 10,90€
Depois de ter protagonizado o terceiro volume, com o clássico Johnny Freak, Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção dedicada à editora Bonelli, num volume com prefácio do argumentista/pianista/compositor/realizador Filipe Melo - cuja série de culto, Dog Mendonça é uma assumida homenagem a Dylan Dog - que recolhe três histórias curtas a cores. A primeira, Os Inquilinos Arcanos, é uma história em três capítulos autónomos, mas que se completam, publicada originalmente na revista Comic Art, entre 1990 e 1991. Assinada por Tiziano Sclavi, o seu criador e por Corrado Roi, um dos melhores desenhadores da série Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos centra-se nos estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres, o condomínio Castevet, e que Dylan Dog vai investigar.
Apesar do número reduzido de páginas - para os padrões da Bonelli, em que as histórias têm normalmente 96 páginas - de cada capítulo, todos os elementos que caracterizam o trabalho de Sclavi estão presentes de forma concentrada, começando pelo humor negro, o toque surreal e as homenagens e citações. Na primeira história, O Fantasma do Terceiro Andar, cujo clima de paranóia vai beber muito ao filme O Apartamento, de Roman Polanski, as referências ao realizador são evidentes, começando na citação de Polanski que abre a história e terminando no nome, Trelkovski - que é o apelido do personagem interpretado pelo próprio Polanski em O Apartamento - que o porteiro dá a um inquilino que se chama… Kowalski, O mesmo sucede em O Apartamento nº 13, onde Sclavi homenageia simultaneamente o escritor Cornell Woolrich e o cineasta Frank Capra, cujo filme, Do Céu Caiu uma Estrela, os personagens vão ver ao cinema, numa história sobre um homem que descobre que não existe.  Comic Art, que lhe permite encaixar quatro tiras por prancha, em vez das três habituais nas revistas da editora italiana.
Ilustrada por Corrado Roi, que assegura também as belas e inesperadas cores, esta história em três partes tem também a singularidade de ser umas das raras aventuras de Dylan Dog em que este troca a habitual camisa vermelha, que se tornou a sua imagem de marca, por uma simples camisa branca. Em termos gráficos, o trabalho de Roi é fabuloso, perfeito na criação do ambiente opressivo das histórias e aproveitando muito bem o formato maior (do que o habitual formato Bonelli) da revista
As outras duas histórias que completam esta edição, foram publicadas na revista Dylan Dog Color Fest, um título mais experimental, que possibilita a autores que normalmente não colaboram com a Bonelli, a oportunidade de assinar histórias de Dylan Dog.
È o que acontece em O Grande Nevão, história que assinala a estreia do argentino Enrique Breccia (A Vida do Che, Tex: Capitan Jack) na Bonelli, aproveitada pelo argumentista Luigi Mignaco para fazer uma bela homenagem à mais importante BD argentina, El Eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, a história de um ataque extraterrestre a Buenos Aires, que começa precisamente com um nevão que mata todos aqueles que são tocados pelos flocos de neve.
Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi. Uma história com uma sensibilidade bem feminina, escrita por uma leitura e fã de Dylan Dog que, tal como aconteceu com Paola Barbato, se tornou uma das principais argumentistas da série e ilustrada com uma delicadeza também feminina, mas que não esconde as claras influências do irmão, por Nives Manara, a irmã mais nova do mestre do erotismo, Milo Manara.
Três abordagens bem diferentes, que demonstram as infinitas possibilidades que uma personagem com Dylan Dog permite, tal como aconteceu com Tex no volume que abriu esta colecção. Uma bela colecção, que nos deu a conhecer um pouco melhor, a melhor editora italiana.
Versão integral do texto publicado no jornal Público de 09/06/2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 2 - Aqui Mesmo, de Tardi e Forest

TARDI REGRESSA COM UM CLÁSSICO DO ROMAN BD

Novela Gráfica IV - Vol 2
Aqui Mesmo
Argumento – Jean-Claude Forest 
Desenhos – Jacques Tardi
Quarta-feira, 13 de Junho
Por + 10,90 € 
Depois de Taniguchi no primeiro volume, esta nova colecção de Novelas Gráficas prossegue com outro regresso, o de Tardi, com Aqui Mesmo, a sua primeira e mais mítica colaboração com a revista (A Suivre), ao lado de Jean-Claude Forest, o criador de Barbarella, que entregou uma história pensada originalmente para ser um guião de um filme, ao traço único do seu amigo Tardi. 

Título incontornável no desenvolvimento do conceito da Novela Gráfica (ou roman BD, na expressão usada na revista), a (A Suivre) era uma publicação que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, lhes dava a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso deste Aqui Mesmo, publicado originalmente em capítulos entre 1977 e 1979, nos nºs 0 a 12 da (A Suivre), tendo sido capa do primeiro número da revista (e, vinte anos depois, também do último). Aqui Mesmo é um bom exemplo de que não é o modo como é originalmente publicada, que define o estatuto de uma obra. O trabalho de escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro, seguiu a mesma estrutura folhetinesca de Aqui Mesmo. Um método de publicação que, como refere Forest na introdução, lhes permitiu: “evitar muitos dos constrangimentos impostos à BD, por razões editoriais ou económicas. Para o diabo com as histórias recortadas em episódios regulares, com finais falsos, com o número de páginas limitado, com os heróis e anti-heróis. E para o diabo sobretudo com a pior das escravaturas (por ser a mais insidiosa), a que conduz um autor a agarrar-se a um género bem definido, bem repertoriado: F.C., humor, aventura, erotismo, etc...”
Aqui Mesmo narra a história surreal e delirante de Arthur Mesmo, um antigo proprietário que se viu despojado de Mornemont, grande uma propriedade transformada num condomínio, de que só controla os muros, onde vive, funcionando como porteiro das diferentes famílias que lhe ocuparam a propriedade, que funciona como um pequeno país, um país fechado, abastecido por um barqueiro/merceeiro pouco conversador. Um mundo estranho, que vai ser perturbado pela sexualidade sem tabus da bela Julie.
Como refere Tardi, a colaboração entre os dois criadores, foi simples e fácil: “com Forest (que também era desenhador) nunca houve problemas em relação à planificação: ele sabia muito bem quando eram precisas duas ou três imagens. Não precisávamos de discutir. As indicações de planificação já estavam todas no argumento que ele me entregava. Quanto ao texto dele, não mudei uma vírgula. Apesar disso, de início tínhamos visões diferentes. Eu tinha as minhas fantasias em relação a esse país imaginário; tinha pensado numa coisa bastante mais delirante, mais próxima daquilo que fiz em La Véritable Histoire du Soldat Inconnu, em termos dos cenários e da arquitectura. Ele tinha uma visão mais dos subúrbios… Acabei por aceitar e fiz reperages nos subúrbios.” 
Mesmo seguindo as indicações de Forest, o resultado é do mais puro Tardi, com o traço único do desenhador de Foi Assim a Guerra das Trincheiras a fazer sua a incrível e triste história de Arthur Mesmo, no seu País Fechado.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/06/2018

sábado, 9 de junho de 2018

Colecção Bonelli 9 - Mister No: OVNIs na Amzónia


O EXPLORADOR E O ASTRONAUTA

Colecção Bonelli - Vol 9 
Mister No – OVNIs na Amazónia
Argumento – Tiziano Sclavi e Guido Nolitta
Desenhos – Fábio Civitelli e Roberto Diso
Quinta-feira, 7 de Junho
Por + 10,90€
O último herói da Bonelli a quem esta colecção possibilita a estreia em Portugal, já na próxima quinta-feira, foi também um dos primeiros: Mister No. Criado por Guido Nolitta (pseudónimo que Sergio Bonelli usava para assinar os argumentos que escrevia) em 1975, a partir de duas personagens reais que Sergio conheceu nas suas viagens pelo continente americano, Mister No é um aventureiro radicado na selva amazónica. Nascido Jerry Drake, Mister No - alcunha que nasceu devido à sua teimosia, que o leva a dizer facilmente “Não!” (No) aos seus clientes - é um antigo piloto de guerra americano que, depois da Guerra da Coreia, incapaz de se readaptar à vida civil, decide deixar os Estados Unidos e ir viver para Manaus, no Brasil, onde ganha a vida como guia na selva amazónica, o que, por vezes, o leva a envolver-se em situações que o obrigam a fazer apelo à sua experiência militar. O seu melhor amigo é outro estrangeiro, Otto Kruger, vulgo “Esse-Esse”, um alemão que, como Drake, é um veterano da Segunda Guerra Mundial. Não dos SS, como a alcunha pode levar a supor, mas do Afrika Korps, o célebre corpo expedicionário comandado pelo Marechal Rommel.
Com uma capa inédita de Fabio Civitelli realizada em exclusivo para esta edição, colorida pelo desenhador português Ricardo Venâncio, o livro que apresenta Mister No aos leitores portugueses, comporta duas histórias. A primeira, OVNI, escrita por Tiziano Sclavi (o criador de Dylan Dog) e ilustrada por Civitelli, e publicada originalmente em 1984 no nº 108 da revista mensal de Mister No, coloca o americano Mister No e um cosmonauta russo a terem de unir esforços em plena Guerra Fria, para conseguirem sobreviver a uma tribo de indígenas que os quer sacrificar aos seus Deuses. Um encontro inesperado, que ocorre na sequência da queda de um satélite russo em plena selva amazónica, provocando a destruição do avião de Mister No e motivando a hostilidade dos indígenas, que vêm no estranho fenómeno um sinal de desagrado divino. A história de uma amizade improvável que floresce, independentemente das bandeiras e das ideologias, como sucede com No e Arkady, o cosmonauta russo, escrita um ano antes de Gorbachov subir ao poder, é um tema grato a Sergio Bonelli, mas Sclavi não deixa de juntar o seu toque pessoal, introduzindo, de forma ambígua, alguns elementos fantásticos na narrativa. Uma história muitíssimo bem ilustrada pelo traço de grande detalhe e legibilidade de Fabio Civitelli, que se revela senhor de um apuradíssimo jogo de sombras, bem evidente nas cenas nocturnas e nos pesadelos de Mister No e de um óptimo sentido de mise-en-scène, de que a entrada em cena de Arkady, com o seu traje espacial, é um exemplo perfeito.
Para além desta história, em que Sclavi aborda pela primeira vez os OVNIs, tema a que regressará com alguma frequência em Dylan Dog, este volume traz também Garimpeiros, uma história curta escrita pelo próprio Sergio Bonelli e desenhada por Roberto Diso, que começou a desenhar Mister No logo na edição nº 5 e que, com o tempo, acabou por se tornar o mais importante desenhador da série, ocupando-se também das capas da revista a partir do nº 116. Bem representativa da colaboração da dupla, Garimpeiros coloca Mister No em confronto com diferentes aspectos da ganância humana, quando é obrigado a transportar os cunhados de um garimpeiro brasileiro, até ao local onde este supostamente encontrou a jazida que o tornou um homem rico.
Publicado originalmente no jornal Público de 02/06/2018

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Apresentação da colecção Novela Gráfica - Série IV

Ainda a colecção Bonelli não terminou e já aí está mais uma colecção de Novelas Gráficas. Aqui vos deixo com os textos que escrevi para o destacável de apresentação da colecção, que volta a sair com o Público do próximo sábado.

NOVELA GRÁFICA ENTRE A ARTE, A LITERATURA E A VIDA

Numa entrevista que lhe fiz em 2001, José Muñoz, o desenhador da biografia em BD da cantora Billie Holliday que a Levoir e o PÚBLICO editaram em 2015 e um dos maiores artistas argentinos vivos, referia como, através da arte em geral e da BD em particular é possível sublimar: “a tremenda injustiça da história humana, que é uma história não ilustrável, a história de uma atracção fatal pelo sangue. A Banda Desenhada trata de separar-se da história da humanidade e melhorá-la, porque a história humana é pouco interessante. Está mal escrita! Quando fazemos BD, tentamos buscar um consolo do desastre que o ser humano protagoniza ao longo de milénios, na sua relação com o outro. Isso faz parte do aspecto terapêutico do nosso trabalho, que funciona como uma catarse e um refúgio em relação à consciência que temos, de que somos tão humanos e injustos como os outros e que, embora a história humana careça de sentido, viver é maravilhoso!”
Essa capacidade da arte e da literatura reflectirem sobre a vida e a existência humana, está presente de diferentes formas nesta nova colecção de Novelas Gráficas. Uma colecção que se inicia com o incontornável Jiro Taniguchi, desaparecido cedo demais em 2017, que nos traz, no seu formato original de leitura à japonesa, Os Guardiões do Louvre, uma ficção alegórica com uma grande dimensão autobiográfica, onde o autor assume a importância da pintura europeia no seu trabalho.
Aqui Mesmo, de Forest e Tardi, para além da sua dimensão surreal e metafórica, onde não faltam as piscadelas à própria BD (veja-se o livro do Mickey que Arthur se obstina em guardar até ao fim) revela sobretudo o aproveitar da liberdade que um espaço como a revista (A Suivre) oferecia aos seus autores, permitindo-lhes, nas palavras do próprio Forest: “evitar muitos dos constrangimentos impostos à BD, por razões editoriais ou económicas. Para o diabo com as histórias recortadas em episódios regulares, com finais falsos, com o número de páginas limitado, com os heróis e anti-heróis. E para o diabo sobretudo com a pior das escravaturas (por ser a mais insidiosa), a que conduz um autor a agarrar-se a um género bem definido, bem repertoriado: F.C., humor, aventura, erotismo, etc...”
O Fantasma de Gaudí, de El Torres e Jesús Alonso Iglesias, dois estreantes nestas colecções, parte de um género codificado, o romance policial, para mostrar como a arquitectura de Gaudí marca a cidade de Barcelona e os seus habitantes. Em Calipso, o seu mais recente trabalho, o suíço Cosey, galardoado com o Grande Prémio de Angoulême em 2017, escolhe a sua Suíça natal, que já tinha sido cenário de Em Busca de Peter Pan, para palco de uma história de amor crepuscular, marcada pela sombra de Hollywood.
Em O Farol e O Jogo Lúgubre, as duas histórias que assinalam o regresso do nosso bem-conhecido Paco Roca, é a homenagem à literatura que une as duas histórias. Seja a Odisseia, as Mil e Uma Noites e As Viagens de Gulliver, em O Farol, seja o Drácula de Bram Stoker, que dita a estrutura de O Jogo Lúgubre.
Bastien Vivès, depois da dança em Polina, opta em Uma Irmã, por um registo mais quotidiano e intimista, numa história sobre o despertar sexual de um adolescente, confirmando a grande sensualidade e eficácia do seu traço único, feito de simplicidade e elegância.
Pénélope Bagieu conta de forma sintética e divertida a história de 15 mulheres destemidas, em As Destemidas, livro que conheceu um incrível sucesso em França e que, depois de Zeina Abirached em 2016, assinala o regresso de uma mulher à colecção Novela Gráfica. Em Tatuagem, é um herói clássico da literatura policial, o detective Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, para quem a gastronomia é também uma forma de arte, que ganha vida através da escrita de Hernán Migoya e do desenho de Bartolomé Seguí, o ilustrador de Histórias do Bairro, talvez o melhor título da colecção de 2017.
Em Gente de Dublin, do espanhol Alfonso Zapico, mais uma vez a história e a literatura andam de braço dado, na bem documentada biografia em BD do escritor James Joyce. Literatura que está na origem de O Jogador de Xadrez, a sumptuosa adaptação do último romance de Stefan Zweig feita por David Sala, em que o tabuleiro é uma metáfora de outros combates bem mais sangrentos, cujas recordações levaram Zweig a pôr termo à sua vida, pouco tempo depois de ter escrito este livro.
Em O Último Recreio, obra maior da prestigiada dupla de autores argentinos, Horacio Altuna e Carlos Trillo, a ficção científica distópica serve de metáfora à crueldade do género humano, enquanto que em Novembro, obra inédita do espanhol Sebastià Cabot, a complexidade das relações humanas e os altos e baixos de uma ligação amorosa estão no centro de uma história simples, em que as referências cinematográficas e musicais pontuam a história.

REGRESSOS E ESTREIAS

As colecções de Novelas Gráficas que o PÚBLICO e a Levoir têm lançado anualmente desde 2015, têm-se caracterizado por duas filosofias complementares: por um lado, dar a descobrir finalmente aos leitores portugueses alguns dos clássicos na Nona Arte que permaneciam inéditos em Portugal, décadas após a sua publicação original; e, por outro lado, acompanhar a actualidade em termos de edição, divulgando as novas tendências e as mais recentes obras de autores que, pela singularidade do seu trabalho, souberam marcar o seu espaço no campo da Novela Gráfica.
Estão nesta primeira categoria obras intemporais, como Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia, Sharaz De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, A Garagem Hermética, de Moebius e Ronin, de Frank Miller, entre muitos outros. Enquadram-se na segunda categoria, autores como Paco Roca, Bastien Vivès, Miguelanxo Prado ou Asaf Hanuka, e livros como Histórias do Bairro, Presas Fáceis, ou O Idiota.
E é precisamente neste equilíbrio entre classicismo e modernidAqui Mesmo, um clássico incontornável da BD europeia, em colaboração com o seu amigo Jean-Claude Forest, o criador de Barbarella. Outro grande nome da BD europeia que regressa a esta colecção é o suíço Cosey, Grande Prémio de Angoulême em 2017, que surpreende os seus leitores com uma incursão pelo preto e branco em Calipso, o seu mais recente trabalho.
ade, regressos e estreias que se faz esta nova colecção de Novelas Gráficas. Uma colecção que abre justamente com Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses e figura tutelar nestas diferentes colecções, com a excepção da colecção de 2017, o ano da sua morte. Um trágico acontecimento, que não impede que a sua obra permaneça bem viva e ainda com muito por descobrir pelos leitores portugueses. Também de regresso está Tardi, com
Igualmente presente com o seu mais recente trabalho está Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD francesa, que nos traz Uma Irmã, uma belíssima história de iniciação sexual. Paco Roca, um dos mais importantes criadores espanhóis da actualidade, também não podia faltar, com a recuperação de O Farol e o Jogo Lúgubre, duas histórias do autor valenciano que estavam inéditas em português. O último regresso desta colecção é o do desenhador espanhol Bartolomé Seguí, o desenhador de Histórias do Bairro, que agora ilustra uma adaptação feita por Hernán Migoya de um romance de Manuel Vázquez Montalbán.
No campo das estreias, além de uma dupla de autores argentinos, Carlos Trillo e Horacio Altuna, que nos trazem o clássico O Último Recreio, temos dois criadores franceses: David Sala, com uma deslumbrante adaptação de O Jogador de Xadrez de Stefan Zweig e Pénélope Bagieu, com As Destemidas, biografias em BD de uma série de mulheres que marcaram o seu tempo. Finalmente, e como já vem sendo tradição, o maior número de estreias vem da vizinha Espanha, com autores como Jesús Alonso Iglesias e El Torres, que assinam O Fantasma de Gaudí, um triller ambientado em Barcelona, Alfonso Zapico, com Gente de Dublin, uma biografia em BD do escritor James Joyce e Sebastià Cabot, que encerra a colecção com Novembro, obra publicada nesta colecção em estreia mundial.

DOS CLÁSSICOS ILUSTRADOS À LITERATURA DESENHADA

Se há género com grande tradição ao longo da história da Banda Desenhada, esse género é a adaptação de obras literárias, mesmo que a forma como essas adaptações são feitas tenha naturalmente evoluído.
Perante as adaptações à BD de textos literários, as opiniões tendem a dividir-se. Enquanto alguns as consideram como desajustadas, por redutoras do texto literário, outros salientam a sua importância como forma de dar a conhecer aos mais novos, ou àqueles menos atreitos à leitura, obras que de outra forma nunca conheceriam, podendo estas adaptações abrir o apetite para a leitura dos textos originais adaptados. Foi essa a abordagem dominante durante bastante tempo, tanto nos Estados Unidos, com a Colecção Classics illustrated, como na Europa. Portugal, naturalmente, não foi excepção, especialmente a partir da década de 50 do século XX, quando as Instruções sobre a Literatura Infantil, legislação que impunha sérios limites aos temas que era permitido tratar em Banda Desenhada, veio dar um impulso decisivo a este tipo de adaptações. Essa limitação veio dar origem ainda assim a trabalhos muito interessantes, como as adaptações que Eduardo Teixeira Coelho fez dos contos de Eça de Queirós, ou o Beau Geste, ou a Ilha de Tesouro, de Fernando Bento.
Apesar da indiscutível qualidade de muitas dessas adaptações mais “clássicas”, não podemos deixar de ter em conta que a literatura e a BD são duas formas de linguagem diferentes, com códigos narrativos distintos, estando a BD, enquanto linguagem visual, bastante mais próxima do cinema.
Mesmo tendo como ponto de partida uma obra literária, uma Banda Desenhada deve obedecer às suas características narrativas próprias, algo praticamente impossível quando se pretende manter inalterável o texto original. Quando isso acontece, estamos perante uma adaptação falhada, ou perante um texto ilustrado, que acaba por não ser verdadeiramente Banda Desenhada. Mantendo-nos ainda no caso português, basta comparar a adaptação que José Ruy fez dos Lusíadas, em que manteve a totalidade do texto de Camões, com resultados narrativa e esteticamente discutíveis, com a abordagem bastante mais livre de Diniz Conefrey a três textos de Herberto Helder em Os Labirintos da Água.

Um dos objectivos do formato Novela Gráfica tem sido precisamente desenvolver a dimensão literária da Banda Desenhada. Hugo Pratt, que também ele adaptou à BD obras literárias como A ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ou Sandokan de Emílio Salgari, mais do que como BD, termo que ele achava desadequado, preferia definir o seu trabalho como “Literatura Desenhada”, para salientar a carga literária que ele pretendia trazer para as suas histórias. O nível de abstracção superior ao do cinema que o desenho permite, possibilitou a Alberto Breccia nas adaptações que fez dos contos de H. P. Lovecraft, “traduzir o intraduzível e representar o irrepresentável”, encontrando assim a tradução visual adequada para os horrores que as personagens de Lovecraft não se atreviam sequer a recordar. Do mesmo modo, se compararmos as adaptações que Breccia fez dos contos de Edgar Alan Poe, com o trabalho feito por outros autores, como Richard Corben, ou Horácio Layla a partir dos mesmos textos, verificamos que a marca autoral é importantíssima.
Resumindo, para uma adaptação bem conseguida, respeitando a obra original, cabe ao autor reinventá-la, integrando-a no seu próprio universo criativo. Depois de na primeira colecção de Novelas Gráficas termos tido a reinterpretação que Toppi fez das Mil e Uma Noites, em Sharaz De, na última colecção, tivemos mais um bom exemplo com a adaptação radical que André Diniz fez de O Idiota, em que teve coragem para praticamente abdicar do texto de Dostoiévski, numa adaptação em que a história do romance do prestigiado escritor russo era contada de forma visual.
Nesta quarta série das Novelas Gráficas, além de uma biografia em BD do escritor James Joyce, em que a sua vida e obra se fundem e confundem, temos duas adaptações literárias distintas. O Jogador de Xadrez, em que o francês David Sala dá vida e cor à última obra de Stefan Zweig, indo beber à pintura de Gustav Klimt para criar páginas visualmente deslumbrantes, graças a um notável trabalho de aguarela. E Tatuagem, a primeira aventura do detective Pepe Carvalho, em que Hernán Migoya adaptou o romance de Montalbán, com Bartolomé Seguí, num estilo gráfico distinto ao usado em Histórias de Bairro, a dar um rosto definitivo ao detective, que até aqui vivia apenas na imaginação dos leitores.

A COLECÇÃO

1 – Os Guardiões do Louvre 
06 de Junho
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Um desenhador japonês, de passagem por Paris, decide visitar o Museu do Louvre. Uma visita que se revelará surpreendente, ao cair num limbo onírico, entre o sonho e a realidade, que lhe permite entrar em contacto com os misteriosos Guardiões do Museu, que incluem uma Vitória de Samotrácia que ganha vida, e pintores como Corot, Van Gogh e Asi Chu. Com eles, faz uma viagem pela história do Louvre, onde não podia faltar Jacques Jaujard, o director do Museu que salvou as obras de arte do Louvre da pilhagem dos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial
Jiro Taniguchi, o único autor japonês galardoado com dois prémios no Festival de Angoulême, depois de O Diário do meu Pai e Terra de Sonhos, regressa à colecção Novela Gráfica com aquele que foi o seu último livro para o mercado francês.

2 – Aqui Mesmo
13 de Junho
Argumento – Jean-Claude Forest 
Desenhos –Tardi
A história surreal e satírica de Arthur Même que mora nos muros e pretende recuperar as terras que lhe foram usurpadas pelos seus primos, é uma metáfora do mecanismo do mundo, das certezas, das dúvidas, das inquietudes e do destino. Aqui Mesmo foi um dos títulos fundadores da revista francesa (À Suivre) em 1978, tendo feito a capa do primeiro número e vencido o prémio de melhor argumento no Festival de Angoulême de 1980.
Jean-Claude Forest, foi o criador de Barbarella, a sua mais conhecida personagem, levada ao cinema por Roger Vadim e interpretada por Jane Fonda. Em 1983 foi galardoado com o Grande Prémio de Angoulême. Quanto a Tardi, depois de Foi Assim a Guerra das Trincheiras em 2015, regressa à colecção Novela Gráfica com este clássico do roman BD elaborado em perfeita cumplicidade com Forest.

3  – O Fantasma de Gaudí
20 de Junho
Argumento – El Torres
Desenhos – Jesús Alonso Iglesias
Antonia, uma empregada de supermercado salva um idoso de ser atropelado e a partir desse momento desencadeia-se uma série de terríveis acontecimentos. Nos monumentos do célebre arquitecto catalão Anton Gaudí aparecem cadáveres mutilados de forma estranha e violenta. A polícia fica perplexa, e Antonia continua a afirmar que viu o fantasma de Gaudí.
A Barcelona de Gaudí serve de pano de fundo para O Fantasma de Gaudí, thriller policial com a dose certa de intriga, terror, paixão e loucura.
Um dos mais prolíficos e prestigiados argumentistas espanhóis da actualidade, considerado como o “Mestre do terror”, El Torres tem obras publicadas em França, Alemanha, Japão e Estados Unidos. O ilustrador Jesús Alonso, licenciado em Belas Artes pela Universidade de Madrid, tem no seu percurso profissional, trabalhos em animação, publicidade e em projectos de BD para editoriais espanholas e francesas.

4 – Calipso
27 de Junho
Argumento e Desenhos – Cosey
Gus e seu amigo Pepe assistem na televisão à retransmissão de Calipso, filme mítico protagonizado pela actriz Georgia Gould. Na realidade, Georgia Gould não é outra senãooutro senão Georgette Schwitzgebel, com quem Gus viveu uma ardente paixão. Mais tarde, no jornal local, Gus descobre que a Geórgia está de volta à SuiçaSuíça, na luxuosa e discreta clínica Edelweiss, especializada no tratamento de adições. Quando a visita, Gus fica convencido de que o amor da sua juventude está completamente dependente do marido, que controla a sua fortuna. É então que ela lhe propõe que ele a rapte para exigir um resgate, que lhes permita regressar a Nova Iorque. Mas as coisas acabam por não correr como previsto…
Cosey, o criador de Jonathan e de Em Busca de Peter Pan, vencedor do Grande prémio Prémio de Angoulême de 2017, regressa à colecção Novela Gráfica com o seu mais recente trabalho, num surpreendente registo de preto e branco de alto contraste.

5 – O Farol e O Jogo Lúgubre
04 de Julho
Argumento e Desenho – Paco Roca
Francisco é um jovem soldado republicano que tenta escapar da guerra civil. Na sua fuga, ele vai chegar a um lugar isolado, apenas com o mar e a companhia do faroleiro, Telmo, que o vai guiar numa jornada iniciática pelos clássicos da aventura. O Farol é uma homenagem de Paco Roca às aventuras de sua infância, uma canção em favor da liberdade e da imaginação.
Em O Jogo Lúgubre, Jonás chega a Cadaqués (Girona) em busca de um lugar tranquilo, mas uma atmosfera de mistério envolve a pequena vila de pescadores. Os seus habitantes estão assustados com o pintor que vive na praia de Port Lligat. Salvador Deseo, o pintor surrealista catalão, que passa pelo seu estágio criativo mais excêntrico e brilhante.
Paco Roca, o premiado autor de O Inverno do Desenhador, A Casa e Os Trilhos do Acaso, regressa à colecção Novela Gráfica com duas das suas primeiras novelas gráficas, em que já era evidente todo o seu talento e sensibilidade.

6 – Uma Irmã
11 de Julho
Argumento e Desenho – Bastien Vivès
Antoine, de 13 anos, está de férias em família numa casa à beira-mar. Desenha, caça o caranguejo com seu irmão mais novo, Titi, saboreando um verão sem história, até aparecer Helen, de 16 anos, que vem passar alguns dias com a mãe dele. Entre os dois adolescentes rapidamente se vai estabelecer um lapso singular, que vai tornar estas férias verdadeiramente inesquecíveis para Antoine, cuja sexualidade vai despertar graças à sensualidade transbordante de Helen.
Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD franco-belga, co-criador da popular série Last Man e autor de Polina, regressa à colecção Novela Gráfica com o seu mais recente trabalho, uma polémica história de iniciação amorosa.

7 – Destemidas
18 de Julho
Argumento e Desenhos – Pénélope Bagieu
Clémentine Delait, mulher barbada, Agnodice, ginecologista da Antiguidade, Delia Akeley, exploradora americana, Annette Kellerman, nadadora responsável pela introdução do fato de banho feminino, ou Leymah Gbowee, liberiana, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2014. Estas são algumas das quinze mulheres singulares, cuja biografia Pénélope Bagieu retrata neste livro, que começou em 2016 num blog do jornal francês Le Monde, em que todas as segundas-feiras Pénélope Bagieu colocava online a biografia de uma mulher destemida.
Pénélope Bagieu tem um bacharelato em Artes Decorativas, divide a sua actividade entre a BD, a animação e uma banda rock de que é baterista. Mas foi precisamente a sua actividade na BD, seja nos blogs ou em livro, que lhe valeu o grau de Cavaleiro de Artes e Letras, atribuído pelo Ministério da Cultura francês, em 2013.

8 – Tatuagem
25 de Julho
Argumento – Hernán Migoya (a partir do romance de Manuel Vázquez Montalbán)
Desenho – Bartolomé Seguí
Numa praia de Barcelona aparece o cadáver de um homem novo, com a cara comida pelos peixes e uma tatuagem na omoplata com a frase “Nasci para revolucionar o inferno”. Esse é o ponto de partida da primeira aventura de Pepe Carvalho, o detective galego criado pelo escritor Manuel Vázquez Montalbán, que o vai levar das ramblas de Barcelona aos canais de Amesterdão, para desvendar a identidade do misterioso homem.
Hernán Migoya, um dos mais prestigiados escritores e argumentistas espanhóis, junta-se a Bartolomé Segui Seguí (o desenhador de Histórias do Bairro) para dar vida a um dos mais carismáticos detectives da literatura policial.

09 – Gente de Dublin
01 de Agosto
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Gente de Dublin é um romance gráfico centrado na vida de James Joyce que passa pelos momentos, conversas, dificuldades e aventuras que ajudaram a construir a personalidade e a carreira de uma das grandes figuras do século XX. Fruto de um exaustivo trabalho de documentação, esta história, polvilhada com muitas anedotas, é também uma viagem cativante de comboio através de Dublin, Trieste, Paris e Zurique, as cidades por onde passou o escritor irlandês. Um percurso movimentado, onde Joyce se cruza com personalidades como Henrik Ibsen, WB Yeats, Ezra Pound, HG Wells, Bernard Shaw, TS Eliot, Virginia Woolf, Paul Valéry, Marcel Proust, Ernest Hemingway, Samuel Beckett, Sergei Eisenstein, Henri Matisse, André Gide, Le Corbusier e até Lenine.
Este trabalho valeu ao desenhador e ilustrador asturiano o Prémio Nacional del Comic, a mais elevada distinção espanhola para uma novela gráfica, no ano de 2010.

10 – O Jogador de Xadrez
08 de Agosto
Argumento – David Sala (a partir do romance de Stefan Zweig)
Desenhos – David Sala
Nos tranquilos salões de um paquete em viagem para a Argentina, o campeão do mundo de xadrez defronta numa última partida, a um aristocrata vienense cujo incrível domínio do jogo nasceu do isolamento forçado, durante o domínio nazi. Esta denúncia esmagadora e desesperada da barbárie nazi, foi o l último texto escrito por Stefan Zweig antes de se suicidar, a partir do qual David Sala realizou esta adaptação que a revista L’Express classificou como sumptuosa.
Nascido em Décines, perto de Lyon, em 1973, David Sala não é estranho às adaptações à BD de obras literárias, pois com a colaboração de Jorge Zentner, publicou a serie Nicolás Eymerich, inquisidor, uma adaptação de uma novela de Valerio Evangelisti.

11 – O Último Recreio
15 de Agosto
Argumento – Carlos Trillo 
Desenhos – Horacio Altuna
Num mundo pós-apocalíptico, em que foi detonada uma bomba cujos efeitos devastadores atingem apenas aqueles que atingiram a maturidade sexual, os adultos desapareceram e os únicos sobreviventes são as crianças. Num ambiente sem outras regras para além das que se possam impor pela força e violência, aos sobreviventes resta apenas escolher se querem ser vítimas, ou executores.
Inocência e crueldade em partes iguais num ambiente sem limites, que evoca o Senhor das Moscas, de William Golding.
Carlos Trillo, um dos mais importantes argumentistas argentinos de sempre, que colaborou com os maiores desenhadores do seu país, faz com Horácio Altuna uma equipa de enorme eficácia e cumplicidade, responsável por obras-primas como este O Último Recreio, o trabalho mais prestigiado da dupla.

12 – Novembro
22 de Agosto
Argumento e Desenhos – Sebastià Cabot
Gus é um escritor novato que trabalha em uma antiga loja de discos e tem problemas para estabelecer relacionamentos sérios até conhecer Clara, uma recém-licenciada em artes, que está a tentar assumir o controle de sua vida e parar de dormir no sofá de da sua melhor amiga, Lucia, uma viciada em redes sociais que está constantemente a mudar de namorado.
Na primeira parte do livro, vemos como Gus e Clara se encontram e acabam se apaixonando. A segunda parte da história é passada três anos depois, quando a sua relação se aproxima do fim.
Novembro é uma história que tenta falar sobre separação, solidão e incomunicação na sociedade contemporânea, com um toque retro dado pelas referências ao cinema noir clássico e à música jazz.
Sebastià Cabot, autor de BD e ilustrador, nascido e radicado em Palma de Maiorca, tem nesta colecção a estreia a nível mundial de Novembro.
Publicado originalmente no jornal Público de 06/06/2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Colecção Bonelli 8 - Dragonero: A primeira Missão

O EXPLORADOR, O OGRE E O GRIMÓRIO

Colecção Bonelli - Vol 8 
Dragonero – A Primeira Missão
Argumento – Luca Enoch e Stefano Vietti
Desenhos – Manuel Morrone e Cristiano Cucina
Quinta-feira, 31 de Maio
Por + 10,90€
No oitavo volume da colecção dedicada à Editora Bonelli, o destaque vai para aquela que é uma das apostas recentes de maior sucesso da editora milanesa: a série Dragonero. Uma série de fantasia heróica, género já aflorado em outras publicações da Bonelli, mas que em Dragonero é tratado pela primeira vez de forma mais pura, através da criação de um universo de fantasia, cuja complexidade e coerência estão à altura da herança de autores como Robert E. Howard, Tolkien e George R. R. Martin.
Criada em 2007 por Luca Enoch e Stefano Vietti como uma história única para a série Romanzi a Fumetti Bonelli, Dragonero acabaria por se converter numa revista mensal em 2013. O protagonista desta série é Ian Arànil, explorador do Império Erondariano e herdeiro da nobre e antiga casa dos Varliedàrto, os caçadores de dragões. Acompanhado por Gmor Burpen, um ogre com um invulgar gosto pela leitura e com hábitos gastronómicos bastante mais requintados do que o habitual na sua espécie, e pela ninfa Sera – que nesta edição aparece apenas no fim da história - Ian vive as mais incríveis aventuras no vasto universo criado por Enochi e Vietti, que compreende vários continentes, habitados por diferentes raças.
Publicada originalmente em 2014, no Speciale Dragonero nº 1, A Primeira Missão, a história escolhida para dar a conhecer Dragonero aos leitores portugueses, que foi também a primeira da série a ser publicada a cores em Itália, é uma boa porta de entrada na série, pois recorda um episódio do passado de Ian Arànil, o Dragonero, quando este decidiu abandonar o exército do Império e incorporar o corpo dos exploradores. Ian procura o seu amigo Gmor, entretanto retirado num mosteiro, para o acompanhar, mas antes de se puderem juntar ao corpo de exploradores, vão ter de partir em auxílio de um grupo de monges que se encontra preso no interior de uma biblioteca antiga, ameaçados por um Elementar - um tipo de dríade particularmente potente, com um corpo formado por ramos de espinhos e que, para se proteger, evoca servos menores directamente do mundo dos abismos, como os Familiares -  que guardava o grimório, um antigo livro de feitiços, escondido nessa biblioteca.
Por ser narrada em dois tempos distintos - o presente, em que, numa taberna em Solian, Iam e Gmor contam a um grupo de amigos aquela que foi a sua primeira missão antes de se juntarem ao corpo de exploradores, e o passado, a história do reencontro entre Iam e Gmor e a sua primeira missão conjunta – os diferentes momentos temporais estão cargo de dois desenhadores distintos, com Manuel Morrone a ilustrar as cenas na taberna, enquanto Cristiano Cucina se ocupa da história principal, narrada em flash-back, contribuindo as cores de Paolo Francescutto, do estúdio Golem, para harmonizar o conjunto.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/05/2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Colecção Bonelli 7 - Martin Mystère: O Destino da Atlântida


MARTIN MYSTÈRE INVESTIGA O MISTÉRIO DA ATLÂNTIDA

Colecção Bonelli - Vol 7  
Martin Mystere – O Destino da Atlântida
Argumento – Alfredo Castelli
Desenhos – Cardinale, Orlandi e Toppi
Quinta-feira, 24 de Maio
Por + 10,90€
Depois de Tex, Dampyr, Dylan Dog e Julia, chega a vez de Martin Mystère se estrear nesta colecção dedicada à editora Bonelli. Criado em 1982 por Alfredo Castelli, Martin Mystère, o “detective do impossível”, é um verdadeiro “Homem do Renascimento”. Antropólogo, arqueólogo, especialista em História da Arte, Línguas e Cibernética, investigador, apresentador do programa de televisão Os Mistérios de Mystère, escritor, aventureiro e iniciado nos cultos esotéricos, Mystère utiliza a sua vastíssima cultura para desvendar os mais variados enigmas, apoiado pelo seu fiel Java, um corpulento Homem de Neanderthal.
Nascido em Milão em 1947, Castelli, o criador de Martin Mystère, é um prolífico escritor, investigador, argumentista e especialista em Banda Desenhada, que a essa actividade, junta também a escrita de guiões para séries televisivas da RAI e para desenhos animados. Para a revista  Il Corriere dei Ragazzi, criou inúmeras histórias e personagens, como Gli Aristocratici (onde colabora pela primeira vez com Tiziano Sclavi, o criador de Dylan Dog) e Allan Quatermain, em 1975, personagem que irá servir de modelo para a criação de Martin Mystère, em que já é bem evidente o gosto do escritor por histórias muito bem documentadas que misturam o género fantástico e as teorias da conspiração, com a aventura e a História. Allan Quatermain, vai servir de base a uma nova personagem, aprovada por Sergio Bonelli, já com o nome Martin Mystère, nome esse que é uma homenagem a Tiziano Sclavi que nos anos 70 escreveu uma série de contos com um detective francês chamado Jacques Mystère. Jacques, que ficou precisamente como o nome do meio de Martin Mystère, cujo nome completo é Martin Jacques Mystère.
Este volume traz duas histórias bem distintas de Martin Mystère. A primeira dessas histórias, O Destino da Atlântida cuja acção se inicia nos Açores, está bem integrada na continuidade da série, remetendo para episódios anteriores, especialmente para o primeiro volume da série, publicado em 1982, em que Mistère descobre nos mares dos Açores, vestígios arqueológicos que provam a existência da Atlântida. Desta vez Martin Mystère tem de se aliar ao seu eterno inimigo, Orloff para trazer de volta à nossa era o satélite militar que provocou a destruição da Atlântida e de Mu, 10 mil anos antes. Uma história complexa, em que os principais elementos da série estão presentes, ilustrada num estilo realista, em que é notório o uso de fotografias, por Roberto Cardinale e Alfredo Orlandi.
O volume termina com Assunto de Família, uma história curta de 22 páginas,  publicada originalmente no Almanaque Martin Mystére nº 16, de 1999, e posteriormente adaptada a um CD-Rom. Essa história, ilustrada por Sergio Toppi, em que a descoberta de uma gravação vídeo traz revelações sobre a presença de extraterrestres no nosso planeta, é mais um exemplo da colaboração de Toppi com a editora de Sérgio Bonelli, em que o desenhador adapta a narrativa e a planificação às características habituais das publicações da editora, sem abdicar do seu estilo mais pessoal e inconfundível, bem evidente nas máscaras africanas que ornamentam o escritório de Mystère.
Publicado originalmente no jornal Público de 19/05/2018

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Colecção Bonelli 6 - Tex: A Pista dos Fora-da-Lei

TEX E OS ÍNDIOS

Colecção Bonelli - Vol 6
Tex – A pista dos Fora-da-Lei
Argumento – Mauro Boselli e Claudio Nizzi
Desenhos – Carlos Gomez e Andrea Venturi
Quinta-feira, 17 de Maio
Por + 10,90€
Depois de um volume inaugural a cores, marcado pela diversidade de abordagens estéticas e narrativas, Tex regressa a esta colecção para um segundo volume, com duas histórias a preto e branco, de maior fôlego e cheias de acção, bem representativas da dimensão mais épica da personagem, escritas pelos principais argumentistas da série na actualidade, Mauro Boselli (que é também o editor) e Claudio Nizzi.

A primeira, A Pista dos Fora-da-lei, escrita por Mauro Boselli, com desenhos espectaculares do argentino Carlos Gomez, leva Tex, Kit Carson e Jack Tigre a seguir a pista de um bando de assaltantes de bancos, capitaneado por Ozzie Johnson, pelos Montes Gila, até Clifton, uma pequena povoação mineira. Aí, o confronto entre Tex e os seus pards e a quadrilha de Johnson (que tinha aproveitado para assaltar o Banco de Clifton) passa para segundo plano, face à ameaça de um bando de Apaches rebeldes, que decide atacar a povoação. Uma situação inesperada, que vem revelar uma nobreza de carácter por parte de Johnson e dos seus homens, que arriscam a vida para salvar as mulheres de Clifton, pouco habitual nas histórias mais antigas de Tex, marcadas por uma visão mais maniqueísta da realidade, onde os “maus da fita” não costumam ter redenção possível.
Mas, apesar das qualidades do argumento de Boselli, que remete Tex para um papel mais de observador, de modo a ter espaço para dar maior densidade psicológica às personagens secundárias, o ponto alto desta história é mesmo o trabalho superlativo de Carlos Gomez no desenho. Verdadeira estrela em Itália, graças à série Dago, onde substituiu, com grandes vantagens, Alberto Salinas (o filho do mítico desenhador de Cisco Kid, José Luís Salinas), Carlos Gomez - que já tinha brilhado em Na Trilha do Oregon, um Tex Gigante (os famosos Texones) que foi distribuído em Portugal em versão brasileira há 6 ou 7 anos - mostra mais uma vez que é um desenhador de mão cheia, com um traço tão dinâmico como pormenorizado, que dá aos rostos uma grande expressividade. Com um traço de um realismo impressionante e uma notável capacidade de planificar as cenas de acção, Gomez é também um mestre na criação de ambientes. Veja-se a sequência inicial à chuva, marcada por um espectacular trabalho de preto e branco.
Se na primeira história, os índios são a principal ameaça, na segunda história, O Assassino de Índios, eles são as vítimas de um misterioso assassino que aterroriza uma tribo de apaches Jicarilla, ao assassinar e escalpar mais de vinte indígenas. Uma ameaça misteriosa que só Tex e Kit Carson serão capazes de deter. Publicada originalmente no Almanaque Tex de 1996, esta história escrita por Claudio Nizzi, assinala a estreia de Andrea Venturi  - o desenhador de Johnny Freak, a inesquecível história de Dylan Dog que pudemos ler no terceiro volume desta colecção -  na série Tex.
E Venturi, que tão bem se saia a desenhar Dylan Dog, revela-se bastante à vontade na passagem para um género mais codificado como é o Western, confirmando as suas qualidades artísticas, ao serviço de uma história com contornos de inquérito policial, em que Tex descobre, ao mesmo tempo que o leitor, os motivos que levaram o misterioso assassino de índios a executar a sua vingança.
Publicado originalmente no jornal Público de 12/05/2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Colecção Bonelli 5 - Le Storie: Sangue e Gelo

O VERMELHO E O BRANCO

Colecção Bonelli - Vol 5
Le Storie – Sangue e Gelo
Argumento – Tito Faraci
Desenhos – Pasquale Frisenda
Quinta-feira, 10 de Maio
Por + 10,90€
Embora muita da sua popularidade derive do carisma das suas personagens famosas, como Tex, Dylan Dog, Júlia, ou Dampyr, para falar apenas das que os leitores portugueses tiveram oportunidade de descobrir nas semanas anteriores, a aposta da Bonelli não se limita às séries com personagens recorrentes. Basta ver Sangue e Gelo, o volume da série Le Storie, que preenche a quinta entrega desta Colecção dedicada à editora milanesa.
Uma nova série, sem personagens fixos, que recupera o conceito da mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, uma das experiências editoriais mais prestigiadas da Bonelli, por onde passaram os maiores nomes da BD italiana, como Pratt, Manara, Crepax e Toppi, a quem foi dada total liberdade para escreverem e desenharem histórias sem heróis. É esse mesmo espírito que está presente em Le Storie, título criado em 2012 para acolher histórias complexas, bem contadas e melhor desenhadas, libertas dos constrangimentos habituais nas publicações clássicas da editora, tendo geralmente como pano de fundo um acontecimento histórico concreto. Um título por onde já passaram alguns dos melhores escritores e desenhadores italianos, como Claudio Nizzi, Mauro Boselli, Gianfranco Manfredi, Corrado Mastantuono, Paolo Bacilieri, Roberto Recchioni, Giovanni Freghieri, Bruno Brindisi ou Gampiero Casertano, sem esquecer Aldo di Gennaro, o ilustrador responsável pelas capas da série.
Ambientada em finais de 1812, na Rússia do Czar Alexandre I, Sangue e Gelo tem como ponto de partida a retirada do exército napoleónico, desgastado pela estratégia russa da “terra queimada”, deixando atrás de si centenas de milhar de homens à fome, que lutam pela mera sobrevivência num ambiente de gelo e horror. Contrários à ideia de se renderem a um destino aparentemente inelutável, os homens do capitão Lozère partem em busca de um pouco de pão e de um abrigo quente, na esperança de uma improvável salvação, acabando por ir ao encontro de um destino imprevisto, que mostra que há horrores ancestrais ainda piores do que os da guerra...
Escrita por Tito Faraci, que os leitores portugueses conhecem de Daredevil & Capitão América: Segunda Morte, álbum desenhado por Claudio Villa, um dos mais prestigiados Ilustradores da Bonelli e integrado na linha Marvel Transatlantico, Sangue e Gelo conta com arte de Pasquale Frisenda, o desenhador de Patagónia e O Segredo do Juiz Bean, duas aventuras de Tex publicadas recentemente em Portugal pela Polvo. Se essas duas histórias já deixavam perceber todo o talento gráfico e narrativo de Frisenda, aqui o trabalho do desenhador milanês é absolutamente superlativo e um perfeito exemplo de como o traço e a cor podem ser usados em termos tanto psicológicos como narrativos.
Assim, o branco da neve que cobre os campos gelados da Rússia é rasgado pelo vermelho do sangue e do fogo, cuja presença se vai tornando cada vez mais importante à medida que a história resvala para um horror sobrenatural. Uma descida ao coração das trevas magistralmente ilustrada por Frisenda que, de acordo com as necessidades da história, alterna entre o preto e branco de alto contraste, uma aguada de guache cinzento que mancha o branco da página e da neve e o vermelho que vai invadindo as páginas, numa perfeita articulação entre texto, imagem e cor.
Publicado originalmente no jornal de Publico de 05/05/2018

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Colecção Bonelli 4 - Julia: O Eterno Repouso

JULIA ESTREIA-SE EM PORTUGAL COM ARTE DE SERGIO TOPPI

Colecção Bonelli - Vol 4
Julia – O Eterno Repouso
Argumento – Giancarlo Berardi
Desenhos – Sergio Toppi
Quinta-feira, 3 de Maio
Por + 10,90€
A protagonista do quarto volume da colecção dedicada à editora Bonelli é Julia Kendall, uma criminóloga e professora universitária, que colabora com a polícia de Garden City – a cidade fictícia onde vive – utilizando os seus vastos conhecimentos para investigar os mais diversos casos de homicídio.
Criada em 1998 por Giancarlo Beradi – o criador do magnífico Western Ken Parker - com a colaboração de Luca Vannini na parte gráfica, a série tem um elemento que é comum a outros títulos da Bonelli: a utilização da imagem de actores de cinema famoso como ponto de partida para a criação gráfica dos heróis. Se no caso de Dylan Dog, o próprio Tiziano Sclavi indicou ao desenhador Claudio Villa o actor Rupert Everett como modelo para Dylan Dog, já Berardi vai bastante mais longe, com praticamente todas as personagens recorrentes da série a serem baseadas fisicamente em actores de Hollywood, começando logo pela própria Julia, cuja imagem é inspirada na actriz Audrey Hepburn, e por Emily, a sua empregada doméstica que tem as feições de outra actriz famosa, Whoopi Goldberg. 
Mas além da estreia de Julia, este livro assinala também o regresso de Sergio Toppi ao mercado nacional, depois do sublime Sharaz’De, publicado na primeira colecção dedicada à Novela Gráfica.
Sergio Bonelli e Toppi eram bons amigos e o desenhador colaborou por diversas vezes com o editor milanês. Uma colaboração que se iniciou em 1974, quando Bonelli contratou Toppi para este acabar de desenhar um Western que a morte de Rino Albertarelli deixara incompleta. Seguir-se-ia a participação na mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, onde Bonelli conseguiu a proeza de juntar os mais prestigiados nomes dos fumetti italianos, de Hugo Pratt a Milo Manara, passando por Crepax, Buzzelli, Battaglia, e claro, Toppi, que entre 1976 e 1978 ilustrou os volumes, L’Uomo del Nilo, L’Uomo del Messico e L’Uomo del Paludi.
E se os interesses de Toppi estavam algo afastados das grandes séries da Bonelli, a sua amizade com o editor milanês fez com que colaborasse ocasionalmente com a editora da Via Buonarrotti, desenhando histórias para a Ken Parker Magazine, para dois números de Nick Rayder, em 1997 e 2001, uma história curta de Martin Mistère, que poderemos ler no volume 7 desta colecção, e esta história de Giancarlo Berardi para o nº 11 da revista Julia.
Uma história publicada originalmente em Agosto de 1999 e que chega finalmente aos leitores portugueses, numa cuidada edição, cujo formato e qualidade de impressão fazem justiça ao trabalho gráfico de Toppi, por oposição à edição brasileira da Mythos, em formato reduzido e papel de jornal, que passou de forma discreta pelos quiosques portugueses em 2006.
Dave McKean escreveu um dia que Toppi era “capaz de desenhar qualquer coisa e dar-lhe uma solidez e um sentido de movimento que a tornam ideal para contar histórias no formato da Banda Desenhada” e esta história de Julia vem dar-lhe razão. Ilustrando uma história sobre um misterioso assassinato num lar da terceira idade, Toppi segue fielmente o argumento de Berardi e a planificação habitual das séries da Bonelli, sem abdicar do seu estilo próprio, algo que é bem evidente na fabulosa sequência do pesadelo de Julia, que ocupa as páginas 48 a 53 do livro.
Publicado originalmente no jornal Público de 28/04/2018