quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 5 - Preacher Vol 1

NA AMÉRICA, À PROCURA DE DEUS

25 Anos Vertigo - Vol 5
Preacher Vol 1: A Caminho do Texas
Argumento – Garth Ennis
Desenhos – Steve Dillon
Sábado, 15 de Setembro
Por + 13,90 €
A fechar esta pequena colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo, o Público e a Levoir lançam o primeiro volume de Preacher, a popular série de culto de Garth Ennis e Steve Dillon, um dos títulos de maior sucesso da Vertigo, recentemente adaptado para a televisão numa excelente série da AMC, a estação responsável pela série de televisão de The Walking Dead
Autores britânicos que ganharam traquejo na mítica revista 2000AD, Ennis e Dillon fazem parte dos talentos recrutados por Karen Berger a seguir a Alan Moore e a Neil Gaiman e que estão na origem da linha Vertigo, onde a dupla já tinha colaborado na incontornável série Hellblazer – de que Ennis foi um escritores mais importantes – antes de se voltarem a juntar em Preacher. Curiosamente, apesar da quantidade e qualidade do seu trabalho para a Vertigo, a dupla é mais conhecida dos leitores portugueses pela sua participação na série Justiceiro, da Marvel, onde encontramos a mesma irreverência, o mesmo humor delirante e sem concessões e violência exacerbada, que foram decisivos para o sucesso de Preacher.
A personagem central de Preacher é Jesse Custer, (nome que, não por acaso, tem as mesmas iniciais do que o de Jesus Cristo…) um pregador em crise de fé de Annville, uma pequena cidade texana, que é acidentalmente possuído por uma criatura sobrenatural chamada Génesis, fruto do amor proibido entre um anjo e um demónio. O incidente arrasa a igreja de Custer e mata toda a sua congregação, deixando apenas Custer vivo e com um poder que pode rivalizar com o próprio Deus.
Acompanhado por Tulip, a sua antiga namorada de gatilho fácil e por Cassidy, um vampiro irlandês que gosta tanto de álcool como de sangue, Custer inicia uma viagem pelo continente americano em busca de Deus, perseguidos pelo Santo dos Assassinos, o mais implacável executor entre o céu e o Inferno.
Embora seja assumidamente ateu, Garth Ennis é um irlandês com formação católica e isso reflecte-se em Preacher, no sentimento de desilusão perante um Deus que deixou o mundo chegar ao estado em que está. Essa busca de Deus é o pretexto para uma narrativa on the road pelos recantos mais sombrios do sonho americano. Mas tão ou mais importante do que a religião é a mitologia do Western, o único género cinematográfico genuinamente americano e que impregnou o imaginário de Ennis, que declara a propósito: “Acho que uma vez que me afastei das armadilhas de fantasia / horror com as quais eu vinha jogando até então, e entrei no que poderia ser chamado de território do neo-Western - com, portanto, um sentimento especificamente americano – a série Preacher começou a assumir uma vida própria.”
Essa homenagem ao Western é evidente no personagem do Santo dos Assassinos, mas também no cowboy/anjo da guarda com quem Custer conversa e que, embora nunca seja explicitamente identificado como tal, é claramente John Wayne.
Tão importante como o talento de Ennis para construir uma história tão extrema como divertida, é a capacidade de Steve Dillon (falecido de forma inesperada em 2016) em dar vida às personagens, mostrando-se tão à vontade nas expressões faciais - em que é insuperável - como nas violentas cenas de acção. Para um autor com um grande sentido de diálogo, como Ennis, é importante contar com alguém como Dillon capaz de dar vida às personagens, através das expressões faciais, ou de simples gestos.
Quem segue a série televisiva, sabe que ainda muita coisa para acontecer e muitas personagens importantes para introduzir, pois este primeiro volume de Preacher recolhe apenas 7 dos 66 números da série. Mas vale a pena esperar pela continuação e acompanhar Jesse Custer nesta viagem inesquecível pela América profunda.
Publicado originalmente no jornal Público de 08/09/2018

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 4 - Jesus Punk Rock

UM CRISTO PARA O SÉCULO XXI

25 Anos Vertigo - Vol 4
Jesus Punk Rock
Argumento e Desenhos – Sean Gordon Murphy
Sábado, 08 de Setembro
Por + 13,90 €
No seu quarto volume, a Colecção 25 Anos Vertigo dá a descobrir um dos títulos mais controversos dos últimos anos da editora, Jesus Punk Rock (JPR), obra que afirmou o desenhador americano Sean Gordon Murphy como um (grande) autor completo.
Publicada originalmente como uma mini-série a preto e branco em seis partes, entre Setembro de 2012 a Janeiro de 2013, Jesus Punk Rock foi uma aposta pessoal da editora Karen Berger, que conhecia Murphy sobretudo como desenhador das séries American Vampire e The Wake, ambas escritas por Scott Snyder – que os leitores portugueses conhecem graças às histórias que escreveu do Batman – mas não hesitou em deixá-lo escrever o seu próprio trabalho. Como refere o autor: “Karen Berger foi quem realmente me trouxe para a Vertigo, e devo-lhe muito por isso. Os títulos principais são geralmente tratados pelos outros editores, mas quando surge algo novo que desperta o interesse de Karen, acho que ela prefere editar esse título sozinha. No começo, foi stressante estar sob o olhar atento de um editor tão poderoso, mas depois percebi que ter Karen ao meu lado era a minha melhor forma de protecção. Enquanto a Karen estiver feliz, ela lutará por mim. E foi assim que JPR foi aprovado - construímos um relacionamento sólido nos títulos da Vertigo que desenhei e ela decidiu apostar em mim, mesmo que eu não fosse conhecido como escritor.”
 O ponto de partida de JPR é um reality show que tem como protagonista um clone de Jesus Cristo, clonado a partir do ADN encontrado no Sudário de Turim, Os fanáticos religiosos amam ou odeiam o programa, os políticos enfurecidos preocupam-se com a sua influência na nação e os membros da comunidade científica temem as implicações da clonagem de um ser humano, especialmente o Filho de Deus. Quando a queda das audiências força a estação a cortar a mãe de Jesus da série, a jovem estrela foge, renúncia a sua herança religiosa e forma uma banda de punk rock.
Dando novamente a palavra a Murphy: “A ideia de Jesus Punk Rock começou quando li algo anos atrás sobre clonagem. E aí pensei: "quem seria o primeiro clone humano?" E sabendo como muitos americanos são religiosos, a resposta veio instantaneamente: Jesus Cristo. E tendo em conta o sucesso destes programas, era óbvio que um clone de Jesus seria o tema ideal de um reality show. A premissa básica da história chegou até mim num minuto. Gostava que toda a escrita fosse assim tão fácil.”
A ideia de personagens condenados a viver dentro de um reality show não é nova. Basta pensar em filmes como Truman Show, ou BDs como Custer, de Carlos Trillo e Jordi Bernet, mas o desenhador junta-lhe um elemento importante: a religião, aspecto fundamental para alguém de origem irlandesa como Murphy, que foi criado como católico, mas acabou por perder a fé. Um pouco como Thomas McKael, o guarda-costas do clone e ex-militante do IRA, figura que o autor recuperou de um projecto sobre a guerrilha irlandesa e que é a personagem mais fascinante de JPR.
Bem escrito, melhor planificado e espectacularmente ilustrado, num preto e branco dinâmico, valorizado pelo uso de tramas, JPR é também uma reflexão certeira sobre a América actual, com o autor acertar em cheio nas suas previsões: “Sarah Palin (candidata republicana à Vice-Presidência dos E.U.A.) assustou-me em 2007 - fiquei surpreendido como alguém tão ignorante poderia chegar tão perto da presidência. E muitos de seus comentários eram sobre religião, política e meios de comunicação. Então, comecei a abordar minhas preocupações sobre esses três tópicos em Jesus Punk Rock. E eu senti que realmente tinha algo, mas então Obama foi eleito e de repente a necessidade JPR se foi. Eu era uma fã de Obama, mas senti que tinha perdido uma janela de oportunidade em que JPR seria mais relevante.
Mas esta eleição (de Trump) trouxe de volta todas as minhas preocupações antigas, e de repente, a história parece mais relevante do que nunca.”
Publicado originalmente no jornal Público de 01/09/2018

sábado, 1 de setembro de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 3 - 100 Balas Vol. 1

CRIME SEM CASTIGO

25 Anos Vertigo - Vol 3
100 Balas Vol 1: Primeiro Disparo, Última Rodada
Argumento – Brian Azzarello
Desenhos – Eduardo Risso
Sábado, 01 de Setembro
Por + 13,90 €
Depois de ter assinado o argumento de Hellblazer: Na Prisão, o volume inaugural desta colecção, Brian Azzarello regressa à colecção 25 Anos Vertigo com o primeiro capítulo de 100 Balas, a premiada série de culto da Vertigo que chega finalmente a Portugal. Uma série policial Noir, com um toque conspirativo, que parte de uma premissa tão simples como intrigante: O misterioso agente Graves, fisicamente inspirado no actor Lee Marvin, propõe a cidadãos comuns a oportunidade de conseguirem a vingança que tanto desejavam contra quem lhes fez mal... e oferece-lhes uma mala que contém provas da culpabilidade dos alvos, uma pistola e cem balas impossíveis de rastrear, para além da garantia de imunidade total nessa vingança.
Como refere Brian Azzarello numa entrevista, a ideia de 100 Balas nasceu no meio do trânsito: “Eu estava num carro com o meu amigo Sung Koo. Nós estávamos a conduzir e um idiota à nossa frente não estava a seguir as regras de condução, e eu estava a ficar superchateado e acabei por deixar escapar como gostaria de matar o filho da puta. Sung perguntou-me se seria mesmo capaz de o fazer, se realmente pudesse. Claro que eu disse que não, mas depois começamos a conversar mais a fundo sobre o que seria necessário para realmente levar alguém a assassinar outra pessoa. A partir daí tive a ideia desse homem - que acabou por ser o agente Graves - andando por aí, distribuindo sentenças de morte e imunidade para o carrasco. Havia um velho programa de TV chamado O Milionário, onde esse homem misterioso dava um milhão de dólares a um personagem diferente a cada semana, e o episódio concentrava-se em como o dinheiro mudaria a vida dessas pessoas. É a mesma coisa com 100 Balas. Apenas muito mais sombrio. O agente Graves não está a distribuir dinheiro, ele está a distribuir os meios e a imunidade, dando-te carta-branca para te vingares de alguém que te prejudicou seriamente no passado. Então o que é que fazes com isso? É esse o dilema das personagens de 100 Balas.”
Personagens como Isabelle “Dizzy” Cordova, uma jovem hispânica que perdeu o marido e a filha num tiroteio e a quem o Agente Graves oferece a oportunidade de se vingar dos verdadeiros assassinos da sua família, ou Lee Dolan, um empresário que perdeu tudo ao ser acusado de posse e distribuição de pornografia infantil na Internet. E se Dizzy vai ver a sua vida mudada por esta oportunidade, já Dolan vai descobrir à sua própria custa que foi usado como peão de um jogo de poder que envolve Megan Dietrich, uma mulher poderosa, cuja ligação a Graves e a Shepherd, o primeiro dos homens de Graves a entrar em cena, será desenvolvida em futuros volumes.
A dar vida a este universo tão sombrio como sedutor criado por Azzarello, está o artista argentino Eduardo Risso, que os leitores portugueses bem conhecem do livro Batman Noir, entre outros títulos publicados pelo Público e pela Levoir, que aqui dá provas de todo o seu talento narrativo, colocando o seu traço sensual e estilizado ao serviço de um argumento que retrata sem concessões o lado sombrio do sonho americano.
Premiada com seis prémios Harvey e quatro prémios Eisner, 100 Balas é uma obra-prima de ambiguidade moral e violência e uma das séries de maior sucesso da Vertigo. Este primeiro volume, que recolhe as 5 primeiras revistas mensais e uma história curta publicada em 2000 na revista Vertigo Winter’s Edge, é apenas a ponta do icebergue de um complexo thriller de mistério que explora os temas da vingança e que subtilmente se vai transformando numa vasta história de conspiração. Uma história tão complexa como viciante, que se estende (apropriadamente) por 100 números, cuja continuação esperamos poder ler muito brevemente em português. Assim os leitores o queiram.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/08/2018

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 2 - Morte

A MORTE SEGUNDO NEIL GAIMAN

25 Anos Vertigo - Vol 2
Morte
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos – Chris Bachalo, Mark Buckingham e Dave McKean
Sábado, 25 de Agosto
Por + 13,90 €
No seu segundo número, a Colecção 25 Anos Vertigo leva os leitores portugueses de regresso ao universo da série Sandman, através de um dos seus personagens mais emblemáticos. A Morte. Irmã de Morfeu e dos restantes Eternos, Morte é uma jovem rapariga gótica, pálida e simpática, mas implacável, e uma das personagens mais aclamadas e originais do escritor Neil Gaiman. Criada nas páginas da série Sandman, a sua popularidade tornou-a na heroína das suas próprias histórias a solo, a maioria das quais são recolhidas neste volume antológico, que além de duas mini-séries, inclui duas histórias curtas.
A história que abre este volume é O Alto Custo da Vida, a primeira aventura a solo da Morte publicado originalmente como uma mini-série em 1993, sendo, com Enigma, de Pete Milligan, um dos primeiros novos títulos da linha Vertigo. Esta primeira história desenvolve uma lenda abordada na série Sandman, de que, um dia por século, a Morte encarna num ser mortal e desce à Terra para conhecer melhor os mortais para quem ela será a visita final. Um desses mortais é Sexton Furnival, um adolescente deprimido, obcecado com a ideia do suicídio, que vai acompanhar Morte ao longo de vinte e quatro horas, em que se cruzam com outras personagens que os leitores já conheciam da série   Sandman, como a misteriosa Ettie Louca, uma mulher sem-abrigo com 250 anos, que perdeu o seu coração. Uma história de grande sensibilidade e poesia, ilustrada com grande elegância por Chris Bachalo, desenhador que se estreou profissionalmente no nº 12 da série Sandman, mas que só aqui teve oportunidade de desenhar a Morte, dando um toque pessoal à personagem criada visualmente por Mike Dringenberg. A principal diferença é que a Morte de Bachalo (que usou a sua sobrinha como modelo) parece mais nova do que a de Dringenberg, mantendo o mesmo visual gótico, a que Bachalo acrescentou um chapéu. A colaborar com Bachalo na passagem a tinta, está outro veterano colaborador de Gaiman, o inglês Mark Buckingham, com quem Gaiman já tinha trabalhado na série Miracleman.

O grande sucesso de O Alto Custo da Vida, história que esteve muito perto de ser adaptada ao cinema num filme escrito e realizado pelo próprio Gaiman, com produção de Guillermo Del Toro, levou a Vertigo a lançar outra mini-série da Morte com a mesma equipa, Morte: o Melhor Momento da tua Vida, publicada originalmente em 1996. Desta vez, a Morte tem um papel mais de espectadora, numa história sobre relações, centrada em Foxglove e Hazel, um casal de lésbicas que apareceu pela primeira vez em Um Jogo de Ti, um dos episódios da série Sandman, e que estão igualmente presentes, embora de forma mais episódica, em O Alto Custo da Vida. Lidando com a forma como a fama de Foxglove, transformada em  jovem estrela pop, afecta a sua relação com Hazel, esta história mostra como o verdadeiro“milagre da morte” é a beleza da Vida. Devido aos seus compromisso com a Marvel e à demora de Gaiman em entregar o argumento, Bachalo teve de abandonar a séries meio, mas Mark Buckingham, cuja versatilidade estética ficou bem evidente em Miracleman, em que cada história foi Desenhada num estilo diferente, deu perfeitamente conta do recado, mimetizando de forma perfeita o traço de Bachalo, de tal forma que só mesmo os leitores muito atentos se aperceberam da mudança do desenhador.
A completar este volume, temos ainda duas histórias curtas, A Roda, também ilustrada por Bachalo, em que Gaiman presta uma bela e sentida homenagem às vítimas do 11 de Setembro, e A Morte Fala sobre a Vida, uma das raras histórias do universo Sandman desenhada por Dave McKean, o autor das fabulosas capas da série, sobre a importância do uso do preservativo na prevenção do SIDA, que conta com uma participação muito especial de John Constantine.
Um belo regresso ao mundo dos Eternos, as divindades tremendamente humanas criadas por Neil Gaiman, que nos mostra como o universo de Sandman não se esgota nos onze volumes da série principal.
Publicado originalmente no jornal Público de 18/08/2018

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 12 - Novembro

LIVRO EM ESTREIA MUNDIAL DE SEBASTIÀ CABOT 
ENCERRA COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA 
Novela Gráfica IV – Vol. 12
Novembro
Argumento e Desenho – Sebastià Cabot
Quarta-feira, 22 de Agosto
Por + 10,90€
Tal como aconteceu com a Colecção anterior, com Tomeu Pinia, também esta quarta série da Colecção Novela dá a descobrir um novo autor espanhol nos últimos números. Desta vez, o escolhido para encerrar a Colecção foi Sebastià Cabot, autor de BD e ilustrador, nascido e radicado em Palma de Maiorca, que tem nesta colecção a estreia a nível mundial de Novembro, uma Novela Gráfica que estava inédita, incluindo na sua Espanha natal.
Novembro é uma história de amor. Um amor que nasce, floresce e definha, contada de forma não linear, o que é o maior trunfo do livro, dando razão á frase de Orson Welles que abre o Novembro: “ter ou não um final feliz, depende de onde decides terminar a história”.
O protagonista principal de Novembro é Gus, um escritor novato que trabalha numa antiga loja de discos em vinil e tem problemas para estabelecer relacionamentos sérios. Tudo muda quando conhece Clara, um recém-licenciada em artes, que está a tentar assumir o controle de sua vida e parar de dormir no sofá de sua melhor amiga, Lucía, uma viciada em redes sociais, que está constantemente a mudar de namorado.
Em termos gerais, na primeira parte do livro, vemos como Gus e Clara se encontram e acabam  por se  apaixonar. A segunda parte da história é passada três anos depois, quando a sua relação se aproxima do fim. Mas na verdade não é bem assim, pois a história começa realmente num momento já terminal da relação entre Gus e Clara, para de seguida recuar alguns anos, até ao momento em que se conhecem por acaso, e Clara decide alugar um quarto no apartamento de Gus, terminando num momento em que o casal ainda acredita que o amor deles irá durar para sempre.
Novembro é uma história que tenta falar sobre separação, solidão e as dificuldades de comunicação na sociedade contemporânea, onde apesar da tecnologia que possibilita uma comunicação quase imediata, a solidão individual é cada vez maior. O registo quase monocromático usado por Cabot acentua essa dimensão de solidão, numa história contada em tons sépia e cinzentos e em que a única imagem totalmente a cores é a de uma fotografia de uma festa de Halloween, num dos raros momentos em que todos os personagens vivem um momento de felicidade.
Com um trabalho gráfico próximo do esboço, que disfarça bem o uso de referências fotográficas para os cenários e onde é perceptível a influência do italiano Gippi, Cabot, sem deslumbrar, consegue algumas sequências bastante conseguidas do ponto de vista narrativo, com destaque para a sequência muda das páginas 84 a 87, em que Clara e Gus trocam o primeiro beijo enquanto recolhem a roupa estendida.
Para além da música, em especial os temas de música jazz e os clássicos da Broadway, que vão pontuando a narrativa, funcionando como uma banda sonora mental para o leitor, outra referência muito presente em Novembro, é o cinema. Sejam filmes de realizadores como Jacques Tati, ou Woody Allen, ou o musical Top Hat, com Fred Astaire e Ginger Rogers, num bom exemplo de como a Banda Desenhada sabe dialogar com as outras artes.
Publicado originalmente no jornal Público de 18/08/2018

sábado, 18 de agosto de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 1 - Hellblazer: Na Prisão

JOHN CONSTANTINE ABRE COLECÇÃO 
DEDICADA AOS 25 ANOS DA VERTIGO

25 Anos Vertigo - Vol 1
Hellblazer: Na Prisão 
Argumento – Brian Azzarello
Desenhos – Richard Corben
Sábado, 18 de Agosto
Por + 13,90 €
É já no próximo sábado que se inicia a colecção dedicada aos 25 anos da Vertigo, a linha mais adulta e literária da DC Comics, a editora de Batman e Super-Homem, que acolheu títulos tão diversos como Daytripper e V de Vingança, ou as séries Sandman e Y, O Último Homem. E, para abrir a colecção, a escolha óbvia é a série Hellblazer, o título de maior longevidade da Vertigo, com 300 números de publicados mensalmente entre Janeiro de 1988 e Fevereiro de 2013, protagonizado pelo mágico John Constantine.
Constantine surgiu pela primeira vez no número 37 da revista Swamp Thing, pelas mãos de Alan Moore. Moore tinha pegado nesta antiga série da DC e tinha-a relançado com um sucesso que ninguém esperava numa época totalmente dominada pelo comic de super-heróis. Mas Moore só criou Constantine devido à insistência dos desenhadores com que trabalhava em Swamp Thing, John Totleben e Steve Bissete - ambos eram fãs dos Police e apetecia-lhes desenhar uma personagem igual ao Sting.
Moore descreve da seguinte maneira o processo que levou ao surgimento de Constantine: “Tinha um bocado aquela ideia de que em geral os mágicos e místicos eram retratados como tipos de meia-idade ou velhos, muito “classe média”, que falavam bem, austeros, muito correctos e nada funcionais na rua e no dia-a-dia. Pareceu-me interessante dar cabo dos estereótipos todos e criar um mago que fosse mais espertalhão, classe operária, que falasse em calão, sempre a fumar, com um passado totalmente diferente do normal.” A personagem cedo ganhou uma vida própria, devido ao seu carisma muito particular. Quem começou com tudo foi finalmente Neil Gaiman, quando comentou com Moore que Constantine parecia uma personagem boa de mais para que ele a matasse nas páginas de Swamp Thing. Karen Berger, que era na altura a editora da série e viria a assumir a direcção editorial da Vertigo, foi uma das primeiras a ser conquistada pelo carisma de Constantine. Berger disse mais tarde: “Embora não tenha havido assim um momento especial em que tenhamos decidido dar-lhe o seu título regular, desde o início que se tinha tornado claro que ele era uma personagem capaz de ser a estrela de um comic.”

Esse comic foi Hellblazer, que se tornou ponto de passagem obrigatório para os autores britânicos (tanto escritores como desenhadores) a trabalhar no mercado americano, embora no caso da história que preenche este primeiro volume, tanto o argumentista como o desenhador são americanos e o próprio John Constantine troca a sua Inglaterra natal pelo desconforto de uma prisão americana de alta segurança.
Brian Azzzarello, nome bem conhecido dos leitores, foi o primeiro americano a escrever a série, entre 2000 e 2002, levando o mago britânico numa perigosa viagem pela América profunda, que começa com ele na prisão. Uma prisão de alta segurança, habitada pelos piores ladrões e assassinos, que vão descobrir à sua própria custa que não é John Constantine que está preso com eles. Eles é que estão presos com Constantine…
A dar vida a esta história sombria e violenta, está um nome maior dos comics americanos: Richard Corben. Vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 2018, Corben estava à época praticamente afastado da BD, na sequência da falência da sua própria editora, Fantagor, em 1996. O seu trabalho em Na Prisão deu-o a conhecer a uma nova geração de leitores, que descobriu assim o seu estilo único.
Depois de Hellblazer, nas quatro semanas seguintes haverá espaço para o regresso de Neil Gaiman ao universo Sandman, com a Morte, a estreia de Sean Murphy, com Punk Rock Jesus e duas novas séries de culto que irão dar que falar: 100 Balas, o épico policial/conspirativo de Brian Azzarello e Eduardo Risso, e Preacher, a delirante saga de Garth Ennis e Steve Dillon, sobre um pregador texano com poderes especiais, que atravessa os EUA em busca de Deus, na companhia de uma assassina a soldo e de um vampiro irlandês, e que já virou série televisiva de sucesso.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/08/2018

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 11 - O Último Recreio

UM MUNDO SEM ADULTOS

Novela Gráfica IV – Vol. 11
O Último Recreio
Argumento – Carlos Trillo 
Desenhos – Horacio Altuna
Quarta-feira, 15 de Agosto
Por + 10,90€
No seu penúltimo volume, a série IV da Colecção Novela Gráfica acolhe O Último Recreio, um clássico da Banda Desenhada Argentina que, mais de 30 anos apoios a sua publicação original, mantém toda a sua frescura e pertinência. Penúltima colaboração da dupla Carlos Trillo/Horácio Altuna, dois criadores argentinos que tinham começado a trabalhar juntos em 1975, na série El Loco Chavéz, e que aqui atingem o seu ponto mais alto da sua carreira comum.
Nascido em Buenos Aires em 1943, e falecido em Londres em 2011, Trillo é um nome incontornável da BD mundial, não só pelo seu trabalho como argumentista (incontornável, tanto em termos de quantidade como de qualidade,) mas por toda uma vida ligada à BD, como argumentista, historiador e director de revistas.
Embora em Portugal apenas tenha saído uma pequena parcela da sua obra, ela é vastíssima, e incluí colaborações com os maiores desenhadores desse inesgotável filão que é a Argentina: de Alberto e Enrique Breccia, a Altuna e Juan Gimenez, passando por Carlos Meglia, Mandrafina, Eduardo Risso, Juan Bobillo, Lucas Varela e pelos espanhóis Fernando Fernandez e Jordi Bernet. Digno sucessor de Oesterheld, no exigente cargo de melhor argumentista argentino, Trillo conta aqui com um Altuna em verdadeiro estado de graça, bem patente na elegância e sensualidade do seu traço, na expressividade que dá aos rostos das crianças e na eficácia da sua planificação, ao serviço de uma distopia, que reflecte bem a época em que a história foi originalmente publicada, uma década de 80 em que a ameaça de uma guerra nuclear estava bem presente.
Publicado originalmente por capítulos em 1982 e 1983, nas páginas da revista 1984, da Toutain editor, O Último Recreio revela a capacidade de Trillo em se adaptar às necessidades do suporte (neste caso, uma revista mensal) construindo uma história complexa, em treze capítulos fechados, que podem ser lidos de forma separada, mas que formam uma história mais vasta. Algo a que estava bastante habituado, pois tanto na Argentina, como na Europa, a maioria das histórias que publicou, foram concebidas para serem publicadas inicialmente em revistas, sendo a posterior publicação em livro da história completa, um luxo que nem sempre se concretizava (no caso de O Último Recreio, os autores tiveram de esperar mais de seis anos até o editor Josep Toutain decidir lançar a história completa num livro. Livro esse que, ainda por cima, saiu com páginas trocadas...)
A história de O Último Recreio é fácil de resumir: Num mundo pós-apocalíptico, em que foi detonada uma bomba cujos efeitos devastadores atinge apenas aqueles que atingiram a maturidade sexual, os adultos desapareceram e os únicos sobreviventes são as crianças. Nesse ambiente sem outras regras para além das que se possam impor pela força e violência, aos sobreviventes resta apenas escolher se querem ser vítimas, ou executores.
Uma história bastante dura, que evoca o Senhor das Moscas, de William Golding, pela forma como as crianças são obrigadas a se comportar como adultos, mas que revela grande humanismo e sensibilidade na forma como trata um tema tão delicado, e que até termina com um final aberto, que deixa margem ao leitor para alguma esperança. Algo que está ausente em outros clássicos pós-apocalípticos da época, como Hombre, de Segura e Ortiz e Kraken, de Segura e Bernet.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/08/2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Apresentação da Colecção 25 Anos Vertigo

VERTIGO, 25 ANOS DE GRANDES HISTÓRIAS

Há efemérides que não podem deixar de ser comemoradas e esta colecção, motivada pelos vinte cinco anos de início de publicação da linha Vertigo, em 1993, reflecte isso mesmo. Embora a linha Vertigo não seja desconhecida dos leitores portugueses, pois a Levoir e o Público tem vindo a apresentar paulatinamente alguns títulos emblemáticos dessa linha, como V de Vingança, Daytripper, Luna Park, Batman uma história verdadeira ou Livros da Magia, nas várias séries da colecção Novela Gráfica desde 2015, para além da edição das séries Sandman e Y, o Último Homem (esta última ainda em curso de publicação), esta colecção vai permitir conhecer um pouco mais daquele verdadeiro viveiro de talento e criatividade que mudou a face da banda desenhada americana das últimas décadas.
As fundações daquilo que viria a ser a Vertigo foram lançadas originalmente no final dos anos 1980 por uma editora cujo nome ficou ligado aos destinos do selo editorial, Karen Berger. Berger tinha começado a trabalhar na DC em títulos ligados ao universo de super-heróis, e começou a contratar um conjunto de escritores britânicos, que se tinham formado em revistas como a Warrior ou a 2000AD, e que se viriam a transformar na célebre “invasão britânica” dos comics americanos. Autores como Alan Moore, Neil Gaiman, Jamie Delano, Peter Milligan, ou Grant Morrison, responsáveis por séries que não pertenciam ao género super-heróico. Títulos como Swamp Thing, Animal Man, Doom Patrol, ou Black Orchid, que assinalou a estreia de Neil Gaiman e Dave McKean na DC, e o lançamento de séries novas, igualmente do género fantástico e de terror, como Sandman, Os Livros da Magia ou o seminal Hellblazer.
Criado por Alan Moore nas páginas do #37 da revista Swamp Thing, satisfazendo assim a vontade do desenhador da série, Stephen Bissette, que queria desenhar o músico Sting, John Constantine acabaria por se tornar na figura tutelar do universo de magia da DC, reunido na linha Vertigo. Depois de servir de guia ao Monstro do Pântano numa memorável viagem pelo lado negro dos EUA, Constantine rapidamente ganhou uma série própria, Hellblazer que, com 300 números publicados, foi o título de mais longa duração da Vertigo e principal porta de entrada para os autores britânicos que trabalharam na Vertigo. Escritores britânicos que, como Berger declarou naquela “tinham uma sensibilidade, uma perspectiva, que eram refrescantemente diferentes da dos seus congéneres americanos, mais experimental e inteligente”.
Mesmo que Alan Moore considerasse a Vertigo como a mera exploração de uma receita de sucesso e uma tentativa de criar clones seus (o escritor declarou numa entrevista que, com a Vertigo, “A DC tinha tentado criar um viveiro de Alan Moores, mas o problema é que toda a gente sabe que os Alan Moores não crescem em viveiros…”) a verdade é que todos estes autores oriundos das ilhas britânicas contribuíram, e muito, para a renovação dos comics americanos, sobretudo porque, para além da solidez narrativa e da imaginação patentes nos seus trabalhos, incorporam nas histórias que escrevem uma série de referência (normalmente literárias) exteriores ao mundo dos comics de super-heróis, que dão uma outra consistência e profundidade a um universo que sempre se manteve fechado sobre si próprio e que, por isso, caminhava para o esgotamento.
Correspondendo à incumbência atribuída a Berger de lançar um selo que reunisse sob a sua alçada essas séries mais sofisticadas e adultas, em Janeiro de 1993 saíam os primeiros comics com o selo da Vertigo e, embora as suas primeiras histórias incluíssem ainda personagens tiradas do universo de super-heróis da DC, cedo os títulos do novo selo se tornaram completamente independentes. As séries citadas mais acima transitaram para a nova linha, e passaram a ser editadas como séries Vertigo, mas rapidamente foram seguidas por títulos originais. As primeiras duas séries Vertigo puras foram Enigma de Peter Milligan, e a mini-série Morte: O Alto Custo da Vida, de Neil Gaiman, pertencente ao universo Sandman.
Naturalmente, essa história da Morte, a irmã de Morfeu dos Eternos, juntamente com mais histórias da personagem, está incluída nesta colecção, tal como está a série Hellblazer e o primeiro volume da série Preacher, assinado por dois autores britânicos, que já tinham colaborado anteriormente em Hellblazer.


Mas, como esta colecção bem demonstra, apesar da importância de criadores de origem britânica como Neil Gaiman, ou Garth Ennis, a Vertigo soube diversificar o seu catálogo deixando de se dedicar exclusivamente ao género fantástico, abrindo espaço a outros registos, algo bem evidente nos títulos desta linha editorial que foram saindo na colecção Novela Gráfica. Uma diversidade também geográfica, pois se a maioria dos autores – tanto argumentistas como desenhadores – da série Hellblazer provinham do Reino Unido, Na Prisão, a história de John Constantine que abre esta colecção é assinada por dois americanos, tal como é americano Sean Gordon Murphy, o autor de Punk Rock Jesus. Do mesmo modo, a série 100 Balas reúne um desenhador argentino com um escritor americano. Um bom exemplo da dimensão global da banda desenhada contemporânea, para a qual o contributo da linha Vertigo foi essencial.

REGRESSOS E ESTREIAS

Esta nova colecção Público/Levoir, comemorativa dos vinte e cinco anos da linha Vertigo, o selo de culto da editora DC Comics, está marcada por regressos e estreias. Regressos de autores e personagens, e estreias de títulos e séries de culto que o leitor português vai descobrir e poderá acompanhar a partir daqui.
A abrir a colecção temos um regresso, o de John Constantine, o mais emblemático personagem da Vertigo que, depois de ter sido apresentado aos leitores dos títulos da Levoir no primeiro volume da série Sandman e na novela gráfica Livros de Magia, ambas escritas por Neil Gaiman, regressa agora como protagonista da sua própria série. Hellblazer, que foi o título de maior duração da linha Vertigo, terminou ao fim de 300 números, para dar lugar a uma nova revista, Constantine, integrada no universo DC Novos 52, como de resto aconteceu com Animal Man e Swamp Thing, outros títulos originais da DC que tinham passado para a Vertigo em 1993.
Sendo a estreia de Hellblazer na Levoir, Na Prisão não é a estreia da série em Portugal, pois a Devir, em 2005, aproveitando a estreia em Portugal do filme Constantine, editou a adaptação oficial do filme, Todo o Seu Engenho, uma novela gráfica original de Mike Carey e Leonardo Manco e Nas Ruas de Londres, uma colectânea com algumas das melhores histórias da série. Do mesmo modo, sendo Na Prisão a primeira colaboração entre Azzarello e Corben e a primeira história de Constantine escrita por um autor americano, não é, nem de longe, a estreia do escritor em Portugal, pois o trabalho de Azzarello com os principais heróis (e vilões) da DC está todo publicado pela Levoir, tal como de resto Banner e Cage, as posteriores colaborações entre Corben e Azzarello para a Marvel - para onde foram levados pelo editor Axel Alonso, quando este trocou a Vertigo pela “Casa das Ideias” - que foram editadas no nosso país respectivamente pela Devir e G Floy.
Isso não impede que o trabalho de Corben, um veterano da BD com 77 anos, que foi um pioneiro do comic underground e da novela gráfica, o primeiro americano a publicar na revista Metal Hurlant – onde Moebius o comparou a Mozart - e um mestre da BD de terror, seja através da sua colaboração na série Hellboy, de Mike Mignola, seja nas adaptações de contos de H. P. Lovecraft e Edgar Alan Poe, com uma obra tão vasta como única, que lhe valeu merecidamente o Grande Prémio de Angoulême em 2018, não esteja devidamente publicado em Portugal. Uma lacuna que esta colecção vem ajudar a suprir.
Outro regresso nesta colecção é o de Neil Gaiman ao universo da série Sandman, com um punhado de histórias protagonizadas pela Morte, a irmã de Morfeu, que aqui volta a caminhar por entre os homens. Exemplo perfeito de que o universo de Sandman não se esgota nos 11 volumes da série principal, Morte é também um bom exemplo da qualidade literária e da sensibilidade de Gaiman, aqui em perfeita sintonia artística com o desenhador Chris Bachalo.
Embora os seus autores, Brian Azzarello e Eduardo Risso, sejam bem conhecidos dos leitores nacionais e dispensem apresentações, o terceiro volume desta colecção é uma estreia, e que estreia! Primeiro volume da série de culto 100 Balas, Primeiro Disparo, Última Rodada, é uma óptima porta de entrada na realidade sombria e sedutora criada por Azarello e Risso, naquela que é considerada uma das melhores séries de sempre da Vertigo e que o escritor e cineasta Paul Dini (Batman: Uma História Verdadeira) definiu como “uma obra-prima de caracterização psicológica brilhante e desenhos fabulosos”.
A colecção prossegue com outra estreia. A do ilustrador Sean Gordon Murphy, com Punk Rock Jesus, uma mini-série em seis partes, ilustrada num preto e branco luminoso, bem complementado por um meticuloso trabalho de tramas, sobre politica, religião e televisão. Ilustrador consagrado, habituado a trabalhar com grandes escritores, como Grant Morrison, Scott Snyder e Mark Millar, Sean Murphy mostra aqui que também é um excelente argumentista.
Finalmente, a colecção encerra com o primeiro volume de outra série. Falamos de Preacher, a mais popular colaboração entre Garth Ennis e o recentemente falecido Steve Dillon, dupla que já tinha colaborado em Hellblazer e que aqui voltou a reunir forças naquela que é uma das mais populares, divertidas, delirantes e politicamente incorrectas séries do catálogo da Vertigo.
Homenagem de dois europeus ao Western e ao sonho americano, com uma violência tão exagerada que chega a ser divertida e uma sábia alternância entre momentos assustadores, delirantes e comoventes, Preacher, que o realizador Kevin Smith considera “mais divertido do que ir ao cinema”, é exemplo perfeito de uma série de culto, que não deixa nenhum leitor indiferente. Mais um entre os inúmeros exemplos da riqueza e versatilidade do catálogo da Vertigo, que o Público e a Levoir têm vindo a divulgar de forma consistente, e que não se esgota, longe disso, nos cinco volumes desta colecção.

SABIA QUE?

- Para além de ter protagonizado o título de maior duração da linha, John Constantine é sem dúvida o personagem da Vertigo com maior presença audiovisual. Além de ter protagonizado um filme com Keanu Reeves, uma série de televisão em nome próprio e uma longa-metragem de animação, Constantine teve ainda participações especiais nas séries Arrow e DC’s Legends of Tomorrow.

- Neil Gaiman escreveu o argumento para um filme baseado na história Morte: O Alto Custo da Vida, pelo “preço de um carro utilitário”, com a condição que a Warner o deixasse realizar esse mesmo filme, mas a verdade é que, após mais de 10 anos de avanço e recuos, o filme acabou por nunca ser feito.

- Para além dos onze volumes já publicados pelo Publico e pela Levoir e de diversos especiais, como o da Morte, a série Sandman, de Neil Gaiman deu origem a diversas séries da Vertigo, como Lucifer e The Dreaming e, para comemorar os trinta anos de Sandman e os 25 anos da Vertigo vai ser lançado este mês de Agosto a linha The Sandman Universe que, para além de um número especial, inclui o relançamento de quatro revistas mensais: House of Whispers, The Books of Magic, The Dreaming e Lucifer.

- Tom King, o actual escritor do Batman e um dos mais prestigiados argumentistas da actualidade, antes de se dedicar à escrita, trabalhou para os serviços secretos americanos. A sua experiência no Iraque durante a Guerra do Golfo está na origem de O Xerife da Babilónia, a sua estreia na BD, publicada pela Vertigo.

- Constantine não foi o único filme baseado num título da Vertigo. Também Um História de Violência (de David Cronenberg) e V de Vingança (produzido pelas irmãs Wachowski) adaptam obras pertencentes ao catálogo da Vertigo, o mesmo sucedendo com o filme Loosers, de 2010, baseado na série criada por Andy Diggle e Jock e Stardust: O Mistério da Estrela Cadente, de Matthew Vaughn, a partir do romance ilustrado de Neil Gaiman e Charles Vess. Um caso um pouco diferente é o de The Fountain, uma novela gráfica do director Darren Aronofsky, ilustrada por Kent Williams, que saiu antes do filme do mesmo nome e serviu para Aronofsky divulgar o seu projecto junto dos grandes estúdios de Hollywood.

- Se a série televisiva de John Constantine apenas durou uma temporada, há outras séries baseadas em títulos da Vertigo actualmente em exibição, como IZombie, Lucifer e Preacher, estando também em diferentes estados de desenvolvimento projectos para adaptações televisivas das séries Y, O Último Homem e Scalped 


- Axel Alonso, que foi editor da Marvel durante quase vinte anos e editor-chefe entre 2011 e 2017, começou o seu percurso editorial na Vertigo, onde editou a fase final da série Preacher, a fase inicial da série 100 Balas e a etapa de Brian Azzarello na série Hellblazer, só para referir os títulos presentes nesta colecção.

A COLECÇÃO

1 – Hellblazer: Na Prisão
18 de Agosto
Argumento – Brian Azzarello 
Desenhos – Richard Corben
John Constantine é uma das mais conhecidas personagens da DC, que já inspirou filmes e séries de TV, e é o protagonista de Hellblazer, a mais longa série de banda desenhada da Vertigo, Ao longo de mais de duas décadas e 300 números, Constantine tornou-se no arquétipo do mágico urbano moderno, do detective do oculto com um toque punk, que não hesita em mergulhar no terror e no caos, e que inspirou o nascimento de uma verdadeira tendência da fantasia contemporânea.
Em Na Prisão, Constantine, que tinha trocado as ruas sombrias de Londres pelos grandes espaços americanos, perdeu a liberdade e está encarcerado numa prisão de alta segurança, onde terá de aprender todo um conjunto de novas regras para poder sobreviver. Nada a que um feiticeiro moderno, habituado a fazer as suas próprias regras não esteja já habituado, mas ninguém poderia prever o final desta luta épica pelo poder numa penitenciária. Escrita por Brian Azzarello, um dos mais conhecidos escritores americanos de BD e um dos nomes maiores da Vertigo, Na Prisão conta com a arte do mestre Richard Corben, vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 2018.

2 – Morte
25 de Agosto
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos –Chris Bachalo, Mark Buckingham e Dave McKean
Irmã de Morfeu e dos restantes Eternos, Morte é uma jovem rapariga gótica, pálida e simpática, mas implacável, e uma das personagens mais aclamadas e originais do escritor Neil Gaiman. Criada nas páginas da série Sandman, a sua popularidade tornou-a na heroína das suas próprias histórias a solo, a maioria das quais são recolhidas neste volume.
Um dia por século, a Morte desce à Terra para conhecer melhor os mortais para quem ela será a visita final. Em duas histórias emotivas e inteligentes, descobriremos uma mulher com 250 anos que perdeu o seu coração, um adolescente deprimido, uma jovem estrela dilacerada, e o verdadeiro “milagre da morte”, o da beleza da vida. A completar este volume, temos ainda duas histórias curtas, A Roda, também ilustrada por Bachalo, em que Gaiman presta uma bela e sentida homenagem às vítimas do 11 de Setembro, e A Morte Fala sobre a Vida, uma das raras histórias do universo Sandman desenhada por Dave McKean, o autor das fabulosas capas da série, sobre a importância do uso do preservativo na prevenção do SIDA, que conta com uma participação muito especial de John Constantine.

3 – 100 Balas vol 1: Primeiro Disparo, Última Rodada
01 de Setembro
Argumento – Brian Azzarello
Desenhos – Eduardo Risso
O misterioso agente Graves propõe a cidadãos normais a oportunidade de conseguirem a vingança que tanto desejavam contra quem lhes fez mal... e oferece-lhes uma mala que contém provas da culpabilidade dos alvos, uma pistola e cem balas impossíveis de rastrear, para além da garantia de imunidade total nessa vingança! Mas qual é o preço final da vingança e qual será o verdadeiro motivo por trás da iniciativa justiceira de Graves?
O escritor Brian Azzarello e o artista Eduardo Risso, que os leitores portugueses bem conhecem do livro Batman Noir, entre outros títulos publicados pelo Público e pela Levoir, assinam com 100 Balas, um complexo thriller de mistério que explora os temas da vingança e que subtilmente se vai transformando numa vasta história de conspiração. Premiada com seis prémios Harvey e quatro prémios Eisner, 100 Balas é uma obra-prima de ambiguidade moral e violência e uma das séries de maior sucesso da Vertigo.

4 – Punk Rock Jesus
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Sean Gordon Murphy
Um reality show que causa o caos nos EUA, tem como protagonista um clone de Jesus Cristo, clonado a partir do ADN encontrado no Santo Sudário de Turim, Os fanáticos religiosos amam ou odeiam o programa, os políticos enfurecidos preocupam-se com a sua influência na nação e os membros da comunidade científica temem as implicações da clonagem de um ser humano, especialmente o Filho de Deus. Thomas McKael é o guarda-costas dos clones e ex-agente do IRA que é contratado para proteger o novo Jesus - um bebé que cativa o mundo, mas cresce e torna-se um adolescente raivoso. Quando a queda das audiências forçam a estação a cortar a mãe de Jesus da série, a jovem estrela foge, renúncia a sua herança religiosa e forma uma banda de punk rock.
Publicada originalmente como uma mini-série em seis partes, entre Setembro de 2012 a Janeiro de 2013, Punk Rock Jesus foi o primeiro trabalho como autor completo para uma grande editora, do desenhador americano Sean Gordon Murphy.


5 – Preacher Vol 1: A Caminho do Texas
15 de Setembro
Argumento – Garth Ennis
Desenho – Steve Dillon
Jesse Custer, o pregador em crise de fé de Annville, uma pequena cidade texana, é acidentalmente possuído por uma criatura sobrenatural chamada Génesis, fruto do amor proibido entre um anjo e um demónio. O incidente arrasa a igreja de Custer e mata toda a sua congregação, deixando apenas Custer vivo e com um poder que pode rivalizar com o próprio Deus, fazendo de Jesse Custer, ligado a Génesis, potencialmente o ser mais poderoso do universo.
Acompanhado por Tulip, a sua antiga namorada de gatilho fácil e por Cassidy, um vampiro irlandês que gosta tanto de álcool como de sangue, Custer inicia uma viagem pelo continente americano em busca de Deus, perseguidos pelo Santo dos Assassinos, o mais implacável executor entre o céu e o Inferno.
Criada pelo escritor irlandês Garth Ennis e pelo desenhador inglês Steve Dillon, Preacher foi um dos títulos de maior sucesso da Vertigo, recentemente adaptado para a televisão, numa série da AMC, a estação responsável pela série de televisão de The Walking Dead.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/08/2018

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Colecção Novela Gráfica 10 - O Jogador de Xadrez

O JOGO DA VIDA, DE STEFAN ZWEIG A DAVID SALA

Novela Gráfica IV – Vol. 10
O Jogador de Xadrez
Argumento – David Sala (a partir do romance de Stefan Zweig)
Desenhos – David Sala
Quarta-feira, 08 de Agosto
Por + 10,90€
Se quiséssemos encontrar um subtítulo para esta quarta série da Colecção Novela Gráfica, que se está a aproximar do fim, “Clássicos ilustrados” poderia ser esse subtítulo. Não só pela presença de verdadeiros clássicos incontornáveis da Nona Arte, como Aqui Mesmo, de Tardi e Forest e O Último Recreio, de Altuna e Trillo, mas sobretudo pela adaptação à arte sequencial de clássicos da literatura como Tatuagem, de Manuel Vazquéz Montalbán e, no volume que chega aos quiosques na próxima semana, O Jogador (a Novela do Xadrez, no original), de Stefan Zweig.
Nascido em Viena, Áustria, numa família judaica, Zweig foi um dos mais importantes escritores da segunda metade do século XX, tendo abandonado a sua Áustria natal em 1934, aquando da ascensão de Hitler ao poder, iniciando um exílio que o levou a Inglaterra, Estados Unidos e Brasil, onde se suicidou, juntamente com a sua mulher, em 1942, perante a perspectiva (que chegou a estar em cima da mesa) de a Alemanha invadir o Brasil. Último texto escrito por Stefan Zweig antes de se suicidar, o Jogador de Xadrez é uma denúncia esmagadora e desesperada da barbárie nazi, através da experiência de B, um aristocrata vienense cujo incrível domínio do jogo nasceu do isolamento forçado, durante o domínio nazi. A história de B é contada ao anónimo narrador, que descobre nos tranquilos salões de um paquete em viagem para a Argentina, um homem que, apesar de garantir que já não pegava numa peça de xadrez há mais de 25 anos, se revela um jogador exímio, capaz de derrotar até o campeão do mundo, que viaja nesse mesmo paquete. Levando à letra a designação atribuída ao xadrez, de “o grande jogo”, Zweig transforma-o no seu romance no “jogo da vida” através da experiência de B. que através do xadrez se consegue evadir do espaço fechado do seu quarto de hotel transformado em prisão (sobretudo mental).
É essa obra de grande densidade psicológica, que o desenhador francês David Sala adapta numa versão que a revista L’Express classificou, com toda a propriedade, como “sumptuosa”. Nascido em Décines, perto de Lyon, em 1973, David Sala não é estranho às adaptações à BD de obras literárias, pois com a colaboração de Jorge Zentner – com quem assinou também Replay, o seu único trabalho publicado em Portugal até à data - publicou a serie Nicolás Eymerich, Inquisidor, uma adaptação de uma novela de Valerio Evangelisti. Desta vez é o próprio Sala que se encarrega de todas as fases da adaptação, com excelentes resultados, tanto narrativos como gráficos. Abandonando as corres luminosas e o registo impressionista de outros trabalhos, Sala faz aqui uma aproximação à obra de Gustav Klimt e aos pintores da escola de Viena, o que faz todo o sentido, não só em termos simbólicos, como históricos, pois eles foram contemporâneos de Zweig e a sua arte simboliza a época em que decorre a acção.
Optando por uma paleta de aguarela pouco óbvia, onde dominam o verde água, e o roxo e explorando, na melhor tradição klimtiana, os padrões luxuosos dos tecidos, David Sala constrói páginas de uma beleza deslumbrante. Páginas que, cumprindo com brilhantismo a sua função estética, são também extraordinárias em termos narrativos, jogando com o leitmotiv do tabuleiro de xadrez, repetido nos ladrilhos do chão, ou dos próprios quadrados que dividem a página.
A forma como a crescente perturbação de B. é transmitida graficamente, também é reveladora do talento narrativo de David Sala, que além de um talentoso desenhador e um extraordinário aguarelista, mostra ser também um fabuloso narrador.
Para além de ser o mais belo livro desta colecção, O Jogador de Xadrez é também um exemplo perfeito de como pode ser produtivo o diálogo entre a Banda Desenhada e a literatura. 
Publicado originalmente no jornal Público de 04/08/2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 9 - Gente de Dublin


A VIDA DE JAMES JOYCE SEGUNDO ALFONSO ZAPICO

Novela Gráfica IV – Vol. 9
Gente de Dublin
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Quarta-feira, 01 de Agosto
Por + 10,90€
Depois de Tatuagem, livro que adapta um romance de Manuel Vazquéz Montalbán e antes de O Jogador de Xadrez, obra que adapta o romance homónimo de Stefan Sweig, a Colecção Novela Gráfica volta a explorar as ligações entre a Banda Desenhada e a literatura, com Gente de Dublin, de Alfonso Zapico, o nono volume desta quarta série, que chega aos quiosques no próximo dia 01 de Agosto.
Ao contrário do que o nome parece indicar, não estamos perante uma adaptação do primeiro grande livro de James Joyce, Dubliners, uma recolha de contos ambientados em Dublin, que em português recebeu precisamente o título de Gente de Dublin, mas sim de uma biografia em BD do famoso escritor irlandês. Joyce, que nasceu em Dublin em 1882 e aí viveu até aos 22 anos, acabaria por abandonar a capital irlandesa para lá voltar apenas por duas vezes, e de forma relativamente breve, em 1909 e 1912, ano em que, com 30 anos, partiu definitivamente para nunca mais voltar. Embora tenha vivido em Trieste, Paris e Zurique, o escritor nunca abandonou sentimentalmente a Irlanda, que está bem presente na sua obra, muitas vezes da mesma forma nada benevolente como apreciava a obra dos escritores seus conterrâneos.
Se, por vezes, as biografias de personagens famosas acabam por cair um pouco na hagiografia, criando uma versão idealizada do biografado, essa acusação não pode ser feita a Alfonso Zapico. Bem pelo contrário… Separando perfeitamente o homem da obra, mesmo tendo consciência que as circunstâncias da vida de um homem acabam sempre por influenciar, mesmo que inconscientemente, essa obra, Zapico acaba por nos revelar James Joyce, o homem, tal como ele era: um indivíduo arrogante, com problemas sérios de alcoolismo, que se aproveitava dos amigos e da mulher que o acompanhou durante toda a sua vida, Nora Barnacle. O que o não impediu de (ou até talvez tenha contribuído para) escrever uma obra que é absolutamente seminal na literatura do século XX.
Alfonso Zapico, o autor deste trabalho monumental, que lhe valeu o Premio Nacional del Cómic em 2012, embora nascido nas Astúrias em 1981, é mais herdeiro da tradição clássica da BD franco-belga, do que da Novela Gráfica espanhola. A sua estreia profissional na BD deu-se em 2006, com La guerre du professeur Bertenev, publicado pelas Editions Paquet, e Gente de Dublin foi escrito e desenhado entre 2008 e 2011, graças a uma bolsa de criação que lhe permitiu residir durante um ano na Maison des Auteurs, em Angoulême, localidade que acolhe o mais famoso Festival europeu de BD. Muito bem documentado, com Zapico a efectuar um árduo trabalho de pesquisa e documentação por Dublin, Trieste, Paris e Zurique - as quatro cidades mais importantes na vida de Joyce – que deu origem a outro livro, La Ruta Joyce, caderno de viagem do processo criativo de Zapico, Gente de Dublin alia um extremo rigor e minúcia no tratamento dos cenários e na reconstituição histórica, a um tratamento semi-caricatural das personagens, que facilita a adesão do leitor, habituado desde sempre a este registo gráfico, a entrar na vida e obra de James Joyce.
Para além de ser uma excelente biografia, Gente de Dublin faz uma perfeita fusão entre a tradição franco-belga de autores como Franquin, ou Maurice Tillieux e a modernidade da Novela Gráfica espanhola.
Publicado originalmente no jornal Público de 28/07/2018

domingo, 29 de julho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 8 - Tatuagem


PEPE CARVALHO, DA LITERATURA 
PARA A NOVELA GRÁFICA

Novela Gráfica IV – Vol. 8
Tatuagem
Argumento – Hernán Migoya (a partir do romance de Manuel Vázquez Montalbán)
Desenho – Bartolomé Segui
Quarta-feira, 25 de Julho
Por + 10,90€
Depois de Sharaz’ De, a peculiar adaptação que Sérgio Toppi fez das Mil e Uma Noites, na primeira coleção e de O Idiota, de Dostoievski, na radical interpretação, quase sem palavras, de André Diniz, na anterior série, a colecção Novela Gráfica abre as portas na próxima quarta-feira a mais uma adaptação à Banda Desenhada de um texto literário. Neste caso, o romance Tatuagem de Manuel Vázquez Montalbán, adaptado por Hernán Migoya e ilustrado por Bartolomé Seguí, o desenhador de Histórias do Bairro, um dos melhores livros da colecção anterior.
Publicado originalmente em Espanha em 1974, Tatuagem é a primeira aventura do detective Pepe Carvalho, personagem criada por Montalbán dois anos antes, em Yo maté a Kennedy, romance em que Carvalho ainda não tinha abandonado a C.I.A. para se estabelecer como detective privado em Barcelona. Partindo dos clichés do romance noir americano para o transcender, Montalbán criou uma personagem muito peculiar com Pepe Carvalho, o detective de origem galega, que no passado esteve ligado tanto à C.I.A. como ao Partido Comunista espanhol e que se revela um intelectual desencantado - que aos poucos vai queimando, livro a livro, a sua recheada biblioteca - e um verdadeiro amante da gastronomia, um dos aspectos que, para além da militância no Partido Comunista, mais o aproxima do seu criador. Tendo-se tornado muito rapidamente um dos mais populares personagens do romance policial europeu, Carvalho protagonizou, entre 1972 e 2004, dezoito romances, trinta contos, uma peça de teatro e onze livros de cozinha, para além de três séries de televisão e de quatro longas-metragens.
Só faltava a Pepe Carvalho uma adaptação à Banda Desenhada, o que acabou por acontecer em 2018, por iniciativa da editora Norma, que promoveu o encontro entre o escritor Hernán Migoya e Daniel Vázquez Sallés, o filho de Montalbán. Migoya, que foi editor da mítica revista El Vibora, escolheu para seu cúmplice nesta aventura gráfica o desdenhador Bartolomé Seguí, que aqui mostra a sua versatilidade optando por um estilo gráfico mais realista, distinto do usado em Histórias de Bairro, e também por uma paleta de cores distinta, discreta e ligeiramente sombria, que se adequa perfeitamente ao tom desta história, onde não há inocentes.
Outro dos desafios que se deparavam a Seguí, foi dar um rosto definitivo ao detective, que tendo tido diferentes caras no cinema e na televisão, tem finalmente um rosto mais próximo do imaginado por Montalbán, o do actor Ben Gazzara, que nunca interpretou o papel de Carvalho no cinema. Ou, como refere Migoya no dossier gráfico que encerra o livro: “assim, cumprimos à nossa maneira um desejo do mestre Montalbán.”
Como em qualquer história policial que se preze, tudo começa com um assassinato misterioso. No caso de Tatuagem, o que espoleta a acção é o cadáver de um homem novo, com a cara comida pelos peixes e uma tatuagem na omoplata com a frase “Nasci para revolucionar o inferno”, que aparece numa praia de Barcelona e cuja identidade Carvalho é contratado para descobrir. Um inquérito que o vai levar das ramblas de Barcelona aos canais de Amsterdão, para desvendar a identidade do misterioso homem. Mas, como geralmente acontece no romance noir, de Chandler a Hammet, de Spilanne a Montalbán, bem mais importante do que a descoberta do criminoso, ou do desvendar do mistério, é todo o percurso percorrido pelas personagens e as suas reflexões. Ou por outras palavras, mais importante do que chegar ao destino, é apreciar a viagem. O que é fácil quando temos Pepe Carvalho como companhia.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/07/2018