domingo, 17 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 12 - Os Trilhos do Acaso 1

PACO ROCA E A HISTÓRIA DE “LA NUEVE”

Novela Gráfica III – Vol. 12
Os Trilhos do Acaso – Parte 1
15 de Setembro
Argumento e Desenho – Paco Roca
Por + 9,99€
Depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, Paco Roca regressa ao convívio dos leitores portugueses com Os Trilhos do Acaso, obra que ocupará os volumes 12 e 13 desta terceira série da colecção Novela Gráfica. Obra monumental e de grande fôlego, o que implicou a sua divisão em dois volumes por questões editoriais, Os Trilhos do Acaso reconstrói a história de La Nueve, a companhia militar francesa integrada na segunda divisão do General Leclerc, que, sob o comando do Capitão Dronne foi a primeira a entrar em Paris, no final da II Guerra Mundial. Uma companhia que tinha a particularidade de ser formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco, cuja história vamos descobrir através das recordações de Miguel Ruiz Campos, antigo combatente exilado em França, que Paco Roca entrevista.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, que Paco Roca conta com mestria, usando como protagonista, “um personagem verdadeiro, mas inventado”. Mas deixemos que seja o próprio Paco Roca a explicar melhor quem foi Miguel Ruiz: “Queria que fosse um soldado real porque as movimentações da maioria deles estão bem documentadas e não funcionava tão bem inventar um soldado. Estive indeciso entre vários. Um deles, que talvez tivesse sido o mais lógico, era Amado Granell, o tenente de La Nueve, mas morreu num acidente de carro nos anos setenta. A outra opção era cingir-me aos três que estavam vivos. Mas em primeiro lugar, esses três já tinham contado muitas vezes a sua vida; em segundo lugar, nenhum dos três esteve na libertação de Paris, e em terceiro lugar, custava-me muito cingir-me a uma pessoa que estivesse viva.
Ainda assim, descobri que um dos integrantes de La Nueve, Miguel Campos, era um tipo muito enigmático. Quase todo o que sabemos de La Nueve vem dos diários de campo do Capitão da companhia, Raymond Dronne, que na década de setenta os reescreveu e publicou. Ele fala de todos os espanhóis, sobretudo dos oficiais, e do resto não diz nada. E aquele de quem mais fala é de Miguel Campos, dizendo que, ainda que não fosse um militar de carreira — como todos os espanhóis, que estavam ali porque foram apanhados no meio da Guerra Civil e estavam ali metidos sem serem militares— tinha uma grande visão militar da estratégia, autoridade de comando, era muito valente e era capaz de infiltrar-se nas linhas inimigas para operações de sabotagem. Dedica-lhe bastantes páginas. E o melhor é que teve um final de vida muito misterioso e novelesco, porque desapareceu numa missão depois da libertação de Paris. Para alguns morreu ali, mas como não se encontrou o seu corpo, especulou-se muito sobre o que lhe teria acontecido. Especulou-se muito, mas como muitos espanhóis tinham nomes falsos — mudaram-nos porque tinham desertado da Legião Estrangeira ou tinham medo de que se fossem capturados afectasse as suas famílias— era impossível seguir o rastro de Miguel Campos. Pareceu-me um bom personagem novelesco e usei-o como protagonista para a minha história.”
Uma história que é contada a dois tempos, entre a actualidade e as décadas de 30 e 40, com as conversas entre o autor e Miguel Ruiz a preto e branco e as recordações do antigo combatente a cores, numa curiosa inversão do esquema tradicionalmente usado para os flashbacks. História, que neste primeiro volume, inclui a evacuação do porto de Alicante; a morte do poeta António Machado, autor do poema de onde Paco Roca tirou o título do seu livro; a passagem por um campo de trabalho; o exílio no norte de África; o alistamento no exército francês e o treino de guerra. Já para acompanhar o regresso à Europa de Miguel Ruiz e dos seus companheiros de La Nueve, o leitor terá de esperar até dia 22 de Setembro, dia em que estará à venda a segunda, e última, parte desta história épica.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/09/2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 11 - Tempos Amargos


AS CONFISSÕES DE UM ALCOÓLICO

Novela Gráfica III – Vol. 11
Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenho – Etienne Schréder
Por + 9,99€
Depois de Histórias do Bairro, de Bartolomé Segui e Gabi Beltran, as histórias autobiográficas voltam a estar no centro de mais um volume desta colecção, com Tempos Amargos, de Etienne Schréder, em que o autor relata com grande honestidade, num livro “inspirado e frágil”, como bem o classifica François Schuiten, o seu passado de alcoólico, que o levou a abandonar tudo e a viver uma existência de marginalidade, tendo-se tornado um sem-abrigo.
Nascido em 1950, Etienne Schréder é actualmente um dos responsáveis gráficos da série Blake e Mortimer, tendo colaborado nos álbuns O Estranho Encontro, A Maldição dos Trinta Denários, A Onda Septimus e O Bastão de Licurgo, mas os leitores portugueses conhecem-no também graças ao livro O Segredo de Coimbra, que já teve três edições nacionais. Mas, embora fosse leitor de BD na infância e na adolescência, a vida profissional de Schréder iniciou-se numa área completamente diferente, porque depois de concluir os seus estudos em direito e em criminologia, o autor arranjou emprego no sistema prisional, na prisão de Bruxelas. Um emprego tão monótono como frustrante que lhe destruiu as ilusões sobre o sistemas judicial belga e que o obrigava a confrontar-se com uma realidade de que só conseguia fugir refugiando-se no álcool, até acabar por ser despedido.
Este livro debruça-se precisamente sobre o período de cinco anos, entre 1979 e 1984, em que Schréder, parafraseando Mário Cesariny, “fechou os olhos frente ao precipício e caiu verticalmente no vício”. Esse relato, sem grandes concessões, mas com algum pudor, pois como o próprio reconhece: “não se pode dizer tudo, um livro não é um esgoto”, centra-se sobretudo nos seus companheiros de adição e de marginalidade, deixando praticamente de fora a vida familiar do autor. Seja os seus pais, que apenas aparecem (sintomaticamente) no início do livro como fantasmas, passando pela ex-mulher, que está totalmente ausente, ou até os seus filhos, a quem o livro é dedicado.
Como bem refere João Ramalho Santos no prefácio, há um certo paralelismo entre Tempos Amargos e Journal d’une Disparition (Shissō Nikki) do japonês Hideo Azuma, um autor de mangá alcoólico que também viveu como um sem-abrigo, mas se Azuma manteve o seu estilo caricatural que usava nos seus trabalhos mais comerciais para este relato autobiográfico, já Schréder afasta-se da limpidez da “linha clara” de O Segredo de Coimbra, ou da série Blake & Mortimer, para abraçar um registo mais expressionista, feito de aguadas de guache, altos contraste de preto e branco, enquadramentos angulosos e perturbadores, com os cenários, desenhados com precisão fotográfica em O Segredo de Coimbra, a serem aqui por vezes apenas sugeridos, sem que com isso percam força. Veja-se, por exemplo, a sombra ameaçadora do Palácio de Justiça de Bruxelas, que domina a página 33. Em suma, uma mudança de registo perfeitamente adequada às necessidades da história e que mostra bem o domínio apurado que Schréder possui dos mecanismos narrativos da BD.
Outra diferença fundamental entre Schréder e Azuma, é que, se o segundo se refugiou no álcool para fugir à pressão dos prazos que uma carreira de autor de mangá de sucesso obriga, já Schréder encontrou na BD a realização pessoal e profissional. Isso sucedeu graças a um curso nocturno de BD ministrado por Alain Goffin, que frequentou em 1984 e que lhe possibilitou trabalhar com diversos autores, como o próprio Goffin, Yslaire, Raoul Servais e sobretudo com Schuiten e Peeters, dupla que teve um peso decisivo na sua afirmação como autor completo. Um autor que neste tocante Tempos Amargos, revela todo o seu talento e sensibilidade pela forma como consegue transmitir ao leitor um momento marcante e complexo da sua vida.  
Publicado originalmente no jornal Público de 02/09/2017

sábado, 2 de setembro de 2017

Novelas Gráficas III 10 - Histórias do Bairro

UMA INFÂNCIA NO BARRIO CHINO

Novela Gráfica III – Vol. 10
Histórias do Bairro
Sexta, 01 de Setembro
Argumento – Gabi Beltrán
Desenho – Bartolomé Segui
Por + 9,99€
Depois de Miguelanxo Prado e Max, chegou a vez dos leitores portugueses descobrirem mais um exemplo da incrível vitalidade da novela gráfica espanhola, com Histórias do Bairro, de Gabi Beltran e Bartolomé Segui, o décimo volume desta série III, que chega aos quiosques de todo o país na próxima sexta-feira, 1 de Setembro.
Embora na edição portuguesa surja num único volume, Histórias do Bairro foi publicado originalmente em dois volumes, o primeiro dos quais, 10 Histórias del Barrio, arrebatou o Prémio Ciutat de Palma de Cómic, em 2011, sendo publicado pela editora basca Astiberri, como título abreviado de Historias del Barrio, menos de um ano depois, na prestigiada colecção Sillon Orejerro, que acolhe, entre outras, as obras de Paco Roca e também do português José Carlos Fernandes. Seguiu-se, em 2014, a segunda parte da história da adolescência do jovem Gabi, em Historias del Barrio: Caminos, mas o próprio Beltran é o primeiro a apontar que os dois volumes formam uma única história referindo que este segundo volume: “não é uma continuação em si. Quando acabamos com tudo isto, só haverá uma obra.”
Relato sem concessões de uma infância e uma adolescência passadas no bairro Sa Gerreria, o barrio chino da cidade de Palma de Maiorca, a capital das ilhas Baleares, numa altura em que a ilha não era o destino turístico que hoje é, Histórias do Bairro retrata um dia-a-dia de pobreza, marcado pelas drogas, delinquência e prostituição Para além dos seus amigos e companheiros de brincadeiras que ultrapassavam largamente os limites da legalidade, ficamos a conhecer também os gostos musicais e literários de Gabi, que não são diferentes dos de qualquer adolescente português de inícios da década de 80. Veja-se a T-shirt dos Joy Division, que Gabi veste ao longo de todo livro, ou a importância que a música Golden Brown dos Stranglers adquire na história O Descapotável. Já em termos literários, Beltran utiliza as leituras do jovem Gabi para enquadrar as histórias na época e também reflectir o seu próprio amadurecimento intelectual, com as revistas de BD icónicas da transição para a democracia, como a Totem ou a 1984 a darem lugar nos capítulos finais, a escritores como Steinbeck, Hemigway ou F. Scott Fitzgerald, nomes maiores da chamada “geração perdida”, que Gabi vai descobrir nas estantes da mulher mais velha que lhe mostra que o mundo pode ser bem mais vasto do que o Barrio Chino.
Embora seja também ele ilustrador, Gabi Beltrán assume-se aqui como escritor, algo evidente nos textos de cariz autobiográfico que intercalam cada uma das histórias, e ocupa-se “apenas” do argumento e das cores de Histórias do Bairro, entregando o desenho ao seu conterrâneo Bartolomé Segui, que conhece muito a Palma de Maiorca dos inícios da década de 80, por nela ter vivido. Vencedor, com Felipe Hernandez Cava, do Prémio Nacional del Comic em 2009, com Las Serpientes Cegas, Segui opta aqui por um estilo mais caricatural e de legibilidade mais imediata, que dá um toque visualmente mais agradável a uma realidade de grande dureza, o que ajuda o leitor a entrar mais facilmente na história.
Mas, melhor do que eu, deixemos que seja Alvaro Pons a exaltar os méritos do desenhador (e da linguagem da BD): “…Seguí adapta-se às necessidades do argumentista e sabe integrar os relatos de Beltrán num nível narrativo duplo: por um lado, a voz do narrador, que flui independente no exercício da memória; por outro, as histórias que se vão contando, que se vão apoiando no primeiro relato, mas sem perder a sua própria autonomia. Seguí consegue gerir os silêncios gráficos, pese embora a voz de fundo do narrador, fazendo chocar esse texto de natureza puramente literária com a força da narração visual para obter efeitos impensáveis em qualquer outra arte”.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/08/2017