quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Torpedo 1936 - Volume 3



TORPEDO, DA SICÍLIA A NOVA IORQUE 

Torpedo 1936 – Vol. 3
Argumento – Enrique Sánchez Abulí
Desenhos – Jordi Bernet
Quinta, 15 de Fevereiro, Por + 11,99 €
Depois de no final do segundo volume, Torpedo ter sido preso por um crime que, ironicamente, não cometeu, este terceiro volume começa com o nosso (anti) herói a cumprir uma pena de quatro anos e um dia na prisão, o que, por uma vez, dá oportunidade a Rascal de sair dos bastidores e assumir o protagonismo na história O Gato Borralheiro. Embora, para sua desgraça e divertimento do leitor, as coisas não lhe corram exactamente como ele esperava…
Mas essa é apenas a primeira das doze histórias curtas que este terceiro volume compreende. Histórias publicadas originalmente em Espanha, nas revistas Comix Internacional, Totem El Comix e no suplemento semanal do jornal espanhol El País, que, na sua grande maioria, permaneciam inéditas em português. Um volume que prossegue com Sing-Sing Blues, episódio dedicado à breve passagem de Luca Torelli pela famosa prisão de Sing-Sing e que termina com um grande jogo de basebol. Mas pelo meio temos A Lei do Talão, a segunda história longa de Torpedo, em que a falta de confiança de Luca Torelli no sistema bancário lhe vai custar caro… mas custará ainda mais caro a Ray Bingo, o homem que o contratou para um serviço simples, que se vai complicar, e muito.
Esta história é também um exemplo da perfeita sintonia entre o texto irónico de Abulí e o desenho e a capacidade de planificação de Bernet. Veja-se a página inicial, em que as personagens intervenientes na história são apresentadas como se estivessem num palco, com a excepção de Torpedo e Rascal, que se mantêm convenientemente nas sombras. E por falar em sombras, a cena do assalto ao National Bank, na página 37, é um prodígio de simplicidade e concisão, que demonstra todo o talento narrativo do desenhador.

Outro exemplo do talento de Bernet, desta vez no tratamento fisionómico das personagens, está no episódio Um Pequeno, Cem dos Grandes, em que um golpe meticulosamente planeado falha por alguns detalhes e Torpedo se vê a braços com um bebé para amamentar. A expressão de Torpedo e dos seus cúmplices perante os seios generosos de Cora, a sensual ama-de-leite que arranjaram para amamentar o bebé raptado, que fecha a página 89, é absolutamente deliciosa e ajuda a tornar ainda mais divertida esta história delirante. Outro exemplo da versatilidade do desenhador espanhol é o episódio Um Dia nas Corridas, que mostra que Jordi Bernet desenha cavalos em movimento com o mesmo brilhantismo que desenha cenas de acção, mulheres sensuais e bandidos de ar patibular.
Para terminar, parece-me mais do que justo destacar Tocata e Fuga e Era uma Vez na Sicília, dois episódios dedicados à infância difícil de Luca Torelli na sua Sicília natal. O primeiro, que foi uma das duas únicas aventuras de Torpedo censuradas na edição integral americana da IDW, mostra-nos como o jovem Luca descobre que as mulheres podem ser bem mais difíceis de compreender do que as ratazanas, enquanto que em Era uma Vez na Sicília, recuamos ainda mais no seu passado para conhecer a família de Luca Torelli ainda antes dele ter nascido e testemunhar o ambiente marcado por ódios e vinganças ancestrais da Sicília do início do século XX, para além de descobrirmos a verdadeira e inesperada origem do seu nome.
Publicado originalmente no jornal Público de 10/02/2018

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Torpedo 1936 - Volume 2

TORPEDO, OU O CINEMA NEGRO DE ABULÍ E BERNET

Torpedo 1936 – Vol. 2
Argumento – Enrique Sánchez Abulí
Desenhos – Jordi Bernet
Quinta, 08 de Fevereiro, Por + 11,99 €
A publicação da edição integral da série Torpedo 1936, prossegue na  próxima quinta-feira com a publicação do segundo de cinco volumes. Um volume que recolhe doze histórias assinadas pela dupla Abulí/Bernet, publicadas originalmente em Espanha em meados da década de 80, nas revistas Creepy e Comix Internacional da editora Toutain, incluindo Um Salário de Medo, aquela que foi a primeira aventura longa de Torpedo, quebrando assim a tradição das histórias curtas, entre as oito e as doze páginas, que marcava a série até então. Curiosamente, Um Salário de Medo foi também a primeira história da série a ser publicada a cores a nível internacional, para além de ter sido a última aventura de Torpedo a ser recolhida em livro em Portugal pelas edições Futura, onde saiu a preto e branco, pondo termo à edição das aventuras de Luca Torelli no nosso país, durante mais de dez anos, até a série ser novamente recuperada na segunda série da revista Selecções BD, nos inícios do século XXI, em episódios publicados tanto a cores como a preto e branco.
Mas além desse marco na história da série, este volume que abre com Rascal, história que relata o primeiro encontro entre Luca Torelli e o seu fiel ajudante Rascal, que na melhor tradição do Sancho Pança, funciona sobretudo como alívio cómico, inclui também A Dama dos Camelos, uma aventura em que Torpedo volta a encontrar Susan, a protagonista de Para Patife... Patife e Meio, a única mulher que o traiu e viveu para contar.
Apesar de a maioria das histórias deste volume terem sido publicadas inicialmente a cores - por motivos comerciais, pois na época o poderoso mercado francês apresentava alguma resistência à publicação de histórias a preto e branco - todas as reedições da série em versão integral optaram pelo preto e branco, que valoriza muito mais o traço único de Bernet. Artista que declarou numa entrevista que: “o branco é negro é o ideal para as histórias realistas, sobretudo as do género noir, de que Torpedo é um legítimo herdeiro. Gosto de acentuar o dramatismo, nas cenas que assim o exijam e, brincando com o preto e branco, consigo efeitos muito mais dramáticos do que com a cor. O preto e branco é bem mais simples e eficaz. É mais forte, directo, natural.”
Usando uma técnica de pincel seco, que cria manchas irregulares, que acentuam a força do seu jogo de sombras, Bernet cria páginas de grande beleza a que a posterior adição de uma cor meramente funcional apenas retirava brilho, pelo que os leitores só têm a ganhar ao lerem (ou relerem) a série em preto e branco.
Outra característica muito interessante nesta série, em que a violência e o humor (muito) negro, andam de braço dado, são as constantes ligações ao cinema, bem evidentes também neste segundo volume. Ligações que passam pelos trocadilhos nos títulos dos episódios, aspecto em que Abulí é imbatível, notórios em Dois Homens e um Desatino (título que remete para o filme Dois Homens e um Destino) Era um Vez em Itália (episódio dedicado à juventude de Luca Torelli, que evoca as obras-primas de Sérgio Leone) e West Sad Story, (homenagem evidente ao filme West Side Story), mas também pelas próprias histórias, como acontece em A Hiena Ri das 4 às 6, que se passa maioritariamente numa sala de cinema, onde está a ser exibido o filme Tarzan, the Ape Man, protagonizado por Johnny Weissmuller.
Publicado originalmente no jornal Público de 03/02/2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Torpedo 1936 - Volume 1


Como os leitores devem ter reparado, este blog tem andado bastante parado. Um dos motivos, foi precisamente a colecção dedicada à edição integral da série Torpedo, que a Levoir começou a publicar no passado dia de Fevereiro e para a qual traduzi várias histórias e escrevi o prefácio do primeiro volume, para além dos textos do destacável de apresentação da colecção saídos no jornal Público de 27/01/2017, numa altura em que estava fora do país, como acesso limitado a este blog, e que, numa jogada de antecipação, o meu amigo J. Machado Dias já publicou aqui. Por isso, deixo-vos com o texto de apresentação do volume 1 em imagem e com a versão integral do editorial, que no livro saiu com um parágrafo censurado por imposição dos detentores dos direitos da série, em que se explicava os motivos do divórcio criativo entre Abulí e Bernet que levou ao fim da série

TORPEDO: DE 1936 A 1972:  A LONGA VIDA DE UM (ANTI) HERÓI

Clássico do policial negro, e também a banda desenhada espanhola mais traduzida em todo
o planeta, a série Torpedo tem finalmente direito a uma edição integral em Portugal. Criada em 1981 por Enrique Sánchez Abulí nas páginas da revista Creepy, na sequência de uma encomenda de Marcelo Miralles, (colaborador do editor Josep Toutain, que encomendou ao argumentista uma história com uma loura e um gangster, que pudesse ser usada como teste a um desenhador), Torpedo cedo ganhou vida própria. Pelo carisma do personagem, e sobretudo, pelas possibilidades que uma série destas dava a Abulí de homenagear o cinema negro e a literatura hard-boiled. Tudo em histórias curtas, que variam geralmente entre as oito e as doze páginas, que utilizam todos os clichês do género, subvertendo-os ao dar o protagonismo, não ao detective privado, mas a um mafioso cínico e sem ponta de escrúpulos,cuja figura se vai humanizando muito lentamente, à medida que vamos conhecendo o seu passado.
 Para ilustrar esta viagem aos tempos áureos dos gangsters, foi escolhido o mestre americano Alex Toth, que deu também a sugestão do título: Torpedo era o nome dado na América dos anos 30 aos pistoleiros a soldo. Uma título que, como reconhece Bernet, “revela-se uma imagem perfeita para definir aqueles tipos que, uma vez que recebem o dinheiro e a incumbência de matar alguém, põem-se em marcha e não param até atingir o alvo. Exactamente como um torpedo!”.
Desenhador veterano, Alex Toth procurou suavizar o carácter demasiado explícito dos guiões de Abulí, o que não foi bem visto pelo argumentista espanhol. Como consequência dessas divergências criativas, Toth abandonaria a série ao fim de apenas dois episódios, incomodado com o sexo, violência e amoralidade dos argumentos de Abuli. Como refere o editor Dean Mullaney, que trabalhava com Toth na época, a gota de água foi uma cena no terceiro episódio da série, em que uma personagem urina na rua e que Toth se recusou a desenhar, argumentando: que “eu cresci em Nova Iorque e as pessoas aqui não mijam na rua!” .
Suceder-lhe-ia Jordi Bernet que, talvez por Toth, um fantástico desenhador, cuja carreira fala por si, não estar devidamente motivado, se revelou uma escolha muito mais acertada para a série, tornando-se imediatamente no desenhador definitivo de Torpedo. Justamente considerado como o mais americano dos desenhadores espanhóis, Bernet cedo se conseguiu libertar da influência de Frank Robbins (desenhador a quem, curiosamente, Torpedo foi oferecido, após a desistência de Toth) para criar o seu próprio estilo, feito de dinamismo, sensualidade e uma notável eficácia narrativa.
Um estilo marcado pelo uso do pincel seco, que o crítico italiano Francesco Coniglio definiu como “uma arquitectura gótica de sinais brancos e pretos que lembram de perto os filmes de Orson Welles e o jogo de luz do seu fotógrafo favorito, Gregg Toland”. E não há dúvida que a série Torpedo é bem um exemplo da apurada técnica de preto e branco de Bernet, que reproduz fielmente no papel a estética do film noir, de que Torpedo é um legítimo herdeiro. Conforme o próprio Bernet declarou numa entrevista, “o branco e preto é o ideal para as histórias realistas, sobretudo as do género noir. Gosto de acentuar o dramatismo nas sequências que assim o exijam e, brincando com o preto e branco, consigo obter efeitos muito mais directos do que com a cor. O preto e branco é bem mais simples e eficaz. É mais forte, directo, natural.”
E Bernet não é o único a pensar assim. Também Will Eisner, o criador do Spirit, num texto publicado no 1ºprimeiro volume da primeira edição espanhola, segue esta teoria, ao referir que, sendo uma “tradicional série negra, com raízes na literatura e no cinema da época, ([a série Torpedo)] jamais conseguiria obter um tal alto nível ambiental, nem teria o impacto que teve junto dos apreciadores de BD, caso tivesse sido feita a cores.”Mas essa passagem para a cor acabaria por acontecer, por imposição dos editores estrangeiros, a partir da história Um Salário de Medo. Com esta mudança, a força das sombras esbateu-se e o próprio Bernet acabaria por trocar o pincel pelos marcadores, de maneira que o seu traço evoluía para um registo mais caricatural, mais adequado à violência e humor desbragados das histórias.
Assim, a cores ou no preto e branco usado em todas as reedições,através de 15 álbuns, publicados ao longo de quase 20 anos, a série Torpedo prosseguiu uma caminhada vitoriosa, graças ao humor mortífero e aos notáveis diálogos de Abulí, que explora como ninguém os trocadilhos e os duplos sentidos, nem sempre de fácil tradução, e ao talento gráfico e à extraordinária eficácia narrativa de Bernet, um mestre da arte sequencial.
 Alvo de inúmeras homenagens e citações, como é o caso do Tornado, do português Estrompa, que só atestam a sua popularidade, Torpedo seria ainda transposto para a animação em 1995, num filme de 30 minutos realizado por J. A. Rojo, a partir da história Tic Tac, que pretendia ser o episódio piloto de uma série para televisão que não se chegou a concretizar.
Até que, em Dezembro de 2000, a primeira fase da carreira de Torpedo chegou ao fim. Tudo começou quando o cantor espanhol Loquillo dedicou uma música a Torpedo,  com letra do argumentista de BD Oscar Aibar, no seu disco Nueve Tragos, referindo na ficha do CD que o personagem era uma criação de Jordi Bernet, sem citar sequer o nome de Abuli. Ao saber que Bernet tinha tido conhecimento do facto ainda antes do disco sair, e nada fez para o alterar, Abulí, enquanto verdadeiro criador de Torpedo, veio pedir explicações a Bernet e chegou a processar Bernet e Aibar em tribunal, acusando-os de conspiração para o privarem dos direitos sobre a série, num processo que naturalmente acabou por perder. Assim ficou irremediavelmente desfeita uma das mais eficazes duplas da BD europeia, que para além dos 15 álbuns de Torpedo, já tinha dado provas da sua empatia em dezenas de histórias curtas reunidas no livros Historias Negras, nas séries Snake e no álbum De vuelta a Casa.
Mas, como os seus inúmeros inimigos descobriram à sua custa, Luca Torelli não é um homem fácil de abater e, apresar de não haver histórias novas, a popularidade de Torpedo manteve-se fortíssima, muito por força das sucessivas edições integrais da série em França, Espanha, Itália e Estados Unidos, com o tempo a revelar, se ainda houvesse dúvidas, que estamos perante um verdadeiro clássico.
 Daí que o regresso de Torpedo à BD estivesse sempre no horizonte, até se concretizar finalmente em 2017, com Torpedo 1972, em que Bernet cede o lugar ao argentino Eduardo Risso, o desenhador de 100 Bullets, bem conhecido dos leitores portugueses graças a Batman Noir, ou Batman: Uma História Verdadeira, já editados pela Levoir. Risso, que assegura também a cor, mostra-se perfeitamente à altura da pesada herança de Bernet, sem abdicar do seu estilo próprio e de uma planificação da página mais livre e dinâmica do que a estrutura clássica usada por Bernet. Ou seja, tal como Bernet fez em relação à Alex Toth, também Risso cria a sua própria versão doe Torpedo.  Um Torpedo envelhecido, mas refinado na sua maldade e que, apesar da doença de Parkinson que o limita, continua tão mortífero como antes, como os leitores vão poder descobrir no último volume desta colecção histórica.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Terror segundo Scott Snyder


Para abrir este ano de 2018, recupero o texto que publiquei na Bang! nº 23, lançada precisamente no 1º Festival Bang! Dedico este texto à Safaa Dib, que aturou os meus atrasos no envio dos textos durante todos estes anos e que partiu para outras aventuras. Mas a revista Bang! não vai acabar e a Safaa vai ser muito bem substituída pelo Boss himself, o Luís Corte Real. 
Boa leitura e Bom Ano!

O TERROR SEGUNDO SCOTT SNYDER

Um dos nomes maiores dos comics americanos, responsável, com Greg Capullo, de algumas das melhores histórias do Batman da última década, Scott Snyder é ainda assim, muito mais um escritor de terror do que de histórias de super-heróis, algo que a recente publicação, pela G Floy, de Wytches em edição nacional, vem demonstrar.
Nascido e criado em Nova Iorque Scott Snyder descobriu que queria ser escritor e contar histórias aos nove anos, quando um monitor num campo de férias lhe deu a descobrir o livro Eyes of the Dragon, de Stephen King, escritor que, como veremos está profundamente ligado à carreira de Snyder. Apesar de se ter formado em Literatura Criativa pela Universidade de Brown em 1998, o seu primeiro emprego foi na Florida, no Disney World, onde trabalhou nas limpezas e como figurante, tendo vestido os fatos de espuma de diversas personagens da Disney, com destaque para o astronauta Buzz Lightyear do filme Toy Story. Quando se preparava para ir trabalhar na Disneyland de Tóquio como Príncipe Encantado, um amigo convenceu-o a regressar a Nova Iorque e aos estudos, acabando por fazer um Mestrado em Belas Artes na Universidade de Columbia em 2002.
Por estranho que possa parecer, o ano que passou na Disney World foi importante para a sua carreira de escritor, pois como refere: “essa experiência fez muito bem à minha escrita... Tudo o que eu acabei por escrever, as coisas que me assustam profundamente: o medo do compromisso e do crescimento, medo de perder as pessoas amadas, o maravilhamento e o terror de estar apaixonado – tudo isso estava constantemente em jogo ao meu redor nessa maneira estranha, animada e ampliada da Disney.”
Ainda antes de se dedicar à BD, Snyder estreou-se como escritor em 2006 com Voodoo Heart, uma recolha de contos de terror, dois dos quais, Wreck e Dumpster Tuesday, foram seleccionados por Stephen King para a antologia The Best American Short Stories, de 2007. O mesmo Stephen King que vai colaborar com Snyder em American Vampire, a série que este último lançou na Vertigo em 2010 e que o tornou um nome popular e prestigiado junto dos leitores de comics.
A admiração de Snyder por King estende-se também ao cinema e aos filmes baseados nos livros do escritor, pois como refere “The Shinning provavelmente é um dos meus três filmes favoritos, porque é Kubrick e Stephen King no seu melhor. Ele é tão bom, pegando numa coisa que é um totem de segurança, que encontras em tua casa, como o teu pai no Shinning, ou o teu carro em Christine, ou o teu cão em Cujo e transforma essas coisas em algo maligno. Não há nada mais assustador do que quando estabeleces essa conexão emocional. A ideia de teu pai vir atrás de ti com um machado é tão assustadora. Tanto para uma criança como para um adulto.”
Depois dessa estreia como escritor, apadrinhada por King, Snyder acaba por concretizar o seu sonho de escrever BD, estreando-se na Marvel em 2009 assinando o argumento de Iron Man: Noir e de Human Torch 70th Anniversary Special, dois trabalhos sem continuidade, pois será na linha Vertigo da editora DC que o escritor vai encontrar a sua casa.
Como não podia deixar de ser, a estreia de Snyder na Vertigo faz-se reinventando um mito clássico do terror, as histórias de vampiros, com American Vampire, série criada em 2010 com o brasileiro Rafael Albuquerque, que apresenta uma nova estirpe de vampiros, resistente à luz solar, representada por Skinner Sweet, um carismático (e sádico) pistoleiro, cuja existência é uma afronta ao poder das velhas elites de vampiros europeus. Mais uma vez, Stephen King dá a mão a Snyder, assinando uma história complementar sobre a origem de Skinner no Velho Oeste, publicada como complemento nos primeiros cinco números da série.
O sucesso de American Vampire levou à criação de uma antologia em que outros criadores de renome, como Jason Aaron, Fabio Moon e Gabriel Bá e o italiano Ivo Milazzo têm oportunidade de explorar o universo criado por Snyder e Albuquerque, para além das mini-séries paralelas que permitem explorar um pouco melhor esse universo, ilustradas por outros desenhadores, como Sean Gordon Murphy (American Vampire: Survival of the Fittest) e Dustin Nguyen (American Vampire: Lord of Nightmares) e de uma história solta, The Long Road to Hell, em que Rafael Albuquerque também participa na escrita.
Embora os autores tenham abandonado temporariamente a série no final do segundo ciclo, prometeram voltar para um terceiro e último ciclo, ainda sem data marcada, face à agenda carregadíssima dos dois criadores.
Com a reformulação do Universo DC originada pela Linha New 52, Snyder vai estar em destaque assinando a série principal do Batman, ao lado de Greg Capullo e uma nova versão de Swamp Thing - o Monstro do Pântano criado por Len Wein e Bernie Wrightson, que Alan Moore veio reinventar - em colaboração com Yannick Paquette. Contando com o excelente sentido de composição e planificação de Paquette; Snyder faz o contrário de Mooore, trazendo Alec Holland para o centro da história.
A sua passagem marcante pelo Batman, já tinha sido iniciada antes com Black Mirror, uma história publicada na revista Detective Comics, ilustrada por Jock e por Francesco Francavilla, com Dick Grayson como Batman, em que Snyder transforma o filho do Comissário Gordon num perigoso psicopata.
Depois do sucesso de Black Mirror, a presença de Snyder no bat-universo prosseguiu com Batman: Gates of Gotham, uma série limitada escrita em co-autoria com Kyle Higgins que aborda a história secreta de Gotham City. Mas foi na linha DC New 52 que Snyder enriqueceu definitivamente a mitologia da personagem, criando a Corte das Corujas e deu uma nova vida a um vilão clássico como o Joker, que esteve “desaparecido” do universo DC durante um ano, após ter visto a sua cara arrancada pelo Bonecreiro, um vilão menor do universo DC. Essa história, Death of the Familly, publicada em Portugal pela Levoir, com o título O Regresso do Joker, é uma das melhores histórias do Batman assinada por este escritor e um exemplo perfeito de como criar uma história de terror usando super-heróis. Nela, depois de um ano desaparecido, planeando o seu regresso, o Joker está de volta, para atacar o Batman através daqueles que lhe são queridos, mas primeiro vai recuperar o seu rosto, numa impressionante sequência, em que, jogando com as sombras e sugerindo muito mais do que mostram, Snyder e Capullo criam momentos de puro terror. Texas Chain Saw Massacre, de Tobe Hopper.
Momentos que culminam, no final do primeiro capítulo, com a revelação da nova imagem do Joker, em que o rosto que perdeu se transforma na sua máscara, uma máscara presa à carne viva por correias de couro. Uma imagem fortíssima, que não consegue deixar de evocar um ícone do terror cinematográfico, o personagem Leatherface do filme
E se virmos bem, mais do que uma saga de super-heróis, este O regresso do Joker, é uma história de terror psicológico, o que acaba por ser natural, pois tanto Scott Snyder como Greg Capullo têm grandes ligações ao género. E O Batman não foi o único personagem clássico da DC a receber o tratamento especial de Snyder. Superman Unchained, a mini-série que Snyder escreveu para Jim Lee, explora o lado sombrio do Homem de Aço. Mais uma vez, o escritor não esconde o jogo: “mesmo que não haja nenhum gore ou horror explicito, até porque aqui ninguém corta a cara, ou qualquer coisa do género, mas, ao mesmo tempo, definitivamente há horror psicológico no livro. As minhas histórias favoritas são aquelas em que os personagens têm que enfrentar os seus piores pesadelos. Portanto, esta história ode não ter os cenários góticos de Gotham ou a escuridão americana de Swamp Thing, mas tem muitos aspectos sombrios e algumas situações horríveis.
Eu sempre me inclinei para os personagens mais sombrios de certa forma. É por isso que acho que o Superman deve ser muito divertido. Amo o personagem e acho que não podia perder a oportunidade de fazer alguma coisa de natureza sombria com ele.”
Também o seu projecto seguinte para a Vertigo, The Wake, uma mini-série em 10 números iniciada em 2013, em que volta a colaborar com Sean Murphy, misturava o horror com outro género, neste caso a ficção científica. Como o próprio referiu numa entrevista: “o meu novo livro, The Wake, é uma história de terror sombrio, misturado com ficção científica, na tradição de alguns dos meus filmes favoritos. O ponto de partida é uma descoberta feita no fundo do oceano que encerra as chaves para a compreensão dos oceanos e a sua mitologia. Uma mitologia que existe há milhares de anos em diferentes culturas. E essa descoberta acaba por ser verdadeiramente aterrorizadora.”
Se esta história de terror com sereias tem um toque lovecraftiano, não é por acaso, pois, confessa Snyder: “Sou um grande fã de Lovecraft. Estudei em Providence onde ele está sepultado e li montes de livros dele nessa altura e continuei a ler depois disso. Lovecraft está no ADN de The Wake.”
Como a maioria dos grandes criadores de comics americanos, também Snyder, apesar de ter um contrato de exclusividade com a DC, acabaria por publicar na Image, que é, indiscutivelmente, a editora mais excitante da actualidade. A estreia nessa editora dá-se com Severed, uma mini-série passada nos anos da Grande Depressão, sobre um miúdo que anda à boleia pelos Estados Unidos e que conhece um velho vagabundo que é também um serial killer, ilustrada por Scott Tuft, um amigo de infância de Snyder, cujo estilo mais clássico e realista se adequa bem à história que, até no jovem protagonista, tem um toque kinguiano.
 Mas a sua mais conseguida incursão pelo terror puro e duro e o pretexto para este texto, foi Wytches, em que Snyder volta a trabalhar com Jock, o desenhador de The Black Mirror, aplicando às bruxas um tratamento ainda mais inovador do que o sofrido pelos vampiros em American Vampire. As bruxas de Snyder e Jock são entidades primitivas, canibalisticas, que estabelecem pactos com os humanos e que vivem em cavernas nas florestas, ou em troncos de árvore ocos. Seres telúricos, mais animais do que humanos e verdadeiramente assustadores. Para além da qualidade da escrita de Snyder e da força do traço estilizado de Jock, outro elemento que concorre para o sucesso do livro, é o excelente trabalho de cor de Matt Hollingsworth - explicado no final do livro da G Floy - que introduz um ruído perturbador mas extremamente eficaz na narrativa.
Face ao sucesso da primeira mini-série era inevitável o regresso dos autores ao universo de Wytches e esse regresso aconteceu este mês de Setembro no nº 1 da 2ª série da revista Image+, que funciona como catálogo da editora, com Bad Egg, uma história curta que mostra do que uma mãe é capaz para defender o seu filho e que serve para abrir o apetite dos leitores para o novo ciclo de Wytches que aí vem.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 23, de Novembro de 2017

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Harley Quinn 3 - O Fim da Macacada

Com este post, chega ao fim a mini-colecção da Harley Quinn e também os meus posts de 2017. Um ano em que, mais uma vez, acabei por escrever menos do que contava neste Blog. Vemo-nos em 2018!

DE CONEY ISLAND A SAN DIEGO

Harley Quinn: O Fim da Macacada
Argumento – Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin, Marco Failla e vários
Quinta, 28 de Dezembro, Por + 10,90 €
Depois de dois volumes passados em Coney Island, Nova Iorque, os horizontes da Harley Quinn alargam-se consideravelmente neste terceiro e último volume da mini-colecção que o Público e a Levoir lhe dedicaram.
Com efeito, a aterragem da Poderosa, como se de um meteorito se tratasse, na praia de Coney Island vem introduzir a dimensão mais super-heróica do Universo DC que tem estado praticamente arredada da série, com a excepção da presença da Hera Venenosa, cuja relação ambígua com a Harley foi finalmente clarificada por Palmiotti e Conner. A presença da Poderosa permite aos autores gozar com os clichés habituais das histórias de super-heróis, desde os uniformes nada práticos e demasiado reveladores, as anatomias quase impossíveis e as identidades secretas, numa história em que a Harley se aproveita da amnésia da Poderosa para a convencer de que são uma dupla de super-heroínas. E é a combater o crime ao lado da Poderosa, que Harley vai parar a um Planeta desconhecido, governado pela Rainha Eidijamon, que não aceita muito bem o facto de Harley lhe matar o seu amante terrestre. Mas as aventuras espaciais de Harley e da Poderosa, desenhadas por Marco Failla de modo a permitir a Chad Hardin manter o ritmo de publicação mensal, não se ficam por aqui, pois a dupla tem ainda que enfrentar o Lorde Manos, um ditador cósmico que conta no seu exército com uma criatura que parece uma fatia de pizza com cogumelos… Esta delirante aventura serve para os autores parodiarem as sagas cósmicas da DC e Marvel, escritas por autores como Jack Kirby e Jim Starlin, sendo fácil ver no Lorde Manos uma homenagem ao Thanos de Jim Starlin, que surgiu como a resposta da Marvel ao Darkseid de Jack Kirby, que os leitores bem conhecem de anteriores colecções da DC.
Terminada a breve parceria com a Poderosa, o resto do livro prossegue com histórias afastadas da cronologia habitual da revista, como é o caso de Infelizes para Sempre, história pertencente ao evento Future’s End, que nos mostra o Universo dos Novos 52, cinco anos depois do seu início. Uma realidade alternativa, em que Harley vai parar a uma ilha misteriosa depois de um desastre de avião. Uma ilha onde o Joker é adorado como um Deus pelos nativos, o que possibilita aos autores concretizarem o sonho de muitos leitores, com o casamento da Harley com o Joker, que assim faz a sua espectacular estreia na série. Mas, como não podia deixar de ser, o casamento de sonho da Harley acaba por se transformar num pesadelo, quando descobre que os nativos a querem sacrificar num vulcão…
Finalmente, para encerrar em beleza esta colecção, Harley volta a derrubar a “quarta parede” de forma espectacular, numa história onde decide ir à Comic Con de San Diego para falar com um editor que publique o seu comic (desenhado na realidade por Amanda Conner) e encontrar os seus editores e criadores. Um final tão divertido quanto épico, que para além da participação especial de autores como Jim Lee, Paul Dini e Bruce Timm como personagens, conta com a arte de inúmeros artistas convidados, como Paul Pope, Javier Garrón, Damion Scott, Amanda Conner, John Timms, Marco Failla e Dave Johnson.

Publicado originalmente no jornal Público de 23/12/2017