terça-feira, 10 de janeiro de 2017

As 10 Melhores BDs que li em 2016 - Parte 1


Cumprindo a tradição, aqui vos deixo, em duas partes, a lista das melhores Bandas Desenhadas que li pela primeira vez em 2016. Mais uma vez, a escolha não foi fácil e quase me deu vontade de criar uma categoria para as melhores BDs que reli em 2016, única maneira de incluir o Sandman de Neil Gaiman e o Miracleman, de Alan Moore (o "escritor original") nas minhas leituras de 2016.
Quanto às escolhas, apresentadas, como sempre, por ordem alfabética, deixam de fora uma obra-prima como o Le Rapport de Brodeck, de Larcenet, apenas porque o primeiro volume já tinha estado na minha lista de 2015.  Do mesmo modo, alguns dos argumentistas presentes nesta lista, (como Jason Aaron, El Torres, ou Tom King) poderiam estar representados por outros títulos, mas foi necessário escolher um título por autor.
Para a semana, fica prometida a segunda e última parte da lista.


1 - Black Dog: The Dreams of Paul Nash, Dave McKean, Dark Horse
Trabalho de encomenda no âmbito do projecto 14-18 Now, para comemorar o trabalho do pintor Paul Nash sobre a I Guerra Mundial, Black Dog é uma singular biografia do pintor, que parte das memórias e dos sonhos de Paul Nash para reconstituir a vida e a obra do artista. Fazendo juz ao seu imenso talento e versatilidade, McKean dá um verdadeiro show visual, fazendo uma muito conseguida síntese entre a arte de Nash e o seu próprio traço. Um regresso em grande forma de McKean à BD!




2 - Dylan Dog: Mater Morbi/ Dopo un Lungo Silenzio, Roberto Recchionni, Tiziano Sclavi, Massimo Carnevale, G. Casertano, Bonelli
No ano que passou tive ocasião de ler bastantes histórias de Dylan Dog e aí houve duas que sobressaíram, até pelas suas características bem distintas, razão porque neste caso optei por uma dupla nomeação. Mater Morbi, escrita por Roberto Recchionni, o actual responsável pela coordenação da série Dylan Dog é uma reflexão sombria sobre a doença e das melhores histórias do detective do pesadelo das últimas décadas, muito bem ilustrada por Massimo Carnevale. Já Dopo un Longo Silenzio assinala o regresso de Tiziano Sclavi à série que criou, numa história eivada de melancolia, em que os elementos fantásticos dão lugar à dura realidade do alcoolismo, quando Dylan Dog, um ex-alcoólico, volta a ceder ao vício.



3 - House of Penance, Peter Tomasi e Ian Bertram, Dark Horse

Uma das maiores surpresas de 2016, House of Penance parte de uma história real, já explorada por Alan Moore na série Swamp Thing: a casa Winchester, mandada construir por Sarah Winchester, a viúva de William Winchester, o milionário da indústria de armamento, criador das célebres espingardas Winchester. Uma mansão que se manteve em construção durante 38 anos, 24 horas por dia, até à morte de Sarah. Esta casa em perpétua ampliação, sem obedecer a um qualquer plano arquitectónico, que Sarah Winchester considerava como o meio de acalmar as almas de todas as pessoas mortas pelas espingardas Winchester, acaba por ser uma das personagens principais da história imaginada por Peter Tomasi e ilustrada num estilo extremamente original por Iam Beltram, num traço grandemente detalhado e caricatural, que faz lembrar um pouco o brasileiro Rafael Grampá, muitíssimo bem servido pelas cores de Dave Stewart.



4 - La Huela de Lorca, Carlos Hernandez e El Torres, Norma
Descobri o trabalho e a versatilidade de El Torres na última Comic Con, onde esteve presente com o livro Hoje Aconteceu-me uma Coisa Brutal, uma bem construída e eficaz história de super-heróis Made in Spain. depois disso li El Fantasma de Gaudi, uma belíssima homenagem à arquitectura de Gaudi, disfarçada de história policial clássica na melhor tradição franco-belga, mas o livro que me encheu as medidas foi este La Huela de Lorca, uma singular biografia do poeta espanhol contada através do olhar daqueles que o conheceram. Para além do excelente traço e de uma eficaz uilização da bicromia, Carlos Hernandez revela um excelente sentido de planificação, com algumas soluções narrativas muito bem conseguidas, especialmente nas sequências protagonizadas por Dali e Buñel.







5 - Le Retour de la Bondrée, Aimée De Jongh, Dargaud
Esta novela gráfica de estreia de Aimée De Jongh, uma jovem autora holandesa, foi uma belíssima surpresa, não tanto em termos gráficos, onde o trabalho de De Jongh é eficaz, sem grandes rasgos, mas sobretudo pela excelente história de um livreiro prestes a fechar uma etapa da sua vida, muitíssimo bem contada, com um final que se revela surpreendente, apesar das pistas estarem todas lá, ao alcance do leitor mais perspicaz. Uma bela estreia de uma autora a seguir com atenção.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Lucky Luke de Mathieu Bonhomme em destaque na revista do Clube Tex Portugal

Para fechar este ano que amanhã termina, deixo-vos com o texto que escrevi sobre a excelente homenagem feita por Mathieu Bonhomme a Morris e ao seu Lucky Luke, por acasião dos 70 anos da série. Um texto que, embora prevista para sair no nº 4 da dita revista, acabaria por só sair neste nº 5, por uma questão de espaço. O que permitiu que o meu texto tivesse a companhia de um excelente artigo de Jorge Magalhães sobre Lucky Luke em Portugal, formando os nossos dois textos um mini-dossier sobre os 70 anos do cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra.
Resta-me desejar um Excelente Ano de 2017 aos leitores deste blog. Eu prometo regressar logo na primeira semana de Janeiro, com a primeira parte dqa já habitual lista das 10 Melhores BDs que li no ano que findou. Até lá, boas entradas em 2017!


O HOMEM QUE MATOU LUCKY LUKE, 
OU O WESTERN SEGUNDO MATHIEU BONHOMME

O mais popular cowboy da BD europeia, Lucky Luke, comemora em 2016 setenta anos de aventuras, sendo por isso dois anos mais velho do que o “nosso” Tex, que Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini criaram em 1948.
Criado por Maurice de Bevére, mais conhecido por Morris, o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra, fez a sua estreia a 7 de Dezembro de 1946 no almanaque da revista Spirou, com a história Arizona 1880. Uma primeira história em que ainda é bem visível a influência da animação dos Estúdios Disney, mas o traço de Morris rapidamente ganhou outra personalidade e sofisticação, que se estendeu também aos argumentos, sobretudo no período áureo, de pouco mais de 20 anos, em que René Goscinny, um dos criadores de Astérix, se ocupou também do argumento de Lucky Luke.
A morte de Goscinny, em 1997, pôs fim a essa fase incontornável e, embora Morris continuasse a desenhar a série até à sua morte, em 2001, os argumentistas que com ele colaboraram, fracassaram claramente na espinhosa tarefa de fazer esquecer Goscinny…
O desaparecimento de Morris, não significou o fim do seu pobre cowboy solitário, com as aventuras de Lucky Luke a continuarem a sair com regularidade, com Achdé a assegurar o desenho de forma competente e extremamente fiel ao traço de Morris e o argumento a ser entregue a escritores como Laurent Guerra, Daniel Pennac e Tonino Benacquista, com créditos firmados em outras áreas, da televisão à literatura. Escritores que, sem deslumbrar, vieram ainda assim dar outro folego à série, mas sem nunca se afastarem da matriz de Morris.
Finalmente, aproveitando os setenta anos do herói, a Editora Lucky Comics, decidiu seguir o exemplo da Dupuis, com a série Spirou e dar carta-branca aos autores para criarem um Lucky Luke à sua imagem, à semelhança do que fez por exemplo Emile Bravo com o Spirou, no magnífico Journal D’un Ingenú, da série Spirou vu par…. É assim que vai nascer L’Homme qui Tua Lucky Luke, o livro que motiva este texto e que assinala o regresso de Mathieu Bonhomme ao Western, depois de Texas Cowboys, ao lado de Lewis Trondheim.
Nascido em Paris, em 1973, no seio de uma família ligada às artes, Bonhomme formou-se em Artes Aplicadas e iniciou-se na BD como assistente de Christian Rossi, o extraordinário ilustrador que substitui Jean Moebius Giraud como desenhador da série Jim Cutlass, o “outro” western a que o desenhador do Tenente Blueberry esteve ligado.
Grande fã do Western, Bonhomme logo no início da sua carreira abordou o género através das ilustrações que fez para o livro Contes et Recits de la Conquête de l’Ouest, editado pela Nathan em 2001, mas os seus trabalhos em BD, desde L’Age de la Raison, que lhe valeu o prémio do melhor primeiro álbum, no Festival de Angoulême de 2003, até às séries Marquis d’Anaon, Le Voyage d’Esteban e Messire Guillaume, que lhe valeu outro prémio de Angoulême, em 2010, abordavam outras épocas e outros temas, embora a aventura, mais adulta em Le Marquis D’Anaon e mais juvenil em Esteban, esteja sempre presente.
A ideia de escrever e desenhar uma aventura de Lucky Luke, não nasceu com esta oportunidade do aniversário, pois o autor é o primeiro a afirmar que “há mais de dez anos que pedia às edições Dupuis que me dessem uma oportunidade de o fazer. (…) quando fiz a enésima tentativa, não sabia que eles já estavam a reflectir na preparação dos 70 anos do personagem em 2016. Quando me apercebi que estavam receptivos à ideia, não esperei mais e mandei-lhes um dossier que acabou por os convencer. Só faltava formalizar tudo e escrever um argumento sólido e… que agradasse à editora.”
Para a disponibilidade demonstrada pela Dupuis, contribuiu, e muito, as provas já dadas no género por Bomhomme na série Texas Cowboys, criada a meias com Lewis Throndeim, a pedido do próprio Bonhomme, que queria que o prolífico argumentista lhe escrevesse um Western. Pré-publicada em capítulos na revista Spirou, como um suplemento destacável, Texas Cowboys recria a estrutura da Dime Novels, os romances de cordel que recontavam a história do Oeste, de uma forma bastante romanceada, em que a lenda se sobrepõe à História. O protagonista principal, Harvey Drinkwater, é precisamente um jornalista de Nova Iorque que vai para Forth Worth, no Texas, em busca de histórias sobre o Oeste Selvagem e que, mais do se limitar a contar as aventuras dos outros, prefere viver também ele essas aventuras, ou lado de lendas do Oeste como Sam Bass, Wyatt Earp, ou Bat Masterson.
Uma mistura entre história e lenda que encontramos também nas aventuras de Lucky Luke, personagem de ficção que se cruza frequentemente nas suas aventuras com figuras com existência real, como o Juiz Roy Bean, Jesse James, Calamity Jane, ou Billy The Kid e que, Bonhomme, a solo desta vez, aqui reinventa, de forma simultaneamente respeitosa e inovadora.
Esse respeito pela história e pela lenda (que muitas vezes se confundem) do Oeste é um elemento fundamental do trabalho de Bonhomme que refere: “queria verdadeiramente fazer um Western clássico. Queria que o Lucky Luke fosse um verdadeiro cowboy, pois ao longo do tempo, o humor tornou-se dominante na série”.
Também em termos gráficos, o trabalho de Bonhomme está mais próximo do realismo estilizado habitual nos seus trabalhos, do que do estilo mais caricatural de Morris. Como o próprio reconhece, “limitei-me a arredondar as formas do meu desenho para estar num registo mais semi-realista. Não estou muito longe do que fiz na série Esteban. Aliás, a cara de Esteban está bastante próxima da do meu Lucky Luke.”
Mas isso não o impediu de respeitar o passado de Lucky Luke, arranjando até uma explicação bastante engenhosa para o facto de o cowboy ter deixado de repente de fumar na BD, uma decisão motivada pelas exigências dos produtores de uma série de animação de Lucky Luke, de modo aos desenhos animados poderem passar na televisão americana, mas que valeu a Morris um prémio da Organização Mundial de Saúde, em 1988.
Talvez o aspecto em que Bonhomme tenha sido mais fiel ao trabalho de Morris, seja na utilização da cor. Uma cor mais narrativa e impressionista do que naturalista, que opta pela aplicação de manchas de cores planas, como o vermelho, castanho, ou azul, para destacar certos elementos e que ajuda a guiar o olhar do leitor através de uma cena, o que se revela particularmente eficaz nas cenas de multidão. Assim, o mesmo personagem pode aparecer inteiramente colorido a vermelho, amarelo, ou azul, na mesma página, ou todos os personagens podem aparecer coloridos num registo monocromático, que não tem qualquer relação óbvia com a cor dominante do cenário.
A ideia inicial de Bonhomme para a sua história, passava por revisitar o mito de OK Corral, mas dessa primeira versão apenas restou a personagem de Doc Wednesday, claramente inspirada na figura real de Doc Holliday, optando Bonhomme por contar uma história em que Lucky Luke é contratado pela população de Froggy Town para investigar o assalto a uma diligência feito por um índio e acaba por se confrontar com os diversos membros da família que domina essa cidade.
Uma história que começa precisamente com Lucky Luke abatido pelas costas no meio da enlameada rua principal de Froggy Town, com o leitor a descobrir, através do longo flash-back que se segue, o que realmente aconteceu desde a chegada de Lucky Luke à cidade, numa noite de tempestade.
Uma cena perfeitamente coreografada, que evoca no leitor a parte final do filme Imperdoável, de e com Clint Eastwood. Referência que está igualmente presente na imagem da capa do livro, em que o poncho que Lucky Luke usa não pode deixar de evocar o inconfundível vestuário do homem sem nome que Eastwood interpretou na trilogia dos dólares de Sergio Leone, cineasta a quem Bonhomme vai também recorrer na planificação do principal duelo da história, onde não faltam os grandes planos serrados dos olhos dos homens que estão prestes a bater-se e a alternância campo/contracampo. Elementos narrativos que Leone usava como ninguém e que acentuam o dramatismo dos momentos que precedem o duelo. Mas Eastwood e Leone não são as únicas referências cinematográficas presentes neste livro, que vai beber também a O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford, em termos de argumento.
Tão devedor da BD como do cinema, L'Homme qui Tua Lucky Luke, mais do que uma bela homenagem a Morris e ao seu Lucky Luke e uma maneira perfeita de comemorar os setenta anos do cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra, que também é, revela-se um excelente Western de papel, na linha dos grandes clássicos cinematográficos do género, que Bonhomme na sua juventude, devorou nas salas de cinema.
Texto publicado originalmente no nº 5 da revista do Clube Tex Portugal, em Dezembro de 2016 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Boas Festas!

Com esta ilustração de Hergé, para uma capa da revista Tintin, no ano em que se completam 70 anos sobre a criação da revista, aqui vão os meus votos de um Feliz Natal e de um excelente ano de 2017, para todos os leitores deste blog. Embora deseje já um Bom Ano, conto ainda aqui publicar mais um post, antes de 2016 chegar ao fim. Mas até lá... Feliz Natal!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sandman 11: A Vigília

E assim chegou ao fim a publicação de uma das mais importantes colecções de BD já lançadas neste país e, com ela, também os textos que sobre ela escrevi no Público. Para mim, foi um prazer espacial trabalhar na série Sandman, até por ver chegar ao fim uma edição que ficou interrompida nos meus tempos da Devir. Um agradecimento à Levoir e ao Público por me permitirem participar neste belo projecto, quase de serviço público aos leitores  portugueses de BD.

DEPOIS DO SONHO TERMINAR

Sandman – Vol. 11
A Vigília
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos –  Michael Zulli, John J. Muth e Charles Vess
Quinta, 15 de Dezembro
Por + 11,90€
Com a publicação de A Vigília, na próxima quinta-feira chega ao fim a publicação da série original do Sandman, de Neil Gaiman, corrigindo assim mais uma grave lacuna na edição de BD em Portugal.
Apesar da morte de Morfeu no volume anterior a saga de Sandman não terminou aí. Em A Vigília, Gaiman dá tempo aos leitores e a si próprio, de se despedirem condignamente das personagens que os acompanharam durante uma década. Por isso, A Vigília é centrado no velório e no funeral de Morfeu, cuja vida é celebrada e evocada por ocasião da sua morte, numa cerimónia solene a que assistem literalmente todas as personagens da série.
A ilustrar esta história em três partes e o consequente epílogo, está Michael Zulli, um extraordinário desenhador cujo traço os leitores já tinham podido apreciar em outros volumes da série, mas que aqui mostra todo o seu talento em estado puro, sem uma passagem à tinta que roubasse a espontaneidade do seu desenho inicial a lápis. Aproveitando a evolução tecnológica, A Vigília foi um dos primeiros casos de um livro colorido e impresso a partir dos desenhos a lápis, mantendo intacta toda a subtileza do sumptuoso desenho de Zulli. Um traço de grande realismo e maior elegância onde são bem evidentes as influências da pintura pré-rafaelita e simbolista.
Se a história de Morfeu e a sua substituição por um novo Mestre dos Sonhos que, na essência continua a ser o mesmo Sadman embora, na verdade não o seja, tem o final perfeito nos episódios ilustrados por Zulli, havia ainda duas histórias que Gaiman queria contar, que funcionam como continuações e codas de Lugares Instáveis e Sonho de uma Noite de Verão.
Na primeira, Jon J. Muth ilustra, usando tinta-da-china, pincel e colagens, um conto oriental que reúne o velho e novo Sandman. E finalmente, tal como ficou estabelecido em Sonho de Uma Noite De Verão, Shakespeare entrega ao Senhor dos Sonhos a segunda da duas peças que lhe prometeu, em troca da imortalidade para o seu trabalho. Essa peça é, obviamente, A Tempestade, que foi a última peça que Shakespeare escreveu sozinho.
Um final perfeito para uma série magnífica, que continuará viva na cabeça e nos sonhos dos leitores.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/12/2016

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sandman 10: As Benevolentes - Parte 2


O ÚLTIMO COMBATE DE MORFEU

Sandman – Vol. 10
As Benevolentes - Parte 2
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Marc Hempel, Teddy Kristiansen, Richard Case
Quinta, 08 de Dezembro
Por + 11,90€
Com a publicação do 10º volume de Sandman, que chega aos quiosques na próxima quinta-feira, chega ao fim a mais épica (e a maior) das histórias de Sandman, As Benevolentes, cujo inevitável desfecho vem confirmar a dimensão trágica do percurso de Morfeu, o Mestre dos Sonhos.
Um dos segredos do sucesso de Gaiman em Sandman, para além do seu talento a articular inúmeras personagens e diferentes histórias, dentro de uma narrativa global complexa, como se fosse a coisa mais simples do mundo, é a sua capacidade invulgar de harmonizar os elementos e a mitologia da tragédia clássica, com a dimensão mundana do dia-a-dia, a brevidade da vida e a importância do amor. No fundo, Os eternos e as outras divindades e criaturas mitológicas que Gaiman convocou para a saga de Sandman, são profundamente humanos nos seus comportamentos e atitudes.
Como bem refere o académico e escritor Frank McConnell, no prefácio do volume anterior: “É esta a premissa básica de As Benevolentes, e da própria saga de Sandman: a lenta realização que Sonho tem da intensidade da vida mortal, e da sua inescapável implicação nessa mesma intensidade. As Benevolentes, as Erínias, as Euménides, caçam-no ao longo deste livro porque ele matou o seu filho, Orfeu: claro, a pedido dele, mas mesmo assim matou-o. E com esse acto, Sonho entrou no tempo, escolha, culpa e remorso - entrou na esfera do que é humano.
No capítulo onze, depois de abandonar a segurança do Domínio do Sonho, a fada Nuala, que o invocou, faz-lhe a pergunta que poderá ser o segredo central da história. “Tu... queres que elas te castiguem, não queres? Queres ser castigado pela morte de Orfeu.”
E a vinheta seguinte, a resposta de Morfeu, é simplesmente a cara dele, vista de perto, sem palavras, uma cara torturada. (E já agora, um efeito que, nem um romance, nem um filme, poderiam conseguir com a mesma força, já que o romance teria de descrever a cara dele, e o filme apenas nos poderia mostrar um actor a tentar imitar aquela máscara sombria do remorso. O comic, com o estilo de desenho brilhantemente redutor de Marc Hempel, dá-nos a coisa em si.)”
E neste último parágrafo, McConnell alerta-nos para outro inegável talento de Neil Gaiman que, para além do grande escritor que a sua carreira de romancista demonstra, é alguém que tem um profundo conhecimento dos mecanismos narrativos da Banda Desenhada e que domina a linguagem da BD como poucos. A prová-lo está a escolha de Marc Hempel para desenhar esta história. Hempel, não sendo o mais vistoso, ou o mais talentoso dos desenhadores da série, bem longe disso, é alguém cujo estilo único se adequava perfeitamente ao tipo de história que Gaiman queria contar. E é precisamente esse casamento perfeito entre o texto e a imagem que torna única a linguagem da Banda Desenhada.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 02/12/2016