quarta-feira, 11 de julho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 6 - Uma Irmã

HÈLENE, OU A INICIAÇÃO SEXUAL

Novela Gráfica IV – Vol. 6 
Uma Irmã
Argumento e Desenhos – Bastien Vivès
Sexta, 04 de Agosto
Por + 10,90€
Depois de Polina, o seu trabalho mais premiado, publicado na colecção do ano passado, Bastien Vivès regressa à colecção Novela Gráfica com Uma Irmã, o seu mais recente trabalho.
Nascido em Paris em 1984, Vivès é um autor tão talentoso como produtivo e versátil, de tal maneira que aos 27 anos já tinha 11 livros publicados, tendo ganho o prémio Revelação no Festival de Angoulême em 2009, com Le Gout du Chlore e o prémio das Livrarias de BD, o Grande Prémio da Crítica da ACBD (a Associação de Jornalistas e Críticos de BD franceses) e o prémio Haxtur para a Melhor Novela Gráfica em Espanha, com Polina, que foi também adaptado (muito livremente) ao cinema, num filme que passou de forma discreta pelos cinemas portugueses.
Alternando as Novelas gráficas, com o manga europeu Last Man, ou títulos mais próximos do franco-belga tradicional, como a série história Pour L’Empire, com Merwan Chabane, ou La Grande Odalisque, um triller mesmo a pedir uma adaptação cinematográfica, Vivès tem-se afirmado como um dos grandes nomes da moderna BD franco-belga.
Uma Irmã, o livro de Vivès que motiva este texto, mostra bem o total domínio da narrativa em Banda Desenhada que Vivès conseguiu. Com um registo gráfico muito próximo do usado em Polina, este novo livro, sobre a descoberta da sexualidade por parte de um adolescente, pode provocar alguma controvérsia, nestes tempos em que  impera o politicamente correcto.
Obra de ficção, mas onde é fácil procurar referências autobiográficas, Uma Irmã é contado na perspectiva de Antoine, um adolescente tímido de 13 anos, com grande talento para o desenho que descobre a sexualidade com Hélène, uma rapariga de 16 anos que vem passar férias com a família. Mas embora haja elementos que se inspiram nas férias de infância de Vivès, que também tem um irmão mais novo, como Titi e também passava a vida a desenhar, o livro não conta apenas coisas que o autor viveu, mas sobretudo, que gostaria de ter vivido. Como o próprio refere: “Antes de eu ter nascido, a minha mãe teve um aborto espontâneo. Foi uma coisa em que eu sempre pensei. Podia ter tido uma irmã mais velha. Tive uma infância muito feliz, muito acompanhado, que me deixou boas recordações. Mas ter uma irmã mais velha podia talvez ter-me ajudado na minha relação com as raparigas. O único modelo feminino que tinha em casa era a minha mãe. Gostaria de ter tido uma maior proximidade com as raparigas. E como fazer Banda Desenhada é satisfazer os seus sonhos, fazer nascer personagens, modificar um pouco a sua história, criei para Antoine uma experiência que gostaria de ter vivido...”
Mais do que uma história de amor, Uma Irmã é uma história de descoberta, marcada pela inocência dos dois irmãos, face a uma rapariga mais velha, como Hélène, que vai ajudar Antoine a conhecer um pouco do misterioso mundo feminino Dando mais uma vez a palavra a Bastien Vivès: “queria que eles tivessem algumas relações sexuais, mas sem passar verdadeiramente ao acto. Que eles se descobrissem um ao outro, como o poderiam fazer uma irmã mais velha e o seu irmão. Sem nada de violento, ou de agressivo entre eles. Os três juntos, vão formar uma pequena família onde a Hélène se vai sentir bem desde o início.”
Graficamente, o traço de Vivès estão cada vez mais depurado e sensual, transmitindo uma sensação de leveza e simplicidade. Um desenho diáfano a preto e branco (com o cinzento, como segunda cor, a dar volume) que sugere, mais do que mostra, como fica evidente em pormenores tão simples, como apenas desenhar os olhos das personagens quando é estritamente necessário para a narrativa, o que dá uma força muito maior a esses olhares. Também as cenas eróticas são tratadas com grande elegância e sobriedade, evitando cair num registo pornográfico, que seria muito mais difícil de evitar com um traço mais realista.
História de grande subtileza e ambiguidade sobre a adolescência, o desejo e o sentido de família, Uma Irmã confirma a maturidade e o talento de um grande autor.
Publicado originalmente no jornal Público de 07/07/2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 5 - O Farol/ O jogo Lúgubre

OS PRIMEIROS PASSOS DE UM GRANDE AUTOR

Novela Gráfica IV -   Vol. 5 
O Farol e O Jogo Lúgubre
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Quarta-feira, 04 de Julho
Por + 10,90€
Depois de O Inverno do Desenhador, Os Trilhos do Acaso e A CasaPaco Roca, um dos mais importantes e premiados autores espanhóis da actualidade, regressa com naturalidade à colecção Novela Gráfica com um volume que recolhe duas histórias anteriores a Rugas, que foi o título que o lançou a nível internacional. São elas O Farol, de 2004, e O Jogo Lúgubre, de 2001. Trabalhos que surgem nas suas versões mais recentes, pois Roca, de cada vez que reedita um dos seus livros, faz questão de introduzir alterações.

O Farol, história que abre este quinto volume, tem como protagonista Francisco, um jovem soldado republicano que tenta escapar da guerra civil. Na sua fuga, ele vai ser salvo de morrer afogado por Telmo, o excêntrico faroleiro de um farol desactivado, num lugar isolado da costa, perto da fronteira com França. E é precisamente Telmo que vai guiar Francisco numa jornada iniciática pelos clássicos da literatura de aventura, de As Viagens de Gulliver, às 20.000 Léguas Submarinas, passando pela Ilha do Tesouro, até à Odisseia. Essa dimensão literária é acentuada pela citação que fecha a história, não identificada na BD, mas que, como Roca refere no prefácio, pertence ao conto de Jorge Luís Borges, História dos dois que sonharam, incluído no livro História Universal da Infâmia. Um belíssimo conto inspirado nas Mil e Uma Noites e que serviu também de inspiração a Paulo Coelho para o seu Alquimista. Publicado originalmente num registo de bicromia, em que ao preto e branco se junta um azul acinzentado, que nas edições mais recentes, como a da Levoir, passou a um azul mais marinho, O Farol é uma bela homenagem de Paco Roca às leituras da sua infância, uma canção em favor da liberdade e da imaginação.
Em O Jogo Lúgubre, o seu primeiro trabalho como autor completo, Roca fez uma incursão pelo terror. Como o próprio reconhece, o ponto de partida foi o Drácula de Bram Stoker, romance epistolar incontornável, cuja influência em O Jogo Lúgubre é evidente até no nome do protagonista, Jonás Arquero, tradução livre para espanhol de Jonathan Harker, o narrador do romance de Stoker.
Mas deixemos que seja o próprio Paco Roca a contar como tudo se passou: “Provavelmente o ponto de partida foi o romance Drácula, de Bram Stroker (…) Tentei perceber como Bram Stoker tinha conseguido converter um herói romeno real no ícone do terror que todos conhecemos. Pensei que se poderia usar esse tratamento com outra personagem real. Alguém misterioso, excêntrico, que nos pudesse inquietar. A primeira opção foi Gaudí, um homem solitário, muito religioso, ligado à maçonaria e que viveu os últimos anos de vida na catedral que estava a construir.
A história podia ser algo como O Fantasma da Ópera, ou O Museu de Cera, mas na Sagrada Família. Mas acabei por encontrar uma personagem que podia dar mais luta e com umas motivações que podia entender melhor. Além disso, ajustava-se perfeitamente ao Drácula. Era uma pessoa que vivia num lugar perdido e de difícil acesso, que escandalizava os seus habitantes, que o não percebiam e habitava uma casa velha junto a um cemitério. Uma personagem cuja moral estava à margem da sociedade da sua época e inclusive, como ele dizia, necessitava do contacto da sua terra natal para poder viver. Essa personagem era Dalí.”
Dalí que, por questões legais aparece com outro nome, mas que surge em O Jogo Lúgubre, de uma forma que certamente lhe agradaria, como agradará aos leitores de Roca.
Publicado originalmente no jornal Público de 30/06/2018

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 4 - Calipso

UMA SEREIA NOS ALPES SUÍÇOS

Novela Gráfica IV - Vol. 4 
Calipso
Argumento e Desenhos – Cosey
Quarta-feira, 27 de Junho
Por + 10,90€
O quarto volume da série de 2018 da colecção Novela Gráfica, assinala o regresso de Cosey, autor vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 2017, pelo conjunto da sua obra, com Calipso, o seu mais recente trabalho, em que regressa aos Alpes suíços, que já tinham sido cenário de Em Busca de Peter Pan, título publicado na primeira colecção de Novelas Gráficas que o Público e a Levoir lançaram em 2015.
Nascido em 1950, perto de Lausanne, na Suíça, como Bernard Cosandey, Cosey, estreou-se na BD no início dos anos 70, pela mão do seu compatriota Derib, o criador de Yakary e Buddy Longway. Justamente conhecido e premiado pelo seu trabalho na série Jonathan, título incontornável da revista Tintin, e por novelas gráficas como o já citado Em Busca de Peter Pan, O Buda Azul, Viagem a Itália, Orchidea, ou Saigon-Hanoi, Cosey, em Calipso, mantém-se fiel ao seu universo criativo, mas inclui uma novidade assinalável no seu trabalho, o uso do preto e branco.
Essa primeira incursão pelo preto e branco, ao fim de quase cinquenta anos de carreira e mais de uma vintena de livros, foi nas palavras do próprio Cosey “o concretizar de um velho sonho” e também “uma forma de se surpreender”. Inspirado  pelas gravuras em madeira de Félix Valloton, de que é um admirador confesso, Cosey optou por “trabalhar o branco e o preto como duas cores, sem ter em conta as sombras nem a iluminação”. O resultado são páginas de alto contraste, em que as imagens atingem por vezes um elevado grau de abstraccionismo e uma dimensão gráfica impressionantes - bem evidente nas páginas iniciais e finais -  sem abdicar da legibilidade e fluidez da narrativa, que são marcas incontornáveis do seu trabalho.
Em termos de história, temos uma narrativa crepuscular, marcada pela nostalgia, protagonizada por personagens que, tal como o próprio Cosey, que já tem 68 anos, já deixaram a juventude bem para trás, mesmo que esses tempos deixem marcas indeléveis. É o que acontece com Gus, e com o seu amigo Pepe – um espanhol que na Suíça procura arranjar dinheiro para regressar à Catalunha e abrir um restaurante de fondues - que numa aldeia nos Alpes suíços assistem na televisão à retransmissão de Calipso, filme mítico protagonizado pela actriz Georgia Gould, cujo papel de sereia nesse filme lhe abriu as portas de Hollywood. Na realidade, Georgia Gould não é outra senão Georgette Schwitzgebel, com quem Gus viveu uma ardente paixão na adolescência. Mais tarde, no jornal local, Gus descobre que a Geórgia está de volta à Suíça, tendo-se instalado no Hotel Edelweiss, uma luxuosa e discreta clínica, à beira do lago Leman, especializada no tratamento de adições, para mais uma desintoxicação. Quando a visita, Gus fica convencido de que o amor da sua juventude está completamente dependente do director da clínica, que é também o seu tutor e controla a sua fortuna. É então que ela lhe propõe que ele a rapte para exigir um resgate, que lhes permita regressar a Nova Iorque e reviver o amor da juventude. Um plano tão ingénuo como arriscado que, inevitavelmente acabará por não correr como o previsto… até porque o destino intervém de forma inesperada.
Um regresso em grande forma de Cosey, pleno de humanidade e nostalgia que, graças à Colecção Novela Gráfica, sai em Portugal poucos meses depois da edição original francesa.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 23/06/2018

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Colecção Novela gráfica IV 3 - O Fantasma de Gaudí


O ARQUITECTO, A CIDADE E O SERIAL KILLER

Novela Gráfica IV - Vol 3
O Fantasma de Gaudí
Argumento – El Torres
Desenhos – Jesús Alonso Iglesias
Quarta-feira, 20 de Junho
Por + 10,90 €
Confirmando a extraordinária vitalidade da actual Novela Gráfica espanhola, o terceiro volume desta nova colecção traz-nos mais dois autores espanhóis (quase) desconhecidos em Portugal, com O Fantasma de Gaudí, um emocionante e divertido triller, centrado na obra de Antoni Gaudí, o famoso arquitecto catalão, cuja arquitectura única, marca de forma indelével a cidade de Barcelona.
Publicado originalmente em Espanha em 2015, O Fantasma de Gaudí venceu o prémio de Melhor Livro de Autor Espanhol no Salão del Comic de Barcelona de 2016 e está nomeada para o Prémio Eisner de Melhor Novela Gráfica Estrangeira, a atribuir em Julho na Comic Con de San Diego. Distinções merecidas para uma história muito bem construída, que aproveita uma intriga policial, que envolve um misterioso serial killer e o inspector da polícia que o persegue, para nos dar a descobrir por dentro a arquitectura de Gaudí e a sua ligação com a cidade de Barcelona, levando o leitor a visitar obras-primas da arquitectura gaudiana, como a Casa Vincens; os Pavilhões, o Palácio e o Parque Guell; a Casa Calvet; a Casa Batlló; a Casa Milà, mais conhecida como La Pedrera e, naturalmente, a inacabada Catedral da Sagrada Família, onde tem lugar o confronto final.
Tudo começa quando Antonia, uma caixa de supermercado, salva um velho de morrer atropelado, precisamente no mesmo local onde Gaudí morreu atropelado por um eléctrico em 1926. O mesmo Gaudí, cuja obra fica no centro de uma investigação policial, quando começam a surgir cadáveres mutilados, em edifícios emblemáticos de Barcelona, projectados pelo arquitecto catalão.
Famoso pelas suas histórias de terror, o argumentista Juan António Torres, mais conhecido por El Torres, tinha aqui um desafio complexo, que lhe foi proposto pelo seu editor. Como refere no posfácio do livro: “Possivelmente esta foi a história mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais fácil que escrevi até hoje. Difícil porque, imagina, estás sentado aí com as tuas coisas, e liga-te Ricardo Esteban, que te aguenta as penúrias e te paga os direitos, e essa pessoa diz-te: “Quero que façamos um livro de Gaudí”.
E dizes-lhe que sim. Demoras dois anos a escrevê-lo. Apesar de Gaudí fazer sempre parte das maravilhosas visitas a Barcelona, nunca tinha conhecido a sua vida em pormenor. Mas, claro, agora tinha uma história entre mãos. Tinha de entender a sua arquitectura, conhecer a sua vida. Era hora de pôr mãos à obra.
Senti-me angustiado. A dimensão da sua arte é gigantesca, quase impossível de estudar na sua totalidade.
Não podia escrever uma biografia. Não é o meu género favorito e, diga-se a verdade, vi-me incapaz de escrever uma história interessante baseada na sua vida.
Assim, teria de ser ficção. Ficção sobre Gaudí, sobre a sua obra. (…) Mais uma vez, senti-me angustiado. Foi assim que me senti, com todos e cada um dos protagonistas de O Fantasma de Gaudí. Odiava-o e amava-o ao mesmo tempo. Deixei os livros e deslumbrei-me quando pude a visitar as suas obras. Embrenhei-me na Casa Battló (não tanto como a personagem), para verificar se podia subir pelas escadas de saída, ia e vinha e a história não saía. Estive quase a dizer ao Ricardo que desistia. E de repente surgiu. Um assassino que em simultâneo odeia e ama Gaudí. Que se sente tão confuso e aborrecido quanto eu. De toda essa confusão de sentimentos surgiu esta banda desenhada.”
Uma bela banda desenhada, diga-se, muito bem ilustrada de forma dinâmica por Jesús Alonso Iglesias, com um estilo semi-caricatural no tratamento das personagens e realista nos cenários marcados pela espectacular arquitectura de Gaudí. Uma obra que prende e faz pensar o leitor e que está mesmo a pedir por uma adaptação ao cinema.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 16/06/2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Colecção Bonelli 10 - Dylan Dog: Os Inquilinos Arcanos

No caso deste último volume da colecção Bonelli, o texto que saiu no jornal Público é apenas uma versão reduzida, a menos de metade, do texto que tinha escrito originalmente. Como felizmente na Net não existem problemas de espaço, deixo-vos com a versão integral do último texto da colecção da Levoir que me deu mais gozo co-coordenar. Uma colecção que dificilmente teria sido possível sem o apoio do José Carlos Francisco, Mário João Marques e (em menor escala) do Pedro Bouça e Pedro Cleto, a quem agradeço.


DYLAN DOG ENCERRA COLECÇÃO BONELLI

Colecção Bonelli - Vol 10 
Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Quinta-feira, 14 de Junho
Por + 10,90€
Depois de ter protagonizado o terceiro volume, com o clássico Johnny Freak, Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção dedicada à editora Bonelli, num volume com prefácio do argumentista/pianista/compositor/realizador Filipe Melo - cuja série de culto, Dog Mendonça é uma assumida homenagem a Dylan Dog - que recolhe três histórias curtas a cores. A primeira, Os Inquilinos Arcanos, é uma história em três capítulos autónomos, mas que se completam, publicada originalmente na revista Comic Art, entre 1990 e 1991. Assinada por Tiziano Sclavi, o seu criador e por Corrado Roi, um dos melhores desenhadores da série Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos centra-se nos estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres, o condomínio Castevet, e que Dylan Dog vai investigar.
Apesar do número reduzido de páginas - para os padrões da Bonelli, em que as histórias têm normalmente 96 páginas - de cada capítulo, todos os elementos que caracterizam o trabalho de Sclavi estão presentes de forma concentrada, começando pelo humor negro, o toque surreal e as homenagens e citações. Na primeira história, O Fantasma do Terceiro Andar, cujo clima de paranóia vai beber muito ao filme O Apartamento, de Roman Polanski, as referências ao realizador são evidentes, começando na citação de Polanski que abre a história e terminando no nome, Trelkovski - que é o apelido do personagem interpretado pelo próprio Polanski em O Apartamento - que o porteiro dá a um inquilino que se chama… Kowalski, O mesmo sucede em O Apartamento nº 13, onde Sclavi homenageia simultaneamente o escritor Cornell Woolrich e o cineasta Frank Capra, cujo filme, Do Céu Caiu uma Estrela, os personagens vão ver ao cinema, numa história sobre um homem que descobre que não existe.  Comic Art, que lhe permite encaixar quatro tiras por prancha, em vez das três habituais nas revistas da editora italiana.
Ilustrada por Corrado Roi, que assegura também as belas e inesperadas cores, esta história em três partes tem também a singularidade de ser umas das raras aventuras de Dylan Dog em que este troca a habitual camisa vermelha, que se tornou a sua imagem de marca, por uma simples camisa branca. Em termos gráficos, o trabalho de Roi é fabuloso, perfeito na criação do ambiente opressivo das histórias e aproveitando muito bem o formato maior (do que o habitual formato Bonelli) da revista
As outras duas histórias que completam esta edição, foram publicadas na revista Dylan Dog Color Fest, um título mais experimental, que possibilita a autores que normalmente não colaboram com a Bonelli, a oportunidade de assinar histórias de Dylan Dog.
È o que acontece em O Grande Nevão, história que assinala a estreia do argentino Enrique Breccia (A Vida do Che, Tex: Capitan Jack) na Bonelli, aproveitada pelo argumentista Luigi Mignaco para fazer uma bela homenagem à mais importante BD argentina, El Eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, a história de um ataque extraterrestre a Buenos Aires, que começa precisamente com um nevão que mata todos aqueles que são tocados pelos flocos de neve.
Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi. Uma história com uma sensibilidade bem feminina, escrita por uma leitura e fã de Dylan Dog que, tal como aconteceu com Paola Barbato, se tornou uma das principais argumentistas da série e ilustrada com uma delicadeza também feminina, mas que não esconde as claras influências do irmão, por Nives Manara, a irmã mais nova do mestre do erotismo, Milo Manara.
Três abordagens bem diferentes, que demonstram as infinitas possibilidades que uma personagem com Dylan Dog permite, tal como aconteceu com Tex no volume que abriu esta colecção. Uma bela colecção, que nos deu a conhecer um pouco melhor, a melhor editora italiana.
Versão integral do texto publicado no jornal Público de 09/06/2018