quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Um punhado de imagens do Viñetas desde o Atlântico 2017

Treze anos depois, regressei finalmente ao Viñetas desde o Atlântico, o Festival de BD da Corunha organizado por Miguelanxo Prado, com uma equipa que inclui Carlos Portela e Melo Melowsky (que é também o responsável pela área de BD da Comic Con portuguesa)  e que é, a par com o Festival de Beja, o mais simpático Festival de BD em que estive. Ao contrário da edição de 2004, onde estive como convidado, acompanhando uma exposição dedicada ao 25 de Abril na BD Portuguesa, que comissariei, desta vez regressei como simples turista, apanhando apenas os últimos dias do Festival, com a programação oficial praticamente terminada, o que me impediu de reencontrar alguns amigos e conhecidos e de apanhar a última sessão de autógrafos com os autores presentes, que estava a terminar no momento em que eu estava a chegar à Coruña, por volta das 14h de sábado.
E aqui fica um aviso para os visitantes que forem de Portugal: no Viñetas respeitam mesmo a hora da siesta tão tipicamente espanhola. Entre as 14h e as 18h todos os espaços de exposição estavam fechados, tal como as lojas da Rua da BD, o espaço junto ao Kiosco Alfonso, onde estão instalados os stands das editoras e das livrarias galegas.
O lado bom de ter chegado no "fim da festa", é que, com excepção da Biblioteca Salvador de Madariaga, que estava fechada ao domingo. acabei por guardar a minha visita às exposições e à área comercial, para a manhã de domingo, onde havia muito menos gente no que no sábado à tarde, o que permitiu visitar as exposições com outra calma.
Contando com o Kiosco Alfonso como núcleo principal, as exposições estavam espalhadas também por outros lugares próximos, como a Fundacion Barrié, ou novo edifício Palexco, situado junto ao mar e também para outros lugares mais distantes, como a Torre de Hércules, símbolo icónico da Coruña, onde estava uma exposição dedicada aos 20 anos de cartazes do festival, que incluía o magnífico cartaz de Das Pastoras para a edição deste ano, que não tive oportunidade de visitar.
Mas as melhores exposições estavam no Kiosco Alfonso, o coração do Festival, que albergava pranchas originais (e impressões digitais) de Dave Mckean, Ralph Meyer, Eduardo Risso, Julie Rocheleau e o galego Kiko da Silva.
Mckean apresentou os quatros projectos de BD em que está a trabalhar neste momento e que, com excepção de Black Dog, ainda não foram publicados e que além de Caligaro, um projecto em que o desenhador trabalha desde a sua passagem pelo Festival de BD de Beja, inclui também um projecto feito em parceria com Roger Dean, o conhecido ilustrador das capas dos discos de bandas de rock sinfónico como os Yes.
Ralph Meyer concentrou a sua exposição na série Undertaker, o popular Western criou com Dorrison  e que é um dos melhores exemplares actuais da BD de aventura clássica franco-belga e os seus originais a preto e branco são magníficos, tal como as suas pinturas a cores. Eduardo Risso apresentou uma exposição antológica, que incluía trabalhos mais antigos como Parque Chas, ou Fulú, até títulos mais recentes como Moon Shine, ou Torpedo 1972, em que retoma o famoso (anti)herói de Abuli e Bernet. Mas, para mim, a grande surpresa da exposição de Risso, foram os magníficos originais a cores de 1950, uma história de 2010 que, presumo, terá sido a sua última colaboração com Carlos Trillo.
Se Meyer, McKean e Risso são autores cujo trabalho conheço bem, já Kiko da Silva, de quem conhecia apenas o divertido O Inferno do Desenhador, foi uma muito agradável surpresa, pela qualidade e versatilidade do seu trabalho, que não se limita ás duas dimensões da BD. Outra belíssima surpresa foi o trabalho (inteiramente digital) da canadiana Julie Rocheleau, que tem feito carreira na BD franco-belga e que revela um traço de grande elegância, excelente sentido de composição e um trabalho de cor tão inesperado como espectacular.
A nível das exposições que visitei, destaque ainda para a mostra dedicada os 10 Anos do Prémio Nacional del Comic, que incluía várias obras já publicadas em Portugal, como A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, Ardalém, de Miguelanxo Prado, Rugas, de Paco Roca, e Blacksad: Amarillo, de Guarnido e Diaz Canales. 
A parte comercial, para além de dar para perceber que, entre franceses, japoneses e americanos, praticamente tudo o que de importante se publica no mundo está disponível em espanhol, mas as minhas compras centraram-se na BD espanhola em geral e na BD galega em particular. E aqui, merece destaque a revista La Resistência, publicada pela editora Dibbuks, que neste sexto número tem 128 páginas de BD e recolhe histórias de mais de uma vintena de autores.
Mas para além dos espaços do Festival, a BD está bem presente na Coruña, seja através das estátuas de personagens de BD (algumas bastante mais conseguidas do que outras), seja nos grafittis, ou num espaço como a Pulperia de Melide, um restaurante onde servem exclusivamente polvo à galega, cujas paredes estão decoradas com desenhos dos autores que passaram pelas Viñetas do Atlântico.

                 Uma escultura de Blacksad, junto a um dos núcleos do Viñetas

                                 O fantástico trabalho de Julie Rocheleau
                                  1950. A última (?) colaboração de Trillo e Risso
                                             Black Dog, de Dave McKean
 Original de Bardin, de Max, um dos vencedores do Prémio Nacional de Comic
                           Uma parede da Pulperia de Melide cheia de desenhos
                                   Algumas das BDs que trouxe da Coruña

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 7 - Dylan Dog: Mater Morbi

Tal como aconteceu com Ronin, também neste Mater Morbi, que assinala a estreia de Dylan Dog em edição nacional, tive o privilégio de fazer a tradução e o prefácio do volume, para além da coordenação editorial, o que teve um sabor especial, dado Dylan Dog ser uma das minhas séries de BD favoritas, como é fácil de perceber, pelos vários posts que já lhe dediquei. Por isso, deixo-vos com o texto de introdução que escrevi para o volume, em vez do habitual texto do Público, que pode à mesma ser lido, bastando para tal carregar na imagem.

COM MATER MORBI,
DYLAN DOG CHEGA FINALMENTE A PORTUGAL

Novela Gráfica III – Vol. 7 
Dylan Dog: Mater Morbi
Argumento – Roberto Recchioni
Desenhos – Massimo Carnevale
Sexta, 11 de Agosto
Por + 9,99€

NOSSA SENHORA DO SOFRIMENTO

A história que vão poder ler a seguir é muito importante por duas razões. Primeiro, por assinalar a estreia em edição nacional de Dylan Dog, o popular detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli em 1986 e que, mais de trinta anos depois da sua estreia, se mantém como um verdadeiro fenómeno de culto e uma das mais importantes e populares séries dos fumetti (nome dado à banda desenhada em Itália). Para além da importância histórica desta edição, Mater Morbi é também uma das melhores histórias de Dylan Dog da última década (o que, tendo em conta que se publicam perto de uma vintena de histórias do investigador do pesadelo todos os anos, não é coisa pouca…) e a mais publicada a nível internacional.
Mas antes de nos determos em Mater Morbi, convém traçar um quadro geral dos fumetti da Bonelli, de que a série Dylan Dog é um dos marcos. E o segredo do sucesso das publicações de Sergio Bonelli, alicerçado na popularidade do cowboy Tex, criado pelo seu pai, Gian Luigi Bonelli e pelo desenhador Aurelio Galleppini, consistiu precisamente em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com perto de uma centena de páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada na Itália nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli propôs aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, dedicadas aos mais diversos géneros, do Western, ao policial, passando pela ficção científica e pelo terror, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliados a um leque necessariamente bem mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos. Durante um curto período na década de 90, a série Dylan Dog chegou mesmo a ultrapassar o meio milhão de exemplares mensais, superando as vendas de Tex e de Topolino (a revista do rato Mickey) e afirmando-se como a BD mais vendida em Itália, algo só possível graças a um público fiel e heterogéneo. Um público, que não se restringe aos leitores habituais de BD e que engloba também muitas mulheres, fãs do cinema de terror, que Sclavi citava abundantemente, quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco, fã assumido de Dylan Dog.
Neste tipo de estrutura de produção, o papel do argumentista é bem mais importante do que o do desenhador, que vai variando, com vários desenhadores a trabalharem em simultâneo na série, de maneira a assegurarem a produção de quase cem páginas por mês, que podem levar perto de um ano a desenhar. Por isso, embora ele diga que se identifica mais com os monstros, Tiziano Sclavi, que durante a primeira década da série assegurou a escrita da maioria dos argumentos de Dylan Dog, supervisionando os restantes, tal como Gustave Flaubert, que dizia que a Madame Bovary era ele, é Dylan Dog. Daí que, com o gradual afastamento de Sclavi da escrita da série, motivado pela dificuldade cada vez maior em escrever novas aventuras para o (anti)herói que criou, a mesma tenha decaído em popularidade (e qualidade).
Coube ao editor Mauro Marcheselli a espinhosa tarefa de encontrar novos argumentistas capazes de preencher o vazio deixado por Sclavi. Um deles foi precisamente Roberto Reccchioni. Argumentista, desenhador, jornalista e escritor, Recchioni trabalhou para as principais editoras italianas, da Disney à Bdb Presse, onde se estreou, passando pela Panini, Eura Editoriale, Comic Art, Rizzoli, Magic Press e Bonelli, onde, para além da série Dylan Dog, escreveu argumentos para Tex, Gli Orfani e Le Storie. Antes de Mater Morbi, Recchioni tinha escrito apenas duas histórias de Dylan Dog: uma longa, ilustrada por Bruno Brindisi para a série mensal, e uma curta a cores, que Massimo Carnevale ilustrou para o número inaugural da nova revista Dylan Dog Color Fest.
Foi Marcheselli que era leitor assíduo do blogue de Recchioni onde ele descrevia os seus frequentes problemas de saúde, que o levaram por diversas vezes a uma cama de hospital, que se lembrou que ele, que estava sempre doente, seria a pessoa ideal para escrever uma aventura de Dylan Dog sobre doenças. Um tema que ia de encontro ao que o próprio Recchioni queria fazer na série pois, como refere numa entrevista: “creio que para se fazer algo de relevante com o personagem de Sclavi, é necessário que alguém sofra. Pode ser o argumentista, o desenhador, ou o personagem, mas pelo menos um dos três tem de passar realmente mal, expor-se, arriscar-se, sofrer. E essa história, que acabaria por ser Mater Morbi, proporcionava-me a oportunidade de passar realmente mal.”
Para dar vida aos temores mais íntimos de Recchioni, que usou a figura fantástica de Mater Morbi para tratar de forma metafórica temas bem reais como a solidão dos doentes e o encarniçamento terapêutico, estava o desenhador romano Massimo Carnevale que, para além da história curta para o Dylan Dog Color Fest #1, já tinha trabalhado com o argumentista em John Doe e Detective Dante, duas séries co-criadas por Recchioni. Apesar de uma agenda sobrecarregada pelas suas colaborações para o mercado americano, para onde realizou ilustrações para as capas de séries como Y the Last Man, Northlanders e Conan, the Barbarian, Carnevale não resistiu ao desafio de acompanhar o escritor nesta dura viagem ao coração da dor, onde reina Mater Morbi, a divindade sombria que se alimenta do sofrimento dos doentes, realizando um trabalho gráfico excepcional.
Resultado de um processo de colaboração quase orgânico entre o desenhador e o argumentista, apenas perturbado por divergências quanto à aparência de Mater Morbi, que Carnevale via mais como uma mistura entre “uma criatura de Giger e a Rainha dos Borg”, Mater Morbi veria a luz do dia em Dezembro de 2009, no #280 da série mensal Dylan Dog, com sucesso imediato.

O impacto de Mater Morbi não se restringiu ao mundo dos comics e a história esteve na origem de uma acesa polémica na comunicação social, quando a subsecretária da Saúde da altura, Eugenia Rocella, que não tinha lido o livro, veio acusar Mater Morbi de ser uma “ode à eutanásia e ao culto do super-herói”, acabando mais tarde por se retractar na primeira página do Corriere della Sera, admitindo que a história tocava temas de discussão muito importantes, sobretudo em termos da relação médico/paciente. Depois disso, Mater Morbi teve direito a uma edição de luxo da editora Bao (que serviu de base a esta edição da Levoir) e foi publicada em diversos países, incluindo nos E.U.A., onde arrebatou o Ghastly Award para Melhor Novela Gráfica de Terror publicada em 2016.
Mas para Recchioni, que é actualmente o editor responsável pela renovação da série Dylan Dog, o mais importante foi a reacção de Tiziano Sclavi, que disse que a história era verdadeiramente assustadora e quis conhecê-lo. Como Recchioni recorda no livro Dylan Dog Diary, publicado por ocasião do trigésimo aniversário da série: “A coisa que me deixou mais orgulhoso foi que, depois de ter lido a história, Tiziano Sclavi quis conhecer-me e deu-me os parabéns.
Mater Morbi, para mim, mudou tudo. E, de alguma maneira, tendo em conta o cargo que ocupo actualmente, mudou muita coisa também para Dylan Dog.”

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 6 - K.O. em Telavive


NA CABEÇA DE ASAF HANUKA

Novela Gráfica III – Vol. 6 
K.O. em Telavive
Argumento e Desenhos – Asaf Hanuka
Sexta, 04 de Agosto
Por + 9,99€
Uma das preocupações das colecções de Novelas Gráficas que têm saído com o Público desde 2015, tem sido mostrar que a Banda Desenhada de qualidade não se limita às produções franco-belgas, americanas, ou japonesas. Criadores de países mais periféricos em relação aos grandes centros de produção de BD, como a Argentina, Brasil, Espanha e Itália têm estado presentes em todas as colecções e, agora chegou a vez de alargar ainda mais os horizontes, até à Banda Desenhada israelita, de que K.O. em Telavive, de Asaf Hanuka é um digno representante.
Embora não tão conhecido como a sua compatriota Rutu Modan (Exit Wounds e The Property), Asaf Hanuka tem várias obras publicadas no Ocidente, tanto a solo, como em colaboração com o seu irmão gémeo, Tomer, embora, neste caso, o método de colaboração seja naturalmente muito diferente do dos gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá (presentes na série II das Novelas Gráficas com Daytripper), pois Tomer vive em Nova Iorque desde os 22 anos, enquanto Asaf continua a viver em Telavive.
Nascido em Telavive em 1974, Asaf Hanuka estudou BD na escola Émile Cohn, em Lyon, em França e estreou-se profissionalmente enquanto cumpria o serviço militar obrigatório, ilustrando histórias curtas do escritor israelita Edgar Keret, com quem voltaria a colaborar em Pizzeria Kamikaze, obra nomeada para os Prémios Eisner de 2007. Além das colaborações com o seu irmão Tomer, com quem criou a série Bipolar e a novela gráfica The Divine, Hanuka trabalhou também com o escritor francês (e colaborador habitual de Tardi) Didier Daeninckx em Carton Jaune, uma BD editada em França em 1999. Mas a actividade do autor não se limita apenas à BD, pois além de ter participado (tal como o seu irmão Tomer) no filme de animação Waltz with Bashir, Asaf Hanuka tem também uma carreira de sucesso como ilustrador, tendo publicado em revistas como a Rolling Stone, Fortune, New York Times, Wall Street Journal, Time, Forbes e Newsweek, entre outras.
K.O em Telavive nasceu em 2010 como uma página semanal publicada em Calcalist, uma revista de negócios israelita, a convite do editor Amir Ziv, com quem Hanuka já tinha trabalhado. Como o próprio refere: “Começou como uma BD autobiográfica sobre a dificuldade da nossa família em encontrar um lugar para morar em Tel Aviv. Depois de alguns meses a fazer a página, o ângulo financeiro ficou um pouco aborrecido e então comecei a escrever sobre o que me aconteceu durante a semana. O editor aceitou essa mudança e até a encorajou. Eu lembro-me de uma vez em que enviei uma história agradável com um final bonito e ele me disse que o meu trabalho é mais interessante quando é sombrio e um pouco enigmático. Ou seja, tive o seu apoio total para fazer o que queria.” Também em termos gráficos essa liberdade é evidente, com o autor a alternar uma estrutura tradicional de nove quadrados por página, com vistosas imagens de página inteira, tudo servido por um excelente e inesperado trabalho de cor, que tem também uma função narrativa importante.
Retrato irónico, divertido e onírico de um ilustrador que é simultaneamente, marido, pai e cidadão israelita, com tudo o que isso implica, K.O em Telavive funciona também como uma forma quase terapêutica do autor confrontar os seus medos e frustrações. Nas palavras do próprio Hanuka: “A melhor maneira que tenho de lidar com alguma coisa, é tentar dividi-la em nove quadrados e encontrar algum tipo de lógica narrativa. Uma vez que está na página, o monstro, que estava escondido nas sombras, é menor porque agora está visível. Isso ajuda-me a ter uma perspectiva e a perceber o que realmente está a acontecer. Às vezes eu acabo uma página e nem tenho certeza sobre o que é exactamente, mas sinto-me aliviado. É assim que sei que funciona.”
Texto publicado originalmente no jornal Público de 29/07/2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Novela Gráfica III 5 - Polina


A DANÇA E A VIDA

Novela Gráfica III  
Vol. 5 
Polina
Argumento e Desenhos – Bastien Vivès
Sexta, 28 de Julho
Por + 9,99€
Polina, a novela gráfica que chega aos quiosques na próxima sexta-feira, assinala a estreia em Portugal de Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD francesa. Nascido em Paris em 1984, Vivès é um autor tão talentoso como produtivo e versátil, de tal maneira que aos 27 anos já tinha 11 livros publicados, tendo ganho o prémio Revelação no Festival de Angoulême em 2009, com Le Gout du Chlore. Mas Polina, publicado originalmente em França em 2011 é o seu trabalho mais premiado, tendo arrebatado o prémio das Livrarias de BD, o Grande Prémio da Crítica da ACBD (a Associação de Jornalistas e Críticos de BD franceses) e o prémio Haxtur para a Melhor Novela Gráfica em Espanha.
Centrado na vida de Polina Oulinov, uma jovem bailarina russa, desde a sua entrada na Academia do Professor Bojinski, até à idade adulta, Polina é uma história de crescimento, ou um  bildungsroman para usar um termo mais preciso (e erudito), contada com grande simplicidade e emoção e um rigor narrativo ímpar.
Um dos pontos-chave do livro é a relação entre Polina e Bojinski, que apesar da rigidez dos modos, assume uma dimensão quase paternal, com Bojinski a substituir de algum modo o pai de Polina, que está totalmente ausente da história. A forma como Vivès explora a relação entre os dois é uma prova do seu génio narrativo. Repare-se como nunca vemos o olhar de Bojinski, escondido atrás dos óculos, traduzindo a distância entre o professor e o aluno que ele cultivava e, quando finalmente ele tira os óculos e encara Polina, percebemos que esta mantinha a mesma imagem idealizada de Bojinski de quando o tinha conhecido pela primeira vez, que pouco coincidia com a imagem real do velho que estava à sua frente.
Há um conselho dado por Bojinski a Polina, que assenta como uma luva ao traço de Vivès: "Mais leveza. Isto deve parecer fácil. É importante que “pareça” fácil. As pessoas não devem ver mais nada, para além da emoção que queres fazer passar". E é precisamente essa sensação de leveza e simplicidade que o desenho extremamente sintético de Vivés transmite. Um desenho diáfano a preto e branco (com o cinzento, como segunda cor, a dar volume) que sugere, mais do que mostra, mas que consegue recriar no papel, todo o movimento, a beleza e a elegância da dança.
Ao mesmo tempo que o livro chega aos quiosques, chega também às salas de cinema portuguesas o filme que o adapta. Um filme que o produtor Didier Creste propôs que fosse o próprio Vivès a realizar, mas que acabaria nas mãos de Angelin Preljocaj e Valèrie Muller, um casal com grande experiência no ballet e na dança contemporânea que, curiosamente tinham sido os responsáveis pela coreografia e encenação de Branca de Neve, o primeiro bailado que Bastien Vivès viu enquanto preparava o livro Polina. Com um elenco que inclui Juliette Binoche e a bailarina russa Anastasia Shevtsova no papel de Polina, Polina, o filme, serviu para reconciliar Vivès com o cinema e permitirá aos leitores verem os seus desenhos ganhar (ainda mais) vida.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 22/07/2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Bernie Wrightson em destaque na revista Bang!

Desde dia 20 de Julho que está disponível nas lojas FNAC de todo o país, mais uma número da revista Bang!. Como é tradição, colaboro na revista desta vez com um texto de evocação de Bernie Wrightson, o mestre do terror nos comics e na ilustração recentemente falecido, que posteriormente disponibilizarei aqui no blog.
Mas naturalmente, esse não é o único motivo de interesse da revista para quem gosta de BD. Para além dos destaques a Monstress e a Nimona, os dois títulos que assinalam o regresso da Saída de Emergência à BD, há ainda espaço para uma BD de André Oliveira, ilustrada por Pedro Potier e para um conto lovecraftiano de Neil Gaiman, , protagonizado por... Sherlock Holmes. Aqui fica a sugestão para não perderem esta excelente revista, que ainda por cima, é grátis!