quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Novela Gráfica V 13 - Café Budapeste

Um pouco mais tarde do que o habitual, devido à minha ida ao Festival de Lodz (de que está prometido para aqui um punhado de imagens do evento e sobretudo, da magnífica exposição dedicada à DC Comics) aqui fica o último texto desta quinta série da colecção Novela Gráfica. só foi pena que, nos últimos dois números, o espaço disponibilizado pelo Público tenha sido tão reduzido, pois são dois livros, pois são dois livros que justificavam uma análise mais aprofundada.

BUDAPESTE EM JERUSALÉM 

Novela Gráfica IV – Vol. 13
Café Budapeste
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Quinta-feira, 26 de Setembro
Por + 10,90€
Na próxima quinta-feira chega ao fim a quinta série da colecção Novela Gráfica, com Café Budapeste, de Alfonso Zapico. Um fecho em beleza, com o regresso do autor de Gente de Dublin que, depois da biografia em BD do escritor James Joyce, retorna a esta colecção com uma história de ficção ancorada na criação do estado de Israel e nas raízes do conflito israelo-palestiniano.
Primeiro trabalho de Zapico publicado directamente no mercado espanhol, Café Budapeste acompanha o destino de Yechezkel Damjanich, um jovem violinista judeu que, juntamente com a sua mãe, uma sobrevivente do Holocausto, abandona uma Budapeste devastada pela II Guerra Mundial para ir viver para Jerusalém, onde vive o seu tio Yossef. Fugindo da miséria, ambos chegam à Palestina num momento político convulsivo, pouco antes de os ingleses deixarem a região. O tio Yosef dirige o Café Budapeste, um lugar pitoresco perto da Cidade Velha, onde judeus, árabes e ocidentais coexistem ... Um oásis efémero de harmonia onde as notas do violino de Yechezkel vão dar lugar ao estrondo dos obuses de Davidka, bombas árabes, ódio e destruição.
Neste ambiente de intolerância e violência, a paixão de Yechezkel por Yaiza, um jovem de origem árabe, enfrenta ainda maiores desafios. Mas isso não os impedirá de procurarem a felicidade, numa cidade em guerra, onde o Café Budapeste é um dos últimos espaços de paz e tolerância.
Alternando de forma hábil a realidade histórica - e as questões políticas e geoestratégicas inerentes à um dos momentos mais importantes da história do Século XX, a formação do estado de Israel, cujas consequências ainda hoje se fazem sentir na região - com os dramas pessoais de Yechezkel e da sua família, Zapico constrói uma história cativante, que é um hino à tolerância e à paz entre os homens, independentemente da etnia ou credo.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/09/2019

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Com o Lisbon Studio, no Festival de Lodz


Casa de muitos autores portugueses que conseguiram dar uma dimensão internacional ao seu trabalho, o The Lisbon Studio (TLS) celebra essa vocação global com uma exposição inserida na  edição de 2019 do Festival de BD de Lodz, que decorre de 27 a 29 de Setembro, na Polónia.

Uma mostra com produção de José de Freitas, curadoria de Bruno Caetano e textos da minha autoria, que celebra o presente, mas também o passado do TLS, centrada nos originais dos quatro artistas que estarão presentes em Lodz, Marta Teives, Ricardo Cabral, João Tércio e Nuno Saraiva, mas que inclui também arte de outros doze ilustradores portugueses que, nos últimos 10 anos passaram pelo  The Lisbon Studio: Filipe Andrade, Jorge Coelho, Nuno Plati, Ricardo Tércio, Ricardo Venâncio, Joana Afonso, Bárbara Lopes, Dileydi Florez, Patrícia Furtado, Pedro Potier, Pedro Brito e Nuno Lourenço Rodrigues.
Um total de dezasseis ilustradores para representar um país através de uma exposição que será acompanhada pela edição, por parte da editora Timoft, de uma antologia concebida especialmente para o mercado polaco, que recolhe histórias publicadas originalmente na colecção TLS Series, que a Comic Heart e G Floy têm vindo a publicar.
Criado em 1991, o Festival de Lodz é o mais importante Festival de Banda Desenhada da Polónia e do Leste europeu. Um Festival com uma grande ligação a Portugal e à BD portuguesa, traduzida na presença regular de artistas portugueses, como foi o caso de André Lima Araújo em 2018, e em projectos como o City Stories - Lodz. Uma parceria entre a AmadoraBD e o Festival de Lodz, que passou pela colaboração entre artistas portugueses e polacos na realização de histórias inéditas, de que resultou um livro e uma exposição na edição de 2010, onde estiveram presentes os criadores portugueses Ricardo Cabral, Rui Lacas, Filipe Andrade e Filipe Pina que, não por acaso, passaram todos pelo TLS.
Eu estarei por lá, acompanhando os autores do TLS e para apresentar uma comunicação sobre a BD portuguesa e conto  trazer-vos aqui um punhado de imagens desta viagem ao Festival de Lodz.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Novela Gráfica V 12 - Neve nos Bolsos

UM ESPANHOL NA ALEMANHA

Novela Gráfica V – Vol. 12
Neve nos Bolsos
Argumento e Desenho – Kim
Quinta-feira, 19 de Setembro
Por + 10,90€
Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Rasgada, duas magníficas novelas gráficas escritas por António Altarriba, regressa à colecção Novela Gráfica como autor completo com Neve nos Bolsos, um relato autobiográfico da sua ida para a Alemanha e das vivências de outros espanhóis que emigraram com o mesmo objectivo, ganhar a vida.
Foi em outubro de 1963 que o jovem Joaquim Aubert Puigarnau, ainda não conhecido como Kim, deixa seus estudos em Belas Artes e aproveita o ano que tem até começar o serviço militar, para ganhar a vida na Alemanha, como tantos outros espanhóis que atravessaram a Europa à procura de trabalho. Através dos seus olhos e das suas memórias, vamos descobrir a vida desses expatriados da Espanha franquista.
 Como o próprio Kim referiu numa entrevista: Esta novela gráfica surgiu devido a uma série de coincidências. Primeiro, porque tinha menos trabalho na revista El Jueves e muitas horas livres enquanto esperava que o Antonio Altarriba acabasse o argumento de A Asa Quebrada
Segundo, porque numa visita a Angoulême conversei com um rapaz alemão e contei-lhe essa viagem, que praticamente não tinha contado a ninguém. Tinha-a encerrada na memória e nem os meus melhores amigos. Quando ele me disse que na Alemanha já quase ninguém se recorda desses milhares de espanhóis que imigraram, percebi que tinha de contar essa história.”
Um processo quase catártico, que lhe permitiu recuperar um período importante, mas não particularmente feliz da vida de Kim e da história de Espanha: “Recordar esse ano que estive na Alemanha foi uma espécie de terapia para mim. Comecei a escrever a história na segunda pessoa, como se não fosse eu o protagonista. Mas quando mostrei umas quantas páginas a Altarriba e ele me disse que se notava que o protagonista era eu e me perguntou porque não escrevia na primeira pessoa, decidi fazê-lo”.
 “Não tenho uma memória alegre. Foi um ano bastante duro, como se pode ver no livro. Ainda assim, tive a sorte de privar com um grupo de gente jovem que tentava aproveitar a vida: ríamos, fazíamos festas... Mas a gente mais velha não saia nunca, passavam o dia a trabalhar e a pensar em Espanha. Escutavam constantemente a rádio espanhola e sonhavam com poder poupar dinheiro suficiente para poderem regressar. “
Publicado originalmente no jornal Público de 21/09/2019

domingo, 22 de setembro de 2019

Balada para Sophie - Novo livro de Melo e Cavia em 2020

Quem acompanha este Blog, sabe que não costumo fazer divulgação. Mas neste caso decidi abrir uma excepção para divulgar a primeira imagem/teaser de Balada para Sophie, o próximo livro de Filipe Melo e Juan Cavia. Um livro que tem tudo para ser o melhor livro de autores portugueses (não é erro, pois apesar de ser Argentino, o Juan Cavia adquiriu recentemente nacionalidade portuguesa) publicado em 2020.
O mais ambicioso trabalho da dupla, com quase 300 páginas (a última versão que li tinha 277 e o Filipe é conhecido por ir acrescentando coisas à história) deverá estar pronto em meados do próximo ano e a versão que li, com a planificação e diálogos terminados e bem mais de 100 páginas completamente desenhadas e uma meia centena já com as cores planas, não me deixa dúvidas de que estamos perante o melhor trabalho de Filipe Melo e Juan Cavia, o que tendo em conta o alto nível de Os Vampiros e de Comer/Beber, não é coisa pouca!
Centrada na rivalidade entre dois pianistas, Balada para Sophie é uma história simultaneamente épica e intimista. Uma grande história sobre música, escolhas e o mais que os leitores verão em 2020.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Novela Gráfica V 11 - O número 73304-23-4153-6-96-8

AS SOMBRAS DE THOMAS OTT

Novela Gráfica V – Vol. 11
O Número 73304-23-4153-6-96-8
Argumento e Desenhos –– Thomas Ott
Quinta-feira, 12 de Setembro
Por + 10,90€
Em 1833, o suíço Rodolphe Topfer, um dos pioneiros da Banda Desenhada, definiu assim, numa carta ao seu amigo Goethe, a originalidade do trabalho que acabava de criar: “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”. É justamente nessa articulação e diálogo entre o texto e o desenho que reside a força e a originalidade da linguagem da BD.
Mais de 150 anos depois, Thomas Ott, um compatriota de Topfer, que além de autor de BD e ilustrador é também vocalista de uma banda rock e cineasta, demonstra que é possível contar histórias em BD recorrendo apenas ao desenho. O Número 73304-23-4153-6-96-8, décimo primeiro volume da colheita de 2019 da colecção Novela Gráfica, utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente estimulante, contada apenas pelo recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo.
Não que Ott tenha inventado a “BD muda” (chamemos-lhe assim por uma questão de comodidade),  género com uma importante tradição que vai desde The City de Franz Masereel, até ao Arzach de Moebius, passando por títulos como Gon de Masashi Tanaka, ou a série Love, de Frédéric Brrémaud e Federico Bertolucci, entre (muitos) outros, mas usa-a com uma eficácia e elegância pouco habituais, muito por via da técnica do scratchboard, ou grattage, em que o desenho é raspado a branco numa folha previamente coberta de tinta-da-china, criando assim uma imagem em negativo, em que a luz rasga as sombras.
Nascido em 1996, em Berna, na Suiça, Ott estudou no Kunstgewerbeschule em Zurique, antes de começar a publicar em revistas independentes na segunda metade da década de 1980. Desde as suas primeiras histórias curtas, que o imaginário e a técnica que encontramos neste O Número 73304-23-4153-6-96-8, estão presentes. Como o próprio refere numa entrevista: “Desde criança, tenho pensamentos sombrios. No meu trabalho, preocupo-me com coisas que me deixam doente, que são muito sombrias. Quando vejo esboços que fiz aos dez anos, vejo as mesmas coisas: fantasmas e monstros. A temática do meu trabalho não mudou, apenas ficou mais específica.”
O mesmo pode ser dito em relação à técnica da grattage que se tornou a sua imagem de marca e que o próprio define “como estar num quarto preto e ir deixando lentamente entrar a luz”. Dando mais uma vez a palavra a Ott: “experimentei a técnica pela primeira vez quando era estudante de arte na Escola de Design de Zurique. Pensei em fazer apenas uma história usando essa técnica, mas a verdade é que a continuo a usar.”
O resultado desta obsessão são dezenas histórias sombrias, pequenos contos de crime e castigo, entre o terror e o policial, na linha da produção da mítica editora americana EC Comics, ambientados em cenários americanos típicos do filme noir. Pequenas pérolas de narrativa visual, publicadas em diversas revistas europeias e recolhidas posteriormente em livro. Livros como Tales of Error, Hellville, Tales from the Edge, ou Cinema Panopticum, publicados em editoras com o prestígio da L’Association, em França e da Fantagraphics nos Estados Unidos.
Primeira história de fôlego feita por Thomas Ott, O Número 73304-23-4153-6-96-8 é uma perturbadora narrativa circular que conta a história de um guarda da prisão que encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números, ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam a sua curiosidade. Mas, tratando-se de uma história de Thomas Ott, esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma verdadeira maldição, conforme o leitor poderá ver/ler.
Publicado originalmente no jornal Público de 07/09/2019