quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sandman 10: As Benevolentes - Parte 2


O ÚLTIMO COMBATE DE MORFEU

Sandman – Vol. 10
As Benevolentes - Parte 2
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Marc Hempel, Teddy Kristiansen, Richard Case
Quinta, 08 de Dezembro
Por + 11,90€
Com a publicação do 10º volume de Sandman, que chega aos quiosques na próxima quinta-feira, chega ao fim a mais épica (e a maior) das histórias de Sandman, As Benevolentes, cujo inevitável desfecho vem confirmar a dimensão trágica do percurso de Morfeu, o Mestre dos Sonhos.
Um dos segredos do sucesso de Gaiman em Sandman, para além do seu talento a articular inúmeras personagens e diferentes histórias, dentro de uma narrativa global complexa, como se fosse a coisa mais simples do mundo, é a sua capacidade invulgar de harmonizar os elementos e a mitologia da tragédia clássica, com a dimensão mundana do dia-a-dia, a brevidade da vida e a importância do amor. No fundo, Os eternos e as outras divindades e criaturas mitológicas que Gaiman convocou para a saga de Sandman, são profundamente humanos nos seus comportamentos e atitudes.
Como bem refere o académico e escritor Frank McConnell, no prefácio do volume anterior: “É esta a premissa básica de As Benevolentes, e da própria saga de Sandman: a lenta realização que Sonho tem da intensidade da vida mortal, e da sua inescapável implicação nessa mesma intensidade. As Benevolentes, as Erínias, as Euménides, caçam-no ao longo deste livro porque ele matou o seu filho, Orfeu: claro, a pedido dele, mas mesmo assim matou-o. E com esse acto, Sonho entrou no tempo, escolha, culpa e remorso - entrou na esfera do que é humano.
No capítulo onze, depois de abandonar a segurança do Domínio do Sonho, a fada Nuala, que o invocou, faz-lhe a pergunta que poderá ser o segredo central da história. “Tu... queres que elas te castiguem, não queres? Queres ser castigado pela morte de Orfeu.”
E a vinheta seguinte, a resposta de Morfeu, é simplesmente a cara dele, vista de perto, sem palavras, uma cara torturada. (E já agora, um efeito que, nem um romance, nem um filme, poderiam conseguir com a mesma força, já que o romance teria de descrever a cara dele, e o filme apenas nos poderia mostrar um actor a tentar imitar aquela máscara sombria do remorso. O comic, com o estilo de desenho brilhantemente redutor de Marc Hempel, dá-nos a coisa em si.)”
E neste último parágrafo, McConnell alerta-nos para outro inegável talento de Neil Gaiman que, para além do grande escritor que a sua carreira de romancista demonstra, é alguém que tem um profundo conhecimento dos mecanismos narrativos da Banda Desenhada e que domina a linguagem da BD como poucos. A prová-lo está a escolha de Marc Hempel para desenhar esta história. Hempel, não sendo o mais vistoso, ou o mais talentoso dos desenhadores da série, bem longe disso, é alguém cujo estilo único se adequava perfeitamente ao tipo de história que Gaiman queria contar. E é precisamente esse casamento perfeito entre o texto e a imagem que torna única a linguagem da Banda Desenhada.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 02/12/2016

sábado, 3 de dezembro de 2016

NOS TRINTA ANOS DE DYLAN DOG - Parte III: Uma Nova Era


Como prometido, aqui fica a parte final do artigo sobre o trigésimo aniversário da série Dylan Dog, que saiu inicialmente na revista Bang! numa versão bastante mais reduzida. A primeira parte do texto pode ser lida aqui e a segunda, aqui. Espero que gostem  do artigo e que em breve possamos ver Dylan Dog editado em Portugal. Afinal, os principais trabalhos de Alan More também só tiveram direito a edição nacional, trinta ou mais anos depois da sua publicação original...

Embora continuasse a ser a segunda mais popular série da Bonelli, logo a seguir ao cowboy Tex, a popularidade do detective do oculto foi caindo e a própria editora apercebeu-se de uma certa estagnação criativa, que levou a uma remodelação da série, coordenada por Roberto Recchioni. Recchioni que tinha sido o argumentista de Mater Morbi, história magnificamente ilustrada por Massimo Carnevale, que é considerada como uma das melhores aventuras de Dylan Dog da última década, contou com a bênção e supervisão do próprio Sclavi, no seu projecto de renovação da série.
Uma renovação de que os leitores italianos puderam ver os primeiros resultados em finais de Outubro de 2013, a partir do Dylan Dog nº 338, em que o inspector Bloch finalmente se reforma e vai viver para Wickedford, uma pequena e pacata cidade de província que, como seria de esperar nesta série, esconde terríveis segredos. A substituir Bloch na Scotland Yard temos o inspector Tyron Carpenter, que para além de ser contra a colaboração informal de Dog com a polícia, o que vem introduzir um elemento de tensão novo na série, conta com uma assistente paquistanesa e muçulmana, Rania Rakim que usa véu, dando um toque mais multicultural a uma série em que as novas tecnologias têm uma presença cada vez mais visível, sendo evidente a preocupação dos escritores em adaptarem o mais possível as aventuras de Dylan Dog à realidade do mundo contemporâneo. Assim não só o próprio Dylan, sempre avesso a essas tecnologias, passa a usar um smartphone, como ganha um novo Némesis em John Ghost, um milionário proprietário da Wolfconn, a empresa que domina o mercado dos smartphones, (ou seja, uma espécie de versão maléfica de Steve Jobs) que surge pela primeira vez no nº 341, onde há ainda espaço para uma curiosa homenagem a Alan Moore.
Também é visível uma evolução a nível dos argumentistas, com mais mulheres a juntarem-se a Paola Barbato, que se vai afirmando como a principal escritora da série. É o caso de Sílvia Mericone e Rita Poretto, duas fãs da série, que cresceram a ler Dylan Dog e que agora escrevem as suas aventuras.
Outra das características da série, é o multiplicar de títulos, que faz que todos os meses haja dois, ou mais títulos novos de Dylan Dog à venda nos quiosques italianos. Assim, além da série mensal e das suas reedições, os fãs da fase anterior à actual remodelação têm a revista Maxi Dylan Dog Old Boy, um título quadrimestral de quase 300 páginas, com histórias passadas na época em que Bloch ainda estava no activo. Outro título interessante é o trimestral Dylan Dog Color Fest, uma edição temática a cores, composta por histórias curtas, normalmente desenhadas por artistas pouco habituais na série, como o argentino Enrique Breccia, ou o italiano Giuseppe Camuncoli, que trabalha para a Marvel. Outro título que foi reformulado, foi o clássico Almanaque della Paura, uma publicação anual que foi substituída pelo Dylan Dog Magazine. Também um dos títulos mais antigos, o Dylan Dog Speciale, publicado anualmente, abrigou nos últimos dois anos a história Pianeta dei Morti, uma saga iniciada no Dylan Dog Color Fest, escrita por Alessandro Bilotta, cuja acção se passa vinte anos no futuro, num planeta ameaçada por uma grande invasão de zombies, de que Groucho, que Dylan Dog não teve coragem de matar, foi o paciente zero.
Trinta anos depois da sua primeira aventura, Dylan Dog, está presente em força nos quiosques e nas colecções dos jornais, ao mesmo tempo que ganha um espaço cada vez maior nas livrarias. Nos jornais, depois do relativo fiasco da Collezione Storica a Colori, lançada com os jornais La Reppublica e L’Espresso, que recolhia por ordem cronológica, em versões coloridas, as histórias da revista original (e que já tinham sido reeditadas por diversas vezes, em diferentes formatos, o que pode explicar a fraca aderência dos leitores), a parceria com La Gazzetta dello Sport, iniciada com a colecção I Colori della Paura, que recolhe as histórias de Dylan Dog Color Fest , correu bastante melhor, tendo terminado no nº 54, por já não haver mais histórias para publicar, de tal maneira que o maior jornal desportivo italiano voltou imediatamente a colaborar com a Bonelli numa nova colecção Il Nero della Paura, que começou a sair em Julho deste ano, no mesmo dia em que terminou a colecção anterior. Nas livrarias, onde as histórias de Dylan Dog já estavam presentes através das recolhas em capa dura da editora Mondadori e das luxuosas edições da Bao Publishing, juntam-se agora as edições da própria Bonelli de algumas obras seleccionadas, como Dopo un Lungo Silenzio, título que assinala o regresso do seu criador, Tiziano Sclavi à escrita da série.
E o regresso de Sclavi é uma das melhores notícias deste 30º aniversário, pois Dopo un Lungo Silenzio, ilustrada por Giampero Casertano e lançada em finais de Outubro durante o Festival de BD de Lucca, é uma belíssima e sombria reflexão sobre o alcoolismo, que revela um Sclavi em grande forma e bastante contido nas referências à cultura Pop. Uma história incontornável, que teve direito a três edições diferentes: a edição dos quiosques com uma capa completamente branca, uma edição de luxo para as livrarias, que inclui o argumento completo de Sclavi e uma terceira edição, exclusiva da cadeia de Livrarias da Mondadori. E a editora Bonelli não deixou de comemorar devidamente a ocasião, através de uma série de iniciativas, como Dylan Dog Presenta, um ciclo de cinema em articulação com a Universal Itália, que culmina com a exibição de 30 Anni di Incubi, um documentário sobre a série, na noite de Halloween, uma nova adaptação radiofónica das aventuras de Dylan Dog, que incluirá também a mais recente história escrita por Sclavi e uma Dylan Dog Experience, (uma experiência interactiva, aproveitando um palácio abandonado no centro de Lucca que vai ser transformado em Hotel) apresentada também em Lucca.
 Foi também em Lucca que foi revelada a alteração no responsável pelas capas da edição mensal, com Angelo Stano, que substituiu Claudio Villa a partir do nº 41, a dar lugar a Gigi Cavenago, ao fim de 26 anos e mais de 300 capas depois. Mas a grande novidade do Festival, foi o anúncio de que Tiziano Sclavi está a trabalhar numa nova série de Dylan Dog, chamada I Racontti di Domani, a lançar em 2017.
Ou seja, não restam dúvidas que trinta anos depois, Dylan Dog está mais vivo do que nunca e em muito boas mãos!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sandman 9: As Benevolentes - Parte 1

O PRINCÍPIO DO FIM

Sandman – Vol. 9
As Benevolentes  - Parte 1
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos –  Marc Hempel, D’Israeli, Glyn Dillon e Charles Vess
Quinta, 01 de Dezembro
Por + 11,90€
Com o nono volume, que chega aos quiosques nacionais na próxima quinta-feira, a história de Sandman entra no seu acto final e o preço que Morfeu terá de pagar por derramar o seu próprio sangue – ao conceder ao seu filho Orfeu, o alívio da morte por que ele ansiava há séculos – vai ser muito alto.
Se dúvidas ainda houvesse de que a história de Morfeu, o Mestre dos Sonhos, é uma tragédia clássica, o capítulo decisivo, que ocupa os próximos dois volumes da série, dissipá-las-á de vez.
Pensada inicialmente para ser contada em seis capítulos, As Benevolentes acabou por ocupar treze números da série mensal, sendo de muito longe, a mais longa história de Sandman, o que fez com que, por uma questão de equilíbrio entre o tamanho dos volumes, fosse dividida em dois na edição portuguesa. Mesmo assim, os leitores portugueses apenas terão de esperar uma semana pelo desenlace da mais decisiva história da série, ao contrário de quem leu na altura a edição original americana, em que a história se prolongou por mais de um ano.
História extraordinariamente meticulosa, em que todas as peças do puzzle que Gaiman foi construindo de forma rigorosa ao longo da série, se encaixam finalmente no espaço previsto desde o início, As Benevolentes foi o maior desafio que Gaiman enfrentou até então enquanto escritor. Como o próprio refere numa entrevista, “quando comecei a escrever As Benevolentes, vi-me a mim próprio dentro de um camião muito, muito, grande, apontado a uma parede e a meter o pé no acelerador”.  Mas, mostrando que tinha mãos para conduzir esse camião, o escritor evita o desastre com brilhantismo, construindo uma história fantástica a todos os níveis, que contribui de forma decisiva para a mitologia da série.
Falando de mitologia, As Benevolentes é o volume de Sandman em que a mitologia clássica está mais presente, começando logo nas Benevolentes, as Euménides, as Três Parcas que tecem o destino dos homens com os seus fios e que aqui aparecem com uma imagem de três simpáticas senhoras inglesas, a fiarem enquanto bebem o seu chá, mesmo que uma delas prefira acompanhar o chá com um rato morto, em vez de biscoitos de gengibre… E a imagem do fio da vida que se interrompe ao ser cortado por uma das Benevolentes está presente a abrir cada um dos capítulos, frisando a ideia que o destino de Morfeu está traçado e irá ser cumprido, tal como estava escrito no livro do seu irmão cego, Destino.
Em termos gráficos, Gaiman também optou por correr riscos. Numa fase em que a popularidade e prestígio da série lhe permitiriam ter qualquer desenhador que quisesse, Gaiman optou por Marc Hempel, cujo estilo expressionista está longe de ser consensual, mas que se adequa perfeitamente às necessidades de uma história carregada de emoções, em que as fronteiras entre o mundo real e a fantasia se esbatem.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/11/2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

NOS TRINTA ANOS DE DYLAN DOG - Parte II: Da BD para o cinema


Conforme prometido, aqui está a segunda parte da versão (muito) alargada do artigo que escrevi para o último número da revista Bang! a propósito do trigésimo aniversário de Dylan Dog. A primeira parte do artigo pode ser lida aqui e a terceira e última parte será colocada on line no sábado, dia 3 de Dezembro.  

PARTE II - DA BD PARA O CINEMA

Curiosamente, antes de criar Dylan Dog, Sclavi tinha proposto a Bonelli recuperar os personagens de um dos seus primeiros romances, Dellamorte Dellamore e transformá-los em heróis de uma série de BD, sendo Francesco Dellamorte uma espécie de estudo preparatório para Dylan Dog, com quem compartilha o aspecto físico e a forma de vestir, para além de um peculiar assistente. Essa ideia acabou por não se concretizar no papel, apesar de Sclavi ter escrito uma história, Orore Nero, publicada no Dylan Dog Speciale nº 3, de 1989, em que Francesco Dellamorte e Dylan Dog quase que se encontram, mas aconteceu de forma indirecta no cinema, graças ao filme realizado em 1994 por Michele Soavi a partir do citado romance. Nascido em 1957, Soavi trabalhou com Dario Argento e Lamberto Bava, para além de Terry Gilliam, realizadores que o escolheram pelo seu impecável sentido estético e de composição, bem patentes em Dellamorte Dellamore, o ponto mais alto de uma curta cinematografica. Depois de ter servido de modelo para Dylan Dog, o actor inglês Rupert Everett acabou por ser o protagonista de Dellamorte Dellamore, o filme visualmente deslumbrante que consegue transpor com inesperado sucesso o universo único de Tiziano Sclavi para o grande ecrã e que o próprio Sclavi considera mesmo “muito melhor do que o livro”.
Confirmando as ligações de Dylan Dog e do seu criador com o cinema, o herói emprestou o nome ao Dylan Dog Horror Fest, um festival de cinema de terror, que teve quatro edições, entre 1987 e 1993, onde os desenhadores de Dylan Dog partilhavam o protagonismo com grandes nomes do cinema de terror, como Dário Argento, Clive Barker, Lamberto Bava, Herschell Gordon Lewis, Sergio Stivaletti, Robert Englund (o actor que faz de Freddy Krueger na série Nightmare in Elm Street) e Jeffrey Combs.
Essa ligação entre Dylan Dog e o cinema, acabaria por dar origem, em 2007, a um filme realizado por Kevin Munroe, que já tinha dirigido o 4º e último filme das Tartarugas Ninja. Um filme que passou despercebido do público, apesar de contar com Brandon Routh no principal papel e Sam Huntington no do seu assistente Marcus.
Um elenco muito habituado aos filmes inspirados na BD, pois Routh participou no divertidíssimo Scott Pilgrim Vs the World, foi o Super-Homem em Superman Returns de Bryan Singer, para além de participar actualmente nas séries televisivas Arrow e Legends of Tomorrow, como Ray Palmer, o Átomo da DC. Apesar da reconhecida experiência do elenco na transposição de BDs para o cinema, esta adaptação não prima pela fidelidade à BD original, bem pelo contrário, pois a acção foi transposta de Londres para New Orleans e, por questões de direitos, o ajudante de Dylan Dog na BD, inspirado no actor Groucho Marx teve que ser substituído por Marcus, o personagem de Hutington no filme, responsável pelos momentos mais divertidos, quando é transformado num zombie e tem que aprender a adaptar-se à sua nova condição de morto-vivo.
Mas o humor da personagem de Marcus e de alguns bons diálogos não salvam um filme com um argumento cheio de buracos, uma direcção pouco criativa, efeitos especiais bastante fracos e que não consegue preservar a originalidade de Dylan Dog, que distinguia a série de outras abordagens ao género do terror, ficando bem longe dos inúmeros filmes de fã, com destaque para os escritos, realizados e interpretados por Roberto D’Antona com meios infinitamente inferiores.
Apesar do resultado estar muito longe de ser brilhante, iniciativas como o filme ajudaram à popularidade da série, que do estatuto inicial de série de culto com vendas não especialmente entusiasmantes, rapidamente evoluiu para um verdadeiro fenómeno de massas, aspecto a que não será estranho a grande qualidade dos seus principais desenhadores, como Angelo Stano, Bruno Brindisi, Giovanni Freghieri, Gustavo Trigo, Nicola Mari, Giampero Casertano e principalmente Corrado Roi. O sucesso de Dylan Dog foi tal, que chegou mesmo ultrapassar Tex como o título mais vendido da casa Bonelli, ao mesmo tempo que a personagem, para além de ver as suas aventuras reeditadas nos mais variados formatos, era adaptada a outros meios de comunicação, desde os jogos de computador ao teatro radiofónico. Nesse campo, o mérito vai para o realizador Armando Traverso que, depois do sucesso das versões radiofónicas de outros clássicos dos fumetti como Tex, Lupo Alberto e Diabolik, decidiu adaptar algumas das mais famosas aventuras de Dylan Dog à rádio, numa série de 25 programas, emitidos em 2002 pela cadeia Radio Due.
Apesar do sucesso da série, que conseguiu conciliar a crítica com o grande público, aliando o sucesso comercial ao prestígio cultural, traduzido numa série de artigos nos mais prestigiados jornais e revistas italianas e não só, e em várias Tese de Mestrado e Doutoramento, Sclavi acabaria por se afastar gradualmente da escrita das aventuras de Dylan Dog. Mais do que o cansaço em relação à personagem, o afastamento foi motivado pela dificuldade cada vez maior em escrever novas aventuras para o (anti)herói que criou. Conforme confessou a Umberto Eco: “a força de Tex provém do carácter repetitivo das histórias: duas ou três tramas e algumas variações sobre esses temas. Isso nunca funcionaria com Dylan Dog, porque o leitor quer ser surpreendido. E asseguro-lhe que ao fim de 140 números é muito difícil continuar a surpreender os leitores.”
Por isso, Sclavi abandonou o seu herói, regressando apenas por ocasião do vigésimo aniversário, em 2006, no Dylan Dog nº 240, assinando o argumento de Ucronia, uma história ilustrada por Franco Saudeli, desenhador que, depois de nos anos 80 e 90 se ter dedicado à BD erótica, trabalha actualmente para a editora Bonelli. Um regresso que se revelou temporário, pois, depois de escrever também as histórias dos nº 243 e 244, o escritor voltaria a afastar-se da escrita da série que criou.



CONTINUA...

sábado, 26 de novembro de 2016

NOS TRINTA ANOS DE DYLAN DOG - Parte I: O Nascimento de um série de Culto


Como já referi aqui, já se encontra nas lojas FNAC o nº 21 da revista Bang!, a revista de distribuição gratuita da Saída de Emergência, dedicada ao fantástico e à ficção científica nos mais diversos suportes, em que presto homenagem aos 30 anos de uma das minhas séries de BD favoritas: Dylan Dog. Apesar de não ter quaisquer limitações de espaço em relação aos textos que escrevo para a Bang!, optei  por fazer duas versões do meu texto. A versão que saiu impressa em quatro páginas da revista e uma segunda versão, mais alargada e com novidades sobre o futuro da série, que aqui publicarei em três partes. A primeira, podem lê-la já a seguir, enquanto que a segunda parte do texto ficará online aqui no Blog na terça-feira, 29 de Novembro e a parte final do texto será publicada no sábado seguinte, dia 3 de Dezembro.

PARTE 1 - O NASCIMENTO DE UMA SÉRIE DE CULTO 

Personagem maior dos fumetti (nome dado à Banda Desenhada em Itália) Dylan Dog, o investigador do oculto vegetariano, abstémio e com vertigens, criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli, fez trinta anos em Outubro de 2016. Um bom pretexto para evocar neste espaço uma personagem pouco conhecida em Portugal, onde apenas chegou durante algum tempo via Brasil, através das edições da Mythos, mas cuja influência assumida é bem visível (e assumida) no Dog Mendonça, de Filipe Melo e Juan Cavia. 
Publicado pela primeira vez em Itália em Outubro de 1986, na história L’Alba dei Morti Viventi, uma história de zombies ilustrada por Angelo Stano, onde o terror se misturava com o humor, Dylan Dog cedo se tornou uma personagem de culto, capaz de conquistar tanto as leitoras, com a sua aura romântica, como os apreciadores dos filmes de terror, que não ficavam indiferentes ao lado gore da série. E a época de ouro do cinema de terror italiano, representado por nomes como Dário Argento, Mário e Lamberto Bava e Michele Soavi, é uma das grandes referências de Sclavi, que nessa primeira história leva mesmo o seu herói ao cinema para ver Dawn of the Dead, de George Romero, um filme de zombies cujo título Sclavi vai pedir emprestado para a primeira aventura de Dylan Dog. Do mesmo modo, o inspector da Scotland Yard, a quem Dylan Dog ajuda nas suas investigações, chama-se Bloch, como o escritor de Psycho e o apartamento e escritório do herói fica em Londres, no nº 7 da Craven Road, uma morada no bairro londrino de Paddington que, apesar de remeter para o cineasta Wes Craven, existe mesmo e onde está instalada um café que, a partir de 2013, mudou de nome para Café Dylan Dog.
Nesta primeira aventura de Dylan Dog, já estão presentes todos os elementos que contribuíram decisivamente para o sucesso da série, desde o humor (irónico no caso de Dylan e delirante no do seu assistente Groucho que, mais do que inspirado no actor, é o próprio Groucho Marx, ou melhor, um doente mental que acha que é Groucho Marx); o erotismo (há sempre uma bela cliente por quem Dylan se apaixona); uma angústia existencial e uma sensação de claustrofobia que o humor não consegue apagar; e o uso desenfreado das mais variadas citações e homenagens, do cinema à BD e à literatura, que Sclavi faz questão de assumir e integrar de forma harmoniosa nas suas histórias, fazendo sua a máxima de Totó, o grande actor e comediante italiano que dizia: “todos são capazes de criar, copiar bem é que é mais difícil”.
Os pormenores sobre o passado de Dylan Dog vão sendo revelados a conta-gotas, geralmente aproveitando ocasiões especiais, com edições à altura da importância do acontecimento, em que o preto e branco habitual dá lugar à cor. Assim, a estranha relação de Dylan Dog, com o pai, o mago Xabaras é explorada no nº 100 da série, enquanto que o passado de Dylan enquanto polícia, antes de se estabelecer como investigador privado e a sua história de amor com Lillie Connelly, uma jovem irlandesa militante do IRA, são tratados no nº 121, que coincide com o décimo aniversário da série. No Dylan Dog nº 200, para além do ficarmos saber como Groucho se tornou assistente do herói, descobrimos que Dylan caiu no alcoolismo após a morte de Lillie, na sequência de uma greve de fome, e que Groucho e Bloch foram decisivos para que Dylan conseguisse libertar-se do vício.
Quanto à origem do estranho nome do herói, o próprio Sclavi explica como surgiu: “Dylan vem do poeta Dylan Thomas. Quanto a Dog, o nome vem do título de um romance de Mickey Spillane que vi na montra de uma livraria. Mas Dylan Dog sempre foi o nome provisório que dei às minhas personagens (a prova é que escrevi uma história curta desenhada por Lorenzo Mattotti nos anos 70, com esse mesmo título). É o caso típico do nome de trabalho, em que pensamos “por enquanto, vamos chamar-lhe assim, até encontrarmos um nome melhor”. A diferença entre Dylan Dog e as minhas personagens precedentes é que desta vez o nome manteve-se.” E, curiosamente, Mattotti, que desenhou esse primeiro Dylan Dog em 1977, num Western que nunca chegou a ser publicado, só voltaria a desenhar o detective do oculto em 2015, na capa da edição especial do Dylan Dog nº 350, distribuído na edição desse ano do Festival de Lucca.

Se Dylan Dog é um herói fascinante, Tiziano Sclavi, o seu criador não o é menos. Personagem torturada, afectada por várias depressões e bloqueios criativos que o levaram mesmo a tentar o suicídio, Sclavi é uma figura envolta numa aura de mistério. Mistério para o qual muito contribuiu o facto de quase não aparecer em público, raramente dar entrevistas e muito menos se deixar fotografar. Numa dessas raras entrevistas, ficou célebre a resposta que deu quando lhe perguntaram se se identificava com Dylan Dog: “Nem com Dylan, nem com Groucho” disse. “Eu sou os monstros.”
Tendo ganho um prémio literário aos dezanove anos, o reconhecimento precoce do seu talento não lhe serviu de muito em termos de carreira pois, como refere “o público recebeu os seus livros com uma indiferença entusiástica”, o que o obrigou a trabalhar como jornalista, revisor e argumentista de BD para poder sobreviver, enquanto os seus romances aguardavam por um editor disposto a publicá-los.
É precisamente enquanto argumentista de BD que Sclavi vai iniciar uma colaboração com a editora Bonelli cujos fumetti são um verdadeiro fenómeno editorial e sociológico. Assim, além de criar Gli Aristocratici, com Alfredo Castelli (o criador de Martin Mystere, outra das mais interessantes séries da Bonelli) Sclavi vai assinar argumentos para outras séries da editora, antes de criar finalmente Dylan Dog, abrindo assim as portas do sucesso com o carismático detective do paranormal, cujas virtudes são gabadas até por Umberto Eco, que não tem pejo em colocar Dylan Dog a par da Bíblia e dos poemas de Homero, no top das suas leituras favoritas.

(CONTINUA...)