segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Vida de Che em BD, nos 50 Anos da sua Morte

A Vida de Che
08 de Outubro
Argumento –Hector Germán Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia e Enrique Breccia
Por + 11,90€

A PAIXÃO SEGUNDO CHE GUEVARA

Há livros que, pelas circunstâncias que rodeiam a sua história, acabam por adquirir uma carga mítica. Títulos mais falados do que efectivamente lidos. Obras em que a lenda se sobrepõe à história e que, à sua maneira, fazem também história. É o caso desta biografia de Ernesto Che Guevara, ícone da revolução cubana, escrita por Hector German Oesterheld e ilustrada por Alberto e Enrique Breccia, três expoentes máximos da BD argentina e mundial, que conhece finalmente uma edição portuguesa, no preciso momento em que se completam 50 anos sobre a morte do Che, a 9 de Outubro de 1967, quando a sua tentativa de estender a revolução cubana a toda a América Latina, foi parada pelas balas do exército boliviano.
Apenas três meses após a morte de Che Guevara, em Janeiro de 1968, chegava às livrarias argentinas a Vida del Che, a biografia em banda desenhada de Ernesto Guevara de la Serna, o médico argentino que entraria para a história como Che Guevara, o líder revolucionário que ao lado de Fidel Castro, chefiou a revolução cubana. A ideia, plena de oportunidade, partiu do editor Jorge Alvarez, responsável por uma das principais editoras argentinas da época, que, para além de publicar diversos escritores argentinos, foi o primeiro a editar em livro as tiras da Mafalda, de Quino. Poucas semanas após a morte do Che, Alvarez propôs a Oesterheld e a Alberto Breccia – que o magnífico Mort Cinder, que a Levoir publicou na primeira série dedicada à Novela Gráfica tinha mostrado serem  os maiores autores argentinos da época - que contassem a vida (e a morte) de Che Guevara em Banda Desenhada, sugerindo-lhes que o fizessem de forma anónima, tendo em conta a volátil situação política da Argentina de então. Oesterheld, que nunca foi homem de esconder as suas convicções e ideais, respondeu assim ao editor: “uma história com um personagem como o Che não merece ser feita às escondidas. Por isso, não só quero assinar o argumento, como quero o meu nome bem visível na capa”. Face à urgência de ter o livro pronto o mais rápido possível, Alberto Breccia dividiu o trabalho com o seu filho Enrique que, com 22 anos, se estreou em livro precisamente com esta biografia do Che, assinando os dois o desenho.
Apesar do sucesso comercial da edição, com 60.000 exemplares vendidos em poucas semanas, os tempos não se avizinhavam fáceis. Pouco depois do jornal diário La Nación ter alertado num editorial para o perigo da existência de uma BD sobre um personagem revolucionário como o Che, a sede da editora foi invadida e o que restava da edição foi confiscada, juntamente com as pranchas originais dos Breccia, que foram destruídas. Em 1973, com a chegada ao poder da junta militar, o livro é oficialmente proibido e em 1977, o próprio Oesterheld juntamente com as suas quatro filhas, engrossa a vasta lista dos “desaparecidos”.
A Vida do Che só veria a luz do dia novamente em meados da década de 80, em Espanha, numa luxuosa edição da editora basca Ikusager, que durante vários anos, foi a única edição disponível dessa obra. E é a partir daqui que a lenda se vai sobrepondo à história. Primeiro, através da ideia de que a morte de Oesterheld se deveu a ter escrito A Vida do Che. Uma ideia difundida pelo jornalista e escritor italiano Alberto Ongaro - que, com Hugo Pratt, fez parte do famoso Grupo de Veneza, um punhado de autores italianos que foi trabalhar para a Argentina nos anos 50 - e que em 1979, ao tentar descobrir o paradeiro do escritor, encontrou alguém que lhe disse que Oesterheld tinha sido morto por ter escrito “a mais bela biografia de Che Guevara jamais feita”. Depois, com a referência, na edição da Ikusager, de que o livro tinha sido impresso tendo por base um exemplar que o próprio Alberto Breccia teria enterrado no seu quintal. 
Mesmo que a biografia do Che tenha ajudado a pôr Oesterheld debaixo do radar dos militares, foi a sua participação activa na guerrilha Montonera, um movimento rebelde de esquerda, onde também militavam as suas quatro filhas, que fez com que ele e sua família se tornassem um alvo fácil para a Junta Militar, acabando por engrossar a lista de perto de trinta mil “desaparecidos” que mancham com o seu sangue essa página negra da história argentina.
Quanto à lenda do livro enterrado no quintal, o próprio Enrique Breccia não lhe dá grande crédito dizendo: “É verdade que o livro foi confiscado poucos meses depois da sua saída, mas através de Jorge Alvarez ficámos a saber que se vendeu muito bem e que obteve uma boa repercussão geral. Mas ninguém nos perseguiu ou incomodou. Nenhum militar apareceu em minha casa, ou em casa do meu pai. E essa história do meu pai enterrar um exemplar no jardim é algo que desconheço, mas é uma questão de senso comum: porque é que seria preciso enterrar um único exemplar? Os originais foram destruídos, mas não os milhares de exemplares que se venderam, que são os que se continuam a utilizar para as sucessivas reedições do livro. Por outro lado, as nossas vidas nunca correram nenhum perigo, excepto o de morrermos de fome devido à miséria que recebíamos pelo nosso trabalho.” 
A ideia inicial de Oesterheld era fazer duas histórias separadas, com o “Viejo” a contar a vida de Ché, enquanto o seu filho Enrique se ocupava da sua morte na Bolívia, acabando finalmente por optar por uma alternância dos capítulos que dá outra força à narrativa, ao colocar em confronto o homem e o mito em que o Che se tornou ao dar a vida pelo seu ideal revolucionário. Espartilhado pelo peso da documentação e da muita informação a transmitir, Alberto Breccia teve muito menos autonomia do que o seu filho Enrique, que recebeu um argumento apenas com os diálogos e nada mais, o que lhe permitia fazer “aquilo que quisesse”. Mas a verdade é que tanto pai como filho, que tem aqui uma estreia absolutamente fulgurante na BD, dão o melhor de si. O “viejo” Alberto conciliando o rigor quase fotográfico exigido pela documentação, com um uso de colagens e recortes extremamente inovador, enquanto o seu filho Enrique levava ainda mais longe o alto contraste do preto e branco usado pelo seu pai em Mort Cinder, colocando-o ao serviço de um traço expressionista que acentua a dimensão crística do martírio do Che, bem evidente nas últimas páginas, em que a imagem do guerrilheiro morto se aproxima de forma evidente da iconografia do Cristo crucificado.
O resultado, independentemente das questões ideológicas, é um livro intemporal. Um verdadeiro clássico que, tal como Mort Cinder, mantém toda a sua força e modernidade cinquenta anos após a sua publicação inicial. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Novela Gráfica III 15 - O Idiota


DAS PALAVRAS DE DOSTOIEVSKI 
AOS DESENHOS DE ANDRÉ DINIZ

Novela Gráfica III – Vol. 15
O Idiota
Sexta-feira, 06 de Outubro
Argumento – Dostoievski e André Diniz
Desenho – André Diniz
Por + 9,99€
Com a publicação na próxima sexta-feira, em estreia mundial, da adaptação de O Idiota, de Fiodor Dostoievski, feita por André Diniz, chega ao fim esta terceira série da colecção Novela Gráfica. E se os autores espanhóis dominaram esta terceira série, o volume final vem mostrar que a Banda Desenhada não tem fronteiras, nem espaciais nem temporais, pois O Idiota é uma adaptação de um romance de um escritor russo do século XIX, feita no século XXI em Portugal por um autor brasileiro.
Se a adaptação à banda desenhada de textos literários é um género com grande tradição, tanto em Portugal como no resto do mundo, não deixa de ser uma aposta arriscada, face às especificidades da linguagem da BD, que são bem diferentes das da literatura. Por isso, a excessiva reverência pelo texto literário original pode levar a um resultado que está mais próximo do texto ilustrado do que da verdadeira banda desenhada. A adaptação de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que José Ruy fez nos anos 80, ou o bem mais recente As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal, de Miguel Moreira e Catarina Verdier, são dois bons exemplos de obras que sofrem deste problema, que afecta de forma notória a fluidez da leitura.
Por ter um domínio exímio da linguagem da banda desenhada, André Diniz, um dos mais premiados autores brasileiros da actualidade, que reside em Portugal desde 2016, opta por uma aproximação muito mais arriscada ao romance de Dostoievski, abdicando completamente do texto do escritor russo, para contar a história do Píncipe Liev Michkin recorrendo apenas à arte sequencial.
Este ambicioso projecto de transformar um livro de mais de 700 páginas numa Banda Desenhada maioritariamente muda (das mais de 400 páginas de O Idiota, pouco menos de 30 contém curtos diálogos) teve um parto demorado, com algumas falsas partidas, que não impediram o autor de levar a sua missão a bom termo.
Já em 2012, numa entrevista ao site Omelete.com., André Diniz falava sobre o projecto de adaptação de O Idiota, referindo: “Eu me apaixonei pelo livro, embora ele seja bem verborrágico em muitos momentos, e decidi fazer uma adaptação diferente. A HQ vai no caminho oposto daquele no qual a obra é escrita: serão mais de 300 páginas sem texto, com cores expressionistas e cenários minimalistas. Foi a forma que eu encontrei de me aproximar daquela essência do personagem que tanto me fascinou”
Dessa primeira versão, resultaram pouco mais de 100 páginas, finalizadas e coloridas por Marcela Mannheimer, com quem o autor já tinha colaborado em Negrinho do Pastoreio, que acabaram por ser descartadas. Houve ainda uma versão intermédia, já a preto e branco, que também ficou pelo caminho até que, em Maio de 2016, numa altura em que André Diniz já estava a morar em Portugal, arrancou com a versão final, em que as cores expressionistas dão lugar a um preto e branco contrastado, com o cinzento como segunda cor, a dar textura e profundidade aos desenhos, num registo bastante original que, apesar de ser totalmente digital, evoca a xilogravura.
Tendo desenhado em menos de um ano as mais de 400 páginas que compõem este livro, que então era inteiramente sem palavras, André Diniz não se importou, e bem, de alterar ligeiramente as regras do jogo, introduzindo, com grande parcimónia e de forma judiciosa alguns (poucos) diálogos, que possibilitam ao leitor menos familiarizado com o romance do Dostoievski uma mais fácil compreensão da complexa história imaginada pelo escritor russo.
O resultado é uma adaptação, tão original como conseguida, de um clássico da literatura mundial, publicada em Portugal antes de sair no Brasil e em França, que vem provar que é perfeitamente possível fazer “literatura desenhada” - termo que Hugo Pratt preferia para designar a BD- contando com a força das imagens e com a sua articulação sequencial, para contar uma história (quase) sem palavras.
Publicado originalmente no jornal Público de 30/09/2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 14 - Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo


UM BAR CHEIO DE HISTÓRIAS

Novela Gráfica III – Vol. 14
Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo
29 de Setembro
Argumento e Desenho – Tomeu Pinya

Por + 9,90€

Aqui fica a terceira e última introdução que escrevi para a série III da colecção Novela Gráfica. Como sempre acontece nestes casos, para ler o texto que saiu no Público, basta clicar na respectiva imagem.

A CASA DAS HISTÓRIAS

Uma pequena aldeia branca, numa ilha perdida no Mediterrâneo. Nessa aldeia, como em todas as outras, temos um bar que se enche de turistas no Verão e de velhos a jogar o dominó durante todo o ano. Mas o que torna este bar diferente é o seu dono: Rafa, o barbudo do título, que é um viciado em histórias e que através das histórias que os seus clientes lhe contam, em troca comida ou de uma bebida, viaja por todos os mares do mundo, sem sair da sua pequena ilha.
Este é o ponto de partida para Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo, esta história de histórias salpicada de Mediterrânico, publicada originalmente em Espanha, pela editora Planeta Agostini em 2009 e que valeu ao seu autor, Tomeu Pinya, o Prémio Popular Autor Revelação no Salón del Cómic de Barcelona, em 2010.
De seu nome completo, Bartolomeu Pinya Oliver, Pinya nasceu em 1982, em Palma de Maiorca e licenciou-se em Belas Artes pela Universidade de Barcelona, em 2004 e em Comunicação audiovisual, pela Universidade Pompeu Fabra, em 2006 e, embora Uma Aldeia Branca tenha sido o seu livro de estreia, o seu percurso na BD não começou aí. Como o próprio refere numa entrevista: “comecei em revistas escolares e universitárias. Estive muito tempo desenhando exclusivamente para mim, e a primeira vez que tentei um projecto sério foi para o apresentar às editoras.
Na verdade, já tinha a primeira história de Uma Aldeia Branca quatro anos antes de ser publicada, mas não me atrevi a mostrá-la a um editor senão dois anos depois, por timidez e insegurança.” A solução encontrada por Pinya para vencer essa insegurança, foi testar essas histórias, de forma isolada, enviando-as a diferentes concursos de BD, antes de as reunir numa obra de maior fôlego. E a certeza de que ali estava um bom livro em potência, chegou, quando algumas das histórias que acabariam por formar o livro, foram premiadas, como aconteceu com Cartes (Prémio ArtJove 2006), Sherezade (Prémio Sant Jordi UPF 2006) y Coloms (XI Prémio Jove d’Igualada).
Por isso, diz Pinya: “Quando finalmente apresentei o projecto, tinha já suficiente confiança no meu traço e um conhecimento do mercado que me permitia intuir que aquilo era publicável, que não estava a fazer perder tempo aos editores com o meu trabalho. Outra coisa era conseguir publicar, claro, mas finalmente a editora Planeta mostrou-se interessada e assim que pude começar a trabalhar de maneira profissional.”
O livro, que assinala a estreia de mais um autor espanhol na colecção Novela Gráfica, é uma obra coral, povoada de personagens com histórias para contar e que, além de Rafa, o dono do bar e de Núria e Marga, as empregadas, inclui naturalmente os clientes do bar. Clientes como Pantaléon, o vagabundo carregado de histórias; Eduardo Corona, o escritor argentino em busca de inspiração; Ignacio, o velho criador de pombos; Lucia, a fotógrafa de guerra: Don Nicolas, que espera (e desespera) pelas cartas do seu velho amor; o marinheiro Bernet Colóm, um Ulisses que regressa sempre a Núria, a sua Penélope, Hugo, o desenhador que não compreende a arte moderna; Kurt, o alemão de aspecto ameaçador e coração de ouro; e Fátima, a Sherezade por quem Rafa sonhou toda a vida.
Se tivermos em conta que o livro se passa numa ilha do Mediterrânico, como Palma de Maiorca, onde Tomeu nasceu, e que o autor, tanto nas fotografias como nos auto-retratos, se apresenta sempre com uma pujante barba, como Rafa, o barbudo dono do Bar, a tentação para encontrar reflexos autobiográficos neste livro é grande, mas deixemos que seja o próprio Tomeu a marcar as distâncias entre a sua vida e a sua arte: “Bem, a verdade é que mesmo que o enquadramento (a ilha, a natureza, etc.) tenha a ver com as minhas próprias vivências, eu nasci e cresci em Palma, que é uma cidade bastante grande. A aldeia, portanto, é uma invenção que me serve para caracterizar os personagens e facilitar que os seus encontros. É um recurso narrativo mais do que resultado das minhas próprias vivências. Há uma parte de mim mesmo em algumas histórias, mas mais na maneira como reflectem a minha maneira de ver as coisas, do que por estarem baseadas em algo que me aconteceu. Procuro usar a minha experiência para dar realismo aos personagens, para que o leitor possa ter a sensação de que os conhece e se reconheça neles.
Rafa, o protagonista, representa, claro, aquele lado de todos nós que queria ter um bar onde vão os amigos divertir-se, sem pensar demasiado nos horários nem no trabalho duro. É também uma projecção de mim: a parte de mim que não pode viver sem histórias.
Mas não creio que fosse feliz sendo apenas o Rafa. Há outros personagens que também sou e necessito ser, como Pantaleón, o narrador vagabundo, que é o que sabe contar as histórias, ou Eduardo, o escritor argentino, que além disso luta com  elas para  as armar e dar-lhes sentido e profundidade.”
Em termos gráficos, é interessante constatar, como o traço caricatural predominante, servido por uma leve aguada de guache cinzento, dá lugar a outros registos gráficos distintos, de acordo com as necessidades da narrativa, seja para dar maior realismo às brincadeiras das crianças, seja para homenagear Sergio Toppi (e também o Sandman de Neil Gaiman) na história contada por Fátima.
Não estamos perante um exercício de virtuosismo gratuito, mas uma mudança ditada pelas características da história a contar. Dê-mos pela última vez, a palavra ao autor: “Sim, posso dizer que me interessa mais a capacidade da Banda Desenhada para explicar historias, do que a gramática própria da BD. Não faço BD experimental, mesmo que explore os recursos narrativos da BD, enquanto sirvam ao propósito da narração. Neste aspecto, o meu interesse centra-se em criar tramas atraentes, com significado, cheias de personagens complexos e interessantes, com quem o leitor se possa identificar. Veremos se o consigo.” Para mim, não restam grandes dúvidas de que o conseguiu. Quanto ao prezado leitor, bastará continuar a leitura, para o descobrir.

domingo, 17 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 12 - Os Trilhos do Acaso 1

PACO ROCA E A HISTÓRIA DE “LA NUEVE”

Novela Gráfica III – Vol. 12
Os Trilhos do Acaso – Parte 1
15 de Setembro
Argumento e Desenho – Paco Roca
Por + 9,99€
Depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, Paco Roca regressa ao convívio dos leitores portugueses com Os Trilhos do Acaso, obra que ocupará os volumes 12 e 13 desta terceira série da colecção Novela Gráfica. Obra monumental e de grande fôlego, o que implicou a sua divisão em dois volumes por questões editoriais, Os Trilhos do Acaso reconstrói a história de La Nueve, a companhia militar francesa integrada na segunda divisão do General Leclerc, que, sob o comando do Capitão Dronne foi a primeira a entrar em Paris, no final da II Guerra Mundial. Uma companhia que tinha a particularidade de ser formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco, cuja história vamos descobrir através das recordações de Miguel Ruiz Campos, antigo combatente exilado em França, que Paco Roca entrevista.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, que Paco Roca conta com mestria, usando como protagonista, “um personagem verdadeiro, mas inventado”. Mas deixemos que seja o próprio Paco Roca a explicar melhor quem foi Miguel Ruiz: “Queria que fosse um soldado real porque as movimentações da maioria deles estão bem documentadas e não funcionava tão bem inventar um soldado. Estive indeciso entre vários. Um deles, que talvez tivesse sido o mais lógico, era Amado Granell, o tenente de La Nueve, mas morreu num acidente de carro nos anos setenta. A outra opção era cingir-me aos três que estavam vivos. Mas em primeiro lugar, esses três já tinham contado muitas vezes a sua vida; em segundo lugar, nenhum dos três esteve na libertação de Paris, e em terceiro lugar, custava-me muito cingir-me a uma pessoa que estivesse viva.
Ainda assim, descobri que um dos integrantes de La Nueve, Miguel Campos, era um tipo muito enigmático. Quase todo o que sabemos de La Nueve vem dos diários de campo do Capitão da companhia, Raymond Dronne, que na década de setenta os reescreveu e publicou. Ele fala de todos os espanhóis, sobretudo dos oficiais, e do resto não diz nada. E aquele de quem mais fala é de Miguel Campos, dizendo que, ainda que não fosse um militar de carreira — como todos os espanhóis, que estavam ali porque foram apanhados no meio da Guerra Civil e estavam ali metidos sem serem militares— tinha uma grande visão militar da estratégia, autoridade de comando, era muito valente e era capaz de infiltrar-se nas linhas inimigas para operações de sabotagem. Dedica-lhe bastantes páginas. E o melhor é que teve um final de vida muito misterioso e novelesco, porque desapareceu numa missão depois da libertação de Paris. Para alguns morreu ali, mas como não se encontrou o seu corpo, especulou-se muito sobre o que lhe teria acontecido. Especulou-se muito, mas como muitos espanhóis tinham nomes falsos — mudaram-nos porque tinham desertado da Legião Estrangeira ou tinham medo de que se fossem capturados afectasse as suas famílias— era impossível seguir o rastro de Miguel Campos. Pareceu-me um bom personagem novelesco e usei-o como protagonista para a minha história.”
Uma história que é contada a dois tempos, entre a actualidade e as décadas de 30 e 40, com as conversas entre o autor e Miguel Ruiz a preto e branco e as recordações do antigo combatente a cores, numa curiosa inversão do esquema tradicionalmente usado para os flashbacks. História, que neste primeiro volume, inclui a evacuação do porto de Alicante; a morte do poeta António Machado, autor do poema de onde Paco Roca tirou o título do seu livro; a passagem por um campo de trabalho; o exílio no norte de África; o alistamento no exército francês e o treino de guerra. Já para acompanhar o regresso à Europa de Miguel Ruiz e dos seus companheiros de La Nueve, o leitor terá de esperar até dia 22 de Setembro, dia em que estará à venda a segunda, e última, parte desta história épica.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/09/2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 11 - Tempos Amargos


AS CONFISSÕES DE UM ALCOÓLICO

Novela Gráfica III – Vol. 11
Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenho – Etienne Schréder
Por + 9,99€
Depois de Histórias do Bairro, de Bartolomé Segui e Gabi Beltran, as histórias autobiográficas voltam a estar no centro de mais um volume desta colecção, com Tempos Amargos, de Etienne Schréder, em que o autor relata com grande honestidade, num livro “inspirado e frágil”, como bem o classifica François Schuiten, o seu passado de alcoólico, que o levou a abandonar tudo e a viver uma existência de marginalidade, tendo-se tornado um sem-abrigo.
Nascido em 1950, Etienne Schréder é actualmente um dos responsáveis gráficos da série Blake e Mortimer, tendo colaborado nos álbuns O Estranho Encontro, A Maldição dos Trinta Denários, A Onda Septimus e O Bastão de Licurgo, mas os leitores portugueses conhecem-no também graças ao livro O Segredo de Coimbra, que já teve três edições nacionais. Mas, embora fosse leitor de BD na infância e na adolescência, a vida profissional de Schréder iniciou-se numa área completamente diferente, porque depois de concluir os seus estudos em direito e em criminologia, o autor arranjou emprego no sistema prisional, na prisão de Bruxelas. Um emprego tão monótono como frustrante que lhe destruiu as ilusões sobre o sistemas judicial belga e que o obrigava a confrontar-se com uma realidade de que só conseguia fugir refugiando-se no álcool, até acabar por ser despedido.
Este livro debruça-se precisamente sobre o período de cinco anos, entre 1979 e 1984, em que Schréder, parafraseando Mário Cesariny, “fechou os olhos frente ao precipício e caiu verticalmente no vício”. Esse relato, sem grandes concessões, mas com algum pudor, pois como o próprio reconhece: “não se pode dizer tudo, um livro não é um esgoto”, centra-se sobretudo nos seus companheiros de adição e de marginalidade, deixando praticamente de fora a vida familiar do autor. Seja os seus pais, que apenas aparecem (sintomaticamente) no início do livro como fantasmas, passando pela ex-mulher, que está totalmente ausente, ou até os seus filhos, a quem o livro é dedicado.
Como bem refere João Ramalho Santos no prefácio, há um certo paralelismo entre Tempos Amargos e Journal d’une Disparition (Shissō Nikki) do japonês Hideo Azuma, um autor de mangá alcoólico que também viveu como um sem-abrigo, mas se Azuma manteve o seu estilo caricatural que usava nos seus trabalhos mais comerciais para este relato autobiográfico, já Schréder afasta-se da limpidez da “linha clara” de O Segredo de Coimbra, ou da série Blake & Mortimer, para abraçar um registo mais expressionista, feito de aguadas de guache, altos contraste de preto e branco, enquadramentos angulosos e perturbadores, com os cenários, desenhados com precisão fotográfica em O Segredo de Coimbra, a serem aqui por vezes apenas sugeridos, sem que com isso percam força. Veja-se, por exemplo, a sombra ameaçadora do Palácio de Justiça de Bruxelas, que domina a página 33. Em suma, uma mudança de registo perfeitamente adequada às necessidades da história e que mostra bem o domínio apurado que Schréder possui dos mecanismos narrativos da BD.
Outra diferença fundamental entre Schréder e Azuma, é que, se o segundo se refugiou no álcool para fugir à pressão dos prazos que uma carreira de autor de mangá de sucesso obriga, já Schréder encontrou na BD a realização pessoal e profissional. Isso sucedeu graças a um curso nocturno de BD ministrado por Alain Goffin, que frequentou em 1984 e que lhe possibilitou trabalhar com diversos autores, como o próprio Goffin, Yslaire, Raoul Servais e sobretudo com Schuiten e Peeters, dupla que teve um peso decisivo na sua afirmação como autor completo. Um autor que neste tocante Tempos Amargos, revela todo o seu talento e sensibilidade pela forma como consegue transmitir ao leitor um momento marcante e complexo da sua vida.  
Publicado originalmente no jornal Público de 02/09/2017

sábado, 2 de setembro de 2017

Novelas Gráficas III 10 - Histórias do Bairro

UMA INFÂNCIA NO BARRIO CHINO

Novela Gráfica III – Vol. 10
Histórias do Bairro
Sexta, 01 de Setembro
Argumento – Gabi Beltrán
Desenho – Bartolomé Segui
Por + 9,99€
Depois de Miguelanxo Prado e Max, chegou a vez dos leitores portugueses descobrirem mais um exemplo da incrível vitalidade da novela gráfica espanhola, com Histórias do Bairro, de Gabi Beltran e Bartolomé Segui, o décimo volume desta série III, que chega aos quiosques de todo o país na próxima sexta-feira, 1 de Setembro.
Embora na edição portuguesa surja num único volume, Histórias do Bairro foi publicado originalmente em dois volumes, o primeiro dos quais, 10 Histórias del Barrio, arrebatou o Prémio Ciutat de Palma de Cómic, em 2011, sendo publicado pela editora basca Astiberri, como título abreviado de Historias del Barrio, menos de um ano depois, na prestigiada colecção Sillon Orejerro, que acolhe, entre outras, as obras de Paco Roca e também do português José Carlos Fernandes. Seguiu-se, em 2014, a segunda parte da história da adolescência do jovem Gabi, em Historias del Barrio: Caminos, mas o próprio Beltran é o primeiro a apontar que os dois volumes formam uma única história referindo que este segundo volume: “não é uma continuação em si. Quando acabamos com tudo isto, só haverá uma obra.”
Relato sem concessões de uma infância e uma adolescência passadas no bairro Sa Gerreria, o barrio chino da cidade de Palma de Maiorca, a capital das ilhas Baleares, numa altura em que a ilha não era o destino turístico que hoje é, Histórias do Bairro retrata um dia-a-dia de pobreza, marcado pelas drogas, delinquência e prostituição Para além dos seus amigos e companheiros de brincadeiras que ultrapassavam largamente os limites da legalidade, ficamos a conhecer também os gostos musicais e literários de Gabi, que não são diferentes dos de qualquer adolescente português de inícios da década de 80. Veja-se a T-shirt dos Joy Division, que Gabi veste ao longo de todo livro, ou a importância que a música Golden Brown dos Stranglers adquire na história O Descapotável. Já em termos literários, Beltran utiliza as leituras do jovem Gabi para enquadrar as histórias na época e também reflectir o seu próprio amadurecimento intelectual, com as revistas de BD icónicas da transição para a democracia, como a Totem ou a 1984 a darem lugar nos capítulos finais, a escritores como Steinbeck, Hemigway ou F. Scott Fitzgerald, nomes maiores da chamada “geração perdida”, que Gabi vai descobrir nas estantes da mulher mais velha que lhe mostra que o mundo pode ser bem mais vasto do que o Barrio Chino.
Embora seja também ele ilustrador, Gabi Beltrán assume-se aqui como escritor, algo evidente nos textos de cariz autobiográfico que intercalam cada uma das histórias, e ocupa-se “apenas” do argumento e das cores de Histórias do Bairro, entregando o desenho ao seu conterrâneo Bartolomé Segui, que conhece muito a Palma de Maiorca dos inícios da década de 80, por nela ter vivido. Vencedor, com Felipe Hernandez Cava, do Prémio Nacional del Comic em 2009, com Las Serpientes Cegas, Segui opta aqui por um estilo mais caricatural e de legibilidade mais imediata, que dá um toque visualmente mais agradável a uma realidade de grande dureza, o que ajuda o leitor a entrar mais facilmente na história.
Mas, melhor do que eu, deixemos que seja Alvaro Pons a exaltar os méritos do desenhador (e da linguagem da BD): “…Seguí adapta-se às necessidades do argumentista e sabe integrar os relatos de Beltrán num nível narrativo duplo: por um lado, a voz do narrador, que flui independente no exercício da memória; por outro, as histórias que se vão contando, que se vão apoiando no primeiro relato, mas sem perder a sua própria autonomia. Seguí consegue gerir os silêncios gráficos, pese embora a voz de fundo do narrador, fazendo chocar esse texto de natureza puramente literária com a força da narração visual para obter efeitos impensáveis em qualquer outra arte”.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/08/2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Evocando Bernie Wrightson


Como já tive ocasião de referir aqui, no nº 22 da revista Bang!, que chegou às lojas FNAC em Julho, tive oportunidade de homenagear Bernie Wrightson, o mestre do terror falecido a 18 de Março.
Aqui vos deixo o texto que publiquei na Bang!, com uma série de ilustrações que acabaram por não entrar na revista. Boa leitura!

EVOCANDO BERNIE WRIGHTSON

No passado dia 18 de Março, faleceu, vítima de um tumor cerebral, o desenhador americano Bernie Wrightson, co-criador de Swamp Thing, o Monstro do Pântano, entre muitas outras coisas. Apesar de, como infelizmente é habitual em Portugal, não haver praticamente nada deste autor publicado em edição nacional, com a excepção de alguns episódios de Swamp Thing publicados nos anos 80 no Mundo de Aventuras, isso em nada diminui a importância do seu trabalho, dividido entre a Banda Desenhada e a ilustração, com ligações à literatura e ao cinema. Um trabalho fantástico e de grande impacto visual, muito centrado no terror e no fantástico, que este artigo procura dar a descobrir aos leitores da revista Bang!

AS RAÍZES DE UMA CARREIRA

Nascido em 1948, na semana de Halloween, em Baltimore, Mariland, na mesma cidade onde nasceu o escritor Edgar Alan Poe, não admira que Wrightson se tenha tornado, também ele, um Mestre do Terror. A sua atracção pelo género fantástico veio desde cedo, e foi alimentada pelas revistas de terror da editora EC Comics e por programas radiofónicos, como The Lights Out, que encenava, em versão de teatro radiofónico, pequenos contos de terror na linha dos publicados na revista Tales From the Crypt, da EC Comics, que o pequeno Bernie lia às escondidas.
Com o fecho das revistas de terror da EC, provocado pela instauração do Comics Code, um código de autocensura que vinha impor restrições concretas às publicações de Banda Desenhada, Wrightson só voltaria a ter oportunidade de ler histórias de terror em BD em meados dos anos 60, quando o editor James Warren lança a revista Creepy, que recuperava a tradição das histórias de terror da EC Comics. Dono de um império editorial iniciado em 1958 com a revista Famous Monsters of Filmland, dedicada ao cinema de terror, em que a BD estava ausente, Warren estreia-se na BD em 1964, com o primeiro número da revista Creepy, uma publicação a preto e branco em formato magazine - ligeiramente superior ao tradicional formato comic book e, por isso mesmo, livre das restrições do Comics Code, que se aplicava apenas às publicações em formato comic book - que reunia artistas do calibre de um Frank Frazetta, Al Williamson, Angelo Torres e Gray Morrow, ilustrando argumentos de escritores como Archie Goodwin e Bruce Jones.

E foi precisamente nas páginas do nº 9 da revista Creepy que o jovem Bernie Wrightson se estreou, com uma ilustração publicada no correio dos leitores em 1966, ainda antes de começar a colaborar como ilustrador no jornal The Baltimore Sun. Mas o acontecimento que mudou a sua vida ocorreu um ano depois, em 1967. Foi a World Science Fiction Convention, em Nova Iorque, que tinha Hall Foster e Frank Frazetta como convidados e onde Bernie conheceu Al Williamson (um dos grandes desenhadores da EC), Dick Giordano (desenhador e editor da DC Comics) e dois jovens autores que se tornariam seus grandes amigos: Jeffrey Jones e Michael Kaluta. Através deles, Wrightson conheceu Carmine Infantino, o director editorial da DC, que gostou do trabalho dele e o convidou a colaborar na revista House of Secrets, uma publicação antológica que recolhia histórias de fantasia e policiais, mas que os editores pretendiam encaminhar mais para o registo do terror.
Foi para o nº 92 dessa revista que Wrightson, que entretanto já estava a morar em Nova Iorque, desenhou Swamp Thing, uma história de oito páginas, escrita por Len Wein. Wrightson, que teve apenas uma semana para desenhar a história,  teve de recorrer bastante a referências fotográficas (com Jeffrey Jones a tirar as fotos e a sua mulher Louise, Mike Kaluta e o próprio Wrightson a servirem como modelos) e precisou ainda da ajuda de Jones no desenho e na passagem a tinta de algumas páginas, para acabar a história a tempo. Embora não seja dos melhores trabalhos de Wrightson, longe disso, a história teve um sucesso incrível e nesse mês a House of Secrets foi o título da DC mais vendido, suplantando as revistas do Batman e do Superman.

Perante tal sucesso, não admira que a editora tenha decidido explorar o filão e, cerca de um ano depois, em 1972, o Monstro do Pântano regressava finalmente numa nova encarnação contemporânea (a história original passava-se no século XIX) como cabeça de cartaz de uma nova revista mensal, escrita por Wein e desenhada por Wrightson. Ao longo de dez números, publicados a cada dois meses, os dois criadores exploraram os diferentes nichos do terror literário e cinematográfico e houve ainda espaço para um memorável encontro entre o Batman e o Monstro do Pântano. Até que Wrightson se fartou e decidiu abandonar a série, sendo seguido três números depois por Len Wein, que só voltaria à série como editor, quase dez anos depois, sendo então responsável pela escolha de um jovem escritor inglês chamado… Alan Moore, para argumentista. Mas isso já é uma outra história…


A ÉPOCA WARREN

Uma das razões que levou Wrightson a abandonar a revista do Monstro do Pântano no auge da sua popularidade, para além de um certo cansaço criativo, foi a desilusão do desenhador orgulhoso do seu trabalho, ao ver as suas histórias mal impressas, com uma cor empastelada que escondia os detalhes do seu traço pormenorizado. Daí que tenha aceitado imediatamente o convite do editor James Warren para colaborar nas revistas Creeepy e Eerie, da Warren.
Aí, para além de ver o seu trabalho publicado a preto e branco, em revistas muito bem impressas, num formato maior do que o dos comics tradicionais, Wrightson foi receber 110 dólares por página, bem acima dos 65 dólares que recebia na DC, podendo ainda recuperar os seus desenhos originais, algo que os contratos da DC e Marvel ainda não contemplavam. Foi nestas condições, rodeado de alguns dos desenhadores que mais admirava, como All Williamson, Frank Frazetta, Richard Corben e Carmine Infantino, cujos desenhos passou a tinta em algumas histórias, que Wrightson assinou alguns dos seus melhores trabalhos, entre 1974 e 1982, seja adaptando clássicos da literatura como The Black Cat de Edgar Alan Poe, ou Cool Air, de Lovecraft, seja ilustrando argumentos de Bill Dubay e Bruce Jones, como em Jenifer, uma história memorável que seria adaptada à televisão por Dario Argento, para a série Master of Horror.


FRANKENSTEIN E O THE STUDIO

Entre a dúzia de histórias que desenhou para a Warren, está The Muck Monster, uma das raras histórias que também escreveu e que seria publicada no nº 68 da revista Eerie, numa versão a cores contra a vontade do próprio Wrightson. Para além do extraordinário trabalho gráfico de Wrightson, esta variação sobre a história do Dr. Frankenstein contada na perspectiva do monstro, pode ser vista como um ensaio para o trabalho da sua vida, as ilustrações para o Frankenstein de Mary W. Shelley. Quase cinquenta ilustrações, realizadas ao longo de sete anos, que o próprio autor considera muito justamente como o seu melhor trabalho de sempre. Com um estilo evocativo da gravura, influenciado pelas ilustrações de Franklin Booth, as ilustrações de Wrightson para o Frankenstein são um assombro de detalhe, qualidade de composição e dramatismo. Imagens tão belas como espectaculares, que conquistaram coleccionadores como os cineastas Guillermo Del Toro e George Lucas, que compraram vários dos originais.

Publicado originalmente pela Marvel em 1982, o Frankenstein de Bernie Wrightson, seria reeditado pela Underwood-Miller em 1994 e pela Dark Horse em 2008, numa luxuosa edição comemorativa do 25º aniversário da publicação original, mas todas estas edições estão completamente esgotadas atingindo preços proibitivos no EBay.
Foi nesse período, em que começava privilegiar a ilustração em relação à BD, realizando uma série de ilustrações para posters e portfolios para a Cristopher Entreprises, incluindo ilustrações sobre obras de Edgar Alan Poe e um livro de monstros para colorir, que Wrightson decidiu procurar um espaço de trabalho fora de casa.
Tudo começou a partir de uma conversa com Barry Windsor-Smith, o desenhador de Conan, que andava à procura de um espaço para instalar o seu atelier e que acabou por encontrar um excelente local num sótão amplo e cheio de luz, num prédio no bairro de Chelsea, no centro de Manhattan. Como a renda do espaço, que servia de arrecadação para uma tipografia, era de 400 dólares, e nenhum dos artistas conseguia pagar mais de 100 dólares por mês, convidaram Jeff Jones e Mike Kaluta para dividir o espaço e (sobretudo) a renda.
Nascia assim, em 1976, por motivos puramente pragmáticos, o Studio. Um espaço que era essencialmente um local de trabalho de quatro artistas que procuravam transcender o mundo dos comics, e também um espaço de encontro e de convívio (as festas no Studio ficaram famosas no meio da BD), mas que adquiriu uma dimensão quase mítica, face à incrível concentração de talento debaixo do mesmo tecto, que um livro/catálogo da Paper Tiger, a editora que publicava os livros com as ilustrações de Roger Dean para as capas dos discos dos Yes, registou para a posteridade.
Tudo começou quando um representante da editora, que estava em Nova Iorque para preparar um livro sobre os dez melhores ilustradores americanos de fantasia acabou por ir parar ao Studio e descobrir fascinado o espaço e o trabalho dos quatro autores. Mas deixemos que seja o próprio Bernie Wrightson a contar como tudo se passou: “o espaço era grandioso. Tínhamo-lo decorado como os salões de Paris na viragem do século. Sabíamos que era um espaço fantástico. Sabíamos que quando se entrava ali, era como entrar na caverna de Aladino, cheia de tesouros. Então falámos com o tipo, acho que saímos para jantar e, no fim do dia, ele tinha modificado os seus planos de um livro sobre os dez melhores artistas de fantasia, para um livro só sobre nós os quatro. Ao longo daquela tarde, passámos de quatro gajos que precisavam de um espaço maior para trabalhar, para os Beatles da Arte Fantástica.”
Curiosamente, quando o livro saiu em 1979, o Studio já não existia e os quatro artistas estavam cada um para seu lado, mas isso não impediu que a memória do Studio continue a influenciar artistas um pouco por todo o lado, como acontece ainda agora em Portugal com o Lisbon Studio.


DE STEPHEN KING AO CINEMA

Entre as capas e algumas BDs ocasionais que fez para a Marvel e DC e outros trabalhos mais inesperados, como uma capa para o disco Dead Ringer de Meatloaf, Wrightson iniciou uma colaboração com o escritor Stephen King, que começou com um calendário que se transformou em livro, The Cycle of the Werewolf e que incluiu ilustrações para romances de King como The Stand e The Dark Tower, passando pela adaptação à BD de um filme que homenageava precisamente as BDs de horror da EC e da Warren que marcaram a vida de Wrightson. O filme chamava-se Creepshow e juntou King a George Romero (o inventor dos zombies no cinema com The Night of the Living Dead ) e Wrightson teve apenas três meses para desenhar as 64 páginas da adaptação à BD que a sua mulher, Michelle, coloriu. Um desafio arriscado, que venceu com sucesso assinalável.
Essa não foi a única experiência de Wrightson no cinema, pois além de ter trabalhado como artista conceptual nos filmes Ghostbusters I e II, Firefly, The Green Mile, Dark Country, The Mist e no primeiro Spider-Man de Sam Raimi, Captain Stern, uma história curta que fez para a revista Heavy Metal, foi adaptada directamente num dos capítulos do filme de animação com o mesmo nome.


O REGRESSO À BANDA DESENHADA

Apesar do seu trabalho como ilustrador, Wrightson nunca cortou completamente com a BD tendo desenhado diversas histórias ao longo das últimas três décadas, com destaque para o Batman, que desenhou na mini-série The Cult, de 1987, uma história sombria sobre um culto religioso em que o estilo do desenhador encaixa como uma luva, e voltaria a desenhar no primeiro encontro entre o Cavaleiro das Trevas e os monstros do filme Alien de Ridley Scott. 
Mas foi com o escritor Steve Niles, criador da série 30 Dias da Noite, que Wrightson colaborou mais directamente nos últimos anos, assinando livros como The Ghoul, City of Others (em que as cores de José Villarubia foram impressas directamente sobre o desenho a lápis de Wrightson, com excelentes resultados) e sobretudo Frankenstein Alive, Alive!, obra que assinalou o regresso do desenhador à obra de Mary Shelley e que valeria o prémio da National Cartonist Society para a Melhor BD de 2013.
Um regresso simbólico ao local onde foi mais feliz e que funcionaria como o canto de cisne do artista, cuja influência é visível em desenhadores como o alemão Andreas, ou americano Kelley Jones, entre outros.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 22, em Julho de 2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 9 - Os Livros da Magia

O APRENDIZ DE FEITICEIRO, 
NO MUNDO MÁGICO DE NEIL GAIMAN

Novela Gráfica III – Vol. 9
Os Livros da Magia
Sexta, 25 de Agosto
Argumento – Neil Gaiman 
Desenho – John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson
Por + 9,99€
Depois da publicação da série Sandman, Neil Gaiman regressa com Os Livros da Magia, a mini-série que lançou Tim Hunter no universo da DC e que chega finalmente a Portugal na próxima sexta-feira, integrada na terceira série da colecção Novela Gráfica.
Publicado originalmente como uma mini-série em quatro volumes entre 1990 e 1991, pensada para dar a conhecer aos leitores o universo de magia da DC, concentrado na linha Vertigo, Os Livros da Magia, eram para ser escritos por J. M De Matteis na forma de um livro ilustrado, em que as páginas de texto alternavam com ilustrações de página inteira de Jon J Muth, Kent Williams e Dave McKean.
Quando alguns destes artistas se desinteressaram do projecto, o próprio De Matteis decidiu também afastar-se e a editora Karen Berger virou-se para a escolha óbvia: Neil Gaiman. Mas deixemos que seja o próprio Gaiman a contar como tudo se passou: “Karen telefonou-me e disse, “Queremos fazer um livro que seja um Quem é Quem, um guia e uma história de todos os nossos personagens mágicos. Mas em vez de um Quem é Quem no Universo DC, seria uma BD com uma história e um enredo. Consegues fazer isso?”. Ri-me na cara dela, disse-lhe, “Não sejas tola”, e desliguei. Um dia depois, estava muito bem sentado e de repente apercebi-me como fazer essa história de uma maneira que funcionasse. Liguei logo à Karen, inebriado com o entusiasmo do meu próprio génio e disse-lhe, ”Pode ser feito!”. Ela disse “ainda bem” e mandou-me o contrato.”
O plano de Gaiman assentava num miúdo inglês de doze anos, Timothy Hunter, que descobre que está destinado a ser o maior feiticeiro de sempre e que vai ter como guia aos recantos mágicos do universo DC, a Brigada das Gabardinas, constituída por John Constantine, Phantom Stranger, Dr. Oculto e Mister E.
Ao longo dos quatro capítulos da história, desenhados respectivamente por John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson, cada um dos magos dá a descobrir ao jovem Hunter uma faceta e uma época diferente do Universo DC. No primeiro capítulo, ilustrado por Bolton, o Phantom Stranger mostra-lhe o nascimento do universo e o aparecimento da magia na Terra. No segundo, pintado por Scott Hampton, John Constantine, personagem que Gaiman já tinha escrito nos primeiros capítulos da série Sandman, leva Tim numa viagem à América, onde este conhece Zatanna, entre outras personagens do universo mágico da DC. No terceiro capítulo, Charles Vess, que tinha acabado de trabalhar com Gaiman em Sandman, dá vida com o seu traço inconfundível à visita de Tim e do Dr. Oculto ao Faerie, o reino das fadas. Finalmente, no último capítulo, ilustrado por Paul Johnson, Mr. E leva Tim bem longe num possível futuro do Universo DC.
A diferença de registos gráficos dos quatro capítulos ilustrados em cor directa e com uma grande diversidade de técnicas, fazem de Livros da Magia um livro belíssimo e visualmente espectacular, mas foi a história de Gaiman que mais contribuiu para o sucesso de Livros da Magia, que daria origem a uma série mensal que durou 75 números (tantos quanto o Sandman) e a diversas mini-séries, publicadas entre 1992 e 2005.
Apesar da figura de Tim Hunter ser fisicamente baseada no filho de John Bolton, houve também quem visse nele a principal fonte de inspiração de J. K. Rowling para o seu Harry Potter, publicado sete anos depois. Mas Gaiman é o primeiro a afastar estas suspeitas, referindo: “Eu não fui certamente o primeiro escritor a criar um miúdo com óculos com o potencial para se tornar o mais poderoso mágico do mundo. Criar um miúdo com poderes mágicos – ou, mais importante, com potencial para a magia – e usar corujas e outras coisas do género, são coisas bastante óbvias tendo em conta a tradição da literatura fantástica. J. K. Rowling não foi a primeira pessoa a mandar um miúdo para uma escola de feiticeiros. De Jane Yolen e Diane Dune, nos tempos recentes, até escritores mais antigos, como T. H. White e E. Nesbit, não faltam exemplos.”
Publicado originalmente no jornal Público de 19/08/2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 8 - Vapor

AS TENTAÇÕES DO EREMITA

Novela Gráfica III – Vol. 8
Vapor
Argumento e Desenho – Max
Sexta, 18 de Agosto
Por + 9,99€
Nome maior da novela gráfica espanhola, distinguido com o Prémio Nacional Del Comic em 2007, o catalão Max é mais um dos autores que vê finalmente o seu trabalho editado em livro em Portugal graças à colecção Novela Gráfica, onde será dado à estampa no próximo dia 18 de Agosto, o livro Vapor, um dos seus trabalhos mais recentes, que relata a tentativa de ascensão do eremita Nicodemos (ou nick, para o gato mosh) a uma realidade espiritual superior, num estranho deserto onde não faltam as distracções, nem as tentações...
Se as lacunas da edição nacional que estas colecções têm ajudado a corrigir são bem evidentes, no caso de Max, nascido Francesc Capdevila em 1956, em Barcelona, essa lacuna era ainda mais escandalosa, pois Max já esteve presente por diversas vezes nos Salões de Banda Desenhada do Porto, Beja, Amadora e Lisboa e a revista Quadrado (tanto na primeira como na segunda série) publicou várias histórias curtas suas, tal como aconteceu com a mítica revista brasileira Animal, onde os leitores portugueses mais atentos aos quiosques puderam descobrir, entre outras histórias memoráveis, a série Peter Pank, uma versão iconoclasta do Peter Pan de James Barrie, popularizado pelo filme dos estúdios Disney.
Com uma carreira profissional iniciada no início da década de 70 no fanzine El Rollo Enmascarado, onde participaram também Nazario e Mariscal, Max vai estar ligado à formação da revista El Vibora em 1979, onde publica Gustavo, o seu primeiro (anti) herói, criado dois anos antes para o fanzine Muérdago e a trilogia dedicada a Peter Pank, que lhe valeu o prémio de Melhor Obra no Saló del Còmic de Barcelona de 1988 para El Licantropunk, o segundo capitulo das aventuras de Peter Pank.
Apesar de publicar directamente em França e ter uma carreira como ilustrador que o levou, entre outros sítios, à capa da revista New Yorker, Max nunca abandonou uma atitude interventiva em relação à actualidade, consubstanciada na revista Nosostros Somos los Muertos, que editou, com Pere Joan, entre 1995 e 2007.
Tal como o seu estilo evoluiu de um registo marcado pela obra de Robert Crumb para um estilo mais limpo e redondo, próximo da “linha clara” franco-belga, também essa colagem interventiva à actualidade dá gradualmente lugar a trabalhos mais introspectivos, em que a dimensão onírica e surreal ganha um peso cada vez maior. Uma evolução que se inicia em El Prolongado Sueño del Sr. T e que continua no premiado Bardin, el Superrealista com quem este Vapor, apesar de um registo gráfico ainda mais depurado, partilha o cenário do deserto, transformado num palco teatral de uma comédia surreal.
Com efeito, o deserto onde Bardin encontra o Cão Andaluz de Buñuel e Dali, acaba por ser o mesmo onde o eremita nick procura a paz de espírito, através do jejum e da oração em Vapor e onde as personagens dos quadros de Bosch deambulam em O Tríptico dos Encantados, o livro sobre Hieronimus Bosch que Max fez para o museu do Prado em 2016.
Cruzamento, tão inesperado como conseguido, entre o Krazy Kat, de George Herriman, o filme Simão do Deserto, de Buñuel e as Tentações de Santo Antão, de Bosch, Vapor é uma óptima porta de entrada para a obra de Max.
Publicado originalmente no jornal Público de 12/08/2017