quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Um punhado de imagens do Viñetas desde o Atlântico 2017

Treze anos depois, regressei finalmente ao Viñetas desde o Atlântico, o Festival de BD da Corunha organizado por Miguelanxo Prado, com uma equipa que inclui Carlos Portela e Melo Melowsky (que é também o responsável pela área de BD da Comic Con portuguesa)  e que é, a par com o Festival de Beja, o mais simpático Festival de BD em que estive. Ao contrário da edição de 2004, onde estive como convidado, acompanhando uma exposição dedicada ao 25 de Abril na BD Portuguesa, que comissariei, desta vez regressei como simples turista, apanhando apenas os últimos dias do Festival, com a programação oficial praticamente terminada, o que me impediu de reencontrar alguns amigos e conhecidos e de apanhar a última sessão de autógrafos com os autores presentes, que estava a terminar no momento em que eu estava a chegar à Coruña, por volta das 14h de sábado.
E aqui fica um aviso para os visitantes que forem de Portugal: no Viñetas respeitam mesmo a hora da siesta tão tipicamente espanhola. Entre as 14h e as 18h todos os espaços de exposição estavam fechados, tal como as lojas da Rua da BD, o espaço junto ao Kiosco Alfonso, onde estão instalados os stands das editoras e das livrarias galegas.
O lado bom de ter chegado no "fim da festa", é que, com excepção da Biblioteca Salvador de Madariaga, que estava fechada ao domingo. acabei por guardar a minha visita às exposições e à área comercial, para a manhã de domingo, onde havia muito menos gente no que no sábado à tarde, o que permitiu visitar as exposições com outra calma.
Contando com o Kiosco Alfonso como núcleo principal, as exposições estavam espalhadas também por outros lugares próximos, como a Fundacion Barrié, ou novo edifício Palexco, situado junto ao mar e também para outros lugares mais distantes, como a Torre de Hércules, símbolo icónico da Coruña, onde estava uma exposição dedicada aos 20 anos de cartazes do festival, que incluía o magnífico cartaz de Das Pastoras para a edição deste ano, que não tive oportunidade de visitar.
Mas as melhores exposições estavam no Kiosco Alfonso, o coração do Festival, que albergava pranchas originais (e impressões digitais) de Dave Mckean, Ralph Meyer, Eduardo Risso, Julie Rocheleau e o galego Kiko da Silva.
Mckean apresentou os quatros projectos de BD em que está a trabalhar neste momento e que, com excepção de Black Dog, ainda não foram publicados e que além de Caligaro, um projecto em que o desenhador trabalha desde a sua passagem pelo Festival de BD de Beja, inclui também um projecto feito em parceria com Roger Dean, o conhecido ilustrador das capas dos discos de bandas de rock sinfónico como os Yes.
Ralph Meyer concentrou a sua exposição na série Undertaker, o popular Western criou com Dorrison  e que é um dos melhores exemplares actuais da BD de aventura clássica franco-belga e os seus originais a preto e branco são magníficos, tal como as suas pinturas a cores. Eduardo Risso apresentou uma exposição antológica, que incluía trabalhos mais antigos como Parque Chas, ou Fulú, até títulos mais recentes como Moon Shine, ou Torpedo 1972, em que retoma o famoso (anti)herói de Abuli e Bernet. Mas, para mim, a grande surpresa da exposição de Risso, foram os magníficos originais a cores de 1950, uma história de 2010 que, presumo, terá sido a sua última colaboração com Carlos Trillo.
Se Meyer, McKean e Risso são autores cujo trabalho conheço bem, já Kiko da Silva, de quem conhecia apenas o divertido O Inferno do Desenhador, foi uma muito agradável surpresa, pela qualidade e versatilidade do seu trabalho, que não se limita ás duas dimensões da BD. Outra belíssima surpresa foi o trabalho (inteiramente digital) da canadiana Julie Rocheleau, que tem feito carreira na BD franco-belga e que revela um traço de grande elegância, excelente sentido de composição e um trabalho de cor tão inesperado como espectacular.
A nível das exposições que visitei, destaque ainda para a mostra dedicada os 10 Anos do Prémio Nacional del Comic, que incluía várias obras já publicadas em Portugal, como A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, Ardalém, de Miguelanxo Prado, Rugas, de Paco Roca, e Blacksad: Amarillo, de Guarnido e Diaz Canales. 
A parte comercial, para além de dar para perceber que, entre franceses, japoneses e americanos, praticamente tudo o que de importante se publica no mundo está disponível em espanhol, mas as minhas compras centraram-se na BD espanhola em geral e na BD galega em particular. E aqui, merece destaque a revista La Resistência, publicada pela editora Dibbuks, que neste sexto número tem 128 páginas de BD e recolhe histórias de mais de uma vintena de autores.
Mas para além dos espaços do Festival, a BD está bem presente na Coruña, seja através das estátuas de personagens de BD (algumas bastante mais conseguidas do que outras), seja nos grafittis, ou num espaço como a Pulperia de Melide, um restaurante onde servem exclusivamente polvo à galega, cujas paredes estão decoradas com desenhos dos autores que passaram pelas Viñetas do Atlântico.

                 Uma escultura de Blacksad, junto a um dos núcleos do Viñetas

                                 O fantástico trabalho de Julie Rocheleau
                                  1950. A última (?) colaboração de Trillo e Risso
                                             Black Dog, de Dave McKean
 Original de Bardin, de Max, um dos vencedores do Prémio Nacional de Comic
                           Uma parede da Pulperia de Melide cheia de desenhos
                                   Algumas das BDs que trouxe da Coruña

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 7 - Dylan Dog: Mater Morbi

Tal como aconteceu com Ronin, também neste Mater Morbi, que assinala a estreia de Dylan Dog em edição nacional, tive o privilégio de fazer a tradução e o prefácio do volume, para além da coordenação editorial, o que teve um sabor especial, dado Dylan Dog ser uma das minhas séries de BD favoritas, como é fácil de perceber, pelos vários posts que já lhe dediquei. Por isso, deixo-vos com o texto de introdução que escrevi para o volume, em vez do habitual texto do Público, que pode à mesma ser lido, bastando para tal carregar na imagem.

COM MATER MORBI,
DYLAN DOG CHEGA FINALMENTE A PORTUGAL

Novela Gráfica III – Vol. 7 
Dylan Dog: Mater Morbi
Argumento – Roberto Recchioni
Desenhos – Massimo Carnevale
Sexta, 11 de Agosto
Por + 9,99€

NOSSA SENHORA DO SOFRIMENTO

A história que vão poder ler a seguir é muito importante por duas razões. Primeiro, por assinalar a estreia em edição nacional de Dylan Dog, o popular detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli em 1986 e que, mais de trinta anos depois da sua estreia, se mantém como um verdadeiro fenómeno de culto e uma das mais importantes e populares séries dos fumetti (nome dado à banda desenhada em Itália). Para além da importância histórica desta edição, Mater Morbi é também uma das melhores histórias de Dylan Dog da última década (o que, tendo em conta que se publicam perto de uma vintena de histórias do investigador do pesadelo todos os anos, não é coisa pouca…) e a mais publicada a nível internacional.
Mas antes de nos determos em Mater Morbi, convém traçar um quadro geral dos fumetti da Bonelli, de que a série Dylan Dog é um dos marcos. E o segredo do sucesso das publicações de Sergio Bonelli, alicerçado na popularidade do cowboy Tex, criado pelo seu pai, Gian Luigi Bonelli e pelo desenhador Aurelio Galleppini, consistiu precisamente em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com perto de uma centena de páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada na Itália nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli propôs aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, dedicadas aos mais diversos géneros, do Western, ao policial, passando pela ficção científica e pelo terror, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliados a um leque necessariamente bem mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos. Durante um curto período na década de 90, a série Dylan Dog chegou mesmo a ultrapassar o meio milhão de exemplares mensais, superando as vendas de Tex e de Topolino (a revista do rato Mickey) e afirmando-se como a BD mais vendida em Itália, algo só possível graças a um público fiel e heterogéneo. Um público, que não se restringe aos leitores habituais de BD e que engloba também muitas mulheres, fãs do cinema de terror, que Sclavi citava abundantemente, quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco, fã assumido de Dylan Dog.
Neste tipo de estrutura de produção, o papel do argumentista é bem mais importante do que o do desenhador, que vai variando, com vários desenhadores a trabalharem em simultâneo na série, de maneira a assegurarem a produção de quase cem páginas por mês, que podem levar perto de um ano a desenhar. Por isso, embora ele diga que se identifica mais com os monstros, Tiziano Sclavi, que durante a primeira década da série assegurou a escrita da maioria dos argumentos de Dylan Dog, supervisionando os restantes, tal como Gustave Flaubert, que dizia que a Madame Bovary era ele, é Dylan Dog. Daí que, com o gradual afastamento de Sclavi da escrita da série, motivado pela dificuldade cada vez maior em escrever novas aventuras para o (anti)herói que criou, a mesma tenha decaído em popularidade (e qualidade).
Coube ao editor Mauro Marcheselli a espinhosa tarefa de encontrar novos argumentistas capazes de preencher o vazio deixado por Sclavi. Um deles foi precisamente Roberto Reccchioni. Argumentista, desenhador, jornalista e escritor, Recchioni trabalhou para as principais editoras italianas, da Disney à Bdb Presse, onde se estreou, passando pela Panini, Eura Editoriale, Comic Art, Rizzoli, Magic Press e Bonelli, onde, para além da série Dylan Dog, escreveu argumentos para Tex, Gli Orfani e Le Storie. Antes de Mater Morbi, Recchioni tinha escrito apenas duas histórias de Dylan Dog: uma longa, ilustrada por Bruno Brindisi para a série mensal, e uma curta a cores, que Massimo Carnevale ilustrou para o número inaugural da nova revista Dylan Dog Color Fest.
Foi Marcheselli que era leitor assíduo do blogue de Recchioni onde ele descrevia os seus frequentes problemas de saúde, que o levaram por diversas vezes a uma cama de hospital, que se lembrou que ele, que estava sempre doente, seria a pessoa ideal para escrever uma aventura de Dylan Dog sobre doenças. Um tema que ia de encontro ao que o próprio Recchioni queria fazer na série pois, como refere numa entrevista: “creio que para se fazer algo de relevante com o personagem de Sclavi, é necessário que alguém sofra. Pode ser o argumentista, o desenhador, ou o personagem, mas pelo menos um dos três tem de passar realmente mal, expor-se, arriscar-se, sofrer. E essa história, que acabaria por ser Mater Morbi, proporcionava-me a oportunidade de passar realmente mal.”
Para dar vida aos temores mais íntimos de Recchioni, que usou a figura fantástica de Mater Morbi para tratar de forma metafórica temas bem reais como a solidão dos doentes e o encarniçamento terapêutico, estava o desenhador romano Massimo Carnevale que, para além da história curta para o Dylan Dog Color Fest #1, já tinha trabalhado com o argumentista em John Doe e Detective Dante, duas séries co-criadas por Recchioni. Apesar de uma agenda sobrecarregada pelas suas colaborações para o mercado americano, para onde realizou ilustrações para as capas de séries como Y the Last Man, Northlanders e Conan, the Barbarian, Carnevale não resistiu ao desafio de acompanhar o escritor nesta dura viagem ao coração da dor, onde reina Mater Morbi, a divindade sombria que se alimenta do sofrimento dos doentes, realizando um trabalho gráfico excepcional.
Resultado de um processo de colaboração quase orgânico entre o desenhador e o argumentista, apenas perturbado por divergências quanto à aparência de Mater Morbi, que Carnevale via mais como uma mistura entre “uma criatura de Giger e a Rainha dos Borg”, Mater Morbi veria a luz do dia em Dezembro de 2009, no #280 da série mensal Dylan Dog, com sucesso imediato.

O impacto de Mater Morbi não se restringiu ao mundo dos comics e a história esteve na origem de uma acesa polémica na comunicação social, quando a subsecretária da Saúde da altura, Eugenia Rocella, que não tinha lido o livro, veio acusar Mater Morbi de ser uma “ode à eutanásia e ao culto do super-herói”, acabando mais tarde por se retractar na primeira página do Corriere della Sera, admitindo que a história tocava temas de discussão muito importantes, sobretudo em termos da relação médico/paciente. Depois disso, Mater Morbi teve direito a uma edição de luxo da editora Bao (que serviu de base a esta edição da Levoir) e foi publicada em diversos países, incluindo nos E.U.A., onde arrebatou o Ghastly Award para Melhor Novela Gráfica de Terror publicada em 2016.
Mas para Recchioni, que é actualmente o editor responsável pela renovação da série Dylan Dog, o mais importante foi a reacção de Tiziano Sclavi, que disse que a história era verdadeiramente assustadora e quis conhecê-lo. Como Recchioni recorda no livro Dylan Dog Diary, publicado por ocasião do trigésimo aniversário da série: “A coisa que me deixou mais orgulhoso foi que, depois de ter lido a história, Tiziano Sclavi quis conhecer-me e deu-me os parabéns.
Mater Morbi, para mim, mudou tudo. E, de alguma maneira, tendo em conta o cargo que ocupo actualmente, mudou muita coisa também para Dylan Dog.”

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 6 - K.O. em Telavive


NA CABEÇA DE ASAF HANUKA

Novela Gráfica III – Vol. 6 
K.O. em Telavive
Argumento e Desenhos – Asaf Hanuka
Sexta, 04 de Agosto
Por + 9,99€
Uma das preocupações das colecções de Novelas Gráficas que têm saído com o Público desde 2015, tem sido mostrar que a Banda Desenhada de qualidade não se limita às produções franco-belgas, americanas, ou japonesas. Criadores de países mais periféricos em relação aos grandes centros de produção de BD, como a Argentina, Brasil, Espanha e Itália têm estado presentes em todas as colecções e, agora chegou a vez de alargar ainda mais os horizontes, até à Banda Desenhada israelita, de que K.O. em Telavive, de Asaf Hanuka é um digno representante.
Embora não tão conhecido como a sua compatriota Rutu Modan (Exit Wounds e The Property), Asaf Hanuka tem várias obras publicadas no Ocidente, tanto a solo, como em colaboração com o seu irmão gémeo, Tomer, embora, neste caso, o método de colaboração seja naturalmente muito diferente do dos gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá (presentes na série II das Novelas Gráficas com Daytripper), pois Tomer vive em Nova Iorque desde os 22 anos, enquanto Asaf continua a viver em Telavive.
Nascido em Telavive em 1974, Asaf Hanuka estudou BD na escola Émile Cohn, em Lyon, em França e estreou-se profissionalmente enquanto cumpria o serviço militar obrigatório, ilustrando histórias curtas do escritor israelita Edgar Keret, com quem voltaria a colaborar em Pizzeria Kamikaze, obra nomeada para os Prémios Eisner de 2007. Além das colaborações com o seu irmão Tomer, com quem criou a série Bipolar e a novela gráfica The Divine, Hanuka trabalhou também com o escritor francês (e colaborador habitual de Tardi) Didier Daeninckx em Carton Jaune, uma BD editada em França em 1999. Mas a actividade do autor não se limita apenas à BD, pois além de ter participado (tal como o seu irmão Tomer) no filme de animação Waltz with Bashir, Asaf Hanuka tem também uma carreira de sucesso como ilustrador, tendo publicado em revistas como a Rolling Stone, Fortune, New York Times, Wall Street Journal, Time, Forbes e Newsweek, entre outras.
K.O em Telavive nasceu em 2010 como uma página semanal publicada em Calcalist, uma revista de negócios israelita, a convite do editor Amir Ziv, com quem Hanuka já tinha trabalhado. Como o próprio refere: “Começou como uma BD autobiográfica sobre a dificuldade da nossa família em encontrar um lugar para morar em Tel Aviv. Depois de alguns meses a fazer a página, o ângulo financeiro ficou um pouco aborrecido e então comecei a escrever sobre o que me aconteceu durante a semana. O editor aceitou essa mudança e até a encorajou. Eu lembro-me de uma vez em que enviei uma história agradável com um final bonito e ele me disse que o meu trabalho é mais interessante quando é sombrio e um pouco enigmático. Ou seja, tive o seu apoio total para fazer o que queria.” Também em termos gráficos essa liberdade é evidente, com o autor a alternar uma estrutura tradicional de nove quadrados por página, com vistosas imagens de página inteira, tudo servido por um excelente e inesperado trabalho de cor, que tem também uma função narrativa importante.
Retrato irónico, divertido e onírico de um ilustrador que é simultaneamente, marido, pai e cidadão israelita, com tudo o que isso implica, K.O em Telavive funciona também como uma forma quase terapêutica do autor confrontar os seus medos e frustrações. Nas palavras do próprio Hanuka: “A melhor maneira que tenho de lidar com alguma coisa, é tentar dividi-la em nove quadrados e encontrar algum tipo de lógica narrativa. Uma vez que está na página, o monstro, que estava escondido nas sombras, é menor porque agora está visível. Isso ajuda-me a ter uma perspectiva e a perceber o que realmente está a acontecer. Às vezes eu acabo uma página e nem tenho certeza sobre o que é exactamente, mas sinto-me aliviado. É assim que sei que funciona.”
Texto publicado originalmente no jornal Público de 29/07/2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Novela Gráfica III 5 - Polina


A DANÇA E A VIDA

Novela Gráfica III  
Vol. 5 
Polina
Argumento e Desenhos – Bastien Vivès
Sexta, 28 de Julho
Por + 9,99€
Polina, a novela gráfica que chega aos quiosques na próxima sexta-feira, assinala a estreia em Portugal de Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD francesa. Nascido em Paris em 1984, Vivès é um autor tão talentoso como produtivo e versátil, de tal maneira que aos 27 anos já tinha 11 livros publicados, tendo ganho o prémio Revelação no Festival de Angoulême em 2009, com Le Gout du Chlore. Mas Polina, publicado originalmente em França em 2011 é o seu trabalho mais premiado, tendo arrebatado o prémio das Livrarias de BD, o Grande Prémio da Crítica da ACBD (a Associação de Jornalistas e Críticos de BD franceses) e o prémio Haxtur para a Melhor Novela Gráfica em Espanha.
Centrado na vida de Polina Oulinov, uma jovem bailarina russa, desde a sua entrada na Academia do Professor Bojinski, até à idade adulta, Polina é uma história de crescimento, ou um  bildungsroman para usar um termo mais preciso (e erudito), contada com grande simplicidade e emoção e um rigor narrativo ímpar.
Um dos pontos-chave do livro é a relação entre Polina e Bojinski, que apesar da rigidez dos modos, assume uma dimensão quase paternal, com Bojinski a substituir de algum modo o pai de Polina, que está totalmente ausente da história. A forma como Vivès explora a relação entre os dois é uma prova do seu génio narrativo. Repare-se como nunca vemos o olhar de Bojinski, escondido atrás dos óculos, traduzindo a distância entre o professor e o aluno que ele cultivava e, quando finalmente ele tira os óculos e encara Polina, percebemos que esta mantinha a mesma imagem idealizada de Bojinski de quando o tinha conhecido pela primeira vez, que pouco coincidia com a imagem real do velho que estava à sua frente.
Há um conselho dado por Bojinski a Polina, que assenta como uma luva ao traço de Vivès: "Mais leveza. Isto deve parecer fácil. É importante que “pareça” fácil. As pessoas não devem ver mais nada, para além da emoção que queres fazer passar". E é precisamente essa sensação de leveza e simplicidade que o desenho extremamente sintético de Vivés transmite. Um desenho diáfano a preto e branco (com o cinzento, como segunda cor, a dar volume) que sugere, mais do que mostra, mas que consegue recriar no papel, todo o movimento, a beleza e a elegância da dança.
Ao mesmo tempo que o livro chega aos quiosques, chega também às salas de cinema portuguesas o filme que o adapta. Um filme que o produtor Didier Creste propôs que fosse o próprio Vivès a realizar, mas que acabaria nas mãos de Angelin Preljocaj e Valèrie Muller, um casal com grande experiência no ballet e na dança contemporânea que, curiosamente tinham sido os responsáveis pela coreografia e encenação de Branca de Neve, o primeiro bailado que Bastien Vivès viu enquanto preparava o livro Polina. Com um elenco que inclui Juliette Binoche e a bailarina russa Anastasia Shevtsova no papel de Polina, Polina, o filme, serviu para reconciliar Vivès com o cinema e permitirá aos leitores verem os seus desenhos ganhar (ainda mais) vida.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 22/07/2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Bernie Wrightson em destaque na revista Bang!

Desde dia 20 de Julho que está disponível nas lojas FNAC de todo o país, mais uma número da revista Bang!. Como é tradição, colaboro na revista desta vez com um texto de evocação de Bernie Wrightson, o mestre do terror nos comics e na ilustração recentemente falecido, que posteriormente disponibilizarei aqui no blog.
Mas naturalmente, esse não é o único motivo de interesse da revista para quem gosta de BD. Para além dos destaques a Monstress e a Nimona, os dois títulos que assinalam o regresso da Saída de Emergência à BD, há ainda espaço para uma BD de André Oliveira, ilustrada por Pedro Potier e para um conto lovecraftiano de Neil Gaiman, , protagonizado por... Sherlock Holmes. Aqui fica a sugestão para não perderem esta excelente revista, que ainda por cima, é grátis!

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Novela Gráfica III 4 - Batman: Uma história Verdadeira

QUANDO UMA AVENTURA DE BATMAN 
PODE SER UMA HISTÓRIA AUTOBIOGRÁFICA

Novela Gráfica III
Vol. 4 
Batman, uma História Verdadeira
Argumento -  Paul Dini
Desenhos – Eduardo Risso
Sexta, 21 de Julho
Por + 9,99€
Escrita por Paul Dini, argumentista de BD e de televisão, produtor e realizador de cinema de animação e criador da Harley Quinn, a carismática namorada do Joker, que esteve em grande destaque no filme do Esquadrão Suicida, Batman, uma História Verdadeira, a novela gráfica que chega às bancas na próxima sexta-feira, é, e não é, uma história do Batman, do mesmo modo que é, e não é, uma autobiografia.
Exemplo perfeito de como as fronteiras entre os diferentes géneros de BD nem sempre são estanques, Batman, Uma História Verdadeira é um relato autobiográfico em que Batman e os outros personagens do universo de ficção da DC Comics têm um papel preponderante. Reflexão catártica de Dini sobre um acontecimento que mudou a sua vida: um assalto e agressão ocorridos em 1993, quando trabalhava em Batman, The Animated Series, e especificamente na primeira longa-metragem derivada dessa série animada, The Mask of the Phantasm, que o deixou com cicatrizes profundas, tanto a nível físico, como sobretudo mental, este livro estilhaça literalmente a "quarta parede" entre o criador e as suas criações, colocando o autor em constante diálogo com as personagens que costumava escrever e que vão acabar por ser a porta de saída da depressão em que se encontrava preso.
Esse trauma longamente reprimido, mas nunca esquecido, só seria tornado público numa entrevista recente ao podcast Fatman on Batman, do realizador de cinema Kevin Smith. E foi depois disso que Dini decidiu transformar a sua experiência traumática numa novela gráfica publicada pela Vertigo em 2016, que está nomeada para o prémio Eisner de Melhor História Baseada em Factos Reais, na San Diego Comic Com de 2017.
A dar vida às memórias de Dini neste relato desarmante de honestidade, está o mestre argentino Eduardo Risso, bem conhecido dos leitores portugueses graças aos títulos editados pela Levoir, como Parque Chas, Batman Noir e (em breve) 100 Balas, que confirmando todo o seu imenso talento, dá aqui provas de uma versatilidade inesperada, adaptando completamente o seu traço às necessidades específicas dos diferentes momentos da história. Mestre do preto e branco, como Batman Noir demonstra à saciedade, Risso ocupa-se pela primeira vez também da cor de uma história que desenhou, com resultados deslumbrantes, mas também extraordinariamente eficazes em termos narrativos.
A cor assume uma grande importância em termos da história que Dini quer contar e Risso utiliza-a com precisão, alternando o registo gráfico e o tratamento pictórico entre as cenas em que Dini fala com as personagens do universo do Batman e os momentos reais, tratados num estilo mais próximo do que lhe é habitual. Veja-se, por exemplo, as sequências da infância de Dini, em que o jovem Paul, quase transparente para os seus colegas de escola, vai ganhando cor quando entra no seu mundo de fantasia, habitado pelas personagens da televisão, do cinema da literatura e da BD que marcaram a sua vida.
Texto publicando originalmente no jornal Público de 15/07/2017

sábado, 15 de julho de 2017

Novela Gráfica III 3 - Os Ignorantes


O MELHOR DE DOIS MUNDOS

Novela Gráfica III - Vol 3
Os Ignorantes
Argumento e Desenhos – Étienne Davodeau
Sexta, 14 de Julho
Por + 9,99 €
O que une um produtor de vinho biológico e um autor de BD? Como é o dia-a-dia em cada uma dessas actividades? Foi para tentar encontrar resposta para estas (e muitas outras) questões que Étienne Davodeau partilhou durante um ano e meio a vida do seu vizinho, o produtor vinícola Richard Leroy.

Nascido em 1965 em Maine e Loire, Davodeau estudou Artes Plásticas antes de se dedicar à BD, fundando com uns colegas o estúdio de BD PSURDE. A estreia profissional deu-se em 1992, com L’Homme qui n’aimait pas les Arbres, primeiro volume da série Les Amis de Saltiel, publicado na colecção Generation Dargaud, uma linha criada pela editora para a divulgação de novos talentos. Com Alguns Dias com um Mentiroso, publicado originalmente em França em 1997 pela Delcourt e em Portugal pela MaisBD, Davodeau mudou não só de editor, mas trocou o formato tradicional do álbum a cores de 48 páginas, pela maior liberdade do formato livro, característico da novela gráfica, em que o número de páginas é apenas condicionado pelas necessidades da história a contar. Um formato que marca o resto da sua obra e que, nas palavras do próprio Davodeau, permite “fugir à prisão do formato tradicional que, por vezes, se torna curto quando queremos fazer coisas mais literárias, mais profundas. O livro permite ter mais tempo. Implica uma mudança radical ao nível narrativo, neste caso, servido pelo desenho que me agrada mais, em bruto, rápido, nervoso, sem efeitos especiais…”
Com uma carreira dividida entre a ficção e a reportagem em BD, como em Rural, onde entrou pela primeira vez em contacto com o mundo da agricultura biológica, Davodeau convidou o seu vizinho Richard que, tal como ele, se veio instalar em meados da década de 90 numa pequena aldeia perto de Anjou, para partilhar a sua experiência de produtor de vinho, ao mesmo tempo que Davodeau o iniciava no mundo da BD. Como refere numa entrevista à revista Casemate: “Richard é um produtor vinícola artesanal, muito exigente. Ele desenvolve um discurso que me interessava e onde surgiam por vezes analogias, mas também diferenças, com o mundo da Banda Desenhada. A ideia dos Ignorantes nasceu de forma progressiva, na sequência das nossas conversas. Propus ao Richard trabalhar com ele e em troca iniciá-lo-ia no mundo da BD. Duas aventuras conjuntas a partir das quais eu faria, quase em tempo real, uma Banda Desenhada.”
O resultado é este extremamente instrutivo Os Ignorantes, em que descobrimos, tal como os protagonistas, as especificidades de cada ofício. Assim, tal como Richard Leroy, acompanhamos as diferentes fases da execução de um livro de BD, até à impressão final, contactando com desenhadores como Jean-Pierre Gibrat, Marc-Antoine Mathieu, Emmanuel Guibert e Lewis Tondheim (que desenha mesmo umas das páginas do livro) e visitando Festivais e exposições de BD. E, tal como Davodeau, vemos como se plantam as videiras, se trabalha a terra, se faz a vindima, se escolhe a madeira para os barris e se acompanha o processo de maturação de um vinho, até este estar pronto a beber. E aí percebemos que o maior ponto de contacto entre estas duas actividades é o longo tempo e muito trabalho necessário para criar um produto de qualidade, que no final vai ser rapidamente consumido pelo público.
Senhor de um traço rápido, quase caligráfico, muito bem servido por um acabamento em aguada de guache que dá profundidade às páginas, Davodeau cria uma história agradável, que se lê rapidamente e com prazer, mas que, tal como um bom vinho deve ser saboreada lentamente, para absorver devidamente todas as nuances deste relato de uma iniciação cruzada.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 08/07/2017

sábado, 8 de julho de 2017

Novela Gráfica III 2 - Traço de Giz


OBRA-PRIMA DE MIGUELANXO PRADO
REGRESSA EM EDIÇÃO CHEIA DE EXTRAS

Novela Gráfica III - Vol 2
Traço de Giz
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Quinta, 07 de Julho
Por + 9,99 € 
Depois de Presas Fáceis (o seu mais recente trabalho, que ganhou o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro no último Amadora BD) na colecção anterior, Miguelanxo Prado regressa à colecção Novela Gráfica com a recuperação da sua obra mais emblemática, o amplamente premiado Traço de Giz, numa nova edição, repleta de extras.
Pré-publicado na revista Cimoc, a partir do número 134, de Maio de 1992, e publicado em Portugal um ano depois, numa edição há muito esgotada, Traço de Giz é um marco incontornável na carreira de Prado, que acabaria por voltar àquela ilha perdida no meio do Atlântico para duas curtas histórias, publicadas na revista (A Suivre) a propósito da morte de Hugo Pratt e do fim da mítica revista, também incluídas nesta edição.
Um trabalho emblemático e belíssimo, onde merece destaque a utilização dramática da cor, que abrange toda a prancha, incluindo as margens, jogando com a própria cor do papel, que vai mudando de acordo com as necessidades da história. Também interessante, em termos da utilização da cor como elemento narrativo, é o modo como as figuras surgem delimitadas por uma auréola luminosa, cuja intensidade varia de acordo com a dimensão mais realista, ou mais onírica, das cenas. Este aspecto resulta aqui de forma soberba, devido sobretudo à mestria com que as tintas acrílicas e os lápis de cera são explorados. Em termos estéticos, estamos perante um trabalho fabuloso, com o desenhador galego a captar perfeitamente a luz do Atlântico, trabalhando-a de forma a obter algumas das tonalidades irreais que povoavam os seus sonhos de infância, conseguindo, como o próprio refere “trazer para o papel um pouco da luz dos meus sonhos”.
Para além do esplendor da parte gráfica, Traço de Giz é também um eficaz exercício de estilo, tanto pelo rigor de construção da história, como pelo completo domínio dos mecanismos da narração em BD que revela. Jogando com os (des)encontros de um reduzido número de personagens, reunidas num espaço fechado na imensidão do oceano, Prado consegue construir uma história suficientemente "aberta", apesar da sua estrutura circular, para ser passível de várias interpretações. Isto é conseguido através da introdução de uma certa ambiguidade e de vários elementos alheios à história, alguns apenas sugeridos, outros explícitos (como a referência à Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares), que dão pistas ao leitor para construir a sua própria versão da história.
Como refere o próprio Prado: “A história é coerente. Desde o início que dou suficientes pistas para que a percebam. Falo de Borges, falo de Bioy Casares, faço citações explícitas de obras deles e de Tabucchi (…) o problema é que o leitor de BD não está habituado a encontrar estruturas diferentes do puramente linear, com apresentação, desenvolvimento e conclusão. Como quinta-essência da complicação incorporaram o flashback, mas isso é algo tão batido na narrativa, que me pareceu um pouco absurdo limitar-me a isso. E quanto a enganar o leitor, sou honesto e digo que parto de uma proposta de Bioy e Borges para criar um romance em que se engane o leitor, ocultando-lhe dados. Eu, na realidade, sou mais honesto do que eles, pois não chego a ocultar nada. Proporciono todos os elementos necessários para desvendar a história. Nem sempre em primeiro plano, mas é aí que exijo ao leitor que seja activo. Na realidade, proponho um jogo de cumplicidade um pouco mais profundo do que uma simples leitura linear. Podes ler a história, de uma maneira ou outra e já está. Ou podes entrar no jogo.”
A minha sugestão é que o leitor entre no jogo e se faça ao mar com Miguelanxo Prado, à procura dessa pequena ilha perdida no meio do Oceano, um “traço de giz no meio do azul do mar”, e mergulhe na leitura com todos os sentidos bem atentos.
Publicado originalmente no jornal Público de 01/07/2017

sábado, 1 de julho de 2017

Novela Gráfica III 1 - Ronin

Este é um daqueles títulos que eu tinha sugerido desde a primeira série de Novelas Gráficas e que, agora que foi finalmente editado em Portugal, tive o privilégio de traduzir e também prefaciar. Como é habitual nestes casos, deixo-vos com o texto do prefácio, enquanto que o texto de apresentação do volume, publicado no Público, surge apenas em imagem. Mas basta clicar sobre a imagem para o conseguir ler.


RONIN, OU O DERRUBAR DAS FRONTEIRAS

Apesar de trabalhos como Sin City, ou 300, que não se enquadram no género, o nome de Frank Miller é imediatamente associado às histórias de super-heróis, muito por via das história incontornáveis protagonizadas pelo Batman ou pelo Demolidor que escreveu e/ou desenhou, como Ano Um, O Regresso do Cavaleiro das Trevas, ou Renascido, só para falar de títulos publicados em Portugal pela Levoir.
Daí que, para os leitores menos atentos, possa parecer estranho ver o seu nome no título que abre esta terceira colecção dedicada à Novela Gráfica. Mas essa estranheza não tem qualquer razão de ser, pois Ronin é um marco dos comics americanos, uma obra extraordinariamente inovadora e que rompeu as fronteiras, até então fechadas a sete chaves, entre os comics americanos, a BD europeia e o manga japonês e, apesar de ter sido publicado originalmente em 1983 como uma mini-série em seis partes, conta um história complexa, pensada para ser lida como se de um livro se tratasse.
Como refere Jenette Kahn, a editora e mais tarde, Presidente da DC Comics, que está na génese de Ronin, ao convidar Frank Miller a apresentar uma proposta para fazer na DC a história com que sempre sonhou: “Frank queria escrever uma aventura de tamanho razoável, mas que funcionasse por si só, com um princípio, um meio e um fim. Se juntássemos as páginas que compunham os seis volumes (o que fizemos mais tarde, pois na altura, a ideia de recolher tudo num único volume nem sequer nos passou pela cabeça), obtínhamos uma história com o tamanho, a complexidade e o impacto de um romance.”
O esbater da fronteira entre os géneros, foi algo que sempre esteve bem presente no trabalho de Miller, que na série Daredevil, juntou elementos do romance policial negro e dos filmes de Kung-Fu e de ninjas às histórias de super-heróis, mas foi em Ronin que ele levou mais esta viagem das formas e em que a influência do manga e das histórias de samurais se fez sentir de forma mais evidente, tanto em termos da história, como em termos visuais e narrativos.
Numa entrevista à revista The Comics Jounal em 1981, dois anos antes de Ronin começar a ser publicado, Miller referia pela primeira vez, a influência da arte japonesa no seu trabalho dizendo: “Ultimamente, tenho estado imerso nas gravuras japonesas. Há algumas coisas nelas que me atraem e são próximas da BD. A sua influência pode não ser visível no meu trabalho nos tempos mais próximos, mas pode tornar-se bastante visível dentro de um ano. Pode demorar algum tempo para absorver um estilo”. Mas em termos narrativos, essa absorção já estava a ser feita, pois nesse mesmo ano de 1981, numa aventura de Elektra publicada na revista Bizarre Adventures #28 Miller experimenta pela primeira vez um tipo de narrativa baseada puramente na imagem. Como o próprio refere, essa história, “foi sobretudo um exercício de narrativa para mim. Foi um exercício em vários aspectos. Queria contar uma história sem balões de pensamento, ou caixas de narração. Foi também uma maneira de fazer uso das técnicas que aprendi ao ler os comics japoneses de samurais. Achei os comics japoneses verdadeiramente notáveis em vários aspectos. Consegui “ler” uma centena de páginas de um deles no outro dia sem me sentir confuso. E estava escrito em japonês! Eles apoiam-se completamente na parte visual. A abordagem deles à linguagem da BD é feita de uma forma mais pura do que a dos autores americanos.”    
História da luta entre um Ronin, um samurai sem mestre vindo do Japão medieval e o demónio que matou o seu senhor, na Nova Iorque distópica do século XXI, Ronin mistura as histórias de samurais e a ficção científica, numa narrativa complexa e ambígua, em que as coisas podem não ser bem o que parecem. Em relação ao anterior trabalho de Miller, Ronin é um salto no escuro. Uma aposta arriscada de um criador rebelde, que optou por sair da sua zona de conforto para criar algo inovador. Prescindindo de um arte-finalista, Miller, para além de escrever e editar a história, desenhou e passou ele próprio a tinta os seus desenhos, deixando a cor (que assume aqui uma dimensão tanto estética como narrativa) nas mãos de Lynn Varley, a sua namorada e futura colaboradora em inúmeros outros projectos, do Regresso do Cavaleiro das Trevas a 300.
Também em termos de planificação, é evidente o explorar de novos caminhos e de um tipo de narração mais fluida e dinâmica do que o habitual nos comics americanos, necessariamente mais apoiada na parte visual, face à ausência de balões de pensamento, ou de um narrador. Compare-se os primeiros capítulos, em que a alternância ritmada entre tiras horizontais e verticais, que marcou o seu trabalho na série Daredevil ainda se mantém, com os capítulos posteriores em que a dupla página ganha cada vez maior importância, seja para mostrar o crescimento orgânico do Complexo Aquarius, seja para dar outro impacto e espectacularidade às cenas de acção.  
Momento de viragem na carreira de Miller que, pela primeira vez reteve os direitos de autor sobre uma criação sua, Ronin foi, nas palavras do próprio Miller, “um processo de libertação. Passei do tipo de história que estava treinado para fazer, que toda a gente fazia, para desenvolver uma nova direcção para os comics.” (…) Consegui jogar com isso. Sair do registo convencional e introduzir temas e métodos visuais de diferentes origens. Além disso, tinha descoberto o que se fazia em França e no Japão em termos de BD… através dos trabalhos de Moebius e de Goseki Kojima. Essas duas influências colidiram comigo mais ao menos ao mesmo tempo e estão bem patentes em Ronin.”
O próprio traço de Miller ao longo da história reflecte essas duas influências, com as achuras nervosas do início a fazerem lembrar o traço incrivelmente dinâmico de Kojima, o desenhador de Lone Wolf and Cub, enquanto que o universo futurista do Complexo Aquarius e dos robots criados por Virgo, evocam os mundos de ficção científica de Moebius.
Inovador também em termos de produção, Ronin obrigou a utilização de um tipo de papel especial e pôs problemas específicos de impressão, de modo a que o excelente trabalho de cor em aguarela e guache de Lynn Varley pudesse ser devidamente reproduzido, criando assim condições para o aparecimento do prestige format, um tipo de edição mais cuidada que se tornaria regra para as mini-séries e graphic novels assinadas por autores com um certo estatuto.
Talvez por estar claramente à frente do seu tempo, Ronin não teve o sucesso imediato que os autores e a editora esperavam, não obstante o acolhimento entusiástico por parte dos seus colegas no meio dos comics. Mas o extraordinário sucesso de O Regresso do Cavaleiro das Trevas veio trazer outra visibilidade a Ronin que foi finalmente publicado num único volume em 1987 e que, precisamente trinta anos depois dessa primeira recolha em livro, conhece a sua primeira edição em português de Portugal.
Para terminar, demos mais uma vez a palavra a Frank Miller, para seja o próprio a definir o que foi para ele esta aventura de Ronin: “Foi um parque de diversões e foi um pesadelo. Nada me podia ter ensinado mais… fazer-me sentir melhor em relação à linguagem da BD ou fazer-me sentir mais motivado com essa linguagem do que Ronin”.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Apresentação da colecção Novela Gráfica III

AS DIFUSAS FRONTEIRAS DA NOVELA GRÁFICA

Na Banda Desenhada como no resto da vida, as categorias são úteis, pois permitem trazer uma certa ordem e arrumação a uma realidade complexa e mutável. Tal como as categorias taxonómicas de Lineu em relação à biologia, também na BD é possível delimitar grandes categorias em que se consegue, com maior ou menor dificuldade, encaixar a maioria das obras produzidas. Categorias, ou géneros, como as histórias autobiográficas, os comics de super-heróis, as séries de aventura, o mangá japonês (com todas as suas subcategorias), as adaptações literárias, a BD de temática histórica, a reportagem em BD, os relatos intimistas, entre muitas outras.
Mas se há uma coisa que esta terceira série da colecção Novela Gráfica vem demonstrar, é que estas fronteiras entre géneros são relativamente difusas e bastante permeáveis apesar de, à primeira vista, a maioria destes títulos se encaixar facilmente numa determinada categoria, com destaque para as narrativas autobiográficas, género onde é possível incluir Os Ignorantes, de Etienne Davodeau; Batman, Uma História Verdadeira, de Dini e Risso; K.O em Telavive, de Asaf Hanuka; Histórias do Bairro, de Beltran e Segui e Tempos Amargos, de Étienne Schréder.
Mas uma observação mais atenta permite perceber que não é exactamente assim. Veja-se o caso do título que abre esta terceira série: o Ronin de Frank Miller. Obra em que se misturam as influências do chambara manga, as séries japonesas de samurais, da BD europeia de ficção científica, popularizada por Moebius e pelos seus colegas da revista Metal Hurlant, criada por um autor que fez carreira no universo dos super-heróis, Ronin, para além de ser um verdadeiro tour de force em termos narrativos e visuais, é um título percursor em termos do próprio conceito de novela gráfica, e do reconhecimento dos direitos dos autores por parte das grandes editoras.
Também Traço de Giz, de Miguelanxo Prado, que regressa ao mercado português, quase 25 anos depois, numa luxuosa edição que faz inteira justiça à importância do livro, é um trabalho dificilmente classificável dentro da obra de Prado, marcada por uma crítica feroz (divertida, ou não) da realidade quotidiana, mas que aqui nos traz uma história ambígua de desencontros amorosos, marcada pelas referências ao realismo mágico sul-americano e que deixa ao leitor a responsabilidade de construir a sua versão do que terá realmente acontecido.
Outro exemplo de que as diferentes categorias não são necessariamente exclusivas é Batman, Uma História Verdadeira, de Paul Dini e Eduardo Risso, que é assumidamente uma história autobiográfica, que recorre ao universo dos super-heróis e em espacial ao do Batman, a que Dini está ligado como argumentista de BD e criador da série de animação Batman Adventures, para narrar de modo inovador, a forma como o assalto de que foi alvo e que lhe deixou marcas (físicas e mentais) profundas, transformou a vida de Dini.
Também Mater Morbi de Recchioni e Carnevale é mais do que uma simples história de terror protagonizada por Dylan Dog, o carismático detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi, que é um dos mais populares heróis dos fumetti em geral e da editora Bonelli em particular. Inspirada pelos problemas de saúde que o seu escritor enfrentou durante a adolescência, Mater Morbi é uma reflexão sombria sobre o sofrimento e a doença que, aquando da sua publicação original em Itália, motivou um aceso debate público sobre a eutanásia, que envolveu a própria Ministra da Saúde.
Já em Os Trilhos do Acaso, obra recente do nosso bem conhecido Paco Roca, que por razões editoriais, foi dividida em dois volumes, não é inteiramente claro se estamos perante um relato biográfico de um antigo combatente, que o autor recolhe para transmitir aos leitores através da BD, com o fez Art Spiegelman em Maus, ou Emmanuel Guibert em La Guerre d’Alan, ou se se trata de uma bem documentada história de ficção, inspirada em factos reais.
Também Tomeu Pinya, em Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, vai alterando o seu registo gráfico principal, ao longo desta bela história sobre a força das histórias, seja para dar mais realismo às brincadeiras das crianças, ou mais intensidade aos pesadelos dos adultos, seja para prestar uma belíssima homenagem a Sérgio Toppi, o criador de Sharaz-De, um dos mais belos títulos da primeira série das Novelas Gráficas.
Por último, O Idiota, de André Diniz, obra que estreia em exclusivo nesta colecção ainda antes de ser publicada no Brasil, enquadra-se num género com grande tradição na Novela Gráfica: a adaptação à BD de textos literários. Só que Diniz não tem medo em pegar nas palavras de um clássico da literatura mundial, como Dostoyevsky, transformando-as em imagens, conseguindo concretizar assim o desafio de reinventar este clássico da literatura, numa versão quase sem palavras, em que a força das imagens se revela suficiente para contar a história complexa e profunda idealizada pelo grande escritor russo.

REGRESSOS E ESTREIAS


A preocupação em dar a descobrir aos leitores portugueses obras recentes de novos autores, tem sido uma característica fundamental da colecção Novela Gráfica, mas isso não pode deixar esquecer que há toda uma série de clássicos que permanecem escandalosamente inéditos, ou indisponíveis há décadas no nosso país. É nesse equilíbrio ente clássicos e contemporâneos, autores consagrados e jovens promessas que têm sido construídas as colecções que o Público e a Levoir dedicam à Novela Gráfica.
É o que acontece mais uma vez nesta Série III, onde regressam criadores como Miguelanxo Prado, Eduardo Risso, ou Paco Roca, já presentes na Série II, a par de outros nomes, que sendo presenças regulares nas livrarias e até em edições da Levoir, se estreiam finalmente na colecção Novela Gráfica. É o caso do americano Frank Miller, criador de Sin City e 300, cujo trabalho incontornável com super-heróis, como o Batman, ou o Demolidor, foi recuperado pela Levoir, que abre esta colecção com o seu primeiro grande trabalho pessoal, Ronin, editado finalmente em Portugal, trinta anos após a principal edição original americana em livro.
Também o premiado escritor inglês Neil Gaiman tem o seu trabalho no campo da BD bastante divulgado em Portugal, através de editoras como a Devir, Vitamina BD e Levoir, que lançou no ano passado, numa colecção com o jornal Público, a sua obra-prima, a série Sandman e que se estreia agora na colecção Novela Gráfica com Livros de Magia, um clássico da linha Vertigo, passado no mesmo universo de Sandman e magnificamente ilustrado por John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson.
Embora não tão profusamente editados em Portugal, autores como Etienne Davodeau, Paul Dini, Max, Etienne Schréder e André Diniz não são exactamente desconhecidos para os leitores mais atentos. Davodeau e Max estiveram presentes, por mais do que uma vez, no Salão Internacional de BD do Porto e viram trabalhos seus editados no nosso país, em livro, ou na revista Quadrado, pela Associação responsável pela organização do referido Salão. Paul Dini é o criador de Harley Quinn, a carismática namorada do Joker e esteve em destaque na colecção Coração das Trevas DC dedicada os Vilões da editora de Batman e Super-Homem. Schréder, além de ser um dos desenhadores da série Blake e Mortimer, um dos maiores clássicos da BD franco-belga, estreou-se na Banda Desenhada com O Segredo de Coimbra, obra que já teve direito a três edições em português, a última das quais lançada em 2016. Finalmente, o brasileiro André Diniz também tem diversos trabalhos seus editados em Portugal, com destaque para O Morro da Favela, mas neste caso, vê O Idiota, a adaptação que fez do romance de Dostoyevsky sair em Portugal uns bons meses antes de ser publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
Quanto às estreias em português, temos o israelita Asaf Hanuka, com K.O. em Telavive, uma recolha de cartoons autobiográficos, bem reveladores do sentido de humor, talento gráfico e sentido narrativo do excelente autor israelita. Já Mater Morbi assinala uma dupla estreia no nosso país: a de Dylan Dog, um dos mais populares personagens dos fumetti, a BD italiana, e dos seus autores, o prolífico argumentista Roberto Recchioni, actual responsável editorial da série Dylan Dog, e o desenhador Massimo Carnevale que, para além da sua colaboração como ilustrador e desenhador para as maiores editoras italianas, assinou diversas capas das séries Y, the Last Man e Northlanders para a DC/Vertigo e das séries Orchid e Conan, para a Dark Horse.
Outra estreia é a de Bastien Vivès, jovem prodígio da BD francesa, tão talentoso como produtivo e versátil (aos 27 anos já tinha 11 livros publicados) que entra nesta colecção com Polina, uma novela gráfica de 2011 sobre uma jovem bailarina, recentemente adaptada ao cinema por Valérie Muller, num filme com Juliette Binoche, que chegará aos ecrãs nacionais ao mesmo tempo que a novela gráfica que lhe deu origem.
Os maiorquinos Gabi Beltran e Bartolomé Segui, dois autores veteranos com diversos trabalhos editados no mercado europeu e o jovem Tomeu Pinya, que conquistou o público e a crítica com este O Bar do Barbudo, são mais dois exemplos de autores que se estreiam nesta colecção, mas neste caso, o seu trabalho será analisado mais em pormenor no destaque seguinte.

AS VÁRIAS FACES DA NOVELA GRÁFICA ESPANHOLA

Numa colecção marcada pela diversidade geográfica e que inclui autores israelitas, brasileiros, argentinos, ingleses, belgas, franceses, italianos e americanos, a nossa vizinha Espanha é, tal como já sucedeu na série II, a nação mais representada, com mais de um terço dos quinze volumes publicados nesta terceira série, a serem oriundos do país de “nuestros hermanos”.
Entre os autores desses volumes, naturais das mais diversas regiões de Espanha, estão nomes bem conhecidos dos leitores portugueses, como o galego Miguelanxo Prado, cujo último trabalho, Presas Fáceis, publicado na colecção anterior, arrecadou o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, no último AmadoraBD, que está de volta com o seu título mais premiado, Traço de Giz; o valenciano Paco Roca, que depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, regressa com Os Trilhos do Acaso, uma história de grande fôlego (tão grande que teve de ser dividida por dois volumes) sobre um grupo de combatentes republicanos espanhóis, que vão participar activamente na libertação de Paris pelas tropas Aliadas, nos finais da Segunda Guerra Mundial; e o catalão Francesc Capdevila Gisbert, mais conhecido por Max que, com Vapor, continua a explorar o mundo surrealista que criou em Bardin, onde se cruzam as influências do cineasta Luis Buñuel, da BD e da animação dos anos 30 e da pintura de Hieronimus Bosch.
Mas se os autores atrás referidos são nomes incontornáveis do panorama actual da Novela Gráfica espanhola, cuja obra tem sido mais (no caso de Prado e Roca) ou menos (no que se refere a Max) divulgada em Portugal, já Bartolomé Segui, Gabi Beltran e Tomeu Pinya, são autores espanhóis cujo trabalho chega finalmente a Portugal graças a esta colecção. Beltran é um autor e ilustrador natural de Palma de Maiorca, que, em Histórias do Bairro se associa ao desenhador Bartolomé Segui (também ela maiorquino), para narrar, com grande sensibilidade, mas sem tabus, uma adolescência de marginalidade passada no Bairro Chinês de Palma de Maiorca, mas que se poderia passar em Barcelona, ou Lisboa. Finalmente, Tomeu Pinya, autor nascido em Palma de Maiorca, mas residente na Catalunha, tem uma estreia fulgurante em Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, com um relato que lhe valeu o Prémio Revelação no Salon del Comic de Barcelona de 2010, que se pode definir como uma matrioska de histórias, sobre Rafa, o proprietário de um bar numa aldeia qualquer de uma ilha perdida no Mediterrâneo e sobre os seus clientes e as histórias que eles têm para partilhar.
Através das obras de um autor galego, um valenciano, um catalão (radicado em Palma de Maiorca) e três maiorquinos, é possível ver que a Novela Gráfica espanhola não se restringe à Catalunha, ou ao País Basco, onde estão instaladas as principais editoras de BD do país vizinho, mas que passa também por locais como a Galiza, ou Palma de Maiorca, cuja dinâmica cultural e incentivo à divulgação da produção local se reflecte também no conteúdo desta série III das Novelas Gráficas.

A COLECÇÃO

1 –Ronin 
30 de Junho
Argumento e Desenhos – Frank Miller
Um samurai desonrado do século XIII renasce numa Nova Iorque futurística e distópica, para tentar a sua última hipótese de redenção: encontrar, confrontar e derrotar o demónio Agat, responsável pela morte do seu mestre. Mas na Manhattan violenta do século XXI as coisas não são bem o que parecem e Ronin terá de se unir a Billy Chalas, um jovem com poderes telecinéticos, para conseguir destruir Agat.
Criador de Sin City, 300, Batman: O regresso do Cavaleiro das Trevas, Demolidor: Renascido e Elektra Assassina, entre muitos outros títulos que revolucionaram o mundo da BD, o escritor, desenhador e cineasta Frank Miller é uma lenda viva dos comics americanos e Ronin foi uma obra pioneira e uma das primeiras novelas gráficas lançadas no mercado americano.

2 – Traço de Giz
07 de Julho
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Um marinheiro chega a uma pequena ilha perdida no oceano, onde apenas existem dois habitantes, um farol que não funciona, uma pequena estalagem e alguns visitantes ocasionais. Uma narrativa aparentemente simples, com um toque de realismo mágico, sobre desencontros, incompreensões, sonho ou realidade.
Miguelanxo Prado é um dos mais premiados autores espanhóis. Traço de Giz foi um dos seus maiores sucessos críticos e comerciais e a sua obra mais premiada, entre os quais, com o prémio de Melhor Álbum no Salão do Comic de Barcelona e o de Melhor Álbum Estrangeiro em Angoulême. Esta nova edição inclui uma extensa galeria de extras e páginas de BD inéditas.

3 – Os Ignorantes
14 de Julho
Argumento e Desenhos – Étienne Davodeau
Davodeau é autor de banda desenhada e não sabe grande coisa de vinhos. Richard Leroy é viticultor e quase nunca leu BD. Mas ambos têm boa vontade e muita curiosidade. Porque é que uma pessoa decide dedicar-se a escrever e desenhar livros de BD, ou a cultivar vinho? Durante mais de um ano, irão ambos descobrir as respostas a essas e outras perguntas, abrindo muitas garrafas de vinho, e lendo imensos livros. Étienne trabalhou nas vinhas, e Richard mergulhou no universo da narrativa sequencial. O resultado é uma história de amizade e iniciações cruzadas e um momento único de felicidade.
Étienne Davodeau é um dos maiores autores da BD francesa actual, conhecido pelas suas obras firmemente ancoradas no real, tendo vencido por duas vezes o prémio France Info de BD de Reportagem.

4 –Batman: Uma História Verdadeira
21 de Julho
Argumento – Paul Dini 
Desenhos – Eduardo Risso
Batman vai ajudar um homem desencorajado a recuperar de um ataque brutal que o deixou incapaz de enfrentar o mundo.
Nos anos 90, o premiado escritor Paul Dini estava no auge da sua carreira com a popular série Batman: The Animated Series. Uma noite, a caminho de casa, foi assaltado e fortemente espancado, ficando às portas da morte. A recuperação foi lenta e complicada, e Dini imaginou que o Batman sempre esteve ao seu lado, mesmos nos momentos mais difíceis.
Uma história de Batman como nenhuma outra, ilustrada com a incrível arte do talentoso desenhador argentino Eduardo Risso (Batman Noir, Parque Chas)

5 – Polina
28 de Julho
Argumento e Desenho – Bastien Vivés
A história de uma jovem bailarina e a sua relação com o seu professor, contada com grande elegância e simplicidade por Bastien Vivés, um jovem prodígio da BD franco-belga, co-criador da popular série Last Man.
Polina é uma obra-prima de grande leveza e graciosidade e ainda assim densa em conteúdo, considerada como a melhor novela gráfica de Bastien Vivés, tendo vendido mais de 40.000 cópias em França e merecido uma adaptação ao cinema, que estreia em Portugal em Julho.

6 – K.O. em Telavive
04 de Agosto
Argumento e Desenho – Asaf Hanuka
Como é que se pode ser israelita? Como é que se pode viver num país sempre em guerra?
Tel Aviv é uma cidade vibrante, cheia de prazeres, e com uma das cenas artísticas mais vibrantes do mundo, um Sin City dentro de Jerusalém.
Invocando a sua condição de artista, pai, marido ou cidadão israelita, Asaf Hanuka retrata o dia-a-dia do seu país, mas não só. Apresenta-nos todos os ícones dos nossos dias, desde o cubo Rubik aos Transformers, do Iphone ao Facebook de uma forma que deixa os leitores… K.O.

7 – Dylan Dog: Mater Morbi
11 de Agosto
Argumento – Robertto Recchioni 
Desenho – Massimo Carnevale
Quando uma doença tão estranha como repentina atinge Dylan Dog, parece que nada será capaz de o curar. A sua única hipótese de salvação consiste em confrontar Mater Morbi, a entidade que se alimenta do seu sofrimento e acompanhá-la numa viagem ao coração das trevas e da dor.
Série de culto e verdadeiro fenómeno cultural, a série Dylan Dog, criada por Tiziano Sclavi em 1986 é um bom exemplo dos fumetti italianos. Actual responsável editorial pela série, Roberto Recchioni assina em Mater Morbi uma das melhores histórias de Dylan Dog das últimas décadas, muito graças ao notável trabalho gráfico de Massimo Carnevale.

8 –Vapor
18 de Agosto
Argumento e Desenhos – Max
Vapor, um eremita exilado num estranho deserto bastante frequentado, enfrenta a tentação sobre as mais diversas formas, numa história surrealista, entre o minimalismo e o género fantástico, marcada por um humor delirante.
Criador de Peter Punk, editor da revista Nosotros Somos los Mortos, um dos nomes maiores da revista El Vibora e colaborador frequente da revista New Yorker, o catalão Max, na sua fúria contra o mundo e no seu carinho pela arte dos comics, criou um heroísmo perfeito; tão absurdo que dói no nervo exacto onde a arte se deve sentir.

09 –  Os Livros de Magia
25 de Agosto
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos – John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson
Neil Gaiman, o premiado escritor que é presença habitual na lista de best-sellers do New York Times e criador do Sandman, traz-nos um conto fascinante sobre os perigos e oportunidades da juventude e suas infinitas possibilidades. Ilustrado por quatro dos artistas mais consagrados de língua inglesa, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson, Os Livros da Magia recolhe os quatro números da minisérie original publicada pela Vertigo, que introduziu o personagem de Timothy Hunter e preparou o palco para a sua revista mensal.

10 –  Histórias do Bairro
01 de Setembro
Argumento – Gabi Beltran 
Desenhos – Bartolomé Segui
Palma de Maiorca, anos 80. Cada esquina do bairro chinês tem uma história que contar.
Gabi, o ainda adolescente protagonista, anda pelas ruas do seu pequeno mundo com os seus amigos Benjamim, Arnaud, Falen e Ramos, tratando de entendê-lo. Assim experimenta drogas, descobre o sexo, refugia-se na literatura e no desenho. Mais unido aos amigos do que à família, descobre que as diferenças sociais são também fronteiras, e que estas por vezes são inultrapassáveis.
Um relato autobiográfico de Gabi Beltran a que Bartolomé Segui dá vida com os seus desenhos.

11 – Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Etienne Schréder
História autobiográfica sobre os problemas do autor com o alcoolismo, que o levaram a abandonar tudo e a viver como sem-abrigo. O alcoolismo é uma doença que afecta milhares de pessoas. Difícil de tratar, é um assunto cuja evocação roça o tabú. Porque há uma realidade que não se pode romantizar, Schréder oferece a experiência da sua jornada para o fim da vida.
Professor de BD e director da Maison Autrique, Étienne Schréder é um dos actuais desenhadores da série Blake & Mortimer e autor do álbum O Segredo de Coimbra.

12 – Os Trilhos do Acaso Vol 1 
15 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Através das recordações de Miguel Ruiz, republicano espanhol exilado em França, Paco Roca reconstrói a história de La Nueve, a companhia sob comando do Capitão Dronne integrada na segunda divisão do General Leclerc, e formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, contada com o talento e a eficácia habituais em Paco Roca (O Inverno do Desenhador, A Casa).

13 – Os Trilhos do Acaso Vol 1I
22 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
A história de Miguel Ruiz e dos outros membros da companhia La Nueve prossegue neste segundo volume, centrado no regresso da companhia à Europa e na sua participação activa na libertação de Paris pelas tropas aliadas.
Um dos mais recentes e premiados trabalhos de Paco Roca, galardoado com o Prémio Zona Cómic, Melhor Obra Nacional del Salón del Cómic de Barcelona e o Romics do Salão de Comic de Roma, em 2014

14 – Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo
 29 de Setembro
Argumento e Desenho – Tomeu Pynia
A insaciável curiosidade de um empregado de bar é a desculpa perfeita para nos introduzir numa série de histórias que tecem um tapete de relações humanas.
O Bar do Barbudo guia-nos através de uma aldeia e do seu bar, de que é o centro e a bandeira. Uma história de histórias salpicada de Mediterrâneo. Uma história de carácter intimista, ritmo calmo e com espaço para reflexão, nostalgia e humor.
Obra de afirmação do talento do catalão Tomeu Pynia, galardoada com o Prémio Popular Autor Revelação no Salón del Cómic de Barcelona, em 2010.

15 – O Idiota
06 de Outubro
Argumento – Dostoevsky e André Diniz
Desenhos – André Diniz
O Idiota é uma inesperada adaptação em BD do romance do escritor russo Fiódor Dostoyevsky, contada por imagens, usando a linguagem visual exclusiva da BD, num registo em que o texto está praticamente ausente. Um verdadeiro tour-de-force narrativo, assinado por um dos mais premiados autores brasileiros contemporâneos. André Diniz é argumentista e ilustrador de BD, estando a residir actualmente em Portugal, país onde O Idiota será lançado em rigorosa estreia mundial.
Textos publicados originalmente no destacável distribuído com o jornal Público de 29/06/2017