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domingo, 20 de janeiro de 2019

As Melhores BDs que li em 2018 - Parte 2


E aqui fica a segunda e última parte da minha lista de melhores leituras de 2018.Uma lista que não foi nada fácil de fechar, pois houve vários títulos que estiveram muito perto de entrar. Títulos como Infidel, de Pornsak Pichetshote e Aaaron Campbell; Gideon Falls, de Jeff Lemire e Andrea Sorentino, Murderabilia, de Alvaro Ortiz, e Watchers, que assinalou o regresso de Luís Louro a solo, com um dos melhores trabalhos da sua carreira. Mas só podiam ser 10 e estes acabaram por ficar de fora...

6 - La Mort Vivante, de Olivier Vatine e Alberto Varanda, ComixBuro/Glenat
Alberto Varanda regressa em grande com à BD com esta adaptação, feita a meias com Olivier Vatine que assina as (magníficas) cores, de um conto de Stefan Wul, nome grande da ficção científica francesa. Obra atípica no percurso de Wul, este La Mort Vivante é tratado por Varanda num registo próxima das gravuras de Gustave Doré, com um trabalho de achuras impressionante, superior até ao de François Schuiten e que se adequa perfeitamente ao ambiente gótico da história.  Consta que Varanda, que estará no Festival de Beja em Maio, demorou sete anos a desenhar esta história. O mínimo que se pode dizer é que foi tempo bem empregue!



7 - Le Storie: Sangue e Gelo, de Tito Faraci e Pasquale Frisenda, Levoir
A grande surpresa da Colecção Bonelli, de que já tive oportunidade de falar aqui. Uma excelente história de Faraci, a que o traço e a utilização  narrativa e dramática da cor feitos por Frisenda dão uma dimensão superlativa.


8 - Mister Miracle, de Tom King e Mitch Gerads, DC Comics
Tom King tem sido presença recorrente nas minhas listas nos últimos anos, mas o mérito é todo dele e das histórias que conta. Neste caso, King refaz a parceria com Mitch Gerads, com quem tinha feito o magnífico Xerife da Babilónia, para conciliar a dimensão épica com a realidade familiar, na sua peculiar versão de Mister Miracle, personagem criado por Jack Kirby na sua saga do Quarto Mundo. História profundamente humana sobre a família, protagonizada por personagens bem mais do que humanas, Mister Miracle é também uma bela homenagem a Jack Kirby, o criador de Scott Free, o ;Mr. Miracle, mas também a Stan Lee, que Kirby parodiou através da personagem de Funky Flashman.


9 - My Favorite Things is Monsters, de Emil Ferris, Fantagraphics
Obra de estreia na BD de Emil Ferris, uma ilustradora de Chicago, My Favourite Thing Is Monsters é um livro tão fascinante como surpreendente, a meio caminho entre a Banda Desenhada e a ilustração. Diário de de Karen Reyes, uma rapariguinha de 10 anos, obcecada por filmes e revistas de terror e que se vê a si própria como um lobisomem, esta novela gráfica apresenta-se como um diário, totalmente escrito/desenhado a esferográfica, em folhas pautadas de um caderno de argolas. Mais do que na vida de Karen, o fulcro do livro são as memórias de Anka Silverberg, a vizinha, sobrevivente do Holocausto que se suicidou, deixando uma série de cassetes em que relata  a sua vida e que Emil Ferris transpõe em imagens, de forma extremamente imaginativa e reveladora de uma grande versatilidade. Para mim, a maior surpresa de 2018.

10- My Heroes Have Always Been Junkies, de Ed Brubaker e Sean Phillips, Image
Outra presença regular nestas listas, a dupla Ed Brubaker e Sean Phillips continuam a produzir as melhores histórias policiais em BD que tenho lido. Este My Heroes Have Always Been Junkies, primeira novela gráfica ambientada no universo da série Criminal, dá-nos a descobrir mais uma personagem fascinante, mas que se revela um perigo para os outros. História muitíssimo bem escrita e desenhada com a extraordinária eficácia a que Phillips nos habituou, My Heroes...tem uma diferença em relação aos últimos trabalhos da dupla: a substituição da colorista Elisabeth Breitweiser, que tão boa conta tinha dado de si em Fatale e Fade Out, por Jacob Phillips, o filho do desenhador. 
Embora pareça um claro exemplo de nepotismo, a verdade é que as cores de Jacobs, que tal como no slogan do Poeta, "primeiro estranham-se e depois entranham-se", acabam por se adequar perfeitamente ao livro.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Liga da Justiça 5 - A Guerra de Darkseid 2

O FIM DE UMA ERA 

Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid Vol. 2
Argumento – Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok, Francis Manapul e Ivan Reis
Quinta, 07 de Dezembro, Por + 10,90 €
Com a publicação da segunda e última parte de A Guerra de Darkseid, chega ao fim a colecção que o Público e a Levoir dedicaram à Liga da Justiça, por ocasião da estreia dos maiores heróis da DC no cinema. Uma colecção que, com a excepção de clássicos como Nova Ordem Mundial e O Prego: Teoria do Caos se centrou no trabalho incontornável de Geoff Johns com a Liga. Um trabalho que leva o conceito de épico a níveis poucas vezes vistos e que os leitores portugueses tiveram o privilégio de poder acompanhar na íntegra, através das diversas colecções dedicadas aos heróis da DC que foram saindo nos últimos quatro anos.
O primeiro volume de A Guerra de Darkseid tinha terminado com alguns dos membros da Liga da Justiça transformados em Deuses. Assim, Batman, que conquistou a Metron a cadeira de Mobius, tornou-se o Deus do Conhecimento; o Super-Homem, o Deus da Força; o Flash, O Deus da Morte; o Shazam, o Deus dos Deuses; o Lanterna Verde, o Deus da Luz; e Lex Luthor, o Deus de Apokolips. Mas, se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente e o novo estatuto de divindade vai transformar profundamente os maiores heróis da DC, fazendo-os perder a sua dimensão humana. Para os fazer reencontrar a humanidade perdida e combater os planos de Graal, a filha de Darkseid que, depois de matar o pai, tomou posse da sua mais poderosa arma, a equação antivida, os restantes membros da Liga, a que se juntou Barda, a mulher de Scott Free, o Sr. Milagre, vão precisar de aliados. Mesmo que sejam aliados improváveis como os membros do Sindicato do Crime, Ultra-Homem, Supermulher e Coruja, Reflexos distorcidos dos maiores heróis do mundo, vindos de um mundo paralelo destruído pelo Antimonitor, os membros do Sindicato do Crime combateram a Liga da Justiça em histórias como Terra Dois, de Grant Morrison e Frank Quitely, o clássico que inaugurou a primeira colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC, em 2013.
Uma das características das histórias de super-heróis passa pelo eterno recomeço das histórias e dos confrontos, em que nada é definitivo, muito menos a morte, fazendo jus à velha máxima do Príncipe de Falconeri no livro O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (que muitos conhecem graças ao fabuloso filme de Visconti), que diz que “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”.  Mas, no caso desta história, as mudanças, mesmo que temporárias vão afectar profundamente o Universo DC, pondo fim à era dos Novos 52, que tem estado em destaque nestas colecções, para dar lugar à mais recente versão do Universo DC, a DC Rebirth.
Mas ao abrir as portas do futuro do universo DC, de que é um dos principais arquitectos, Geoff Johns não esquece o seu passado e os grandes autores que contribuíram para ele, como Grant Morrison e, sobretudo, o “Rei”Jack Kirby. O universo que o King criou na Saga do Quarto Mundo (de que pudemos ter um vislumbre numa anterior colecção), com o eterno conflito entre Nova Génese e Apokolips, onde nasceram personagem incontornáveis como Orion, Metron, o Sr. Milagre e Barda, Steppenwolf, Desaad, Kalibak e a encarnação suprema do mal que é Darkseid, estão na génese desta Guerra de Darkseid e de todo o (inesquecível) percurso de Johns como escritor da Liga da Justiça.
 Publicado originalmente no jornal Público de 02/12/2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Liga da Justiça 4 - A Guerra de Darkseid 1

O REGRESSO (E A MORTE) DE DARKSEID

Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid
Argumento – Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok e Francis Manapul
Quinta, 30 de Novembro, Por + 10,90 €
Com a publicação de A Guerra de Darkseid, saga que vai ocupar os dois últimos volumes desta colecção dedicada à Liga da Justiça, fica bem evidente a magnitude do trabalho levado a cabo por Geoff Johns com a Liga, que os leitores portugueses puderam acompanhar nas últimas colecções dedicadas ao Universo DC. Um trabalho que, partindo de um profundo conhecimento da história da DC, procura ir mais além, de modo a surpreender o leitor. Como refere Johns. “As coisas que mais gozo me dão fazer, são aquelas que mal posso acreditar como é que ainda ninguém se lembrou de as fazer antes. Como é que ninguém se lembrou de meter o Lex Luthor na Liga da Justiça? Ou, como que ninguém se lembrou de colocar o Darkseid a combater o Anti-Monitor?”
A Guerra de Darkseid é o culminar do percurso de Johns como escritor da Liga, com todos as peças a convergirem para o local onde o escritor as queria. Nas palavras do próprio: “Quando comecei a escrever o Liga da Justiça nº 1, sabia que, pelo menos por um ano, queria que a equipa fosse apenas os sete maiores heróis da DC, mas, em última instância, quem é que eu poderia trazer para essa equipa que fosse capaz de a agitar no final do ano dois? Qual é o maior personagem do Universo DC que toda a gente conhece, alguém que até a minha mãe sabe quem é, mas que seria incrivelmente interessante para a dinâmica da equipa? E esse alguém é o Lex Luthor.
Então tentei perceber o que é que seria necessário para fazer evoluir uma personagem como esse, de modo a transformá-lo num potencial membro da Liga, tanto na sua mente como na de todos os outros, e foi assim que a história Mal Eterno surgiu. Eu sempre soube que queria apresentar o Anti-Monitor de uma maneira nova para que, quando Darkseid voltasse, não fosse apenas Darkseid Segundo Round. Foram esses dois gigantes, grandes vilões loucos, que foram as pedras angulares da minha passagem pela Liga. Darkseid foi uma grande força no começo, e em Mal Eterno, o Anti-Monitor era uma grande força que estava algo escondida. Agora, trouxemos esses dois para a primeira fila em A Guerra de Darkseid.”
Mas neste primeiro volume, que assinala o regresso de Scott Free, o Sr. Milagre, ao Universo DC, o confronto entre o Anti-Monitor e Darkseid não é o único grande conflito deste primeiro volume, em que ficamos a conhecer Graal, a filha de Darkseid e de uma amazona, que vai ser responsável pela morte do seu pai.
Graficamente, Jason Fabok revela-se perfeitamente à altura da dimensão épica da história, superando com distinção o teste de desenhar os maiores heróis da DC. Como o próprio refere: “Eu sempre fiz livros de personagens únicos, mas sempre fui atraído por livros que eram grandes, enormes livros de equipa, onde tenho oportunidade de desenhar cenas delirantes. Eu não estaria preparado para fazer isso há alguns anos atrás, mas com a experiência acumulada e com o que fui aprendendo nesta indústria, sinto-me pronto para o próximo desafio. Estou pronto para fazer a melhor arte de que sou capaz e, espero, a melhor arte que já viram na Liga da Justiça. Esse é o meu objetivo, e Geoff está a dar-me coisas para desenhar que são um verdadeiro sonho, como  o Sr. Milagre. Era uma personagem que sempre quis desenhar!”
Com Darkseid morto e alguns heróis como Batman e o Flash a deixarem-se corromper pelo poder absoluto, o Universo DC como o conhecemos está em profunda transformação, mas será preciso esperar pela 2ª parte, para ver o resultado dessa transformação.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/11/2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

No Coração das Trevas DC 6 - Joker e Harley Quinn: Amor Louco


HARLEY QUINN, DA ANIMAÇÃO PARA A BD

No Coração das Trevas DC Vol 6
Joker & Harley Quinn: Amor Louco
Argumento –  Paul Dini e Bruce Timm
Desenho – Bruce Timm, Glen Murakami e Ronnie Del Carmen
Quinta, 13 de Abril
Por + 9,90 €
Depois de dividir o protagonismo com os restantes membros do Esquadrão Suicida no volume que chegou às bancas na semana anterior, chegou a vez de Harley Quinn roubar o protagonismo ao Joker e ocupar o palco em Amor Louco, a premiada história de Paul Dini e Bruce Timm, que assinalou a sua estreia na BD.
Criada por Dini e Timm em 1992, na série de desenhos animados Batman Adventures, no que estava inicialmente previsto como uma aparição esporádica, Harley Quinn revelou-se extremamente popular desde o início, transformando-se numa presença regular da série. Como refere Bruce Timm: “Quando o Paul (Dini) me falou em criar uma namorada para o Joker, eu achei que era boa ideia, por isso metemo-la no episódio Joker’s Favor. Mas foi só quando a vimos, já animada, no ecrã, que toda a gente se apaixonou instantaneamente por ela. Era uma combinação da personalidade, da voz – a voz da actriz Arleen Sorkin – e do visual. É uma personagem fantástica. Apercebemo-nos logo que tínhamos acertado em cheio. Por mais que eu não quisesse usá-la muito, pois o seu lado mais divertido interferia com o nosso objectivo de tornar o Joker mais sinistro, a verdade é que todos adorávamos a personagem e por isso o Paul enfiou-a em todos os episódios do Joker.”
A passagem da animação para a BD dá-se em 1994 neste Batman: Amor, Louco, história que abre o sexto volume desta colecção, que estará à venda em todo o país a partir do próximo dia 13 de Abril. Tudo começou com um convite de Denny O’Neil, um dos melhores escritores do Batman de sempre e então editor das revistas do Cavaleiro das Trevas, feito durante um almoço no San Diego Comic Con, para que Timm e Dini apresentassem uma proposta à DC para uma BD. Foi então que Paul Dini se lembrou de explorar a origem da Harley Quinn, que nunca tinha sido abordada na série de animação, revelando que Harley era inicialmente a Dra. Harleen Quinzel, uma Psiquiatra do Asilo Arkham, que acaba por se apaixonar pelo Joker, sendo arrastada por ele para o mundo da loucura, acabando por se transformar em Harley Quinn, a Arlequina, a sua namorada e cúmplice.
O resultado é esta história que Frank Miller considera das melhores histórias do Batman que já leu e que ganhou os Prémios Harvey e Eisner para a Melhor História Completa.
Para além de Amor Louco, este volume contempla mais duas histórias. Demónios, uma belíssima homenagem a Jack Kirby que, por questões de tempo, foi realizada usando o velho método Marvel, com Timm e Murakami a desenharem a história a partir de uma sinopse bastante curta e vaga e Dini a escrever posteriormente os textos e diálogos nas páginas já desenhadas. A outra história é A Harley e a Hera, publicada no premiado Batman Adventures Annual # 1, em que o realizador filipino Ronnie Del Carmen, que era um dos responsáveis pelos storyboards da série de animação, mostra toda a elegância do seu traço, numa divertida história em que a Harley e a Hera Venenosa vão fazer compras de Natal com… Bruce Wayne.
Publicado originalmente no jornal Público de 07/04/2017

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Evocando Jack Kirby, a propósito do Quarto Mundo


 Na altura em que escrevi o editorial para o volume da Colecção Super-Heróis DC dedicado ao Quarto Mundo, de Jack Kirby, fiquei com a sensação de que muito tinha ficado ainda por dizer sobre a obra mais pessoal do King Kirby. mas as limitações de espaço (e as alterações impostas pela DC ao mesmo texto original), acabaram por condicionar fortemente o texto publicado no livro. Felizmente, a revista Bang!, como de costume, deu-me carta branca para escrever o que quisesse, sem limites de espaço, ou censura e o resultado é o texto que podem ler a seguir, publicado no nº 20 da revista Bang!, publicação gratuita produzida pela Saída de Emergência que já se encontra em distribuição pelas lojas FNAC de todo o país, desde finais de Julho. Obrigado ao Luís Corte-Real e à Safaa Dib por acolherem os meus textos, sem qualquer condicionante, ou limitação. 


EVOCANDO JACK KIRBY 
NO 45º ANIVERSÁRIO DO QUARTO MUNDO

No preciso mês em que se completam 45 anos sobre a publicação do nº 1 da revista New Gods, os leitores portugueses tiveram finalmente a oportunidade de aflorar esse complexo universo, graças à publicação pela Levoir no final de Março, de um volume antológico, que recolhe um punhado de histórias do Quarto Mundo de Jack Kirby, obra maior do mais importante criador de histórias de super-heróis.
Extraordinário criador, capaz de se reinventar continuamente, Jack King Kirby, nasceu como Jacob Kurtzberg, em 1917 e começou a sua carreira artística em 1936, trabalhando em animação no estúdio dos irmãos Fleischer, onde colabora na série Popeye. Em 1939, ingressa nos estúdios Eisner/Iger, onde trabalhou também Bob Kane, o criador de Batman. Aí, sob a orientação de Will Eisner - que relata esses momentos na graphic novel The Dreamer - Kirby esteve directamente ligado ao arranque da indústria dos Comics, produzindo o mais variado tipo de histórias, para várias publicações. Ao longo de uma carreira de décadas, Kirby abordou os mais diversos géneros, do Western, às histórias românticas, passando pelas histórias de monstros e o policial negro, mas foi como criador de super-heróis que ganha um lugar maior na história da Banda Desenhada.
Um percurso que começou em 1940, ao lado de Joe Simon, com quem criou o Capitão América, que inclui títulos como Sky Masters, Black Magic e Chalengers of the Unknown, durante os anos 50, e teve o seu apogeu na década de 60, ao lado de Stan Lee, com a criação da maioria dos heróis da Marvel, de Thor aos Inumanos, passando pelos X-Men, com destaque para o Quarteto Fantástico, em cujas histórias vão aparecer Galactus e o Surfista Prateado, numa história épica, onde a dimensão cósmica da sua arte, que atinge o apogeu com o Quarto Mundo, tem aqui o seu primeiro grande momento.
Se os fãs tinham bem consciência da importância de Kirby no sucesso da Marvel, já os novos donos da editora não estavam tão bem informados, propondo-lhe um contrato de renovação que o seu biógrafo, Mark Evanier descreve como “insultuoso”. Desiludido pela falta de reconhecimento (crítico e material) do seu contributo para a criação do universo Marvel, quando comparado com a atenção dedicada a Stan Lee, Kirby decide trocar a Marvel pela DC no início da década de 70, regressando assim a uma casa para onde já tinha trabalhado com alguma regularidade durante as décadas de 40 e 50, criando a Newsboy Legion, ou reformulando heróis como o Arqueiro Verde, ou o Sandman.
É ai, contando com total liberdade e autonomia, que Kirby vai desenvolver uma ideia que tinha tido nos anos 60, enquanto trabalhava na série Thor, que consistia em explorar o Ragnarok, a morte dos velhos Deuses, como ponto de partida de uma saga épica, que lançasse uma nova mitologia. Esse projecto, irrealizável na Marvel, pois a editora nunca o deixaria matar os Deuses de Asgard, como o Poderoso Thor, vai ser concretizado na DC, dando origem ao Quarto Mundo. Uma saga épica, de uma dimensão cósmica, que levava o termo Larger than Life a uma escala inusitada, inteiramente editada, escrita e desenhada pelo King, cujo contrato com a editora o obrigava a produzir um mínimo de 15 páginas de BD por semana, contando apenas com a participação de Vince Colletta na passagem a tinta dos seus desenhos a lápis.
Ainda antes da saída dos três novos títulos que contam a saga dos Novos Deuses e o combate entre Nova Génese e Apokolips, os personagens do Quarto Mundo fazem a sua aparição gradual na revista Superman's Pal Jimmy Olsen, o primeiro título onde Kirby trabalha no seu regresso à DC, e para o qual vai recuperar personagens como o Guardião e a Newsboy Legion, criadas aquando da sua primeira passagem pela DC (então National Comics) e introduzir conceitos inovadores, como a clonagem e a nanotecnologia.
A presença do Super-Homem na revista - mesmo que os rostos do Homem de Aço e de Jimmy Olsen fosse redesenhadas por Al Plastino, e mais tarde, por Murphy Anderson, para ficarem mais próxima da imagem oficial do Super-Homem na época, que tinha como modelo o Super-Homem desenhado por Curt Swan -  permitiu apresentar as personagens do que viria a ser o Quarto Mundo, a um leque mais vasto de leitores, abrindo o caminho ao lançamento em Fevereiro/Março de 1971 do primeiro número da revista New Gods, a que se seguiram as revistas The Forever People, no mesmo mês  e Mister Miracle, em Abril, completando o conjunto de quatro títulos bimestrais (o que obrigava Kirby a desenhar duas revistas por mês) que contam a história do Quarto Mundo.
Curiosamente, nem o próprio Kirby percebeu muito bem de onde apareceu o termo “Quarto Mundo”, pois a série deveria chamar-se New Gods, mas quando a revista pensada para ter como título Orion, saiu com New Gods na capa, a DC foi obrigada a arranjar um novo título para a série. Mas, com um título ou com outro, o resultado continua a ser uma série extremamente inovadora, na forma como os quatro títulos se articulam, formando uma intricada tapeçaria, pensada para ser recolhida como uma obra fechada, após a sua publicação inicial em revista. Como refere Mark Evanier: “a história, que ele via como finita pelo menos no seu arco inicial, tinha como tema a guerra contra um vilão intergaláctico chamado Darkseid. Essa batalha iria ocupar várias centenas de páginas antes de terminar num final épico. Depois, Kirby esperava que toda essa saga seria editada e recolhida numa série de volumes bem impressos a cores, que estariam sempre disponíveis nas livrarias, como acontece com os livros de Tolkien. “
O tema central da saga dos Novos Deuses é a eterna luta entre o Bem e o Mal, representados por Nova Génese e Apokolips, dois mundos opostos nascidos do conflito cósmico que levou à queda dos Velhos Deuses e ao aparecimento dos Novos Deuses. Para pôr um termo à guerra sem quartel que ameaçava destruir galáxias, Izaya, o Pai Supremo de Nova Génese e o impiedoso Darkseid de Apokolips, decidem trocar filhos como reféns, de modo a assegurar uma trégua. Assim, Orion, o filho de Darkseid vai ser criado em Nova Génese, enquanto Scott Free, o filho de Izaya, é enviado para Apokolips.
É precisamente este momento fulcral da história do Quarto Mundo, que é contado em flashback em O Pacto, episódio que abre o volume da Levoir e que o próprio Kirby considerou em diversas entrevistas como a melhor história que já fez. Este episódio é também importante por dar a conhecer a origem de Scott Free, cuja fuga de Apokolips para a Terra, onde se tornará o Mr. Miracle, traz a guerra entre Apokolips e Nova Génese para o nosso mundo e dá a Darkseid o pretexto ideal para pôr fim à trégua entre Nova Génese e Apokolips. Inspirado directamente no autor de BD, Jim Steranko, que substituiu Kirby como desenhador de Nick Fury e se dedicava ao escapismo, na melhor tradição de Harry Houdini, Scott Free, o Mr. Miracle, vai ser uma figura fulcral do Universo DC, formando com a guerreira Big Barda, um dos raros casais assumidos das histórias de Super-heróis, onde os namoros se prolongam por décadas…
Para além de Big Barda, inspirada visualmente na actriz e cantora Lainie Kazan, a série deu origem a personagens fantásticos, como Metron, que viaja entre o espaço e o tempo na sua cadeira de Moebius, ou caricatas, como Glorious Godfrey, ou o vigarista Funky Flashman, que, dizem as más-línguas, apresentava mais do que uma simples parecença física com Stan Lee… Mas a maior criação de Kirby na série, foi o vilão Darkseid, cujas feições se inspiraram no actor Jack Palance, que ainda hoje continua a ser a encarnação suprema do Mal no Universo DC.
Se quisermos encontrar um adjectivo que melhor descreva o trabalho de Kirby em O Quarto Mundo, o único adequado é mesmo kirbyesco, mas épico, também está bastante próximo. Essa dimensão épica está patente na força majestática dos desenhos, na imponência das arquitecturas a que apenas as duplas páginas faziam justiça, na corporalidade miguelangelesca das figuras que se retorcem em poses barrocas, na pura energia que irradia das páginas cheias de acção, na maquinaria impossível, radiante de poder, que Kirby desenhava como ninguém, e também no próprio tom empolado da narrativa e dos diálogos. Aspectos que, aliados aos próprios nomes das personagens, que rementem para a Bíblia (como Izaya e Esak), para a mitologia clássica (como Orion), ou para a literatura - Desaad, o torturador remete para o Marquês de Sade e Kalibak, o filho monstruoso de Darkseid, evoca o Caliban, de A Tempestade, de Shakespeare - mostram a vontade de Kirby em criar uma mitologia para o século XX, pois como o próprio refere numa entrevista de 1984, republicada, quase três décadas mais tarde, na revista Jack Kirby Collector: "com os Novos Deuses, senti que estava a criar uma mitologia para os nossos tempos. Parecia-me que essa mitologia entretinha os leitores, como era o meu objectivo. O que eu estava a fazer era uma parábola dos nossos tempos."
Mas a verdade é que, ao contrário do que o próprio Kirby pensava, a sua criação estava muito à frente do seu tempo e os leitores não estavam ainda preparados para uma história cuja acção se espraiava por quatro títulos diferentes e que lhes pedia uma capacidade de assimilar um grande leque de personagens e de cenários, que fugiam daquilo a que estavam habituados.
O resultado - a que a queda abrupta das vendas de BD nos quiosques, numa altura em que ainda não existia uma rede de livrarias especializadas, ajudou - foi o cancelamento das revistas New Gods e The Forever People ao fim de apenas 11 números e de Mr. Miracle (a mais próxima do registo tradicional das histórias de super-heróis) após 18 números, numa fase em que a história idealizada por Kirby estava ainda bem longe de estar contada.
Só em 1984, aproveitando a reedição da série New Gods, como uma mini-série de seis volumes, Kirby pôde continuar a contar a história dos Novos Deuses, primeiro, com Even Gods Must Die, uma nova história de 48 páginas, incluída no sexto volume dessa reedição, e depois com The Road to Armagetto, uma história de 22 páginas que não chegou a ser publicada, mas cujas páginas foram aproveitadas em The Hunger Gods, uma novela gráfica original, que concluiu, de forma mais ou menos satisfatória a série, deixando no entanto a porta aberta para a utilização das personagens criadas pelo King por outros autores.
Mesmo que Kirby nunca tenha conseguido contar a história que queria, da maneira como queria, o impacto do Quarto Mundo no universo DC é incontornável. Basta ver histórias como The Cosmic Odissey, de Jim Stralin e Mike Mignola, ou as experiências de Walt Simonson com as personagens dos New Gods. Também Mr. Miracle e Barda vão sobreviver ao Quarto Mundo, sendo presença regular no Universo DC e assumindo um papel fundamental na divertidíssima fase da Liga da Justiça escrita por Keith Giffen e J. M De Matteis. Isto já para não falar em Darkseid, que é presença regular na era Novos 52 e que, ao que tudo indica, será o vilão de serviço no filme da Liga da justiça que Zack Snyder está preparar.
Como refere Brent Staples, num artigo publicado no New York Times em 2007, Kirby: “criou uma nova gramática para a narrativa em BD e uma forma cinematográfica de tratar a acção. Personagens antes rígidas saltam de quadrado em quadrado – ou mesmo de página para página – para cair directamente no colo do leitor. A força dos murros desferidos torna-se visível de forma explosiva. Mesmo em repouso, as personagens de Kirby pulsavam de tensão e energia de uma maneira que faz com que as suas versões cinematográficas pareçam estáticas em comparação.”
É por isso que o trabalho de Kirby permanece incontornável, e a edição da Levoir, mesmo que recolha pouco mais de um décimo das páginas que Kirby desenhou da Saga dos Novos Deuses, é uma óptima porta de entrada para o universo fantástico de Jack King Kirby.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 20, de Julho de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

Super-Heróis DC 8 - Quarto Mundo: Génesis e Apokolips

Tive oportunidade (e o privilégio) de escrever a introdução para aquele que é o mais importante volume em termos históricos desta colecção. Razão porque vos deixo o texto do Público apenas em imagem. Ao contrário do que tem sido habitual nesta colecção, ste foi um daqueles textos em que foi necessário fazer algumas alterações pedidas pela DC, que naturalmente não afectam a versão que aqui publico, sem quaisquer cortes ou censuras.
E KIRBY CRIOU O QUARTO MUNDO

Se há obras claramente à frente do seu tempo, cujo verdadeiro impacto só é possível abarcar décadas mais tarde, o Quarto Mundo de Jack Kirby é um desses títulos. Nome maior dos comics americanos, com um trabalho de uma importância tal, que lhe valeu a alcunha de King (Rei), Kirby, que nasceu como Jacob Kurtzberg, em 1917, começou a sua carreira artística em 1936. Em 1939, depois de uma breve experiência com animação no estúdio dos irmãos Fleischer, ingressa nos estúdios Eisner/Iger - onde trabalhou também Bob Kane, o criador de Batman. Aí, sob a orientação de Will Eisner, esteve ligado ao arranque da indústria dos comics, produzindo o mais variado tipo de histórias para várias publicações. Ao longo da sua carreira de décadas, Kirby abordou os mais diversos géneros, do western, às histórias românticas, passando pelas histórias de monstros e o policial negro, mas foi como criador de super-heróis que ganha um lugar maior na história da banda desenhada.
Um percurso que começou em 1940, ao lado de Joe Simon, com quem criou o Capitão América, e teve o seu apogeu na década de 60, ao lado de Stan Lee, com a criação da maioria dos heróis da Marvel. Mas no início da década de 70, Kirby decide trocar a Marvel pela DC, regressando assim a uma casa para onde já tinha trabalhado com alguma regularidade durante as décadas de 40 e 50.
Aí, contando com total liberdade e autonomia, Jack Kirby começou a contar a história do Quarto Mundo. Uma saga épica, de uma dimensão cósmica, que levava o termo Larger than Life - Maior que a Vida - a uma escala inusitada, inteiramente editada, escrita e desenhada pelo King, transpondo para o papel um universo que, conforme refere Marv Wolfman, que na altura trabalhava na DC, já estava na sua cabeça há mais de quatro anos.
Ainda antes da saída dos três novos títulos que contam a saga dos Novos Deuses e o combate entre Nova Génesis e Apokolips, os personagens do Quarto Mundo fazem a sua aparição na revista Superman's Pal Jimmy Olsen, o primeiro título onde Kirby trabalha no seu regresso à DC, e para o qual vai recuperar personagens como o Guardião e a Legião dos Ardinas, criadas aquando da sua primeira passagem pela DC (então National Comics) e introduzir conceitos inovadores, como a clonagem e a nanotecnologia.
A presença do Super-Homem na revista - mesmo que os rostos do Homem de Aço e de Jimmy Olsen fossem redesenhados por Al Plastino, e mais tarde, por Murphy Anderson, para ficarem mais próximos da imagem oficial do Super-Homem na época, que tinha como modelo o Super-Homem desenhado por Curt Swan - permitiu apresentar as personagens do que viria a ser o Novo Mundo a um leque mais vasto de leitores. Dessa forma, abriu-se o caminho ao lançamento em Fevereiro/Março de 1971 do primeiro número da revista New Gods, a que se seguiram as revistas The Forever People, no mesmo mês, e Mister Miracle, em Abril, completando o conjunto de quatro títulos bimestrais (o que obrigava Kirby a desenhar duas revistas por mês) que contam a história do Quarto Mundo.
O tema central da saga do Quarto Mundo é a eterna luta entre o Bem e o Mal, representados por Nova Génesis e Apokolips, dois mundos opostos nascidos do conflito cósmico que levou à queda dos Antigos Deuses e ao aparecimento dos Novos Deuses. Para pôr um termo à guerra sem quartel que ameaçava destruir galáxias, Izaya, o Pai Celestial de Nova Génesis, e o impiedoso Darkseid de Apokolips, decidem trocar filhos como reféns, de modo a assegurar uma trégua. Assim, Órion, o filho de Darkseid, vai ser criado em Nova Génesis, enquanto Scott Free, o filho de Izaya, é enviado para Apokolips.
É este momento fulcral da história do Quarto Mundo que nos é contado em O Pacto, o episódio que abre este volume e que é considerado por muitos como a melhor história de sempre de Kirby. Este episódio é também importante por dar a conhecer a origem de Scott Free, cuja fuga de Apokolips para a Terra, onde se tornará o Sr. Milagre, traz a guerra entre Apokolips e Nova Génesis para o nosso mundo e dá a Darkseid o pretexto ideal para pôr fim à trégua entre os dois mundos. É dessa guerra sem quartel, que põe em risco a sobrevivência do nosso planeta, de que o leitor terá uma visão panorâmica neste volume que proporciona uma primeira aproximação, necessariamente sintética, à história do Quarto Mundo.
Se quisermos encontrar um adjectivo que melhor descreva o trabalho de Kirby em O Quarto Mundo, o único adequado é mesmo kirbyesco, mas épico também está bastante próximo. Essa dimensão épica está patente na força majestática dos desenhos, na corporalidade miguelangelesca das figuras, na pura energia que irradia das páginas cheias de acção, na maquinaria impossível, radiante de poder, que Kirby desenhava como ninguém, e também no próprio tom empolado da narrativa e dos diálogos. Aspectos que, aliados aos próprios nomes das personagens, que remetem para a Bíblia (como Izaya e Esak), para a mitologia clássica (como Órion), ou para a literatura (Desaad, o Cruel, lembra o Marquês de Sade, e Kalibak, o filho monstruoso de Darkseid, evoca Caliban, de A Tempestade, de Shakespeare) mostram a vontade de Kirby em criar uma mitologia para o século XX, pois como o próprio refere numa entrevista de 1984, republicada quase três décadas mais tarde na revista Jack Kirby Collector: "com os Novos Deuses, senti que estava a criar uma mitologia para os nossos tempos. Parecia-me que essa mitologia entretinha os leitores, como era o meu objectivo. O que eu estava a fazer era uma parábola dos nossos tempos."
Mas a verdade é que, ao contrário do que o próprio Kirby pensava, a sua criação estava muito à frente do seu tempo e os leitores não estavam ainda preparados para uma história cuja acção se espalhava por quatro títulos diferentes e que lhes pedia uma capacidade de assimilar um grande leque de personagens e de cenários, que fugiam daquilo a que eles estavam habituados. O resultado foi o cancelamento das revistas New Gods e The Forever People ao fim de apenas 11 números e de Mr. Miracle (a mais próxima do registo tradicional das histórias de super-heróis) após 18 números, numa fase em que a história idealizada por Kirby estava ainda bem longe de estar contada. Só em 1984, aproveitando a reedição da série New Gods, como uma mini-série de seis volumes, Kirby pôde continuar a contar a história do Quarto Mundo, primeiro, com Even Gods Must Die, uma nova história de 48 páginas, incluída no sexto volume dessa reedição, que abre o caminho para The Hunger Gods, uma novela gráfica original, que concluiu a série, deixando no entanto a porta aberta para a utilização das personagens criadas pelo King por outros autores.
Mesmo que Kirby não tenha conseguido contar a história que queria, da maneira como queria, o impacto do Quarto Mundo no universo DC é incontornável. Basta ver esta colecção, onde Darkseid é a ameaça principal dos volumes dedicados à Liga da Justiça e à Legião dos Super-Heróis.
Em American Gods, Neil Gaiman defende que os deuses só sobrevivem enquanto houver quem acredite neles. Por isso, enquanto houver novos leitores a descobrir a magia e a glória do Quarto Mundo de Jack Kirby, os Novos Deuses de Apokolips e Nova Génesis manter-se-ão bem vivos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Poderosos Heróis Marvel 8 - Homem-Formiga: Um Mundo Pequeno


DEPOIS DO CINEMA, O HOMEM-FORMIGA ESTREIA-SE 
NA COLECÇÃO PODEROSOS HERÓIS MARVEL

Poderosos Heróis Marvel, Vol. 8
Homem-Formiga: Um Mundo Pequeno
Argumento – Stan Lee, David Michelinie e Tim Seeley
Desenho – Jack Kirby, John Byrne e Tim Seeley
Quinta, 10 de Setembro + 8,90 €

O próximo volume da colecção Poderosos Heróis Marvel assinala a estreia em Portugal do mais recente herói da Marvel a chegar ao cinema: o Homem-Formiga. Uma estreia que se dá num volume antológico que recolhe as aventuras de estreia dos diferentes homens que vestiram o fato do Homem-Formiga: Henry Pym, Scott Lang e Eric O’Grady.
Criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby em 1962, no nº 27 da revista Tales to Astonish, Henry “Hank” Pym, o Homem-Formiga original, era um cientista que descobriu uma formula que lhe permitia reduzir a sua massa e altura a dimensões microscópicas. Essa primeira história, que no fundo era uma adaptação não assumida do conto The Shrinking Man, de Richard Matheson, de 1956, levado ao cinema com grande sucesso no ano seguinte por Jack Arnold, não previa uma continuação, mas o sucesso junto dos leitores levou Stan Lee a promover o rápido regresso de Henry “Hank” Pym. O que aconteceu logo no nº 35 da revista Tales to Astonish, em que Hank Pym tem que usar a sua invenção para deter um grupo de espiões e decide passar a combater o crime como o Homem-Formiga. São essas duas primeiras aventuras, assinadas por Lee e Kirby que abrem o volume dedicado ao Homem-Formiga.
Um dos grandes cientistas do Universo Marvel, Hank Pym foi o responsável pela criação do robot Ultron e do andróide Visão, mas a sua carreira como Homem-Formiga foi relativamente curta, acabando por ceder o seu uniforme e o capacete que lhe permite comunicar com as formigas, a outra pessoa, Scott Lang. Um homem que roubou o fato de Homem-Formiga para poder salvar a vida da sua filha, mas que acabaria por assumir o papel de Homem-Formiga, com a bênção do seu mentor, Hank Pym, o Homem-Formiga original. É precisamente Scott Lang, o segundo Homem-Formiga, criado por David Micheliene e John Byrne em 1979, na história que podemos ler neste volume, que é o protagonista do mais recente filme da Marvel, acabado de chegar às salas de cinema.
Finalmente, este oitavo volume da colecção Poderosos Heróis Marvel, traz ainda uma aventura do terceiro Homem-Formiga, Eric O’Grady. Protagonista de uma história em três partes, escrita e desenhada por Tim Seeley em 2011, em que o novo Homem-Formiga tem de combater o crime ao lado de Hank Pym, o Homem-Formiga original, que assumiu a identidade secreta de Vespa, em memória de Janet Pym, a sua falecida mulher, que foi a Vespa original.
Três etapas marcantes na história de um herói incontornável do Universo Marvel, reunidas num único livro, assinado por alguns dos maiores nomes que passaram pela Casa das Ideias. Um livro que permite ao leitor conhecer melhor o último poderoso herói da Marvel a chegar ao grande ecrã.
Publicado originalmente no jornal Público de 04/09/2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Um punhado de imagens de Angoulême 2015



Como não podia deixar de ser, o Festival de Angoulême deste ano, ficou marcado pelo massacre do Charlie Hebdo, com cartazes com as capas de números emblemáticos do jornal, espalhadas pelas paredes da cidade e com o Museu de Banda Desenhada a substituir a sua exposição permanente por uma mostra temporária dedicada ao famoso jornal, e às publicações que o antecederam, como a Hara Kiri e o Charlie Mensuel. Naturalmente, as distribuidoras aproveitaram para redistribuir o famoso número pós-massacre, que chegou aos sete milhões de exemplares de tiragem, e esse último número encontrava-se facilmente em qualquer quiosque de Angoulême.
 Os tempos agitados que se vivem em França na sequência do atentado que decapitou a redacção do Charlie Hebdo, faziam-se notar também nos controles de segurança à entrada dos stands e das exposições e no facto de haver mais polícias na cidade do que autores de BD. Só nas traseiras do edifício da Mairie (a Câmara Municipal, onde funciona o secretariado do Festival) contei 15 carrinhas da policia estacionadas...
Mas o Festival não foi só Charie Hebdo e Bill Waterson, o presidente desta edição, que como se esperava, não pôs os pés em Angoulême durante o Festival, teve direito a uma bela exposição retrospectiva no Espaço Franquin, concebida pelo Billy Ireland Cartoon Library and Museum, da Universidade de Columbus, no Ohio, a quem Waterson doou o seu espólio de originais. Uma bela exposição, acompanhada de um belíssimo catálogo, com uma grande entrevista que o criador de Calvin e Hobbes concedeu a Jenny E. Rob, a conservadora do Museu e comissária desta exposição. 
Também Lewis Trondheim disfarçou o seu Fauve, o gato que funciona como mascote do Festival, de Hobbes, numa imagem que podemos ver aqui ao lado e que surgiu também nos pins produzidos pela organização.
Outro nome em grande destaque, foi o japonês Jiro Taniguchi, que antecedeu o seu compatriota Katshuiro Otomo, o criador de Akira, vencedor do Grande Prémio deste ano, como o autor que teve direito a ver o seu trabalho exposto no Festival de Angoulême, uma honra que para o ano, por inerência do Grande Prémio, caberá a Otomo. Autor cujas ligações a França são bem conhecidas, Taniguchi foi o autor em destaque no Vaiseau Moebius, o antigo Museu da BD de Angoulême, com uma retrospectiva bastante exaustiva da sua carreira, onde brilhavam as aguarelas que fez para o luxuoso caderno de viagens de Veneza editado pela Louis Vuitton.
Outro nome em destaque no Festival, com direito também a uma bela exposição foi Jack Kirby, o King dos comics, cuja obra tem vindo a ser editada em França pela Urban, a linha da Dargaud para o material americano, que prima pelas edições geralmente superiores às originais.

No caso da muito instrutiva e bem documentada exposição de Kirby, o maior senão era a total ausência de originais, substituídos por reproduções facsimiladas das pranchas, digitalizadas pela Jack & Roz Kirby Fondation,
Também o argumentista Fabien Nury teve direito a uma exposição no espaço Franquin, que deu para perceber a quantidade de séries que este argumentista já escreveu e apreciar os magníficos originais de Christian Rossi para a série W.E.S.T.
E para quem gosta de ver pranchas originais (comprar já é mais complicado...) havia muita oferta no stand Para BD, na praça junto ao bar Le Chat Noir, que é o ponto de encontro obrigatório para beber um copo mal o Festival fecha as portas, e na Galeria da Glenat, que todos os anos se muda para Angoulême durante o Festival e onde era possível apreciar originais de Franquin, Boucq, Bilal, Alberto Breccia, George Bess e Druillet, entre outros, geralmente a preços proibitivos.
Quanto a exposições, para além do prazer de rever a mostra dedicada ao Jim Curioso, de Mathias Picard, que já tinha estado na Amadora, o meu último destaque vai para a exposição que estava no Teatro de Angoulême, Le Demon du Blues que, a propósito do lançamento do álbum Love in Vain, de Mezzo e Dupont, sobre o Músico de blues Robert Johnson, reúne exemplos de várias BDs que abordam o tema, com destaque para o trabalho de Robert Crumb.
Mas Angoulême não é só as exposições e há muito boa gente que passa 2 ou 3 dias no Festival sem ver uma única exposição, ocupados que estão com as sessões de autógrafos, ou tentar descobrir as inúmeras novidades lançadas por ocasião do Festival, ou vasculhando os stands dos alfarrabistas em busca de alguma novidade.
De acordo com a imprensa especializada, este ano o Festival teve menos visitantes do que nos anos anteriores, talvez porque algumas pessoas, com medo dos atentados, tenham preferido ficar em casa. Mas para quem tentasse entrar nos stands, visitar exposições, ou simplesmente andar nas ruas, durante o dia de sábado, a diminuição do número de visitantes não era nada perceptível.
A verdade é que continua a haver muita gente que não quer perder uma edição do maior Festival europeu de BD. Eu cá, se tudo correr bem, conto voltar em 2016, para ver a exposição dedicada a Katshuiro Otomo e os mais que o Festival tiver para mostrar.
      O Museu de Banda Desenhada onde estava a Homenagem ao Charlie Hebdo

             Geluck e os perigos do humor na homenagem ao Charlie Hebdo
                       Calvin e Hobbes ao lado dos originais de Bill Waterson

            Auto-retrato de Bill Waterson nos seus tempos de cartoonista político
                           A entrada da exposição dedicada a Fabien Nury
                        Trabalhos da fase inicial de Taniguchi
                                                O título diz tudo...
                                       A força do traço de Jack Kirby
               A exposição dedicada aos Blues no Teatro de Angoulême
             Pormenor da exposição, com os originais de Mezzo em destaque
                               Sábado à tarde nas ruas de Angoulême