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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Desvendando os Segredos de Loulé

Agora que já foi oficialmente divulgado, posso finalmente falar sobre este projecto que me deu grande gozo - mas também bastante stress - fazer. Uma segunda incursão, minha e do João Ramalho pela BD histórica - a primeira tinha sido A Revolução Interior: à Procura do 25 de Abril, em que tivemos o privilégio de ter o José Carlos Fernandes a ilustrar um argumento nosso - em que, ao lado do André Caetano, procurámos ter uma abordagem diferente a um género com grande tradição na BD portuguesa, como é a Banda Desenhada histórica, optando por um registo menos habitual de ficção científica e  por nos apoiarmos nos diálogos em vez da narração “em off”, como é costume nas obras desta temática. A excepção, assumida, é a parte dedicada à lenda da Moura Cássima, que homenageia a BD histórica clássica e autores como Eduardo Teixeira Coelho e Artur Correia, uma história dentro da História em que o André ensaiou um registo gráfico diferente, que ficou muito giro.
Como referi na nota de imprensa distribuída pela G Floy, este projecto nasceu de um convite do Presidente da Câmara Municipal de Loulé, por sugestão de José Carlos Fernandes – que se não estivesse retirado da BD seria a escolha óbvia e natural para fazer este livro – para fazermos uma história de Loulé em Banda Desenhada. Esse convite foi feito em finais de Janeiro de 2016, estava eu em França no Festival de Angoulême e, logo ali contactei o João Ramalho Santos, meu parceiro habitual nestas ocasionais incursões pela escrita de Banda Desenhada e ambos pensámos no André Caetano, um desenhador também de Coimbra, como nós, com quem o João Ramalho já tinha trabalhado em Uma Aventura Estaminal, um livro sobre as células estaminais, produzido pelo Centro de Neurociências e distribuído com o jornal Público.
O ponto de partida da história também nasceu logo ali, na viagem de regresso a Portugal, quando o Luís Taklin - um antigo aluno meu do Mestrado da ESAP em Guimarães, que se tornou um bom amigo - que viajava comigo, me falou das Minas de Sal de Loulé e de como locais como esse tinham sido usados nos Estados Unidos para armazenar arquivos.
Se o processo inicial foi extremamente rápido, já o desenvolvimento e execução foi bastante mais lento do que o previsto, o que fez com que, só quase três anos depois, o livro veja finalmente a luz do dia. Mas esses atrasos, para os quais a Câmara de Loulé teve a maior compreensão, acabaram por beneficiar o produto final, pois assim a informação revelada pela exposição Loulé: Territórios, memórias, identidades, que inaugurou em 2017 no Museu Nacional de Arqueologia, pode ser incorporada no livro.
Um dos desafios deste livro foi harmonizar os desenhos de André Caetano com as imagens reais da história de Loulé, seja objectos como o Foral de Loulé, ou usar o padrão dos mosaicos encontrados no Cerro da Vila, em Vilamoura como moldura das páginas dedicadas ao período romano, até fotografias de jornais  da época. Não faltam também as referências à BD, seja através das  Bandas Desenhadas que antes de Os Segredos de Loulé, destacaram a região de Loulé e as suas figuras históricas, como Mendes Cabeçadas, seja em homenagens mais ou menos evidentes, em termos de desenho e planificação, a autores como Hergé, Sergio Toppi e Alberto Breccia, que caberá ao leitor descobrir.
O livro que será apresentado oficialmente no AmadoraBD no sábado, dia 10 de Novembro, pelas 16h30m, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo, estará à venda no Festival a partir de dia 1 de Novembro e terá distribuição comercial pela G Floy, além de uma versão em inglês, o que só foi possível devido à forma entusiástica como a Câmara Municipal de Loulé correspondeu à nossa vontade de fazer com que este livro chegasse também aos fãs da Banda Desenhada.
Ainda este ano haverá certamente uma apresentação oficial em Loulé em data a anunciar, mas para 2019 já está prevista uma exposição de Os Segredos de Loulé, de que darei mais pormenores  brevemente.
Até lá, fica o convite para aparecerem no AmadoraBD e embarcarem com os Verificadores nesta viagem à descoberta de Os Segredos de Loulé.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Colecção Bonelli 4 - Julia: O Eterno Repouso

JULIA ESTREIA-SE EM PORTUGAL COM ARTE DE SERGIO TOPPI

Colecção Bonelli - Vol 4
Julia – O Eterno Repouso
Argumento – Giancarlo Berardi
Desenhos – Sergio Toppi
Quinta-feira, 3 de Maio
Por + 10,90€
A protagonista do quarto volume da colecção dedicada à editora Bonelli é Julia Kendall, uma criminóloga e professora universitária, que colabora com a polícia de Garden City – a cidade fictícia onde vive – utilizando os seus vastos conhecimentos para investigar os mais diversos casos de homicídio.
Criada em 1998 por Giancarlo Beradi – o criador do magnífico Western Ken Parker - com a colaboração de Luca Vannini na parte gráfica, a série tem um elemento que é comum a outros títulos da Bonelli: a utilização da imagem de actores de cinema famoso como ponto de partida para a criação gráfica dos heróis. Se no caso de Dylan Dog, o próprio Tiziano Sclavi indicou ao desenhador Claudio Villa o actor Rupert Everett como modelo para Dylan Dog, já Berardi vai bastante mais longe, com praticamente todas as personagens recorrentes da série a serem baseadas fisicamente em actores de Hollywood, começando logo pela própria Julia, cuja imagem é inspirada na actriz Audrey Hepburn, e por Emily, a sua empregada doméstica que tem as feições de outra actriz famosa, Whoopi Goldberg. 
Mas além da estreia de Julia, este livro assinala também o regresso de Sergio Toppi ao mercado nacional, depois do sublime Sharaz’De, publicado na primeira colecção dedicada à Novela Gráfica.
Sergio Bonelli e Toppi eram bons amigos e o desenhador colaborou por diversas vezes com o editor milanês. Uma colaboração que se iniciou em 1974, quando Bonelli contratou Toppi para este acabar de desenhar um Western que a morte de Rino Albertarelli deixara incompleta. Seguir-se-ia a participação na mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, onde Bonelli conseguiu a proeza de juntar os mais prestigiados nomes dos fumetti italianos, de Hugo Pratt a Milo Manara, passando por Crepax, Buzzelli, Battaglia, e claro, Toppi, que entre 1976 e 1978 ilustrou os volumes, L’Uomo del Nilo, L’Uomo del Messico e L’Uomo del Paludi.
E se os interesses de Toppi estavam algo afastados das grandes séries da Bonelli, a sua amizade com o editor milanês fez com que colaborasse ocasionalmente com a editora da Via Buonarrotti, desenhando histórias para a Ken Parker Magazine, para dois números de Nick Rayder, em 1997 e 2001, uma história curta de Martin Mistère, que poderemos ler no volume 7 desta colecção, e esta história de Giancarlo Berardi para o nº 11 da revista Julia.
Uma história publicada originalmente em Agosto de 1999 e que chega finalmente aos leitores portugueses, numa cuidada edição, cujo formato e qualidade de impressão fazem justiça ao trabalho gráfico de Toppi, por oposição à edição brasileira da Mythos, em formato reduzido e papel de jornal, que passou de forma discreta pelos quiosques portugueses em 2006.
Dave McKean escreveu um dia que Toppi era “capaz de desenhar qualquer coisa e dar-lhe uma solidez e um sentido de movimento que a tornam ideal para contar histórias no formato da Banda Desenhada” e esta história de Julia vem dar-lhe razão. Ilustrando uma história sobre um misterioso assassinato num lar da terceira idade, Toppi segue fielmente o argumento de Berardi e a planificação habitual das séries da Bonelli, sem abdicar do seu estilo próprio, algo que é bem evidente na fabulosa sequência do pesadelo de Julia, que ocupa as páginas 48 a 53 do livro.
Publicado originalmente no jornal Público de 28/04/2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Apresentação da colecção Bonelli

Aproveitando a comemoração em 2018 dos setenta anos da criação de Tex, a sua personagem mais emblemática, o Público e a Levoir dão a descobrir aos leitores portugueses o melhor da Bonelli, a mais popular editora italiana de BD. Exemplo máximo da riqueza e da diversidade dos fumetti (a BD italiana) a Bonelli não se resume a Tex e a Dylan Dog, os seus heróis mais famosos, já editados em Portugal. São esses e outros personagens, como Dampyr, Martin Mystère, Julia, Mister No, ou Dragonero, ou projectos como a série Le Storie, que chegam finalmente a Portugal numa colecção de 10 volumes, totalmente inéditos. A partir de 12 de Abril, as quintas-feiras são o dia dos fumetti da Bonelli.
OS FUMETTI DA EDITORA BONELLI

Depois da presença de Mater Morbi, uma história de Dylan Dog na série de 2017 das Novelas Gráficas, que provou (se preciso fosse) que uma produção dirigida ao grande público também pode ter qualidade literária, chegou a vez de o Público dar a descobrir aos leitores portugueses o melhor da editora Bonelli, através de algumas das seus personagens mais emblemáticas, em histórias assinadas por alguns dos maiores nomes da BD italiana e mundial.
Mas para que o leitor perceba do que falamos quando falamos dos fumetti (nome dado à BD em Itália) da Bonelli, convém traçar de forma breve a história da editora. Embora só tenha adoptado o nome de Sergio Bonelli em 1988, a história da Editora Bonelli começa bastante antes. Mais precisamente em 1940, quando Giovanni Luigi Bonelli, pai de Sergio Bonelli, cria com a mulher, Tea Bertasi, uma pequena editora de BD chamada Redazione Audace. No final da guerra, quando o casal se decide separar, Bonelli passa à mulher a sua parte da editora, que mudou de nome para Editrice Audace, mantendo-se como colaborador free-lancer. Embora, como revela o seu filho Sergio, Tea nunca tenha lido uma BD antes de tomar conta da editora, revelou-se uma sagaz mulher de negócios e a editora foi prosperando. Entre as novas publicações que foram surgindo, estava uma revistinha de formato horizontal (não por acaso, também conhecido por formato italiano), inspirada no formato das tiras de jornal americanas, protagonizada por um ranger do Texas chamado Tex Willer, cujo imediato sucesso surpreendeu até os próprios autores.
Mantendo-se durante décadas nas mãos dos seus criadores originais (Giovanni Luigi Bonelli só deixou de escrever os argumentos de Tex na década de 80 enquanto Galleppini – ou Galep, como costumava assinar – continuou como desenhador do Tex até à sua morte, em 1994) Tex soube cativar ao longo dos anos um número cada vez maior de leitores, traduzindo-se num caso de sucesso crescente, que atravessou gerações e países.
Mas a editora que em 1957 Tea passou para o seu filho Sergio (e que mudou de nome para Edizioni Araldo) não se limitava a publicar Tex, tal como Sergio Bonelli não se limitava ao seu trabalho de editor, escrevendo também argumentos sob o pseudónimo de Guido Nolitta. Uma carreira que Sergio sempre manteve a par com a de editor e que, tendo começado com a série Un ragazzo nel Far West, ficaria marcada pela criação de personagens ainda hoje em publicação, como Zagor (criado em 1961) e Mister No (criado em 1975 e publicado de forma ininterrupta até 2006).
Uma das razões do sucesso das edições da Bonelli (que se chamariam ainda Araldo e Cepim, antes de adoptar o nome de Sergio Bonelli Editore), para além da qualidade das histórias e dos desenhos, passa pelo abandono do formato de tiras e a criação de um formato próprio de 15 x 21 cm (o chamado formato Bonelli), que vinha de encontro às necessidades do mercado, permitindo fornecer aos leitores edições baratas com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD italiano. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Sergio Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, que abarcam os mais variados cambiantes da aventura, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de “literatura de gare desenhada” foi entusiástica. Potenciada pelo grande desenvolvimento dos caminhos-de-ferro em Itália, que criou um público heterogéneo que queria ter algo para ler durante as viagens, algumas revistas de Bonelli chegaram a atingir tiragens próximas do meio milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos, o que levou à impressionante média de 25 milhões de exemplares vendidos por ano, algo que só é possível graças a um público heterogéneo, que não se restringe aos adolescentes habituais e que engloba também quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco.
Para além das personagens clássicas, como Tex, Zagor e Mister No, a que se juntaram outras como Martin Mystère, Dylan Dog, Dampyr, Júlia e Magico Vento, a editora tem sabido renovar-se apostando em novos tipos de séries, de que Dragonero e Le Storie são exemplos.
Mesmo a morte de Sergio Bonelli em 2011 foi superada, graças à dinâmica introduzida pelo filho Davide e a sua equipa, que soube apostar em novos formatos - como os álbuns a cores em formato franco-belga do Tex - e incrementou de forma decisiva a presença das edições da Bonelli nas livrarias.
Por isso, mesmo no século XXI, em que a concorrência dos smartphones leva a que se veja cada vez menos gente a ler livros nos transportes públicos, é facílimo encontrar os títulos da Bonelli em qualquer quiosque de estação, o que justificava que, apesar da queda geral das vendas nos quiosques, as revistas da Bonelli ainda vendiam em 2014 mais de 500.000 exemplares dos títulos mensais regulares mensais, com Tex e Dylan Dog bem destacados, ao mesmo tempo que as edições para livraria permitiam valorizar o vastíssimo catálogo da editora junto de um público mais sofisticado.
Embora seja um fenómeno marcadamente italiano, as séries de Bonelli também têm procurado o sucesso internacional, estando presentes de forma mais ou menos regular nas livrarias e quiosques do Brasil, Sérvia, Croácia, Turquia, Espanha, França e Estados Unidos. Finalmente chegou a vez também de Portugal e agora, caberá ao leitor português decidir se chegou para ficar.

AS PERSONAGENS

TEX
Criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galeppini, Tex Willer é, depois do Lucky Luke de Morris, o mais antigo cowboy da BD europeia ainda em publicação. Ranger do Texas, Tex tem também uma profunda ligação aos índios americanos, tendo tido um filho, Kit com Lilith, a filha de um chefe Navajo e sendo ele um próprio chefe de uma tribo de Navajos, que lhe deram o nome índio de Águia da Noite. Só, ou acompanhado pelos seus amigos Kit Carson e Jack Tigre e pelo seu filho Kit, Tex impõe a lei no velho Oeste de forma implacável.

DAMPYR
Criado em 2000 por Mauro Boselli e Maurizio Colombo, Harlan Draka é um Dampyr, o fruto da união de um vampiro com uma mulher mortal, alguém que está entre dois mundos e cujo sangue pode destruir os vampiros. Acompanhado por Kurjak, um militar sérvio, e por Tesla, uma vampira que se quer libertar da influência do seu mestre, o vampiro Gorka, Harlan Draka e os seus companheiros percorrem o globo à caça de vampiros e outras criaturas sobrenaturais. Uma missão que os leva a sítios tão diferentes como a antiga Jugoslávia, África, o Japão e, no caso desta colecção, a Portugal.

DYLAN DOG
Criado por Tiziano Sclavi em 1986, Dylan Dog é um detective particular, sediado em Londres e especializado em casos paranormais e fantásticos, visualmente inspirado no actor Rupert Everett, que rapidamente se tornou um verdadeiro fenómeno de culto, cuja popularidade extravasou rapidamente o público tradicional da BD. Ex-alcoólico e vegetariano, com uma irremediável tendência para se apaixonar pelas suas clientes, Dylan Dog é um detective pouco convencional, com um ajudante ainda menos convencional, que é um sósia, a todos os níveis de Grouxo Marx, com um sentido de humor delirante, que  serve de alívio cómico ao dramatismo das histórias. 

JULIA
Criada em 1998 por Giancarlo Berardi, com a colaboração de Luca Vannini na parte gráfica, Júlia Kendall é uma criminóloga e professora universitária, cuja imagem é inspirada na actriz Audrey Hepburn, e que tem uma empregada doméstica com as feições de outra actriz famosa, Whoopi Goldberg. Colaborando com a polícia de Garden City – a cidade fictícia onde vive, cujas ruas têm nomes de flores – Júlia Kendall utiliza os seus vastos conhecimentos teóricos para investigar os mais diversos casos de homicídio.

LE STORIE
Inspirada pela mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, uma das experiências editoriais mais prestigiadas da Bonelli, Le Storie, ao contrário da maioria dos títulos da editora, não tem um personagem fixo. Esta série, criada em 2012, acolhe verdadeiras histórias sem heróis, tendo geralmente como pano de fundo um acontecimento histórico concreto. No caso de Sangue e Gelo, esse acontecimento é a retirada das tropas de Napoleão da Rússia, em 1812, em que o “General Inverno” acaba por não ser o único inimigo que as desgastadas tropas do Capitão Lozère têm de enfrentar.

MARTIN MYSTÈRE
Criado em 1982 por Alfredo Castelli, Martin Mystère, o “detective do impossível”, é um verdadeiro “Homem do Renascimento”. Antropólogo, arqueólogo, especialista em História da Arte, Línguas e Cibernética, investigador, apresentador de programas de TV, escritor, aventureiro e iniciado nos cultos esotéricos, Martin Mystère utiliza a sua vastíssima cultura para desvendar os mais variados enigmas. Sediado em Nova Iorque, Mystère enfrenta o perigo com o apoio do seu fiel Java, um corpulento Homem de Neanderthal. 

DRAGONERO
Criada em 2007 por Luca Enoch e Stefano Vietti como uma história única para a série Romanzi a Fumetti Bonelli, Dragonero acabaria por se converter numa revista mensal em 2013. O protagonista desta série que introduz a Heroic Fantasy no catálogo da Editora Bonelli, é Ian Arànil, explorador do Império Erondariano e herdeiro da nobre e antiga casa dos Varliedàrto, os caçadores de dragões. Acompanhado por Gmor Burpen, um ogre com um invulgar gosto pela leitura e pela ninfa Sera, Ian vive as mais incríveis aventuras num mundo de fantasia, cuja complexidade e coerência estão à altura da herança de autores como Robert E. Howard, Tolkien e George R. R. Martin. 

MISTER NO
Criado por Guido Nolitta (pseudónimo que Sergio Bonelli usava para assinar os argumentos que escrevia) em 1975, Mister No é um aventureiro radicado na selva amazónica. Nascido Jerry Drake, Mister no é um antigo piloto de guerra americano que depois da Guerra da Coreia, incapaz de se readaptar à vida civil, decide deixar os Estados Unidos e ir viver para Manaus, no Brasil, onde ganha a vida como guia na selva amazónica, o que, por vezes, o leva a envolver em situações que o obrigam a fazer apelo à sua experiência militar.

João Miguel Lameiras*

* com agradecimentos a Mário João Marques pelas informações sobre a série Dragonero.


SERGIO BONELLI: UM HOMEM, MIL AVENTURAS

Nascido em Milão em 1932 e falecido em Monza em 2011, Sergio Bonelli foi não só um dos maiores editores europeus de Banda Desenhada, responsável pela criação de um império editorial cuja actividade prossegue pela mão do seu filho Davide mas também um prolífico argumentista e um incansável viajante.
Filho de Giovanni Luigi Bonelli, o criador di Tex, Sergio esteve ligado à edição desde muito novo, trabalhando na editora Audace, que o seu pai fundou e que, em 1946 passou para a sua mãe, Tea, quando os dois se separaram. Em 1957 sucede à mãe no comando da editora, ao mesmo tempo que concilia a parte administrativa com a actividade de argumentista, com o pseudónimo de Guido Nolitta, nome que encontrou numa lista telefónica e que usou para não ser confundido com o pai. A sua estreia como escritor de BD deu-se em 1958 com a série Un Ragazzo nel Far West, mas o seu primeiro grande sucesso chegou em 1961, com a criação de Zagor, personagem que, confessa, resultou da tentativa de “fazer algo especial para um público especial, misturando as mais variadas referências. A minha aposta foi fazer uma espécie de Frankenstein, pegando um bocado do Tarzan, outro bocado do Super-Homem, etc… E a coisa funcionou!” 
Outra criação sua foi Mister No, um aventureiro na Amazónia, que sempre foi a sua personagem favorita, mas além disso escreveu também diversas histórias de Tex, embora a sua prioridade fosse o trabalho de editor, marcado pelo respeito pelos autores, a quem dava grande liberdade para desenvolver os seus próprios projectos, como aconteceu com Tiziano Sclavi em Dylan Dog e com Alfredo Castelli em Martin Mystère.
Mas o contributo de Sergio Bonelli para a BD italiana, não se fica só pelas revistas mensais que editou, que mostram que a BD de qualidade não tem que ser necessariamente luxuosa e cara. Também apostou em outros formatos, a começar pelos famosos “Texones”, as edições anuais do Tex em formato grande, assinadas por grandes nomes da BD Mundial, como Buzelli, Alfonso Font, Magnus, Jordi Bernet, Joe Kubert, ou Enrique Breccia. E promoveu também projectos de grande importância como a mítica série Un Huomo, una Aventtura, por onde passaram os maiores nomes da BD italiana, como Hugo Pratt, Milo Manara, Guido Crepax; Dino Battaglia, Sergio Toppi e Guido Buzzelli. Isto para além de ter dado a grandes desenhadores espanhóis como Victor De La Fuente, Esteban Maroto, José Ortiz, Alfonso Font, ou Manfred Sommer, a possibilidade de prosseguirem uma carreira na BD de acção e aventura, quando terminou o boom das revistas de BD em Espanha.

A COLECÇÃO

1 – Tex – A Lenda de Tex
12 de Abril
Argumento – Manfredi, Buratini, Rauch e Ruju
Desenhos – Biglia, Rubini, Bocci e Tisselli
A honra de abrir esta colecção cabe naturalmente a Tex, que completa 70 anos de existência em 2018. Este volume recolhe quatro histórias a cores publicadas originalmente na revista Color Tex: O Último da Lista, escrita por Gianfranco Manfredi e desenhada por Stefano Biglia; O Mescalero sem Rosto, com argumento de Jacopo Rauch e arte de Alessandro Bocci; Chupa-Cabras!, com texto de Moreno Burattini e grafismo de Michele Rubini; e Desafio na Velha Missão, em que Sergio Tisselli ilustra magnificamente a aguarela uma trama concebida por Pasquale Ruju.

2 –Dampyr – Aventuras em Portugal
19 de Abril
Argumento – Mauro Boselli e Giovanni Eccher
Desenhos – Alessandro Bocci e Maurizio Dotti
Este volume recolhe duas aventuras de Dampyr que têm como cenário o nosso país. Em O Esposo da Vampira, Mauro Boselli e Alessandro Bocci levam o caçador de vampiros Harlan Draka e o seu amigo Kurjak, até Trás-os-Montes, para investigar a lenda do Castelo de Monforte da Estrela, que dizem estar assombrado por uma vampira. Já em Tributo de Sangue história de Giovanni Eccher e Maurizio Dotti, publicada em Itália em 2012 no Dampyr 147, é o Porto, Vila Nova de Gaia e a zona do Douro que servem de cenário a uma história que envolve um fantasma com um traje mirandense e uma tentativa de assassinato na ponte D. Luís I.

3 – Dylan Dog – A Saga de Johnny Freak
26 de Abril
Argumento – Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
Desenhos – Andrea Venturi e Giampiero Casertano
Este volume que assinala o regresso de Dylan Dog à edição nacional, recolhe duas histórias escritas por Tiziano Sclavi, o criador de Dylan Dog, a partir de uma ideia do editor Mauro Marcheselli, protagonizadas por Johnny Freak, um jovem mudo e gravemente mutilado. Publicada originalmente em 1993 no nº 81 da revista Dylan Dog, Johnny Freak é considerada como uma das melhores histórias de sempre de Dylan Dog. Este volume recolhe também O Coração de Johnny, uma continuação da história anterior, em que Andrea Venturi cede o lugar a Giampiero Casertano nos desenhos.

4 – Júlia – O Eterno Repouso
3 de Maio
Argumento – Giancarlo Berardi
Desenhos – Sergio Toppi
Em O Eterno Repouso, Júlia Kendall, a criminóloga criada por Giancarlo Berardi investiga um macabro assassinato num lar de idosos, onde um dos utentes aparece literalmente cortado em pedaços. No seu único trabalho para a série, o mestre Sergio Toppi dá mais uma demonstração de todo o seu virtuosismo  ao serviço de uma história com sequencias, como a do pesadelo, pensadas para tirar o maior partido do seu estilo único.

5 – Le Storie – Sangue e Gelo
10 de Maio
Argumento – Tito Faraci
Desenhos – Pascuale Frisenda
Ambientada em finais de 1812, na Rússia do Czar Alexandre I, Sangue e Gelo tem como ponto de partida a retirada do exército napoleónico, desgastado pela estratégia russa da “terra queimada”, deixando atrás de si centenas de milhar de homens à fome, que lutam pela sua mera sobrevivência num ambiente de gelo e horror. Contrários à ideia de se renderem a um destino aparentemente inelutável, os homens do capitão Lozère partem em busca de um pouco de pão e de um abrigo quente, na esperança de uma improvável salvação, acabando por ir ao encontro de um destino imprevisto.

6 – Tex – A pista dos Fora-da-Lei
17 de Maio
Argumento – Mauro Boselli e Claudio Nizzi
Desenhos – Carlos Gomez e Andrea Venturi
Este segundo volume protagonizado por Tex recolhe duas histórias longas a preto e branco. Na primeira, A Pista dos Fora-da-lei, escrita por Mauro Boselli, com desenhos espectaculares do argentino Carlos Gomez, Tex, Carson e Jack Tigre seguem a pista de um bando de assaltantes de bancos capitaneado por Ozzie Johnson. Na segunda história, O Assassino de Índios, um misterioso assassino aterroriza uma tribo de apaches Jicarilla, ao assassinar e escalpar mais de vinte indígenas. Uma ameaça que só Tex e Kit Carson serão capazes de deter. Publicada originalmente no Almanaque Tex de 1996, esta história escrita por Claudio Nizzi, assinala a estreia de Andrea Venturi (o desenhador de Johnny Freak)  na série Tex.

7 –  Martin Mystere – O Destino da Atlântida
24 de Maio
Argumento – Alfredo Castelli
Desenhos – Cardinale, Orlandi e Toppi
Na primeira das histórias deste volume, O Destino da Atlântida cuja acção se inicia nos Açores, Martin Mystère tem de se aliar ao seu inimigo Orloff para trazer de volta à nossa era o satélite militar que provocou a destruição da Atlântida e de Mu, 10 mil  anos antes. O volume termina com Questões de Família, uma história ilustrada por Sergio Toppi, em que a descoberta de uma gravação vídeo traz revelações sobre a presença de extraterrestres no nosso planeta.

8 – Dragonero – A Primeira Missão
31 de Maio
Argumento – Luca Enoch e Stefano Vietti
Desenhos – Manuel Morrone e Cristiano Cucina
Publicada originalmente em 2014, no Speciale Dragonero nº 1, A primeira Missão recorda um episódio do passado de Ian Arànil, o Dragonero, quando este decidiu abandonar o exército do Império e incorporar o corpo dos exploradores. Ian procura o seu amigo, o ogre Gmor, entretanto retirado num mosteiro, para o acompanhar, mas em breve, os dois terão de abandonar o corpo de exploradores e partir em auxílio de um grupo de monges que se encontra preso no interior de uma biblioteca antiga.

9 – Mister No – OVNIs na Amazónia
7 de Junho
Argumento – Tiziano Sclavi e Guido Nolitta
Desenhos – Fábio Civitelli e Roberto Diso 
Nesta edição, com uma capa inédita de Fabio Civitelli realizada em exclusivo para esta edição, a queda de um satélite russo em plena selva amazónica vai provocar a destruição do avião de Mister No e a hostilidade dos indígenas, que vêm no estranho fenómeno um sinal dos Deuses. Para além dessa história de Tiziano Sclavi (o criador de Dylan Dog), ilustrada por Civitelli, este volume traz também Garimpeiros, uma história curta escrita pelo próprio Sergio Bonelli (com o pseudónimo Guido Nolitta)  e desenhada por Roberto Diso.

10 – Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
14 de Junho
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção, num volume a cores, que recolhe três histórias curtas. Em Os Inquilinos Arcanos, história em três partes de Sclavi e Corrado Roi, publicada originalmente na revista Comic Art, Dylan Dog investiga os estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres.  
Em A Grande Nevada, o argentino Enrique Breccia ilustra uma bela homenagem ao Eternauta, de Oesterheld, escrita por Luigi Mignaco. Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara, a irmã do mestre do erotismo, Milo Manara, ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 10/04/2018

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Colecção Novela Gráfica 9 - Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites, de Sergio Toppi


Desta vez, o espaço que o Público me disponibilizou foi bastante mais reduzido do que o habitual, devido ao destaque (natural e compreensível) que o jornal deu à reedição facsimilidada da mítica revista Orfeu. Assim, para além do texto de apresentação, demasiado curto para a importância do livro e para a genialidade do trabalho gráfico de Sergio Toppi, deixo-vos aqui o link do texto que escrevi sobre Toppi para a revista Bang!, aquando da morte do desenhador italiano, e com um punhado de imagens do mais bonito livro desta colecção, que chega hoje aos quiosques de todo o país.

TOPPI REINVENTA AS MIL E UMA NOITES EM SHARAZ-DE

Novela Gráfica – Vol. 9
Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenho – Sergio Toppi
Por + 9,90€
No próximo volume da colecção Novela Gráfica, vai estar em destaque o imenso talento de Sergio Toppi, o mestre italiano que é o autor de Sharaz-De, uma adaptação única dos contos das Mil e Uma Noites, considerada como a sua obra-prima.
Nascido em Milão, em 1932, Toppi foi um dos mais inovadores e talentosos desenhadores europeus, premiado no Festival de Lucca de 1992, com o Yellow Kid para Melhor Desenhador. Em 1979, realizou para a revista italiana Alter Alter um conjunto de oito contos inspirados pelas Mil e Uma Noites, reunidos sob o título Sharaz-De. Face ao sucesso da edição francesa de Sharaz-De, publicada em 2000, a sua editora propôs-lhe criar uma continuação, com três novas histórias.
É a edição integral deste clássico incontornável da banda desenhada que os leitores podem descobrir, já na próxima semana. Uma oportunidade única de admirar o seu desenho deslumbrante, em que as personagens parecem cristalizadas numa natureza ameaçadora, o fantástico que emerge das suas histórias e a forma única de pulverizar a estrutura clássica da página, em que a divisão tradicional em tiras e quadrados, dá lugar a uma planificação mais dinâmica e artística, que considera a página como um todo, criando composições de grande equilíbrio e dinamismo. Elementos que fazem da obra de Toppi, algo único e inesquecível.
Publicado originalmente no jornal Público de 17/04/2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada

NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL 
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA

A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.

Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Apresentação da Colecção Novela Gráfica


É já na próxima quinta-feira que estreia a nova colecção de Banda Desenhada da Levoir, distribuída com o jornal Público. Uma colecção que motivou que este blog não tenha sido tão actualizado nos últimos tempos como gostaria, mas que, para mim, é a melhor colecção de BD já publicada com um jornal e o maior acontecimento editorial em Portugal nos últimos anos, na área da Banda Desenhada.
Deixo-vos então com o texto do destacável de apresentação da colecção distribuído ontem com o jornal Público e, no dia em que cada volume chegar às bancas, aqui postarei o texto de apresentação do mesmo escrito para o Público.


NOVELA GRÁFICA: UM FENÓMENO UNIVERSAL

Embora o termo tenha surgido pela primeira vez nos Estados Unidos, a novela gráfica está presente em todos os mercados e esta colecção pretende também transmitir uma ideia da dimensão global que este género de Banda Desenhada atingiu, apresentando alguns dos títulos mais emblemáticos e premiados, originários dos quatro cantos do mundo, começando naturalmente pelos E.U.A, onde a expressão nasceu.


1 – ESTADOS UNIDOS
E a colecção não podia abrir com outro autor, que não Will Eisner. Tido como o pai da novela gráfica, graças a Um Contrato com Deus, o título que abre esta colecção, Eisner nasceu em 1917 e faleceu em 2005. Foi toda uma vida dedicada à BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe) tendo estado ligado ao nascimento da indústria dos comics em 1936, através do estúdio Eisner/Eiger, do mesmo modo que, em 1978 quando regressa à BD com Um Contrato com Deus, alarga mais uma vez os limites da Banda Desenhada, fazendo-a entrar nas livrarias. Desenhador virtuoso, aliou a sua criação artística ao pensamento e análise sobre os comics, sendo autor de livros técnicos incontornáveis como Comics and Sequential Art e professor durante várias décadas na School of Visual Arts, de Nova Iorque.

Outro criador americano incontornável é Robert Crumb, o papa do Underground Comix, aqui representado por O Livro de Mr. Natural, uma recolha de histórias curtas daquele que é, a par com Fritz, the Cat, o seu personagem mais carismático.
Nascido em Filadélfia em 1943, Crumb estreou-se profissionalmente como desenhador em 1962, numa companhia de cartões de boas festas de Cleveland, mas foi no final dos anos 60 que a sua carreira na BD arrancou, graças à revista Zap Comix!, titulo escrito, desenhado e publicado pelo próprio Crumb, que rapidamente se tornou um sucesso junto da comunidade underground. Para além de uma vastíssima produção, dividida entre a Banda Desenhada e a ilustração, Crumb é também um apaixonado pela música, tocando banjo numa banda e tendo ilustrado capas para inúmeros discos de jazz, blues e rock. Crumb está radicado em França desde 1991, país que lhe atribuiu o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1999 e lhe consagrou uma grande exposição no Museu de Arte Moderna, em Paris, em 2012.

2 – PAÍSES FRANCÓFONOS
A Banda Desenhada de língua francesa está representada nesta colecção por um punhado de criadores incontornáveis, começando desde logo pela dupla Moebius/Jodorowsky. Senhores de carreiras impossíveis de resumir neste curto espaço, Jean (Moebius) Giraud e Alejandro Jodorowsky são conhecidos sobretudo pela série de ficção científica de culto, O Incal, mas a sua colaboração, que começou no cinema, vai muito para além disso, como o provam obras incontornáveis como Os Olhos do Gato, ou este A Louca do Sacré Coeur, uma tão divertida como desconcertante paródia às religiões, onde é possível estabelecer paralelos com a biografia dos autores.
Outro nome que dispensa apresentações é o do francê Jacques Tardi. Várias vezes premiado no Festival de Angoulême e vencedor de três Prémios Eisner, o autor nascido em 1946, que os leitores portugueses conhecem graças à série Adèle Blanc-Sec, está representado por Foi Assim a Guerra das Trincheiras, a sua obra mais emblemática, dedicada a um tema fulcral da na sua obra, a I Guerra Mundial.
Também o suíço Cosey é bem conhecido dos leitores portugueses, graças à série Jonathan, um dos títulos mais emblemáticos da revista Tintin e aqui surge representado pela sua primeira história sem herói, Em Busca de Peter Pan, díptico que tem por cenário os Alpes da sua Suíça natal e que aqui surge publicado na versão integral.
E há ainda o francês Edmond Baudoin, de que falaremos mais à frente, uma vez que o livro que o representa nesta colecção foi feito para o mercado japonês.


3 – ITÁLIA
Pátria de grandes nomes da história da BD, como Hugo Pratt, Dino Battaglia, Guido Buzzelli, ou Milo Manara, a Itália está representada nesta colecção pelo mais fabuloso dos seus desenhadores, Sergio Toppi. Senhor de um estilo único, marcado pelo revolucionário tratamento da página enquanto unidade estética, Toppi (1932 – 2012) está representado pela sua obra-prima, Sharaz-De, uma deslumbrante revisitação dos contos das Mil e Uma Noites, a que o seu grafismo único dá uma ainda maior dimensão fantástica.


4 – JAPÃO
Berço da maior indústria de Banda Desenhada a nível mundial, pátria de criadores como Osamu Tezuka e Naoki Urasawa, o Japão está (muito bem) representado por Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses. Nascido em Totori, no Japão, em 1947, Taniguchi, que tem publicado em Portugal, O Homem que Caminha, surge nesta colecção com O Diário do meu Pai, relato intimista, de grande beleza e sensibilidade, que tem precisamente por cenário a aldeia natal do autor.
Um dos primeiros desenhadores europeus a entrar no poderoso mercado japonês, onde este livro foi originalmente publicado, o francês Edmond Baudoin, estreia-se em português nesta colecção com A Viagem. Premiado com o Alph Art para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 1997, AViagem concilia a dimensão onírica e sensual, tão típicas de Baudoin, com uma narrativa assente na componente visual, características dos mangá, a BD japonesa.


5 – PENÍNSULA IBÉRICA
A Península Ibérica surge representada nesta colecção por duas novelas gráficas multi-premiadas, como são o caso de Beterraba, e A Arte de Voar. Assinada por Miguel Rocha, um dos mais virtuosos ilustradores portugueses, responsável pela ilustração do cartaz do Euro 2004, de futebol, Beterraba: A Vida numa Colher, é uma saga alentejana, contada com cores luminosas e vibrantes, feita ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, tendo vencido os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival da Amadora de 2004.
Já a nossa vizinha Espanha está representada por A Arte de Voar, título de António Altarriba e Kim, que arrebatou os principais Prémios de BD espanhóis em 2010, incluindo o prestigiado Premio Nacional del Comic. Escrito pelo escritor, professor e ensaísta Antonio Altarriba e ilustrado por Kim, um dos nomes maiores da emblemática (e controversa) revista El Jueves, A Arte de Voar é um bom exemplo da grande qualidade actual da BD feita por nuestros hermanos.


6 – AMÉRICA DO SUL
E a colecção fecha com dois títulos oriundos da América do Sul, que irão ser distribuídos na mesma semana. São eles Mort Cinder, o ponto mais alto da colaboração entre o urugaio Alberto Breccia e o argentino Hector Oesterheld, que é finalmente publicado na íntegra em português e Bando de Dois, uma história de cangaceiros, narrada pelo brasileiro Danilo Beiruth, no melhor registo dos Western Spaguettis de Sergio Leone.
Hector German Oesterheld (1919-1977) foi o maior argumentista de língua espanhola, autor de séries incontornáveis como El Eternauta, Sgt. Kirk (com Hugo Pratt), ou Ernie Pike, mas foi nas suas colaborações com Alberto Breccia (1919-1993) que a sua escrita mais brilhou, muito por via do virtuosismo e da criatividade visual de Breccia, que tem em Mort Cinder o seu expoente máximo.  
Nascido em São Paulo em 1973, o brasileiro Danilo Beiruth trocou a publicidade pela BD em 2007, mas foi em 2010, com Bando De Dois, título que além do Prémio Angelo Agostini, lhe valeu três troféus HQ Mix, os mais importantes prémios da indústria de BD brasileira, que se tornou um nome incontornável da BD brasileira contemporânea.


DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE NOVELA GRÁFICA


Tradução literal (e incorrecta, pois novel em português, significa romance…) do termo inglês graphic novel, o termo novela gráfica entrou já no vocabulário dos leitores portugueses de Banda Desenhada e associa-se instintivamente a histórias de qualidade e com uma dimensão estética e literária requintada, menos provável de encontrar na produção editorial corrente.
A designação surge pela necessidade sentida por alguns autores americanos, de demarcarem o seu trabalho da carga depreciativa associada ao termo comics, usado de forma indiscriminada para designar a BD nos Estados Unidos. Exactamente por terem consciência que o termo se aplicava apenas a uma pequena parte da produção existente (as histórias cómicas, ou humorísticas, constituem uma parte cada vez mais ínfima da produção americana, onde os super-heróis continuam a ser o género dominante) e ao formato específico dos comic books (revistas com uma dimensão de 17 X 26 cm, com vinte e poucas páginas, normalmente ocupadas por histórias de super-heróis), surgiram outros nomes alternativos. É o caso do termo comix, utilizado para definir a BD alternativa (ou underground) surgida nos campus universitários americanos durante os anos 60 do século XX, e graphic novel, designação que aproxima a BD da literatura. Uma designação aplicada a um tipo de narrativas extensas, com uma dimensão literária e um tipo de preocupações estéticas muito difíceis de encontrar no formato restritivo de um comic book, limitado a narrativas breves, passíveis de serem contadas em pouco mais de vinte páginas.
Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo, que já estava presente no Zeitgest cultural americano do final dos anos 70, tanto na sua forma actual, como em subtis variações, como graphic album, visual novel, ou illustrated novel, Eisner, sem nunca ter reivindicado para si esse estatuto, foi considerado por muitos como o criador da novela gráfica, pelo impacto crítico e comercial que Um Contrato com Deus teve  junto do público americano.
O sucesso de títulos posteriores como Maus de Art Spiegelman e de The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (dois títulos publicados originalmente como mini-séries) ajudou a que o termo graphic novel entrasse na linguagem comum.
Mas, mesmo que ninguém lhes desse ainda esse nome, as novelas gráficas são bem anteriores, podendo mesmo englobar-se nesta categoria L’Histoire de M. Vieux Bois, de Rodolphe Topffer, publicada em 1837, como a primeira novela gráfica. Pelo menos era essa a opinião do seu amigo e primeiro crítico de BD, o filósofo e escritor Goethe, que definiu a obra de Topffer, como “a literatura do futuro”.
Também uma obra como A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, criador que preferia usar o termo literatura desenhada, para classificar o seu trabalho, pode ser considerada uma novela gráfica. O mesmo se pode dizer em relação à esmagadora maioria das histórias publicadas na revista francesa (A Suivre) que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, dava-lhes a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso de Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, publicado originalmente em capítulos na revista (A Suivre) e incluído nesta colecção. No fundo, não é o modo como é originalmente publicado, que define o estatuto de uma obra. Basta pensar em escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro.
Assim, nesta colecção temos títulos concebidos originalmente para o formato novela gráfica, como o é o caso de Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Beterraba, de Miguel Rocha, A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, e Bando de Dois, de Danilo Beiruth, a par com livros publicados originalmente por capítulos em revistas, como A Viagem, de Baudoin, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Livro de Mr. Natural, de Robert Crumb, Sharaz-De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi e Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld e ainda histórias completas que foram originalmente publicadas em mais do que um volume, por razões puramente editoriais, como é o caso de A Louca do Sacré Coeur, de Moebiusw e Jodorowsky.
Ou seja, títulos com origens diversas, mas que têm como grande elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, de grande qualidade estética e literária, que sendo arte sequencial, são também literatura desenhada.


A COLECÇÃO


1 – Um Contrato com Deus
26 de Fevereiro
Argumento e Desenhos – Will Eisner
Considerada por muitos como a obra fundadora do género Novela Gráfica, Um Contrato com Deus recolhe quatro histórias curtas inspiradas nas vivências de Eisner nos bairros pobres da Nova Iorque dos anos 30. Histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos no Bronx, traçando uma imagem cheia de riqueza das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.

2  – A Louca do Sacré Coeur
05 de Março
Argumento – Alejandro Jodorowsky
Desenhos – Moebius
Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mística, farsa sagrada, caminho iniciático, e exorcismo, assinado por dois nomes maiores da BD mundial.

3  – A Viagem
12 de Março
Argumento  e Desenhos – Edmond Baudoin
Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, com a cabeça cheia de imagens abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, com um toque surreal, contada pelo traço sensual de Baudoin, feita originalmente para o mercado japonês e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.


4  – Foi Assim a Guerra das Trincheiras
19 de Março
Argumento  e Desenhos – Jacques Tardi
Retrato realista e cruel da Guerra de 1914-1918, Foi Assim a Guerra das Trincheiras é, de longe, a mais popular e aclamada obra de Tardi, um dos mais respeitados e premiados autores franceses. Homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial, foi evoluindo ao longo dos anos em que foi sendo publicada. De pano de fundo para histórias contadas em banda desenhada, transformou-se lentamente numa denúncia poderosa dos horrores do conflito que aniquilou uma geração inteira.


5  – Beterraba: A Vida numa Colher
26 de Março
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Oligário, um patriarca alentejano luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano. Um livro poderoso, de um dos mais talentosos ilustradores nacionais, que volta a estar disponível, agora em capa dura e com uma nova capa.

6  – A Arte de Voar
02 de Abril
Argumento – António Altarriba
Desenho –  Kim
Nascido em 1910 em Espanha, António Altarriba pai atravessará o século e as suas horas mais negras, para se suicidar em 2001. António Altarriba, filho, irá em busca da história dele, para poder contá-la e talvez conseguir perceber as razões do suicídio deste homem de 91 anos que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais. Mas mais do que uma simples biografia gráfica, A Arte de Voar é um panorama brilhante do século 20 espanhol.


7  –  O Livro de Mr. Natural
09 de Abril
Argumento e Desenho – Robert Crumb
Um verdadeiro clássico do comic underground, assinado pelo mestre Robert Crumb, protagonizado pela sua carismática criação, o guru Mr. Natural, cuja trajectória acompanhamos, desde as aventuras iniciais dos anos 60, até aos anos 90, marcados pelo controverso ciclo da Devil Girl.

8  – Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Sir Melvin Woodworth, um escritor inglês, parte para os Alpes em busca de inspiração para o seu novo romance, e das memórias do seu irmão Dragan, um pianista desaparecido naquelas montanhas anos antes. Mas, no cenário imponente dos Alpes suíços, Melvin vai fazer uma descoberta que vai afectar de forma profunda a sua vida. A primeira novela gráfica de Cosey, o criador de Jonathan.

9  – Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenhos –  Sergio Toppi
Sharaz-De, a Sherazade dos contos das Mil e Uma Noites, surge aqui reinterpretada pelo traço inconfundível do mestre Italiano Sergio Toppi, num conjunto de 11 contos ilustrados num estilo de grande audácia gráfica, marcado por um espectacular sentido de composição, que revoluciona a estrutura habitual da página clássica de banda desenhada. A obra-prima do Mestre Italiano finalmente disponível em Portugal!


10  –  O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio, regressa a Tottori, a sua terra natal, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que leva a evocar a infância e a perceber finalmente o motivo por que o seu pai abandonou a família. Um relato intimista e comovente, com laivos de autobiografia, contado com grande beleza e extrema sensibilidade pelo mais europeu dos desenhadores japoneses, Jiro Taniguchi.

11  –  Mort Cinder
06 de Maio
Argumento – Hector Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia
A vida pacata do antiquário Ezra Wiston vai sofrer uma alteração radical quando conhece Mort Cinder, o vagabundo do tempo, homem de mil e uma vidas e outras tantas mortes. Juntos vivem aventuras em que o ambiente fantástico não esconde uma visão profundamente humana do mundo.
Ponto mais alto da colaboração entre os dois geniais criadores argentinos, Mort Cinder é justamente considerado como uma obra-prima e um livro absolutamente incontornável, que surge primeira vez em Portugal numa edição integral.

12  –  Bando de Dois
07 de Maio
Argumento e Desenhos – Danilo Beyruth
Tinhoso e Caveira de Boi, "os dois últimos sobreviventes de um bando de vinte cangaceiros partem em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, preparados para enfrentar um exército. Cada um com os seus motivos. O brasileiro Danilo Beiruth cria em O Bando de Dois um verdadeiro Western Spaguetti em papel, que conquistou a crítica e os leitores brasileiros aquando da sua publicação, em 2010.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/02/2015

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Evocando Sergio Toppi


Se o ano de 2012 foi infelizmente fértil no desaparecimento de grandes nomes da Banda Desenhada mundial, como Jean Moebius Giraud, ou Joe Kubert, cujas mortes tiveram grande destaque mediático, já o falecimento do Mestre italiano Sérgio Toppi, em 21 de Agosto, perto de completar 80 anos, passou relativamente despercebido, pelo menos em Portugal.
Uma lacuna que tentaremos corrigir nesta Bang!, evocando aqui a vida e a obra de Sérgio Toppi, virtuoso desenhador italiano, cujo estilo único e arrojada planificação não deixa ninguém indiferente. Nascido em Milão em 1932, Toppi matriculou-se na Faculdade de Medicina em 1952, para rapidamente descobrir que essa não era de todo a sua vocação. Rapidamente abandonou os estudos para se dedicar à ilustração, campo em que se estreia em 1953, realizando uma série de ilustrações históricas para a reedição da L’Enciclopedia dei Ragazzi, promovida pela editora Mondadori. Enquanto realiza trabalhos para publicações como a revista Topolino, em 1957 arranja emprego no Estúdio de Animação Pagot, dirigido pelos irmãos Pagotto, responsáveis pela primeira longa-metragem italiana de animação, o que não o impede de continuar a trabalhar como ilustrador para a imprensa e para a publicidade e de se estrear na Banda Desenhada em 1960, ilustrando uma biografia em BD de Pietro Micca, uma personagem histórica italiana do século XVII, escrita por Milo Milani para o jornal Corriere dei Piccoli.

Um momento importante da sua carreira na BD, foi o encontro com Sergio Bonelli, personagem incontornável da BD italiana, editor de Tex e Dylan Dog, que contratou Toppi em 1974, para este acabar de desenhar um Western que a morte de Rino Albertarelli deixara incompleta. O ano de 1975, também foi importante para Toppi, pois além de ter ganho o Yellow Kid para o melhor desenhador no Festival de Lucca, começou a colaborar com a revista Sgt. Kirk nesse mesmo ano. Seguir-se-ia a participação na mítica coleção Un Uomo, un’Avventura, onde Bonelli conseguiu a proeza de juntar os mais prestigiados nomes dos fumetti italianos, de Hugo Pratt a Milo Manara, passando por Crepax, Buzzelli, Battaglia, e claro, Toppi, que entre 1976 e 1978 ilustrou os volumes, L’Uomo del Nilo, L’Uomo del Messico e L’Uomo del Paludi, o primeiro dos quais chegaria a Portugal através de uma edição brasileira.
E se os interesses de Toppi estavam algo afastados das grandes séries da Bonelli, a sua amizade com o editor fez com que colaborasse ocasionalmente com a editora da Via Buonarrotti, desenhando histórias para a Ken Parker Magazine, para dois números de Nick Rayder, em 1997 e 2001, para o nº 11 da revista Julia, ilustrando uma história de Giancarlo Berardi, que chegou a Portugal, através da edição brasileira da Mythos, que publicou a referida história no nº 11 da revista J. Kendall Aventuras de uma Criminóloga.
Toppi tem também o seu nome ligado a outros dois populares personagens da Bonelli, Martin Mystére, de quem ilustrou uma história de 22 páginas para o Almanaque Martin Mystére nº 16, de 1999, posteriormente adaptada a um CD-Rom, e Dylan Dog, que Toppi retratou na capa do Dylan Dog Color Fest nº 3, de 2009, no que seria a sua última colaboração com a editora Bonelli.

Entre a longa colaboração com Il Giornalino, iniciada em 1976, e diversas participações nas principais revistas italianas, como a Sgt. Kirk, Linus, Alter Alter e Corto Maltese, Toppi constrói o seu estilo próprio, em que a rígida divisão da página em tiras e quadrados, dá lugar a uma planificação mais dinâmica e artística, que considera a página como um todo. O aspecto pétreo do seu desenho, em que as personagens parecem cristalizadas numa natureza ameaçadora, também ela fossilizada, o fantástico que emerge das suas histórias, faz da obra de Toppi, algo único e inesquecível.
Infelizmente, essa obra, tão variada que inclui, além de largas dezenas de histórias curtas, coisas tão inesperadas como uma biografia em BD do Papa João Paulo II, nunca conseguiu cativar devidamente o grande público, talvez pela ausência de um herói icónico que o fidelizasse. A obra de Toppi é constituída maioritariamente por histórias curtas, tendo como único personagem recorrente Il Coleccionista, um peculiar colecionador e aventureiro, misto de dandy e de cowboy, que se estreou em 1982 na revista Orient Express. Um personagem de moral dúbia e passado misterioso, muito longe dos heróis tradicionais com que o leitor facilmente se identifica.

Com o declínio das revistas em Itália, que se acentuou no início do século XXI, Toppi começou a cair no esquecimento no seu país. Algo que não aconteceu em França, graças ao excelente trabalho da editora Mosquito, que a partir de 1997 tem vindo a editar de forma cuidada o seu trabalho (tal como o de outros grandes mestres italianos, como Battaglia e Micchelluzi). Uma parceria feliz, que deu origem a mais de 30 álbuns de BD, entre colectâneas de histórias curtas, até trabalhos feitos directamente para o mercado francês, como a segunda parte de Sharaz’de, ou a quinta aventura do Coleccionador.
Graças às edições da Mosquito, o trabalho de Toppi tem vindo a ser traduzido em diversos países, da Europa, aos Estados Unidos e à China, onde uma exposição das suas obras foi vista por dois milhões de pessoas em apenas cinco dias. Uma merecida consagração que Toppi, já debilitado pelo cancro que haveria de o levar, não pode testemunhar pessoalmente.
Apesar do seu trabalho só agora começar a ser publicado nos EUA, graças à Archaia Press, a sua influência em desenhadores como Walt Simonson, Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Ashley Wood, ou Dave McKean (sobretudo numa primeira fase que vai até ao Arkham Asylum) é evidente e assumida pelos próprios, que nunca esconderam a sua admiração pelo trabalho de Toppi.
Walt Simonson, que deu Toppi a descobrir a Frank Miller e Howard Chaykin, quando os três partilhavam um estúdio em Nova Iorque, foi o autor do prefácio à edição americana de Sharaz-De, em que refere que: “as imagens de Toppi são uma mescla evocativa de belos desenhos, texturas, formas, espaço negativo e design. Desenha com uma mistura de contornos, hachuras, manchas de preto cuidadosamente posicionadas e espaços em branco. Ele é um mestre dos espaços em branco. O resultado é um desenho extremamente vivo em cada página, independentemente do assunto”. Já Frank Miller, que dizia que “Toppi faz o impossível parecer fácil”, foi o responsável pela estreia do desenhador italiano no mercado americana, publicando uma ilustração que o Mestre fez de homenagem à série Sin City, no nº 4 da mini-série Sin City: The Big Fat Kill, infelizmente ausente da edição portuguesa da Devir. Mais tarde, será a Marvel a encomendar-lhe as capas da mini-série 1602: The New World, que retoma o conceito, criado por Neil Gaiman, do universo Marvel transposto para o século XVII, ficando-se por aqui a presença do desenhador americano na terra do Tio Sam, até a Archaia começar finalmente a publicar a sua obra em inglês, começando por Sharaz’de, numa bela edição que Toppi já não teve tempo de ver…

Em Portugal, onde a influência do seu traço é visível num autor como Pedro Massano, especialmente no álbum Mataram-no Duas Vezes,  as histórias de Toppi chegaram através de revistas como Jacto e o Jornal do Cuto, que publicaram algumas histórias curtas e da Coleção A Descoberta do Mundo, da Larrousse, que a Dom Quixote editou em Portugal e em que o nome de Toppi aparece ao lado de ilustres compatriotas seus, como Buzzelli, Manara, ou Battaglia, e do português Eduardo Teixeira Coelho. A última aparição de Toppi em português, deu-se em 1999, no nº 8 da 2ª série da revista Selecções BD, com a história Algarve 1460, protagonizada pelo Infante Dom Henrique, enquadrada por um belo texto de João P. Boléo, que abordava a relação de Toppi com Portugal, que tinha visitado um ano antes de desenhar essa história. Curiosamente, a mesma revista preparava-se para iniciar a publicação de Sharaz’de, a peculiar adaptação das Mil e Uma Noites, que é um dos melhores trabalhos de Toppi, no preciso momento em que falência da editora Meribérica levou ao seu desaparecimento.
Ficaram a perder os leitores portugueses. Os mesmos leitores que, nestas páginas têm finalmente direito a uma pequena amostra do imenso talento de Sergio Toppi, um desenhador, nas palavras de Dave McKean, “capaz de desenhar qualquer coisa e dar-lhe uma solidez e um sentido de movimento que a tornam ideal para contar histórias no formato da Banda Desenhada”.
Texto originalmente publicado no nº 14 da revista Bang! de Abril de 2013