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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Oesterheld em destaque no nº 18 da revista Bang!


Já está disponível nas lojas FNAC o último número da revista Bang! que, como é habitual conta com um texto meu, neste caso sobre o legado de Hector G. Oesterheld no terror e na ficção científica. Novela Gráfica, Oesterheld está em destaque neste número da excelente revista gratuita da Saída de Emergência.
Depois do sucesso da edição portuguesa de Mort Cinder, que foi um dos volumes mais vendidos da colecção
Mas, para os fãs da BD, esse não é o único ponto de interesse da revista., que traz também um excelente artigo de Pedro Piedade Marques sobre o projecto abortado da adaptação de Dune por Alejandro Jodorowsky, a apresentação do projecto Figuras Clássicas do Terror, uma exposição, comissariada por Bruno Caetano, com a participação de ilustradores portugueses da craveira de Jorge Coelho, Nuno Duarte, Pedro Brito, Rui Lacas e Ricardo Cabral e uma entrevista com João Leitão, o realizador de Capitão Falcão, personagem que, depois do cinema, pode chegar à BD.
Nas próximas semanas, aqui deixarei o texto sobre Oesterheld , mas, até lá, fica a sugestão para que procurem a revista Bang! na FNAC mais próxima.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Colecção Novela Gráfica 2 - A Louca do Sacré-Coeur, de Moebius e Jodorowsky


MOEBIUS E JODOROWSKY CHEGAM À COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA 
COM A LOUCA DO SACRÉ-COEUR

Novela Gráfica- Vol 2
A Louca do Sacré-Coeur
Argumento - Jodorowsky 
Desenhos – Moebius

Conhecido em Portugal essencialmente pelo seu trabalho na série de Banda Desenhada, O Incal, ilustrada por Moebius, e em todo o universo que dela emanou (como A Casta dos Metabarões), Alejandro Jodorowsky é muito mais do que um mero argumentista de BD de ficção científica. Considerado como um guru por personalidades do mundo da música tão diferentes como John Lennon e Yoko Ono, que ajudaram a financiar os seus filmes El Topo e La Montaña Sagrada e Marilyn Manson, que cita abertamente La Montaña Sagrada no vídeo de The Dope Show, Jodorowsky revela-se uma personagem tão ou mais fascinante do que a sua própria obra, a qual reflecte as suas vivências e crenças místicas.
Verdadeiro homem do Renascimento, este filho de judeus emigrantes russos, nascido no Chile em 1929, foi actor, mimo (discípulo de Marcel Marceau), tarólogo de renome, responsável, com Philipe Camoin pela restauração do Tarot de Marselha, criador de uma nova técnica terapêutica chamada Psicomagia, poeta, escritor, dramaturgo, encenador, fundador do grupo surrealista Panique (com Fernando Arrabal e Roland Topor), realizador de cinema e principalmente, argumentista de BD.
Curiosamente foi no cinema que se deu a primeira colaboração entre Jodorowsky e Moebius, num projecto de adaptação cinematográfica do romance Dune, de Frank Herbert que acabou por não chegar a bom porto, mas que deu origem a uma frutuosa colaboração no campo da BD, de que nasceu a série O Incal, para além de outras pérolas como Os Olhos do Gato e esta A Louca do Sacré-Coeur.
Nascido em 1938 e falecido em 2012, Jean (Moebius) Giraud, foi um dos mais importantes nomes da BD europeia. Possivelmente, um dos melhores desenhadores realistas que a Banda Desenhada conheceu, com o nome Gir, com que assinava as aventuras do Tenente Blueberry, Giraud, com o pseudónimo Moebius, foi também um dos mais influentes autores de BD de sempre, co-fundador da revista Metal Hurlant e responsável pela criação de alguns dos mais fantásticos universos da BD, para além de ter emprestado o seu fabuloso traço à BD, em histórias surreais e ao cinema e à publicidade, em magníficas ilustrações marcadas pela originalidade do seu universo e pelo arrojo gráfico do seu traço.
Publicado originalmente em França em três tomos (La folle du Sacré-Coeur, de 1992, Le Piège de l'irrationnel, de 1993, e Le Fou de la Sorbonne, de 1998), A Louca… foi uma das raras histórias que Jodorowsky escreveu sem ter em mente um desenhador predefinido, mas que encontrou em Moebius o ilustrador ideal, capaz de equilibrar a dimensão realista inicial, com os elementos místicos e fantásticos que vão tendo uma importância cada vez maior à medida que a história avança.
Obra de ficção delirante, mas onde são perceptíveis contornos autobiográficos, que o próprio Moebius acentua ao dar a Mangel parecenças físicas com Jodorowsky, A Louca do Sacré-Coeur é uma obra tão divertida como perturbadora, marcada pelo contraste. Contraste entre a espiritualidade e a sexualidade, entre a racionalidade e o misticismo, entre o sublime e o escatológico, entre o realismo de Giraud e a fantasia de Moebius.

Não sendo o trabalho mais famoso da dupla, distinção que cabe ao Incal, A Louca do Sacré-Coeur foi o canto do cisne da colaboração entre Moebius e Jodorowsky e um momento único de perfeito alinhamento entre os dois universos gráficos que marcaram a obra de Giraud. Claramente o trabalho mais pessoal da dupla Moebius/Jodorowsky, A Louca do Sacré-Coeur é, também por isso, o mais fascinante.
Texto publicado no jornal Público de 27/02/2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada

NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL 
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA

A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.

Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Apresentação da Colecção Novela Gráfica


É já na próxima quinta-feira que estreia a nova colecção de Banda Desenhada da Levoir, distribuída com o jornal Público. Uma colecção que motivou que este blog não tenha sido tão actualizado nos últimos tempos como gostaria, mas que, para mim, é a melhor colecção de BD já publicada com um jornal e o maior acontecimento editorial em Portugal nos últimos anos, na área da Banda Desenhada.
Deixo-vos então com o texto do destacável de apresentação da colecção distribuído ontem com o jornal Público e, no dia em que cada volume chegar às bancas, aqui postarei o texto de apresentação do mesmo escrito para o Público.


NOVELA GRÁFICA: UM FENÓMENO UNIVERSAL

Embora o termo tenha surgido pela primeira vez nos Estados Unidos, a novela gráfica está presente em todos os mercados e esta colecção pretende também transmitir uma ideia da dimensão global que este género de Banda Desenhada atingiu, apresentando alguns dos títulos mais emblemáticos e premiados, originários dos quatro cantos do mundo, começando naturalmente pelos E.U.A, onde a expressão nasceu.


1 – ESTADOS UNIDOS
E a colecção não podia abrir com outro autor, que não Will Eisner. Tido como o pai da novela gráfica, graças a Um Contrato com Deus, o título que abre esta colecção, Eisner nasceu em 1917 e faleceu em 2005. Foi toda uma vida dedicada à BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe) tendo estado ligado ao nascimento da indústria dos comics em 1936, através do estúdio Eisner/Eiger, do mesmo modo que, em 1978 quando regressa à BD com Um Contrato com Deus, alarga mais uma vez os limites da Banda Desenhada, fazendo-a entrar nas livrarias. Desenhador virtuoso, aliou a sua criação artística ao pensamento e análise sobre os comics, sendo autor de livros técnicos incontornáveis como Comics and Sequential Art e professor durante várias décadas na School of Visual Arts, de Nova Iorque.

Outro criador americano incontornável é Robert Crumb, o papa do Underground Comix, aqui representado por O Livro de Mr. Natural, uma recolha de histórias curtas daquele que é, a par com Fritz, the Cat, o seu personagem mais carismático.
Nascido em Filadélfia em 1943, Crumb estreou-se profissionalmente como desenhador em 1962, numa companhia de cartões de boas festas de Cleveland, mas foi no final dos anos 60 que a sua carreira na BD arrancou, graças à revista Zap Comix!, titulo escrito, desenhado e publicado pelo próprio Crumb, que rapidamente se tornou um sucesso junto da comunidade underground. Para além de uma vastíssima produção, dividida entre a Banda Desenhada e a ilustração, Crumb é também um apaixonado pela música, tocando banjo numa banda e tendo ilustrado capas para inúmeros discos de jazz, blues e rock. Crumb está radicado em França desde 1991, país que lhe atribuiu o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1999 e lhe consagrou uma grande exposição no Museu de Arte Moderna, em Paris, em 2012.

2 – PAÍSES FRANCÓFONOS
A Banda Desenhada de língua francesa está representada nesta colecção por um punhado de criadores incontornáveis, começando desde logo pela dupla Moebius/Jodorowsky. Senhores de carreiras impossíveis de resumir neste curto espaço, Jean (Moebius) Giraud e Alejandro Jodorowsky são conhecidos sobretudo pela série de ficção científica de culto, O Incal, mas a sua colaboração, que começou no cinema, vai muito para além disso, como o provam obras incontornáveis como Os Olhos do Gato, ou este A Louca do Sacré Coeur, uma tão divertida como desconcertante paródia às religiões, onde é possível estabelecer paralelos com a biografia dos autores.
Outro nome que dispensa apresentações é o do francê Jacques Tardi. Várias vezes premiado no Festival de Angoulême e vencedor de três Prémios Eisner, o autor nascido em 1946, que os leitores portugueses conhecem graças à série Adèle Blanc-Sec, está representado por Foi Assim a Guerra das Trincheiras, a sua obra mais emblemática, dedicada a um tema fulcral da na sua obra, a I Guerra Mundial.
Também o suíço Cosey é bem conhecido dos leitores portugueses, graças à série Jonathan, um dos títulos mais emblemáticos da revista Tintin e aqui surge representado pela sua primeira história sem herói, Em Busca de Peter Pan, díptico que tem por cenário os Alpes da sua Suíça natal e que aqui surge publicado na versão integral.
E há ainda o francês Edmond Baudoin, de que falaremos mais à frente, uma vez que o livro que o representa nesta colecção foi feito para o mercado japonês.


3 – ITÁLIA
Pátria de grandes nomes da história da BD, como Hugo Pratt, Dino Battaglia, Guido Buzzelli, ou Milo Manara, a Itália está representada nesta colecção pelo mais fabuloso dos seus desenhadores, Sergio Toppi. Senhor de um estilo único, marcado pelo revolucionário tratamento da página enquanto unidade estética, Toppi (1932 – 2012) está representado pela sua obra-prima, Sharaz-De, uma deslumbrante revisitação dos contos das Mil e Uma Noites, a que o seu grafismo único dá uma ainda maior dimensão fantástica.


4 – JAPÃO
Berço da maior indústria de Banda Desenhada a nível mundial, pátria de criadores como Osamu Tezuka e Naoki Urasawa, o Japão está (muito bem) representado por Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses. Nascido em Totori, no Japão, em 1947, Taniguchi, que tem publicado em Portugal, O Homem que Caminha, surge nesta colecção com O Diário do meu Pai, relato intimista, de grande beleza e sensibilidade, que tem precisamente por cenário a aldeia natal do autor.
Um dos primeiros desenhadores europeus a entrar no poderoso mercado japonês, onde este livro foi originalmente publicado, o francês Edmond Baudoin, estreia-se em português nesta colecção com A Viagem. Premiado com o Alph Art para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 1997, AViagem concilia a dimensão onírica e sensual, tão típicas de Baudoin, com uma narrativa assente na componente visual, características dos mangá, a BD japonesa.


5 – PENÍNSULA IBÉRICA
A Península Ibérica surge representada nesta colecção por duas novelas gráficas multi-premiadas, como são o caso de Beterraba, e A Arte de Voar. Assinada por Miguel Rocha, um dos mais virtuosos ilustradores portugueses, responsável pela ilustração do cartaz do Euro 2004, de futebol, Beterraba: A Vida numa Colher, é uma saga alentejana, contada com cores luminosas e vibrantes, feita ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, tendo vencido os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival da Amadora de 2004.
Já a nossa vizinha Espanha está representada por A Arte de Voar, título de António Altarriba e Kim, que arrebatou os principais Prémios de BD espanhóis em 2010, incluindo o prestigiado Premio Nacional del Comic. Escrito pelo escritor, professor e ensaísta Antonio Altarriba e ilustrado por Kim, um dos nomes maiores da emblemática (e controversa) revista El Jueves, A Arte de Voar é um bom exemplo da grande qualidade actual da BD feita por nuestros hermanos.


6 – AMÉRICA DO SUL
E a colecção fecha com dois títulos oriundos da América do Sul, que irão ser distribuídos na mesma semana. São eles Mort Cinder, o ponto mais alto da colaboração entre o urugaio Alberto Breccia e o argentino Hector Oesterheld, que é finalmente publicado na íntegra em português e Bando de Dois, uma história de cangaceiros, narrada pelo brasileiro Danilo Beiruth, no melhor registo dos Western Spaguettis de Sergio Leone.
Hector German Oesterheld (1919-1977) foi o maior argumentista de língua espanhola, autor de séries incontornáveis como El Eternauta, Sgt. Kirk (com Hugo Pratt), ou Ernie Pike, mas foi nas suas colaborações com Alberto Breccia (1919-1993) que a sua escrita mais brilhou, muito por via do virtuosismo e da criatividade visual de Breccia, que tem em Mort Cinder o seu expoente máximo.  
Nascido em São Paulo em 1973, o brasileiro Danilo Beiruth trocou a publicidade pela BD em 2007, mas foi em 2010, com Bando De Dois, título que além do Prémio Angelo Agostini, lhe valeu três troféus HQ Mix, os mais importantes prémios da indústria de BD brasileira, que se tornou um nome incontornável da BD brasileira contemporânea.


DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE NOVELA GRÁFICA


Tradução literal (e incorrecta, pois novel em português, significa romance…) do termo inglês graphic novel, o termo novela gráfica entrou já no vocabulário dos leitores portugueses de Banda Desenhada e associa-se instintivamente a histórias de qualidade e com uma dimensão estética e literária requintada, menos provável de encontrar na produção editorial corrente.
A designação surge pela necessidade sentida por alguns autores americanos, de demarcarem o seu trabalho da carga depreciativa associada ao termo comics, usado de forma indiscriminada para designar a BD nos Estados Unidos. Exactamente por terem consciência que o termo se aplicava apenas a uma pequena parte da produção existente (as histórias cómicas, ou humorísticas, constituem uma parte cada vez mais ínfima da produção americana, onde os super-heróis continuam a ser o género dominante) e ao formato específico dos comic books (revistas com uma dimensão de 17 X 26 cm, com vinte e poucas páginas, normalmente ocupadas por histórias de super-heróis), surgiram outros nomes alternativos. É o caso do termo comix, utilizado para definir a BD alternativa (ou underground) surgida nos campus universitários americanos durante os anos 60 do século XX, e graphic novel, designação que aproxima a BD da literatura. Uma designação aplicada a um tipo de narrativas extensas, com uma dimensão literária e um tipo de preocupações estéticas muito difíceis de encontrar no formato restritivo de um comic book, limitado a narrativas breves, passíveis de serem contadas em pouco mais de vinte páginas.
Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo, que já estava presente no Zeitgest cultural americano do final dos anos 70, tanto na sua forma actual, como em subtis variações, como graphic album, visual novel, ou illustrated novel, Eisner, sem nunca ter reivindicado para si esse estatuto, foi considerado por muitos como o criador da novela gráfica, pelo impacto crítico e comercial que Um Contrato com Deus teve  junto do público americano.
O sucesso de títulos posteriores como Maus de Art Spiegelman e de The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (dois títulos publicados originalmente como mini-séries) ajudou a que o termo graphic novel entrasse na linguagem comum.
Mas, mesmo que ninguém lhes desse ainda esse nome, as novelas gráficas são bem anteriores, podendo mesmo englobar-se nesta categoria L’Histoire de M. Vieux Bois, de Rodolphe Topffer, publicada em 1837, como a primeira novela gráfica. Pelo menos era essa a opinião do seu amigo e primeiro crítico de BD, o filósofo e escritor Goethe, que definiu a obra de Topffer, como “a literatura do futuro”.
Também uma obra como A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, criador que preferia usar o termo literatura desenhada, para classificar o seu trabalho, pode ser considerada uma novela gráfica. O mesmo se pode dizer em relação à esmagadora maioria das histórias publicadas na revista francesa (A Suivre) que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, dava-lhes a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso de Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, publicado originalmente em capítulos na revista (A Suivre) e incluído nesta colecção. No fundo, não é o modo como é originalmente publicado, que define o estatuto de uma obra. Basta pensar em escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro.
Assim, nesta colecção temos títulos concebidos originalmente para o formato novela gráfica, como o é o caso de Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Beterraba, de Miguel Rocha, A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, e Bando de Dois, de Danilo Beiruth, a par com livros publicados originalmente por capítulos em revistas, como A Viagem, de Baudoin, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Livro de Mr. Natural, de Robert Crumb, Sharaz-De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi e Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld e ainda histórias completas que foram originalmente publicadas em mais do que um volume, por razões puramente editoriais, como é o caso de A Louca do Sacré Coeur, de Moebiusw e Jodorowsky.
Ou seja, títulos com origens diversas, mas que têm como grande elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, de grande qualidade estética e literária, que sendo arte sequencial, são também literatura desenhada.


A COLECÇÃO


1 – Um Contrato com Deus
26 de Fevereiro
Argumento e Desenhos – Will Eisner
Considerada por muitos como a obra fundadora do género Novela Gráfica, Um Contrato com Deus recolhe quatro histórias curtas inspiradas nas vivências de Eisner nos bairros pobres da Nova Iorque dos anos 30. Histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos no Bronx, traçando uma imagem cheia de riqueza das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.

2  – A Louca do Sacré Coeur
05 de Março
Argumento – Alejandro Jodorowsky
Desenhos – Moebius
Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mística, farsa sagrada, caminho iniciático, e exorcismo, assinado por dois nomes maiores da BD mundial.

3  – A Viagem
12 de Março
Argumento  e Desenhos – Edmond Baudoin
Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, com a cabeça cheia de imagens abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, com um toque surreal, contada pelo traço sensual de Baudoin, feita originalmente para o mercado japonês e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.


4  – Foi Assim a Guerra das Trincheiras
19 de Março
Argumento  e Desenhos – Jacques Tardi
Retrato realista e cruel da Guerra de 1914-1918, Foi Assim a Guerra das Trincheiras é, de longe, a mais popular e aclamada obra de Tardi, um dos mais respeitados e premiados autores franceses. Homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial, foi evoluindo ao longo dos anos em que foi sendo publicada. De pano de fundo para histórias contadas em banda desenhada, transformou-se lentamente numa denúncia poderosa dos horrores do conflito que aniquilou uma geração inteira.


5  – Beterraba: A Vida numa Colher
26 de Março
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Oligário, um patriarca alentejano luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano. Um livro poderoso, de um dos mais talentosos ilustradores nacionais, que volta a estar disponível, agora em capa dura e com uma nova capa.

6  – A Arte de Voar
02 de Abril
Argumento – António Altarriba
Desenho –  Kim
Nascido em 1910 em Espanha, António Altarriba pai atravessará o século e as suas horas mais negras, para se suicidar em 2001. António Altarriba, filho, irá em busca da história dele, para poder contá-la e talvez conseguir perceber as razões do suicídio deste homem de 91 anos que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais. Mas mais do que uma simples biografia gráfica, A Arte de Voar é um panorama brilhante do século 20 espanhol.


7  –  O Livro de Mr. Natural
09 de Abril
Argumento e Desenho – Robert Crumb
Um verdadeiro clássico do comic underground, assinado pelo mestre Robert Crumb, protagonizado pela sua carismática criação, o guru Mr. Natural, cuja trajectória acompanhamos, desde as aventuras iniciais dos anos 60, até aos anos 90, marcados pelo controverso ciclo da Devil Girl.

8  – Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Sir Melvin Woodworth, um escritor inglês, parte para os Alpes em busca de inspiração para o seu novo romance, e das memórias do seu irmão Dragan, um pianista desaparecido naquelas montanhas anos antes. Mas, no cenário imponente dos Alpes suíços, Melvin vai fazer uma descoberta que vai afectar de forma profunda a sua vida. A primeira novela gráfica de Cosey, o criador de Jonathan.

9  – Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenhos –  Sergio Toppi
Sharaz-De, a Sherazade dos contos das Mil e Uma Noites, surge aqui reinterpretada pelo traço inconfundível do mestre Italiano Sergio Toppi, num conjunto de 11 contos ilustrados num estilo de grande audácia gráfica, marcado por um espectacular sentido de composição, que revoluciona a estrutura habitual da página clássica de banda desenhada. A obra-prima do Mestre Italiano finalmente disponível em Portugal!


10  –  O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio, regressa a Tottori, a sua terra natal, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que leva a evocar a infância e a perceber finalmente o motivo por que o seu pai abandonou a família. Um relato intimista e comovente, com laivos de autobiografia, contado com grande beleza e extrema sensibilidade pelo mais europeu dos desenhadores japoneses, Jiro Taniguchi.

11  –  Mort Cinder
06 de Maio
Argumento – Hector Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia
A vida pacata do antiquário Ezra Wiston vai sofrer uma alteração radical quando conhece Mort Cinder, o vagabundo do tempo, homem de mil e uma vidas e outras tantas mortes. Juntos vivem aventuras em que o ambiente fantástico não esconde uma visão profundamente humana do mundo.
Ponto mais alto da colaboração entre os dois geniais criadores argentinos, Mort Cinder é justamente considerado como uma obra-prima e um livro absolutamente incontornável, que surge primeira vez em Portugal numa edição integral.

12  –  Bando de Dois
07 de Maio
Argumento e Desenhos – Danilo Beyruth
Tinhoso e Caveira de Boi, "os dois últimos sobreviventes de um bando de vinte cangaceiros partem em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, preparados para enfrentar um exército. Cada um com os seus motivos. O brasileiro Danilo Beiruth cria em O Bando de Dois um verdadeiro Western Spaguetti em papel, que conquistou a crítica e os leitores brasileiros aquando da sua publicação, em 2010.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/02/2015

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Regresso de Bouncer


Género cinematográfico americano por excelência, o Western é um bom exemplo da capacidade de Hollywood em exportar com sucesso o sonho americano. Apesar de ter como ponto de partida a realidade concreta dos EUA durante o século XIX, o Western eleva essa realidade a uma categoria arquétipica, facilmente reconhecível em qualquer parte do mundo. Mais do que a história do Oeste americano, o Western codifica a sua lenda, uma lenda que se revela ainda mais atraente para aqueles que nunca puseram os pés naqueles espaços míticos. O que explica a fortuna do género na BD europeia, com um sucesso que já deu origem a algumas das melhores séries de Western, de Blueberry a Comanche, passando por Jerry Spring, Buddy Longway, Durango ou Jonathan Cartland, já para não falar na verdadeira instituição que é o italiano Tex.
Mas o mais recente (e dos mais interessantes) western europeu é a série Bouncer de Boucq e Jodorowsky, de que a Asa acaba de editar num volume duplo, o 6º e 7º álbum da série, “apanhando” assim a edição original francesa. Incursão conjunta de Boucq e Jodorowsky pelo Oeste selvagem, “Bouncer é apresentado como um “Western Shakespeariano, com um toque de Tragédia Grega” pelo próprio Jodorowsky (que já abordou o género num filme muito pouco convencional, “El Topo”) onde não faltam as obsessões habituais na obra do argumentista do Incal, como as mutilações, a família e a religião, elementos que estão bem presentes nesta série extremamente violenta e povoada de personagens bizarras.
Apesar de Jodorowsky assinar em Bouncer alguns dos seus argumentos mais equilibrados e conseguidos, o melhor de “Bouncer” é mesmo o desenho de Boucq, verdadeiramente sumptuoso no tratamento dos cenários míticos do Monument Valley. Notável desenhador e narrador, Boucq cria aqui um fabuloso western de papel, filmado em “cinemascope”, com as vinhetas sobre o comprido a substituírem com vantagem o ecrã de 70 milímetros. Nesta última história, que a Asa recolhe num duplo álbum de mais de 120 páginas, Bouncer vê-se envolvido com duas mulheres, uma discreta professora e uma poderosa viúva que não recua perante para conseguir as terras que pretende, para acabar por concluir que as coisas raramente são o que parecem e que há mulheres verdadeiramente perigosas, até para elas próprias. Duas mulheres que se odeiam e se completam e que são personagens fulcrais de uma intriga cheia de violência e erotismo, onde não faltam figuras bizarras, como Axe-Head e a sua “adorável” prole.
Mais um belo ciclo, à altura dos pergaminhos desta série, absolutamente a não perder (“Bouncer Vol 6: A Viúva Negra e Vol. 7: Coração Dividido”, de Boucq e Jodorowsky, Asa, 128 pags)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 13/07/2012

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bórgia: o fim de um Império


Com a publicação de “Tudo é Vaidade”, 4º volume da série “Bórgia”, chega ao fim a viagem de Jodorowsky pela história de uma das mais importantes famílias do Renascimento Italiano, os Bórgia, cujos métodos de actuação fizeram dela uma Máfia “avant la lettre”. Resta agora esperar que a Asa, que editou estes dois últimos álbuns numa boa cadência, reedite agora o 1º volume, entretanto esgotado.
Depois da ascensão, narrada nos três álbuns anteriores, Este "Tudo é Vaidade" incide mais na queda da família Bórgia, cujo poder passará para as mãos do Cardeal Giulliano Della Rovere, futuro Papa Júlio II, cujo papado está a ser objecto de outra série de Jodorowsky, “Le Pape Terrible”, com desenhos de Theo.
Com Lucrécia mais em segundo plano, este último álbum centra-se sobretudo nas relações conturbadas entre Rodrigo, o papa Alexandre VI e o seu filho César, que serviu de modelo a Maquiavel para o famoso tratado “O Príncipe”. Misturando História e lenda, numa intriga com uma base histórica, mas muito ficcionada, protagonizada por personagens reais, como os Bórgia, Maquiavel, Savonarola e Leonardo Da Vinci, Jodorowsky cria um conto moral sobre a corrupção do poder e os meandros da religião e da política na Itália do século XVI, em que tudo era permitido.
A morte de Lucrécia, quase no início do livro, devido a problemas durante uma gravidez, é um de vários exemplos em como Jodorowsky manipula a cronologia e a realidade histórica por necessidades da intriga, pois na realidade Lucrécia morreu em 1519, enquanto o seu pai, Rodrigo Bórgia, tinha falecido em 1503.
Não poupando detalhes em termos de violência e devassidão, a história escrita por Jodorowsky não é, decididamente, para estômagos delicados, mas a elegância e o rigor do traço sensual de Manara, que não se poupa a pormenores nas cenas de conjunto e consegue equilibrar bem o erotismo e o “gore”, ajudam a tornar não só suportável, mas até atraente uma história que, vista friamente, é de puro horror.
Lidos em sequência, estes quatro álbuns formam um políptico fascinante da ascensão e queda da família Bórgia, embora se note um nítido acelerar da narrativa na parte final da história, contada através de um longo flash-back. Apesar dos seus excessos e desequilíbrios, a série “Bórgia” está entre os melhores trabalhos dos seus autores, muito por via do trabalho superlativo de Milo Manara, que não esconde o grande prazer que sente ao desenhar a Itália do Renascimento.
(“Bórgia Vol 4: Tudo é Vaidade”, de Manara e Jodorowsky, Edições Asa, 48 pags, 16,20 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 2 de Abril de 2011

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Regresso de Bouncer


Cinco longos anos após a publicação do 4º volume, eis que a Asa lança finalmente em português “O Fascínio das Lobas”, o 5º volume da série “Bouncer”, sossegando todos aqueles que já pensavam que esta era mais uma daquelas séries que a editora do Grupo Leya tinha deixado ficar pelo caminho.
Primeira incursão conjunta de Boucq e Jodorowsky pelo Oeste selvagem, depois da saga mística de “Face de Lua”, “Bouncer é apresentado como um western clássico, pelo próprio Jodorowsky (que já abordou o género num filme muito pouco convencional, “El Topo”). Mas, se o compararmos com outros westerns da BD europeia, como “Blueberry, ou “Comanche”, “Bouncer” apenas pode ser considerado “clássico” em termos da obra de Jodorowsky, pois embora os elementos fantásticos sejam relativamente discretos, as obsessões habituais na obra do argumentista do Incal, como as mutilações, a família e a religião, estão bem presentes nesta série extremamente violenta e povoada de personagens bizarras.
Mas, apesar de Jodorowsky assinar aqui um dos seus argumentos mais conseguidos, o melhor de “Bouncer” é mesmo o desenho de Boucq, verdadeiramente sumptuoso no tratamento dos cenários míticos do Monument Valley. Notável desenhador e narrador, Boucq cria aqui um fabuloso western de papel, filmado em “cinemascope”, com as vinhetas sobre o comprido a substituírem com vantagem o ecrã de 70 milímetros.
Saga que prova que Jodorowsky é capaz de conciliar o seu universo pessoal com os cânones do Western, numa história que Boucq desenha com notável virtuosismo, “Bouncer prossegue as suas aventuras com este “O Fascínio das Lobas” álbum que conclui a história iniciada em “A Vingança da Serpente”. Apesar de personagens carismáticas como os assassinos mexicanos, Jeovah, Angel e Christian Villalobos, os três anjos da morte, são as mulheres que dominam esta história, o que é evidente logo na capa do livro. Mulheres tão diferentes como a submissa Yin Li, a impiedosa Mara Mars e Antoine Grant, a mulher com nome de homem que vem substituir o Bouncer como carrasco de Barro-City e com quem o pistoleiro maneta se vai envolver.
Ainda que Jodorowsky resolva de forma algo preguiçosa, com a última confissão de um moribundo, a intriga policial que andou a construir nos últimos dois álbuns, os elementos surreais e a dimensão shakespereana que fazem de “Bouncer” um Western diferente dos outros, estão lá todos. Tal como está o traço virtuoso de Boucq, o único desenhador europeu capaz de fazer sombra a Moebius.
Numa altura em que a série já tem 7 volumes publicados em França, esperemos que a Asa não nos faça aguardar tanto tempo pelo próximo volume…
(“Bouncer 5: O Fascínio das Lobas”, de Boucq e Jodorowsky, Edições Asa, 64 pags, 14,10 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 24/7/2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

Bórgia 2: O Poder e o Incesto


Chega finalmente às livrarias portuguesas o 2º volume da série “Borgia”, título que reúne o argumentista Alejandro Jodorowsky com o desenhador Milo Manara, numa viagem pela história da mais poderosa família italiana do Renascimento. Um encontro entre o criador chileno e o desenhador italiano que, mais do que uma grande jogada de marketing por parte da editora, que assim reúne um “dream team” de respeito, era tudo o indica, só uma questão de tempo, pois um dos projectos de filme nunca concretizado que Jodorowsky alimentou durante mais tempo foi a adaptação ao cinema de “Viagem a Tulum”, uma BD de Manara escrita por Federico Fellini, em que Jodorowsky e Moebius aparecem como protagonistas.
A fama da família Bórgia é justificada pela importância histórica dos seus membros e pelo papel capital que desempenharam na Itália do Século XVI. Para além de Rodrigo Bórgia, que chegou a Papa, com o nome de Alexandre VI (foi durante o seu Papado que foi assinado o Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha), também o seu filho César, para além de ter sido um dos mecenas de Leonardo Da Vinci, ficou na História pela sua governação exemplar, que lhe valeu ter servido de modelo a Maquiavel para o seu famoso “O Príncipe”.
Isto para já não falar da irmã, a bela Lucrécia Bórgia, cuja fama de assassina implacável, perita no uso dos venenos, se deve muito mais à versão romanceada que Victor Hugo dela apresentou numa peça escrita no século XIX, do que a dados históricos concretos. Mas é o lado mais sombrio dos Bórgia, a forma implacável como souberam alimentar a sua sede de luxúria e poder, que tem inspirado os escritores, de Victor Hugo e Alexandre Dumas, até Mário Puzo e Jodorowsky.
Tal como Mário Puzo (autor de “O Padrinho”) que apresentou os Bórgia como a primeira família mafiosa, no último romance que escreveu, publicado após a sua morte, Jodorowsky também se centra nas intrigas palacianas, traçando um retrato nada lisonjeiro dos príncipes do Renascimento e dos seus jogos de poder. Um retrato da Igreja que prossegue na série "Le Pape Terible", desenhada por Theo e que tem como protagonista o Papa Júlio II, rival e inimigo de Rodrigo Bórgia e, de acordo com Jodorowsky, responsável pela morte deste. Depois de um primeiro volume dedicado às movimentações de bastidores que conduziram à eleição de Rodrigo Bórgia como Papa, este segundo tomo tem Lucrécia Borgia como protagonista, mostrando a sua relação incestuosa com o irmão César, incentivada pelo próprio pai por motivos políticos e o seu casamento de conveniência com Giovanni Sforza.
O argumento de Jodorowsky não é aconselhável a espíritos mais sensíveis, pois há esquartejamentos, tortura, orgias várias, famílias inteiras mortas e um homem devorado por cães. Já Milo Manara, que se supera no rigor da reconstituição histórica (veja-se a imagem do Duomo de Florença na profecia de Savonarola) e no trabalho de cor, consegue dar alguma elegância às cenas de grande violência e crueldade e mantém-se igual a si próprio no erotismo e na sensualidade das suas mulheres ideais, mas tremendamente carnais.
Quando escrevi sobre o primeiro volume da série, terminei o meu texto assim: “e agora, resta-nos esperar que o 2º volume, que já saiu em França, não tarde muito a chegar a Portugal…”. Quatro anos depois, eis que a Asa lança finalmente o 2º volume. Façamos votos para que não seja necessário esperar mais quatro anos pela publicação do 3º volume …
(“Bórgia 2: O Poder e o Incesto”, de Alejandro Jodorowsky e Milo Manara, Edições Asa, 54 pags, 16,00 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 10/04/2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O cinema de Jodorowsky


Conhecido em Portugal essencialmente pelo seu trabalho na série de Banda Desenhada, O Incal, ilustrada por Moebius, e em todo o universo que dela emanou (como A Casta dos Metabarões), ou por Bouncer, o western que criou com François Boucq, Alejandro Jodorowsky é muito mais do que um mero argumentista de Banda Desenhada. Considerado como um guru por personalidades do mundo da música tão diferentes como John Lennon e Yoko Ono, que ajudaram a financiar os seus filmes El Topo e La Montaña Sagrada e Marilyn Manson, que cita abertamente La Montaña Sagrada no vídeo de The Dope Show e a quem Jodorowsky casou em 2005 com a modelo Dita Von Teese, em nome dos Quatro Elementos, Jodorowsky revela-se uma personagem tão ou mais fascinante do que a sua própria obra, a qual reflecte as suas vivências e crenças místicas.
Verdadeiro homem do Renascimento, este filho de judeus emigrantes russos, nascido no Chile em 1929, foi actor, mimo (discípulo de Etienne Decroux, que foi também mestre de Marcel Marceau, com quem Jodorowsky colaborou em diversos espectáculos), tarólogo de renome, responsável, com Philipe Camoin pela restauração do Tarot de Marselha, criador de uma nova técnica terapêutica chamada psicomagia, poeta, escritor, dramaturgo, encenador, fundador do grupo surrealista Panique (com Fernando Arrabal e Roland Topor) e realizador de cinema.

É precisamente a faceta de Jodorowsky enquanto realizador de cinema que esteve em destaque na edição do Imago de 2006, através de três dos seus filmes mais importantes: Fando e Lis, a controversa versão cinematográfica de uma peça de Arrabal encenada por Jodorowsky para o grupo Panique; El Topo, um western spaguetti surreal que inaugurou o conceito de filme de culto, e Santa Sangre, um drama policial com toques de fantástico, sobre a peculiar relação entre um jovem, interpretado por um dos filhos de Jodorowsky, e a sua mãe, sacerdotisa da igreja de Santa Sangre, num México dominado pela religião.
Fando e Lis é precisamente um bom exemplo dos métodos de trabalho de Jodorowsky, que realizou o filme tendo por base um guião de apenas uma página e as memórias da encenação que tinha feito da peça para o grupo Panique. Conforme ele refere no seu manifesto sobre “Como Fazer Cinema”, o filme deve viver dentro de nós. Por isso, o conselho que ele dá aos aspirantes a cineastas é que “nunca trabalhes no papel os teus movimentos da câmara. Chega aos sítios a pensar que não vais mexer a câmara, que não vais iluminar, que não vais inventar. Chega vazio, sem a menor intenção. Liga o motor da câmara e vive. Não cries cenas, cria incidentes”.

Interpretado e realizado por Jodorowsky, e exibido diariamente durante mais de 6 meses na sessão da meia-noite do cinema Elgin em Nova Iorque, El Topo é o protótipo do filme de culto. Um western carregado de simbolismo e de personagens estranhas, que relata o percurso iniciático de um pistoleiro (o proprio Jodorowsky) que percorre o deserto acompanhado pelo filho (papel interpretado por Brontis, um dos filhos de Jodorowsky), em mais um exemplo das relações complexas entre pai e filho, habituais na obra de Jodorowsky, que sempre teve uma relação complicada com o próprio pai, conforme descreve no livro autobiográfico, A Dança da Realidade.
Produzido por Cláudio argento, irmão de Dário Argento, Santa Sangre é o mais linear dos filmes de Jodorowsky, em termos de narrativa, embora as imagens tenham a carga fantástica e surreal esperada. Uma espécie de giallo (o sanguinolento filme policial italiano, em que um assassino mata as suas vítimas de forma bastante sádica) mas adaptado ao universo de Jodorowsky, em que elementos como a religião e as mutilações têm grande peso. Ambientado em grande parte num circo, com o inevitável cortejo de freaks que seria de esperar, Santa Sangre tem como actores três dos filhos de Jodorowsky, Axel, Adan e Théo.

Nunca exibido em Portugal (pelo menos, que eu saiba) La Montaña Sagrada, que narra a história de um grupo de indivíduos, guiados por um alquimista (o próprio Jodorowsky) que se reúnem no cimo de uma montanha para procurarem o segredo da imortalidade, é o filme de Jodorowsky com uma carga simbólica mais evidente e uma estrutura narrativa mais débil, mas também o mais impressionante em termos visuais.
Embora, como seria de esperar, nenhum dos seus filmes esteja disponível em DVD em Portugal, aqui ao lado em Espanha, foi lançada uma caixa com as versões restauradas de Fando e Lis, El Topo e La Montaña Sagrada, que inclui também La Constelacion Jodorowsky, um interessante documentário sobre o realizador, com depoimentos de Moebius e Peter Gabriel, entre outros. Também Santa Sangre está editado em DVD em Espanha e todos estes filmes podem ser encomendados on-line , a preços bastante acessíveis, a partir de aqui.
O cineasta, que declarou numa entrevista que procurava no cinema “aquilo que a maioria dos americanos procuram nas drogas psicadélicas”, tem também uma forma peculiar de trabalhar com os desenhadores que ilustram os seus argumentos de BD. São famosas as sessões com Moebius durante a criação do Incal, com Jodorowsky a representar e a mimar todas as personagens, saltando para cima da mesa e derrubando cadeiras enquanto conta a história, de que Moebius vai tomando notas para depois desenhar, ou as cassetes áudio que mandava a Arno, descrevendo a saga de Aleph Tau.
Senhor de um universo tão fortemente pessoal, como coerente nas suas obsessões (o simbolismo religioso, as mutilações, a dimensão freudiana das relações entre pais e filhos), o trabalho de Jodorowsky na Banda Desenhada é extremamente coerente com a sua actividade como cineasta, com a BD a revelar-se como a forma ideal do criador chileno de fazer chegar ao grande público as histórias que quer contar e que não conseguiu meios para o fazer no cinema.
Um bom exemplo é o projecto nunca concretizado de Alejandro Jodorowsky para a adaptação de Dune, a saga de ficção científica de Frank Herbert, ao cinema. Um projecto megalómano, com 14 horas previstas de duração, contando com Salvador Dali e Orson Welles como actores, música dos Pink Floyd e Moebius e Giger como conselheiros visuais. Foi o falhanço deste projecto, que nunca passou da fase de pré-produção por problemas de financiamento, que lhe permitiu iniciar uma colaboração em 1975 com a Moebius, na série O Incal. Obra que, conforme o próprio Jodorowsky refere: “representa tudo o que eu não consegui fazer em Dune. Há bocados inteiros do filme que foram inventados por mim. Eles estão todos no Incal.”
Apesar de alguns rumores cíclicos sobre o seu regresso ao cinema, dirigindo uma nova versão de El Topo, produzida e interpretada por Marilyn Manson, ou com o filme Kingshot, definido pelo próprio como “um filme de gangsters spaguetti metafísico”, a verdade é que desde 1990, ano em que realizou The Raibow Warrior, que a carreira de realizador de Jodorowsky está suspensa. E é, já não no ecrã, mas no papel, que ele voltou ao Western com François Boucq em Bouncer, à ficção científica com Juan Gimenez e Fred Beltran e ao drama histórico com Milo Manara, em Borgia.
E o encontro entre o criador chileno e o desenhador italiano era só uma questão de tempo, pois um dos projectos de filme nunca concretizado que Jodorowsky alimentou durante mais tempo foi a adaptação ao cinema de Viagem a Tulum, uma BD de Manara escrita por Federico Fellini, em que Jodorowsky e Moebius aparecem como protagonistas. Mais uma vez, foi Manara, que já tinha transposto para a BD A Viagem de G. Mastorna, o filme que Fellini nunca chegou a realizar, a dar vida nas páginas da Banda Desenhada a uma história que Jodorowsky nunca teria os meios económicos nem a liberdade para concretizar no cinema.
Versão bastante alargada e actualizada de um texto publicado originalmente em Outubro de 2006, no catálogo do Festival de cinema Imago, que dedicou um ciclo a Jodorowsky, no ano em que teve a Banda Desenhada como tema de destaque e que, depois de Jodorowsky ter estado em destaque neste blog, me pareceu interessante e oportuno recuperar.
As ilustrações para os cartazes de El topo e Santa Sangre, bem como o estudo para Dune, são da autoria de Moebius.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jodorowsky explora o filão do Incal - Parte II


Depois de na passada semana ter analisado o 1º volume de “O Incal Final”, chegou agora a vez de “As Armas do Metabarão, o segundo dos títulos lançados recentemente pela Vitamina BD, em que Jodorowsky continua a explorar o universo que criou com Moebius para a série “O Incal”.
Pegando no carismático Metabarão, o guerreiro supremo, personagem nascido nas páginas do “Incal”, a “Casta dos Metabarões” explora a genealogia do personagem fazendo-o o último descendente de uma casta de indomáveis guerreiros. Nascia assim uma série directamente inspirada na tragédia grega e que encontrou no traço hiper-realista do argentino Juan Gimenez a tradução ideal para uma história que, por oposição à ficção científica luminosa e espiritual de Moebius no “Incal”, gira à volta do choque entre o metal e a carne, num universo em que as máquinas muito sofisticadas de alta tecnologia convivem com trajes inspirados na Idade Média e na Renascença, num mundo em que a arte e a cultura japonesas têm muito peso, pois o Metabarão tem evidentes afinidades, estéticas e culturais, com os Samurais.
Esta saga de contornos épicos, que já tinha dado origem a uma prequela, “Castaka”, desenhada pelo galego Das Pastoras, prolonga-se neste “As Armas do Metabarão”, cujo principal motivo de atracção residia em ver como o desenho de Travis Charest recriava os personagens de Jodorowsky. Este talentoso desenhador canadiano com uma carreira construida no mercado dos comics americanos, para onde desenhou a série WildCATS e fez capas para várias editoras, viu no convite da editora Humanoides Associés, feito em 2000, para desenhar e pintar a história escrita por Jodorowsky uma oportunidade de desenvolver o seu estilo, sem os constrangimentos de prazos habituais no mercado americano, que o tinham levado a desistir da série mensal WildCATS.
Numa entrevista feita em 2001, quando já estava a trabalhar na história, Charest declarou: "nunca estive tão nervoso com um projecto, como agora. É a primeira vez que pinto e desenho uma novela gráfica sozinho e também nunca estive envolvido com uma personagem tão importante. Para ser sincero, às vezes penso se sei no que me estou a meter. Acho que podem acontecer duas coisas com este livro, ser um grande sucesso e a melhor coisa que já fiz, ou não conseguir acabá-lo e cair lentamente no esquecimento..."
E, apesar de as primeiras imagens serem prometedoras, desde a capa que desenhou para o livro de regras do Role Playing Game dos Metabarões, até "Metabaron: Alpha et Omega", a história curta que desenhou para a revista "Metal Hurlant", que saiu também no nº 1 da edição portuguesa da Devir, infelizmente para Charest, acabou por acontecer a segunda coisa que ele previu e, depois de só ter desenhado 30 páginas em 7 anos, acabou naturalmente por ser substituído por Zoran Janjetov, que já tinha trabalhado com Jodorowsky nas séries "Avant L'Incal" e "Les Technopéres", que desenhou as 22 páginas que faltavam.
Além de se resentir em termos gráficos da mudança, pois Janjetov, sendo um desenhador competente, não chega aos calcanhares de Charest em termos de desenho, trabalho de cor e sobretudo planificação (já para não falar da forma perculiar como Janjetov desenha as sobrancelhas do Metabarão, que mais parecem umas antenas…) também a história se ressente da mudança. Pensada originalmente com uma história de 52 páginas, com o título "Dreamshifters", que não incluía a história curta desenhada por Charest para a "Metal Hurlant", a necessidade de aproveitar todo o material desenhado por Charest, levou Jodorowsky a reescrever a história, acrescentando uma sequência inicial de quatro páginas desenhada por Janjetov, que serve de enquadramento à história curta feita para a "Metal Hurlant". O problema é que assim, sobraram apenas 40 páginas para contar uma história prevista para 52, o que naturalmente implicou uma aceleração na parte final, com prejuízos evidentes em termos da fluidez da narrativa. Resta o prazer (fugaz e cada vez mais raro) de apreciar o espectacular trabalho gráfico de Travis Charest.
“As Armas do Metabarão”, de Jodorowsky, Charest e Janjetov, Vitamina BD, 62 pags, 14,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 6/02/2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Jodorowsky explora o filão do Incal - Parte I


Depois de “Castaka” e a “Casta dos Metabarões”, a Vitamina BD acaba de editar mais dois álbuns que exploram o universo criado por Moebius e Jodorowsky na série “O Incal”, verdadeiro mito fundador do Universo em BD de Jodorowsky, que o argumentista chileno tem explorado das mais diversas formas, com diferentes desenhadores. Esses álbuns são “Os Quatro John Difool”, primeiro volume da série “Incal Final”, com desenhos do mexicano José Ladronn e “As Armas do Metabarão”, um álbum isolado ambientado no universo da série “A Casta dos Metabarões”, com desenhos de Travis Charest e Zoran Janjetov, de que falarei na próxima semana.
Conhecido em Portugal essencialmente pelo seu trabalho como argumentista de Banda Desenhada, Alejandro Jodorowsky é muito mais do que isso. Verdadeiro homem do Renascimento, este filho de judeus emigrantes russos, nascido no Chile em 1929, foi actor, mimo (discípulo de Marcel Marceau), tarólogo de renome, responsável com Philipe Camoin pela restauração do Tarot de Marselha, criador de uma nova técnica terapêutica chamada psicomagia, poeta, escritor, dramaturgo, encenador, fundador do grupo surrealista Panique (com Fernando Arrabal e Roland Topor) e realizador de cinema, que encontrou na BD a forma ideal de fazer chegar ao grande público as histórias que quer contar e que não conseguiu meios para o fazer no cinema.
Foi precisamente o falhanço da adaptação ao cinema do romance “Dune”, de Frank Herbert, que em 1975 lhe permitiu iniciar uma colaboração com a Moebius, na série O Incal. Obra que, conforme o próprio Jodorowsky refere: “representa tudo o que eu não consegui fazer em Dune. Há bocados inteiros do filme que foram inventados por mim. Eles estão todos no Incal.”
Depois dos 6 álbuns da série principal, desenhada por Moebius, a exploração do Universo do Incal continuou em várias direcções, com a prequela “Avant L’Incal” (Antes do Incal), desenhada por Zoran Janjetov, num estilo bastante colado ao de Moebius e com as séries paralelas “Les Technopéres” e “A Casta dos Metabarões”, que por sua vez deu origem à prequela “Castaka”, desenhada por Das Pastoras e a “As Armas do Metabarão”.
Em 2000, Jodorowsky lançou com Moebius a série “Aprés do Incal”, (prevista para 6 volumes, tal como os ciclos de “Incal” e “Antes do Incal”) que fecharia a trilogia dedicada ao Incal, mas que não passou do 1º volume, face à desistência de Moebius, o que levou Jodorowsky a repensar o projecto e a encontrar um desenhador que estivesse a altura de substituir Moebius. O artista que reuniu o consenso dos dois criadores foi o mexicano José Ladronn, que os leitores portugueses já conhecem da mini-série dos Inumanos publicada pela Devir em 2005 e que, para além de ter colaborado com Jodorowsky numa história curta publicada na última série da revista “Metal Hurlant”, já tinha desenhado as personagens da série “O Incal” nas capas que fez para a edição americana de “Avant L’Incal”.

E não há grandes dúvidas que a escolha não podia ser mais acertada. Basta reparar no pormenor que Ladronn põe em cada desenho e no seu excelente trabalho de cor, felizmente longe do colorido metálico usado na nova coloração do “Incal” e no “Depois do Incal”, desenhado por um Moebius pouco motivado e claramente em “piloto automático”.
Em termos de história ainda é cedo para saber o que nos vai trazer este “Incal Final”, que pouca coisa aproveita do argumento do descartado “Depois do Incal”, até porque Jodorowsky já declarou, numa entrevista à revista “Casemate, que o ciclo do “Incal Final” será composto por 6 álbuns, tal como os ciclos anteriores, ao contrário dos 2 volumes anunciados pela editora… Já quanto ao desenho, este novo ciclo está uns bons furos acima de “Avant L’Incal”, graças ao excelente trabalho de Ladronn, artista talentoso que faz uma interessante síntese entre os estilo mais “linha clara” usado por Moebius no “Incal” e o traço barroco de Juan Giménez, conseguindo criar algo novo e personalizado.
“Incal Final 1: Os Quatro John Difool”, de Jodorowsky e Ladronn, Vitamina BD, 64 pags, 14,50 €)
Texto originalmente publicado no Diário As Beiras de 30/01/2010