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sexta-feira, 21 de junho de 2019

À Descoberta de Richard Corben

À DESCOBERTA DE RICHARD CORBEN

Vencedor do Grande Prémio de Angoulême, o mais importante Festival europeu de Banda Desenhada, em 2018, o americano Richard Vance Corben é um nome relativamente pouco conhecido em Portugal, lacuna que este artigo pretende ajudar a corrigir.
Nascido em Anderson, Missouri, em 1940, Corben fez a sua formação em Belas Artes no Kansas City Art Institute, onde se formou em 1965. Aí entrou em contacto com a cultura underground, e apesar de fazer BD desde a infância, foi na animação que começou a sua actividade profissional, depois de uma curta-metragem que realizou, ter chamado a atenção da agência de publicidade Calvin, que o contratou em 1965. Durante os nove anos que trabalhou na Calvin, assegurando diferentes aspectos da parte gráfica, desde ilustração de cartazes, storyboards e animações, Corben aproveitou o material da empresa para criar, durante os seus tempos livres, um filme chamado Neverwhere, misturando imagem real e animação, onde surge pela primeira vez Den, a sua personagem-fetiche, que irá recuperar para a BD. Este filme, que em 1968 lhe valeu um prémio da Japan Cultural Society, acabou por ser o seu último, pois nesta altura decidiu trocar a animação pela BD, fascinado com a liberdade permitida pelos Comics Underground, onde brilhavam nomes como Robert Crumb. Para além de publicar em diversos fanzines de outros editores, Corben decide auto-editar as suas próprias histórias na revista Fantagor, título que dará o nome à sua própria editora. Apesar da edição do Comic Underground ter entrado em crise em 1975, Corben foi ainda assim o desenhador Underground mais publicado, com cerca de 400 páginas produzidas entre 1970 e 1975, algumas delas assinadas com os pseudónimos Corbou e Gore, com destaque para títulos como Rowlf, ou The Beast of Wolfton, em que o seu fascínio por lobisomens e animais antropomorfizados, para além dos homens musculados e das mulheres com grandes mamas, é bem evidente.
É nessa altura que Corben publica aquela que foi uma das primeiras Novelas Gráficas de sempre. Bloodstar, uma adaptação de um romance de Robert E. Howard, o criador de Conan, publicada em 1976 pela editora Morning Star Press. Misturando de forma judiciosa o texto de Howard com as suas espectaculares imagens, Corben cria uma excelente adaptação, marcada pela tridimensionalidade e sensualidade das personagens e pela representação crua da violência. Infelizmente, por divergências com o editor, que lhe ficou com os originais, o que impede qualquer reedição, este é um trabalho quase desconhecido da maioria dos leitores, que foi editado pela última vez na Europa em meados dos anos 80.
Felizmente, o mesmo não sucedeu com os seus trabalhos para a editora Warren, editora especializada em revistas de terror, que prosseguiu a herança da EC comics, a mítica editora que formou leitores como Bernie Wrightson e o próprio Richard Corben. Entre 1970 e 1979, num espaço de pouco mais de oito anos, Corben ilustrou quarenta histórias para as revistas Eerie, Creepy, e Vampirella, da Warren Publishing, para além de mais de uma dezena de capas. Histórias de terror, escritas por escritores como Bruce Jones e Jan Strnad, com quem Corben colaborou desde os seus tempos dos comics underground, mas que incluem também adaptações de H. P. Lovecraft e sobretudo, de Edgar Alan Poe, autores a que, como veremos, Corben regressará por diversas vezes ao longo da sua carreira.
Para além da oportunidade de publicar ao lado de grandes desenhadores como Frank Frazetta, All Williamson, ou Bernie Wrightson, as revistas da Warren permitiram a Corben introduzir a cor no seu trabalho. Impressas num papel quase de jornal, estas publicações não possibilitavam uma boa reprodução da cor, mas Corben resolveu o problema criando o seu próprio sistema de coloração, em que fazia manualmente a separação das cores em quatro chapas, cuja sobreposição dava origem à cor final. Um sistema demorado e trabalhoso, mas com resultados tão espectaculares como surpreendentes, que conquistou imediatamente os leitores, mas sobretudo os outros desenhadores.
Entre esses desenhadores, estava o francês Jean Giraud, mais conhecido por Moebius, que não foi parco nos elogios, escrevendo: “lembro-me, eu e os meus companheiros da geração do Maio de 68, do choque que todos tivemos quando a primeira prancha de Richard Corben nos apareceu literalmente diante dos olhos… Richard “Mozart” Corben, pisou no meio de nós como um obelisco extraterrestre… ele reina desde há muito tempo sobre o campo movimentado e colorido da BD planetária como a estátua do conquistador, monólito estranho, visitante sublime, enigma solitário… Além disso, adoro as heroínas de BD dotadas de grandes mamas.”
Daí que, quando em 1975, Moebius, juntamente com Druillet, Jean-Pierre Dionet e Bernard Farkas criam a editora Humanoides Associés e a revista Metal Hurlant, Corben é o único autor estrangeiro a estar presente na revista desde o nº 1, primeiro com histórias do seu período Underground e, a partir do nº3, com Den, história que se tornará um dos marcos da Metal Hurlant, estando naturalmente presente no filme de animação Heavy Metal, que adapta algumas das histórias mais emblemáticas da revista, com Corben a colaborar com o animador Jack Stokes nessa sequência do filme.
Contando a história de um rapaz que vai parar a um mundo desconhecido, Neverwhere, onde se vê no corpo - que não era o dele - de um guerreiro musculado e careca, que deambula nu por um mundo desértico, povoado por estranhas e agressivas criaturas e mulheres voluptuosas, Den é o símbolo perfeito da obra de Corben, com um estilo único e um tratamento de cor que dão um tridimensionalidade às personagens, que parecem esculpidas, o que não anda longe da verdade, pois o desenhador realiza esculturas em plasticina das principais personagens, para as poder representar melhor de qualquer ângulo e com qualquer luz. Mas melhor do que eu, o crítico espanhol Manuel Garcia Quintana, define assim o estilo de Corben: ”as figuras de Corben parecem desproporcionadas, grotescas e até infantis. Mas examinando-as de forma atenta, vemos que não é assim, que há uma assombrosa proporção entre todos os elementos manejados por Corben, que a desenvoltura de que faz gala converte num dos desenhadores mais prestigiados de sempre. Para além de tudo isto, Corben tem uma imaginação transbordante para construir ambientes e situações.”
Para além das obras publicadas em França na Metal Hurlant, nos EUA pela Heavy Metal,  em Espanha pela editora Toutain, e que o próprio Corben editou em livro nos E.U.A. na sua editora Fantagor, o estilo inconfundível de Corben começa a surgir em outros sítios, como na capa do disco Bat out of Hell, de Meat Loaf, ou no cartaz do filme Phantom of the Paradise, de Brian de Palma. E nesse tipo de imagem, tal como nas capas dos seus livros e nas ilustrações que fazia para revistas, é possível ver uma mistura de técnicas que vão desde a utilização da pintura a acrílico e a óleo e aerógrafo para os fundos, com resultados espectaculares.
Depois de um período de grande sucesso, evidente em livros como as continuações de Den, a versão das Mil e Uma Noites, com argumento de Jan Strnad, Jeremy Brood, e Mutant World, que dura toda a década de 80, as coisas começam a mudar nos anos 90 e em 1994 Corben é obrigado a fechar a sua editora Fantagor e vê-se numa situação financeira complicada, de que irá sair graças à venda das suas pranchas originais e através da colaboração com as grandes editoras como a DC e a Marvel. Tudo começa em 1996 com a série Batman Black & White, editada por Mark Chiarello, que contrata Corben e Strnad para escreverem uma história do Batman, que provavelmente quando este número da Bang! tiver chegado às lojas FNAC já terá saído em português pela Levoir na Colecção dedicada aos 80 anos do Batman.
Segue-se uma colaboração com Brian Azzarello na série Hellblazer, também já publicada em Portugal pela Levoir, continuada quando o editor Axel Alonso – que tinha juntado Corben e Azzarello em Hellblazer - troca a Vertigo pela Marvel,  volta a juntar a dupla nas mini-séries Banner e Cage, ambas já publicadas em Portugal. Também para a Marvel, Corben ilustra Punisher: The End, com argumento de Garth Ennis, mas os seus grandes projectos para a “Casa das Ideias” foram os dois volumes da série Haunt of Horror, onde volta aos seus escritores de referência, Lovecraft e Poe.
No caso de Poe, Corben cria novas versões de contos que já tinha ilustrado anteriormente, como é o caso de The Raven, optando desta vez por uma adaptação menos literal. Como o próprio refere: “gostei de adaptar os contos de Poe para as revistas da Warren, mas tenho um lado demasiado esquizofrénico. Parte de mim quer fazer uma adaptação tão fiel quanto possível ao texto original. Outra parte de mim quer descolar do texto, partindo da ideia inicial para criar uma coisa mais pessoal.”
Outra vertente do trabalho mais recente de Corben, é a sua colaboração com Mike Mignola na série Hellboy, em que ilustra mais de uma dezena de histórias do herói criado por Mignola, a partir de argumentos deste. E, como podemos ver por um original do Hellboy de Corben, aqui reproduzido, os dois mundos fundem-se de forma harmoniosa. O jogo de sombras e a própria figura do Hellboy estão próximos do desenho de Mignola, enquanto que os cenários, os monstros e a vegetação, são puro Corben.
Para além de Hellboy, Corben tem publicado recentemente outros títulos na Dark Horse, como a mini-série Rat God, Spirits of the Dead, outra revisitação da obra de Poe, que inclui uma terceira versão de The Raven, com cores digitais do próximo Corben e da sua filha Beth Corben Reed, e Ragemoor, mantendo-se bastante activo apesar de estar cada vez mais perto dos 80 anos.
Indivíduo bastante reservado, que raramente dá entrevistas, nem se desloca a Festivais de BD, Richard Corben não tem tido a projecção que a sua obra justifica. Algo que esperemos que venha a mudar, graças ao Grande Prémio de Angoulême,  atribuído por votação dos autores com livros publicados em França e à magnífica exposição que lhe foi dedicada, de que cujo catálogo saíram a maioria das ilustrações que acompanham este artigo.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 26, em Maio de 2019

sábado, 1 de julho de 2017

Novela Gráfica III 1 - Ronin

Este é um daqueles títulos que eu tinha sugerido desde a primeira série de Novelas Gráficas e que, agora que foi finalmente editado em Portugal, tive o privilégio de traduzir e também prefaciar. Como é habitual nestes casos, deixo-vos com o texto do prefácio, enquanto que o texto de apresentação do volume, publicado no Público, surge apenas em imagem. Mas basta clicar sobre a imagem para o conseguir ler.


RONIN, OU O DERRUBAR DAS FRONTEIRAS

Apesar de trabalhos como Sin City, ou 300, que não se enquadram no género, o nome de Frank Miller é imediatamente associado às histórias de super-heróis, muito por via das história incontornáveis protagonizadas pelo Batman ou pelo Demolidor que escreveu e/ou desenhou, como Ano Um, O Regresso do Cavaleiro das Trevas, ou Renascido, só para falar de títulos publicados em Portugal pela Levoir.
Daí que, para os leitores menos atentos, possa parecer estranho ver o seu nome no título que abre esta terceira colecção dedicada à Novela Gráfica. Mas essa estranheza não tem qualquer razão de ser, pois Ronin é um marco dos comics americanos, uma obra extraordinariamente inovadora e que rompeu as fronteiras, até então fechadas a sete chaves, entre os comics americanos, a BD europeia e o manga japonês e, apesar de ter sido publicado originalmente em 1983 como uma mini-série em seis partes, conta um história complexa, pensada para ser lida como se de um livro se tratasse.
Como refere Jenette Kahn, a editora e mais tarde, Presidente da DC Comics, que está na génese de Ronin, ao convidar Frank Miller a apresentar uma proposta para fazer na DC a história com que sempre sonhou: “Frank queria escrever uma aventura de tamanho razoável, mas que funcionasse por si só, com um princípio, um meio e um fim. Se juntássemos as páginas que compunham os seis volumes (o que fizemos mais tarde, pois na altura, a ideia de recolher tudo num único volume nem sequer nos passou pela cabeça), obtínhamos uma história com o tamanho, a complexidade e o impacto de um romance.”
O esbater da fronteira entre os géneros, foi algo que sempre esteve bem presente no trabalho de Miller, que na série Daredevil, juntou elementos do romance policial negro e dos filmes de Kung-Fu e de ninjas às histórias de super-heróis, mas foi em Ronin que ele levou mais esta viagem das formas e em que a influência do manga e das histórias de samurais se fez sentir de forma mais evidente, tanto em termos da história, como em termos visuais e narrativos.
Numa entrevista à revista The Comics Jounal em 1981, dois anos antes de Ronin começar a ser publicado, Miller referia pela primeira vez, a influência da arte japonesa no seu trabalho dizendo: “Ultimamente, tenho estado imerso nas gravuras japonesas. Há algumas coisas nelas que me atraem e são próximas da BD. A sua influência pode não ser visível no meu trabalho nos tempos mais próximos, mas pode tornar-se bastante visível dentro de um ano. Pode demorar algum tempo para absorver um estilo”. Mas em termos narrativos, essa absorção já estava a ser feita, pois nesse mesmo ano de 1981, numa aventura de Elektra publicada na revista Bizarre Adventures #28 Miller experimenta pela primeira vez um tipo de narrativa baseada puramente na imagem. Como o próprio refere, essa história, “foi sobretudo um exercício de narrativa para mim. Foi um exercício em vários aspectos. Queria contar uma história sem balões de pensamento, ou caixas de narração. Foi também uma maneira de fazer uso das técnicas que aprendi ao ler os comics japoneses de samurais. Achei os comics japoneses verdadeiramente notáveis em vários aspectos. Consegui “ler” uma centena de páginas de um deles no outro dia sem me sentir confuso. E estava escrito em japonês! Eles apoiam-se completamente na parte visual. A abordagem deles à linguagem da BD é feita de uma forma mais pura do que a dos autores americanos.”    
História da luta entre um Ronin, um samurai sem mestre vindo do Japão medieval e o demónio que matou o seu senhor, na Nova Iorque distópica do século XXI, Ronin mistura as histórias de samurais e a ficção científica, numa narrativa complexa e ambígua, em que as coisas podem não ser bem o que parecem. Em relação ao anterior trabalho de Miller, Ronin é um salto no escuro. Uma aposta arriscada de um criador rebelde, que optou por sair da sua zona de conforto para criar algo inovador. Prescindindo de um arte-finalista, Miller, para além de escrever e editar a história, desenhou e passou ele próprio a tinta os seus desenhos, deixando a cor (que assume aqui uma dimensão tanto estética como narrativa) nas mãos de Lynn Varley, a sua namorada e futura colaboradora em inúmeros outros projectos, do Regresso do Cavaleiro das Trevas a 300.
Também em termos de planificação, é evidente o explorar de novos caminhos e de um tipo de narração mais fluida e dinâmica do que o habitual nos comics americanos, necessariamente mais apoiada na parte visual, face à ausência de balões de pensamento, ou de um narrador. Compare-se os primeiros capítulos, em que a alternância ritmada entre tiras horizontais e verticais, que marcou o seu trabalho na série Daredevil ainda se mantém, com os capítulos posteriores em que a dupla página ganha cada vez maior importância, seja para mostrar o crescimento orgânico do Complexo Aquarius, seja para dar outro impacto e espectacularidade às cenas de acção.  
Momento de viragem na carreira de Miller que, pela primeira vez reteve os direitos de autor sobre uma criação sua, Ronin foi, nas palavras do próprio Miller, “um processo de libertação. Passei do tipo de história que estava treinado para fazer, que toda a gente fazia, para desenvolver uma nova direcção para os comics.” (…) Consegui jogar com isso. Sair do registo convencional e introduzir temas e métodos visuais de diferentes origens. Além disso, tinha descoberto o que se fazia em França e no Japão em termos de BD… através dos trabalhos de Moebius e de Goseki Kojima. Essas duas influências colidiram comigo mais ao menos ao mesmo tempo e estão bem patentes em Ronin.”
O próprio traço de Miller ao longo da história reflecte essas duas influências, com as achuras nervosas do início a fazerem lembrar o traço incrivelmente dinâmico de Kojima, o desenhador de Lone Wolf and Cub, enquanto que o universo futurista do Complexo Aquarius e dos robots criados por Virgo, evocam os mundos de ficção científica de Moebius.
Inovador também em termos de produção, Ronin obrigou a utilização de um tipo de papel especial e pôs problemas específicos de impressão, de modo a que o excelente trabalho de cor em aguarela e guache de Lynn Varley pudesse ser devidamente reproduzido, criando assim condições para o aparecimento do prestige format, um tipo de edição mais cuidada que se tornaria regra para as mini-séries e graphic novels assinadas por autores com um certo estatuto.
Talvez por estar claramente à frente do seu tempo, Ronin não teve o sucesso imediato que os autores e a editora esperavam, não obstante o acolhimento entusiástico por parte dos seus colegas no meio dos comics. Mas o extraordinário sucesso de O Regresso do Cavaleiro das Trevas veio trazer outra visibilidade a Ronin que foi finalmente publicado num único volume em 1987 e que, precisamente trinta anos depois dessa primeira recolha em livro, conhece a sua primeira edição em português de Portugal.
Para terminar, demos mais uma vez a palavra a Frank Miller, para seja o próprio a definir o que foi para ele esta aventura de Ronin: “Foi um parque de diversões e foi um pesadelo. Nada me podia ter ensinado mais… fazer-me sentir melhor em relação à linguagem da BD ou fazer-me sentir mais motivado com essa linguagem do que Ronin”.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Novela Gráfica II 6 - A Garagem Hermética

Este é um daqueles casos em que o espaço disponibilizado pelo jornal Público se revela insuficiente para falar devidamente do livro. Felizmente, tive também a coluna semanal no Ipsílon que saiu com o jornal de hoje, para complementar o texto com uma série de citações de Moebius sobre a sua obra de culto, que poderão ler clicando na respectiva imagem.

COM MOEBIUS, À DESCOBERTA DA GARAGEM HERMÉTICA

Novela Gráfica II – Vol. 6 
A Garagem Hermética
Argumento e Desenhos – Moebius
Quinta, 21 de Abril
Por + 9,90€
Depois de, num dos volumes de maior sucesso da primeira série da colecção Novela Gráfica, termos tido a oportunidade de apreciar o génio de Moebius em colaboração com Alejandro Jodorowsky, esta segunda série recupera A Garagem Hermética de Jerry Cornelius, um clássico de Moebius enquanto autor completo e da revista Metal Hurlant que é finalmente editado em Portugal a preto e branco e no formato original.
Figura incontornável da BD mundial, tanto como Moebius, ou como Gir, Jean Giraud foi um dos mais fabulosos desenhadores do século XX, um talento multifacetado, capaz de criar universos com simples imagens. Com uma carreira dividida entre a aventura clássica, de que o Western Tenente Blueberry, que criou com Jean-Michel Charlier é um dos expoentes máximos, e as  fabulosas experiências visuais em que a coerência narrativa acabava por ser menos importante do que a liberdade gráfica e criativa, Moebius procurou sempre utilizar o desenho para criar universos e é precisamente isso que acontece com A Garagem Hermética, série que traduz como poucas a filosofia inerente à revista Metal Hurlant.

Logo em 1975, no editorial do primeiro número da revista que fundou com Jean-Pierre Dionnet, Philippe Druillet e Bernard Farkas, Moebius declara que: “Não há qualquer razão para que uma história seja como uma casa, com uma porta para entrar, janelas para  ver a paisagem e uma chaminé para o fumo. Pode muito bem imaginar-se uma história com a forma de um elefante, de um campo de trigo, ou de um fogo de artifício”.
Esse manifesto da revolução da BD, tem inteira tradução em A Garagem Hermética, uma história de duas páginas, feita sem qualquer intenção de continuação, mas que se transformaria numa série quando Dionnet a publica na Metal Hurlant nº 6 e pede a Moebius outro capítulo para o número seguinte. Com os capítulos a serem inventados à medida que Moebius os desenhava, sem qualquer preocupação de coerência com os episódios anteriores, ou com os episódios seguintes, a história foi crescendo de forma orgânica, tendo com fio condutor a presença do Major Grubert, ou Major Fatal. Como o próprio autor refere: “Desenhava e sistematicamente escrevia continua. Era um acto surrealista. Dei-me conta que, para lá das aparências, o meu espirito funcionava com uma coerência muito particular. Aprendi a ter confiança naquela parte de mim à qual não tenho um verdadeiro e fácil acesso, mas que organiza as coisas de um modo mágico".

O resultado é uma obra surpreendentemente coerente, que sintetiza na perfeição o génio de Moebius, mostrando os diversos caminhos que o seu traço irá explorar. Um clássico incontornável, finalmente disponível em Portugal numa edição que lhe faz inteira justiça.
Publicado originalmente no jornal Público de 15/07/2016 e na revista Ipsílon de 22/07/2016

sábado, 18 de junho de 2016

Novela Gráfica - Série II - Apresentação da colecção


A NOVELA GRÁFICA REGRESSA AO PÚBLICO 

Os leitores pediram e o Público fez-lhes à vontade com a publicação, já a partir da próxima quinta-feira, da Série II da colecção Novela Gráfica, que chega às bancas a 16 de Junho. São quinze títulos, na sua grande maioria assinados por autores que não integraram a primeira colecção, mas onde há ainda espaço para o regresso de nomes de peso, como Jiro Taniguchi e Altarriba e Kim, os grandes vencedores dos galardões para a melhor BD estrangeira publicada em Portugal, atribuídos pelo Festival da Amadora e pela Comic Con, com O Diário do meu Pai e A Arte de Voar, respectivamente. Também de regresso, está Moebius, desta vez a solo, com A Garagem Hermética, um dos títulos marcantes de uma carreira incontornável.
Nas estreias, destaque para Zeina Abirached, a primeira mulher publicada na colecção Novela Gráfica, corrigindo uma lacuna da colecção anterior, com a Dança das Andorinhas e para o lançamento, quase em simultâneo com a edição original, de Presas Fáceis, de Miguelanxo Prado e A Asa Quebrada, de Altarriba e Kim.
Mas um dos grandes objectivos destas colecções é dar a descobrir grandes clássicos que se mantinham escandalosamente inéditos em português de Portugal. É o caso de V de Vingança, um dos melhores e mais influentes trabalhos de Alan Moore, o criador de Watchmen, que abre a colecção, ou de Fogos e Murmúrios, dois dos mais importantes trabalhos de Lorenzo Mattotti, reunidos num único livro, que dá a descobrir aos leitores portugueses o extraordinário trabalho de cor do mestre italiano.
Numa colecção em que a actualidade política e os conflitos armados estão bastante presentes, há também espaço para obras mais intimistas, como Daytripper, o premiado trabalho dos gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, que conta, num registo intimista com um toque de realismo mágico sul-americano, a vida (e as mortes) de Braz de Oliva Domingos, um escritor de obituários. Num registo próximo, está A História de um Rato Mau, de Bryan Talbot, que mistura o universo fantástico da escritora e ilustradora Beatrix Potter, com a realidade nua e crua do abuso de menores, numa história tocante. Igualmente tocante é Terra de Sonhos, uma recolha de, tão belas como comoventes, histórias curtas, sobre o amor aos animais e à natureza, que confirmam à saciedade o talento e a sensibilidade de Taniguchi, o autor japonês responsável por um dos maiores sucessos da colecção anterior.

O MUNDO É UM LUGAR PERIGOSO

Embora todos os géneros sejam permitidos, uma das tendências dominantes da Novela Gráfica, tem sido a reportagem de guerra. Histórias, autobiográficas, ou não, que tentam dar uma perspectiva interna e real da forma como os conflitos que agitam este mundo, se reflectem em quem os vive, ou testemunha.
A força das imagens permite explicar mais facilmente aos leitores a complexidade de algumas situações geoestratégicas e a adopção de um ponto de vista concreto, em vez de uma visão mais global, ajuda o leitor a perceber que, por trás das estatísticas das mortes em combate e, sobretudo dos “danos colaterais”, estão pessoas como nós, que vêm a sua vida completamente destruída e são obrigadas a recomeçar noutro lugar.  
O actual drama dos refugiados sírios mostra-nos que estas situações se mantém bem presentes e alguns títulos desta colecção, ajudam-nos a perceber melhor o que é (sobre)viver no meio de uma guerra.

 A libanesa Zeina Abirached, nascida em Beirute, em 1981, viveu os primeiros dez anos da sua vida numa cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil que provocou mais de centena e meia de milhar de mortos, mas no seu Livro, A Dança das Andorinhas, apesar da crueldade da realidade exterior, o que ressalta é a inocência da infância e a capacidade de uma comunidade se manter unida, quando tudo à sua volta desaba.
Já em Fax de Sarajevo, o norte-americano Joe Kubert relata a historia real do seu agente Ervin Rustemagic, que perdeu a casa e os seus bens, incluindo uma impressionante colecção de desenhos originais de grandes nomes da BD, durante a guerra da Bósnia Herzegóvina, quando a sua casa em Dobrinja, nos subúrbios de Sarajevo, foi bombardeada pelas tropas sérvias. Prisioneiro numa cidade sitiada, Rustemagic tinha um aparelho de fax como único meio de contacto com o exterior e foi com base nos faxes que Rustemagic lhe ia enviando, que Kubert pode contar a sua história.
Embora sejam claramente obras de ficção, tanto V de Vingança, como Presas Fáceis, mostram como a ficção se pode aproximar (perigosamente) da realidade. Distopia futurista na linha do 1984, de George Orwell, V de Vingança imagina uma Inglaterra sob domínio de uma ditadura fascista, com campos de concentração, e câmaras de televisão que vigiam todos os movimentos das pessoas. Se o próprio Alan Moore considerava o governo neoliberal de Margaret Tatcher como a concretização desse futuro totalitário imaginado em V, a actual omnipresença de câmaras de vigilância e a forma como as comunicações electrónicas são monitorizadas, mostram que, neste caso, a realidade ultrapassou a própria ficção.
Já em Presas Fáceis, é a crise financeira e os abusos do sistema bancário que estão em destaque, numa história de estrutura policial, mas que se revela um verdadeiro libelo acusatório contra a ânsia desmedida de lucro, que leva as instituições bancárias a não terem o menor escrúpulo de enganar os seus clientes, em especial aqueles que pouparam toda uma vida para ter uma reforma descansada e acabam por perder as suas poupanças, em aplicações bancárias claramente imorais e de legalidade discutível.


UM GÉNERO EM REVISTA(S)

Embora, actualmente, as novelas gráficas sejam publicadas completas, num único volume, que recolhe toda a história, durante várias décadas, a pré-publicação por capítulos em revista, era forma mais usual de publicar essas histórias pela primeira vez.
Uma solução com vantagens para o autor, que assim ia recebendo à medida que ia publicando, para além de ter um feedback mais imediato dos leitores, o que lhe permitia até fazer eventuais alterações na história durante a publicação.
Na anterior colecção, vimos o caso da revista (A Suivre), onde A Guerra das Trincheiras, de Tardi, foi pré-publicado e da sua importância na criação do conceito de “Roman BD”. Nesta segunda série, embora não tenhamos nenhum título prépublicado na (A Suivre), não faltam exemplos de histórias que surgiram primeiro nas páginas das revistas. É o caso, desde logo, de V de Vingança, cujos primeiros capítulos foram publicados originalmente em Inglaterra, entre 1982 e 1983 na revista Warrior, ou das histórias de Terra de Sonhos, de Taniguchi, que antes de serem recolhidas em livro, foram originalmente publicadas no Japão, entre 1991 e 1992, nas páginas da revista Big Comic, da editora Shogakukan.
Também Parque Chas, de Barreiro e Risso, teve uma primeira publicação na Argentina, na mítica revista Fierro, publicação dirigida pelo argumentista e teórico Juan Sasturain, que aproveitou a liberdade concedida pelo fim da ditadura militar, em meados dos anos 80, para dar espaço e inteira liberdade criativa, aos excelentes desenhadores e argumentistas que a Argentina produz.
Mas a revista mais representada nesta colecção, é a Metal Hurlant. Um sonho de liberdade criativa concretizado por um grupo de autores, que incluía Moebius e Jean-Claude Dionnet. Logo no editorial do nº1, Moebius lembra que: “uma história de BD não tem de parecer-se com uma casa, com a sua porta de entrada, as janelas para ver a paisagem e uma chaminé para o fumo… também é perfeitamente imaginável uma história em forma de elefante, de campo de trigo, ou de fogo-de-artifício.”
A Garagem Hermética, cujos episódios iam sendo inventados à medida que eram publicados, sem guião prévio, ou qualquer tentativa de continuidade, é um bom exemplo dessa atmosfera de liberdade total, enquanto Os Exércitos do Conquistador, de Dionnet e Gal, subverte as regras das histórias de Sword and Sorcery, introduzindo um toque existencialista tipicamente francês.
Finalmente, também Guido Crepax publicou as aventuras de Valentina nas principais revistas italianas, como Linus, Alter-Alter e Corto Maltese, tal como as duas histórias que compõem o volume dedicado a Mattotti saíram primeiro em revista em Itália, antes de serem publicadas em livro em França. Fogos, na revista Alter-Alter em 1984 e Murmúrios na revista La Dolce Vita, em 1987.

A FORÇA DA NOVELA GRÁFICA ESPANHOLA

Numa colecção que inclui autores japoneses, libaneses, brasileiros, argentinos, sérvios, ingleses, franceses, italianos e americanos, a nação mais representada é a nossa vizinha Espanha, o que diz bem do momento actual da Banda Desenhada no país dos “nuestros hermanos”. Se Miguelanxo Prado cujo mais recente trabalho, Presas Fáceis, estreia em Portugal antes de ser publicado em França e quase em simultâneo com a sua publicação original em Espanha, tem praticamente toda a sua obra editada em português, o mesmo sucede com os trabalhos mais recentes de Altarriba que, depois de A Arte de Voar, sobre o pai, regressa com a Asa Quebrada, dedicado à mãe, também editado no nosso país quase em simultâneo com a edição original. Já de Paco Roca, que se estreia nesta colecção com O Inverno do Desenhador, baseado na história real de um grupo de desenhadores que, na Espanha dos anos 50, ousou desafiar a poderosa editora Bruguera, os leitores portugueses vão poder descobrir que a sua obra não se limita ao premiado Rugas.
Quantidade e qualidade que confirmam que, pelo menos no que diz respeito à novela gráfica, o ditado “de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”, não podia estar mais longe da realidade.


A COLECÇÃO

1 –V de Vingança 
16 de Junho
Argumento – Alan Moore 
Desenhos – David Lloyd
A Inglaterra mergulhou num regime fascista depois de uma catastrófica guerra nuclear, e todos os opositores ao poder instalado foram exterminados. Neste universo, ao mesmo tempo distópico e familiar, V, um revolucionário anarquista, vai encetar uma complexa campanha revolucionária para deitar abaixo o governo, enquanto inspira uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta.
Primeiro grande sucesso de Alan Moore, a história desenhada por David Lloyd e publicada originalmente na revista Warrior no início da década de 80, deu origem a um filme de grande sucesso, produzido pelos irmãos Wachowsky (Matrix) graças ao qual a máscara usada por V se tornou a imagem de marca do grupo Anonymous.

2  – Terra de Sonhos
23 de Junho
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Jiro Taniguchi, o premiado autor japonês de O Diário do meu Pai, regressa à colecção Novela Gráfica com Terra de Sonhos. Livro que recolhe um punhado de relatos da felicidade e da melancolia simples da vida, como ela é.
Histórias intimistas, marcadas pela sensibilidade de Taniguchi, impregnadas da observação do quotidiano da vida moderna, que mergulham o leitor na realidade da vida e da sua emoção humana: a morte de velhice de um cão, o nascimento de uma ninhada de gatos e a dificuldade de se separar deles, a chegada de uma jovem sobrinha que fugiu de casa, os sonhos que um alpinista abandonou em troca de uma família...

3 – Presas Fáceis
30 de Junho
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Presas Fáceis, o mais recente trabalho de Miguelanxo Prado, um dos mais premiados autores espanhóis da actualidade, chega à colecção Novela Gráfica, quase em simultâneo com a sua publicação original em Espanha, numa edição que conta com um prefácio exclusivo do historiador e colunista do Público, Rui Tavares.
Tendo como pano de fundo a crise financeira actual, por entre as indemnizações milionárias a gestores e políticos que levaram um país à falência e o desespero dos cidadãos comuns, que sofrem as consequências da fraude bancária, uma sucessão de homicídios de banqueiros lança dois polícias numa investigação que se tornará num verdadeiro thriller. Uma muito bem urdida história de vingança que gira em torno de um tema de gritante actualidade, tanto em Portugal como em Espanha.

4  – A Dança das Andorinhas: Morrer, Partir, Regressar
07 de Julho
Argumento e Desenhos – Zeina Abirached
Primeira mulher a publicar na colecção Novela Gráfica, a libanesa Zeina Abirached, retrata em A Dança das Andorinhas, uma noite na vida das famílias que habitam um prédio na zona este de Beirute, perto da linha de demarcação, em 1984, em plena Guerra do Líbano.
Um relato sensível da realidade de uma cidade devastada pela guerra e das pessoas que tentam (sobre)viver e levar uma vida tanto quanto possível normal, contado com grande originalidade gráfica, ternura e humor por Zeina Abirached, nascida em Beirute em 1981, um ano antes da invasão do Líbano pelas tropas israelitas.

5  – A História de um Rato Mau
14 de Julho
Argumento e Desenhos – Bryan Talbot
Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra rural, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz e a felicidade... Neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior que lhe permitirá confrontar os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem.
Um dos mais celebrados trabalhos do inglês Bryan Talbot (Grandville), galardoado com o prémio Eisner para a Melhor Novela Gráfica, aquando da sua primeira reedição, em 1996.

6 – Parque Chas
21 de Julho
Argumento – Ricardo Barreiro
Desenho – Eduardo Risso
Em cada capital do mundo, existem “Lugares Mágicos”. Locais obscuros onde, não se sabe como, forças desconhecidas exprimem a angústia e o medo. Triângulos das Bermudas do Imaginário, onde vampiros, sereias, fantasmas e personagens de BD se cruzam e reencontram, para levar o visitante para um lugar de onde não conseguirá, provavelmente, regressar… Em Buenos Aires, esse lugar é o Parque Chas.
Escrito por Ricardo Barreiro, Parque Chas, foi o primeiro grande sucesso do desenhador argentino Eduardo Risso (Batman Noir), aqui num registo gráfico diferente, que encaixa como uma luva na dimensão onírica da história.

7 – Garagem Hermética
28 de Julho
Argumento e Desenho – Moebius
O universo de bolso que o Major Grubert criou no interior do seu asteróide, contém três mundos sobrepostos, com os seus povos e civilizações. Três mundos que ignoram tudo das suas origens, mas em que alguns habitantes começam a suspeitar a verdade.
Inicialmente publicada em episódios na revista Metal Hurlant, de que Moebius foi um dos fundadores e publicado pela primeira vez no nosso país da versão original a preto e branco, a Garagem Hermética é um marco na revolução da Banda Desenhada iniciada pela revista Metal Hurlant, com Jean (Moebius) Giraud a subverter todas as convenções, ao criar uma história surreal, repleta de ideias incríveis, que eram inventadas à medida que os episódios eram publicados.

8  – Fax de Sarajevo
04 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Kubert
Em 1992, com o eclodir da guerra da Bósnia, o editor e agente Ervin Rustemagic, além de perder, a casa, a editora e todos os seus bens num bombardeamento, viu-se aprisionado durante mais de um ano com a sua família, na cidade sitiada de Sarajevo, sob a ameaça constante das bombas e dos snipers sérvios, tendo como único contacto com o exterior, um aparelho de fax.
Umas das pessoas com quem Rustemagic trocou faxes, foi o desenhador americano Joe Kubert (Tarzan, Sgt. Rock), que passou esta história trágica e verídica para a BD, numa novela gráfica que arrebatou os Prémios Harvey e Eisner, para além do Prémio de Angoulême para a Melhor BD Estrangeira.

9 –Valentina
11 de Agosto
Argumento e Desenhos – Guido Crepax
Embora nascida como personagem secundária noutra série de Guido Crepax, Valentina, uma sensual fotógrafa de moda vai tornar-se a mais conhecida personagem do seu autor, graças às suas aventuras surreais, em que o onirismo e o erotismo se fundem.
Este volume recolhe uma selecção das melhores aventuras de Valentina. Clássicos intemporais, marcados pelo traço sensual de Crepax e pelo seu uso inovador da planificação, com destaque para Baba Yaga, história que seria adaptada ao cinema em 1973, e para Valentina no Metro, uma criativa (e emotiva) homenagem de Crepax à Banda Desenhada e aos seus heróis e criadores.

10  –  Daytripper
18 de Agosto
Argumento e Desenhos – Fabio Moon e Gabriel Bá
Os gémeos brasileiros Fabio Moon e Gabriel Bá, chegam à colecção Novela Gráfica, com Daytripper, o seu trabalho mais premiado, feito para a editora americana Vertigo. Definida muito simplesmente pelos seus autores como “uma história sobre a vida”, cada capítulo de Daytripper incide sobre um momento específico da vida de Brás de Oliva Domingos, o filho de um escritor famoso que ser ele próprio também escritor, e sobre a forma como as escolhas que faz podem modificar a sua vida... e a sua morte.
Intimista e surpreendente, Daytripper mostra a dupla ao seu melhor nível, numa história profundamente brasileira nos cenários e nas personagens, mas que lida com questões universais.

11  –  Luna Park
25 de Agosto
Argumento –Kevin Baker
Desenhos – Danijel Zezelj
Alik Strelnikov vive na sombra de Coney Island, um mundo de passeios silenciosos e parques de diversões enferrujados, que ridicularizam os seus sonhos de se tornar um herói. Há dez anos, trocou uma existência brutal no exército Russo pela promessa de se tornar um executor da máfia de Brooklyn, mas as suas noites são atormentadas por pesadelos em que as atrocidades a que assistiu na Chechénia se misturam com visões alternativas do passado, que terminam sempre da mesma forma trágica.
Na sua estreia na BD, o popular escritor Kevin Baker, alia-se ao ilustrador croata Danijel Zezelj, para criar uma novela gráfica perturbadora, que marca o regresso de Baker a Coney Island, cenário da sua aclamada trilogia Dreamland.

12  –  Fogos e Murmúrios
01 de Setembro
Argumento – Mattotti e Kransky  
Desenhos – Lorenzo Mattotti
Um dos mais consagrados ilustradores da actualidade, o italiano Lorenzo Mattotti  tem publicado o seu trabalho em revistas como Cosmopolitan, Vogue, The New Yorker, Le Monde e a Vanity Fair, o que não o impediu de construir uma importante carreira também na BD.
Fogos e Murmúrios, as duas obras que preenchem o volume que a Colecção Novela Gráfica II lhe dedica, representam um momento de charneira na sua carreira, mais evidente em Fogos, normalmente considerado como a sua obra mais importante e um ponto de viragem do autor, que passa de um tipo de trabalho mais narrativo, para um registo mais pictórico, em que a cor é um elemento simbólico e dramático, que condiciona a própria história.

13 – O Inverno do Desenhador
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Paco Roca, o premiado autor de Rugas, estreia-se na colecção Novela Gráfica com O Inverno do Desenhador. A história verídica de um grupo de cinco dos mais populares desenhadores da Editorial Brugera (uma editora espanhola criada em Barcelona em 1910, que se dedicou sobretudo à produção de literatura popular e tiras de BD) que, desiludidos com as condições de trabalho e com a falta de reconhecimento que tinham, decidem criar a sua própria editora de BD na Espanha nos anos 50.
A história destes pioneiros pelos direitos de autor, chega à colecção Novela gráfica, numa cuidada edição, que inclui uma história de seis páginas feita para o jornal El Pais e nunca antes recolhida em livro.

14  – A Asa Quebrada
 15 de Setembro
Argumento – António Altarriba
Desenho – Kim
Depois do premiado (Prémio de Excelência para a Melhor Banda Desenhada Estrangeira na Comic Con 2016) A Arte de Voar, Altarriba e Kim regressam à colecção Novela Gráfica, com A Asa Quebrada. Um relato em que Altarriba volta às décadas conturbadas da vida do seu país, desta vez através dos olhos da sua mãe. O destino e a vida trágica desta mulher, que viveu as maiores agruras às mãos dos homens que a rodeavam, abusada pelo seu pai e violada, esconderá um segredo e uma esperança que o seu filho, Antonio Altarriba, perseguirá neste livro poderoso e duro, que servirá de chave para ele poder finalmente fazer as pazes com o seu passado.

15 – Os Exércitos do Conquistador
 22 de Setembro
Argumento – Jean-Pierre Dionnet
Desenho – Jean-Claude Gal
Criado por Jean-Pierre Dionnet, um dos fundadores da revista Metal Hurlant, para o traço espectacularmente detalhado de Jean-Claude Gal, Os Exércitos do Conquistador foi um dos títulos mais marcantes da fase inicial da mítica revista, mostrando uma abordagem europeia da Heroic Fantasy que em nada fica atrás dos trabalhos dos melhores autores americanos do género. Este volume recolhe, na sua versão original a preto e branco, todas as colaborações de Dionnet e Gal, em Os Exércitos do Conquistador e nas duas histórias que compõem a saga de Arn, e inclui ainda A Catedral, uma história curta de Bill Mantlo, que Gal ilustrou para a revista norte-americana Epic.
Textos originalmente publicados no destacável distribuído com o jornal Público de 11 e 14/06/2016

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O regresso de Simon Du Fleuve

SIMON DU FLEUVE, 
A REDESCOBERTA DE UM CLÁSSICO PÓS-APOCALÍPTICO

Para os leitores de uma geração, actualmente entre os 40 e os 50 anos, que cresceu com a edição portuguesa da revista Tintin, há nomes que trazem recordações imediatas. Um desses nomes é o de Simon Du Fleuve, o herói da série homónima de Claude Auclair, que foi uma das primeiras a explorar a aventura num cenário pós-apocalíptico, abrindo caminho a outras abordagens posteriores ao género, como Le Transperceneige, de Lob e Rochette (já analisado numa anterior edição da revista Bang!), Armalite 15, de Michel Crespin, ou Jeremiah, de Hermann, para nos limitarmos a exemplos da BD franco-belga. Uma série de culto, que volta finalmente a estar disponível graças à edição integral da Lombard, cujo primeiro volume já terá fechado às lojas FNAC, na altura em que este número da Bang! for publicado.
Nascido em 1943, Claude Auclair tirou o curso de Belas Artes, em Nantes, tendo trabalhado como cenógrafo e decorador de teatro durante grande parte da década de 60. A profissão leva-o a mudar-se para Paris onde fica até 1967, quando, já cansado do trabalho no teatro, decide deixar tudo e viajar pelo Mediterrâneo durante um ano. No regresso a Paris, que coincide com o Maio de 68, decide mudar de vida e dedicar-se primeiro à ilustração e depois à BD.
Os seus primeiros trabalhos de ilustração são para as revistas de ficção científica das Editions OPTA, enquanto que a sua estreia na BD se faz no fanzine Phénix, com uma história curta. A redescoberta da BD, de que Auclair nem era leitor assíduo, dá-se graças a Robert Roquemartine, o primeiro proprietário da Livraria Futuropolis – Livraria que, anos mais tarde, nas mãos de Etienne Robial e Florence Cestac vai dar origem à histórica editora como o mesmo nome - que lhe dá a descobrir os clássicos, como Alex Raymond, Harold Foster, ou Jijé, e o apresenta aos autores que frequentavam a sua livraria.
Um desses autores era precisamente Jean (Moebius) Giraud. Giraud, que já conhecia o trabalho de Auclair das capas das Editions OPTA, além de o ajudar na sua primeira história, Aprés, publicada na revista Underground Comics, convida-o a mostrar o seu trabalho a Goscinny e a colaborar na revista Pilote. A estreia de Auclair na Pilote dá-se em 1970, com Jason Muller, uma série pós-apocalíptica, que, como veremos, está na génese de Simon Du Fleuve. As duas primeiras histórias de Jason Muller foram escritas por Giraud e por Pierre Christin (o argumentista de Valerian e dos melhores álbuns de Bilal, que aqui assina com o pseudónimo Linus), enquanto Auclair escreveu as duas seguintes, mas a série ficar-se-ia por estas quatro histórias curtas, pois Goscinny rejeitou, sem lhe dar quaisquer justificações, as propostas de argumentos apresentados por Auclair para novas aventuras de Jason Muller.
Mas Auclair não queria deixar morrer o universo de Jason Muller e, dois anos depois, decide propor essas mesmas histórias, ligeiramente reformuladas, a Greg, o argumentista de Comanche, Bernard Prince e Bruno Brasil e editor da revista Tintin. Embora A Saga do Grizzly, a primeira história que publicou no Tintin belga não tenha tido grande sucesso e a colaboração entre Greg e Auclair na história Os Náufragos de Arroyoka, em 1971, não tenha deixado grandes saudades a nenhum dos autores, Greg soube reconhecer o potencial do universo criado por Auclair e, em 1973, abriu-lhe novamente as portas da revista Tintin, onde os leitores viram nascer as Crónicas do Tempo Futuro e o seu protagonista, Simon Du Fleuve.
No seu poema The Hollow Men, T. S. Elliot diz que o mundo vai terminar, não numa explosão, mas num suspiro, e é essa a perspectiva seguida por Auclair na criação do universo pós-apocalíptico onde decorrem as aventuras de Simon Du Fleuve. Aqui não há uma guerra nuclear, sem sequer uma alteração climatérica extrema, como em Le Transperceneige, mas o lento agudizar da crise provocada pela Guerra Fria e pelo choque petrolífero, que leva a um clima de guerra civil generalizado e ao colapso da sociedade de consumo, seguido por uma série de epidemias que reduzem drasticamente a população mundial.
A maioria dos sobreviventes abandona as cidades e regressa aos campos, vivendo em comunidades, trabalhando a terra, ou pastoreando animais. O dinheiro perde o seu significado e dá lugar à troca directa. Os carros, que a falta de gasolina tornou inúteis, dão lugar aos cavalos. Os vestígios da civilização industrial, como as torres de electricidade, as estradas, linhas e estações de comboio, continuam a marcar a paisagem, mas não passam de monumentos grotescos a um mundo que já não existe. A excepção são as cidades-fortaleza, onde se refugiam os Senhores, com os seus exércitos que, esses sim, têm ainda veículos em estado de funcionar e gasolina e para os alimentar, para além de um vasto arsenal que lhes permite atacar as tribos nómadas e transformar os sobreviventes em escravos, que permitem manter a funcionar as fábricas que alimentam esse esforço de guerra.
Nascido numa dessas cidades, Simon é filho de um investigador que inventou uma pistola laser, e que na sequência do assassinato do seu pai, destrói os planos da arma e foge com o único protótipo existente, de modo a impedir que esta tecnologia mortífera caia nas mãos dos senhores das Cidades.
O primeiro ciclo da série, que compreende seis álbuns (La Balade de Cheveu Rouge, O Clã dos Centauros, Os Escravos, Maílis, Os Peregrinos e Cidade N.W, nº 3) relata a fuga de Simon e o seu regresso à cidade onde nasceu, para fazer justiça, contando com a ajuda de Jason Muller, personagem que reaparece na obra de Auclair, mas envelhecido, deformado e enlouquecido por uma vida de combates. Esses álbuns traçam um percurso movimentado e violento, em que Simon é obrigado a lutar pelos seus ideais e encontra o amor por duas vezes, sempre com resultados trágicos, até descobrir finalmente a sua companheira para a vida em Emeline.
As aventuras de Simon Du Fleuve são histórias duras e violentas, marcadas por um profundo sentido de justiça e de humanidade, reflexões em tom ecológico, sobre as consequências do progresso descontrolado, servidas por um traço realista de grande dinamismo, que rapidamente conquistou os leitores. Mas, como sempre aconteceu com Auclair, esse sucesso não foi conquistado com facilidade. O autor teve que enfrentar obstáculos complicados, logo no primeiro álbum da série, assumidamente inspirado no livro Le Chant du Monde, de Jean Giono, que devido à pressão da Gallimard, a editora de Giono, que viu aqui um caso de plágio, apenas saiu na revista Tintin, sendo interdita a sua publicação em álbum.
Mas a partir daí, primeiro no Tintin belga e depois em álbum, a série começa a conquistar o público, a crítica e até os autores de BD franceses. O ponto de viragem é o álbum Maílis. Como refere Auclair: “Em Paris, os profissionais de Banda Desenhada só me começaram a falar de Simon, a partir de Maílis, quando já não era possível ignorar o sucesso conseguido pela série. Antes disso, sentia que toda a gente fazia de conta que eu não existia. Fui reconhecido bastante mais cedo na Bélgica, onde me atribuíram vários prémios. Os países nórdicos e Portugal também reagiram com muita força à série.”
Em Portugal, esse sucesso foi evidente com a publicação, a partir de 1975, primeiro na revista Tintin e depois em álbum, do primeiro ciclo de Simon Du Fleuve, pela Bertrand. O clima cultural e ideológico que se vivia em Portugal a seguir ao 25 de Abril, ajudou a esse sucesso, mas a qualidade do trabalho de Auclair foi decisiva.
Ainda assim, Simon Du Fleuve não é uma série perfeita, com o tom panfletário e o carácter demasiado expositivo de algumas das histórias, a fazerem-se notar. O momento em que a série mais se aproxima da perfeição, é precisamente o álbum Maílis, em que Simon entra na vida de duas mulheres que vivem desterradas numa cabana à beira de um pântano. Um pântano que, revela Auclair é muito inspirado no pântano bretão, onde o autor passou a infância com a avó. Como refere: “ a cabana que lhes desenhei, é parecida com a casa onde vivia a minha avó”.
Para além do triângulo amoroso que se vai formar com a chegada de Simon e que terá consequências trágicas para todos, há um elemento fantástico que marca a história. Uma antiga central nuclear, habitada por mutantes criados pela radiação, que repetem, como num cerimonial religioso, a rotina de funcionamento de uma central nuclear.
Depois de Cidade N-W Nº 3, que encerra o primeiro ciclo das aventuras de Simon Du Fleuve, Auclair troca o espartilho dos álbuns com heróis e as histórias de 48 páginas, pela liberdade total da revista (A Suivre), onde está presente desde o primeiro número, trabalhando, sempre em colaboração com argumentistas, em sagas a preto e branco, de mais de cem páginas, como Bran Ruz, ou Le Sang du Flamboyant.
È através da revista (A Suivre) que Auclair vai conhecer Alain Riondet, um argumentista e ilustrador, com quem vai ressuscitar Simon Du Fleuve, num segundo ciclo de quatro álbuns e publicar uma novela gráfica a preto e branco, Celui-Lá. Constituído pelos álbuns L’Eveilleur, Les Chemins de L’Ogam e pelos dois volumes de Naufrage, este segundo ciclo, em que Simon Du Fleuve está menos presente e reduzido a um papel mais passivo, fica marcado por um ambiente mais místico e por um simbolismo muito pouco subtil, que fazem com que estes álbuns tenham envelhecido bem pior do que os primeiros.
Já em termos gráficos, estamos perante o melhor de Auclair. O desenhador, sabendo-se doente, com um cancro do estômago que o haveria de matar em 20 de Janeiro de 1990, com medo de não ter tempo de desenhar todas as histórias que tinha em mãos, trabalha a um ritmo alucinante para os padrões da BD franco-belga. Em apenas dois anos, publica os quatro volumes do segundo ciclo de Simon Du Fleuve e o primeiro volume, de quase cem páginas de Celui Lá. Só não tem tempo de terminar de desenhar o segundo volume de Celui Lá, que será terminado por Jean-Claude Mézieres e Jacques Tardi, que desenham as pranchas finais, de modo a que o livro possa ser lançado no Festival de Angoulême de 1991, numa última homenagem a Auclair, desaparecido exactamente um ano antes.
Auclair era um apaixonado pelo mar e pretendia passar algum tempo a navegar, tendo mesmo mandado construir um veleiro para isso, mas a doença que o levou, não lhe deu tempo de se fazer ao mar. Fê-lo Simon por ele, pois para além do mar estar muito mais presente no segundo ciclo, a última imagem do herói que o leitor vê, é precisamente Simon e Eveline a afastarem-se de barco, em direcção a outras aventuras. Aventuras que Auclair já não teve tempo de contar.
Publicado originalmente no nº 19 da revista Bang!, de Outubro de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

Colecção Novela Gráfica 2 - A Louca do Sacré-Coeur, de Moebius e Jodorowsky


MOEBIUS E JODOROWSKY CHEGAM À COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA 
COM A LOUCA DO SACRÉ-COEUR

Novela Gráfica- Vol 2
A Louca do Sacré-Coeur
Argumento - Jodorowsky 
Desenhos – Moebius

Conhecido em Portugal essencialmente pelo seu trabalho na série de Banda Desenhada, O Incal, ilustrada por Moebius, e em todo o universo que dela emanou (como A Casta dos Metabarões), Alejandro Jodorowsky é muito mais do que um mero argumentista de BD de ficção científica. Considerado como um guru por personalidades do mundo da música tão diferentes como John Lennon e Yoko Ono, que ajudaram a financiar os seus filmes El Topo e La Montaña Sagrada e Marilyn Manson, que cita abertamente La Montaña Sagrada no vídeo de The Dope Show, Jodorowsky revela-se uma personagem tão ou mais fascinante do que a sua própria obra, a qual reflecte as suas vivências e crenças místicas.
Verdadeiro homem do Renascimento, este filho de judeus emigrantes russos, nascido no Chile em 1929, foi actor, mimo (discípulo de Marcel Marceau), tarólogo de renome, responsável, com Philipe Camoin pela restauração do Tarot de Marselha, criador de uma nova técnica terapêutica chamada Psicomagia, poeta, escritor, dramaturgo, encenador, fundador do grupo surrealista Panique (com Fernando Arrabal e Roland Topor), realizador de cinema e principalmente, argumentista de BD.
Curiosamente foi no cinema que se deu a primeira colaboração entre Jodorowsky e Moebius, num projecto de adaptação cinematográfica do romance Dune, de Frank Herbert que acabou por não chegar a bom porto, mas que deu origem a uma frutuosa colaboração no campo da BD, de que nasceu a série O Incal, para além de outras pérolas como Os Olhos do Gato e esta A Louca do Sacré-Coeur.
Nascido em 1938 e falecido em 2012, Jean (Moebius) Giraud, foi um dos mais importantes nomes da BD europeia. Possivelmente, um dos melhores desenhadores realistas que a Banda Desenhada conheceu, com o nome Gir, com que assinava as aventuras do Tenente Blueberry, Giraud, com o pseudónimo Moebius, foi também um dos mais influentes autores de BD de sempre, co-fundador da revista Metal Hurlant e responsável pela criação de alguns dos mais fantásticos universos da BD, para além de ter emprestado o seu fabuloso traço à BD, em histórias surreais e ao cinema e à publicidade, em magníficas ilustrações marcadas pela originalidade do seu universo e pelo arrojo gráfico do seu traço.
Publicado originalmente em França em três tomos (La folle du Sacré-Coeur, de 1992, Le Piège de l'irrationnel, de 1993, e Le Fou de la Sorbonne, de 1998), A Louca… foi uma das raras histórias que Jodorowsky escreveu sem ter em mente um desenhador predefinido, mas que encontrou em Moebius o ilustrador ideal, capaz de equilibrar a dimensão realista inicial, com os elementos místicos e fantásticos que vão tendo uma importância cada vez maior à medida que a história avança.
Obra de ficção delirante, mas onde são perceptíveis contornos autobiográficos, que o próprio Moebius acentua ao dar a Mangel parecenças físicas com Jodorowsky, A Louca do Sacré-Coeur é uma obra tão divertida como perturbadora, marcada pelo contraste. Contraste entre a espiritualidade e a sexualidade, entre a racionalidade e o misticismo, entre o sublime e o escatológico, entre o realismo de Giraud e a fantasia de Moebius.

Não sendo o trabalho mais famoso da dupla, distinção que cabe ao Incal, A Louca do Sacré-Coeur foi o canto do cisne da colaboração entre Moebius e Jodorowsky e um momento único de perfeito alinhamento entre os dois universos gráficos que marcaram a obra de Giraud. Claramente o trabalho mais pessoal da dupla Moebius/Jodorowsky, A Louca do Sacré-Coeur é, também por isso, o mais fascinante.
Texto publicado no jornal Público de 27/02/2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada

NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL 
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA

A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.

Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015