sexta-feira, 21 de junho de 2019

À Descoberta de Richard Corben

À DESCOBERTA DE RICHARD CORBEN

Vencedor do Grande Prémio de Angoulême, o mais importante Festival europeu de Banda Desenhada, em 2018, o americano Richard Vance Corben é um nome relativamente pouco conhecido em Portugal, lacuna que este artigo pretende ajudar a corrigir.
Nascido em Anderson, Missouri, em 1940, Corben fez a sua formação em Belas Artes no Kansas City Art Institute, onde se formou em 1965. Aí entrou em contacto com a cultura underground, e apesar de fazer BD desde a infância, foi na animação que começou a sua actividade profissional, depois de uma curta-metragem que realizou, ter chamado a atenção da agência de publicidade Calvin, que o contratou em 1965. Durante os nove anos que trabalhou na Calvin, assegurando diferentes aspectos da parte gráfica, desde ilustração de cartazes, storyboards e animações, Corben aproveitou o material da empresa para criar, durante os seus tempos livres, um filme chamado Neverwhere, misturando imagem real e animação, onde surge pela primeira vez Den, a sua personagem-fetiche, que irá recuperar para a BD. Este filme, que em 1968 lhe valeu um prémio da Japan Cultural Society, acabou por ser o seu último, pois nesta altura decidiu trocar a animação pela BD, fascinado com a liberdade permitida pelos Comics Underground, onde brilhavam nomes como Robert Crumb. Para além de publicar em diversos fanzines de outros editores, Corben decide auto-editar as suas próprias histórias na revista Fantagor, título que dará o nome à sua própria editora. Apesar da edição do Comic Underground ter entrado em crise em 1975, Corben foi ainda assim o desenhador Underground mais publicado, com cerca de 400 páginas produzidas entre 1970 e 1975, algumas delas assinadas com os pseudónimos Corbou e Gore, com destaque para títulos como Rowlf, ou The Beast of Wolfton, em que o seu fascínio por lobisomens e animais antropomorfizados, para além dos homens musculados e das mulheres com grandes mamas, é bem evidente.
É nessa altura que Corben publica aquela que foi uma das primeiras Novelas Gráficas de sempre. Bloodstar, uma adaptação de um romance de Robert E. Howard, o criador de Conan, publicada em 1976 pela editora Morning Star Press. Misturando de forma judiciosa o texto de Howard com as suas espectaculares imagens, Corben cria uma excelente adaptação, marcada pela tridimensionalidade e sensualidade das personagens e pela representação crua da violência. Infelizmente, por divergências com o editor, que lhe ficou com os originais, o que impede qualquer reedição, este é um trabalho quase desconhecido da maioria dos leitores, que foi editado pela última vez na Europa em meados dos anos 80.
Felizmente, o mesmo não sucedeu com os seus trabalhos para a editora Warren, editora especializada em revistas de terror, que prosseguiu a herança da EC comics, a mítica editora que formou leitores como Bernie Wrightson e o próprio Richard Corben. Entre 1970 e 1979, num espaço de pouco mais de oito anos, Corben ilustrou quarenta histórias para as revistas Eerie, Creepy, e Vampirella, da Warren Publishing, para além de mais de uma dezena de capas. Histórias de terror, escritas por escritores como Bruce Jones e Jan Strnad, com quem Corben colaborou desde os seus tempos dos comics underground, mas que incluem também adaptações de H. P. Lovecraft e sobretudo, de Edgar Alan Poe, autores a que, como veremos, Corben regressará por diversas vezes ao longo da sua carreira.
Para além da oportunidade de publicar ao lado de grandes desenhadores como Frank Frazetta, All Williamson, ou Bernie Wrightson, as revistas da Warren permitiram a Corben introduzir a cor no seu trabalho. Impressas num papel quase de jornal, estas publicações não possibilitavam uma boa reprodução da cor, mas Corben resolveu o problema criando o seu próprio sistema de coloração, em que fazia manualmente a separação das cores em quatro chapas, cuja sobreposição dava origem à cor final. Um sistema demorado e trabalhoso, mas com resultados tão espectaculares como surpreendentes, que conquistou imediatamente os leitores, mas sobretudo os outros desenhadores.
Entre esses desenhadores, estava o francês Jean Giraud, mais conhecido por Moebius, que não foi parco nos elogios, escrevendo: “lembro-me, eu e os meus companheiros da geração do Maio de 68, do choque que todos tivemos quando a primeira prancha de Richard Corben nos apareceu literalmente diante dos olhos… Richard “Mozart” Corben, pisou no meio de nós como um obelisco extraterrestre… ele reina desde há muito tempo sobre o campo movimentado e colorido da BD planetária como a estátua do conquistador, monólito estranho, visitante sublime, enigma solitário… Além disso, adoro as heroínas de BD dotadas de grandes mamas.”
Daí que, quando em 1975, Moebius, juntamente com Druillet, Jean-Pierre Dionet e Bernard Farkas criam a editora Humanoides Associés e a revista Metal Hurlant, Corben é o único autor estrangeiro a estar presente na revista desde o nº 1, primeiro com histórias do seu período Underground e, a partir do nº3, com Den, história que se tornará um dos marcos da Metal Hurlant, estando naturalmente presente no filme de animação Heavy Metal, que adapta algumas das histórias mais emblemáticas da revista, com Corben a colaborar com o animador Jack Stokes nessa sequência do filme.
Contando a história de um rapaz que vai parar a um mundo desconhecido, Neverwhere, onde se vê no corpo - que não era o dele - de um guerreiro musculado e careca, que deambula nu por um mundo desértico, povoado por estranhas e agressivas criaturas e mulheres voluptuosas, Den é o símbolo perfeito da obra de Corben, com um estilo único e um tratamento de cor que dão um tridimensionalidade às personagens, que parecem esculpidas, o que não anda longe da verdade, pois o desenhador realiza esculturas em plasticina das principais personagens, para as poder representar melhor de qualquer ângulo e com qualquer luz. Mas melhor do que eu, o crítico espanhol Manuel Garcia Quintana, define assim o estilo de Corben: ”as figuras de Corben parecem desproporcionadas, grotescas e até infantis. Mas examinando-as de forma atenta, vemos que não é assim, que há uma assombrosa proporção entre todos os elementos manejados por Corben, que a desenvoltura de que faz gala converte num dos desenhadores mais prestigiados de sempre. Para além de tudo isto, Corben tem uma imaginação transbordante para construir ambientes e situações.”
Para além das obras publicadas em França na Metal Hurlant, nos EUA pela Heavy Metal,  em Espanha pela editora Toutain, e que o próprio Corben editou em livro nos E.U.A. na sua editora Fantagor, o estilo inconfundível de Corben começa a surgir em outros sítios, como na capa do disco Bat out of Hell, de Meat Loaf, ou no cartaz do filme Phantom of the Paradise, de Brian de Palma. E nesse tipo de imagem, tal como nas capas dos seus livros e nas ilustrações que fazia para revistas, é possível ver uma mistura de técnicas que vão desde a utilização da pintura a acrílico e a óleo e aerógrafo para os fundos, com resultados espectaculares.
Depois de um período de grande sucesso, evidente em livros como as continuações de Den, a versão das Mil e Uma Noites, com argumento de Jan Strnad, Jeremy Brood, e Mutant World, que dura toda a década de 80, as coisas começam a mudar nos anos 90 e em 1994 Corben é obrigado a fechar a sua editora Fantagor e vê-se numa situação financeira complicada, de que irá sair graças à venda das suas pranchas originais e através da colaboração com as grandes editoras como a DC e a Marvel. Tudo começa em 1996 com a série Batman Black & White, editada por Mark Chiarello, que contrata Corben e Strnad para escreverem uma história do Batman, que provavelmente quando este número da Bang! tiver chegado às lojas FNAC já terá saído em português pela Levoir na Colecção dedicada aos 80 anos do Batman.
Segue-se uma colaboração com Brian Azzarello na série Hellblazer, também já publicada em Portugal pela Levoir, continuada quando o editor Axel Alonso – que tinha juntado Corben e Azzarello em Hellblazer - troca a Vertigo pela Marvel,  volta a juntar a dupla nas mini-séries Banner e Cage, ambas já publicadas em Portugal. Também para a Marvel, Corben ilustra Punisher: The End, com argumento de Garth Ennis, mas os seus grandes projectos para a “Casa das Ideias” foram os dois volumes da série Haunt of Horror, onde volta aos seus escritores de referência, Lovecraft e Poe.
No caso de Poe, Corben cria novas versões de contos que já tinha ilustrado anteriormente, como é o caso de The Raven, optando desta vez por uma adaptação menos literal. Como o próprio refere: “gostei de adaptar os contos de Poe para as revistas da Warren, mas tenho um lado demasiado esquizofrénico. Parte de mim quer fazer uma adaptação tão fiel quanto possível ao texto original. Outra parte de mim quer descolar do texto, partindo da ideia inicial para criar uma coisa mais pessoal.”
Outra vertente do trabalho mais recente de Corben, é a sua colaboração com Mike Mignola na série Hellboy, em que ilustra mais de uma dezena de histórias do herói criado por Mignola, a partir de argumentos deste. E, como podemos ver por um original do Hellboy de Corben, aqui reproduzido, os dois mundos fundem-se de forma harmoniosa. O jogo de sombras e a própria figura do Hellboy estão próximos do desenho de Mignola, enquanto que os cenários, os monstros e a vegetação, são puro Corben.
Para além de Hellboy, Corben tem publicado recentemente outros títulos na Dark Horse, como a mini-série Rat God, Spirits of the Dead, outra revisitação da obra de Poe, que inclui uma terceira versão de The Raven, com cores digitais do próximo Corben e da sua filha Beth Corben Reed, e Ragemoor, mantendo-se bastante activo apesar de estar cada vez mais perto dos 80 anos.
Indivíduo bastante reservado, que raramente dá entrevistas, nem se desloca a Festivais de BD, Richard Corben não tem tido a projecção que a sua obra justifica. Algo que esperemos que venha a mudar, graças ao Grande Prémio de Angoulême,  atribuído por votação dos autores com livros publicados em França e à magnífica exposição que lhe foi dedicada, de que cujo catálogo saíram a maioria das ilustrações que acompanham este artigo.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 26, em Maio de 2019

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