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quarta-feira, 4 de março de 2015

Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada

NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL 
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA

A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.

Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Apresentação da Colecção Novela Gráfica


É já na próxima quinta-feira que estreia a nova colecção de Banda Desenhada da Levoir, distribuída com o jornal Público. Uma colecção que motivou que este blog não tenha sido tão actualizado nos últimos tempos como gostaria, mas que, para mim, é a melhor colecção de BD já publicada com um jornal e o maior acontecimento editorial em Portugal nos últimos anos, na área da Banda Desenhada.
Deixo-vos então com o texto do destacável de apresentação da colecção distribuído ontem com o jornal Público e, no dia em que cada volume chegar às bancas, aqui postarei o texto de apresentação do mesmo escrito para o Público.


NOVELA GRÁFICA: UM FENÓMENO UNIVERSAL

Embora o termo tenha surgido pela primeira vez nos Estados Unidos, a novela gráfica está presente em todos os mercados e esta colecção pretende também transmitir uma ideia da dimensão global que este género de Banda Desenhada atingiu, apresentando alguns dos títulos mais emblemáticos e premiados, originários dos quatro cantos do mundo, começando naturalmente pelos E.U.A, onde a expressão nasceu.


1 – ESTADOS UNIDOS
E a colecção não podia abrir com outro autor, que não Will Eisner. Tido como o pai da novela gráfica, graças a Um Contrato com Deus, o título que abre esta colecção, Eisner nasceu em 1917 e faleceu em 2005. Foi toda uma vida dedicada à BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe) tendo estado ligado ao nascimento da indústria dos comics em 1936, através do estúdio Eisner/Eiger, do mesmo modo que, em 1978 quando regressa à BD com Um Contrato com Deus, alarga mais uma vez os limites da Banda Desenhada, fazendo-a entrar nas livrarias. Desenhador virtuoso, aliou a sua criação artística ao pensamento e análise sobre os comics, sendo autor de livros técnicos incontornáveis como Comics and Sequential Art e professor durante várias décadas na School of Visual Arts, de Nova Iorque.

Outro criador americano incontornável é Robert Crumb, o papa do Underground Comix, aqui representado por O Livro de Mr. Natural, uma recolha de histórias curtas daquele que é, a par com Fritz, the Cat, o seu personagem mais carismático.
Nascido em Filadélfia em 1943, Crumb estreou-se profissionalmente como desenhador em 1962, numa companhia de cartões de boas festas de Cleveland, mas foi no final dos anos 60 que a sua carreira na BD arrancou, graças à revista Zap Comix!, titulo escrito, desenhado e publicado pelo próprio Crumb, que rapidamente se tornou um sucesso junto da comunidade underground. Para além de uma vastíssima produção, dividida entre a Banda Desenhada e a ilustração, Crumb é também um apaixonado pela música, tocando banjo numa banda e tendo ilustrado capas para inúmeros discos de jazz, blues e rock. Crumb está radicado em França desde 1991, país que lhe atribuiu o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1999 e lhe consagrou uma grande exposição no Museu de Arte Moderna, em Paris, em 2012.

2 – PAÍSES FRANCÓFONOS
A Banda Desenhada de língua francesa está representada nesta colecção por um punhado de criadores incontornáveis, começando desde logo pela dupla Moebius/Jodorowsky. Senhores de carreiras impossíveis de resumir neste curto espaço, Jean (Moebius) Giraud e Alejandro Jodorowsky são conhecidos sobretudo pela série de ficção científica de culto, O Incal, mas a sua colaboração, que começou no cinema, vai muito para além disso, como o provam obras incontornáveis como Os Olhos do Gato, ou este A Louca do Sacré Coeur, uma tão divertida como desconcertante paródia às religiões, onde é possível estabelecer paralelos com a biografia dos autores.
Outro nome que dispensa apresentações é o do francê Jacques Tardi. Várias vezes premiado no Festival de Angoulême e vencedor de três Prémios Eisner, o autor nascido em 1946, que os leitores portugueses conhecem graças à série Adèle Blanc-Sec, está representado por Foi Assim a Guerra das Trincheiras, a sua obra mais emblemática, dedicada a um tema fulcral da na sua obra, a I Guerra Mundial.
Também o suíço Cosey é bem conhecido dos leitores portugueses, graças à série Jonathan, um dos títulos mais emblemáticos da revista Tintin e aqui surge representado pela sua primeira história sem herói, Em Busca de Peter Pan, díptico que tem por cenário os Alpes da sua Suíça natal e que aqui surge publicado na versão integral.
E há ainda o francês Edmond Baudoin, de que falaremos mais à frente, uma vez que o livro que o representa nesta colecção foi feito para o mercado japonês.


3 – ITÁLIA
Pátria de grandes nomes da história da BD, como Hugo Pratt, Dino Battaglia, Guido Buzzelli, ou Milo Manara, a Itália está representada nesta colecção pelo mais fabuloso dos seus desenhadores, Sergio Toppi. Senhor de um estilo único, marcado pelo revolucionário tratamento da página enquanto unidade estética, Toppi (1932 – 2012) está representado pela sua obra-prima, Sharaz-De, uma deslumbrante revisitação dos contos das Mil e Uma Noites, a que o seu grafismo único dá uma ainda maior dimensão fantástica.


4 – JAPÃO
Berço da maior indústria de Banda Desenhada a nível mundial, pátria de criadores como Osamu Tezuka e Naoki Urasawa, o Japão está (muito bem) representado por Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses. Nascido em Totori, no Japão, em 1947, Taniguchi, que tem publicado em Portugal, O Homem que Caminha, surge nesta colecção com O Diário do meu Pai, relato intimista, de grande beleza e sensibilidade, que tem precisamente por cenário a aldeia natal do autor.
Um dos primeiros desenhadores europeus a entrar no poderoso mercado japonês, onde este livro foi originalmente publicado, o francês Edmond Baudoin, estreia-se em português nesta colecção com A Viagem. Premiado com o Alph Art para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 1997, AViagem concilia a dimensão onírica e sensual, tão típicas de Baudoin, com uma narrativa assente na componente visual, características dos mangá, a BD japonesa.


5 – PENÍNSULA IBÉRICA
A Península Ibérica surge representada nesta colecção por duas novelas gráficas multi-premiadas, como são o caso de Beterraba, e A Arte de Voar. Assinada por Miguel Rocha, um dos mais virtuosos ilustradores portugueses, responsável pela ilustração do cartaz do Euro 2004, de futebol, Beterraba: A Vida numa Colher, é uma saga alentejana, contada com cores luminosas e vibrantes, feita ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, tendo vencido os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival da Amadora de 2004.
Já a nossa vizinha Espanha está representada por A Arte de Voar, título de António Altarriba e Kim, que arrebatou os principais Prémios de BD espanhóis em 2010, incluindo o prestigiado Premio Nacional del Comic. Escrito pelo escritor, professor e ensaísta Antonio Altarriba e ilustrado por Kim, um dos nomes maiores da emblemática (e controversa) revista El Jueves, A Arte de Voar é um bom exemplo da grande qualidade actual da BD feita por nuestros hermanos.


6 – AMÉRICA DO SUL
E a colecção fecha com dois títulos oriundos da América do Sul, que irão ser distribuídos na mesma semana. São eles Mort Cinder, o ponto mais alto da colaboração entre o urugaio Alberto Breccia e o argentino Hector Oesterheld, que é finalmente publicado na íntegra em português e Bando de Dois, uma história de cangaceiros, narrada pelo brasileiro Danilo Beiruth, no melhor registo dos Western Spaguettis de Sergio Leone.
Hector German Oesterheld (1919-1977) foi o maior argumentista de língua espanhola, autor de séries incontornáveis como El Eternauta, Sgt. Kirk (com Hugo Pratt), ou Ernie Pike, mas foi nas suas colaborações com Alberto Breccia (1919-1993) que a sua escrita mais brilhou, muito por via do virtuosismo e da criatividade visual de Breccia, que tem em Mort Cinder o seu expoente máximo.  
Nascido em São Paulo em 1973, o brasileiro Danilo Beiruth trocou a publicidade pela BD em 2007, mas foi em 2010, com Bando De Dois, título que além do Prémio Angelo Agostini, lhe valeu três troféus HQ Mix, os mais importantes prémios da indústria de BD brasileira, que se tornou um nome incontornável da BD brasileira contemporânea.


DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE NOVELA GRÁFICA


Tradução literal (e incorrecta, pois novel em português, significa romance…) do termo inglês graphic novel, o termo novela gráfica entrou já no vocabulário dos leitores portugueses de Banda Desenhada e associa-se instintivamente a histórias de qualidade e com uma dimensão estética e literária requintada, menos provável de encontrar na produção editorial corrente.
A designação surge pela necessidade sentida por alguns autores americanos, de demarcarem o seu trabalho da carga depreciativa associada ao termo comics, usado de forma indiscriminada para designar a BD nos Estados Unidos. Exactamente por terem consciência que o termo se aplicava apenas a uma pequena parte da produção existente (as histórias cómicas, ou humorísticas, constituem uma parte cada vez mais ínfima da produção americana, onde os super-heróis continuam a ser o género dominante) e ao formato específico dos comic books (revistas com uma dimensão de 17 X 26 cm, com vinte e poucas páginas, normalmente ocupadas por histórias de super-heróis), surgiram outros nomes alternativos. É o caso do termo comix, utilizado para definir a BD alternativa (ou underground) surgida nos campus universitários americanos durante os anos 60 do século XX, e graphic novel, designação que aproxima a BD da literatura. Uma designação aplicada a um tipo de narrativas extensas, com uma dimensão literária e um tipo de preocupações estéticas muito difíceis de encontrar no formato restritivo de um comic book, limitado a narrativas breves, passíveis de serem contadas em pouco mais de vinte páginas.
Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo, que já estava presente no Zeitgest cultural americano do final dos anos 70, tanto na sua forma actual, como em subtis variações, como graphic album, visual novel, ou illustrated novel, Eisner, sem nunca ter reivindicado para si esse estatuto, foi considerado por muitos como o criador da novela gráfica, pelo impacto crítico e comercial que Um Contrato com Deus teve  junto do público americano.
O sucesso de títulos posteriores como Maus de Art Spiegelman e de The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (dois títulos publicados originalmente como mini-séries) ajudou a que o termo graphic novel entrasse na linguagem comum.
Mas, mesmo que ninguém lhes desse ainda esse nome, as novelas gráficas são bem anteriores, podendo mesmo englobar-se nesta categoria L’Histoire de M. Vieux Bois, de Rodolphe Topffer, publicada em 1837, como a primeira novela gráfica. Pelo menos era essa a opinião do seu amigo e primeiro crítico de BD, o filósofo e escritor Goethe, que definiu a obra de Topffer, como “a literatura do futuro”.
Também uma obra como A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, criador que preferia usar o termo literatura desenhada, para classificar o seu trabalho, pode ser considerada uma novela gráfica. O mesmo se pode dizer em relação à esmagadora maioria das histórias publicadas na revista francesa (A Suivre) que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, dava-lhes a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso de Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, publicado originalmente em capítulos na revista (A Suivre) e incluído nesta colecção. No fundo, não é o modo como é originalmente publicado, que define o estatuto de uma obra. Basta pensar em escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro.
Assim, nesta colecção temos títulos concebidos originalmente para o formato novela gráfica, como o é o caso de Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Beterraba, de Miguel Rocha, A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, e Bando de Dois, de Danilo Beiruth, a par com livros publicados originalmente por capítulos em revistas, como A Viagem, de Baudoin, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Livro de Mr. Natural, de Robert Crumb, Sharaz-De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi e Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld e ainda histórias completas que foram originalmente publicadas em mais do que um volume, por razões puramente editoriais, como é o caso de A Louca do Sacré Coeur, de Moebiusw e Jodorowsky.
Ou seja, títulos com origens diversas, mas que têm como grande elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, de grande qualidade estética e literária, que sendo arte sequencial, são também literatura desenhada.


A COLECÇÃO


1 – Um Contrato com Deus
26 de Fevereiro
Argumento e Desenhos – Will Eisner
Considerada por muitos como a obra fundadora do género Novela Gráfica, Um Contrato com Deus recolhe quatro histórias curtas inspiradas nas vivências de Eisner nos bairros pobres da Nova Iorque dos anos 30. Histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos no Bronx, traçando uma imagem cheia de riqueza das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.

2  – A Louca do Sacré Coeur
05 de Março
Argumento – Alejandro Jodorowsky
Desenhos – Moebius
Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mística, farsa sagrada, caminho iniciático, e exorcismo, assinado por dois nomes maiores da BD mundial.

3  – A Viagem
12 de Março
Argumento  e Desenhos – Edmond Baudoin
Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, com a cabeça cheia de imagens abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, com um toque surreal, contada pelo traço sensual de Baudoin, feita originalmente para o mercado japonês e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.


4  – Foi Assim a Guerra das Trincheiras
19 de Março
Argumento  e Desenhos – Jacques Tardi
Retrato realista e cruel da Guerra de 1914-1918, Foi Assim a Guerra das Trincheiras é, de longe, a mais popular e aclamada obra de Tardi, um dos mais respeitados e premiados autores franceses. Homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial, foi evoluindo ao longo dos anos em que foi sendo publicada. De pano de fundo para histórias contadas em banda desenhada, transformou-se lentamente numa denúncia poderosa dos horrores do conflito que aniquilou uma geração inteira.


5  – Beterraba: A Vida numa Colher
26 de Março
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Oligário, um patriarca alentejano luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano. Um livro poderoso, de um dos mais talentosos ilustradores nacionais, que volta a estar disponível, agora em capa dura e com uma nova capa.

6  – A Arte de Voar
02 de Abril
Argumento – António Altarriba
Desenho –  Kim
Nascido em 1910 em Espanha, António Altarriba pai atravessará o século e as suas horas mais negras, para se suicidar em 2001. António Altarriba, filho, irá em busca da história dele, para poder contá-la e talvez conseguir perceber as razões do suicídio deste homem de 91 anos que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais. Mas mais do que uma simples biografia gráfica, A Arte de Voar é um panorama brilhante do século 20 espanhol.


7  –  O Livro de Mr. Natural
09 de Abril
Argumento e Desenho – Robert Crumb
Um verdadeiro clássico do comic underground, assinado pelo mestre Robert Crumb, protagonizado pela sua carismática criação, o guru Mr. Natural, cuja trajectória acompanhamos, desde as aventuras iniciais dos anos 60, até aos anos 90, marcados pelo controverso ciclo da Devil Girl.

8  – Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Sir Melvin Woodworth, um escritor inglês, parte para os Alpes em busca de inspiração para o seu novo romance, e das memórias do seu irmão Dragan, um pianista desaparecido naquelas montanhas anos antes. Mas, no cenário imponente dos Alpes suíços, Melvin vai fazer uma descoberta que vai afectar de forma profunda a sua vida. A primeira novela gráfica de Cosey, o criador de Jonathan.

9  – Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenhos –  Sergio Toppi
Sharaz-De, a Sherazade dos contos das Mil e Uma Noites, surge aqui reinterpretada pelo traço inconfundível do mestre Italiano Sergio Toppi, num conjunto de 11 contos ilustrados num estilo de grande audácia gráfica, marcado por um espectacular sentido de composição, que revoluciona a estrutura habitual da página clássica de banda desenhada. A obra-prima do Mestre Italiano finalmente disponível em Portugal!


10  –  O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio, regressa a Tottori, a sua terra natal, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que leva a evocar a infância e a perceber finalmente o motivo por que o seu pai abandonou a família. Um relato intimista e comovente, com laivos de autobiografia, contado com grande beleza e extrema sensibilidade pelo mais europeu dos desenhadores japoneses, Jiro Taniguchi.

11  –  Mort Cinder
06 de Maio
Argumento – Hector Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia
A vida pacata do antiquário Ezra Wiston vai sofrer uma alteração radical quando conhece Mort Cinder, o vagabundo do tempo, homem de mil e uma vidas e outras tantas mortes. Juntos vivem aventuras em que o ambiente fantástico não esconde uma visão profundamente humana do mundo.
Ponto mais alto da colaboração entre os dois geniais criadores argentinos, Mort Cinder é justamente considerado como uma obra-prima e um livro absolutamente incontornável, que surge primeira vez em Portugal numa edição integral.

12  –  Bando de Dois
07 de Maio
Argumento e Desenhos – Danilo Beyruth
Tinhoso e Caveira de Boi, "os dois últimos sobreviventes de um bando de vinte cangaceiros partem em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, preparados para enfrentar um exército. Cada um com os seus motivos. O brasileiro Danilo Beiruth cria em O Bando de Dois um verdadeiro Western Spaguetti em papel, que conquistou a crítica e os leitores brasileiros aquando da sua publicação, em 2010.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/02/2015

quinta-feira, 1 de julho de 2010

El Eternauta, ou as muitas vidas de Juan Salvo


Se perguntarem a um Argentino qual a melhor Banda Desenhada de sempre publicada no seu país, é muito natural que El Eternauta seja referido. Alvo de inúmeras reedições (nem todas legais) e de várias continuações, o clássico de ficção científica escrito por H. G. Oesterheld e desenhado por Solano Lopez é a única obra de BD a integrar a colecção dos Clássicos da Literatura Argentina publicada pelo jornal EL CLARIN, o que diz bem da sua popularidade, importância e reconhecimento institucional.
Publicada ao longo de dois anos na revista HORA CERO SEMANAL entre 1957 e 1959, El Eternauta é o relato da invasão da cidade de Buenos Aires por forças extraterrestres, relato que é feito por um dos sobreviventes, Juan Salvo, ao próprio Oesterheld, que, num exercício de meta ficção, aparece como personagem da sua própria história. Tudo começa com a queda de uma estranha neve fluorescente que mata ao contacto com a pele, neve essa que abre o caminho para uma invasão extraterrestre comandada pelos Ellos, seres que nunca veremos, e executada por tropas de assalto compostas por seres de outros planetas, como os Cascarudos, animais de grande porte parecidos com escaravelhos gigantes, e os Manos, semelhantes aos humanos, com a excepção das mãos com imensos dedos, povos conquistados pelos Ellos e usados como carne para canhão na invasão ao planeta Terra.
Depois de uma série de peripécias, em torno do combate desigual dos sobreviventes contra os invasores, Juan Salvo entra acidentalmente numa máquina dos invasores que o transporta para outras dimensões, para longe da sua família, transformando-o “num peregrino através dos séculos, um viajante na eternidade, um ETERNAUTA”.
Uma dessas muitas viagens pelo espaço e pelo tempo trá-lo finalmente de volta a Buenos Aires, em 1959, onde encontra Oesterheld a quem conta o que se irá passar anos depois (a acção da história decorre em 1963) para que este, através da Banda Desenhada, avise os leitores para o que está para acontecer.
Se as histórias de invasões extraterrestres não eram propriamente novidade, o que era novidade era que essa invasão tivesse como cenário a cidade de Buenos Aires, onde viviam a maioria dos leitores de HORA CERO, que reconheciam com facilidade os cenários desenhados com rigor fotográfico por Solano Lopez e se identificavam com Juan Salvo e os seus amigos, grupo heterogéneo na sua composição social que representava os vários extractos da sociedade argentina e que é o verdadeiro herói da história, como salienta Oesterheld: “O verdadeiro herói de El Eternauta é um herói colectivo, um grupo de homens. Isso reflecte, embora sem intenção prévia, as minhas convicções: o único herói válido é o herói “em grupo”, nunca o herói individual, o herói solitário”.
Para além da dimensão espectacular da aventura, e de algumas cenas fortíssimas, como a sequência inicial com a neve mortal, esta história de um grupo de indivíduos normais colocados numa situação excepcional, tem momentos de pura poesia, como é o caso da magnífica cena em que um dos Manos (seres pacíficos, obrigados a combater pelos Ellos, que lhes infiltraram uma “glândula de terror”, que liberta uma substância que os mata caso sintam medo) se despede da vida cantando uma estranha canção.
Anos mais tarde, em 1969, Oesterheld vai recuperar, agora com arte de Alberto Breccia, El Eternauta. Publicada agora na GENTE, uma revista semanal de informação, esta ficção apocalíptica protagonizada por um indivíduo que, tal como Sherlock Time e Mort Cinder, outros personagens criados por Oesterheld, não está sujeito às leis do tempo, podendo, ao atravessar um portal dimensiona1, aparecer num outro local ou época, não teve a aceitação que merecia e os autores esperavam.
Talvez devido às mudanças na própria história (nesta nova versão, em vez de uma invasão global, as grandes potências fazem um acordo com os invasores extraterrestres, entregando-lhes a América do Sul) algo perturbador para as consciências ociosas dos leitores da revista GENTE, ou ao grafismo de Breccia, a milhas do estilo mais convencional de Solano Lopez e um pouco abstracto para o gosto do público, que tem dificuldade em reconhecer a cidade de Buenos Aires nas colagens de Breccia, choveram as cartas de protesto e o editor decidiu acabar com a série, pedindo desculpas aos leitores. Isto permite perceber o final circular da história (a melhor maneira que Oesterheld encontrou de concluir rapidamente a narrativa) e o desequilíbrio dos capítulos finais, em que Oesterheld condensou em quatro ou cinco páginas, repletas de texto, uma acção inicialmente prevista para ocupar quinze ou vinte páginas.
De qualquer modo, e apesar deste final inglório, estamos perante um trabalho graficamente inovador, em que Breccia, aqui claramente seduzido pela arte contemporânea, visível nas inúmeras referências à "Op Art" e à "Pop Art", começava a utilizar a técnica da colagem, abrindo caminho para o que iria ser uma característica marcante da sua produção na década seguinte.
Conforme refere Oesterheld: “A versão de El Eternauta publicada na GENTE foi um fracasso. E fracassou porque não era para essa revista. Eu era outro, não podia escrever o mesmo. E Breccia, por seu lado, também era outro. Este Eternauta tinha as suas virtudes e também os seus defeitos. Por um lado, a mensagem literária, por outro, a mensagem gráfica. Quanto à mensagem literária, apercebi-me, muito mais tarde, que me tinham suprimido parágrafos inteiros. (…) Em relação à parte gráfica, o verdadeiro final foi quando chamaram o Breccia e lhe explicaram que havia um desfasamento com o que o público queria e lhe pediram que suavizasse a coisa. Avisaram-no mais duas ou três vezes, mas ele nunca fez caso. Não aceitou fazer modificações e então decidiram acabar com El Eternauta”.

Mas o Eternauta regressaria numa segunda aventura desenhada por Solano Lopéz, cuja publicação se iniciou em 1976, na revista SKORPIO. Escrita por Oesterheld então já na clandestinidade, devido à sua ligação activa ao movimento Montonero, a história terminou a sua publicação numa altura em que Oesterheld já tinha “desaparecido” às mãos da ditadura militar argentina e provavelmente já nem estaria vivo. Nesta história, passada num futuro próximo, Oesterheld não se limita a escutar as aventuras de Juan Salvo, o Eternauta, mas participa activamente nelas como membro da resistência. Ou seja, o personagem, tal como o seu criador, assume uma opção clara pela acção directa. Apesar do traço de Solano Lopéz mostrar uma grande evolução, o carácter marcadamente panfletário da história, faz com que esta continuação seja bastante menos interessante. Juan Salvo, em vez de um homem normal, preocupado em recuperar a sua família, surge aqui como um líder revolucionário implacável, disposto a tudo sacrificar à sua causa.
Uma mudança radical no comportamento do herói que Solano Lopéz não aceitou bem, pondo mesmo em causa que tivesse sido o próprio Oesterheld a escrever toda a história, mas que é coerente com a forma como a obra de Oesterheld reflecte as suas opções políticas e ideológicas. Conforme refere Carlos Trillo: “não é preciso ser um grande caçador de metáforas para associar os Ellos com os militares que tomaram o poder”. Impressão que o facto das três versões já referidas do Eternauta, terem sido publicadas na sequência de golpes de estado militares, só vem reforçar.
Houve ainda outras versões de El Eternauta publicadas sem Oesterheld e nem sempre desenhadas por Solano Lopéz, mas nenhuma delas ficará na história, para além de revelarem à evidência a força do personagem criado por Oesterheld. Personagem que foi alvo de diversas adaptações teatrais e até de uma Ópera Rock, para além de uma adaptação cinematográfica que está em produção e que, ao contrário do que chegou a ser anunciado, não vai ser realizado por Lucrécia Martel.

A comemoração dos 50 anos da publicação de El Eternauta, que coincidiram com os 30 anos do “desaparecimento” de Oesterheld, trouxeram de novo El Eternauta para a ribalta mediática, o que se traduziu em iniciativas como a exposição na Biblioteca Nacional Argentina e, mais importante, numa reedição condigna de El Eternauta, feita pela Editora Norma, que permite a uma nova geração descobrir a obra-prima de Oesterheld e Solano Lopéz.
Texto originalmente publicado no nº 25 do BD Jornal, em Maio de 2010.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Mort Cinder, ou a morte que nunca deixa de o ser


Considerado muito justamente como o maior argumentista de Banda Desenhada de língua espanhola, Hector German Oesterheld, ao longo da sua carreira de quase três décadas (carreira extremamente produtiva, mas que foi tragicamente encurtada pela repressão da ditadura militar argentina) escreveu mais de cento e sessenta histórias para cinquenta desenhadores diferentes. Conciliando a quantidade com a qualidade na sua escrita, Oesterheld soube sempre encontrar desenhadores à altura do seu talento, conseguindo criar as parcerias adequadas a cada projecto.
De Solano Lopez em El Eternauta, passando por Arturo Del Castillo em Randall, até uma colaboração com Dino Battaglia em Capitan Caribe, foram inúmeros os desenhadores com quem Oesterheld colaborou, mas as suas parcerias mais importantes foram as que estabeleceu com Hugo Pratt e Alberto Breccia. Dois artistas que se vão encontrar em Buenos Aires, como professores na Escola Panamericana de Arte, instituição que vai formar artistas como José Muñoz, ou Eduardo Risso, entre (muitos) outros talentos argentinos e que foi criada em 1956, no mesmo ano em que foi abortado um golpe militar que pretendia recolocar Peron no poder.

Além da experiência de docência, os dois desenhadores atrás referidos vão igualmente partilhar os serviços de Oesterheld, chegando até Breccia a desenhar alguns episódios de Ernie Pike, uma das séries que ajudou a cimentar a fama de Pratt. Mas a primeira colaboração entre Alberto Breccia e Oesterheld deu-se em 1957, com Sherlock Time, um policial com toques de ficção científica e de fantástico, protagonizado por um detective que podia viajar no tempo (o nome, Sherlock Time, não engana), em que Breccia conseguiu criar um ambiente estranho e fantástico, sem no entanto abdicar de uma representação minuciosa e realista da cidade de Buenos Aires, onde se desenrola a intriga. Ou seja, algo que encontramos também em El Eternauta, em que os leitores argentinos descobriram um espaço quotidiano que bem conheciam, a cidade de Buenos Aires, retratada com rigor fotográfico por Solano Lopéz, perturbado por fenómenos extraordinários (no caso de El Eternauta, uma invasão extraterrestre).
José Muñoz , discípulo de Breccia, define assim o traço do mestre em Sherlock Time: “em cada toque de pincel, frio, preciso e rigoroso, encontramos o tempo fechado definitivo de cada desenho. Esse pincel frio, queima”.

Em 1962, ano em que um golpe militar pretende pôr fim à actividade da guerrilha argentina, iniciada três anos antes, começa a ser publicada na revista MISTERIX aquela que é considerada a obra-prima da dupla Breccia/Oesterheld: a série Mort Cinder. Mort Cinder, como o definiu o próprio Oesterheld: “é a morte que nunca deixa de o ser (...) um herói que morre e ressuscita, e no qual há angústia e tortura". Esta capacidade de morrer e viver de novo, permite à personagem atravessar diferentes épocas e locais da história, dos quais guarda uma memória latente. O filósofo argentino Óscar Masotta, compara Mort Cinder a o Fantasma, personagem criado por Lee Falk, salientado o que os separa: “na verdade, Mort Cinder, o “homem das mil e uma mortes”, é uma interessante inversão do esquema que rege a personagem de Lee Falk, o ‘‘fantasma que caminha”, o único herói de BD que morre... (no Fantasma, o personagem não morre, só morrem os homens que vestem o fato de Fantasma, que passa de gerações em, gerações; em Mort Cinder o homem é imortal, só morrem as suas múltiplas incarnações históricas).”

Pessoalmente, prefiro antes ver Mort Cinder, como a sequência lógica de outras personagens criadas anteriormente por Oesterheld, pois tal como Sherlock Time, ou o Juan Salvo de El Eternauta, Mort Cinder é mais um herói criado por Oesterheld que está liberto das leis do espaço e do tempo.
Se no caso de Juan Salvo e Sherlock Time essas viagens são feitas com recursos a máquinas sofisticadas, Mort Cinder viaja através da sua memória e das recordações que ela encerra. Recordações que são normalmente espoletadas por um qualquer objecto, cuja história está ligada a uma anterior vivência de Cinder. De modo a facilitar o reviver dessas experiências, Oesterheld criou como co-protagonista e narrador da série, a personagem de Ezra Winston, um antiquário amigo de Mort, que tem as feições do próprio Alberto Breccia, numa perturbante antevisão do que seria o rosto envelhecido do desenhador, algo que Breccia já tinha tentado antes com Eustáquio Mendez, personagem que aparece en El Ídolo, o segundo episódio de Sherlock Time, e cujas parecenças com Ezra Winston e com o próprio Breccia, são tão evidentes como inegáveis. Já o rosto de Mort Cinder, que Breccia demorou a encontrar, razão que obrigou Oesterheld a retardar a entrada em cena de Cinder no episódio inicial, Os Olhos de Chumbo, é inspirado em Horácio Lalia, um futebolista que mais tarde se tornaria também ele desenhador, tendo um dos seus álbuns, com adaptações de Edgar Alan Poe (O Gato Preto), sido publicado em Portugal pelas Edições Asa.

Demos outra vez a palavra a Oesterheld, desta vez partindo de um texto escrito em 1972, em que a personagem de Ezra Wiston se define na primeira pessoa e tenta explicar quem é Mort Cinder: “as coisas velhas ficam impregnadas da vida que as envolveu. Mas muito poucos conseguem captar as angústias, as emoções que ficaram aprisionadas, fósseis invisíveis, dentro das coisas velhas. Sou uma dessas raras pessoas, daí me ter tornado antiquário. Também sinto fascinação pelos templos, não importa a religião. Tantas preces, tanta dor, tanta esperança, dormem nas paredes de um templo. Também me fascinam as armas, carregadas para sempre com a morte que alguma vez deram. Morte talvez criminosa, talvez libertadora.
Mort Cinder consegue captar melhor, muito melhor do que eu ou qualquer outro, toda essa vida cristalizada para sempre. Mort Cinder é talvez essa vida que ficou incrustada na matéria inerte (nunca direi morte) das coisas. E digo talvez, porque nem eu, que vivi tanto tempo com ele, sei dizer quem é Mort Cinder”.

A partir deste esquema narrativo simples, mas engenhoso e cheio de potencialidades, a série foi sendo construída, de forma não muito planeada e quase mecânica, com o tema dos primeiros episódios a ser estruturado à medida que eram escritos, o que justifica alguns desequilíbrios. Mas Oesterheld não se preocupava em esconder o jogo, pois declarou numa célebre entrevista a Carlos Trillo e Guilhermo Saccomano, publicada em Portugal na revista Tintin, que: “as faltas e indefinições de Mort Cinder foram mais tarde elogiadas como uma descoberta acertada. Mas mentiria se afirmasse ter sido intencional. Na realidade, esse êxito, se assim se pode considerar, foi resultado das circunstâncias”.

Este carácter experimental está igualmente patente nos desenhos de Breccia, que, quando começou a desenhar a série, “não podia saber o que devia fazer, nem tão pouco comecei a ver o que os outros faziam”, optando por um estilo próprio, em que o jogo contrastante de luz e sombras e as figuras angulosas se adaptavam ao clima específico de cada história, ajudando a criar um ambiente de permanente tensão, com Breccia a variar as técnicas conforme as necessidades das histórias, como é o caso dos dois episódios passados na prisão, em que o trabalho de tramas de Breccia é absolutamente notável. Do mesmo modo, a iluminação que Breccia dá às pranchas, digna do melhor cinema expressionista, vai tornando-se cada vez mais dramática ao longo da série, fruto do próprio estado de espírito do desenhador, cuja primeira mulher estava à morte. Para esse efeito dramático contribui, e muito, a troca do “pincel frio que queima”, usado em Sherlock Time, pela lamina que rasga a pele e as sombras, mais exactamente, laminas de barbear utilizadas como espátulas, aspecto em que Breccia foi pioneiro, tal como o seu jogo de sombras em negativo e o preto e branco de alto contraste, influenciou vários desenhadores, de José Muñoz, a Frank Miller, em Sin City.

Em 1964, após terem sido publicadas mais de duzentas pranchas, correspondentes a dez episódios, em que Mort Cinder nos guiou da construção da Torre de Babel até às trincheiras da I Guerra Mundial, passando pela Batalha das Termópilas, em que 300 espartanos retardaram o avanço do poderoso exército de Xerxes (episódio que, décadas depois, seria novamente adaptado à BD por Frank Miller, em 300) a série chega ao fim. O episódio dedicado à batalha das Termópilas é mesmo o último e nele, Mort Cinder, único sobrevivente das tropas espartanas, é deixado ir em paz pelo próprio Xerxes que, impressionado com a sua coragem lhe diz: “vai-te homem de Esparta... tu és mais Rei do que eu, és rei de ti próprio...” Um último diálogo, que poderia funcionar como epitáfio do próprio Oesterheld, “desaparecido” em 1977 e que, provavelmente durante o ano de 1978, terá pago com a vida o ter querido ser Rei de si próprio, numa terra onde os militares não tinham a nobreza de espírito do Rei Xerxes...
O grande investimento artístico e humano dos seus autores foi recompensado, pois não só Mort Cinder é tida como uma das séries mais importantes da BD mundial, como o próprio Breccia a considerava, muito justamente, como a melhor coisa que fizera.
Em Portugal, onde a obra de Oesterheld tem sido insuficientemente divulgada, Mort Cinder é honrosa excepção. O episódio O Vitral, foi publicado em 1976 no jornal Lobo Mau, numa época em que, na Argentina, Oesterheld, ligado à guerrilha montonera, já tinha entrado na clandestinidade. O resto da série está parcialmente editada em álbum pelas Edições Asa, que lançou apenas Os Olhos de Chumbo, o primeiro dos dois volumes da magnífica edição da Vertige Graphic, que publica pela primeira vez no seu formato original, todos os episódios desta magnífica série, ponto mais alto da frutuosa colaboração entre Alberto Breccia e Hector German Oesterheld.
Versão integral de um texto publicado (com alguns cortes, por questões de espaço) no catálogo da Exposição Oesterheld, o Homem como Unidade de Medida, organizada pelo Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem da Amadora, por ocasião do Amadora BD 2009