Mostrar mensagens com a etiqueta Mort Cinder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mort Cinder. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Oesterheld e o fantástico


OESTERHELD E O FANTÁSTICO

Este post é dedicado à memória de Elsa Sanchez Oesterheld, que no dia 22 de Junho de 2015 se juntou ao marido e às filhas, encontrando finalmente a paz.

A recente publicação em Portugal, integrada na colecção Novela Gráfica, de Mort Cinder, obra maior de Alberto Breccia e Hector Oesterheld, surge como o pretexto ideal para dar a conhecer aos leitores da revista BANG! um pouco mais sobre a vida e obra do maior argumentista de língua espanhola e sobre a forma como o fantástico, seja através do terror ou da ficção científica, está bem presente nessa obra.
Nascido em Buenos aires em 1919, de uma família onde se cruzavam as ascendências basca e alemã, Hector German Oesterheld (HGO) formou-se em geologia, mas isso não diminuiu o seu interesse pela leitura e pela escrita. Aos 23 anos, quando já estava a trabalhar numa empresa de exploração petrolífera, publica o seu primeiro conto no suplemento literário dominical do jornal LA PRENSA, jornal em que começou a trabalhar como revisor, até ir trabalhar no laboratório de mineração do Banco de Crédito Industrial. Nos anos seguintes, vai tentando conciliar a escrita com a actividade de geólogo, até acabar por se dedicar inteiramente à escrita, em meados da década de 40, escrevendo sobretudo livros de divulgação e contos infantis.
Em 1951, o dono da Editora Abril propôs-lhe escrever para Banda Desenhada, género que Oesterheld não lia nem apreciava especialmente, mas onde tentou fazer “o melhor que sabia”, com os resultados que conhecemos… O primeiro argumento que escreveu foi para Ray Kitt, uma série policial ilustrada por Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese, então radicado na Argentina. Embora as colaborações com Pratt, que disse “aprendi muito com Oesterheld. Do ponto de vista da técnica narrativa, aprendi mais do que com qualquer outro” sejam em histórias realistas, como Sgt Kirk, um western, ou Ernie Pike, uma história de guerra, rapidamente o seu nome aparece associado à ficção científica, estando ligado, como editor, tradutor e autor, à revista MAS ALLÁ, publicação pioneira da FC na Argentina, que deu a descobrir naquele país autores como Ray Bradbury, ou Isac Asimov, em traduções de Oesterheld.
Para a revista DRAGON BLANCO, lançada em 1955, HGO escreve cinco séries, duas quais, Chas Erikson e Lobo Nuncan, são de FC, tal como acontece com Uma Uma, história ilustrada por Solano Lopez, que escreve para a revista RAYO ROJO, sobre uma ilha do Pacífico invadida por extraterrestres. O tema desta sua primeira colaboração com Solano López é desenvolvido em outros trabalhos que farão juntos dois anos depois, a série Rolo, el Marciano Adoptivo e, sobretudo, El Eternauta, considerada como a mais importante BD argentina de todos os tempos, de tal maneira que o dia 4 de Setembro, em que chegou às bancas a revista HORA CERO com o primeiro capítulo de El Eternauta, é considerado oficialmente desde 2005 como o Dia Nacional da BD (Historieta) na Argentina.
Publicada ao longo de dois anos na revista HORA CERO SEMANAL entre 1957 e 1959, El Eternauta é o relato da invasão da cidade de Buenos Aires por forças extraterrestres, relato que é feito por um dos sobreviventes, Juan Salvo, a um escritor de BD que, embora nunca seja nomeado, tudo indica que seja o próprio autor, pois é a casa onde vivia o escritor que Solano López desenha aparecendo assim Oesterheld como personagem da sua própria história, num exercício de meta-ficção.
Tudo começa com a queda de uma estranha neve fluorescente que mata ao contacto com a pele, neve essa que abre o caminho para uma invasão extraterrestre comandada pelos Ellos, seres que nunca veremos, e executada por tropas de assalto compostas por seres de outros planetas, como os Cascarudos, animais de grande porte parecidos com escaravelhos gigantes, e os Manos, semelhantes aos humanos, com a excepção das mãos com imensos dedos, povos conquistados pelos Ellos e usados como carne para canhão na invasão ao planeta Terra.
Depois de uma série de peripécias, em torno do combate desigual dos sobreviventes contra os invasores, Juan Salvo entra acidentalmente numa máquina dos invasores que o transporta para outras dimensões, para longe da sua família, transformando-o “num peregrino através dos séculos, um viajante na eternidade, um ETERNAUTA”.
Uma dessas muitas viagens pelo espaço e pelo tempo trá-lo finalmente de volta a Buenos Aires, em 1959, onde encontra um escritor a quem conta o que se irá passar anos depois (a acção da história decorre em 1963) para que este, através da Banda Desenhada, avise os leitores para o que está para acontecer.
Se as histórias de invasões extraterrestres não eram propriamente novidade, muito menos na obra de HGO, o que já era novidade, era uma invasão que tivesse como cenário a cidade de Buenos Aires, onde viviam a maioria dos leitores de HORA CERO, que reconheciam com facilidade os cenários desenhados com rigor fotográfico por Solano Lopez e se identificavam com Juan Salvo e os seus amigos, grupo heterogéneo na sua composição social que representava os vários extractos da sociedade argentina e que é o verdadeiro herói da história, como salienta Oesterheld: “O verdadeiro herói de El Eternauta é um herói colectivo, um grupo de homens. Isso reflecte, embora sem intenção prévia, as minhas convicções: o único herói válido é o herói “em grupo”, nunca o herói individual, o herói solitário”.
Para além da dimensão espectacular da aventura, e de algumas cenas fortíssimas, como a sequência inicial com a neve mortal, ou a forma como é gerida a entrada em cena dos Gurbos, de quem vemos primeiro as pegadas e depois o rasto de destruição que causam, antes de os vermos finalmente, esta história de um grupo de indivíduos normais colocados numa situação excepcional, tem momentos de pura poesia, como é o caso da magnífica cena em que um dos Manos (seres pacíficos, obrigados a combater pelos Ellos, que lhes infiltraram uma “glândula de terror”, que liberta uma substância que os mata caso sintam medo) se despede da vida cantando uma estranha canção.
Ainda El Eternauta estava em publicação quando o escritor cria para a revista EL TONY, da editorial Columba, a série Star Kenton, uma saga espacial, ilustrada por Walter Casadei e protagonizada por um cientista e piloto que, depois de salvar a terra de uma invasão extraterrestre, se assume como um vigilante espacial
Em 1959, ao mesmo tempo que continua a desenvolver outras séries, de diversos géneros, com diferentes desenhadores, HGO inicia a sua colaboração com Alberto Breccia em Sherlock Time, uma história policial com toques de ficção científica e de fantástico, protagonizado por um detective que podia viajar no tempo, história que serviu ponto de partida para Mort Cinder, série igualmente protagonizada por um personagem com capacidade de viajar no tempo, mas neste caso, através das memórias que a descoberta de um objecto lhe trazem de vidas passadas.
Série em que o fantástico e o terror convivem com uma visão profundamente humana da história, Mort Cinder é um marco na história da BD mundial, muito por força do extraordinário trabalho gráfico de Breccia, cuja importância Oesterheld reconhece ao referir: “Há sofrimento, tormento em Mort Cinder. Isso reflecte talvez o meu estado de alma particular, mas o essencial dessa atmosfera vem de Breccia. Há uma quarta dimensão no seu desenho, uma capacidade de sugestão que o distingue da maioria dos desenhadores que conheço. É essa força constantemente aplicada, que dá ao seu desenho todo o seu valor e inflama a imaginação dos argumentistas.”
Entre as dezenas de séries que o escritor cria nos anos seguintes, ressaltam dois super-heróis, Bird Man e Future Man. Um advogado americano que decide combater o crime depois de encontrar um punhal que lhe dá superpoderes e um cientista e explorador nascido no século XXV que consegue viajar no tempo, que vão ter direito cada um à sua própria revista.
Em 1969, HGO vai recuperar, agora com arte de Alberto Breccia, El Eternauta. Publicada agora na GENTE, uma revista semanal de informação, esta ficção apocalíptica protagonizada por um indivíduo que, tal como Sherlock Time e Mort Cinder, não está sujeito às leis do tempo, podendo, ao atravessar um portal dimensional, aparecer num outro local ou época, não teve a aceitação que merecia e os autores esperavam.
Talvez devido às mudanças na própria história (nesta nova versão, em vez de uma invasão global, as grandes potências fazem um acordo com os invasores extraterrestres, entregando-lhes a América do Sul) algo perturbador para as consciências ociosas dos leitores da revista GENTE, ou ao grafismo de Breccia, a milhas do estilo mais convencional de Solano López e demasiado abstracto para o gosto do público, que tem dificuldade em reconhecer a cidade de Buenos Aires nas colagens de Breccia, choveram as cartas de protesto e o editor decidiu acabar com a série, pedindo desculpas aos leitores. Isto permite perceber o final circular da história (a melhor maneira que Oesterheld encontrou de concluir rapidamente a narrativa) e o desequilíbrio dos capítulos finais, em que o escritor condensou em quatro ou cinco páginas, repletas de texto, uma acção inicialmente prevista para ocupar quinze ou vinte páginas.
De qualquer modo, e apesar deste final inglório, estamos perante um trabalho graficamente inovador, em que Breccia, aqui claramente seduzido pela arte contemporânea, visível nas inúmeras referências à "Op Art" e à "Pop Art", começava a utilizar a técnica da colagem, abrindo caminho para o que iria ser uma característica marcante da sua produção na década seguinte.
Conforme refere HGO: “A versão de El Eternauta publicada na GENTE foi um fracasso. E fracassou porque não era para essa revista. Eu era outro, não podia escrever o mesmo. E Breccia, por seu lado, também era outro. Este Eternauta tinha as suas virtudes e também os seus defeitos. Por um lado, a mensagem literária, por outro, a mensagem gráfica. Quanto à mensagem literária, apercebi-me, muito mais tarde, que me tinham suprimido parágrafos inteiros. (…) Em relação à parte gráfica, o verdadeiro final foi quando chamaram o Breccia e lhe explicaram que havia um desfasamento com o que o público queria e lhe pediram que suavizasse a coisa. Avisaram-no mais duas ou três vezes, mas ele nunca fez caso. Não aceitou fazer modificações e então decidiram acabar com El Eternauta”.
Se o escritor iria voltar ao tema da invasão extraterrestre logo no ano seguinte com La Guerra de los Antartes, uma história publicada inicialmente em 1970 na revista 2001, com desenhos de Léon Napoo, que teve direito a uma nova versão em 1974, com desenhos de Gustavo Trigo, no jornal NOTICIAS, El Eternauta regressaria numa segunda aventura desenhada por Solano López, cuja publicação se iniciou em 1976, na revista SKORPIO. Escrita por HGO então já na clandestinidade, devido à sua ligação activa ao movimento Montonero, a história terminou a sua publicação numa altura em que Oesterheld já tinha “desaparecido” às mãos da ditadura militar argentina e provavelmente já nem estaria vivo, tal como as suas quatro filhas, que também eram militantes activas da guerrilha montonera.
Nesta história, passada num futuro próximo, em que a invasão extraterrestre tinha sido bem-sucedida, Oesterheld não se limita a escutar as aventuras de Juan Salvo, o Eternauta, mas participa activamente nelas como membro da resistência, pois o escritor que nos episódios anteriores não tinha nome, surge agora identificado como German, o nome do meio de HGO e também o nome que ele usava enquanto militante montonero na clandestinidade. Ou seja, o personagem, tal como o seu criador, abandona uma postura passiva e assume uma opção clara pela acção directa.
Apesar do traço de Solano López mostrar uma grande evolução, o carácter marcadamente panfletário da história, faz com que esta continuação seja bastante menos interessante. Juan Salvo, em vez de um homem normal, preocupado em recuperar a sua família, surge aqui como um líder revolucionário implacável, disposto a tudo sacrificar à sua causa.
Uma mudança radical no comportamento do herói que Solano López não aceitou bem, pondo mesmo em causa que tivesse sido o próprio Oesterheld a escrever toda a história, sugerindo que o escritor poderá ter utilizado a história para passar mensagens cifradas à guerrilha montonera, no meio dos diálogos da história. De qualquer modo, o caracter panfletário desta continuação, é coerente com a forma como a obra de HGO reflecte as suas opções políticas e ideológicas. Conforme refere Carlos Trillo: “não é preciso ser um grande caçador de metáforas para associar os Ellos com os militares que tomaram o poder”. Impressão que o facto das três versões já referidas do Eternauta terem sido publicadas na sequência de golpes de estado militares, só vem reforçar.
Juan Salvo, o Eternauta, viveria ainda outras aventuras pelas mãos de Solano López. Já a memória de Oesterheld, tal como Juan Salvo, viaja para a eternidade através de obras como Mort Cinder ou El Eternauta. 
Publicado originalmente no nº 18 da revista BANG!, de Junho de 2015

domingo, 10 de maio de 2015

Colecção Novela Gráfica 11 - Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia


Nesta colecção Novela Gráfica, este foi um dos livros em que me deu mais prazer colaborar, não só porque conseguimos fazer uma edição que, não sendo perfeita, é possivelmente a melhor disponível a nível mundial, mas principalmente porque que se trata de um livro magnífico, de dois fantásticos criadores. 
Deixo-vos aqui com o editorial que escrevi para este volume, que recupera um texto que fiz em 2009, a convite da Cristina Gouveia,  para o catálogo da exposição Oesterheld: O Homem como Unidade de Medida, organizada pelo CNBDI, numa versão largamente revista, aumentada e actualizada. 
O volume traz também um pósfacio meu sobre o destino trágico de Oesterheld e das suas filhas, que optei por deixar para publicar aqui  mais tarde, possivelmente para o dia 4 de Setembro, dia que, desde 2005, é o "dia de la Historieta", na Argentina, precisamente por ter sido nesse dia, em 1957, que começou a ser publicado na revista HORA CERO, outro grande clássico de Oesterheld, a série El Eternauta.

AS MIL E UMA MORTES DE MORT CINDER

Do inesgotável filão de criadores que fazem da Banda Desenhada argentina uma das mais importantes a nível mundial, dois nomes sobressaem acima de todos. O de Hector German Oesterheld e o de Alberto Breccia.
Considerado muito justamente como o maior argumentista de Banda Desenhada de língua espanhola, H. G. Oesterheld, ao longo da sua carreira de quase três décadas (uma carreira extremamente produtiva, mas que foi tragicamente encurtada pela repressão da ditadura militar argentina) escreveu mais de cento e sessenta histórias para cinquenta desenhadores diferentes. Conciliando a quantidade com a qualidade na sua escrita, Oesterheld soube sempre encontrar desenhadores à altura do seu talento, conseguindo criar as parcerias adequadas a cada projecto. 
De Solano Lopez em El Eternauta, passando por Hugo Pratt em Sgt. Kirk e Ernie Pike, Arturo Del Castillo em Randall, até uma colaboração com Dino Battaglia em Capitan Caribe, foram inúmeros os desenhadores com quem Oesterheld colaborou, mas a sua parceria mais importante foi a que estabeleceu com Alberto Breccia, o desenhador nascido no Uruguai, mas que fez da Argentina a sua pátria. 
A primeira colaboração entre Alberto Breccia e Oesterheld deu-se em 1958, com Sherlock Time, um policial com toques de ficção científica e de fantástico, protagonizado por um detective que podia viajar no tempo (o nome, Sherlock Time, não engana), em que Breccia conseguiu criar um ambiente estranho e fantástico, sem no entanto abdicar de uma representação minuciosa e realista da cidade de Buenos Aires, onde se desenrola a intriga. Ou seja, características que encontramos também em El Eternauta, em que os leitores argentinos descobriram um espaço quotidiano que bem conheciam, a cidade de Buenos Aires, retratada com rigor fotográfico por Solano Lopéz, perturbado por fenómenos extraordinários (no caso de El Eternauta, uma invasão extraterrestre).

José Muñoz, discípulo de Breccia e seu aluno na Escola Panamericana de Artes, onde Hugo Pratt também leccionou, define assim o traço do mestre em Sherlock Time, : “em cada toque de pincel, frio, preciso e rigoroso, encontramos o tempo fechado definitivo de cada desenho. Esse pincel frio, queima”.
Em 1962, ano em que um golpe militar pretende pôr fim à actividade da guerrilha argentina, iniciada três anos antes, começa a ser publicada na revista MISTERIX aquela que é considerada a obra-prima da dupla Breccia/Oesterheld: a série Mort Cinder. Mort Cinder, como o definiu o próprio Oesterheld: “é a morte que nunca deixa de o ser (...) um herói que morre e ressuscita, e no qual há angústia e tortura". Esta capacidade de morrer e viver de novo, permite à personagem atravessar diferentes épocas e locais da história, dos quais guarda uma memória latente. O filósofo argentino Óscar Masotta, compara Mort Cinder a o Fantasma, personagem criado por Lee Falk, salientado o que os separa: “na verdade, Mort Cinder, o “homem das mil e uma mortes”, é uma interessante inversão do esquema que rege a personagem de Lee Falk, o ‘‘fantasma que caminha”, o único herói de BD que morre... (no Fantasma, o personagem não morre, só morrem os homens que vestem o fato de Fantasma, que passa de gerações em, gerações; em Mort Cinder o homem é imortal, só morrem as suas múltiplas incarnações históricas).” O Escritor argentino Juan Sasturain é mais pragmático, referindo: “Mort Cinder é mais um mecanismo do que uma personagem – sendo todos, não é ninguém - que serve de pretexto para tecer histórias sombrias de amor e morte”. E a morte, que Oesterheld considerava a maior das personagens, está bem presente no nome de Mort Cinder, mais um nome que não engana, e que evoca a morte e as cinzas.
Na prática, Mort Cinder é a sequência lógica e natural de outras personagens criadas anteriormente por Oesterheld, pois tal como Sherlock Time, ou o Juan Salvo de El Eternauta, Mort Cinder é mais um herói criado por Oesterheld que está liberto das leis do espaço e do tempo.
 Se no caso de Juan Salvo e Sherlock Time essas viagens são feitas com recursos a máquinas sofisticadas, Mort Cinder viaja através da sua memória e das recordações que ela encerra. Recordações que são normalmente espoletadas por um qualquer objecto, cuja história está ligada a uma anterior vivência de Cinder. De modo a facilitar o reviver dessas experiências, Oesterheld criou como co-protagonista e narrador da série, a personagem de Ezra Winston, um antiquário amigo de Mort, que tem as feições do próprio Alberto Breccia, numa perturbante antevisão do que seria o rosto envelhecido do desenhador, algo que Breccia já tinha tentado antes com Eustáquio Mendez, personagem que aparece en El Ídolo, o segundo episódio de Sherlock Time, e cujas parecenças com Ezra Winston e com o próprio Breccia, são tão evidentes como inegáveis.
Já o rosto de Mort Cinder - que Breccia demorou a encontrar, razão que obrigou Oesterheld a retardar a entrada em cena de Cinder no episódio inicial, Os Olhos de Chumbo - é inspirado em Horácio Lalia, um futebolista argentino que mais tarde se tornaria também ele desenhador.
Demos outra vez a palavra a Oesterheld, desta vez partindo de um texto escrito em 1972, em que a personagem de Ezra Wiston se define na primeira pessoa e tenta explicar quem é Mort Cinder: “as coisas velhas ficam impregnadas da vida que as envolveu. Mas muito poucos conseguem captar as angústias, as emoções que ficaram aprisionadas, fósseis invisíveis, dentro das coisas velhas. Sou uma dessas raras pessoas, daí me ter tornado antiquário. Também sinto fascinação pelos templos, não importa a religião. Tantas preces, tanta dor, tanta esperança, dormem nas paredes de um templo. Também me fascinam as armas, carregadas para sempre com a morte que alguma vez deram. Morte talvez criminosa, talvez libertadora.
Mort Cinder consegue captar melhor, muito melhor do que eu ou qualquer outro, toda essa vida cristalizada para sempre. Mort Cinder é talvez essa vida que ficou incrustada na matéria inerte (nunca direi morte) das coisas. E digo talvez, porque nem eu, que vivi tanto tempo com ele, sei dizer quem é Mort Cinder”.
A partir deste esquema narrativo simples, mas engenhoso e cheio de potencialidades, a série foi sendo construída, de forma não muito planeada e quase mecânica, com o tema dos primeiros episódios a ser estruturado à medida que eram escritos, o que justifica alguns desequilíbrios. Mas Oesterheld não se preocupava em esconder o jogo, pois declarou numa célebre entrevista a Carlos Trillo e Guilhermo Saccomano, publicada em Portugal na revista Tintin, que: “as faltas e indefinições de  Mort Cinder foram mais tarde elogiadas como uma descoberta acertada. Mas mentiria se afirmasse ter sido intencional. Na realidade, esse êxito, se assim se pode considerar, foi resultado das circunstâncias”.
Este carácter experimental está igualmente patente nos desenhos de Breccia, que, quando começou a desenhar a série, “não podia saber o que devia fazer, nem tão pouco comecei a ver o que os outros faziam”, optando por um estilo próprio, em que o jogo contrastante de luz e sombras e as figuras angulosas se adaptavam ao clima específico de cada história, ajudando a criar um ambiente de permanente tensão, com Breccia a variar as técnicas conforme as necessidades das histórias, como é o caso dos dois episódios passados na prisão, em que o trabalho do desenhador com tramas mecânicas é absolutamente notável e inovador.
Do mesmo modo, a iluminação que Breccia dá às suas pranchas, digna do melhor cinema expressionista, vai tornando-se cada vez mais dramática ao longo da série, fruto do próprio estado de espírito do desenhador, cuja primeira mulher estava à morte. Para esse efeito dramático contribui, e muito, a troca do “pincel frio que queima”, usado em Sherlock Time, pela lâmina que rasga a pele e as sombras, mais exactamente, lâminas de barbear utilizadas como espátulas, aspecto em que Breccia foi pioneiro e que resulta particularmente eficaz nos grandes planos dos rostos. Rostos sofridos, marcados pela vida e pelo destino, que não escondem uma profunda tristeza e sofrimento.
Igualmente inovador é o seu jogo de sombras em negativo e o preto e branco de alto contraste, aspecto que influenciou vários desenhadores, sendo Frank Miller, em Sin City, o exemplo mais evidente.
O próprio Oesterheld é o primeiro a reconhecer a importância do desenho de Breccia para o sucesso de Mort Cinder, ao dizer: “Há sofrimento, tormento em Mort Cinder. Isso reflecte talvez o meu estado de alma particular, mas o essencial dessa atmosfera vem de Breccia. Há uma quarta dimensão no seu desenho, uma capacidade de sugestão que o distingue da maioria dos desenhadores que conheço. É essa força constantemente aplicada, que dá ao seu desenho todo o seu valor e inflama a imaginação dos argumentistas.”
Em 1964, após terem sido publicadas mais de duzentas pranchas, correspondentes a dez episódios, em que Mort Cinder nos guiou da construção da Torre de Babel até às trincheiras da I Guerra Mundial, passando pela Batalha das Termópilas, em que 300 espartanos retardaram o avanço do poderoso exército de Xerxes, a série chega ao fim. O episódio dedicado à batalha das Termópilas é mesmo o último e nele, Mort Cinder, único sobrevivente das tropas espartanas, é deixado ir em paz pelo próprio Xerxes que, impressionado com a sua coragem lhe diz: “vai-te homem de Esparta... tu és mais Rei do que eu, és rei de ti próprio...”  Um último diálogo, que poderia funcionar como epitáfio do próprio Oesterheld, “desaparecido” em 1977, juntamente com as quatro filhas, e que, provavelmente durante o ano de 1978, terá pago com a vida o ter querido ser Rei de si próprio, numa terra onde os militares não tinham um milésimo da nobreza de espírito do Grande Rei Xerxes...
O grande investimento artístico e humano dos seus autores foi recompensado, pois não só Mort Cinder é tida como uma das séries mais importantes da BD mundial, como o próprio Breccia a considerava, muito justamente, como a melhor coisa que fizera.
Em Portugal, onde a obra de Oesterheld tem sido insuficientemente divulgada, Mort Cinder é honrosa excepção. O episódio O Vitral, foi publicado em 1979 no jornal Lobo Mau, numa época em que, na Argentina, Oesterheld, ligado à guerrilha montonera e na clandestinidade desde 1976, já tinha sido preso e já estaria morto.
O resto da série foi parcialmente editada em álbum pelas Edições Asa, já neste século, embora essa editora tenha lançado apenas Os Olhos de Chumbo, o primeiro dos dois volumes que compõem a série na edição francesa da Vertige Graphic, que serve de base à edição da Asa. Finalmente, graças à edição que têm nas mãos, está finalmente disponível numa edição integral, bastante mais fiel ao original e com superior qualidade de reprodução, esta magnífica série, ponto mais alto da frutuosa colaboração entre Alberto Breccia e Hector German Oesterheld. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

A Despedida da Colecção Novela Gráfica


Esta semana chegou ao fim a Colecção Novela Gráfica, com dois volumes distribuídos em dias sucessivos. Mort Cinder, na quarta-feira e Bando de Dois, no dia seguinte. Por isso, o meu texto para o Público foi dedicado aos dois livros em conjunto. Aqui deixo esse texto, prometendo mais para a frente dois textos mais longos, dedicados aos volumes individuais, começando por Mort Cinder, cujo editorial aqui publicarei durante o fim de semana. Até lá, aqui fica o meu último texto para o Público sobre a colecção Novela Gráfica.

A AMÉRICA DO SUL EM DESTAQUE
NO FINAL DA COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA

Novela Gráfica – Vol. 11
Mort Cinder
6 de Maio
Argumento – Hector G. Oesterheld
Desenho – Alberto Breccia
Por + 9,90€

Novela Gráfica – Vol. 12
Bando de Dois
7 de Maio
Argumento e Desenho – Danilo Beyruth
Por + 9,90€
A colecção Novela gráfica chega ao fim na próxima semana, com o lançamento em dias simultâneos dos dois últimos volumes da colecção: Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia e Bando de Dois, de Danilo Beyruth. Um clássico incontornável da BD argentina e mundial e a obra de confirmação de um novo talento da BD brasileira.
 Assim, logo na quarta-feira, dia 6 de Maio, chega às bancas a versão integral de Mort Cinder, do argentino Hector German Oesterheld e do uruguaio Alberto Breccia. No dia seguinte, é a vez de O Bando de Dois, do brasileiro Danilo Beyruth, fechar esta primeira colecção que o Público e a Levoir dedicam à novela gráfica.

Publicado originalmente na Argentina entre 1962 e 1964 na revista Misterix, Mort Cinder é uma obra de culto, considerada como o ponto mais alto da obra conjunta dos dois geniais criadores, que compreende títulos tão importantes como a série Sherlock Time, as biografias em BD de Ché Guevara e Evita Péron e a versão de 1969 de El Eternauta.
Nascido em 1919 em Buenos Aires, Oesterheld formou-se em geologia, mas cedo optou por se tornar escritor e jornalista, em vez de geólogo. Tendo começado a escrever para os jornais nos anos 40, só 10 anos depois escreveu a sua primeira Banda Desenhada, por sugestão de um editor, pois Osterheld nem sequer era leitor regular, nem tinha qualquer experiência no género. Isso não o impediu de, em menos de 30 anos, entre 1950 e 1976, ano em que “desapareceu” às mãos do exército argentino, ter escrito mais de cento e sessenta histórias para cinquenta desenhadores diferentes, entre os quais Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese.
Da sua obra ressaltam títulos incontornáveis, como a série El Eternauta, Sargento Kirk, ou Ernie Pike, mas Mort Cinder é considerado, muito justamente, como o seu mais importante trabalho.
Mort Cinder, como o definiu o próprio Oesterheld: “é a morte que nunca deixa de o ser (...) um herói que morre e ressuscita, e no qual há angústia e tortura". Esta capacidade de morrer e viver de novo, permite à personagem atravessar diferentes épocas e locais da história, dos quais guarda uma memória latente, que é despertada por um qualquer objecto, cuja história está ligada a uma anterior vivência de Cinder. De modo a facilitar o reviver dessas experiências, Oesterheld criou como co-protagonista e narrador da série, a personagem de Ezra Winston, um antiquário amigo de Mort, que tem as feições do desenhador Alberto Breccia.
 O próprio Oesterheld é o primeiro a reconhecer a importância do desenho de Breccia para o sucesso de Mort Cinder, ao dizer: “Há sofrimento, tormento em Mort Cinder. Isso reflecte talvez o meu estado de alma particular, mas o essencial dessa atmosfera vem de Breccia. Há uma quarta dimensão no seu desenho, uma capacidade de sugestão que o distingue da maioria dos desenhadores que conheço. É essa força constantemente aplicada, que dá ao seu desenho todo o seu valor e inflama a imaginação dos argumentistas.”
E o trabalho de Breccia, desenhador de origem uruguaia que fez carreira na Argentina, é não só sugestivo, mas extraordinariamente inovador, misturando as mais diversas técnicas, desde o uso de colagens à utilização de lâminas de barbear como espátulas, para criar páginas únicas, com um preto e branco de alto contraste, que influenciou artistas como José Muñoz e Frank Miller, que no seu Sin City foi beber directamente ao trabalho de Breccia em Mort Cinder.

A luta dos cangaceiros, homens a meio caminho entre o salteador e o guerrilheiro, que combatiam a lei no sertão brasileiro nas primeiras décadas do século XX tem conhecido as mais diversas abordagens, desde a literatura de cordel, o cinema, com filmes como O Cangaceiro, de Lima Barreto (1953), ou Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (1964) e, naturalmente, a BD, onde para além de diversos autores brasileiros, grandes nomes europeus como Hermann (Caatinga) ou Hugo Pratt (La Macumba du Gringo) abordaram o fenómeno. Em Bando de Dois, Danilo Beyruth revela-se à altura de tão ilustres antecessores, ao criar uma história de vingança, que em termos de planificação e enquadramentos, vai beber muito aos Western Spaguetti de Sérgio Leone. História dura e violenta, contada com grande dinamismo e eficácia, Bando de Dois arrecadou todos os principais prémios da indústria brasileira aquando da sua publicação original em 2010, encerrando assim com chave de ouro a colecção Novela Gráfica.
Publicado originalmente no jornal Público de 01/05/2015

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Mort Cinder, ou a morte que nunca deixa de o ser


Considerado muito justamente como o maior argumentista de Banda Desenhada de língua espanhola, Hector German Oesterheld, ao longo da sua carreira de quase três décadas (carreira extremamente produtiva, mas que foi tragicamente encurtada pela repressão da ditadura militar argentina) escreveu mais de cento e sessenta histórias para cinquenta desenhadores diferentes. Conciliando a quantidade com a qualidade na sua escrita, Oesterheld soube sempre encontrar desenhadores à altura do seu talento, conseguindo criar as parcerias adequadas a cada projecto.
De Solano Lopez em El Eternauta, passando por Arturo Del Castillo em Randall, até uma colaboração com Dino Battaglia em Capitan Caribe, foram inúmeros os desenhadores com quem Oesterheld colaborou, mas as suas parcerias mais importantes foram as que estabeleceu com Hugo Pratt e Alberto Breccia. Dois artistas que se vão encontrar em Buenos Aires, como professores na Escola Panamericana de Arte, instituição que vai formar artistas como José Muñoz, ou Eduardo Risso, entre (muitos) outros talentos argentinos e que foi criada em 1956, no mesmo ano em que foi abortado um golpe militar que pretendia recolocar Peron no poder.

Além da experiência de docência, os dois desenhadores atrás referidos vão igualmente partilhar os serviços de Oesterheld, chegando até Breccia a desenhar alguns episódios de Ernie Pike, uma das séries que ajudou a cimentar a fama de Pratt. Mas a primeira colaboração entre Alberto Breccia e Oesterheld deu-se em 1957, com Sherlock Time, um policial com toques de ficção científica e de fantástico, protagonizado por um detective que podia viajar no tempo (o nome, Sherlock Time, não engana), em que Breccia conseguiu criar um ambiente estranho e fantástico, sem no entanto abdicar de uma representação minuciosa e realista da cidade de Buenos Aires, onde se desenrola a intriga. Ou seja, algo que encontramos também em El Eternauta, em que os leitores argentinos descobriram um espaço quotidiano que bem conheciam, a cidade de Buenos Aires, retratada com rigor fotográfico por Solano Lopéz, perturbado por fenómenos extraordinários (no caso de El Eternauta, uma invasão extraterrestre).
José Muñoz , discípulo de Breccia, define assim o traço do mestre em Sherlock Time: “em cada toque de pincel, frio, preciso e rigoroso, encontramos o tempo fechado definitivo de cada desenho. Esse pincel frio, queima”.

Em 1962, ano em que um golpe militar pretende pôr fim à actividade da guerrilha argentina, iniciada três anos antes, começa a ser publicada na revista MISTERIX aquela que é considerada a obra-prima da dupla Breccia/Oesterheld: a série Mort Cinder. Mort Cinder, como o definiu o próprio Oesterheld: “é a morte que nunca deixa de o ser (...) um herói que morre e ressuscita, e no qual há angústia e tortura". Esta capacidade de morrer e viver de novo, permite à personagem atravessar diferentes épocas e locais da história, dos quais guarda uma memória latente. O filósofo argentino Óscar Masotta, compara Mort Cinder a o Fantasma, personagem criado por Lee Falk, salientado o que os separa: “na verdade, Mort Cinder, o “homem das mil e uma mortes”, é uma interessante inversão do esquema que rege a personagem de Lee Falk, o ‘‘fantasma que caminha”, o único herói de BD que morre... (no Fantasma, o personagem não morre, só morrem os homens que vestem o fato de Fantasma, que passa de gerações em, gerações; em Mort Cinder o homem é imortal, só morrem as suas múltiplas incarnações históricas).”

Pessoalmente, prefiro antes ver Mort Cinder, como a sequência lógica de outras personagens criadas anteriormente por Oesterheld, pois tal como Sherlock Time, ou o Juan Salvo de El Eternauta, Mort Cinder é mais um herói criado por Oesterheld que está liberto das leis do espaço e do tempo.
Se no caso de Juan Salvo e Sherlock Time essas viagens são feitas com recursos a máquinas sofisticadas, Mort Cinder viaja através da sua memória e das recordações que ela encerra. Recordações que são normalmente espoletadas por um qualquer objecto, cuja história está ligada a uma anterior vivência de Cinder. De modo a facilitar o reviver dessas experiências, Oesterheld criou como co-protagonista e narrador da série, a personagem de Ezra Winston, um antiquário amigo de Mort, que tem as feições do próprio Alberto Breccia, numa perturbante antevisão do que seria o rosto envelhecido do desenhador, algo que Breccia já tinha tentado antes com Eustáquio Mendez, personagem que aparece en El Ídolo, o segundo episódio de Sherlock Time, e cujas parecenças com Ezra Winston e com o próprio Breccia, são tão evidentes como inegáveis. Já o rosto de Mort Cinder, que Breccia demorou a encontrar, razão que obrigou Oesterheld a retardar a entrada em cena de Cinder no episódio inicial, Os Olhos de Chumbo, é inspirado em Horácio Lalia, um futebolista que mais tarde se tornaria também ele desenhador, tendo um dos seus álbuns, com adaptações de Edgar Alan Poe (O Gato Preto), sido publicado em Portugal pelas Edições Asa.

Demos outra vez a palavra a Oesterheld, desta vez partindo de um texto escrito em 1972, em que a personagem de Ezra Wiston se define na primeira pessoa e tenta explicar quem é Mort Cinder: “as coisas velhas ficam impregnadas da vida que as envolveu. Mas muito poucos conseguem captar as angústias, as emoções que ficaram aprisionadas, fósseis invisíveis, dentro das coisas velhas. Sou uma dessas raras pessoas, daí me ter tornado antiquário. Também sinto fascinação pelos templos, não importa a religião. Tantas preces, tanta dor, tanta esperança, dormem nas paredes de um templo. Também me fascinam as armas, carregadas para sempre com a morte que alguma vez deram. Morte talvez criminosa, talvez libertadora.
Mort Cinder consegue captar melhor, muito melhor do que eu ou qualquer outro, toda essa vida cristalizada para sempre. Mort Cinder é talvez essa vida que ficou incrustada na matéria inerte (nunca direi morte) das coisas. E digo talvez, porque nem eu, que vivi tanto tempo com ele, sei dizer quem é Mort Cinder”.

A partir deste esquema narrativo simples, mas engenhoso e cheio de potencialidades, a série foi sendo construída, de forma não muito planeada e quase mecânica, com o tema dos primeiros episódios a ser estruturado à medida que eram escritos, o que justifica alguns desequilíbrios. Mas Oesterheld não se preocupava em esconder o jogo, pois declarou numa célebre entrevista a Carlos Trillo e Guilhermo Saccomano, publicada em Portugal na revista Tintin, que: “as faltas e indefinições de Mort Cinder foram mais tarde elogiadas como uma descoberta acertada. Mas mentiria se afirmasse ter sido intencional. Na realidade, esse êxito, se assim se pode considerar, foi resultado das circunstâncias”.

Este carácter experimental está igualmente patente nos desenhos de Breccia, que, quando começou a desenhar a série, “não podia saber o que devia fazer, nem tão pouco comecei a ver o que os outros faziam”, optando por um estilo próprio, em que o jogo contrastante de luz e sombras e as figuras angulosas se adaptavam ao clima específico de cada história, ajudando a criar um ambiente de permanente tensão, com Breccia a variar as técnicas conforme as necessidades das histórias, como é o caso dos dois episódios passados na prisão, em que o trabalho de tramas de Breccia é absolutamente notável. Do mesmo modo, a iluminação que Breccia dá às pranchas, digna do melhor cinema expressionista, vai tornando-se cada vez mais dramática ao longo da série, fruto do próprio estado de espírito do desenhador, cuja primeira mulher estava à morte. Para esse efeito dramático contribui, e muito, a troca do “pincel frio que queima”, usado em Sherlock Time, pela lamina que rasga a pele e as sombras, mais exactamente, laminas de barbear utilizadas como espátulas, aspecto em que Breccia foi pioneiro, tal como o seu jogo de sombras em negativo e o preto e branco de alto contraste, influenciou vários desenhadores, de José Muñoz, a Frank Miller, em Sin City.

Em 1964, após terem sido publicadas mais de duzentas pranchas, correspondentes a dez episódios, em que Mort Cinder nos guiou da construção da Torre de Babel até às trincheiras da I Guerra Mundial, passando pela Batalha das Termópilas, em que 300 espartanos retardaram o avanço do poderoso exército de Xerxes (episódio que, décadas depois, seria novamente adaptado à BD por Frank Miller, em 300) a série chega ao fim. O episódio dedicado à batalha das Termópilas é mesmo o último e nele, Mort Cinder, único sobrevivente das tropas espartanas, é deixado ir em paz pelo próprio Xerxes que, impressionado com a sua coragem lhe diz: “vai-te homem de Esparta... tu és mais Rei do que eu, és rei de ti próprio...” Um último diálogo, que poderia funcionar como epitáfio do próprio Oesterheld, “desaparecido” em 1977 e que, provavelmente durante o ano de 1978, terá pago com a vida o ter querido ser Rei de si próprio, numa terra onde os militares não tinham a nobreza de espírito do Rei Xerxes...
O grande investimento artístico e humano dos seus autores foi recompensado, pois não só Mort Cinder é tida como uma das séries mais importantes da BD mundial, como o próprio Breccia a considerava, muito justamente, como a melhor coisa que fizera.
Em Portugal, onde a obra de Oesterheld tem sido insuficientemente divulgada, Mort Cinder é honrosa excepção. O episódio O Vitral, foi publicado em 1976 no jornal Lobo Mau, numa época em que, na Argentina, Oesterheld, ligado à guerrilha montonera, já tinha entrado na clandestinidade. O resto da série está parcialmente editada em álbum pelas Edições Asa, que lançou apenas Os Olhos de Chumbo, o primeiro dos dois volumes da magnífica edição da Vertige Graphic, que publica pela primeira vez no seu formato original, todos os episódios desta magnífica série, ponto mais alto da frutuosa colaboração entre Alberto Breccia e Hector German Oesterheld.
Versão integral de um texto publicado (com alguns cortes, por questões de espaço) no catálogo da Exposição Oesterheld, o Homem como Unidade de Medida, organizada pelo Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem da Amadora, por ocasião do Amadora BD 2009