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quinta-feira, 15 de agosto de 2019
NovelaGráfica V 7 - Flex Mentallo
OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA DUPLA GENIAL
Novela Gráfica V – Vol. 7
Flex Mentallo
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Quinta-feira, 15 de Agosto
Por + 10,90€
Bem conhecidos dos leitores portugueses, graças a títulos como WE3 e All Star Superman, Grant Morrison e Frank Quitely estreiam-se na colecção Novela Gráfica, na próxima quinta-feira, 15 de Agosto, com aquela que foi a sua primeira colaboração, Flex Mentallo, um clássico da Vertigo.
Publicado originalmente como uma mini-série em quatro volumes em 1996 e republicado numa edição de luxo definitiva, recolorida por Peter Doherty, em 2012, que serve de base à versão portuguesa, Flex Mentallo é muito mais do que a primeira colaboração entre Morrison e Quitely. É um exemplo de metaficção e uma reflexão sobre a história e mitologia dos comics de super-heróis e a sua importância para o mundo real. Ou como o próprio criador de Flex Mentallo, que é uma das personagens da história (e um alter ego óbvio do autor) explica aos leitores na página 101: “Criámos os comics porque sabíamos, de alguma forma, sabíamos, que faltava algo e tentámos preencher esse vazio, com histórias acerca de deuses e de super-heróis.”
Flex Mentallo nasceu durante a passagem de Morrison pela série Doom Patrol, um título clássico, criado um 1963 (o mesmo ano em que a Marvel lançou os Fantastic Four) e relançado em 1987, com o subtítulo “Os Mais Estranhos Super-Heróis do Mundo”, o que convinha perfeitamente a Morrison, que tomou conta da série em 1989, no número 19 e criou a sua versão da Doom Patrol. Uma versão incontornável e definitiva, que está na base da actual série televisiva, exibida em Portugal no canal por cabo da HBO, onde Flex Mentallo marca presença, interpretado pelo actor Devan Chandler Long.
Mas se o “quebrar da quarta parede”, colocando os personagens em confronto com o seu criador, é algo que Morrison já tinha feito antes na série Animal Man, aqui vai mais longe, traçando uma verdadeira história dos comics de super-heróis, iniciando uma reflexão sobre o género que irá culminar no seu livro Supergods. Isso é bem visível nas capas originais da mini-série, com cada uma a evocar umas das quatro idades dos Comics. A Idade do Ouro, a Idade da Prata, a Idade Sombria - que resultou do sucesso de Watchmen e de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, cuja capa é evocada no nº 3 da mini-série – e a Idade actual, que revisita de forma crítica e nostálgica as origens do género, reinventando-o para os leitores do século XXI.
E falta falar do excelente trabalho de Quitely, que se estreou aqui no mercado americano. Mas deixemos que seja o seu conterrâneo Grant Morrison a fazê-lo: “Graças às suas fantásticas habilidades de desenho, ele é capaz de criar coisas que antes só viviam nos meus sonhos, o que eu acho fascinante. Ele consegue captar no papel a sensação exacta dos meus sonhos. Ele abordou os personagens de uma forma que os fez parecerem bastante bizarros e bastante irrealistas, e acho que isso realmente se adequou ao livro.”
Publicado originalmente no jornal Público de 10/07/2019
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terça-feira, 2 de julho de 2019
Apresentação da colecção Novela Gráfica 2019
CINCO ANOS DA NOVELA GRÁFICA NO PÚBLICO
Tudo começou em 2015, com a publicação pelo Público, em colaboração com a Levoir, da primeira Colecção dedicada à Novela Gráfica. Uma aposta inovadora, num estilo de Banda Desenhada com um pendor mais literário, longe das características bem codificadas das anteriores colecções de BD franco-belga e Comics de super-heróis que o jornal Publico vinha editando desde 2003.
Iniciada, naturalmente, com Um Contrato com Deus, de Will Eisner, título que muitos consideram como o fundador do género, esta colecção podia ser perfeitamente definida por um único termo: liberdade. Liberdade temática, de registo gráfico, de formato, de número de páginas, numa utilização plena das imensas possibilidades da Banda Desenhada para fazer aquilo que os autores melhor sabem e querem fazer: contar histórias. Histórias que podiam ser autobiográficas, adaptações de obras literárias, biografias, de terror, de fantasia, de crítica social, de guerra, poéticas, ou profundamente humanas. Tudo dependia da vontade e do talento dos autores.
Autores vindos dos quatro cantos do Planeta, numa demonstração de diversidade, que ficou bem patente logo na primeira série, que incluía americanos como Eisner e Crumb, franceses como Moebius, Baudoin e Tardi, sul-americanos como Jodorowsky, Oesterheld, Breccia e Danilo Beiruth, espanhóis como Altarriba e Kim, para além do português Miguel Rocha, do suíço Cosey e do japonês Taniguchi, com estes dois últimos a repetirem presença em posteriores colecções, como de resto aconteceu também com Moebius, Tardi, Altarriba e Kim.
O sucesso junto dos leitores – que não se limitou aos coleccionadores habituais de BD, ajudando a criar um novo tipo mais alargado de público com interesses culturais mais abrangentes - e o reconhecimento traduzido pelos prémios atribuídos pelos principais eventos nacionais de BD, como o Festival da Amadora e a Comic Con, mostraram que esta era uma aposta certa e com futuro. Por isso, ao longo das colecções seguintes manteve-se a aposta na diversidade e na qualidade, recuperando clássicos como Mort Cinder, de Orsterheld e Breccia, V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd (que esteve em Lisboa para o lançamento do livro), Ronin, de Frank Miller, Aqui Mesmo, de Tardi e Forrest e O Último Recreio, de Altuna e Trillo, ao mesmo tempo que se mostrava aos leitores a extraordinária pujança da actual Novela Gráfica espanhola, bem representada em autores que se tornaram recorrentes nestas colecções, como Paco Roca, Kim, Miguelanxo Prado e Bartolomé Seguí.
Mas a aposta na Novela Gráfica não se ficou por estas colecções anuais. Está também patente em títulos pontuais, como A Casa, de Paco Roca, ou a biografia de Billie Holliday, de Munõz e Sampayo, entre outros. Além disso, inspirados pelo sucesso das colecções do Público e da Levoir, a maioria das editoras generalistas, incluindo aquelas com pouca ou nenhuma tradição na edição de BD, como a Porto Editora e a Relógio de Água, começaram também a publicar Novelas Gráficas, termo que já está perfeitamente enraizado no vocabulário dos leitores.
Na colecção de 2019, onde os autores em estreia são mais do que os que regressam, mantém-se a aposta na diversidade, bem patente no facto de albergar autores de sete nacionalidades diferentes, dois dos quais são mulheres. Uma presença feminina que acontece pela segunda vez, depois de Zeina Abirached na Colecção de 2016. E se em termos de género há uma evidente melhoria em relação às colecções anteriores, em termos de nacionalidades, para além de diversos autores espanhóis e americanos, temos uma iraniana e uma belga, um francês, um suíço, um belga e dois escoceses.
A abrir a Colecção, temos o regresso de um dos mais populares e prestigiados autores espanhóis da actualidade, que esta colecção ajudou a tornar conhecido dos leitores portugueses, Paco Roca, com o seu mais recente livro, O Tesouro do Cisne Negro, uma história inspirada no caso real da pilhagem dos destroços de um galeão espanhol afundado no século XVIII ao largo do Algarve. Mas Paco Roca não é o único regresso - num alinhamento onde não faltam as estreias, que serão objecto de análise num texto à parte. Também de volta está El Torres, o argumentista de O Fantasma de Gaudí, presente com O Rasto de Garcia Lorca, uma biografia do poeta, visto por aqueles que o conheceram e ilustrada por Carlos Hernandéz.
Outro regresso é o de Bartolomé Seguí, desenhador de Histórias do Bairro e Tatuagem, que agora, ao lado do escritor Felipe Hernandéz Cava assina As Serpentes Cegas, um policial negro passado em Nova Iorque, com a Guerra Civil espanhola como pano de fundo, que valeu à dupla o Prémio Nacional del Comic em 2009. Igualmente de retorno está Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Quebrada, mas que desta vez não conta com a presença de António Altarriba, seu cúmplice habitual, aventurando-se a solo com Neve nos Bolsos, um relato autobiográfico sobre a sua experiência com imigrante na Alemanha durante os anos 60.
Finalmente, Alfonzo Zapico, o autor de Gente de Dublin, a biografia de James Joyce que foi um dos grandes sucessos da colecção de 2018, está de volta com Café Budapeste, uma história tocante sobre a convivência entre árabes e judeus na cidade de Jerusalém, antes e depois do reconhecimento do Estado de Israel.
AUTORES EM ESTREIA NESTA QUINTA SÉRIE
Se, com a honrosa excepção de A Febre de Urbicanda todos os restantes títulos desta quinta colecção são inéditos em Portugal, isso não invalida que alguns dos seus autores sejam velhos conhecidos dos leitores portugueses, mesmo que só agora se estreiem na colecção Novela Gráfica.
É o caso da autora e realizadora Marjane Satrapi, bem conhecida por Persépolis, a sua autobiografia em BD e que chega ao catálogo da Levoir com Frango com Ameixas, obra baseada na história de um seu tio-avô e que, tal como Persépolis, também teve direito a uma adaptação cinematográfica, que contou com a portuguesa Maria de Medeiros como protagonista. O mesmo sucede com a dupla Schuiten e Peeters, cuja série As Cidades Obscuras teve a maioria dos seus títulos editados em Portugal, onde os seus autores já estiveram por diversas vezes, mas raros são os que se encontram ainda disponíveis. Não é o caso de A Febre de Urbicanda, um dos títulos mais emblemáticos da série, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa numa cuidada edição definitiva, com dezoito páginas inéditas.
Bem conhecidos dos leitores e com vasta presença no catálogo da Levoir, são Grant Morrison e Frank Quitely, autores de WE3 e All Star Superman, que se estreiam na colecção de 2019 com Flex Mentallo: Herói do Mistério, uma reflexão sobre os super-heróis com um toque meta narrativo, tão característico de Morrison.
Igualmente com obra publicada em Portugal, estão os americanos Daniel Clowes e Joe Sacco. O primeiro, autor do livro Mundo Fantasma – que deu origem a um filme protagonizado por Scarlett Johansson - apresenta-se nesta colecção com uma das suas obras mais emblemáticas, o surreal e “lynchiano” Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro história pré-publicada em capítulos na revista Eightball, que valeu a Clowes o Eisner de Melhor Escritor/Artista em 200 e 2002. Já o segundo, autor de Palestina, está presente com Goradze: Área de Segurança, mais uma das suas reportagens de guerra, género de que é claramente o nome mais representativo, desta vez sobre o conflito na ex-Jugoslávia.
Resta falar dos autores que têm a sua estreia absoluta em Portugal nesta colecção. Por ordem de entrada em cena na colecção, temos Guillem March, autor espanhol com trabalho publicado no mercado francês e americano, onde trabalhou em vários títulos do universo Batman, que se estreia com Monika, um sensual triller psicológico, escrito pela escritora belga Thilde Baroni, que assim entrou de forma fulgurante na BD.
Estreia absoluta – em todos os sentidos – é a do suíço Thomas Ott com O Número 73304-23-4153-6-96-8, primeiro título completamente sem diálogos nestes cinco anos de história da colecção Novela Gráfica (O Idiota, de André Diniz, esteve lá perto…) e que foi também a primeira novela gráfica de fôlego de um autor especializado em histórias curtas, que é também músico e cineasta e que, utilizando a técnica de grattage – em que o desenho é raspado sobre uma página coberta de tinta negra, criando uma imagem em negativo - cria páginas únicas e de grande impacto visual e narrativo.
Finalmente, Dias Sombrios assinala a estreia em Portugal de uma figura histórica da BD espanhola do século XX. O veterano Juan Escandell, autor com uma carreira de mais de cinquenta anos, pertencente à mítica escola da editora Bruguera – companhia que esteve em destaque no livro O Inverno do Desenhador, de Paco Roca- e que trabalhou com Victor Mora em Capitan Trueno e que aqui ilustra um romance do seu conterrâneo Lluís Ferrer Ferrer, baseado no caso real de um avião alemão abatido ao largo de Ibiza em 1944.
CINCO TEMAS EM DESTAQUE
Nesta quinta colecção de Novelas Gráficas, são também cinco os temas em que se podem encaixar os títulos que a compoem, mesmo que essas categorias, como veremos, não sejam exactamente estanques.
BIOGRAFIA – Nesta categoria enquadra-se, naturalmente, No rasto de García Lorca, de El Torres e Carlos Hernández, em que momentos-chave da vida do malogrado poeta, são narrados na perspectiva de quem os testemunhou, como peças de um puzzle que juntas, traçam a imagem de um homem singular. Também Frango com Ameixas, de Marjane Satrapi, para além da dimensão autobiográfica, não deixa de ser uma biografia do tio-avô da autora, o músico Nasser Ali, mesmo que se centre mais na sua morte, do que propriamente na sua vida.
CRIAR NOVOS MUNDOS – É o que fazem Grant Morrison e Frank Quitelly em Flex Mentallo, em que heróis e vilões desenhados por uma criança ganham vida num mundo distópico, mas com grandes semelhanças com o que conhecemos. Uma ligeira extrapolação também presente em Monika, de Tilde Barboni e Guillem March, em que problemas bem reais como o terrorismo religioso, convivem com elementos de ficção científica, como um androide que adquire consciência própria. Mas o exemplo mais óbvio dessa criação de novos mundos é A Febre de Urbicanda, de Benoit Peeters e François Schuiten, magnífica porta de entrada para o universo das Cidades Obscuras, mundo utópico com grandes semelhanças e pontos de passagem com o nosso, mas em versão steampunk e com uma série de cidades-estado em que a arquitectura condiciona a todos níveis, a própria cidade, o dia-a-dia dos seus habitantes e a evolução da própria história.
BASEADO EM FACTOS REAIS – O melhor exemplo possível de uma história baseada em factos reais, é O Tesouro do Cisne Negro, de Guillermo Corral e Paco Roca, que parte da pilhagem de um galeão espanhol, naufragado na costa portuguesa, por parte de uma empresa americana de caçadores de tesouros, para, mudando os nomes dos protagonistas e do próprio barco, contar uma história fascinante, em que, qualquer semelhança com a realidade é bem mais do que uma simples coincidência… Também Dias Sombrios, de Lluís Ferrer Ferrer e Juan Escandel parte de um facto histórico, o derrube de um avião alemão em frente a Portinatx, perto de Ibiza, nas Ilhas Baleares, para criar uma história de ficção que extrapola sobre o destino do seu piloto.
Obviamente também baseado em factos reais é Neve nos Bolsos o relato autobiográfico de Kim, sobre a sua experiência pessoal como imigrante na Alemanha, que nos conta não só a sua própria vivências, mas as experiências de muitos outros imigrantes com quem se cruzou.
REPORTAGEM DE GUERRA – Melhor exemplo possível de reportagem de guerra é Goradze: Área de Segurança, assinado por Joe Sacco, o maior nome a nível mundial neste registo. Embora se trate claramente de uma obra de ficção, Café Budapeste, de Alfonzo Zapico, pela forma rigorosa e bem documentada como descreve as tensões étnicas e religiosas que afectaram o dia-a-dia dos habitantes de Jerusalém, após o reconhecimento do estado de Israel, também se pode enquadrar nesta categoria, pois todos sabemos como esses ódios e tensões contribuíram para um estado de guerra que se mantém aceso até hoje, o mesmo sucedendo, de certo modo, com Dias Sombrios, que parte de um acontecimento real da II Guerra Mundial, para construir uma história de ficção..
REINVENÇÃO DE GÉNEROS CLÁSSICOS – Nesta colecção não faltam exemplos como um género perfeitamente codificado como o policial negro, pode ser reinventado das mais diversas maneiras. Veja-se As Serpentes Cegas, de Filipe Harnandéz Cava e Bartolomé Seguí, em que uma história de gangsters em Nova Iorque serve para falar da realidade da Guerra Civil espanhola. Também Como Uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, parte de uma estrutura vagamente policial, para uma perturbadora e surreal viagem ao lado mais sombrio do ser humano. Finalmente, também O Número 73304-23-4153-6-96-8, de Thomas Ott utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente inovadora.
A COLECÇÃO
1 – O Tesouro do Cisne Negro
04 de Julho
Argumento – Guillermo Corral Van Damme
Desenhos –Paco Roca
Maio de 2007. A principal empresa de caçadores de tesouros do mundo anuncia a descoberta, em águas do Atlântico, do maior tesouro submarino jamais encontrado. De acordo com a escassa informação difundida o tesouro provêm de um misterioso navio, o Cisne Negro.
No entanto, indícios apontam para que se trate na realidade de uma fragata espanhola afundada. Começa assim uma fascinante trama jurídica e política, cujas origens remontam a acontecimentos ocorridos há muitos séculos, na qual um pequeno grupo de funcionários estatais vai lutar na defesa da história e do património.
Inspirado em factos reais, presenciados pelo argumentista Gullermo Corral, o novo livro de Paco Roca é mais um exemplo do talento e versatilidade deste autor.
2 – Frango com Ameixas
11 de Julho
Argumento e Desenhos – Marjane Satapri
Nasser Ali Khan é um famoso músico que vive no Irão de 1958. Na sequência de uma discussão familiar, o seu tar, o instrumento de que é virtuoso e que é o seu bem mais precioso, é partido. Nenhum outro tar o irá satisfazer e Nasser vai perder o gosto pela música. Tomado de uma melancolia imensa, decide deixar-se morrer, levando-nos numa viagem às suas emoções, aos seus sonhos e à sua história pessoal, que se mistura com a do seu Irão natal num período conturbado da sua história.
Em Frango com Ameixas, livro vencedor do prémio de Melhor Álbum de Angoulême em 2005, Marjane Satrapi parte da história real do seu tio-avô para construir uma ficção fascinante..
3 – A Febre de Urbicanda
18 de Julho
Argumento – Benoit Peeters e François Schuiten
Desenhos – François Schuiten
Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes.
Reflexão fascinante sobre arquitectura e poder e um verdadeiro tratado sobre a narrativa sequencial, as Cidades Obscuras, de Schuiten e Peeters, são uma série incontornável da Banda Desenhada franco- belga, que tem na Febre de Urbicanda um dos seus títulos seminais, vencedor do prémio de Melhor Livro, No Festival de Angoulême de 1985.
4 – O Rasto de García Lorca
25 de Julho
Argumento – El Torres
Desenhos – Carlos Hernández
Através de histórias reais e testemunhos sobre o genial poeta, nesta novela gráfica descobrimos a marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram nos locais por onde passou: cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque. El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, alia-se ao ilustrador Carlos Hernández para reconstruir de forma tão subtil como marcante, a figura de Lorca através do olhar de quem partilhou a vida e a morte do poeta.
5 –Monika
01 de Agosto
Argumento – Thilde Barboni
Desenho – Guillem March
Monika, uma artista visual e performer, concorda em esconder Theo, um brilhante inventor prestes a construir um cobiçado andróide. Com a ajuda do seu amigo hacker, Monika investiga o desaparecimento da sua irmã. Ela é então arrastada para o submundo das "bailes mascarados", onde conhece e seduz Christian Epson, um carismático político que foi o último homem a ver Erika, a irmã desaparecida, cujo envolvimento com um grupo terrorista vai colocar em perigo a vida de Monika. Um triller movimentado e sensual, magnificamente ilustrado por Guillem March.
6 – Gorazde: Zona de Segurança
08 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Sacco
No final de 1995 e início de 1996, o repórter e autor de BD Joe Sacco viajou quatro vezes para Gorazde, uma área segura designada pela ONU durante a Guerra da Bósnia, que estava à beira da destruição por três anos e meio. Ainda cercados por forças sérvias da Bósnia, o povo maioritariamente muçulmano de Gorazde sofrera pesados ataques e severas privações para manter sua cidade, enquanto o restante do leste da Bósnia era brutalmente "purificado" de sua população não-sérvia. Desde que foi publicado pela primeira vez em 2000, Gorazde: Zona de Segurança foi reconhecido como um dos clássicos absolutos da novela gráfica de reportagem.
07 –Flex Mentallo: Herói do Mistério
15 de Agosto
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Antes ele era Herói da Praia ... e da Patrulha do Destino. Agora Flex Mentallo, o Homem do Mistério Muscular, regressa para investigar as relações sinistras de seu ex-companheiro, The Fact, e um misterioso astro do rock cuja conexão com Flex pode ser a chave para salvar os dois. Depois de reformular a Patrulha do Destino, na série da Vertigo que influenciou a actual série televisiva, Morrison junta-se ao seu habitual cúmplice Frank Quitelly, para explorar a história de um dos seus mais carismáticos elementos, Flex Mentallo.
08 – Dias Sombrios
22 de Agosto
Argumento – Lluís Ferrer Ferrer
Desenhos – Juan Escandel
Em 10 de janeiro de 1944, durante uma batalha aérea sobre a ilha de Ibiza, um avião britânico Bristol Beaufighter derrubou uma aeronave alemão Junkers Ju 88 que finalmente caiu na costa ao norte de Portinatx. Com base neste acontecimento real, o escritor Lluís Ferrer Ferrer construiu uma história de ficção, que anos mais tarde o veterano desenhador Juan Escandell, um dos nomes mais importantes da escola Bruguera, adaptou à Banda Desenhada nesta Novela Gráfica.
09 – Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro
29 de Agosto
Argumento e Desenhos – Daniel Clowes
Clay, o protagonista de Como uma Luva de Veludo moldada em Ferro parte em busca de produtores de um filme pornográfico em que pensou reconhecer a sua esposa, desaparecida alguns anos antes.
Com esta simples premissa como ponto de partida, Daniel Clowes constrói um road movie cerebral, que elimina qualquer fronteira entre o pesadelo e a realidade.
Nesse caos nocturno, Clowes leva o leitor a vislumbrar a sombra fugidia e arrepiante de um horror íntimo e universalmente compartilhado. Um dos mais importantes e perturbadores livros de um dos nomes maiores dos comics alternativos americanos.
10– As Serpentes Cegas
29 de Agosto
Argumento - Filipe Harnandéz Cava
Desenho – Bartolomé Segui
Nova Iorque, 1939. Um homem misterioso instala-se num pequeno hotel à procura de um certo Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita. Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto a destruir um túmulo com um martelo. Qual terá sido o motivo da fúria de Koch e onde se esconde ele? Duas perguntas para as quais o FBI também procura respostas...
Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de fundo, vencedora do Prémio Nacional del Comic em 2009.
11 – O Número 73304-23-4153-6-96-8
12 de Setembro
Argumento e Desenho – Thomas Ott
Ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado, um guarda da prisão encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números. No calor do momento, ele guarda-o no bolso. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam sua curiosidade.
Mas esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma maldição que o leva à loucura e à morte. Um triller surpreendente contado apenas pelo recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo, por um dos mais singulares criadores da BD europeia, o suíço Thomas Ott.
12 – Neve nos Bolsos
19 de Setembro
Argumento e Desenhos – Kim
Em outubro de 1963, o jovem Joaquim Aubert, ainda não conhecido como Kim, pede boleia numa estrada no sul de França. Ele deixou seus estudos em Belas Artes e tem um ano para começar o serviço militar, tempo que vai aproveitar para ganhar a vida na Alemanha. Joaquim chega a terras germânicas como tantos outros espanhóis que atravessaram a Europa à procura de trabalho. Através dos seus olhos e das suas memórias, vamos descobrir a vida desses expatriados da Espanha franquista.
Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Rasgada, traça-nos este retrato autobiográfico da sua ida para a Alemanha e das vivências de outros espanhóis que emigraram com o mesmo objectivo, ganhar a vida.
13 – Café Budapeste
26 de Setembro
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Yechezkel Damjanich é um jovem violinista judeu que abandona uma Budapeste devastada pela II Guerra Mundial para ir viver para Jerusalém, onde vive o seu tio Yossef. Fugindo da miséria, ambos chegam à Palestina num momento político convulsivo, pouco antes de os ingleses deixarem a região. O Tio Yosef dirige o Café Budapeste, um lugar pitoresco perto da Cidade Velha, onde judeus, árabes, ocidentais coexistem... Um oásis efémero de harmonia onde as notas do violino de Yechezkel vão dar lugar ao estrondo dos obuses de Davidka, bombas árabes, ódio e destruição.
Publicado originalmente no jornal Público de 29/06/2019
Tudo começou em 2015, com a publicação pelo Público, em colaboração com a Levoir, da primeira Colecção dedicada à Novela Gráfica. Uma aposta inovadora, num estilo de Banda Desenhada com um pendor mais literário, longe das características bem codificadas das anteriores colecções de BD franco-belga e Comics de super-heróis que o jornal Publico vinha editando desde 2003.
Iniciada, naturalmente, com Um Contrato com Deus, de Will Eisner, título que muitos consideram como o fundador do género, esta colecção podia ser perfeitamente definida por um único termo: liberdade. Liberdade temática, de registo gráfico, de formato, de número de páginas, numa utilização plena das imensas possibilidades da Banda Desenhada para fazer aquilo que os autores melhor sabem e querem fazer: contar histórias. Histórias que podiam ser autobiográficas, adaptações de obras literárias, biografias, de terror, de fantasia, de crítica social, de guerra, poéticas, ou profundamente humanas. Tudo dependia da vontade e do talento dos autores.
Autores vindos dos quatro cantos do Planeta, numa demonstração de diversidade, que ficou bem patente logo na primeira série, que incluía americanos como Eisner e Crumb, franceses como Moebius, Baudoin e Tardi, sul-americanos como Jodorowsky, Oesterheld, Breccia e Danilo Beiruth, espanhóis como Altarriba e Kim, para além do português Miguel Rocha, do suíço Cosey e do japonês Taniguchi, com estes dois últimos a repetirem presença em posteriores colecções, como de resto aconteceu também com Moebius, Tardi, Altarriba e Kim.
O sucesso junto dos leitores – que não se limitou aos coleccionadores habituais de BD, ajudando a criar um novo tipo mais alargado de público com interesses culturais mais abrangentes - e o reconhecimento traduzido pelos prémios atribuídos pelos principais eventos nacionais de BD, como o Festival da Amadora e a Comic Con, mostraram que esta era uma aposta certa e com futuro. Por isso, ao longo das colecções seguintes manteve-se a aposta na diversidade e na qualidade, recuperando clássicos como Mort Cinder, de Orsterheld e Breccia, V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd (que esteve em Lisboa para o lançamento do livro), Ronin, de Frank Miller, Aqui Mesmo, de Tardi e Forrest e O Último Recreio, de Altuna e Trillo, ao mesmo tempo que se mostrava aos leitores a extraordinária pujança da actual Novela Gráfica espanhola, bem representada em autores que se tornaram recorrentes nestas colecções, como Paco Roca, Kim, Miguelanxo Prado e Bartolomé Seguí.
Mas a aposta na Novela Gráfica não se ficou por estas colecções anuais. Está também patente em títulos pontuais, como A Casa, de Paco Roca, ou a biografia de Billie Holliday, de Munõz e Sampayo, entre outros. Além disso, inspirados pelo sucesso das colecções do Público e da Levoir, a maioria das editoras generalistas, incluindo aquelas com pouca ou nenhuma tradição na edição de BD, como a Porto Editora e a Relógio de Água, começaram também a publicar Novelas Gráficas, termo que já está perfeitamente enraizado no vocabulário dos leitores.
Na colecção de 2019, onde os autores em estreia são mais do que os que regressam, mantém-se a aposta na diversidade, bem patente no facto de albergar autores de sete nacionalidades diferentes, dois dos quais são mulheres. Uma presença feminina que acontece pela segunda vez, depois de Zeina Abirached na Colecção de 2016. E se em termos de género há uma evidente melhoria em relação às colecções anteriores, em termos de nacionalidades, para além de diversos autores espanhóis e americanos, temos uma iraniana e uma belga, um francês, um suíço, um belga e dois escoceses.
A abrir a Colecção, temos o regresso de um dos mais populares e prestigiados autores espanhóis da actualidade, que esta colecção ajudou a tornar conhecido dos leitores portugueses, Paco Roca, com o seu mais recente livro, O Tesouro do Cisne Negro, uma história inspirada no caso real da pilhagem dos destroços de um galeão espanhol afundado no século XVIII ao largo do Algarve. Mas Paco Roca não é o único regresso - num alinhamento onde não faltam as estreias, que serão objecto de análise num texto à parte. Também de volta está El Torres, o argumentista de O Fantasma de Gaudí, presente com O Rasto de Garcia Lorca, uma biografia do poeta, visto por aqueles que o conheceram e ilustrada por Carlos Hernandéz.
Outro regresso é o de Bartolomé Seguí, desenhador de Histórias do Bairro e Tatuagem, que agora, ao lado do escritor Felipe Hernandéz Cava assina As Serpentes Cegas, um policial negro passado em Nova Iorque, com a Guerra Civil espanhola como pano de fundo, que valeu à dupla o Prémio Nacional del Comic em 2009. Igualmente de retorno está Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Quebrada, mas que desta vez não conta com a presença de António Altarriba, seu cúmplice habitual, aventurando-se a solo com Neve nos Bolsos, um relato autobiográfico sobre a sua experiência com imigrante na Alemanha durante os anos 60.
Finalmente, Alfonzo Zapico, o autor de Gente de Dublin, a biografia de James Joyce que foi um dos grandes sucessos da colecção de 2018, está de volta com Café Budapeste, uma história tocante sobre a convivência entre árabes e judeus na cidade de Jerusalém, antes e depois do reconhecimento do Estado de Israel.
AUTORES EM ESTREIA NESTA QUINTA SÉRIE
Se, com a honrosa excepção de A Febre de Urbicanda todos os restantes títulos desta quinta colecção são inéditos em Portugal, isso não invalida que alguns dos seus autores sejam velhos conhecidos dos leitores portugueses, mesmo que só agora se estreiem na colecção Novela Gráfica.
É o caso da autora e realizadora Marjane Satrapi, bem conhecida por Persépolis, a sua autobiografia em BD e que chega ao catálogo da Levoir com Frango com Ameixas, obra baseada na história de um seu tio-avô e que, tal como Persépolis, também teve direito a uma adaptação cinematográfica, que contou com a portuguesa Maria de Medeiros como protagonista. O mesmo sucede com a dupla Schuiten e Peeters, cuja série As Cidades Obscuras teve a maioria dos seus títulos editados em Portugal, onde os seus autores já estiveram por diversas vezes, mas raros são os que se encontram ainda disponíveis. Não é o caso de A Febre de Urbicanda, um dos títulos mais emblemáticos da série, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa numa cuidada edição definitiva, com dezoito páginas inéditas.
Bem conhecidos dos leitores e com vasta presença no catálogo da Levoir, são Grant Morrison e Frank Quitely, autores de WE3 e All Star Superman, que se estreiam na colecção de 2019 com Flex Mentallo: Herói do Mistério, uma reflexão sobre os super-heróis com um toque meta narrativo, tão característico de Morrison.
Igualmente com obra publicada em Portugal, estão os americanos Daniel Clowes e Joe Sacco. O primeiro, autor do livro Mundo Fantasma – que deu origem a um filme protagonizado por Scarlett Johansson - apresenta-se nesta colecção com uma das suas obras mais emblemáticas, o surreal e “lynchiano” Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro história pré-publicada em capítulos na revista Eightball, que valeu a Clowes o Eisner de Melhor Escritor/Artista em 200 e 2002. Já o segundo, autor de Palestina, está presente com Goradze: Área de Segurança, mais uma das suas reportagens de guerra, género de que é claramente o nome mais representativo, desta vez sobre o conflito na ex-Jugoslávia.
Resta falar dos autores que têm a sua estreia absoluta em Portugal nesta colecção. Por ordem de entrada em cena na colecção, temos Guillem March, autor espanhol com trabalho publicado no mercado francês e americano, onde trabalhou em vários títulos do universo Batman, que se estreia com Monika, um sensual triller psicológico, escrito pela escritora belga Thilde Baroni, que assim entrou de forma fulgurante na BD.
Estreia absoluta – em todos os sentidos – é a do suíço Thomas Ott com O Número 73304-23-4153-6-96-8, primeiro título completamente sem diálogos nestes cinco anos de história da colecção Novela Gráfica (O Idiota, de André Diniz, esteve lá perto…) e que foi também a primeira novela gráfica de fôlego de um autor especializado em histórias curtas, que é também músico e cineasta e que, utilizando a técnica de grattage – em que o desenho é raspado sobre uma página coberta de tinta negra, criando uma imagem em negativo - cria páginas únicas e de grande impacto visual e narrativo.
Finalmente, Dias Sombrios assinala a estreia em Portugal de uma figura histórica da BD espanhola do século XX. O veterano Juan Escandell, autor com uma carreira de mais de cinquenta anos, pertencente à mítica escola da editora Bruguera – companhia que esteve em destaque no livro O Inverno do Desenhador, de Paco Roca- e que trabalhou com Victor Mora em Capitan Trueno e que aqui ilustra um romance do seu conterrâneo Lluís Ferrer Ferrer, baseado no caso real de um avião alemão abatido ao largo de Ibiza em 1944.
CINCO TEMAS EM DESTAQUE
Nesta quinta colecção de Novelas Gráficas, são também cinco os temas em que se podem encaixar os títulos que a compoem, mesmo que essas categorias, como veremos, não sejam exactamente estanques.
BIOGRAFIA – Nesta categoria enquadra-se, naturalmente, No rasto de García Lorca, de El Torres e Carlos Hernández, em que momentos-chave da vida do malogrado poeta, são narrados na perspectiva de quem os testemunhou, como peças de um puzzle que juntas, traçam a imagem de um homem singular. Também Frango com Ameixas, de Marjane Satrapi, para além da dimensão autobiográfica, não deixa de ser uma biografia do tio-avô da autora, o músico Nasser Ali, mesmo que se centre mais na sua morte, do que propriamente na sua vida.
CRIAR NOVOS MUNDOS – É o que fazem Grant Morrison e Frank Quitelly em Flex Mentallo, em que heróis e vilões desenhados por uma criança ganham vida num mundo distópico, mas com grandes semelhanças com o que conhecemos. Uma ligeira extrapolação também presente em Monika, de Tilde Barboni e Guillem March, em que problemas bem reais como o terrorismo religioso, convivem com elementos de ficção científica, como um androide que adquire consciência própria. Mas o exemplo mais óbvio dessa criação de novos mundos é A Febre de Urbicanda, de Benoit Peeters e François Schuiten, magnífica porta de entrada para o universo das Cidades Obscuras, mundo utópico com grandes semelhanças e pontos de passagem com o nosso, mas em versão steampunk e com uma série de cidades-estado em que a arquitectura condiciona a todos níveis, a própria cidade, o dia-a-dia dos seus habitantes e a evolução da própria história.
BASEADO EM FACTOS REAIS – O melhor exemplo possível de uma história baseada em factos reais, é O Tesouro do Cisne Negro, de Guillermo Corral e Paco Roca, que parte da pilhagem de um galeão espanhol, naufragado na costa portuguesa, por parte de uma empresa americana de caçadores de tesouros, para, mudando os nomes dos protagonistas e do próprio barco, contar uma história fascinante, em que, qualquer semelhança com a realidade é bem mais do que uma simples coincidência… Também Dias Sombrios, de Lluís Ferrer Ferrer e Juan Escandel parte de um facto histórico, o derrube de um avião alemão em frente a Portinatx, perto de Ibiza, nas Ilhas Baleares, para criar uma história de ficção que extrapola sobre o destino do seu piloto.
Obviamente também baseado em factos reais é Neve nos Bolsos o relato autobiográfico de Kim, sobre a sua experiência pessoal como imigrante na Alemanha, que nos conta não só a sua própria vivências, mas as experiências de muitos outros imigrantes com quem se cruzou.
REPORTAGEM DE GUERRA – Melhor exemplo possível de reportagem de guerra é Goradze: Área de Segurança, assinado por Joe Sacco, o maior nome a nível mundial neste registo. Embora se trate claramente de uma obra de ficção, Café Budapeste, de Alfonzo Zapico, pela forma rigorosa e bem documentada como descreve as tensões étnicas e religiosas que afectaram o dia-a-dia dos habitantes de Jerusalém, após o reconhecimento do estado de Israel, também se pode enquadrar nesta categoria, pois todos sabemos como esses ódios e tensões contribuíram para um estado de guerra que se mantém aceso até hoje, o mesmo sucedendo, de certo modo, com Dias Sombrios, que parte de um acontecimento real da II Guerra Mundial, para construir uma história de ficção..
REINVENÇÃO DE GÉNEROS CLÁSSICOS – Nesta colecção não faltam exemplos como um género perfeitamente codificado como o policial negro, pode ser reinventado das mais diversas maneiras. Veja-se As Serpentes Cegas, de Filipe Harnandéz Cava e Bartolomé Seguí, em que uma história de gangsters em Nova Iorque serve para falar da realidade da Guerra Civil espanhola. Também Como Uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, parte de uma estrutura vagamente policial, para uma perturbadora e surreal viagem ao lado mais sombrio do ser humano. Finalmente, também O Número 73304-23-4153-6-96-8, de Thomas Ott utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente inovadora.
A COLECÇÃO
1 – O Tesouro do Cisne Negro
04 de Julho
Argumento – Guillermo Corral Van Damme
Desenhos –Paco Roca
Maio de 2007. A principal empresa de caçadores de tesouros do mundo anuncia a descoberta, em águas do Atlântico, do maior tesouro submarino jamais encontrado. De acordo com a escassa informação difundida o tesouro provêm de um misterioso navio, o Cisne Negro.
No entanto, indícios apontam para que se trate na realidade de uma fragata espanhola afundada. Começa assim uma fascinante trama jurídica e política, cujas origens remontam a acontecimentos ocorridos há muitos séculos, na qual um pequeno grupo de funcionários estatais vai lutar na defesa da história e do património.
Inspirado em factos reais, presenciados pelo argumentista Gullermo Corral, o novo livro de Paco Roca é mais um exemplo do talento e versatilidade deste autor.
2 – Frango com Ameixas
11 de Julho
Argumento e Desenhos – Marjane Satapri
Nasser Ali Khan é um famoso músico que vive no Irão de 1958. Na sequência de uma discussão familiar, o seu tar, o instrumento de que é virtuoso e que é o seu bem mais precioso, é partido. Nenhum outro tar o irá satisfazer e Nasser vai perder o gosto pela música. Tomado de uma melancolia imensa, decide deixar-se morrer, levando-nos numa viagem às suas emoções, aos seus sonhos e à sua história pessoal, que se mistura com a do seu Irão natal num período conturbado da sua história.
Em Frango com Ameixas, livro vencedor do prémio de Melhor Álbum de Angoulême em 2005, Marjane Satrapi parte da história real do seu tio-avô para construir uma ficção fascinante..
3 – A Febre de Urbicanda
18 de Julho
Argumento – Benoit Peeters e François Schuiten
Desenhos – François Schuiten
Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes.
Reflexão fascinante sobre arquitectura e poder e um verdadeiro tratado sobre a narrativa sequencial, as Cidades Obscuras, de Schuiten e Peeters, são uma série incontornável da Banda Desenhada franco- belga, que tem na Febre de Urbicanda um dos seus títulos seminais, vencedor do prémio de Melhor Livro, No Festival de Angoulême de 1985.
4 – O Rasto de García Lorca
25 de Julho
Argumento – El Torres
Desenhos – Carlos Hernández
Através de histórias reais e testemunhos sobre o genial poeta, nesta novela gráfica descobrimos a marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram nos locais por onde passou: cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque. El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, alia-se ao ilustrador Carlos Hernández para reconstruir de forma tão subtil como marcante, a figura de Lorca através do olhar de quem partilhou a vida e a morte do poeta.
5 –Monika
01 de Agosto
Argumento – Thilde Barboni
Desenho – Guillem March
Monika, uma artista visual e performer, concorda em esconder Theo, um brilhante inventor prestes a construir um cobiçado andróide. Com a ajuda do seu amigo hacker, Monika investiga o desaparecimento da sua irmã. Ela é então arrastada para o submundo das "bailes mascarados", onde conhece e seduz Christian Epson, um carismático político que foi o último homem a ver Erika, a irmã desaparecida, cujo envolvimento com um grupo terrorista vai colocar em perigo a vida de Monika. Um triller movimentado e sensual, magnificamente ilustrado por Guillem March.
6 – Gorazde: Zona de Segurança
08 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Sacco
No final de 1995 e início de 1996, o repórter e autor de BD Joe Sacco viajou quatro vezes para Gorazde, uma área segura designada pela ONU durante a Guerra da Bósnia, que estava à beira da destruição por três anos e meio. Ainda cercados por forças sérvias da Bósnia, o povo maioritariamente muçulmano de Gorazde sofrera pesados ataques e severas privações para manter sua cidade, enquanto o restante do leste da Bósnia era brutalmente "purificado" de sua população não-sérvia. Desde que foi publicado pela primeira vez em 2000, Gorazde: Zona de Segurança foi reconhecido como um dos clássicos absolutos da novela gráfica de reportagem.
07 –Flex Mentallo: Herói do Mistério
15 de Agosto
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Antes ele era Herói da Praia ... e da Patrulha do Destino. Agora Flex Mentallo, o Homem do Mistério Muscular, regressa para investigar as relações sinistras de seu ex-companheiro, The Fact, e um misterioso astro do rock cuja conexão com Flex pode ser a chave para salvar os dois. Depois de reformular a Patrulha do Destino, na série da Vertigo que influenciou a actual série televisiva, Morrison junta-se ao seu habitual cúmplice Frank Quitelly, para explorar a história de um dos seus mais carismáticos elementos, Flex Mentallo.
08 – Dias Sombrios
22 de Agosto
Argumento – Lluís Ferrer Ferrer
Desenhos – Juan Escandel
Em 10 de janeiro de 1944, durante uma batalha aérea sobre a ilha de Ibiza, um avião britânico Bristol Beaufighter derrubou uma aeronave alemão Junkers Ju 88 que finalmente caiu na costa ao norte de Portinatx. Com base neste acontecimento real, o escritor Lluís Ferrer Ferrer construiu uma história de ficção, que anos mais tarde o veterano desenhador Juan Escandell, um dos nomes mais importantes da escola Bruguera, adaptou à Banda Desenhada nesta Novela Gráfica.
09 – Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro
29 de Agosto
Argumento e Desenhos – Daniel Clowes
Clay, o protagonista de Como uma Luva de Veludo moldada em Ferro parte em busca de produtores de um filme pornográfico em que pensou reconhecer a sua esposa, desaparecida alguns anos antes.
Com esta simples premissa como ponto de partida, Daniel Clowes constrói um road movie cerebral, que elimina qualquer fronteira entre o pesadelo e a realidade.
Nesse caos nocturno, Clowes leva o leitor a vislumbrar a sombra fugidia e arrepiante de um horror íntimo e universalmente compartilhado. Um dos mais importantes e perturbadores livros de um dos nomes maiores dos comics alternativos americanos.
10– As Serpentes Cegas
29 de Agosto
Argumento - Filipe Harnandéz Cava
Desenho – Bartolomé Segui
Nova Iorque, 1939. Um homem misterioso instala-se num pequeno hotel à procura de um certo Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita. Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto a destruir um túmulo com um martelo. Qual terá sido o motivo da fúria de Koch e onde se esconde ele? Duas perguntas para as quais o FBI também procura respostas...
Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de fundo, vencedora do Prémio Nacional del Comic em 2009.
11 – O Número 73304-23-4153-6-96-8
12 de Setembro
Argumento e Desenho – Thomas Ott
Ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado, um guarda da prisão encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números. No calor do momento, ele guarda-o no bolso. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam sua curiosidade.
Mas esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma maldição que o leva à loucura e à morte. Um triller surpreendente contado apenas pelo recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo, por um dos mais singulares criadores da BD europeia, o suíço Thomas Ott.
12 – Neve nos Bolsos
19 de Setembro
Argumento e Desenhos – Kim
Em outubro de 1963, o jovem Joaquim Aubert, ainda não conhecido como Kim, pede boleia numa estrada no sul de França. Ele deixou seus estudos em Belas Artes e tem um ano para começar o serviço militar, tempo que vai aproveitar para ganhar a vida na Alemanha. Joaquim chega a terras germânicas como tantos outros espanhóis que atravessaram a Europa à procura de trabalho. Através dos seus olhos e das suas memórias, vamos descobrir a vida desses expatriados da Espanha franquista.
Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Rasgada, traça-nos este retrato autobiográfico da sua ida para a Alemanha e das vivências de outros espanhóis que emigraram com o mesmo objectivo, ganhar a vida.
13 – Café Budapeste
26 de Setembro
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Yechezkel Damjanich é um jovem violinista judeu que abandona uma Budapeste devastada pela II Guerra Mundial para ir viver para Jerusalém, onde vive o seu tio Yossef. Fugindo da miséria, ambos chegam à Palestina num momento político convulsivo, pouco antes de os ingleses deixarem a região. O Tio Yosef dirige o Café Budapeste, um lugar pitoresco perto da Cidade Velha, onde judeus, árabes, ocidentais coexistem... Um oásis efémero de harmonia onde as notas do violino de Yechezkel vão dar lugar ao estrondo dos obuses de Davidka, bombas árabes, ódio e destruição.
Publicado originalmente no jornal Público de 29/06/2019
sexta-feira, 12 de julho de 2013
DC Comics UNCUT 1 - Liga da Justiça Terra Dois
Pela primeira vez, este Blog vai publicar um post não escrito por mim. Neste caso, o autor é o José de Freitas que aqui publica a versão integral, não censurada do editorial que escreveu para o 1º volume da Colecção DC Comics, que ontem chegou às bancas com o jornal Público.
Uma das diferenças desta colecção para as anteriores da Marvel, é que o controle editorial da DC é muito mais burocrático e apertado. Por isso, os textos introdutórios que escrevemos para os primeiros cinco volumes, tiveram que sofrer diversas alterações de modo a ficarem mais politicamente correctos e adequados às restrições temáticas impostas pela DC. Essas restrições impedem, por exemplo, referências à Marvel, a questões religiosas, ao 11 de Setembro e um extremo cuidado no uso da palavra "criado" em relação em relação a autores e personagens. Por exemplo, não se pode dizer que o Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger, pois oficialmente a DC não reconhece a Bill Finger esse estatuto de criador...
Mas como a DC diz que os textos originais, embora não adequados a uma publicação oficial da DC, podem perfeitamente ser publicados em blogs e revistas da especialidade, aqui iremos publicar as versões UNCUT desses editoriais, escritos pelo José de Freitas, pelo Filipe Faria e por mim, que tiveram que ser "retrabalhados."
José Hartvig de Freitas
AGRADECIMENTOS - Os meus agradecimentos, primeiro ao próprio Grant Morrison pelo extraordinário livro que escreveu sobre as suas aventuras com super-heróis, Supergods; a Julian Darius, crítico maravilhosamente perspicaz; ao João Miguel Lameiras, e ao meu amigo João Nuno Azevedo, que em muitas conversas acompanhadas de jantar e copos foi realimentando o meu gosto pela DC!
Uma das diferenças desta colecção para as anteriores da Marvel, é que o controle editorial da DC é muito mais burocrático e apertado. Por isso, os textos introdutórios que escrevemos para os primeiros cinco volumes, tiveram que sofrer diversas alterações de modo a ficarem mais politicamente correctos e adequados às restrições temáticas impostas pela DC. Essas restrições impedem, por exemplo, referências à Marvel, a questões religiosas, ao 11 de Setembro e um extremo cuidado no uso da palavra "criado" em relação em relação a autores e personagens. Por exemplo, não se pode dizer que o Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger, pois oficialmente a DC não reconhece a Bill Finger esse estatuto de criador...
Mas como a DC diz que os textos originais, embora não adequados a uma publicação oficial da DC, podem perfeitamente ser publicados em blogs e revistas da especialidade, aqui iremos publicar as versões UNCUT desses editoriais, escritos pelo José de Freitas, pelo Filipe Faria e por mim, que tiveram que ser "retrabalhados."
A Liga da Justiça para além do Bem e do Mal
O que é que define a história de super-heróis? Quais são os
seus critérios, os seus pressupostos? Quais as regras pelas quais este género
se rege? Nascida há quase um século na sua forma moderna, a história de super-heróis
mergulha as suas raízes num passado muito mais distante, um passado de mito e
de imaginação, e reflecte de certo modo tudo o que de melhor a humanidade pode
ser. E também o pior.
Ao longo das décadas em que a história de super-heróis
evoluiu, passou por inúmeras fases, e acompanhou o desenvolver da sensibilidade
dos seus fãs, as mudanças que as sociedades Ocidentais foram sofrendo, as suas
esperanças e desilusões, e o processo de maturidade dos leitores. Desde os
inícios até à nossa era pós-moderna, passou de um período ingénuo e algo
linear, a um período caracterizado pela sua desconstrução e pelo
experimentalismo. Quando relemos muitas histórias dos anos 30, 40 ou 50,
ficamos surpreendidos pelas suas regras “básicas”, pelo seu lado ingénuo e por
vezes infantil. Nas histórias clássicas de super-heróis, o Bem vence sempre,
por exemplo. Ao longo dos anos fizeram-se muitas experiências, e muitos autores
se "revoltaram" contra estes pressupostos das histórias de
super-heróis, explorando histórias em que os heróis morrem, o Mal vence, o
sentido final das sagas remete para o absurdo ou para o caótico e aleatório.
Uma evolução muito paralela com a de todos os outros media que nos
rodeiam, como por exemplo a televisão. Basta ver a diferença entre uma série
antiga como Bonanza, e uma moderna
como Deadwood, embora ambas se
integrem no mesmo género codificado que é o Western.
E no entanto, as histórias de super-heróis mantiveram sempre
o seu pressuposto central, o da vitória do Bem sobre o Mal, ao longo de décadas
em que os leitores, no mundo real, foram testemunhas de vitórias objectivas do
mal, e em que esse lado ingénuo do género foi sendo cada vez mais posto à
prova. Mas o Bem continua a vencer nos comics.
Talvez devido ao carácter mítico dos super-heróis, um dos últimos loci
literários em que se perpetua a grande tradição do mito heróico. Mas por vezes,
lado mítico ou não, por mais que gostemos desta ou daquela saga, essa primazia
do Bem deixa por vezes um amargo de boca, e cria mais uma clivagem entre o
mundo real e o mundo mítico, que suspende por vezes o gozo puro de ler uma
história de super-heróis.
É por isso que Terra Dois de Grant Morrison é
uma das mais belas e mais "correctas" histórias de super-heróis
jamais escritas, e talvez a homenagem absoluta ao lado mítico do género,
conseguindo, quase que numa operação Alquímica, resolver a Coincidentia
Oppositorum - a síntese dos opostos! - entre o Bem e o Mal, e reconciliando
o leitor com essa regra não-escrita que diz que o Bem vence sempre. E por isso
é talvez a melhor história possível para iniciar esta colecção de Herois DC!
Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre
"invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros
argumentistas da Grã-Bretanha a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se nos
EUA, onde vieram revolucionar o género. Criados nos fanzines e revistas
independentes da Grâ-Bretanha, traziam consigo uma sensibilidade muito
diferente, bem mais política e radical, e mais disposta a questionar as bases
fundamentais da história de super-heróis. Nomes como Alan Moore, Neil
Gaiman, Peter Milligan, Jamie Delano ou Garth Ennis, encontraram nas
grandes editoras americanas um lar novo, onde lhes foi permitido
"experimentar" com as personagens e universos estabelecidos, ou criar
os seus próprios universos, particularmente na Vertigo, o selo
"adulto" da DC, onde foram publicadas muitas histórias seminais da BD
anglo-saxónica dos nossos tempos. Grant Morrison tornou-se rapidamente numa das
super-estrelas dos comics americanos, e ao contrário de muitos outros
compatriotas seus (com a excepção de Alan Moore, diga-se) iniciou-se quase de
imediato na história de super-heróis - em vez de ter começado por escrever as
suas próprias criações - primeiro com Animal Man e Doom Patrol,
duas séries a que imprimiu um cunho quase surrealista e algo pós-moderno, e
logo depois com o espantoso Asilo Arkham, com arte de Dave McKean.
Estes títulos estabeleceram desde logo algumas das preocupações centrais da
obra de Morrison, e a sua capacidade imensa de analisar e desconstruir o género
dos super-heróis. Morrison também foi ficando obcecado com a ideia da definição
dos universos ficcionais dum ponto de vista meta-ficcional, ou seja, da
história vista de fora e em que se analisam os pressupostos que a fazem
funcionar, mas em que a própria reflexão sobre esses pressupostos e regras
interage e influencia a história. A esta obsessão não será alheio o interesse
de Morrison pelo oculto e pela magia, e a sua vontade de "contactar
universos ficcionais distantes", como o próprio relata no seu livro Supergods,
em que analisa profundamente o fenómeno da vida "independente" das
criações literárias (e outras)!
Ao longo de uma década e meia, Grant Morrison fez um
percurso complexo, que o levou de um ponto em que estava disposto a
desconstruir completamente o género dos super-heróis, em criticá-lo, virá-lo do
avesso, violar todas as regras que o definem, a um ponto de chegada em que
redescobriu um respeito profundo pelos super-heróis, e em que mergulhou nas
raizes míticas que o definem, e conseguiu revitalizá-lo duma maneira original.
Podemos comparar este percurso de Morrison com o de Alan Moore, para termos uma
uma ideia de quão revolucionário ele parece ter sido para um jovem irreverente
da geração punk cuja missão inicial era arrasar tudo e chocar os
leitores. Alan Moore também assinou comics de super-heróis que fizeram
história - basta citar Piada Mortal, que integrará o volume dedicado ao
Joker nesta colecção, ou o excelente Whatever Happened to the Man of
Tomorrow? - e também ele desde o início pareceu questionar muitas das
regras normais deste género. Mas a evolução de Moore levou-o a assinar Watchmen,
com desenho de Dave Gibbons, que é nem mais, nem menos, do que a prova
de que os super-heróis, como género clássico, com os seus universos e a sua
continuidade, são impossíveis e não fazem sentido - e não estamos a falar da
impossibilidade de seres com super-poderes, mas sim da incoerência interna
deste género literário.
Morrison e Moore afastam-se assim um do outro na sua análise
do género. Ao longo dos anos, Morrison foi ganhando novo respeito pelos
super-heróis, chegando até de certo modo a lamentar o seu período
desconstrucionista. E atira muitas culpas a Alan Moore pela idade das trevas
que o género chegou a viver nos anos 80 e 90, e pelo antagonismo que muitos
autores pareceram nutrir pelos seus heróis. Mas Morrison também sentiu que
depois de Watchmen, passava a ser possível fazer algo diferente, e
reflectir de modo mais produtivo acerca dos super-heróis, acerca daquilo que os
torna míticos. Em Supergods, escreve "Mas por mais que
tentássemos, o super-herói regressou dos mortos com novos poderes, como sempre
fez, para se vingar daqueles que o quereriam destruir. Muito mais do que matar
o género dos super-heróis, Watchmen tinha aberto caminho para o conceito
ser examinado e para o seu potencial ser revigorado. (...) Eu queria mais das
minhas ficções. Como sempre fui do contra, cansei-me de me dizerem o que os
super-heróis seriam se fossem reais, e de descobrir sempre que eles não eram
mais do que nós no nosso pior: venais, corruptos, mistificados e estúpidos. O
realismo tinha acabado por ser confundido com um tipo muito particular de
pessimismo adolescente e de sexualidade colérica, que me começou a parecer
limitativa." O percurso desconstrucionista de Morrison tinha chegado
ao fim, e quando em 1996 lhe confiaram a série da Liga da Justiça,
relançou-a, imprimindo-lhe um cariz mitológico e arquetípico que teve um
sucesso tremendo. A transformação acabou finalmente com este Terra Dois,
e Morrison abandonou o seu papel de desconstruidor, para inaugurar a sua
fase de reconstruidor de universos de super-heróis.
Voltemos à Liga da Justiça, um dos mais antigos grupos de
super-heróis, e um dos mais populares. Surgida pela primeira vez pelas mãos do
escritor Gardner Fox, a Liga da Justiça da América é de algum modo a
sucessora da Sociedade de Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis
de sempre, que tinha sido também criada por Fox com a ajuda do editor Sheldon
Maier, e que tinha servido a função de "mostruário" de heróis
menos conhecidos da editora. Foi o mítico lendário editor Julius Schwartz que
pediu a Fox (com a ajuda do artista Mike Sekowsky) que recriasse a
Sociedade dos anos 40, mas Fox decidiu actualizar o seu nome para Liga da
Justiça da América. A Liga estreou-se na revista The Brave and the Bold #28
(Fevereiro/Março de 1960), mas a sua imediata popularidade levou a que logo no
mesmo ano recebessem a sua própria revista e que se transformassem na espinha
dorsal do universo DC.
Schwartz ajudou também à criação de conceitos
revolucionários, que transformariam profundamente o universo de super-heróis da
DC. A editora queria reaproveitar muitos dos heróis dos anos 40 que já não
usava, e em Setembro de 1961 na história Flash of Two Worlds, também com
argumento de Gardner Fox, o Flash criado dos anos 50, Barry Allen, descobre que
consegue vibrar as suas moléculas a tal velocidade que viaja através das
dimensões para chegar a outro mundo, que seria baptizado Terra-2, onde encontra
o Flash dos anos 40, Jay Garrick, que lhe tinha servido de inspiração! Nesta
Terra-2, o Flash da Terra-1 era uma personagem fictícia, o que não impediu que
pouco tempo depois os heróis da Terra-1 se aventurassem com os da Terra-2 em
aventuras cada vez mais empolgantes, que a DC publicava em revistas anuais,
como por exemplo os team-ups da recém-criada Liga da Justiça (da
Terra-1) com a Sociedade da Justiça (que vivia na Terra-2). E a proliferação de
mundos continuou, com cada vez mais Terras paralelas em que existiam heróis ou
vilões diversos, como por exemplo a Terra paralela em que os super-heróis
nossos conhecidos - Super-Homem, Batman, etc... - eram vilões e tinham formado
o Sindicato do Crime da América! Esta explosão de criatividade acabou por criar
problemas de continuidade, que a DC tentaria mais tarde resolver numa saga
épica, que veremos também nesta colecção, a Crise nas Terras Infinitas.
Neste volume, Terra Dois - um título que
encerra uma surpresa, como veremos - o argumentista Grant Morrison recupera
muitos destes conceitos para escrever uma história que questiona os próprios
fundamentos do comic de super-heróis, o que faz dela mais do que uma
simples história de super-heróis, embora seja uma muito boa "simples"
história de super-heróis. Morrison pega naquela criação antiga do universo DC,
o Sindicato do Crime da América - um grupo de super-vilões que são a
contraparte maléfica da Liga da Justiça num universo paralelo - e transforma-os
nos ditadores absolutos dum planeta Terra alternativo. Neste universo, Lex
Luthor, o vilão das histórias do Super-Homem do universo regular da DC, é o
único "super-herói" que se opõe ao Sindicato do Crime. Luthor
consegue viajar para a Terra da Liga da Justiça para pedir a sua ajuda na luta
contra os opressores do seu mundo. Embora os membros da Liga se questionem
sobre se essa intervenção é correcta, acabam por aceder, e partir para a outra
Terra. Aqui, conseguem triunfar temporariamente e prender o Sindicato no seu
satélite espacial, enquanto desfazem a estrutura ditatorial e corrupta com que
ele governa o mundo. Mas as coisas não são tão fáceis, e o próprio Coruja - o
reflexo negro de Batman neste mundo - percebe que o Sindicato não precisa de
fazer nada, e que num movimento cósmico de reequilíbrio, o Sindicato será
transportado para o mundo da Liga, para restabelecer a simetria universal. Os
heróis descobrem então que no mundo que invadiram, o Mal é mais forte que o
Bem, e que está destinado a triunfar sempre no fim, tal como no seu mundo, o
mundo regular do universo DC, o Bem triunfou sempre sobre o Mal, desde as
primeiras histórias de comics de super-heróis... assim, os dois mundos
são o reflexo um do outro, e de certo modo dependem um do outro, num delicado
equilíbrio cósmico.
Quando ambos os mundos parecem estar destinados a destruir-se um ao outro, devido à ruptura deste equilíbrio com ambos os grupos de personagens a viajarem para os mundos um dos outros e com uma ameaça final a aparecer, na figura do Brainiac, Batman faz a descoberta simétrica da do Coruja: se não fizerem nada, os super-heróis serão de novo transportados para o seu mundo, enquanto os super-vilões regressam ao seu para derrotar Brainiac - afinal, no seu mundo os maus estão "condenados" a vencer! - numa espécie de princípio de wu-wei - não-acção - Taoista, neste verdadeiro símbolo do Yin e Yang que são os dois mundos, para sempre opostos e para sempre complementares. O lado pós-moderno e relativista da história é posto a nu pelo facto de a Terra Dois do título ser o universo DC normal, e a Terra Um ser aquela em que o Mal triunfa sempre no fim!
Quando ambos os mundos parecem estar destinados a destruir-se um ao outro, devido à ruptura deste equilíbrio com ambos os grupos de personagens a viajarem para os mundos um dos outros e com uma ameaça final a aparecer, na figura do Brainiac, Batman faz a descoberta simétrica da do Coruja: se não fizerem nada, os super-heróis serão de novo transportados para o seu mundo, enquanto os super-vilões regressam ao seu para derrotar Brainiac - afinal, no seu mundo os maus estão "condenados" a vencer! - numa espécie de princípio de wu-wei - não-acção - Taoista, neste verdadeiro símbolo do Yin e Yang que são os dois mundos, para sempre opostos e para sempre complementares. O lado pós-moderno e relativista da história é posto a nu pelo facto de a Terra Dois do título ser o universo DC normal, e a Terra Um ser aquela em que o Mal triunfa sempre no fim!
Mas por mais que Terra Dois reflicta muitas das preocupações
pós-modernas e desconstrucionistas da história de super-heróis moderna, e que
ela constitua uma reflexão meta-ficcional sobre elas, é ao mesmo tempo um tour
de force maravilhoso: restaura a nossa fé nos clichés da história de
super-heróis, permite-nos continuar a aceitar o pressuposto "ingénuo"
de que nestas histórias o Bem triunfa sempre, e reconcilia-nos com isso,
mantendo a suspensão de cepticismo que é o garante da dimensão mítica destas
histórias, ao dar-nos uma explicação meta-ficcional para esses pressupostos, e
ao permitir uma reflexão sofisticada e filosófica que "desculpa" a
ingenuidade destas histórias! Como diz Julian Darius na sua análise do livro,
Terra Dois permite "que os leitores deixem de necessitar que os heróis
percam uma luta de vez em quando, para poderem ser mais realistas, e leva-os a
reflectir sobre as implicações desses mesmos heróis serem invencíveis, uma reflexão
que não é menos sofisticada!"
Terra Dois é maravilhosamente ilustrado por Frank
Quitely, um dos nomes grandes dos comics, também ele escocês, e
companheiro de longa data de Grant Morrison em muitas sagas. Conhecido pelo
pormenor do seu desenho, trabalhou com Morrison em Novos X-Men, a
mega-saga da Marvel que ambos assinaram (já publicada em Portugal pela Devir),
bem como em Batman and Robin e All-Star Superman, só para citar
livros de super-heróis, embora possamos também mencionar o espectacular WE3,
também editado no nosso país.
Terra Dois foi a primeira grande obra de Morrison em que ele usou um
universo de super-heróis estabelecidos para fazer uma reflexão profunda e
meta-ficcional sobre o género. Já o tinha feito com outros títulos (como Flex
Mentalo, por exemplo), mas Terra Dois marcou um ponto de viragem na
sua percepção deste tipo de histórias. Como diz Metron em World War III,
outra saga assinada por Morrison, a Liga mostra-nos uma visão de relance do
futuro da humanidade, o futuro a que devíamos aspirar, e compete-nos a nós
estar à sua altura. Este é o volume inaugural duma colecção que quer mostrar
algo do melhor que se fez na história de super-heróis, no universo DC. Onde as
personagens da Marvel são criadas para ser parecidas com pessoas reais, com os
seus defeitos e peculiaridades, com os quais os leitores se identificam
facilmente, os heróis da DC tendem as ser figuras mais míticas, e funcionam
mais como símbolos das muitas facetas da personalidade e comportamento humano.
Em 20 volumes, os leitores portugueses poderão poderão tomar contacto com as
melhores sagas e os mais conhecidos heróis da DC.José Hartvig de Freitas
AGRADECIMENTOS - Os meus agradecimentos, primeiro ao próprio Grant Morrison pelo extraordinário livro que escreveu sobre as suas aventuras com super-heróis, Supergods; a Julian Darius, crítico maravilhosamente perspicaz; ao João Miguel Lameiras, e ao meu amigo João Nuno Azevedo, que em muitas conversas acompanhadas de jantar e copos foi realimentando o meu gosto pela DC!
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terça-feira, 9 de julho de 2013
Colecção DC Comics: Antevisão do Volume 1 - Liga da Justiça: Terra Dois
Super-Heróis DC Comics – Volume 1
Liga da Justiça: Terra Dois
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely, Ed McGuiness e Dexter Vines
Depois do sucesso do Homem-Aranha, Capitão América, Demolidor, Homem de Ferro, Wolverine, Thor e dos X-Men no ano passado, agora chegou a vez dos super-heróis da Marvel, darem lugar aos super-heróis da DC Comics. Durante vinte semanas, heróis como o Batman, Super-Homem, Flash, Arqueiro Verde, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Supergirl e Batwoman, entre outros, estarão nas bancas a combater o crime, todas as quintas-feiras, com o seu jornal Público, em histórias assinadas pelos maiores nomes dos comics de super-heróis.
Grant Morrison, o criador escocês que é uma verdadeira lenda dos comics de super-heróis, assina aqui uma das suas obras-primas, neste conto dum mundo às avessas, apoiado pela arte espectacular de Frank Quitely, repetindo a equipa já responsável pelo sucesso de títulos já publicados em Portugal, como Novos X-Men, ou WE3. Em complemento, este volume inclui também os números 1 a 3 da revista JLA: Classified, em que a Liga volta a enfrentar o Sindicato do Crime da Amerika, numa história escrita por Grant Morrison para o desenho de Ed McGuinness e arte-final de Dexter Vines.Poucos autores reflectiram tão profundamente sobre a natureza mítica das histórias de super-heróis e das suas convenções, e poucos seriam capazes de as desconstruir e subverter como Morrison o faz neste Terra 2, mantendo mesmo assim o respeito total pelas personagens deste universo, os maiores super-heróis da DC Comics. Por isso mesmo, este é o álbum perfeito para iniciar uma colecção das melhores histórias do Universo DC!
(texto originalmente publicado no jornal Público de 05/07/2013
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