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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 5: Joker: O Último a Rir


No caso da introdução ao volume do Joker, também da minha autoria, as alterações em relação à versão inicial, têm a ver com a questão da criação do Batman, que oficialmente só foi criado por Bob Kane, e com uma referência ao litígio de Alan Moore com a DC na sequência de Watchmen. Ou seja, pouca coisa, quando comparado com outros textos... Curiosamente, esta versão publicada nem é mais politicamente correcta, pois cheguei a escrever uma terceira versão, mas que não chegou a ser mandada para a DC, porque não foi preciso, uma vez que esta segunda acabou por ser aprovada sem quaisquer cortes.

O HOMEM QUE RI


JÁ DIZIA HITCHOCK QUE O SUCESSO DE UM FILME DEPENDIA, E MUITO, DO CARISMA DO VILÃO. E NA BEM RECHEADA GALERIA DE INIMIGOS DE BATMAN, NÃO HÁ VILÃO MAIS CARISMÁTICO DO QUE O JOKER. O IMPREVISÍVEL ARLEQUIM TEM SIDO O PRINCIPAL ANTAGONISTA DO BATMAN AO LONGO DE MAIS DE SETENTA ANOS, MAS NAS DUAS HISTÓRIAS QUE COMPÕEM ESTE VOLUME, O PROTAGONISMO VAI TODO PARA O JOKER, QUE SE ASSUME AQUI COMO A PERSONAGEM PRINCIPAL, ECLIPSANDO O CAVALEIRO DAS TREVAS COM O BRILHO DA SUA LOUCURA.

Criado por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger em 1940, o Joker foi o antagonista do Batman na primeira aventura na sua própria revista, Batman # 1, título que surgiu na sequência do sucesso das aparições do Cavaleiro das Trevas na revista Detective Comics, a partir do hoje mítico nº 27. Embora os relatos divirjam quanto à importância de cada um dos autores na criação do personagem, com Bob Kane e Jerry Robinson a disputarem entre si o mérito da criação da imagem do Joker, ambos reconhecem a importância de Bill Finger como argumentista e o contributo decisivo de uma fotografia do actor Corand Veidt no filme The Man Who Laughs, de 1928, baseado no romance homónico de Victor Hugo, para o sorriso rasgado que torna o Joker imediatamente reconhecível.
Presença constante nas aventuras de Batman ao longo de décadas, o Joker chegou a ter direito à sua própria série, em meados dos anos 70. Uma série que durou apenas nove números e na qual defrontou os mais variados adversários, incluindo... Sherlock Holmes. Foi também durante a década de 70 que o Joker voltou às origens em termos de comportamento, deixando de ser apenas um comic relief para se transformar num personagem ameaçador e mortífero, nas histórias de Denny O’Neil e Neal Adams que depois dos delírios kitsch dos anos 50 e 60, trouxeram o Batman e os seus adversários para um caminho mais realista, que possibilitou histórias como as assinadas por Frank Miller na década de 80, ou A Piada Mortal, a novela gráfica de Alan Moore e Brian Bolland que abre este volume, dedicado não a um herói, mas ao principal vilão do Universo DC.

Última história escrita por Alan Moore para a DC, em 1988, pouco antes de cortar relações com a editora devido a divergências sobre os royalties de Watchmen, A Piada Mortal é descrita por Moore, como “apenas uma história de Batman”, mas tanto o desenhador, Brian Bolland, como os leitores, sabem que não é bem assim. A Piada Mortal é uma das mais importantes histórias de Batman de sempre, até pelas consequências que teve na vida de Barbara Gordon, que uma bala do Joker deixa paralisada numa cadeira de rodas, pondo fim à sua carreira como Batgirl, durante mais de 20 anos. Situação que só se alterou em 2011, quando na sequência do relançar das principais revistas da DC, no âmbito da iniciativa conhecida como “Novos 52”, Barbara voltou a andar e pode voltar a vestir a fato de Batgirl.
Exemplo perfeito da articulação harmoniosa entre texto e imagem, com Bolland, que agora se dedica sobretudo à ilustração de capas, a brilhar a grande altura no seu último trabalho de grande folego como desenhador, A Piada Mortal explora a relação entre Batman e o Joker e a forma como funcionam como reflexo um do outro, dando-nos a conhecer os acontecimentos que levaram o Joker à loucura.
Numa sequência de flahbacks magistralmente executados, Moore dá-nos a sua versão da origem do Joker, apresentado como um comediante falhado que se envolve com um grupo de criminosos para ganhar dinheiro que lhe permitam sustentar a mulher e o filho prestes a nascer e que perde a sanidade, na sequência de um dia que lhe corre extremamente mal. Um dia que o deixa viúvo, sem filho e deformado. Um passado trágico que justificaria a sua actuação, mas que o próprio Joker não sabe se é real, pois, como o próprio refere: "as minhas memórias nem sempre são as mesmas... Já que tenho que ter um passado, que seja de escolha múltipla!"
Embora Brian Bolland, por falta de tempo, não tenha podido na altura colorir a história, como pretendia, tendo esse trabalho ficado a cargo de John Higgins, que já tinha colaborado com Moore em Watchmen, em 2008, por ocasião do 20º aniversário da publicação de The Killing Joke, o livro foi reeditado numa edição de luxo, como novas cores digitais de Bolland, mais próximas da sua intenção original e que o leitor português pode apreciar pela primeira vez, pois a anterior edição portuguesa da Devir utilizava as cores originais de John Higgins.
Separadas por mais de 20 anos, as duas histórias que compõem este volume, têm em comum o facto de atribuírem o principal protagonismo ao Joker, que surge sorridente e destacado em ambas as capas. Capas essas em que Batman prima pela ausência. Mas a principal diferença entre a Piada Mortal e Joker, é uma diferença de ponto de vista do narrador. Enquanto Moore nos dava a conhecer as recordações do Joker, o que nos permitia perceber as suas motivações, em Joker, Azzarello opta por ter como narrador um pequeno criminoso, Jonny Frost, que vai servir como motorista do alucinado vilão, transmitindo por isso ao leitor uma perspectiva externa.
Depois da mini-série Broken City, publicada em Portugal pela Devir com o título Batman: Cidade Destroçada, Joker assinala o regresso de Azzarello a Gotham City e ao universo do Batman. Um universo onde, curiosamente, se aventurou pela primeira vez ao lado de Bermejo, na mini-série Batman/Deathblow: after the Fire, que juntava o Cavaleiro das Trevas ao mercenário criado por Jim Lee e Brandon Choi. Desta vez, Batman está muito menos presente (embora a sua sombra paire por todo o livro) mas mantém-se a aproximação realista, mais próxima do film noir do que das histórias de super-heróis, que faz do Croc não um mutante com genes de crocodilo, mas apenas um brutamontes com um sério problema de pele. Do mesmo modo, Harley Quinn a companheira do Joker que tinha surgido inicialmente na série de animação do Batman, num episódio escrito por Paul Dini e Bruce Timm, surge aqui numa versão muito realista e sensual, mesmo que, coisa rara numa personagem de Azzarello, que trabalha os diálogos como poucos autores, não a ouçamos dizer uma palavra… Também o Enigma nos aparece modernizado, trocando o uniforme de licra por um vestuário bastante mais urbano. O próprio Joker, acabado de sair do Asilo Arkham, comporta-se mais como um Senhor do Crime que pretende recuperar o seu território, do que como um simples louco, sem um objectivo lógico perceptível. O que não impede que a sua loucura se manifeste de forma assustadoramente inesquecível, sobretudo na violência exacerbada, que Bermejo traduz em imagens hiper-realistas capazes de perturbar os estômagos mais sensíveis.  
Talvez por o livro ter saído muito próximo da estreia de The Dark Knight, o segundo filme da trilogia cinematográfica que Cristopher Nolan dedicou ao Homem Morcego, houve quem visse no Joker de Azzarello e Bermejo, uma versão em papel do Joker magistralmente interpretado por Heath Ledger no cinema, mas as semelhanças entre o livro e o filme são apenas coincidência, pois Azzarello escreveu a história em 1986, dois anos antes do filme estrear, sem ter tido acesso ao argumento, o que não impede que um desenho que Bermejo fez para o site Batman on Film, em 2006, quando começou a trabalhar no livro, possa ter servido de inspiração aos responsáveis pela concepção visual do filme de Nolan.
  Se Azzarello constrói com grande eficácia uma história extremamente violenta de luta pelo poder, o maior responsável pela visão perturbadora que esta história transmite ao leitor é Lee Bermejo. O desenhador passou quase dois anos a desenhar as mais de cem páginas desta história, mas o resultado valeu a pena, mesmo que em alguns casos seja evidente o uso de referências fotográficas, como numa imagem em que o Joker aparece em contrapicado a apontar um revolver que apresenta grandes semelhanças com um dos mais emblemáticos planos do filme brasileiro Cidade de Deus.
 Alternando na mesma páginas imagens desenhadas a traço, com ilustrações em cor directa, Bermejo, contando com a arte-final de Mick Gray consegue imagens espectaculares, de um realismo perturbador, acentuado pelas cores sombrias de Patrícia Mulvihill, que já tinha sido a colorista de 100 Bullets. E, num livro cheio de pormenores, que justificam sucessivas leituras, não falta mesmo uma homenagem à Piada Mortal, na cena no restaurante italiano, em que o Joker a comer camarões numa mesa rodeado de bandidos, nos remete para uma cena idêntica num dos flash backs da Piada Mortal, só com a grande diferença que, em vez de um jovem inseguro, pressionado por um grupo de criminosos a participar no assalto que vai mudar a sua vida, desta vez é o Joker quem comanda o jogo.    

terça-feira, 6 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 4 - Super-Homem: Pelo Amanhã (Parte 2)


E chegamos finalmente ao primeiro texto introdutório da minha autoria. Texto que teve que sofrer uma série de alterações que, basicamente, passaram pela supressão de quaisquer referências religiosas e aos atentados do 11 de Setembro. "Temas sensíveis" que, na opinião dos senhores da DC, "poderiam perturbar os leitores..." Confiante na falta de sensibilidade dos leitores deste blog, aqui fica a versão integral e não censurada do dito texto. No caso, improvável, de algum leitor se sentir perturbado pelo texto, o meu conselho é para que beba um copo, que isso passa-lhe logo...

O HOMEM QUE VEIO DO ESPAÇO

 SÍMBOLO MAIOR DA REINVENÇÃO PELA AMÉRICA DOS HERÓIS DA MITOLOGIA GREGA, O SUPER-HOMEM, TAMBÉM PELA SUA ORIGEM, DE IMIGRANTE CHEGADO Á TERRA PROMETIDA, É O MAIS AMERICANO DOS SUPER-HERÓIS. ISTO APESAR DE SER UM EXTRATERRESTRE, QUE SENDO SUPER, FOI EDUCADO COMO UM HOMEM E QUE, SOB O DISFARCE DE CLARK KENT, VIVE NO MEIO DOS HOMENS. ESSA DUALIDADE SUPER/HOMEM, KAL-EL/ CLARK KENT É UM DOS ASPECTOS MAIS FASCINANTES DA PERSONAGEM, QUE TEM SIDO OBJECTO DAS MAIS DIVERSAS ABORDAGENS AO LONGO DOS TEMPOS.
 Numa cena do filme Kill Bill vol 2, que se tornou marcante para os fãs da BD de super heróis, Quentin Tarantino desenvolve uma interessante teoria sobre o que torna o Super-Homem único e diferente dos restantes super-heróis. Essa teoria, que Tarantino nos dá a conhecer pela boca de Bill, personagem interpretada de forma inesquecível por David Carradine, consiste no seguinte: “A questão do alter ego, ou identidade secreta, é uma parte importante da mitologia dos super-heróis e aquela que torna precisamente a personagem do Super-Homem mais fascinante. Ao contrário do Batman e do Homem Aranha que, quando acordam são, respectivamente, Bruce Wayne e Peter Parker e só depois de vestirem o fato se transformam no Batman e Homem-Aranha, já o Super-Homem é diferente e único. O Super-Homem não se transforma em Super-Homem. O Super-homem nasceu Super-homem, quando acorda já é o Super-Homem. Clark Kent é apenas o seu alter ego. O S que serve de símbolo ao Super-Homem já estava no cobertor que o embrulhava quando os Kent o encontraram nos destroços da nave. É a sua roupa. Já o fato e os óculos de Clark Kent, são o disfarce que o Super-Homem usa para se misturar no meio de nós. Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. Clark Kent é a apreciação do Super-homem sobre a raça humana”.

 Se na mini-série Superman For All Seasons, de Jeph Loeb e Tim Sale, ou na série televisiva Smallville, o enfoque é posto claramente no alter ego Clark Kent, já Brian Azzarello e Jim Lee, na história que se conclui neste volume, dão o protagonismo a Kal-El, o todo-poderoso Super-Homem, fazendo de Clark Kent, apenas uma construção (literal) do Super-Homem, um simples autómato. Um Super-Homem que, ao criar com as melhores intenções uma nova Zona Fantasma, a Metropia, onde se poderia refugiar a humanidade, no caso de um desastre semelhante ao que destruiu o planeta Krypton, acaba por involuntariamente provocar o desaparecimento de um milhão de pessoas, incluindo a sua amada, Lois Lane. Essa catástrofe, a que o leitor não assiste, não deixa de evocar no leitor americano outra tragédia, esta bem real, e que ainda estava fresca na memória colectiva: os atentados de 11 de Setembro de 2001, que abalaram profundamente os Estados Unidos da América.
 Se a escolha de Jim Lee, vindo do sucesso estrondoso de Batman: Hush, para ilustrar esta história, era mais do que óbvia, conhecendo a espectacularidade, pormenor e dinamismo do seu traço e a sua popularidade junto dos leitores, já o mesmo não se pode dizer da opção de Brian Azzarello como argumentista. Conhecido principalmente pelo seu trabalho para a Vertigo, o selo mais adulto da editora DC, na premiada série 100 Bullets, um policial muito negro, com elementos conspirativos, ilustrado pelo argentino Eduardo Risso, o único trabalho de Azzarello com super-heróis até a altura tinha sido Broken City, uma história do Batman desenhada por Risso, muito mais próxima do policial negro do que das histórias de super-heróis. Perante os (anti)heróis tremendamente humanos, sobretudo nos seus defeitos, que marcam as suas histórias anteriores, os leitores esperavam talvez um Super-Homem mais frágil e humanizado, mas Azzarello raramente faz aquilo que os leitores esperam. Um dos problemas de escrever um personagem tão poderoso como o Super-Homem é a dificuldade em criar obstáculos credíveis a esse poder. A Kryptonita, o calcanhar de Aquiles do Super-Homem, foi criada precisamente para ajudar a resolver esse problema. Mas Azzarello não vai por aí, esquecendo a kryptonita, tal como esquece Jimmy Olsen, Perry White, o Daily Planet e a cidade de Smallville, todos os elementos habituais à face humana do Homem de Aço, o seu alter ego Clark Kent. Azzarello opta antes por mostrar um herói poderoso como um deus, capaz de criar mundos, mesmo que depois se esqueça que os criou…

Perante seres tão poderosos, como o Super-Homem, Mulher-Maravilha, e a feiticeira Alcióne, a personagem mais humana e mais tipicamente azzarelliana, é a do misterioso Sr. Orr, um mercenário amoral, ao serviço de uma poderosa corporação. Também na escolha do principal vilão, a opção de Azzarello foi atípica, deixando de fora Lex Luthor, o mais famoso inimigo do Homem de Aço (embora pegue nele pouco tempo depois, na mini-série Lex Luthor: Man of Steel, ilustrada por Lee Bermejo). Para além dele próprio, o principal adversário do Super-Homem nesta história é o General Zod, um kryptoniano como o Homem de Aço, que escapou à destruição do seu planeta-natal por estar aprisionado na Zona Fantasma. Criado em 1961, por Robert Bernstein e George Papp, nas páginas da revista Adventure Comics, o General Zod acabou por ficar mais conhecido graças à interpretação inesquecível de Terence Stamp nos dois primeiros filmes do Super-Homem, realizados por Richard Donner e Richard Lester, não admirando que tenha sido escolhido também para vilão principal do filme Man of Steel, com que Zack Snyder acaba de relançar o Super-Homem no cinema. Depois de uma primeira parte mais expositiva, é a acção que comanda os capítulos finais de Pelo Amanhã, dando oportunidade a Jim Lee de brilhar a alto nível nos combates entre Super-Homem e a Mulher-Maravilha e, principalmente, no combate épico entre o Homem de Aço e Zod.

E se, tal como refere Filipe Faria no editorial do primeiro volume, as referências à religião cristã são diversas e bem evidentes ao longo da história, essa tendência mantém-se nos capítulos finais, com o padre Leone a ser transformado numa arma viva chamada Pilatos, nome do cônsul romano que nada fez para impedir a condenação de Jesus Cristo. Mas também a este nível, Azzarello consegue surpreender o leitor, dando uma interpretação diferente a uma das mais simbólicas imagens da iconografia cristã, a cena da Criação do Mundo, pintada por Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina. Aqui, numa espectacular dupla página do capítulo final, Jim Lee recria, subvertendo-a, a imagem de Miguel Ângelo, com Zod no lugar de Deus, a fechar a mão no último momento, recusando a salvação que o Super-Homem lhe estende.
 Publicado originalmente entre Junho de 2004 e Maio de 2005, nos nºs 204 a 215 da revista Superman, este Pelo Amanhã vinha rodeado de grandes expectativas. Se na altura, as reacções dos leitores foram desiguais e extremadas, face à forma como Azzarello contrariou as suas expectativas, hoje, quase 10 anos depois, o tempo encarregou-se de lhe fazer justiça, e já não restam grandes dúvidas de que estamos perante um verdadeiro clássico, com lugar cativo numa coleção com estas características, que pretende dar a descobrir ao público português as melhores histórias com os maiores heróis da editora DC.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 3 - Super-Homem: Pelo Amanhã (Parte 1)


Depois do José de Freitas, chegou a vez deste blog abrir o seu espaço a mais outra pessoa que não eu. Neste caso, ao Filipe Faria, nome grande da fantasia nacional, autor das Crónicas de Allarya e grande fã da DC em geral e do Super-Homem em particular. Foi nessa qualidade que assinou a tradução e o editorial do 1º volume dedicado ao Homem de Aço na Colecção DC Comics. É a versão UNCUT, não censurada deste texto, que aqui se apresenta.

UM ESTRANHO VISITANTE DE OUTRO PLANETA

ENQUANTO SUPER-HERÓI POR EXCELÊNCIA, O SUPER-HOMEM É DONO DE UMA SÉRIE DE COGNOMES, ENTRE OS QUAIS FIGURAM EPÍTETOS COMO HOMEM DE AÇO, HOMEM DO AMANHÃ OU ÚLTIMO FILHO DE KRYPTON (A PAR DE OUTROS, MENOS CONHECIDOS MAS BEM MAIS ALITERATIVOS, COMO ÁS DA ACÇÃO OU MARAVILHA DE METRÓPOLIS). UM DOS MENOS USADOS É ESTRANHO VISITANTE DE OUTRO PLANETA, PROVAVELMENTE POR TER UM EFEITO DE ALIENAÇÃO E SUSCITAR UM CERTO DISTANCIAMENTO DEVIDO À SUA TOADA, QUE REMETE PARA O TÍTULO DE UM FILME SOBRE UMA INVASÃO ALIENÍGENA, OU A DESCRIÇÃO DE UM SER MISTERIOSO, QUIÇÁ AMEAÇADOR.

Está longe de ser essa a primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa no Super-Homem, o arquétipo do salvador, o bom samaritano sorridente que salva gatinhos de árvores com a mesma facilidade com que combate déspotas intergalácticos, o modelo heróico a partir do qual os super-heróis como os conhecemos foram moldados. Até pode ter vindo de outro planeta e ser um extraterrestre detentor de poderes que desafiam a compreensão, mas ao mesmo tempo sempre foi visto como o mais humano dos seus pares — se não na acepção biológica do termo, então certamente na ética — pois não só cresceu e foi educado como um de nós, como também sempre o caracterizaram uma incondicional abnegação e uma nobreza de carácter que poucos no Universo DC conseguem igualar. Nas palavras do próprio, algo retiradas do contexto de um dos mais reveladores diálogo deste tomo: «se alguém dedicar a sua vida à humanidade, acabará por se considerar como o mais humano de todos».

É esse o Super-Homem que o público em geral conhece, aquele com o qual se familiarizou ao longo dos anos nas mais variadas encarnações, desde a banda desenhada até ao cinema, com passagem pelos desenhos animados e séries de televisão — aquele que se pode dizer que a personagem na sua essência realmente é. Essa mesma essência é explorada a fundo neste Super-Homem: Pelo Amanhã, que a subverte e desafia ao colocar o Homem de Aço numa situação na qual ele se vê forçado a confrontar e pôr em causa tudo aquilo que representa. Trata-se de uma faceta que raramente vem à tona e que nunca antes fora abordada, não sem ser através das sempre convenientes ferramentas que fazem parte do arsenal de qualquer argumentista de histórias de super-heróis: controlo da mente, possessão demoníaca, indução psicotrópica, clones impostores, realidades alternativas, etc. Pelo Amanhã não recorre a semelhantes artifícios, limitando-se a colocar o herói numa situação na qual um evento misterioso causou o desaparecimento de um milhão de pessoas, entre as quais aquele que é considerado um dos mais importantes esteios da humanidade do próprio Homem de Aço: Lois Lane.

Originalmente rival de local de trabalho e parte integrante de um dos mais famosos triângulos amorosos do mundo da ficção, que dura desde o mítico Action Comics #1 (EUA, 1938), Lois Lane e a relação dela com o Super-Homem é bem conhecida pelo mundo fora, tendo ultrapassado barreiras culturais e artísticas ao tornar-se parte da cultura popular. Ao longo dos anos, entre crises, fraudes matrimoniais, reinícios narrativos, histórias hipotéticas e realidades alternativas, o amor entre ambos foi explorado através de todos os prismas possíveis e imaginários, até que, no ido ano de 1996 (Superman: The Wedding Album), após seis décadas de vai-não-vai, os dois deram finalmente o nó e a famosa repórter acabou mesmo por se tornar na esposa do Homem de Aço, por fim inteirada da mais famosa identidade secreta do mundo dos quadradinhos. No entanto, votos de casamento à parte, ela sempre foi vista acima de tudo como um dos «meros mortais» através dos quais o Super-Homem aprendeu a reconhecer a natureza humana em todo o seu imperfeito esplendor, e por conseguinte um dos mais importantes elos que o unem ao seu mundo adoptivo. Aquando do evento misterioso acima referido, o Homem de Aço vê-se então atingido por dois duros golpes dos quais nem mesmo a sua sobejamente conhecida invulnerabilidade o pode resguardar: a perda da sua mulher, e o saber que falhou para com o mundo, por não ter estado presente para evitar tamanho desastre.

Em resultado do desaparecimento de Lois Lane, é-nos apresentado um Super-Homem bem mais frio e distante que aquele a que estamos habituados, quase assustador no desapego que manifesta e sentindo mais do que nunca o peso do mundo sobre os seus ombros, mesmo enquanto tenta fazer boa cara e passar uma mensagem de esperança àqueles que contam com ele para resolver tudo. Quando a história começa, o nosso herói encontra-se na penúltima fase do luto, a da depressão, na qual se desprende sistematicamente das coisas que nele possam suscitar sentimentos de amor ou afecto, o que, mais uma vez, é um estado de espírito deveras atípico para o Homem de Aço. A tristeza, o arrependimento, o medo e a incerteza de que dá mostras são uma reacção perfeitamente natural e humana em semelhante fase, mas não correspondem àquilo que o mundo espera do seu maior herói em tal situação. É aqui que entra Brian Azzarello, autor mais conhecido por histórias de crime pulp noir (100 Bullets), horror (Hellblazer) e personagens falíveis com os pés bem assentes na terra — à partida, uma escolha no mínimo invulgar para escrever uma aventura sobre um alienígena invulnerável, capaz de voar e de comprimir carvão em diamante com as mãos. Contudo, Azzarello mostra em Pelo Amanhã a sua versatilidade, virando do avesso todas as expectativas ao abordar mais o sagrado do que o profano que dele se esperaria, ficando-se por uma nem por isso velada alusão a armas de destruição maciça e ao papel de uma certa superpotência nos conflitos do Médio-Oriente a título de comentário social. Só que, em vez de se perder em semelhantes considerações e enveredar pelo discurso contestatário fácil através da voz do Super-Homem, Azzarello eleva a personagem ao mesmo tempo que a rebaixa, contrastando-a com a mundanidade que a rodeia e focando mais o super do que o homem que, à partida, seria a sua zona de conforto narrativa. De realçar também que Pelo Amanhã é das poucas histórias em que o Super-Homem se vê como Kal-El, o último filho de Krypton, e não como Clark Kent, a identidade humana com a qual cresceu e foi criado — Clark Kent não aparece sequer, e essa curiosa disfunção na dicotomia que sempre caracterizou a personagem é explorada mais a fundo no segundo tomo.

Que se desenganem, contudo, aqueles que possam julgar que Pelo Amanhã representa uma desconstrução gratuita da figura, ou que os eventos o transfiguram ao ponto de se tratar de outra personagem — este Super-Homem continua a ser movido pelos mesmos motivos de sempre, tal como exemplificado pela sua sucinta e prosaica resposta quando, durante a história, alguém lhe pergunta por que razão ele se dá sequer ao trabalho de tentar salvar toda a gente: «Porque posso». Mal seria, se a única coisa que faz do percursor de todos os super-heróis aquilo que é fosse apenas o amor que sente por uma mulher, afinal de contas. Temos, isso sim, um homem — que, lá por que é super, não deixa de o ser — que perdeu aquilo que lhe era mais querido, e que passou um ano a sofrer as consequências das decisões drásticas tomadas em resultado dessa perda. Perda essa que o deixou incerto quanto à legitimidade de usar os seus tremendos poderes para resolver os problemas de outros à sua maneira, e que o leva a pesar os problemas do mundo contra os do seu foro pessoal, sobretudo quando é confrontado com a pura maldade humana numa altura em que se encontra emocionalmente tão abalado. Mais: o Super-Homem sempre foi uma fonte de inspiração heróica, representando, enquanto mandatário, o melhor que o género humano tem para oferecer e aquilo ao qual todas as pessoas de bem devem aspirar. O que acontece a essa noção, a partir do momento em que um símbolo de esperança como ele corre o risco de perder aquilo que faz dele humano?

Baseada nesta premissa, a DC Comics, editora que sempre se diferenciou da concorrente Marvel devido às suas personagens mais optimistas e idealistas, articula em Super-Homem: Pelo Amanhã um paradigma muito interessante e aparentemente contrário à sua filosofia — e logo através do seu herói mais emblemático. Neste primeiro volume temos uma narrativa ambiciosa, na qual se explora, entre outros elementos, o papel do Super-Homem no seu planeta adoptivo, a legitimidade do uso dos seus poderes para combater outras ameaças que não invasores alienígenas e as criações de cientistas loucos — bem como as inevitáveis consequências que daí advêm — e as proporções quase religiosas que ele foi adquirindo ao longo dos anos, qual deus benevolente a caminhar entre os mortais. A título de exemplo, a repetida ênfase nos motivos, iconografia e simbologia cristãs é tudo menos subtil, veiculadas pela nova personagem Padre Leone através do diálogo estilizado que é o apanágio de Brian Azzarello, e bem patentes nas poses messiânicas e afins detalhes da arte de Jim Lee, que aqui assinala um dos melhores trabalhos da sua lendária carreira. O subtexto religioso trata-se, aliás, de um aspecto incontornável da mitologia do Super-Homem — em cuja origem sempre esteve patente um inegável elemento cristofânico, na forma da analogia secular do filho que é enviado pelo pai para salvar a humanidade, para não falar da sua simbologia como uma divindade solar dos tempos modernos — e a sua prevalência nesta história apenas reforça a quase metafísica crise de fé com que a personagem se depara: deve assumir o papel que boa parte da humanidade de qualquer forma lhe reconhece e agir de forma autocrática para salvar o mundo, qual deus infalível? E qual será o derradeiro preço para a sua humanidade, caso o faça? Talvez já tenha sido pago, quando o próprio reconhece logo no início da história que o seu «pecado» foi «salvar o mundo», qual redentor que começa a pôr em causa o real valor do seu sacrifício em prol da humanidade; isto ao perceber que a verdadeira ameaça reside nos corações daqueles que jurou proteger, o que faz da sua já de si interminável batalha uma luta vã, ainda por cima.

Apesar de tudo, não seria de esperar ver um Super-Homem tão incerto e sorumbático quando a humanidade é vitimada por uma catástrofe sem precedentes, pois em circunstâncias normais uma situação destas seria sem sombra de dúvida «um trabalho para o Super-Homem». Acontece que, ao perder o amor da sua vida e ver-se confrontado com o seu fracasso em proteger aqueles que aprenderam a contar com ele, o Homem de Aço acaba até certo ponto por reverter ao seu legado alienígena em busca de conforto e orientação, por se sentir pela primeira vez na vida como um verdadeiro estranho visitante no seu planeta adoptivo, que devido a isso começa a ver o seu maior herói como uma potencial ameaça. Essa mesma impressão é partilhada pelos companheiros do Super-Homem na Liga da Justiça, que receiam que o maior protector da humanidade possa perder o rumo e pô-la em risco, o que não augura nada de bom para ele ou para o mundo — sendo que o próprio mundo acaba por ter uma palavra a dizer nesta situação, conduzindo a um clímax que, de certa forma, acaba por dar alguma legitimidade aos receios manifestados por humanos e super-humanos em igual medida. E assim se encontram reunidos os ingredientes para uma muito invulgar mas nem por isso menos memorável aventura do Super-Homem, neste primeiro capítulo de um polémico arco de história de grande sucesso comercial, cujo mérito artístico e narrativo lhe merece o lugar nesta colecção.

Filipe Faria

sexta-feira, 19 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 2 - Batman: Herança Maldita

Aqui está a versão integral, não censurada, do editorial do 2º volume, escrito mais uma vez pelo José de Freitas. A versão politicimante correcta, que vem no livro, aparece em imagem, pelo que, quem quiser comparar as duas versões, basta carregar nas imagens.

Batman: Para Sempre!

Batman nasceu em 1939 nas páginas da revista Detective Comics - título que para sempre lhe ficou associado, e cujas iniciais iriam dar o nome à editora, até então National Allied Publications. Foi criado por Bob Kane (com a assistência de Bill Finger, que ajudou a definir pormenores finais do aspecto da personagem, e foi o desenhador em muitas aventuras do herói) quase como o oposto do Super-Homem. Onde este era solar, brilhante, apolíneo, e inspirado nos mitos prometaicos de progresso e redenção, Batman é negro e lunar, gótico e ligado às forças das trevas e da vingança, e mergulha as suas raízes nos pulps dos anos 30. Tal como o Super-Homem, é orfão, mas ao contrário dele, Batman sempre viveu à sombra dum tipo de loucura e de comportamento menos convencional, desde o seu relacionamento com as mulheres - até com as super-vilãs como a Mulher-Gato, ele teve casos! - até ao seu lado constantemente torturado pela morte dos pais, a sua origem quase psicanalítica.

Batman teve um sucesso quase imediato, estreando o seu próprio título em 1940 e passando por vários períodos durante a sua já longa carreira. Durante os anos 50 foi progressivamente abandonando o seu lado mais negro, e foi seguindo em parte o gosto da época, tendo passado por fases mais ligeiras, e mesmo humorísticas, que se reflectem por exemplo na série de TV dos anos 60 - não podemos esquecer, no entanto, que foi por um tempo uma das mais populares no mundo! No final dos anos 60, e ao longo da década de 70, autores como Denny O'Neil e Neal Adams, apoiados no lendário editor Julius Schwartz, levaram Batman de volta para um estilo mais próximo das suas origens pulp e noir, com grande sucesso. O seu trabalhou abriu caminho aos anos 80 e às obras de Frank Miller, de Alan Moore, e muitos outros, fazendo com que o herói merecesse plenamente o título de Cavaleiro das Trevas, e regressasse ao seu lado mais negro.

E é exactamente desse lado profundamente reprimido e torturado do Batman que os dois contos que compõem este volume tratam, quase numa relação de Alfa e Ómega. A Herança Mortal, de Grant Morrison (Batman and Son no original, que quase traduziríamos como "Batman e Filhos", numa antevisão do conceito notável que Morrison lançou na sequência, Batman, Inc.), que ele usou mais tarde como ponto de partida duma saga de vários anos que iria mudar para sempre o mito do Homem-Morcego, e o poético e surreal O que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas (Whatever Happened to the Caped Crusader), de Neil Gaiman, que é uma história do fim de Batman, mas do seu fim mítico, e que é também uma porta para o seu renascimento, como a história deslumbrantemente nos mostra. As duas histórias estão aliás interligadas, já que a segunda não teria sido possível se Grant Morrison não tivesse morto Bruce Wayne na sua série, em consequência directa dos acontecimentos que pôs em marcha na história que publicamos neste volume. Mas comecemos pelo princípio.

E o princípio é o evento decisivo da vida de Bruce Wayne, o momento traumático, sem o qual não haveria Homem-Morcego: o crime original, a morte dos pais que para sempre assombrará a vida do Cavaleiro das Trevas, e que possivelmente terá lançado Bruce para perto da loucura, uma loucura que o ameaça constantemente e para a qual a única terapia parece ser o seu heroismo implacável. Onde outros playboys bilionários se teriam abandonado ao niilismo narcisista, Bruce Wayne mergulha num momento de "crescimento pós-traumático", para usar o termo psicológico, e jura vingar a morte dos pais. Ironicamente, é o Joker que lhe explica a possibilidade destes momentos de viragem psicológicos na vida de qualquer pessoa, em Piada Mortal, que teremos a ocasião de ver no quinto volume desta colecção: "Basta um dia muito mau para reduzir o mais são e equilibrado dos homens à loucura total!", falando de si, mas de algum modo também de Bruce Wayne!

Como não confia nem na polícia, nem no sistema, decide tomar a justiça nas mãos e torna-se no Homem-Morcego, uma figura que lança o terror entre os criminosos, mas que talvez tenha mais do que a justiça em mente: Batman tem um lado vingativo, como se não pudesse perdoar nunca aquela noite fatídica numa viela, em que não havia Batman para salvar os seus pais. E mesmo os seus aliados e amigos o dizem, à medida que descobrem que o Batman é talvez mais calculista, mais temível, mais sinistro, que eles próprios imaginavam. Como na revelação extraordinária de que Batman manteve ficheiros secretos sobre os membros da Liga da Justiça, documentando as suas fraquezas e as maneiras de serem derrotados, em Torre de Babel, de Mark Waid e Howard Porter. Ou como naquela cena inesquecível de All-Star Batman & Robin The Boy Wonder, the Frank Miller e Jim Lee, em que o Lanterna Verde lhe lança à cara: "Os teus métodos são repugnantes. Há mais vítimas tuas que acabam no hospital do que na prisão. Sim, chamei-lhes vítimas! De cada vez que estou perto de ti, estás a partir a perna  a algum bandido, ou a quebrar os queixos a um polícia!" E esta propensão para a vingança, para a violência, é integral à personagem, e vem já dos primórdios, dos primeiros dias da sua existência, apesar dos interlúdios burlescos, dos anos 50 e da série de televisão.

É este pecado original que Grant Morrison vai endereçar na sua notável saga que durou quase seis anos, e se iniciou precisamente aqui, em Batman and Son. É este o tema central da história de Morrison, a relação de Batman com aquele evento traumático, um tema particularmente bem resumido por Jezabel Jet, que se torna na namorada de Bruce Wayne, e a quem ele revela a sua vida dupla como super-herói. Diz ela: "Tanta coragem, Bruce, tanto génio, teres-te transformado no cavaleiro das trevas que não estava lá naquela noite em que precisaste dele. Mas tudo isto... tudo isto é a resposta de um rapaz perturbado à morte dos seus pais." Morrison começa por introduzir na história um filho, saído duma relação que teve com Talia, a filha de Ras al Ghul - mais uma da longa lista de vilãs com quem ele teve relações, começando na Mulher-Gato e acabando na mesma Jezabel Jet, quase como se fosse atraído pelo lado negro! Damian é quase o oposto do seu pai, educado por assassinos, convencido da sua superioridade, totalmente egocêntrico e algo psicopata, mas a dinâmica pai-filho que se vai estabelecer nesta história irá perdurar até que Damian se transforma no novo Robin - algo que é prefigurado numa cena deste volume em que ele aparece vestido de Robin. Só que quando isso acontece, já Bruce Wayne estará morto, criando assim uma simetria terrível entre os dois, ambos perderam o pai, ambos precisam de provar que são capazes de se tornar heróis!

A morte (temporária) de Bruce Wayne na série Batman RIP marca outro dos temas centrais da ideia de Grant Morrison para a sua personagem: a da imortalidade do super-herói, como símbolo, como arquétipo. Não se trata da imortalidade básica duma personagem que é publicada pela mesma editora há mais de 70 anos, simplesmente porque sim, e porque dá dinheiro, mas da imortalidade que ela alcançou na imaginação dos leitores, e no fundo, dos próprios tempos em que nasceu. Como Morrison não se cansa de dizer, "não é porque são ficcionais que estes heróis são menos reais", e aqui ele não se coíbe de usar todos os métodos para afirmar a imortalidade do Batman, numa exploração meta-ficcional da personagem. Na sua saga de morte e de ressureição do Homem-Morcego, bem como dos episódios em que outro herói toma o seu manto (ficando Damian como o Robin desse outro Batman), e na criação de Batman Inc., a rede internacional de heróis que se reclamam do Morcego, Grant Morrison demonstra o carácter mítico da personagem de modo magistral.

Na segunda história deste volume, também ela ilustrada pelo espantoso Andy Kubert, Neil Gaiman toma um caminho diferente para explicar a imortalidade do Cavaleiro das Trevas, mas não menos original e fiel ao espírito das histórias do Universo DC. Tal como Grant Morrison, Neil Gaiman fez parte daquela "ínclita" geração de autores ingleses que atravessou o Atlântico para revolucionar os comics americanos. Depois de escrever uma série de bandas desenhadas independentes no Reino-Unido, Gaiman começou a trabalhar para a DC através do seu selo adulto, a Vertigo. Curiosamente, o seu primeiro trabalho para a editora foi com uma super-heroína do universo DC, a Orquídea Negra. Mas foi com Sandman, a sua obra-prima, que Gaiman se tornou famoso, e foi também Sandman que lhe abriu as portas das grandes editoras literárias, lançando a sua carreira como escritor de fantástico, com romances como Stardust, e mais tarde American Gods. American Gods foi o romance com que atingiria a fama e que lhe granjeou todos os prémios da ficção-científica e do fantástico, desde o Hugo e o Bram Stoker Award, ao Nebula.

Tal como Morrison, Gaiman parte dum princípio simples e que presta homenagem a toda a mitologia do Batman: a ideia de que todas as histórias publicadas são, de algum modo reais, que todas elas existiram de facto na continuidade da personagem. Mas como é que isso é possível? Como é que se consegue unificar as histórias do Batman original, com as da Segunda Guerra Mundial, com o tratamento que Neal Adams lhe deu nos anos 70, e com o Batman negro e terrível de Frank Miller em O Regresso do Cavaleiro das Trevas, e com todos os outros Batmans dos últimos setenta anos?  Unificam-se na morte, e é esse o segredo que é revelado a Bruce Wayne na história, e mais uma vez a ligação ao evento original, criador, da morte dos pais, é explícita. A história, que segue as pisadas de Whatever Happened to the Man of Tomorrow de Alan Moore, aqui explicitamente homenageada por Gaiman, assinala o fim de uma era na história da personagem. Foi publicada nas revistas Batman e Detective Comics, no período em que Bruce Wayne estava morto, sendo publicitada como "a história final de Batman". Mas Gaiman consegue, com grande ironia e elegância, que ela seja não só a última, mas a primeira! Talvez o momento mais surreal da história, mas ao mesmo tempo o mais trágico e mais comovente, seja a incrível narração de Alfred, quando revela que num universo do Batman, foi ele que criou os inimigos para o herói, para o conseguir manter são, e feliz, e foi ele que incarnou o Joker que ressuscitou o herói pela sua própria existência como nemesis. "Como sou inglês, tenho alguma dificuldade em identificar o sítio em que acaba a excentricidade e começa a loucura. Não nego que o Senhor Bruce era excêntrico, e admito que não é normal vestir-se como um morcego gigante para lutar contra o crime", diz o fiel servidor de Bruce Wayne, remetendo-nos de novo para o início: a loucura ou quase-loucura de Batman. "Já li sobre como as crianças traumatizadas por vezes desenvolvem personalidades dissimuladas para se protegerem de memórias dolorosas e reprimidas" afirma Bruce Wayne, numa das histórias de Grant Morrison.

Nas notáveis histórias incluidas neste volume, ambos os autores conseguem  mostrar como todas essas personalidades, todas as eras, todos os estilos e contos, podem coexistir num só mito, num só arquétipo heróico. E como diz Morrison, "Muito depois de eu morrer e ter sido esquecido, muito depois de todos nós termos partido, ainda haverá um Batman".

Batman: para sempre!

José Hartvig de Freitas

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 1 - Liga da Justiça Terra Dois

Pela primeira vez, este Blog vai publicar um post não escrito por mim. Neste caso, o autor é o José de Freitas que aqui publica a versão integral, não censurada do editorial que escreveu para o 1º volume da Colecção DC Comics, que ontem chegou às bancas com o jornal Público.
Uma das diferenças desta colecção para as anteriores da Marvel, é que o controle editorial da DC é muito mais burocrático e apertado. Por isso, os textos introdutórios que escrevemos para os primeiros cinco volumes, tiveram que sofrer diversas alterações de modo a ficarem mais politicamente correctos e adequados às restrições temáticas impostas pela DC. Essas restrições impedem, por exemplo, referências à Marvel, a questões religiosas, ao 11 de Setembro e um extremo cuidado no uso da palavra "criado" em relação em relação a autores e personagens. Por exemplo, não se pode dizer que o Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger, pois oficialmente a DC não reconhece a Bill Finger esse estatuto de criador...
Mas como a DC diz que os textos originais, embora não adequados a uma publicação oficial da DC, podem perfeitamente ser publicados em blogs e revistas da especialidade, aqui iremos publicar as versões UNCUT desses editoriais, escritos pelo José de Freitas, pelo Filipe Faria e por mim, que tiveram que ser "retrabalhados."


A Liga da Justiça para além do Bem e do Mal


O que é que define a história de super-heróis? Quais são os seus critérios, os seus pressupostos? Quais as regras pelas quais este género se rege? Nascida há quase um século na sua forma moderna, a história de super-heróis mergulha as suas raízes num passado muito mais distante, um passado de mito e de imaginação, e reflecte de certo modo tudo o que de melhor a humanidade pode ser. E também o pior.

Ao longo das décadas em que a história de super-heróis evoluiu, passou por inúmeras fases, e acompanhou o desenvolver da sensibilidade dos seus fãs, as mudanças que as sociedades Ocidentais foram sofrendo, as suas esperanças e desilusões, e o processo de maturidade dos leitores. Desde os inícios até à nossa era pós-moderna, passou de um período ingénuo e algo linear, a um período caracterizado pela sua desconstrução e pelo experimentalismo. Quando relemos muitas histórias dos anos 30, 40 ou 50, ficamos surpreendidos pelas suas regras “básicas”, pelo seu lado ingénuo e por vezes infantil. Nas histórias clássicas de super-heróis, o Bem vence sempre, por exemplo. Ao longo dos anos fizeram-se muitas experiências, e muitos autores se "revoltaram" contra estes pressupostos das histórias de super-heróis, explorando histórias em que os heróis morrem, o Mal vence, o sentido final das sagas remete para o absurdo ou para o caótico e aleatório. Uma evolução muito paralela com a de todos os outros media que nos rodeiam, como por exemplo a televisão. Basta ver a diferença entre uma série antiga como Bonanza, e uma moderna como Deadwood, embora ambas se integrem no mesmo género codificado que é o Western.

E no entanto, as histórias de super-heróis mantiveram sempre o seu pressuposto central, o da vitória do Bem sobre o Mal, ao longo de décadas em que os leitores, no mundo real, foram testemunhas de vitórias objectivas do mal, e em que esse lado ingénuo do género foi sendo cada vez mais posto à prova. Mas o Bem continua a vencer nos comics. Talvez devido ao carácter mítico dos super-heróis, um dos últimos loci literários em que se perpetua a grande tradição do mito heróico. Mas por vezes, lado mítico ou não, por mais que gostemos desta ou daquela saga, essa primazia do Bem deixa por vezes um amargo de boca, e cria mais uma clivagem entre o mundo real e o mundo mítico, que suspende por vezes o gozo puro de ler uma história de super-heróis.
É por isso que Terra Dois de Grant Morrison é uma das mais belas e mais "correctas" histórias de super-heróis jamais escritas, e talvez a homenagem absoluta ao lado mítico do género, conseguindo, quase que numa operação Alquímica, resolver a Coincidentia Oppositorum - a síntese dos opostos! - entre o Bem e o Mal, e reconciliando o leitor com essa regra não-escrita que diz que o Bem vence sempre. E por isso é talvez a melhor história possível para iniciar esta colecção de Herois DC!

Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Criados nos fanzines e revistas independentes da Grâ-Bretanha, traziam consigo uma sensibilidade muito diferente, bem mais política e radical, e mais disposta a questionar as bases fundamentais da história de super-heróis. Nomes como Alan Moore, Neil Gaiman, Peter Milligan, Jamie Delano ou Garth Ennis, encontraram nas grandes editoras americanas um lar novo, onde lhes foi permitido "experimentar" com as personagens e universos estabelecidos, ou criar os seus próprios universos, particularmente na Vertigo, o selo "adulto" da DC, onde foram publicadas muitas histórias seminais da BD anglo-saxónica dos nossos tempos. Grant Morrison tornou-se rapidamente numa das super-estrelas dos comics americanos, e ao contrário de muitos outros compatriotas seus (com a excepção de Alan Moore, diga-se) iniciou-se quase de imediato na história de super-heróis - em vez de ter começado por escrever as suas próprias criações - primeiro com Animal Man e Doom Patrol, duas séries a que imprimiu um cunho quase surrealista e algo pós-moderno, e logo depois com o espantoso Asilo Arkham, com arte de Dave McKean. Estes títulos estabeleceram desde logo algumas das preocupações centrais da obra de Morrison, e a sua capacidade imensa de analisar e desconstruir o género dos super-heróis. Morrison também foi ficando obcecado com a ideia da definição dos universos ficcionais dum ponto de vista meta-ficcional, ou seja, da história vista de fora e em que se analisam os pressupostos que a fazem funcionar, mas em que a própria reflexão sobre esses pressupostos e regras interage e influencia a história. A esta obsessão não será alheio o interesse de Morrison pelo oculto e pela magia, e a sua vontade de "contactar universos ficcionais distantes", como o próprio relata no seu livro Supergods, em que analisa profundamente o fenómeno da vida "independente" das criações literárias (e outras)!

Ao longo de uma década e meia, Grant Morrison fez um percurso complexo, que o levou de um ponto em que estava disposto a desconstruir completamente o género dos super-heróis, em criticá-lo, virá-lo do avesso, violar todas as regras que o definem, a um ponto de chegada em que redescobriu um respeito profundo pelos super-heróis, e em que mergulhou nas raizes míticas que o definem, e conseguiu revitalizá-lo duma maneira original. Podemos comparar este percurso de Morrison com o de Alan Moore, para termos uma uma ideia de quão revolucionário ele parece ter sido para um jovem irreverente da geração punk cuja missão inicial era arrasar tudo e chocar os leitores. Alan Moore também assinou comics de super-heróis que fizeram história - basta citar Piada Mortal, que integrará o volume dedicado ao Joker nesta colecção, ou o excelente Whatever Happened to the Man of Tomorrow? - e também ele desde o início pareceu questionar muitas das regras normais deste género. Mas a evolução de Moore levou-o a assinar Watchmen, com desenho de Dave Gibbons, que é nem mais, nem menos, do que a prova de que os super-heróis, como género clássico, com os seus universos e a sua continuidade, são impossíveis e não fazem sentido - e não estamos a falar da impossibilidade de seres com super-poderes, mas sim da incoerência interna deste género literário.

Morrison e Moore afastam-se assim um do outro na sua análise do género. Ao longo dos anos, Morrison foi ganhando novo respeito pelos super-heróis, chegando até de certo modo a lamentar o seu período desconstrucionista. E atira muitas culpas a Alan Moore pela idade das trevas que o género chegou a viver nos anos 80 e 90, e pelo antagonismo que muitos autores pareceram nutrir pelos seus heróis. Mas Morrison também sentiu que depois de Watchmen, passava a ser possível fazer algo diferente, e reflectir de modo mais produtivo acerca dos super-heróis, acerca daquilo que os torna míticos. Em Supergods, escreve "Mas por mais que tentássemos, o super-herói regressou dos mortos com novos poderes, como sempre fez, para se vingar daqueles que o quereriam destruir. Muito mais do que matar o género dos super-heróis, Watchmen tinha aberto caminho para o conceito ser examinado e para o seu potencial ser revigorado. (...) Eu queria mais das minhas ficções. Como sempre fui do contra, cansei-me de me dizerem o que os super-heróis seriam se fossem reais, e de descobrir sempre que eles não eram mais do que nós no nosso pior: venais, corruptos, mistificados e estúpidos. O realismo tinha acabado por ser confundido com um tipo muito particular de pessimismo adolescente e de sexualidade colérica, que me começou a parecer limitativa." O percurso desconstrucionista de Morrison tinha chegado ao fim, e quando em 1996 lhe confiaram a série da Liga da Justiça, relançou-a, imprimindo-lhe um cariz mitológico e arquetípico que teve um sucesso tremendo. A transformação acabou finalmente com este Terra Dois, e Morrison abandonou o seu papel de desconstruidor, para inaugurar a sua fase de reconstruidor de universos de super-heróis.

Voltemos à Liga da Justiça, um dos mais antigos grupos de super-heróis, e um dos mais populares. Surgida pela primeira vez pelas mãos do escritor Gardner Fox, a Liga da Justiça da América é de algum modo a sucessora da Sociedade de Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis de sempre, que tinha sido também criada por Fox com a ajuda do editor Sheldon Maier, e que tinha servido a função de "mostruário" de heróis menos conhecidos da editora. Foi o mítico lendário editor Julius Schwartz que pediu a Fox (com a ajuda do artista Mike Sekowsky) que recriasse a Sociedade dos anos 40, mas Fox decidiu actualizar o seu nome para Liga da Justiça da América. A Liga estreou-se na revista The Brave and the Bold #28 (Fevereiro/Março de 1960), mas a sua imediata popularidade levou a que logo no mesmo ano recebessem a sua própria revista e que se transformassem na espinha dorsal do universo DC.

Schwartz ajudou também à criação de conceitos revolucionários, que transformariam profundamente o universo de super-heróis da DC. A editora queria reaproveitar muitos dos heróis dos anos 40 que já não usava, e em Setembro de 1961 na história Flash of Two Worlds, também com argumento de Gardner Fox, o Flash criado dos anos 50, Barry Allen, descobre que consegue vibrar as suas moléculas a tal velocidade que viaja através das dimensões para chegar a outro mundo, que seria baptizado Terra-2, onde encontra o Flash dos anos 40, Jay Garrick, que lhe tinha servido de inspiração! Nesta Terra-2, o Flash da Terra-1 era uma personagem fictícia, o que não impediu que pouco tempo depois os heróis da Terra-1 se aventurassem com os da Terra-2 em aventuras cada vez mais empolgantes, que a DC publicava em revistas anuais, como por exemplo os team-ups da recém-criada Liga da Justiça (da Terra-1) com a Sociedade da Justiça (que vivia na Terra-2). E a proliferação de mundos continuou, com cada vez mais Terras paralelas em que existiam heróis ou vilões diversos, como por exemplo a Terra paralela em que os super-heróis nossos conhecidos - Super-Homem, Batman, etc... - eram vilões e tinham formado o Sindicato do Crime da América! Esta explosão de criatividade acabou por criar problemas de continuidade, que a DC tentaria mais tarde resolver numa saga épica, que veremos também nesta colecção, a Crise nas Terras Infinitas.

Neste volume, Terra Dois - um título que encerra uma surpresa, como veremos - o argumentista Grant Morrison recupera muitos destes conceitos para escrever uma história que questiona os próprios fundamentos do comic de super-heróis, o que faz dela mais do que uma simples história de super-heróis, embora seja uma muito boa "simples" história de super-heróis. Morrison pega naquela criação antiga do universo DC, o Sindicato do Crime da América - um grupo de super-vilões que são a contraparte maléfica da Liga da Justiça num universo paralelo - e transforma-os nos ditadores absolutos dum planeta Terra alternativo. Neste universo, Lex Luthor, o vilão das histórias do Super-Homem do universo regular da DC, é o único "super-herói" que se opõe ao Sindicato do Crime. Luthor consegue viajar para a Terra da Liga da Justiça para pedir a sua ajuda na luta contra os opressores do seu mundo. Embora os membros da Liga se questionem sobre se essa intervenção é correcta, acabam por aceder, e partir para a outra Terra. Aqui, conseguem triunfar temporariamente e prender o Sindicato no seu satélite espacial, enquanto desfazem a estrutura ditatorial e corrupta com que ele governa o mundo. Mas as coisas não são tão fáceis, e o próprio Coruja - o reflexo negro de Batman neste mundo - percebe que o Sindicato não precisa de fazer nada, e que num movimento cósmico de reequilíbrio, o Sindicato será transportado para o mundo da Liga, para restabelecer a simetria universal. Os heróis descobrem então que no mundo que invadiram, o Mal é mais forte que o Bem, e que está destinado a triunfar sempre no fim, tal como no seu mundo, o mundo regular do universo DC, o Bem triunfou sempre sobre o Mal, desde as primeiras histórias de comics de super-heróis... assim, os dois mundos são o reflexo um do outro, e de certo modo dependem um do outro, num delicado equilíbrio cósmico.
Quando ambos os mundos parecem estar destinados a destruir-se um ao outro, devido à ruptura deste equilíbrio com ambos os grupos de personagens a viajarem para os mundos um dos outros e com uma ameaça final a aparecer, na figura do Brainiac, Batman faz a descoberta simétrica da do Coruja: se não fizerem nada, os super-heróis serão de novo transportados para o seu mundo, enquanto os super-vilões regressam ao seu para derrotar Brainiac - afinal, no seu mundo os maus estão "condenados" a vencer! - numa espécie de princípio de wu-wei - não-acção - Taoista, neste verdadeiro símbolo do Yin e Yang que são os dois mundos, para sempre opostos e para sempre complementares. O lado pós-moderno e relativista da história é posto a nu pelo facto de a Terra Dois do título ser o universo DC normal, e a Terra Um ser aquela em que o Mal triunfa sempre no fim!

Mas por mais que Terra Dois reflicta muitas das preocupações pós-modernas e desconstrucionistas da história de super-heróis moderna, e que ela constitua uma reflexão meta-ficcional sobre elas, é ao mesmo tempo um tour de force maravilhoso: restaura a nossa fé nos clichés da história de super-heróis, permite-nos continuar a aceitar o pressuposto "ingénuo" de que nestas histórias o Bem triunfa sempre, e reconcilia-nos com isso, mantendo a suspensão de cepticismo que é o garante da dimensão mítica destas histórias, ao dar-nos uma explicação meta-ficcional para esses pressupostos, e ao permitir uma reflexão sofisticada e filosófica que "desculpa" a ingenuidade destas histórias! Como diz Julian Darius na sua análise do livro, Terra Dois permite "que os leitores deixem de necessitar que os heróis percam uma luta de vez em quando, para poderem ser mais realistas, e leva-os a reflectir sobre as implicações desses mesmos heróis serem invencíveis, uma reflexão que não é menos sofisticada!"

Terra Dois é maravilhosamente ilustrado por Frank Quitely, um dos nomes grandes dos comics, também ele escocês, e companheiro de longa data de Grant Morrison em muitas sagas. Conhecido pelo pormenor do seu desenho, trabalhou com Morrison em Novos X-Men, a mega-saga da Marvel que ambos assinaram (já publicada em Portugal pela Devir), bem como em Batman and Robin e All-Star Superman, só para citar livros de super-heróis, embora possamos também mencionar o espectacular WE3, também editado no nosso país.

Terra Dois foi a primeira grande obra de Morrison em que ele usou um universo de super-heróis estabelecidos para fazer uma reflexão profunda e meta-ficcional sobre o género. Já o tinha feito com outros títulos (como Flex Mentalo, por exemplo), mas Terra Dois marcou um ponto de viragem na sua percepção deste tipo de histórias. Como diz Metron em World War III, outra saga assinada por Morrison, a Liga mostra-nos uma visão de relance do futuro da humanidade, o futuro a que devíamos aspirar, e compete-nos a nós estar à sua altura. Este é o volume inaugural duma colecção que quer mostrar algo do melhor que se fez na história de super-heróis, no universo DC. Onde as personagens da Marvel são criadas para ser parecidas com pessoas reais, com os seus defeitos e peculiaridades, com os quais os leitores se identificam facilmente, os heróis da DC tendem as ser figuras mais míticas, e funcionam mais como símbolos das muitas facetas da personalidade e comportamento humano. Em 20 volumes, os leitores portugueses poderão poderão tomar contacto com as melhores sagas e os mais conhecidos heróis da DC.

José Hartvig de Freitas

AGRADECIMENTOS - Os meus agradecimentos, primeiro ao próprio Grant Morrison pelo extraordinário livro que escreveu sobre as suas aventuras com super-heróis, Supergods; a Julian Darius, crítico maravilhosamente perspicaz; ao João Miguel Lameiras, e ao meu amigo João Nuno Azevedo, que em muitas conversas acompanhadas de jantar e copos foi realimentando o meu gosto pela DC!