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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

NovelaGráfica V 7 - Flex Mentallo


OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA DUPLA GENIAL

Novela Gráfica V – Vol. 7 
Flex Mentallo
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Quinta-feira, 15 de Agosto
Por + 10,90€
Bem conhecidos dos leitores portugueses, graças a títulos como WE3 e All Star Superman, Grant Morrison e Frank Quitely estreiam-se na colecção Novela Gráfica, na próxima quinta-feira, 15 de Agosto, com aquela que foi a sua primeira colaboração, Flex Mentallo, um clássico da Vertigo.
Publicado originalmente como uma mini-série em quatro volumes em 1996 e republicado numa edição de luxo definitiva, recolorida por Peter Doherty, em 2012, que serve de base à versão portuguesa, Flex Mentallo é muito mais do que a primeira colaboração entre Morrison e Quitely. É um exemplo de metaficção e uma reflexão sobre a história e mitologia dos comics de super-heróis e a sua importância para o mundo real. Ou como o próprio criador de Flex Mentallo, que é uma das personagens da história (e um alter ego óbvio do autor) explica aos leitores na página 101: “Criámos os comics porque sabíamos, de alguma forma, sabíamos, que faltava algo e tentámos preencher esse vazio, com histórias acerca de deuses e de super-heróis.”
Flex Mentallo nasceu durante a passagem de Morrison pela série Doom Patrol, um título clássico, criado um 1963 (o mesmo ano em que a Marvel lançou os Fantastic Four) e relançado em 1987, com o subtítulo “Os Mais Estranhos Super-Heróis do Mundo”, o que convinha perfeitamente a Morrison, que tomou conta da série em 1989, no número 19 e criou a sua versão da Doom Patrol. Uma versão incontornável e definitiva, que está na base da actual série televisiva, exibida em Portugal no canal por cabo da HBO, onde Flex Mentallo marca presença, interpretado pelo actor Devan Chandler Long.

Mas se o “quebrar da quarta parede”, colocando os personagens em confronto com o seu criador, é algo que Morrison já tinha feito antes na série Animal Man, aqui vai mais longe, traçando uma verdadeira história dos comics de super-heróis, iniciando uma reflexão sobre o género que irá culminar no seu livro Supergods. Isso é bem visível nas capas originais da mini-série, com cada uma a evocar umas das quatro idades dos Comics. A Idade do Ouro, a Idade da Prata, a Idade Sombria - que resultou do sucesso de Watchmen e de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, cuja capa é evocada no nº 3 da mini-série – e a Idade actual, que revisita de forma crítica e nostálgica as origens do género, reinventando-o para os leitores do século XXI.
E falta falar do excelente trabalho de Quitely, que se estreou aqui no mercado americano. Mas deixemos que seja o seu conterrâneo Grant Morrison a fazê-lo: “Graças às suas fantásticas habilidades de desenho, ele é capaz de criar coisas que antes só viviam nos meus sonhos, o que eu acho fascinante. Ele consegue captar no papel a sensação exacta dos meus sonhos. Ele abordou os personagens de uma forma que os fez parecerem bastante bizarros e bastante irrealistas, e acho que isso realmente se adequou ao livro.”
Publicado originalmente no jornal Público de 10/07/2019

terça-feira, 2 de julho de 2019

Apresentação da colecção Novela Gráfica 2019

CINCO ANOS DA NOVELA GRÁFICA NO PÚBLICO

Tudo começou em 2015, com a publicação pelo Público, em colaboração com a Levoir, da primeira Colecção dedicada à Novela Gráfica. Uma aposta inovadora, num estilo de Banda Desenhada com um pendor mais literário, longe das características bem codificadas das anteriores colecções de BD franco-belga e Comics de super-heróis que o jornal Publico vinha editando desde 2003.
Iniciada, naturalmente, com Um Contrato com Deus, de Will Eisner, título que muitos consideram como o fundador do género, esta colecção podia ser perfeitamente definida por um único termo: liberdade. Liberdade temática, de registo gráfico, de formato, de número de páginas, numa utilização plena das imensas possibilidades da Banda Desenhada para fazer aquilo que os autores melhor sabem e querem fazer: contar histórias. Histórias que podiam ser autobiográficas, adaptações de obras literárias, biografias, de terror, de fantasia, de crítica social, de guerra, poéticas, ou profundamente humanas. Tudo dependia da vontade e do talento dos autores.
Autores vindos dos quatro cantos do Planeta, numa demonstração de diversidade, que ficou bem patente logo na primeira série, que incluía americanos como Eisner e Crumb, franceses como Moebius, Baudoin e Tardi, sul-americanos como Jodorowsky, Oesterheld, Breccia e Danilo Beiruth, espanhóis como Altarriba e Kim, para além do português Miguel Rocha, do suíço Cosey e do japonês Taniguchi, com estes dois últimos a repetirem presença em posteriores colecções, como de resto aconteceu também com Moebius, Tardi, Altarriba e Kim.
O sucesso junto dos leitores – que não se limitou aos coleccionadores habituais de BD, ajudando a criar um novo tipo mais alargado de público com interesses culturais mais abrangentes - e o reconhecimento traduzido pelos prémios atribuídos pelos principais eventos nacionais de BD, como o Festival da Amadora e a Comic Con, mostraram que esta era uma aposta certa e com futuro. Por isso, ao longo das colecções seguintes manteve-se a aposta na diversidade e na qualidade, recuperando clássicos como Mort Cinder, de Orsterheld e Breccia, V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd (que esteve em Lisboa para o lançamento do livro), Ronin, de Frank Miller, Aqui Mesmo, de Tardi e Forrest e O Último Recreio, de Altuna e Trillo, ao mesmo tempo que se mostrava aos leitores a extraordinária pujança da actual Novela Gráfica espanhola, bem representada em autores que se tornaram recorrentes nestas colecções, como Paco Roca, Kim, Miguelanxo Prado e Bartolomé Seguí.
Mas a aposta na Novela Gráfica não se ficou por estas colecções anuais. Está também patente em títulos pontuais, como A Casa, de Paco Roca, ou a biografia de Billie Holliday, de Munõz e Sampayo, entre outros. Além disso, inspirados pelo sucesso das colecções do Público e da Levoir, a maioria das editoras generalistas, incluindo aquelas com pouca ou nenhuma tradição na edição de BD, como a Porto Editora e a Relógio de Água, começaram também a publicar Novelas Gráficas, termo que já está perfeitamente enraizado no vocabulário dos leitores.
Na colecção de 2019, onde os autores em estreia são mais do que os que regressam, mantém-se a aposta na diversidade, bem patente no facto de albergar autores de sete nacionalidades diferentes, dois dos quais são mulheres. Uma presença feminina que acontece pela segunda vez, depois de Zeina Abirached na Colecção de 2016. E se em termos de género há uma evidente melhoria em relação às colecções anteriores, em termos de nacionalidades, para além de diversos autores espanhóis e americanos, temos uma iraniana e uma belga, um francês, um suíço, um belga e dois escoceses.
A abrir a Colecção, temos o regresso de um dos mais populares e prestigiados autores espanhóis da actualidade, que esta colecção ajudou a tornar conhecido dos leitores portugueses, Paco Roca, com o seu mais recente livro, O Tesouro do Cisne Negro, uma história inspirada no caso real da pilhagem dos destroços de um galeão espanhol afundado no século XVIII ao largo do Algarve. Mas Paco Roca não é o único regresso - num alinhamento onde não faltam as estreias, que serão objecto de análise num texto à parte. Também de volta está El Torres, o argumentista de O Fantasma de Gaudí, presente com O Rasto de Garcia Lorca, uma biografia do poeta, visto por aqueles que o conheceram e ilustrada por Carlos Hernandéz.
Outro regresso é o de Bartolomé Seguí, desenhador de Histórias do Bairro e Tatuagem, que agora, ao lado do escritor Felipe Hernandéz Cava assina As Serpentes Cegas, um policial negro passado em Nova Iorque, com a Guerra Civil espanhola como pano de fundo, que valeu à dupla o Prémio Nacional del Comic em 2009. Igualmente de retorno está Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Quebrada, mas que desta vez não conta com a presença de António Altarriba, seu cúmplice habitual, aventurando-se a solo com Neve nos Bolsos, um relato autobiográfico sobre a sua experiência com imigrante na Alemanha durante os anos 60.
Finalmente, Alfonzo Zapico, o autor de Gente de Dublin, a biografia de James Joyce que foi um dos grandes sucessos da colecção de 2018, está de volta com Café Budapeste, uma história tocante sobre a convivência entre árabes e judeus na cidade de Jerusalém, antes e depois do reconhecimento do Estado de Israel.


AUTORES EM ESTREIA NESTA QUINTA SÉRIE

Se, com a honrosa excepção de A Febre de Urbicanda todos os restantes títulos desta quinta colecção são inéditos em Portugal, isso não invalida que alguns dos seus autores sejam velhos conhecidos dos leitores portugueses, mesmo que só agora se estreiem na colecção Novela Gráfica.
É o caso da autora e realizadora Marjane Satrapi, bem conhecida por Persépolis, a sua autobiografia em BD e que chega ao catálogo da Levoir com Frango com Ameixas, obra baseada na história de um seu tio-avô e que, tal como Persépolis, também teve direito a uma adaptação cinematográfica, que contou com a portuguesa Maria de Medeiros como protagonista. O mesmo sucede com a dupla Schuiten e Peeters, cuja série As Cidades Obscuras teve a maioria dos seus títulos editados em Portugal, onde os seus autores já estiveram por diversas vezes, mas raros são os que se encontram ainda disponíveis. Não é o caso de A Febre de Urbicanda, um dos títulos mais emblemáticos da série, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa numa cuidada edição definitiva, com dezoito páginas inéditas.
Bem conhecidos dos leitores e com vasta presença no catálogo da Levoir, são Grant Morrison e Frank Quitely, autores de WE3 e All Star Superman, que se estreiam na colecção de 2019 com Flex Mentallo: Herói do Mistério, uma reflexão sobre os super-heróis com um toque meta narrativo, tão característico de Morrison.
Igualmente com obra publicada em Portugal, estão os americanos Daniel Clowes e Joe Sacco. O primeiro, autor do livro Mundo Fantasma – que deu origem a um filme protagonizado por Scarlett Johansson - apresenta-se nesta colecção com uma das suas obras mais emblemáticas, o surreal e “lynchiano” Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro história pré-publicada em capítulos na revista Eightball, que valeu a Clowes o Eisner de Melhor Escritor/Artista em 200 e 2002. Já o segundo, autor de Palestina, está presente com Goradze: Área de Segurança, mais uma das suas reportagens de guerra, género de que é claramente o nome mais representativo, desta vez sobre o conflito na ex-Jugoslávia.
Resta falar dos autores que têm a sua estreia absoluta em Portugal nesta colecção. Por ordem de entrada em cena na colecção, temos Guillem March, autor espanhol com trabalho publicado no mercado francês e americano, onde trabalhou em vários títulos do universo Batman, que se estreia com Monika, um sensual triller psicológico, escrito pela escritora belga Thilde Baroni, que assim entrou de forma fulgurante na BD.
Estreia absoluta – em todos os sentidos – é a do suíço Thomas Ott com O Número 73304-23-4153-6-96-8, primeiro título completamente sem diálogos nestes cinco anos de história da colecção Novela Gráfica (O Idiota, de André Diniz, esteve lá perto…) e que foi também a primeira novela gráfica de fôlego de um autor especializado em histórias curtas, que é também músico e cineasta e que, utilizando a técnica de grattage – em que o desenho é raspado sobre uma página coberta de tinta negra, criando uma imagem em negativo -  cria páginas únicas e de grande impacto visual e narrativo.
Finalmente, Dias Sombrios assinala a estreia em Portugal de uma figura histórica da BD espanhola do século XX. O veterano Juan Escandell, autor com uma carreira de mais de cinquenta anos, pertencente à mítica escola da editora Bruguera – companhia que esteve em destaque no livro O Inverno do Desenhador, de Paco Roca- e que trabalhou com Victor Mora em Capitan Trueno e que aqui ilustra um romance do seu conterrâneo Lluís Ferrer Ferrer, baseado no caso real de um avião alemão abatido ao largo de Ibiza em 1944.


CINCO TEMAS EM DESTAQUE

Nesta quinta colecção de Novelas Gráficas, são também cinco os temas em que se podem encaixar os títulos que a compoem, mesmo que essas categorias, como veremos, não sejam exactamente estanques.
BIOGRAFIA – Nesta categoria enquadra-se, naturalmente, No rasto de García Lorca, de El Torres e Carlos Hernández, em que momentos-chave da vida do malogrado poeta, são narrados na perspectiva de quem os testemunhou, como peças de um puzzle que juntas, traçam a imagem de um homem singular. Também Frango com Ameixas, de Marjane Satrapi, para além da dimensão autobiográfica, não deixa de ser uma biografia do tio-avô da autora, o músico Nasser Ali, mesmo que se centre mais na sua morte, do que propriamente na sua vida.

CRIAR NOVOS MUNDOS – É o que fazem Grant Morrison e Frank Quitelly em Flex Mentallo, em que heróis e vilões desenhados por uma criança ganham vida num mundo distópico, mas com grandes semelhanças com o que conhecemos. Uma ligeira extrapolação também presente em Monika, de Tilde Barboni e Guillem March, em que problemas bem reais como o terrorismo religioso, convivem com elementos de ficção científica, como um androide que adquire consciência própria. Mas o exemplo mais óbvio dessa criação de novos mundos é A Febre de Urbicanda, de Benoit Peeters e François Schuiten, magnífica porta de entrada para o universo das Cidades Obscuras, mundo utópico com grandes semelhanças e pontos de passagem com o nosso, mas em versão steampunk e com uma série de cidades-estado em que a arquitectura condiciona a todos níveis, a própria cidade, o dia-a-dia dos seus habitantes e a evolução da própria história.

BASEADO EM FACTOS REAIS – O melhor exemplo possível de uma história baseada em factos reais, é O Tesouro do Cisne Negro, de Guillermo Corral e Paco Roca, que parte da pilhagem de um galeão espanhol, naufragado na costa portuguesa, por parte de uma empresa americana de caçadores de tesouros, para, mudando os nomes dos protagonistas e do próprio barco, contar uma  história fascinante, em que, qualquer semelhança com a realidade é bem mais do que uma simples coincidência…   Também Dias Sombrios, de Lluís Ferrer Ferrer e Juan Escandel parte de um facto histórico, o derrube de um avião alemão em frente a Portinatx, perto de Ibiza, nas Ilhas Baleares, para criar uma história de ficção que extrapola sobre o destino do seu piloto.
Obviamente também baseado em factos reais é Neve nos Bolsos o relato autobiográfico de Kim, sobre a sua experiência pessoal como imigrante na Alemanha, que nos conta não só a sua própria vivências, mas as experiências de muitos outros imigrantes com quem se cruzou.

REPORTAGEM DE GUERRA – Melhor exemplo possível de reportagem de guerra é Goradze: Área de Segurança, assinado por Joe Sacco, o maior nome a nível mundial neste registo. Embora se trate claramente de uma obra de ficção, Café Budapeste, de Alfonzo Zapico, pela forma rigorosa e bem documentada como descreve as tensões étnicas e religiosas que afectaram o dia-a-dia dos habitantes de Jerusalém, após o reconhecimento do estado de Israel, também se pode enquadrar nesta categoria, pois todos sabemos como esses ódios e tensões contribuíram para um estado de guerra que se mantém aceso até hoje, o mesmo sucedendo, de certo modo, com Dias Sombrios, que parte de um acontecimento real da II Guerra Mundial, para construir uma história de ficção.. 

REINVENÇÃO DE GÉNEROS CLÁSSICOS – Nesta colecção não faltam exemplos como um género perfeitamente codificado como o policial negro, pode ser reinventado das mais diversas maneiras. Veja-se As Serpentes Cegas, de Filipe Harnandéz Cava e Bartolomé Seguí, em que uma história de gangsters em Nova Iorque serve para falar da realidade da Guerra Civil espanhola. Também Como Uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, parte de uma estrutura vagamente policial, para uma perturbadora e surreal viagem ao lado mais sombrio do ser humano. Finalmente, também O Número 73304-23-4153-6-96-8, de Thomas Ott utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente inovadora.


A COLECÇÃO

1 – O Tesouro do Cisne Negro
04 de Julho
Argumento – Guillermo Corral Van Damme
Desenhos –Paco Roca
Maio de 2007. A principal empresa de caçadores de tesouros do mundo anuncia a descoberta, em águas do Atlântico, do maior tesouro submarino jamais encontrado. De acordo com a escassa informação difundida o tesouro provêm de um misterioso navio, o Cisne Negro.
No entanto, indícios apontam para que se trate na realidade de uma fragata espanhola afundada. Começa assim uma fascinante trama jurídica e política, cujas origens remontam a acontecimentos ocorridos há muitos séculos, na qual um pequeno grupo de funcionários estatais vai lutar na defesa da história e do património.
Inspirado em factos reais, presenciados pelo argumentista Gullermo Corral, o novo livro de Paco Roca é mais um exemplo do talento e versatilidade deste autor.

2 – Frango com Ameixas

11 de Julho
Argumento e Desenhos – Marjane Satapri
Nasser Ali Khan é um famoso músico que vive no Irão de 1958. Na sequência de uma discussão familiar, o seu tar, o instrumento de que é virtuoso e que é o seu bem mais precioso, é partido. Nenhum outro tar o irá satisfazer e Nasser vai perder o gosto pela música. Tomado de uma melancolia imensa, decide deixar-se morrer, levando-nos numa viagem às suas emoções, aos seus sonhos e à sua história pessoal, que se mistura com a do seu Irão natal num período conturbado da sua história.
Em Frango com Ameixas, livro vencedor do prémio de Melhor Álbum de Angoulême em 2005, Marjane Satrapi parte da história real do seu tio-avô para construir uma ficção fascinante..

3  – A Febre de Urbicanda
18 de Julho
Argumento – Benoit Peeters e François Schuiten
Desenhos – François Schuiten
Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes.
Reflexão fascinante sobre arquitectura e poder e um verdadeiro tratado sobre a narrativa sequencial, as Cidades Obscuras, de Schuiten e Peeters, são uma série incontornável da Banda Desenhada franco- belga, que tem na Febre de Urbicanda um dos seus títulos seminais, vencedor do prémio de Melhor Livro, No Festival de Angoulême de 1985.

4 – O Rasto de García Lorca
25 de Julho
Argumento – El Torres 
Desenhos – Carlos Hernández
Através de histórias reais e testemunhos sobre o genial poeta, nesta novela gráfica descobrimos a marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram nos locais por onde passou: cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque. El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, alia-se ao ilustrador Carlos Hernández para reconstruir de forma tão subtil como marcante, a figura de Lorca através do olhar de quem partilhou a vida e a morte do poeta.

5 –Monika
01 de Agosto
Argumento – Thilde Barboni 
Desenho – Guillem March
Monika, uma artista visual e performer, concorda em esconder Theo, um brilhante inventor prestes a construir um cobiçado andróide. Com a ajuda do seu amigo hacker, Monika investiga o desaparecimento da sua irmã. Ela é então arrastada para o submundo das "bailes mascarados", onde conhece e seduz Christian Epson, um carismático político que foi o último homem a ver Erika, a irmã desaparecida, cujo envolvimento com um grupo terrorista vai colocar em perigo a vida de Monika. Um triller movimentado e sensual, magnificamente ilustrado por Guillem March.

6 – Gorazde: Zona de Segurança
08 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Sacco
No final de 1995 e início de 1996, o repórter e autor de BD Joe Sacco viajou quatro vezes para Gorazde, uma área segura designada pela ONU durante a Guerra da Bósnia, que estava à beira da destruição por três anos e meio. Ainda cercados por forças sérvias da Bósnia, o povo maioritariamente muçulmano de Gorazde sofrera pesados ataques e severas privações para manter sua cidade, enquanto o restante do leste da Bósnia era brutalmente "purificado" de sua população não-sérvia. Desde que foi publicado pela primeira vez em 2000, Gorazde: Zona de Segurança foi reconhecido como um dos clássicos absolutos da novela gráfica de reportagem.

07 –Flex Mentallo: Herói do Mistério
15 de Agosto
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Antes ele era Herói da Praia ... e da Patrulha do Destino. Agora Flex Mentallo, o Homem do Mistério Muscular, regressa para investigar as relações sinistras de seu ex-companheiro, The Fact, e um misterioso astro do rock cuja conexão com Flex pode ser a chave para salvar os dois. Depois de reformular a Patrulha do Destino, na série da Vertigo que influenciou a actual série televisiva, Morrison junta-se ao seu habitual cúmplice Frank Quitelly, para explorar a história de um dos seus mais carismáticos elementos, Flex Mentallo.

08 – Dias Sombrios
22 de Agosto
Argumento – Lluís Ferrer Ferrer
Desenhos – Juan Escandel
Em 10 de janeiro de 1944, durante uma batalha aérea sobre a ilha de Ibiza, um avião britânico Bristol Beaufighter derrubou uma aeronave alemão Junkers Ju 88 que finalmente caiu na costa ao norte de Portinatx. Com base neste acontecimento real, o escritor Lluís Ferrer Ferrer construiu uma história de ficção, que anos mais tarde o veterano desenhador Juan Escandell, um dos nomes mais importantes da escola Bruguera, adaptou à Banda Desenhada nesta Novela Gráfica.

09 – Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro
29 de Agosto
Argumento e Desenhos – Daniel Clowes
Clay, o protagonista de Como uma Luva de Veludo moldada em Ferro parte em busca de produtores de um filme pornográfico em que pensou reconhecer a sua esposa, desaparecida alguns anos antes.
Com esta simples premissa como ponto de partida, Daniel Clowes constrói um road movie cerebral, que elimina qualquer fronteira entre o pesadelo e a realidade.
Nesse caos nocturno, Clowes leva o leitor a vislumbrar a sombra fugidia e arrepiante de um horror íntimo e universalmente compartilhado. Um dos mais importantes e perturbadores livros de um dos nomes maiores dos comics alternativos americanos.

10– As Serpentes Cegas
29 de Agosto
Argumento -  Filipe Harnandéz Cava
Desenho – Bartolomé Segui
Nova Iorque, 1939. Um homem misterioso instala-se num pequeno hotel à procura de um certo Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita. Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto  a destruir um túmulo com um martelo. Qual terá sido o motivo da fúria de Koch e onde se esconde ele? Duas perguntas para as quais o FBI também procura respostas...
Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de fundo, vencedora do Prémio Nacional del Comic em 2009.

11 – O Número 73304-23-4153-6-96-8
12 de Setembro
Argumento e Desenho – Thomas Ott
Ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado, um guarda da prisão encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números. No calor do momento, ele guarda-o no bolso. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam sua curiosidade.
 Mas esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma maldição que o leva à loucura e à morte. Um triller surpreendente contado apenas pelo recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo, por um dos mais singulares criadores da BD europeia, o suíço Thomas Ott.

12 – Neve nos Bolsos
19 de Setembro
Argumento e Desenhos – Kim
Em outubro de 1963, o jovem Joaquim Aubert, ainda não conhecido como Kim, pede boleia numa estrada no sul de França. Ele deixou seus estudos em Belas Artes e tem um ano para começar o serviço militar, tempo que vai aproveitar para ganhar a vida na Alemanha. Joaquim chega a terras germânicas como tantos outros espanhóis que atravessaram a Europa à procura de trabalho. Através dos seus olhos e das suas memórias, vamos descobrir a vida desses expatriados da Espanha franquista.
Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Rasgada, traça-nos este retrato autobiográfico da sua ida para a Alemanha e das vivências de outros espanhóis que emigraram com o mesmo objectivo, ganhar a vida.

13 – Café Budapeste
26 de Setembro
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Yechezkel Damjanich é um jovem violinista judeu que abandona uma Budapeste devastada pela II Guerra Mundial para ir viver para Jerusalém, onde vive o seu tio Yossef. Fugindo da miséria, ambos chegam à Palestina num momento político convulsivo, pouco antes de os ingleses deixarem a região. O Tio Yosef dirige o Café Budapeste, um lugar pitoresco perto da Cidade Velha, onde judeus, árabes, ocidentais coexistem... Um oásis efémero de harmonia onde as notas do violino de Yechezkel vão dar lugar ao estrondo dos obuses de Davidka, bombas árabes, ódio e destruição.
Publicado originalmente no jornal Público de 29/06/2019

domingo, 21 de maio de 2017

Apresentação da colecção Mulher-Maravilha

É já na próxima quinta-feira, 25 de Maio, que começa a colecção que o  Público e a Levoir dedicam à Mulher-Maravilha, precisamente uma semana antes do filme que ela protagoniza chegar às salas de cinema nacionais. Como de costume, aqui vos deixarei, no dia da saída de cada livro, o texto que escrevi sobre ele para o jornal Público. Mas antes disso, aqui fica o destacável de 4 páginas de apresentação da colecção, que foi distribuído ontem com o  jornal de sábado e será redistribuído na próxima terça-feira.

A PRIMEIRA SUPER-HEROÍNA

Outubro de 1940. O editor Max Gaines lê uma entrevista na revista Familiy Circle em que o psicólogo William Moulton Marston defende que a Banda Desenhada tem um grande potencial ainda por desenvolver e decide contratá-lo como conselheiro educacional da National Periodical, uma das companhias que irá dar origem à DC Comics. Face ao sucesso de personagens como Super-Homem e Batman, criados poucos anos antes, Marston, que além da sua actividade como psicólogo, tinha trabalhado também em Hollywood, como consultor da Universal Studios, lembrou-se também ele de criar um super-herói. Ao comentar essa ideia com a sua mulher, Elizabeth Holoway Marston, esta sugeriu-lhe que criasse antes uma mulher. Uma ideia inesperada, mas que foi bem aceite pelos editores, até por romper com o carácter exclusivamente masculino dos super-heróis existentes à época.
Assim, em Dezembro de 1941 - ao mesmo tempo que o Presidente Roosevelt declara oficialmente a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, na sequência do bombardeamento japonês a Pearl Harbor - os leitores descobrem pela primeira vez no nº 8 da revista All-Star Comics, Diana, a Princesa Amazona, herdeira da tradição dos mitos da Grécia antiga, que troca a sua ilha pelo mundo dos homens, para participar activamente na guerra contra os alemães ao lado de Steve Trevor, um piloto cuja vida salvou e por quem se apaixona. A essa primeira história, escrita por Marston sob o pseudónimo Charles Moulton, e desenhada por H.G. Peter, seguir-se-ia a capa do primeiro número da revista Sensation Comics, no mês seguinte, até que, no Verão de 1942, a Mulher-Maravilha ganha finalmente uma revista própria, o que significava que, nesta fase, as suas histórias apareciam em três revistas diferentes, todas escritas por Marston.
O sucesso dessa personagem feminina que, nas palavras do próprio Marston, tinha “a força do Super-Homem e a elegância de uma bela mulher” e representava o novo tipo de mulher que ele achava que devia governar a sociedade, vai de encontro à alteração do estatuto da própria mulher nos EUA, onde as mulheres passaram a desempenhar trabalhos antes destinados exclusivamente aos homens, por estes se encontrarem na frente de batalha. São estas mulheres que, apesar de realizarem trabalhos pesados e masculinos, não perdem a sua feminilidade, bem simbolizadas por Rosie, the Riveter, a operária imortalizada pela famosa ilustração de Norman Rockwell, que se vão facilmente identificar com a Mulher-Maravilha.
No período do pós-guerra, os super-heróis perdem muita da sua popularidade e a Mulher-Maravilha não é excepção. Mas ao contrário do que aconteceu a outros heróis da época de Ouro, a sua revista manteve-se em publicação, mesmo que em finais dos anos 60, uma decisão editorial faça com que Diana perca os seus super-poderes e as suas aventuras se aproximem mais das histórias de espionagem e de artes marciais. Uma situação que seria revertida na década de 70, graças a dois factores: os artigos da activista feminista Gloria Steinem, que crescera a ler a Mulher-Maravilha e que se insurgiu numa série de artigos e ensaios contra aquilo que via como um rebaixar do estatuto da mais famosa super-heróina de todas e, principalmente, a série televisiva da Mulher-Maravilha, protagonizada por Lynda Carter, que conferiu à Mulher-Maravilha o estatuto de ícone da cultura Pop.
Com algumas alterações na sua origem, na sequência da Crise nas Terras Infinitas, e mudanças ocasionais no seu uniforme, que durante algum tempo passou a incluir umas calças, a Mulher-Maravilha mantém-se como a mais importante super-heroína dos comics americanos, graças ao trabalho de grandes criadores como George Pérez, John Byrne, Devin Grayson, Phil Gimenez, Brian Azzarello, ou Greg Rucka que, dando o seu toque pessoal às aventuras da Princesa Amazona, souberam respeitar a essência da personagem, contribuindo assim para o manter da sua popularidade.
Uma popularidade que não podia estar mais em alta, numa altura em que a Princesa Amazona, que completou 75 anos de carreira em Dezembro de 2016, se prepara para estrelar o primeiro filme de super-heróis com uma protagonista feminina, dirigido também ele por uma mulher, Patty Jenkins. A pesada responsabilidade de encarnar a icónica heroína no filme que chega às salas de cinema portuguesa no mesmo dia em que o segundo volume desta colecção chega às bancas, coube à actriz israelita Gal Gadot, que no filme Batman V Superman mostrou estar perfeitamente à altura do difícil desafio de dar corpo à Mulher-Maravilha, a primeira e a maior de todas as super-heroínas.


O CRIADOR DA MULHER-MARAVILHA


Nascido em 1893 em Massachusetts, William Moulton Marston foi psicólogo, professor universitário, inventor de um dos mais importantes componentes do polígrafo, escritor de livros de divulgação sobre psicologia, conselheiro educacional de editoras, director de relações públicas da Universal, um dos mais importantes estúdios de Hollywood, actor em filmes publicitários, mas o que lhe valeu verdadeiramente um lugar na história, foi a criação, com a colaboração de H.G. Peter na parte gráfica, da Mulher-Maravilha.
Casado com Elizabeth Holoway, Marston vivia assumidamente numa relação poliamorosa com a sua mulher e com Olive Byrne. As duas mulheres da sua vida foram de particular importância para o desenvolvimento da sua mais famosa criação. Através da primeira, Marston teve contacto com importantes figuras sufragistas do início do século. Por seu lado, Olive Byrne era filha de Ethel Byrne, uma das mais progressistas feministas americanas. Olive foi assistente de Marston em projectos universitários, e foi uma forte influência na figura da Princesa Diana. Era conhecida pelos braceletes que usava que, segundo o próprio Marston, foram a inspiração dos usados pelas amazonas. Existem também teorias que a própria terá servido de modelo para a Mulher-Maravilha de H.G. Peter.
Marston era adepto de práticas sexuais alternativas, como o bondage e explorou a fundo o conceito de submissão, que implementava regularmente nas histórias da personagem que criou. Consta que a situação chegou a um ponto tal, que o editor teve de pedir a Marston que reduzisse o número de situações nas quais a heroína se via acorrentada… Também o famoso laço da verdade, com que a Mulher-Maravilha dominava os seus adversários e os obrigava a contar a verdade, remete para essas práticas sexuais, sem deixar de evocar o polígrafo, aparelho a cuja criação Marston esteve intimamente ligado.
Até à sua morte em 1947, devido a um cancro, William Moulton Marston continuou a escrever as aventuras da Mulher-Maravilha. Após o seu falecimento, Elisabeth e Olive, as duas mulheres que amou e que lhe serviram de inspiração continuaram a viver juntas até à morte de Olive, no final dos anos 80.

SABIA QUE?

- A participação bastante passiva da Mulher-Maravilha nas primeiras aventuras da Sociedade da Justiça, de que era membro honorário, tal como o Super-Homem e o Batman, deveu-se à falta de tempo do seu criador, William Moulton Marston - que fazia questão de escrever todas as histórias da personagem e já estava ocupado com três revistas mensais - para colaborar na escrita dessas aventuras.

- Nos finais dos anos 60 a Mulher-Maravilha, seguindo o sucesso de séries de televisão como Kung-Fu (O Sinal do Dragão em Portugal) e The Avengers, sofre uma transformação radical, deixando de ser uma super-heroína, ao abdicar os seus poderes para poder ficar no Mundo dos Homens, em vez de seguir o seu povo para a dimensão onde a Ilha Paraíso foi exilada. Nesta fase mais urbana, que vai durar cinco anos, Diana tem uma loja de roupas, é treinada em artes-marciais por um mestre chinês de nome I-Ching, e Steve Trevor morre.

- O conhecido logotipo da Mulher-Maravilha, com o duplo WW, foi criado em 1982 pelo famoso designer Milton Glaser, criador do icónico I ❤ NY. Não foi essa a única colaboração de Glaser com a DC, pois o designer foi também responsável pelo mais duradouro logotipo da DC Comics, conhecido como “DC Bullet”, que foi usado entre 1977 e 2005.

- Apesar de ser um símbolo feminino incontornável, só em 2008 as aventuras da Mulher-Maravilha foram finalmente escritas por uma mulher, Gail Simone. Antes disso, só outra mulher, Trina Robbins tinha escrito uma história da Princesa Amazona, a mini-série The Legend of Wonder Woman, mas, neste caso, a meias com o escritor Kurt Busiek.

- No universo criado por Frank Miller na série O Regresso do Cavaleiro das Trevas e nas suas duas sequelas, o Super-Homem e Mulher-Maravilha têm uma ligação amorosa de que resultaram dois filhos superpoderosos: Lara e Jonathan.

- Durante dois meses, a Mulher-Maravilha foi embaixatriz das Nações Unidas para a autodeterminação das mulheres. Este cargo, atribuído em 21 de Outubro de 2016, ano em que a personagem completava 75 anos de existência, acabaria por ser extinto menos de dois meses depois, em 16 de Dezembro, devido às pressões dos lobbies feministas.

- O português Miguel Mendonça, que desenhou a Mulher-Maravilha durante a fase final da linha Novos 52, escrita por Meredith Finch, voltou a desenhá-la já em 2017 no nº 7 da revista Trinity da linha DC Rebirth, a mais recente reformulação do Universo DC.

- Embora só agora, em 2017, chegue ao grande ecrã, pelas mãos de Patty Jenkins, a Mulher-Maravilha esteve muito perto de ser adaptada ao cinema 10 anos antes, num filme escrito e dirigido por Joss Whedon, o criador da série televisiva Buffy the Vampire Slayer que, frustrado este projecto, acabou por realizar o primeiro filme dos Vingadores, da Marvel, com o sucesso que se conhece.


OS AUTORES EM DESTAQUE

GRANT MORRISON
Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Os seus trabalhos para a Vertigo tornaram-no conhecido, mas a fama chegaria com a novela gráfica do Batman, Asilo Arkham, ilustrada por Dave McKean e já publicada pela Levoir.
Desde então Morrison tem sido responsável por algumas das mais importantes histórias protagonizadas por Batman, Super-Homem e a Liga da Justiça. Já em anteriores colecções dedicadas à DC, podemos descobrir o seu trabalho com a Liga da Justiça, em Terra 2 e com Batman, em Herança Maldita. Com Terra Um temos o privilégio de o ver finalmente (re)escrever a origem da Mulher-Maravilha, o único membro da trindade dos maiores heróis da DC a quem faltava emprestar o seu talento.


CHRISTOPHER MOELLER
O escritor e pintor americano começou a sua carreira na Innovation Comics e ganhou nome na Dark Horse ilustrando capas da série Star Wars, antes de se estrear na Helix, a chancela de ficção científica da DC Comics e pintar capas para a revista Shadow of the Bat, protagonizada pelo Batman. Mas o seu mais famoso trabalho para a DC é este Um por Todos, que pintou e escreveu, conciliando o mundo dos super-heróis, com um universo de fantasia inspirado por Tolkien.


GREG RUCKA
Escritor de romances policiais, com uma solida carreira na BD, de que os leitores portugueses tiveram um bom exemplo em Batwoman: Elegia, publicado numa anterior colecção dedicada à DC, Greg Rucka, que é conhecido pelas suas personagens femininas fortes, tem uma grande ligação à Mulher-Maravilha. Rucka escreveu as aventuras da Princesa Amazona entre 2003 e 2006, sendo também o actual escritor da revista mensal, após a mais recente remodelação do Universo DC, com a linha DC Rebirth. Mas tudo começou com A Hiketeia, a história incluída nesta colecção, que foi a primeira aventura da Mulher-Maravilha que Rucka escreveu.


J. G. JONES
Já conhecido dos leitores portugueses pela história que ilustrou da Viúva Negra, numa anterior colecção público/Levoir, o desenhador americano, natural da Louisiana, tem-se distinguido sobretudo como ilustrador de capas, para séries como Y, the Last Men, tendo ganho em 2006, o prémio da revista Wizard para melhor ilustrador de capas. Mas para além de um excelente ilustrador Jones é um também um grande artista sequencial, com um traço simultaneamente realista e espectacular, como prova a história que desenhou para esta colecção.


GEORGE PEREZ
Nascido em Nova Iorque em 1954, George Perez estreou-se na BD em 1973, mas um ano depois já trabalhava regularmente para a Marvel. Apesar de ter trabalhado em séries como os Avengers e Fantastic Four, da Marvel, os trabalhos mais importantes da sua carreira foram publicados na DC, onde teve passagens memoráveis por séries como Teen Titans e Mulher-Maravilha. Em anteriores colecções podemos apreciar o seu trabalho na saga cósmica Crise nas Terras Infinitas, que revolucionou profundamente o universo da DC e abriu caminho para a reformulação da Mulher-Maravilha de que Pérez foi o principal responsável.

PHIL JIMENEZ
Natural da Califórnia, onde nasceu em 1971, Jimenez veio para Nova Iorque para frequentar a School of Visual Arts, onde se formou em 1991 e onde dá actualmente aulas. Nesse mesmo ano foi trabalhar para a DC Comics, a convite do director criativo Neal Pozner que lhe atribuiu como primeiro trabalho, o desenho de quatro páginas da saga War of The Gods, com que George Pérez fechou a sua passagem pela série da Mulher-Maravilha.
Esta ligação artística entre Jimenez e Pérez é bem evidente no seu trabalho gráfico, que vai beber muito ao seu mestre, com quem até escreveu em conjunto uma história da Mulher-Maravilha, que o próprio Jimenez ilustrou. Responsável pelo desenho e pela escrita das aventuras da Princesa Amazona entre 2001 e 2003, Jimenez assinou aí algumas histórias memoráveis, como as que podemos ler nesta colecção.


Ficha dos livros

1 - Mulher-Maravilha: Terra Um
25 de Maio
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Yannick Paquette
Diana de Temiscira viveu toda a vida na ilha paradisíaca das Amazonas, mas, ao decidir aventurar-se pela primeira vez no mundo dos homens, na companhia de Steve Trevor, o homem que salvou da morte à mão das suas irmãs de raça, será perseguida e julgada pelas outras Amazonas pelo seu crime de ter desafiado as suas mais antigas tradições.
Um regresso às raízes da Mulher-Maravilha plantadas pelo seu criador, William Moulton Marston que não evita alguns dos aspectos mais controversos da personagem, ligados à sexualidade de Diana e das amazonas, assinado por Grant Morrison e Yanick Paquette, no âmbito da linha Terra Um, que reinventa para os leitores do século XXI a origem dos mais icónicos personagens da DC, através de uma história ao mesmo tempo moderna e intemporal.


2  – Mulher-Maravilha: Um por Todos
01 de Junho
Argumento e Desenhos – Christopher Moeller
Quando o Oráculo das Amazonas profetiza que a Liga da Justiça está fadada a ser destruída por um antigo e maléfico dragão, despertado do seu sono subterrâneo para mais uma vez ameaçar um mundo que já esqueceu que tais monstros alguma vez existiram, a Mulher-Maravilha tem de tomar a mais difícil decisão da sua vida: assumir sozinha uma batalha que sabe que não pode vencer, para assim poder preservar a vida daqueles que mais ama.
O pintor e escritor Cristopher Moeller assina o desenho e a fabulosa arte pintada em cor directa desta lenda dos tempos modernos, que funde, de forma tão inesperada como eficaz, os universos da fantasia e dos super-heróis.


3  – Mulher-Maravilha: A Hiketea
08 de Junho
Argumento – Greg Rucka
Desenhos – J. G. Jones
A Mulher-Maravilha aceita tomar sob sua protecção uma jovem humana, Danielle Wellys, de acordo com a Hiketeia, um antigo ritual consagrado pelos deuses, e terá de a proteger contra todos os que a perseguem, mesmo contra o Batman, que a quer prender por assassinato e, como sempre não está disposto a deixar escapar a sua presa, mesmo que isso implique defrontar a sua amiga e companheira da Liga da Justiça.
Construída sob a forma de uma tragédia clássica, onde não faltam as Hiríneas, personagens mitológicas que castigam duramente aqueles infringem a lei divina, esta história que assinala a estreia de Greg Rucka na escrita das aventuras da Princesa Amazona, contando com o traço rigoroso e espectacular de J-G. Jones na arte, é considerada uma das grandes histórias da Mulher-Maravilha e um bom exemplo do carácter intemporal da personagem.



4  – Mulher-Maravilha: Homens e Deuses
15 de Junho
Argumento – LenWein
Desenhos – George Pérez
Na mítica ilha de Temiscira, uma orgulhosa e feroz raça guerreira de amazonas criou uma filha de beleza, graça e força inauditas - a princesa Diana, também conhecida como Mulher-Maravilha. Quando um piloto de caça do Exército, Steve Trevor, pára na ilha, a rebelde e obstinada Diana desafia a lei das amazonas ao acompanhar Trevor de volta à civilização. Enquanto isso, Ares (o deus da guerra) escapou de sua prisão nas mãos das Amazonas e decidiu exigir a sua vingança: uma guerra mundial que não só durará séculos como acabará com todos os seres vivos do planeta! Cabe à Princesa Diana salvar seu povo e o mundo, usando os seus poderes para provar que merece o nome de Mulher Maravilha.
O início da épica e incontornável remodelação da Mulher-Maravilha, levada ao cabo por George Pérez na sequência das alterações no Universo DC provocadas pela saga Crise nas terras Infinitas.

5  – Mulher-Maravilha: Deuses de Gotham
22 de Junho
Argumento – Phil Jimenez e J.M. De Matteis
 Desenhos –  Phil Jimenez e Andy Lanning
A cidade de Batman, Gotham City, foi transformada numa terra semelhante à antiga Grécia, dominada pelos deuses do mal. E uma vez que Ares, o deus da guerra, e os deuses da discórdia, do medo e do terror combinam suas essências com as do Joker, do Espantalho e da Hera Venenosa, Batman vai precisar da ajuda da Mulher Maravilha, mas quando os deuses também conseguem possuir o Batman, a Princesa Amazona descobre que mesmo a ajuda de outros protectores de Gotham, como o Asa Nocturna e o Robin, bem como da seu própria protegida, Donna Troy, a Wonder Girl, podem não ser suficientes para acabar com o reinado maligno dos deuses do submundo.
Phil Jimenez assina aqui o início da sua passagem marcante pela série mensal da Mulher-maravilha, que escreveu e desenhou durante três inesquecíveis anos.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 20/05/2017

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Super-Heróis DC 2 - Super-Homem: Contra o Mundo

GRANT MORRISON EXPLORA AS ORIGENS DO SUPER-HOMEM 
NO VOL. 2 DA COLECÇÃO SUPER-HERÓIS DC


Super-Heróis DC Vol 2
Super-Homem: Contra o Mundo
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Rags Morales e Andy Kubert
Quinta, 11 de Fevereiro
Por + 9,90 €
Tal como aconteceu com o primeiro volume, dedicado à Liga da Justiça, esta colecção continua a explorar as origens do universo Novos 52, desta vez mostrando os primeiros tempos de actividade do Super-Homem, ainda antes de ele possuir o uniforme que todos conhecemos e encontrar pela primeira vez os outros heróis, com quem vai formar a Liga da Justiça.
Um regresso ao passado, orquestrado por Grant Morrison, que foi originalmente publicado nos EUA em 2011, nos primeiros números da segunda série da revista Action Comics. Um título mítico e que não podia ser mais adequado para contar o início de actividade do Super-Homem, pois foi precisamente nas páginas da revista Action Comics, lançada em Abril de 1938, que surgiu o primeiro de todos os Super-Heróis, o Super-Homem, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, dois rapazes de Cleveland, que sem o saberem, tinham inventado um novo género de Banda Desenhada e dado início à Golden Age, a Era de Ouro das histórias de Super-Heróis. E, tal como a versão inicial de Siegel e Shuster, o Super-Homem de Morrison ainda não é o ser todo-poderoso que conhecemos actualmente, um herói invulnerável e de poderes quase divinos.
Nascido na Escócia, Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Os seus trabalhos para a Vertigo, tornaram-no conhecido, mas a fama chegaria com a novela gráfica do Batman, Arkham Asylum, ilustrada por Dave McKean.
Desde então, o argumentista tem sido responsável por algumas das mais importantes histórias protagonizadas por Batman, Super-Homem e a Liga da Justiça. Na anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC, os leitores puderam apreciar o seu trabalho com a Liga da Justiça, em Terra 2, e com Batman, em Herança Maldita, mas o seu principal contributo para a mitologia do Homem de Aço, a série All Star Superman, criada em parceria com o ilustrador Frank Quitely, permanece inédita em Portugal.
Por oposição ao todo-poderoso herói de All Star Superman, o Super-Homem do volume que chega aos quiosques nacionais na próxima quinta-feira, é um “novo” Homem de Aço, cuja personalidade é um decalque intencional e modernizado da do herói dos anos 30, alguém que ainda não conhece a extensão dos seus poderes e está a começar a descobrir as suas origens. Como refere Morrison: “embora o jovem Kal El/Clark Kent soubesse desde pequeno que tinha sido encontrado nos destroços de uma nave espacial, não fazia ideia de onde é que essa nave tinha vindo. Tem um cobertor indestrutível que o protegeu em criança, antes dos seus poderes se começarem a desenvolver, mas não faz ideia se veio do espaço, de outra dimensão, ou da Rússia.”
Esse cobertor, que o jovem Super-Homem vai usar como capa, e que o próprio Morrison comparou ao cobertor usado por Linus, o famoso personagem da série Peanuts, como símbolo de segurança, é mesmo o único elemento reconhecível do uniforme do Homem de Aço, que aqui se apresenta vestido de calças de ganga, botas Doc Martens e T-shirt. Uma imagem que alguma crítica americana designou como “Bruce Springsteen’s Superman”, pelo evidente paralelo da imagem de working class hero partilhada pelo Super-Homem de Morrison e pelo famoso cantor e compositor americano.
O grande responsável pela nova imagem do Super-Homem de Morrison é o desenhador Americano Rags Morales, que os leitores portugueses conhecem dos dois volumes de Crise de Identidade, publicado numa colecção anterior. Um contributo reconhecido por Morrison, que refere: “Rags traz o seu talento prodigioso para a criação do ambiente e caracterização das personagens. O aspecto “Bruce Springsteen” surgiu porque queria dar resposta a algumas críticas mais recorrentes em relação ao Super-Homem. Que ele é demasiado poderoso, demasiado simpático e usa as cuecas por cima do uniforme. A ideia era regressar às suas origens como “campeão dos oprimidos”, daí a T-Shirt azul e os jeans. Queríamos contar a história de como este jovem herói de sangue na guelra, adquiriu o seu uniforme alienígena e se transformou no primeiro super-herói do mundo.”
Uma nova visão do Homem de Aço, mas onde não faltam referências à história do herói, como o sargento Casey, presença frequente nas páginas de Action Comics e Superman na Idade do Ouro; George Taylor, editor do Daily Star, o primeiro jornal em que Clark Kent trabalhou; ou a alusão aos três membros fundadores da Legião dos Super-Heróis que o visitavam no passado (os tais “dois homens e uma mulher loura”). Piscadelas de olho aos fãs, que ajudam a definir o “novo” Super-Homem de Morrison. Uma versão renovada do herói, que não esquece a longa história da personagem, nem os criadores que para ela contribuíram.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 05/02/2016

domingo, 1 de fevereiro de 2015

75 Anos de Batman 2 - Batman: Asilo Arkham


BATMAN DO OUTRO LADO DO ESPELHO

Um dos mais importantes edifícios de Gotham City, o Asilo Arkham, um hospital-prisão, que acolhe os mais perturbados inimigos do Batman, surge pela primeira vez numa aventura do Cavaleiro das Trevas, numa história escrita por Denny O’Neil e desenhada por Irv Novick, publicada em 1974 no nº 258 da revista Batman, mas seria Len Wein o primeiro a explorar mais a fundo a sua história no nº1 da revista Who’s Who, de 1985.
Neil Gaiman, o criador de Sandman, define perfeitamente a importância do Asilo Arkham na mitologia da DC, ao referir que “o que torna o Asilo Arkham interessante é ser aquilo que está debaixo da pedra da DC. Tens uma bela pedra com todos esses heróis, mas se levantarmos essa pedra descobrimos uma série de pequenos insectos e vermes a estrebuchar. O Asilo Arkham é a terra onde esses vermes repousavam.”
Na história que podem ler nas páginas seguintes, essa pedra é levantada e o Batman é atirado para essa terra remexida e rodeado pelos vermes, numa viagem, tanto física como mental, pelo lado mais sombrio do Universo DC, que põe em risco a sua própria sanidade. Publicado originalmente em 1989, Asilo Arkham para além de ser a história definitiva sobre o Asilo Arkham, foi o título que atirou os seus autores, o escocês Grant Morrison e o inglês Dave McKean, para o estrelato, muito pelo modo como o excepcional trabalho gráfico de McKean se articula com o texto cheio de referências literárias de Morrison, que explora aqui pela primeira vez o universo do Cavaleiro das Trevas, iniciando um percurso brilhante como escritor do Batman, de que pudemos acompanhar alguns dos principais momentos nas anteriores colecções que a Levoir dedicou à DC Comics.
No entanto, esta bem-sucedida dupla nasceu de um acaso. Grant Morrison escreveu Asilo Arkham sem ter nenhum desenhador específico em mente e a decisão de entregar a arte da história a Dave McKean partiu da editora da DC, Karen Berger, que esteve ligada ao recrutamento de alguns dos maiores criadores ingleses, de Alan Moore a Neil Gaiman, passando por Brian Bolland e Dave Gibbons, pela DC. Na altura Mckean estava a desenhar a mini-série Black Orchid, escrita pelo seu amigo Neil Gaiman, mas Berger achou que era muito arriscado lançar dois jovens autores ingleses completamente desconhecidos do público americano, num título também desconhecido. Por isso, decidiu pôr McKean numa aventura de Batman que Grant Morrison estava a escrever, e dar um título mensal a Neil Gaiman. E foi assim que McKean conseguiu Asilo Arkham, e Gaiman conseguiu Sandman, embora, na prática, Black Orchid acabasse por ser editado antes do Asilo Arkham, pois a DC acabou por atrasar o lançamento do livro, de modo a não interferir com a estreia do filme Batman, de Tim Burton, então prestes a chegar às salas.
Com um nome que traduz uma clara homenagem ao escritor H.P. Lovecraft (cujas histórias tinham normalmente por cenário uma cidade fictícia chamada... Arkham) o Asilo Arkham é um hospício onde está aprisionada a vasta galeria de inimigos de Batman. Uma casa de loucos, fundada por um louco, o professor Amadeus Arkham, cuja história se cruza com a de Batman na complexa narrativa criada por Morrison. O escritor escocês, em 2005, no texto incluído na edição do 15º aniversário da publicação do Asilo Arkham define a sua história como “uma narrativa sobre a psicologia humana em que Batman e os seus inimigos são usados como símbolos. A Casa, o Asilo, não é um lugar físico, mas o cérebro de alguém.
A construção da história foi influenciada pela arquitectura da casa - o passado e o conto de Amadeus Arkham formam a cave. As passagens secretas ligam ideias e segmentos do livro. As histórias que se passam nos pisos superiores, estão cheias de simbolismos e de metáforas. Temos também referências à geometria sagrada, pois a planta do Asilo Arkham é inspirada pela Abadia de Glastonbury e pela Catedral de Chartres. O percurso ao longo do livro é como uma travessia pelos vários pisos da casa. A casa e o cérebro são um só.”
Não por acaso, o livro abre e fecha com citações da Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol e, tal como a heroína de Carrol, também Batman passa para o outro lado do espelho ao entrar no Asilo Arkham. Tal como acontece no filme O Feiticeiro de Oz, de Victor Fleming, também aqui essa passagem do mundo real para um universo fantástico é dada pela cor, que está ausente das sequências iniciais com Batman em Gotham City e que McKean trabalha como ninguém, numa espectacular mistura de técnicas, nas cenas passadas no interior do Asilo Arkham.
Também a opção de o Batman ser uma figura mais sugerida que mostrada, que deu uma aura de mistério ao livro, tem segundo Neil Gaiman uma explicação bastante prosaica, como se percebe pelo excerto da entrevista conduzida por Whitley O’Donnell, publicada em 1991, no nº 103 da revista Comics Interview em que refere: “As pessoas estão sempre a perguntar ao Dave onde é que ele foi buscar a ideia de representar o Batman como essa figura negra e misteriosa que o leitor nunca chega a ver bem, mas a verdade é que ele não gosta de desenhar o Batman. Por isso, passou o livro todo a tentar mostrar o menos possível do Batman!”
Muito mais uma história de terror psicológico carregada de simbolismos do que uma simples aventura de Batman, Asilo Arkham, para além de ser o resultado de uma feliz sucessão de acasos, é, acima de tudo, um deslumbrante catálogo das notáveis possibilidades estéticas  da arte de Dave McKean, um dos mais talentosos e versáteis artistas (e designer) que já passaram pelo mundo dos comics que, tal como Morrison faz em relação às referências literárias, vai buscar elementos da pintura simbolista, do impressionismo e do surrealismo, numa mistura de técnicas, em que o desenho se articula com a pintura, com a fotografia e as colagens, num todo visualmente deslumbrante e, até então, nunca visto numa história de super-heróis.
Considerado pelo site IGN como uma das cinco melhores histórias do Batman de sempre, Asilo Arkham está também na origem de uma série de jogos de computador de sucesso, iniciada em 2009, com o jogo escrito por Paul Dini - um dos responsáveis pela série de animação Batman Adventures e argumentista responsável por Batman: Detective, um dos próximos volumes desta colecção - que veio alargar a imensa popularidade de Batman a um público que não se restringe aos leitores de comics. Mas foi nesta viagem perturbadora ao outro lado do espelho que tudo começou!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 2 - Batman: Herança Maldita

Aqui está a versão integral, não censurada, do editorial do 2º volume, escrito mais uma vez pelo José de Freitas. A versão politicimante correcta, que vem no livro, aparece em imagem, pelo que, quem quiser comparar as duas versões, basta carregar nas imagens.

Batman: Para Sempre!

Batman nasceu em 1939 nas páginas da revista Detective Comics - título que para sempre lhe ficou associado, e cujas iniciais iriam dar o nome à editora, até então National Allied Publications. Foi criado por Bob Kane (com a assistência de Bill Finger, que ajudou a definir pormenores finais do aspecto da personagem, e foi o desenhador em muitas aventuras do herói) quase como o oposto do Super-Homem. Onde este era solar, brilhante, apolíneo, e inspirado nos mitos prometaicos de progresso e redenção, Batman é negro e lunar, gótico e ligado às forças das trevas e da vingança, e mergulha as suas raízes nos pulps dos anos 30. Tal como o Super-Homem, é orfão, mas ao contrário dele, Batman sempre viveu à sombra dum tipo de loucura e de comportamento menos convencional, desde o seu relacionamento com as mulheres - até com as super-vilãs como a Mulher-Gato, ele teve casos! - até ao seu lado constantemente torturado pela morte dos pais, a sua origem quase psicanalítica.

Batman teve um sucesso quase imediato, estreando o seu próprio título em 1940 e passando por vários períodos durante a sua já longa carreira. Durante os anos 50 foi progressivamente abandonando o seu lado mais negro, e foi seguindo em parte o gosto da época, tendo passado por fases mais ligeiras, e mesmo humorísticas, que se reflectem por exemplo na série de TV dos anos 60 - não podemos esquecer, no entanto, que foi por um tempo uma das mais populares no mundo! No final dos anos 60, e ao longo da década de 70, autores como Denny O'Neil e Neal Adams, apoiados no lendário editor Julius Schwartz, levaram Batman de volta para um estilo mais próximo das suas origens pulp e noir, com grande sucesso. O seu trabalhou abriu caminho aos anos 80 e às obras de Frank Miller, de Alan Moore, e muitos outros, fazendo com que o herói merecesse plenamente o título de Cavaleiro das Trevas, e regressasse ao seu lado mais negro.

E é exactamente desse lado profundamente reprimido e torturado do Batman que os dois contos que compõem este volume tratam, quase numa relação de Alfa e Ómega. A Herança Mortal, de Grant Morrison (Batman and Son no original, que quase traduziríamos como "Batman e Filhos", numa antevisão do conceito notável que Morrison lançou na sequência, Batman, Inc.), que ele usou mais tarde como ponto de partida duma saga de vários anos que iria mudar para sempre o mito do Homem-Morcego, e o poético e surreal O que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas (Whatever Happened to the Caped Crusader), de Neil Gaiman, que é uma história do fim de Batman, mas do seu fim mítico, e que é também uma porta para o seu renascimento, como a história deslumbrantemente nos mostra. As duas histórias estão aliás interligadas, já que a segunda não teria sido possível se Grant Morrison não tivesse morto Bruce Wayne na sua série, em consequência directa dos acontecimentos que pôs em marcha na história que publicamos neste volume. Mas comecemos pelo princípio.

E o princípio é o evento decisivo da vida de Bruce Wayne, o momento traumático, sem o qual não haveria Homem-Morcego: o crime original, a morte dos pais que para sempre assombrará a vida do Cavaleiro das Trevas, e que possivelmente terá lançado Bruce para perto da loucura, uma loucura que o ameaça constantemente e para a qual a única terapia parece ser o seu heroismo implacável. Onde outros playboys bilionários se teriam abandonado ao niilismo narcisista, Bruce Wayne mergulha num momento de "crescimento pós-traumático", para usar o termo psicológico, e jura vingar a morte dos pais. Ironicamente, é o Joker que lhe explica a possibilidade destes momentos de viragem psicológicos na vida de qualquer pessoa, em Piada Mortal, que teremos a ocasião de ver no quinto volume desta colecção: "Basta um dia muito mau para reduzir o mais são e equilibrado dos homens à loucura total!", falando de si, mas de algum modo também de Bruce Wayne!

Como não confia nem na polícia, nem no sistema, decide tomar a justiça nas mãos e torna-se no Homem-Morcego, uma figura que lança o terror entre os criminosos, mas que talvez tenha mais do que a justiça em mente: Batman tem um lado vingativo, como se não pudesse perdoar nunca aquela noite fatídica numa viela, em que não havia Batman para salvar os seus pais. E mesmo os seus aliados e amigos o dizem, à medida que descobrem que o Batman é talvez mais calculista, mais temível, mais sinistro, que eles próprios imaginavam. Como na revelação extraordinária de que Batman manteve ficheiros secretos sobre os membros da Liga da Justiça, documentando as suas fraquezas e as maneiras de serem derrotados, em Torre de Babel, de Mark Waid e Howard Porter. Ou como naquela cena inesquecível de All-Star Batman & Robin The Boy Wonder, the Frank Miller e Jim Lee, em que o Lanterna Verde lhe lança à cara: "Os teus métodos são repugnantes. Há mais vítimas tuas que acabam no hospital do que na prisão. Sim, chamei-lhes vítimas! De cada vez que estou perto de ti, estás a partir a perna  a algum bandido, ou a quebrar os queixos a um polícia!" E esta propensão para a vingança, para a violência, é integral à personagem, e vem já dos primórdios, dos primeiros dias da sua existência, apesar dos interlúdios burlescos, dos anos 50 e da série de televisão.

É este pecado original que Grant Morrison vai endereçar na sua notável saga que durou quase seis anos, e se iniciou precisamente aqui, em Batman and Son. É este o tema central da história de Morrison, a relação de Batman com aquele evento traumático, um tema particularmente bem resumido por Jezabel Jet, que se torna na namorada de Bruce Wayne, e a quem ele revela a sua vida dupla como super-herói. Diz ela: "Tanta coragem, Bruce, tanto génio, teres-te transformado no cavaleiro das trevas que não estava lá naquela noite em que precisaste dele. Mas tudo isto... tudo isto é a resposta de um rapaz perturbado à morte dos seus pais." Morrison começa por introduzir na história um filho, saído duma relação que teve com Talia, a filha de Ras al Ghul - mais uma da longa lista de vilãs com quem ele teve relações, começando na Mulher-Gato e acabando na mesma Jezabel Jet, quase como se fosse atraído pelo lado negro! Damian é quase o oposto do seu pai, educado por assassinos, convencido da sua superioridade, totalmente egocêntrico e algo psicopata, mas a dinâmica pai-filho que se vai estabelecer nesta história irá perdurar até que Damian se transforma no novo Robin - algo que é prefigurado numa cena deste volume em que ele aparece vestido de Robin. Só que quando isso acontece, já Bruce Wayne estará morto, criando assim uma simetria terrível entre os dois, ambos perderam o pai, ambos precisam de provar que são capazes de se tornar heróis!

A morte (temporária) de Bruce Wayne na série Batman RIP marca outro dos temas centrais da ideia de Grant Morrison para a sua personagem: a da imortalidade do super-herói, como símbolo, como arquétipo. Não se trata da imortalidade básica duma personagem que é publicada pela mesma editora há mais de 70 anos, simplesmente porque sim, e porque dá dinheiro, mas da imortalidade que ela alcançou na imaginação dos leitores, e no fundo, dos próprios tempos em que nasceu. Como Morrison não se cansa de dizer, "não é porque são ficcionais que estes heróis são menos reais", e aqui ele não se coíbe de usar todos os métodos para afirmar a imortalidade do Batman, numa exploração meta-ficcional da personagem. Na sua saga de morte e de ressureição do Homem-Morcego, bem como dos episódios em que outro herói toma o seu manto (ficando Damian como o Robin desse outro Batman), e na criação de Batman Inc., a rede internacional de heróis que se reclamam do Morcego, Grant Morrison demonstra o carácter mítico da personagem de modo magistral.

Na segunda história deste volume, também ela ilustrada pelo espantoso Andy Kubert, Neil Gaiman toma um caminho diferente para explicar a imortalidade do Cavaleiro das Trevas, mas não menos original e fiel ao espírito das histórias do Universo DC. Tal como Grant Morrison, Neil Gaiman fez parte daquela "ínclita" geração de autores ingleses que atravessou o Atlântico para revolucionar os comics americanos. Depois de escrever uma série de bandas desenhadas independentes no Reino-Unido, Gaiman começou a trabalhar para a DC através do seu selo adulto, a Vertigo. Curiosamente, o seu primeiro trabalho para a editora foi com uma super-heroína do universo DC, a Orquídea Negra. Mas foi com Sandman, a sua obra-prima, que Gaiman se tornou famoso, e foi também Sandman que lhe abriu as portas das grandes editoras literárias, lançando a sua carreira como escritor de fantástico, com romances como Stardust, e mais tarde American Gods. American Gods foi o romance com que atingiria a fama e que lhe granjeou todos os prémios da ficção-científica e do fantástico, desde o Hugo e o Bram Stoker Award, ao Nebula.

Tal como Morrison, Gaiman parte dum princípio simples e que presta homenagem a toda a mitologia do Batman: a ideia de que todas as histórias publicadas são, de algum modo reais, que todas elas existiram de facto na continuidade da personagem. Mas como é que isso é possível? Como é que se consegue unificar as histórias do Batman original, com as da Segunda Guerra Mundial, com o tratamento que Neal Adams lhe deu nos anos 70, e com o Batman negro e terrível de Frank Miller em O Regresso do Cavaleiro das Trevas, e com todos os outros Batmans dos últimos setenta anos?  Unificam-se na morte, e é esse o segredo que é revelado a Bruce Wayne na história, e mais uma vez a ligação ao evento original, criador, da morte dos pais, é explícita. A história, que segue as pisadas de Whatever Happened to the Man of Tomorrow de Alan Moore, aqui explicitamente homenageada por Gaiman, assinala o fim de uma era na história da personagem. Foi publicada nas revistas Batman e Detective Comics, no período em que Bruce Wayne estava morto, sendo publicitada como "a história final de Batman". Mas Gaiman consegue, com grande ironia e elegância, que ela seja não só a última, mas a primeira! Talvez o momento mais surreal da história, mas ao mesmo tempo o mais trágico e mais comovente, seja a incrível narração de Alfred, quando revela que num universo do Batman, foi ele que criou os inimigos para o herói, para o conseguir manter são, e feliz, e foi ele que incarnou o Joker que ressuscitou o herói pela sua própria existência como nemesis. "Como sou inglês, tenho alguma dificuldade em identificar o sítio em que acaba a excentricidade e começa a loucura. Não nego que o Senhor Bruce era excêntrico, e admito que não é normal vestir-se como um morcego gigante para lutar contra o crime", diz o fiel servidor de Bruce Wayne, remetendo-nos de novo para o início: a loucura ou quase-loucura de Batman. "Já li sobre como as crianças traumatizadas por vezes desenvolvem personalidades dissimuladas para se protegerem de memórias dolorosas e reprimidas" afirma Bruce Wayne, numa das histórias de Grant Morrison.

Nas notáveis histórias incluidas neste volume, ambos os autores conseguem  mostrar como todas essas personalidades, todas as eras, todos os estilos e contos, podem coexistir num só mito, num só arquétipo heróico. E como diz Morrison, "Muito depois de eu morrer e ter sido esquecido, muito depois de todos nós termos partido, ainda haverá um Batman".

Batman: para sempre!

José Hartvig de Freitas