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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mulher-Maravilha 1 - Terra Um

GRANT MORRISON REINVENTA A ORIGEM DA HEROÍNA 
NO ARRANQUE DA COLECÇÃO MULHER-MARAVILHA

Mulher-Maravilha: Terra Um
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Yannick Paquette
Quinta, 25 de Maio, Por + 11,90 €
Uma semana antes de chegar às salas de cinema num filme protagonizado por Gal Gadot, a primeira e a mais popular das super-heroínas, a Mulher-Maravilha é a protagonista de uma colecção de cinco volumes inéditos em capa dura que, depois da colecção No Coração das Trevas DC e tendo em conta as surpresas que este ano ainda nos reserva, confirma 2017 como o ano da editora DC em Portugal, tanto nos quiosques e livrarias, como nas salas de cinema, onde, depois da Mulher-Maravilha em Junho, chegará o tão aguardado filme da Liga da Justiça em Novembro.
Assim, nas próximas cinco semanas, os leitores vão poder descobrir os contributos de criadores como Greg Rucka, George Pérez e Phil Jimenez para a evolução da personagem, ver a Mulher-Maravilha a enfrentar um dragão numa história maravilhosamente ilustrada por Christopher Moeller e, a abrir a colecção, ver como Grant Morrison soube adaptar a origem da Princesa Amazona para o século XXI, mantendo-se fiel ao espírito do seu criador original, em Terra Um, o volume que chega aos quiosques de todo o país na próxima quinta-feira.
Integrada numa nova linha da editora DC, que dá a oportunidade a autores de renome de criarem a sua versão dos mais famosos personagens da DC, como o Batman, ou o Super-Homem, a série Terra Um, de que esta novela gráfica de Morrison e Paquette faz parte, pretende apresentar uma visão diferente dos grandes heróis da DC, em histórias autónomas, libertas dos constrangimentos editoriais das revistas mensais, dando para isso total liberdade aos criadores.
E, o mínimo que se pode dizer, é que Morrison, que investigou a fundo a obra de Marston e a história das teorias feministas, sem abdicar de algumas actualizações, como a cor da pele de Steve Trevor, que passa a ser afro-americano, consegue regressar, com Terra Um, às raízes da Mulher-Maravilha, criadas por Marston. O que não é fácil pois, tal como escreveu Kris Kristofferson a propósito de Johnny Cash na canção The Pilgrim, a Mulher-Maravilha é, como o seu próprio criador, uma “walkin’ contradiction” (uma contradição ambulante): uma guerreira pacifista, com a divina incumbência de trazer paz ao mundo dos homens, uma mulher forte e poderosa, que quer triunfar não através da força, mas da “amorosa submissão”.
Outro aspecto “delicado” a que Morrison não foge é a questão da sexualidade de Diana e das amazonas, que reflecte as próprias concepções de Marston, um psiquiatra, adepto do bondage e da submissão, que vivia numa relação poliamorosa com duas mulheres, que lhe serviram de inspiração para a criação da Mulher-Maravilha.
Mas, além da inteligência do argumento de Grant Morrison, o outro grande trunfo deste livro é o maravilhoso trabalho gráfico de Yanick Paquette, um artista que iniciou a sua carreira a desenhar histórias eróticas, o que é bem visível na sensualidade que empresta a Diana e às outras Amazonas.
O desenhador canadiano, que já tinha ilustrado nove números da revista mensal da Mulher-Maravilha, entre 1998 e 1999, volta aqui a colaborar com Morrison, com quem já tinha trabalhado em Batman Incorporated, mas desta vez sem estar sujeito ao ritmo infernal das revistas mensais, o que lhe permite experimentar em termos de composição da página, com resultados espectaculares. Veja-se a cena inicial do confronto entre Hércules e a Rainha das Amazonas, em que os motivos decorativos gregos e os frisos de cerâmica pintada dialogam com a acção a que assistimos; as fantásticas duplas páginas que mostram o esplendor da ilha das Amazonas (que aqui não se chama Temiscira, mas Amazónia); o design inovador do avião invisível (que ganha uma forma claramente vaginal…), ou o formato sempre diferente e elegantemente adequado a cada cena, que dá às vinhetas.
Publicado originalmente no jornal Público de 19/05/2017

domingo, 21 de maio de 2017

Apresentação da colecção Mulher-Maravilha

É já na próxima quinta-feira, 25 de Maio, que começa a colecção que o  Público e a Levoir dedicam à Mulher-Maravilha, precisamente uma semana antes do filme que ela protagoniza chegar às salas de cinema nacionais. Como de costume, aqui vos deixarei, no dia da saída de cada livro, o texto que escrevi sobre ele para o jornal Público. Mas antes disso, aqui fica o destacável de 4 páginas de apresentação da colecção, que foi distribuído ontem com o  jornal de sábado e será redistribuído na próxima terça-feira.

A PRIMEIRA SUPER-HEROÍNA

Outubro de 1940. O editor Max Gaines lê uma entrevista na revista Familiy Circle em que o psicólogo William Moulton Marston defende que a Banda Desenhada tem um grande potencial ainda por desenvolver e decide contratá-lo como conselheiro educacional da National Periodical, uma das companhias que irá dar origem à DC Comics. Face ao sucesso de personagens como Super-Homem e Batman, criados poucos anos antes, Marston, que além da sua actividade como psicólogo, tinha trabalhado também em Hollywood, como consultor da Universal Studios, lembrou-se também ele de criar um super-herói. Ao comentar essa ideia com a sua mulher, Elizabeth Holoway Marston, esta sugeriu-lhe que criasse antes uma mulher. Uma ideia inesperada, mas que foi bem aceite pelos editores, até por romper com o carácter exclusivamente masculino dos super-heróis existentes à época.
Assim, em Dezembro de 1941 - ao mesmo tempo que o Presidente Roosevelt declara oficialmente a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, na sequência do bombardeamento japonês a Pearl Harbor - os leitores descobrem pela primeira vez no nº 8 da revista All-Star Comics, Diana, a Princesa Amazona, herdeira da tradição dos mitos da Grécia antiga, que troca a sua ilha pelo mundo dos homens, para participar activamente na guerra contra os alemães ao lado de Steve Trevor, um piloto cuja vida salvou e por quem se apaixona. A essa primeira história, escrita por Marston sob o pseudónimo Charles Moulton, e desenhada por H.G. Peter, seguir-se-ia a capa do primeiro número da revista Sensation Comics, no mês seguinte, até que, no Verão de 1942, a Mulher-Maravilha ganha finalmente uma revista própria, o que significava que, nesta fase, as suas histórias apareciam em três revistas diferentes, todas escritas por Marston.
O sucesso dessa personagem feminina que, nas palavras do próprio Marston, tinha “a força do Super-Homem e a elegância de uma bela mulher” e representava o novo tipo de mulher que ele achava que devia governar a sociedade, vai de encontro à alteração do estatuto da própria mulher nos EUA, onde as mulheres passaram a desempenhar trabalhos antes destinados exclusivamente aos homens, por estes se encontrarem na frente de batalha. São estas mulheres que, apesar de realizarem trabalhos pesados e masculinos, não perdem a sua feminilidade, bem simbolizadas por Rosie, the Riveter, a operária imortalizada pela famosa ilustração de Norman Rockwell, que se vão facilmente identificar com a Mulher-Maravilha.
No período do pós-guerra, os super-heróis perdem muita da sua popularidade e a Mulher-Maravilha não é excepção. Mas ao contrário do que aconteceu a outros heróis da época de Ouro, a sua revista manteve-se em publicação, mesmo que em finais dos anos 60, uma decisão editorial faça com que Diana perca os seus super-poderes e as suas aventuras se aproximem mais das histórias de espionagem e de artes marciais. Uma situação que seria revertida na década de 70, graças a dois factores: os artigos da activista feminista Gloria Steinem, que crescera a ler a Mulher-Maravilha e que se insurgiu numa série de artigos e ensaios contra aquilo que via como um rebaixar do estatuto da mais famosa super-heróina de todas e, principalmente, a série televisiva da Mulher-Maravilha, protagonizada por Lynda Carter, que conferiu à Mulher-Maravilha o estatuto de ícone da cultura Pop.
Com algumas alterações na sua origem, na sequência da Crise nas Terras Infinitas, e mudanças ocasionais no seu uniforme, que durante algum tempo passou a incluir umas calças, a Mulher-Maravilha mantém-se como a mais importante super-heroína dos comics americanos, graças ao trabalho de grandes criadores como George Pérez, John Byrne, Devin Grayson, Phil Gimenez, Brian Azzarello, ou Greg Rucka que, dando o seu toque pessoal às aventuras da Princesa Amazona, souberam respeitar a essência da personagem, contribuindo assim para o manter da sua popularidade.
Uma popularidade que não podia estar mais em alta, numa altura em que a Princesa Amazona, que completou 75 anos de carreira em Dezembro de 2016, se prepara para estrelar o primeiro filme de super-heróis com uma protagonista feminina, dirigido também ele por uma mulher, Patty Jenkins. A pesada responsabilidade de encarnar a icónica heroína no filme que chega às salas de cinema portuguesa no mesmo dia em que o segundo volume desta colecção chega às bancas, coube à actriz israelita Gal Gadot, que no filme Batman V Superman mostrou estar perfeitamente à altura do difícil desafio de dar corpo à Mulher-Maravilha, a primeira e a maior de todas as super-heroínas.


O CRIADOR DA MULHER-MARAVILHA


Nascido em 1893 em Massachusetts, William Moulton Marston foi psicólogo, professor universitário, inventor de um dos mais importantes componentes do polígrafo, escritor de livros de divulgação sobre psicologia, conselheiro educacional de editoras, director de relações públicas da Universal, um dos mais importantes estúdios de Hollywood, actor em filmes publicitários, mas o que lhe valeu verdadeiramente um lugar na história, foi a criação, com a colaboração de H.G. Peter na parte gráfica, da Mulher-Maravilha.
Casado com Elizabeth Holoway, Marston vivia assumidamente numa relação poliamorosa com a sua mulher e com Olive Byrne. As duas mulheres da sua vida foram de particular importância para o desenvolvimento da sua mais famosa criação. Através da primeira, Marston teve contacto com importantes figuras sufragistas do início do século. Por seu lado, Olive Byrne era filha de Ethel Byrne, uma das mais progressistas feministas americanas. Olive foi assistente de Marston em projectos universitários, e foi uma forte influência na figura da Princesa Diana. Era conhecida pelos braceletes que usava que, segundo o próprio Marston, foram a inspiração dos usados pelas amazonas. Existem também teorias que a própria terá servido de modelo para a Mulher-Maravilha de H.G. Peter.
Marston era adepto de práticas sexuais alternativas, como o bondage e explorou a fundo o conceito de submissão, que implementava regularmente nas histórias da personagem que criou. Consta que a situação chegou a um ponto tal, que o editor teve de pedir a Marston que reduzisse o número de situações nas quais a heroína se via acorrentada… Também o famoso laço da verdade, com que a Mulher-Maravilha dominava os seus adversários e os obrigava a contar a verdade, remete para essas práticas sexuais, sem deixar de evocar o polígrafo, aparelho a cuja criação Marston esteve intimamente ligado.
Até à sua morte em 1947, devido a um cancro, William Moulton Marston continuou a escrever as aventuras da Mulher-Maravilha. Após o seu falecimento, Elisabeth e Olive, as duas mulheres que amou e que lhe serviram de inspiração continuaram a viver juntas até à morte de Olive, no final dos anos 80.

SABIA QUE?

- A participação bastante passiva da Mulher-Maravilha nas primeiras aventuras da Sociedade da Justiça, de que era membro honorário, tal como o Super-Homem e o Batman, deveu-se à falta de tempo do seu criador, William Moulton Marston - que fazia questão de escrever todas as histórias da personagem e já estava ocupado com três revistas mensais - para colaborar na escrita dessas aventuras.

- Nos finais dos anos 60 a Mulher-Maravilha, seguindo o sucesso de séries de televisão como Kung-Fu (O Sinal do Dragão em Portugal) e The Avengers, sofre uma transformação radical, deixando de ser uma super-heroína, ao abdicar os seus poderes para poder ficar no Mundo dos Homens, em vez de seguir o seu povo para a dimensão onde a Ilha Paraíso foi exilada. Nesta fase mais urbana, que vai durar cinco anos, Diana tem uma loja de roupas, é treinada em artes-marciais por um mestre chinês de nome I-Ching, e Steve Trevor morre.

- O conhecido logotipo da Mulher-Maravilha, com o duplo WW, foi criado em 1982 pelo famoso designer Milton Glaser, criador do icónico I ❤ NY. Não foi essa a única colaboração de Glaser com a DC, pois o designer foi também responsável pelo mais duradouro logotipo da DC Comics, conhecido como “DC Bullet”, que foi usado entre 1977 e 2005.

- Apesar de ser um símbolo feminino incontornável, só em 2008 as aventuras da Mulher-Maravilha foram finalmente escritas por uma mulher, Gail Simone. Antes disso, só outra mulher, Trina Robbins tinha escrito uma história da Princesa Amazona, a mini-série The Legend of Wonder Woman, mas, neste caso, a meias com o escritor Kurt Busiek.

- No universo criado por Frank Miller na série O Regresso do Cavaleiro das Trevas e nas suas duas sequelas, o Super-Homem e Mulher-Maravilha têm uma ligação amorosa de que resultaram dois filhos superpoderosos: Lara e Jonathan.

- Durante dois meses, a Mulher-Maravilha foi embaixatriz das Nações Unidas para a autodeterminação das mulheres. Este cargo, atribuído em 21 de Outubro de 2016, ano em que a personagem completava 75 anos de existência, acabaria por ser extinto menos de dois meses depois, em 16 de Dezembro, devido às pressões dos lobbies feministas.

- O português Miguel Mendonça, que desenhou a Mulher-Maravilha durante a fase final da linha Novos 52, escrita por Meredith Finch, voltou a desenhá-la já em 2017 no nº 7 da revista Trinity da linha DC Rebirth, a mais recente reformulação do Universo DC.

- Embora só agora, em 2017, chegue ao grande ecrã, pelas mãos de Patty Jenkins, a Mulher-Maravilha esteve muito perto de ser adaptada ao cinema 10 anos antes, num filme escrito e dirigido por Joss Whedon, o criador da série televisiva Buffy the Vampire Slayer que, frustrado este projecto, acabou por realizar o primeiro filme dos Vingadores, da Marvel, com o sucesso que se conhece.


OS AUTORES EM DESTAQUE

GRANT MORRISON
Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Os seus trabalhos para a Vertigo tornaram-no conhecido, mas a fama chegaria com a novela gráfica do Batman, Asilo Arkham, ilustrada por Dave McKean e já publicada pela Levoir.
Desde então Morrison tem sido responsável por algumas das mais importantes histórias protagonizadas por Batman, Super-Homem e a Liga da Justiça. Já em anteriores colecções dedicadas à DC, podemos descobrir o seu trabalho com a Liga da Justiça, em Terra 2 e com Batman, em Herança Maldita. Com Terra Um temos o privilégio de o ver finalmente (re)escrever a origem da Mulher-Maravilha, o único membro da trindade dos maiores heróis da DC a quem faltava emprestar o seu talento.


CHRISTOPHER MOELLER
O escritor e pintor americano começou a sua carreira na Innovation Comics e ganhou nome na Dark Horse ilustrando capas da série Star Wars, antes de se estrear na Helix, a chancela de ficção científica da DC Comics e pintar capas para a revista Shadow of the Bat, protagonizada pelo Batman. Mas o seu mais famoso trabalho para a DC é este Um por Todos, que pintou e escreveu, conciliando o mundo dos super-heróis, com um universo de fantasia inspirado por Tolkien.


GREG RUCKA
Escritor de romances policiais, com uma solida carreira na BD, de que os leitores portugueses tiveram um bom exemplo em Batwoman: Elegia, publicado numa anterior colecção dedicada à DC, Greg Rucka, que é conhecido pelas suas personagens femininas fortes, tem uma grande ligação à Mulher-Maravilha. Rucka escreveu as aventuras da Princesa Amazona entre 2003 e 2006, sendo também o actual escritor da revista mensal, após a mais recente remodelação do Universo DC, com a linha DC Rebirth. Mas tudo começou com A Hiketeia, a história incluída nesta colecção, que foi a primeira aventura da Mulher-Maravilha que Rucka escreveu.


J. G. JONES
Já conhecido dos leitores portugueses pela história que ilustrou da Viúva Negra, numa anterior colecção público/Levoir, o desenhador americano, natural da Louisiana, tem-se distinguido sobretudo como ilustrador de capas, para séries como Y, the Last Men, tendo ganho em 2006, o prémio da revista Wizard para melhor ilustrador de capas. Mas para além de um excelente ilustrador Jones é um também um grande artista sequencial, com um traço simultaneamente realista e espectacular, como prova a história que desenhou para esta colecção.


GEORGE PEREZ
Nascido em Nova Iorque em 1954, George Perez estreou-se na BD em 1973, mas um ano depois já trabalhava regularmente para a Marvel. Apesar de ter trabalhado em séries como os Avengers e Fantastic Four, da Marvel, os trabalhos mais importantes da sua carreira foram publicados na DC, onde teve passagens memoráveis por séries como Teen Titans e Mulher-Maravilha. Em anteriores colecções podemos apreciar o seu trabalho na saga cósmica Crise nas Terras Infinitas, que revolucionou profundamente o universo da DC e abriu caminho para a reformulação da Mulher-Maravilha de que Pérez foi o principal responsável.

PHIL JIMENEZ
Natural da Califórnia, onde nasceu em 1971, Jimenez veio para Nova Iorque para frequentar a School of Visual Arts, onde se formou em 1991 e onde dá actualmente aulas. Nesse mesmo ano foi trabalhar para a DC Comics, a convite do director criativo Neal Pozner que lhe atribuiu como primeiro trabalho, o desenho de quatro páginas da saga War of The Gods, com que George Pérez fechou a sua passagem pela série da Mulher-Maravilha.
Esta ligação artística entre Jimenez e Pérez é bem evidente no seu trabalho gráfico, que vai beber muito ao seu mestre, com quem até escreveu em conjunto uma história da Mulher-Maravilha, que o próprio Jimenez ilustrou. Responsável pelo desenho e pela escrita das aventuras da Princesa Amazona entre 2001 e 2003, Jimenez assinou aí algumas histórias memoráveis, como as que podemos ler nesta colecção.


Ficha dos livros

1 - Mulher-Maravilha: Terra Um
25 de Maio
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Yannick Paquette
Diana de Temiscira viveu toda a vida na ilha paradisíaca das Amazonas, mas, ao decidir aventurar-se pela primeira vez no mundo dos homens, na companhia de Steve Trevor, o homem que salvou da morte à mão das suas irmãs de raça, será perseguida e julgada pelas outras Amazonas pelo seu crime de ter desafiado as suas mais antigas tradições.
Um regresso às raízes da Mulher-Maravilha plantadas pelo seu criador, William Moulton Marston que não evita alguns dos aspectos mais controversos da personagem, ligados à sexualidade de Diana e das amazonas, assinado por Grant Morrison e Yanick Paquette, no âmbito da linha Terra Um, que reinventa para os leitores do século XXI a origem dos mais icónicos personagens da DC, através de uma história ao mesmo tempo moderna e intemporal.


2  – Mulher-Maravilha: Um por Todos
01 de Junho
Argumento e Desenhos – Christopher Moeller
Quando o Oráculo das Amazonas profetiza que a Liga da Justiça está fadada a ser destruída por um antigo e maléfico dragão, despertado do seu sono subterrâneo para mais uma vez ameaçar um mundo que já esqueceu que tais monstros alguma vez existiram, a Mulher-Maravilha tem de tomar a mais difícil decisão da sua vida: assumir sozinha uma batalha que sabe que não pode vencer, para assim poder preservar a vida daqueles que mais ama.
O pintor e escritor Cristopher Moeller assina o desenho e a fabulosa arte pintada em cor directa desta lenda dos tempos modernos, que funde, de forma tão inesperada como eficaz, os universos da fantasia e dos super-heróis.


3  – Mulher-Maravilha: A Hiketea
08 de Junho
Argumento – Greg Rucka
Desenhos – J. G. Jones
A Mulher-Maravilha aceita tomar sob sua protecção uma jovem humana, Danielle Wellys, de acordo com a Hiketeia, um antigo ritual consagrado pelos deuses, e terá de a proteger contra todos os que a perseguem, mesmo contra o Batman, que a quer prender por assassinato e, como sempre não está disposto a deixar escapar a sua presa, mesmo que isso implique defrontar a sua amiga e companheira da Liga da Justiça.
Construída sob a forma de uma tragédia clássica, onde não faltam as Hiríneas, personagens mitológicas que castigam duramente aqueles infringem a lei divina, esta história que assinala a estreia de Greg Rucka na escrita das aventuras da Princesa Amazona, contando com o traço rigoroso e espectacular de J-G. Jones na arte, é considerada uma das grandes histórias da Mulher-Maravilha e um bom exemplo do carácter intemporal da personagem.



4  – Mulher-Maravilha: Homens e Deuses
15 de Junho
Argumento – LenWein
Desenhos – George Pérez
Na mítica ilha de Temiscira, uma orgulhosa e feroz raça guerreira de amazonas criou uma filha de beleza, graça e força inauditas - a princesa Diana, também conhecida como Mulher-Maravilha. Quando um piloto de caça do Exército, Steve Trevor, pára na ilha, a rebelde e obstinada Diana desafia a lei das amazonas ao acompanhar Trevor de volta à civilização. Enquanto isso, Ares (o deus da guerra) escapou de sua prisão nas mãos das Amazonas e decidiu exigir a sua vingança: uma guerra mundial que não só durará séculos como acabará com todos os seres vivos do planeta! Cabe à Princesa Diana salvar seu povo e o mundo, usando os seus poderes para provar que merece o nome de Mulher Maravilha.
O início da épica e incontornável remodelação da Mulher-Maravilha, levada ao cabo por George Pérez na sequência das alterações no Universo DC provocadas pela saga Crise nas terras Infinitas.

5  – Mulher-Maravilha: Deuses de Gotham
22 de Junho
Argumento – Phil Jimenez e J.M. De Matteis
 Desenhos –  Phil Jimenez e Andy Lanning
A cidade de Batman, Gotham City, foi transformada numa terra semelhante à antiga Grécia, dominada pelos deuses do mal. E uma vez que Ares, o deus da guerra, e os deuses da discórdia, do medo e do terror combinam suas essências com as do Joker, do Espantalho e da Hera Venenosa, Batman vai precisar da ajuda da Mulher Maravilha, mas quando os deuses também conseguem possuir o Batman, a Princesa Amazona descobre que mesmo a ajuda de outros protectores de Gotham, como o Asa Nocturna e o Robin, bem como da seu própria protegida, Donna Troy, a Wonder Girl, podem não ser suficientes para acabar com o reinado maligno dos deuses do submundo.
Phil Jimenez assina aqui o início da sua passagem marcante pela série mensal da Mulher-maravilha, que escreveu e desenhou durante três inesquecíveis anos.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 20/05/2017

sexta-feira, 19 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 2 - Batman: Herança Maldita

Aqui está a versão integral, não censurada, do editorial do 2º volume, escrito mais uma vez pelo José de Freitas. A versão politicimante correcta, que vem no livro, aparece em imagem, pelo que, quem quiser comparar as duas versões, basta carregar nas imagens.

Batman: Para Sempre!

Batman nasceu em 1939 nas páginas da revista Detective Comics - título que para sempre lhe ficou associado, e cujas iniciais iriam dar o nome à editora, até então National Allied Publications. Foi criado por Bob Kane (com a assistência de Bill Finger, que ajudou a definir pormenores finais do aspecto da personagem, e foi o desenhador em muitas aventuras do herói) quase como o oposto do Super-Homem. Onde este era solar, brilhante, apolíneo, e inspirado nos mitos prometaicos de progresso e redenção, Batman é negro e lunar, gótico e ligado às forças das trevas e da vingança, e mergulha as suas raízes nos pulps dos anos 30. Tal como o Super-Homem, é orfão, mas ao contrário dele, Batman sempre viveu à sombra dum tipo de loucura e de comportamento menos convencional, desde o seu relacionamento com as mulheres - até com as super-vilãs como a Mulher-Gato, ele teve casos! - até ao seu lado constantemente torturado pela morte dos pais, a sua origem quase psicanalítica.

Batman teve um sucesso quase imediato, estreando o seu próprio título em 1940 e passando por vários períodos durante a sua já longa carreira. Durante os anos 50 foi progressivamente abandonando o seu lado mais negro, e foi seguindo em parte o gosto da época, tendo passado por fases mais ligeiras, e mesmo humorísticas, que se reflectem por exemplo na série de TV dos anos 60 - não podemos esquecer, no entanto, que foi por um tempo uma das mais populares no mundo! No final dos anos 60, e ao longo da década de 70, autores como Denny O'Neil e Neal Adams, apoiados no lendário editor Julius Schwartz, levaram Batman de volta para um estilo mais próximo das suas origens pulp e noir, com grande sucesso. O seu trabalhou abriu caminho aos anos 80 e às obras de Frank Miller, de Alan Moore, e muitos outros, fazendo com que o herói merecesse plenamente o título de Cavaleiro das Trevas, e regressasse ao seu lado mais negro.

E é exactamente desse lado profundamente reprimido e torturado do Batman que os dois contos que compõem este volume tratam, quase numa relação de Alfa e Ómega. A Herança Mortal, de Grant Morrison (Batman and Son no original, que quase traduziríamos como "Batman e Filhos", numa antevisão do conceito notável que Morrison lançou na sequência, Batman, Inc.), que ele usou mais tarde como ponto de partida duma saga de vários anos que iria mudar para sempre o mito do Homem-Morcego, e o poético e surreal O que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas (Whatever Happened to the Caped Crusader), de Neil Gaiman, que é uma história do fim de Batman, mas do seu fim mítico, e que é também uma porta para o seu renascimento, como a história deslumbrantemente nos mostra. As duas histórias estão aliás interligadas, já que a segunda não teria sido possível se Grant Morrison não tivesse morto Bruce Wayne na sua série, em consequência directa dos acontecimentos que pôs em marcha na história que publicamos neste volume. Mas comecemos pelo princípio.

E o princípio é o evento decisivo da vida de Bruce Wayne, o momento traumático, sem o qual não haveria Homem-Morcego: o crime original, a morte dos pais que para sempre assombrará a vida do Cavaleiro das Trevas, e que possivelmente terá lançado Bruce para perto da loucura, uma loucura que o ameaça constantemente e para a qual a única terapia parece ser o seu heroismo implacável. Onde outros playboys bilionários se teriam abandonado ao niilismo narcisista, Bruce Wayne mergulha num momento de "crescimento pós-traumático", para usar o termo psicológico, e jura vingar a morte dos pais. Ironicamente, é o Joker que lhe explica a possibilidade destes momentos de viragem psicológicos na vida de qualquer pessoa, em Piada Mortal, que teremos a ocasião de ver no quinto volume desta colecção: "Basta um dia muito mau para reduzir o mais são e equilibrado dos homens à loucura total!", falando de si, mas de algum modo também de Bruce Wayne!

Como não confia nem na polícia, nem no sistema, decide tomar a justiça nas mãos e torna-se no Homem-Morcego, uma figura que lança o terror entre os criminosos, mas que talvez tenha mais do que a justiça em mente: Batman tem um lado vingativo, como se não pudesse perdoar nunca aquela noite fatídica numa viela, em que não havia Batman para salvar os seus pais. E mesmo os seus aliados e amigos o dizem, à medida que descobrem que o Batman é talvez mais calculista, mais temível, mais sinistro, que eles próprios imaginavam. Como na revelação extraordinária de que Batman manteve ficheiros secretos sobre os membros da Liga da Justiça, documentando as suas fraquezas e as maneiras de serem derrotados, em Torre de Babel, de Mark Waid e Howard Porter. Ou como naquela cena inesquecível de All-Star Batman & Robin The Boy Wonder, the Frank Miller e Jim Lee, em que o Lanterna Verde lhe lança à cara: "Os teus métodos são repugnantes. Há mais vítimas tuas que acabam no hospital do que na prisão. Sim, chamei-lhes vítimas! De cada vez que estou perto de ti, estás a partir a perna  a algum bandido, ou a quebrar os queixos a um polícia!" E esta propensão para a vingança, para a violência, é integral à personagem, e vem já dos primórdios, dos primeiros dias da sua existência, apesar dos interlúdios burlescos, dos anos 50 e da série de televisão.

É este pecado original que Grant Morrison vai endereçar na sua notável saga que durou quase seis anos, e se iniciou precisamente aqui, em Batman and Son. É este o tema central da história de Morrison, a relação de Batman com aquele evento traumático, um tema particularmente bem resumido por Jezabel Jet, que se torna na namorada de Bruce Wayne, e a quem ele revela a sua vida dupla como super-herói. Diz ela: "Tanta coragem, Bruce, tanto génio, teres-te transformado no cavaleiro das trevas que não estava lá naquela noite em que precisaste dele. Mas tudo isto... tudo isto é a resposta de um rapaz perturbado à morte dos seus pais." Morrison começa por introduzir na história um filho, saído duma relação que teve com Talia, a filha de Ras al Ghul - mais uma da longa lista de vilãs com quem ele teve relações, começando na Mulher-Gato e acabando na mesma Jezabel Jet, quase como se fosse atraído pelo lado negro! Damian é quase o oposto do seu pai, educado por assassinos, convencido da sua superioridade, totalmente egocêntrico e algo psicopata, mas a dinâmica pai-filho que se vai estabelecer nesta história irá perdurar até que Damian se transforma no novo Robin - algo que é prefigurado numa cena deste volume em que ele aparece vestido de Robin. Só que quando isso acontece, já Bruce Wayne estará morto, criando assim uma simetria terrível entre os dois, ambos perderam o pai, ambos precisam de provar que são capazes de se tornar heróis!

A morte (temporária) de Bruce Wayne na série Batman RIP marca outro dos temas centrais da ideia de Grant Morrison para a sua personagem: a da imortalidade do super-herói, como símbolo, como arquétipo. Não se trata da imortalidade básica duma personagem que é publicada pela mesma editora há mais de 70 anos, simplesmente porque sim, e porque dá dinheiro, mas da imortalidade que ela alcançou na imaginação dos leitores, e no fundo, dos próprios tempos em que nasceu. Como Morrison não se cansa de dizer, "não é porque são ficcionais que estes heróis são menos reais", e aqui ele não se coíbe de usar todos os métodos para afirmar a imortalidade do Batman, numa exploração meta-ficcional da personagem. Na sua saga de morte e de ressureição do Homem-Morcego, bem como dos episódios em que outro herói toma o seu manto (ficando Damian como o Robin desse outro Batman), e na criação de Batman Inc., a rede internacional de heróis que se reclamam do Morcego, Grant Morrison demonstra o carácter mítico da personagem de modo magistral.

Na segunda história deste volume, também ela ilustrada pelo espantoso Andy Kubert, Neil Gaiman toma um caminho diferente para explicar a imortalidade do Cavaleiro das Trevas, mas não menos original e fiel ao espírito das histórias do Universo DC. Tal como Grant Morrison, Neil Gaiman fez parte daquela "ínclita" geração de autores ingleses que atravessou o Atlântico para revolucionar os comics americanos. Depois de escrever uma série de bandas desenhadas independentes no Reino-Unido, Gaiman começou a trabalhar para a DC através do seu selo adulto, a Vertigo. Curiosamente, o seu primeiro trabalho para a editora foi com uma super-heroína do universo DC, a Orquídea Negra. Mas foi com Sandman, a sua obra-prima, que Gaiman se tornou famoso, e foi também Sandman que lhe abriu as portas das grandes editoras literárias, lançando a sua carreira como escritor de fantástico, com romances como Stardust, e mais tarde American Gods. American Gods foi o romance com que atingiria a fama e que lhe granjeou todos os prémios da ficção-científica e do fantástico, desde o Hugo e o Bram Stoker Award, ao Nebula.

Tal como Morrison, Gaiman parte dum princípio simples e que presta homenagem a toda a mitologia do Batman: a ideia de que todas as histórias publicadas são, de algum modo reais, que todas elas existiram de facto na continuidade da personagem. Mas como é que isso é possível? Como é que se consegue unificar as histórias do Batman original, com as da Segunda Guerra Mundial, com o tratamento que Neal Adams lhe deu nos anos 70, e com o Batman negro e terrível de Frank Miller em O Regresso do Cavaleiro das Trevas, e com todos os outros Batmans dos últimos setenta anos?  Unificam-se na morte, e é esse o segredo que é revelado a Bruce Wayne na história, e mais uma vez a ligação ao evento original, criador, da morte dos pais, é explícita. A história, que segue as pisadas de Whatever Happened to the Man of Tomorrow de Alan Moore, aqui explicitamente homenageada por Gaiman, assinala o fim de uma era na história da personagem. Foi publicada nas revistas Batman e Detective Comics, no período em que Bruce Wayne estava morto, sendo publicitada como "a história final de Batman". Mas Gaiman consegue, com grande ironia e elegância, que ela seja não só a última, mas a primeira! Talvez o momento mais surreal da história, mas ao mesmo tempo o mais trágico e mais comovente, seja a incrível narração de Alfred, quando revela que num universo do Batman, foi ele que criou os inimigos para o herói, para o conseguir manter são, e feliz, e foi ele que incarnou o Joker que ressuscitou o herói pela sua própria existência como nemesis. "Como sou inglês, tenho alguma dificuldade em identificar o sítio em que acaba a excentricidade e começa a loucura. Não nego que o Senhor Bruce era excêntrico, e admito que não é normal vestir-se como um morcego gigante para lutar contra o crime", diz o fiel servidor de Bruce Wayne, remetendo-nos de novo para o início: a loucura ou quase-loucura de Batman. "Já li sobre como as crianças traumatizadas por vezes desenvolvem personalidades dissimuladas para se protegerem de memórias dolorosas e reprimidas" afirma Bruce Wayne, numa das histórias de Grant Morrison.

Nas notáveis histórias incluidas neste volume, ambos os autores conseguem  mostrar como todas essas personalidades, todas as eras, todos os estilos e contos, podem coexistir num só mito, num só arquétipo heróico. E como diz Morrison, "Muito depois de eu morrer e ter sido esquecido, muito depois de todos nós termos partido, ainda haverá um Batman".

Batman: para sempre!

José Hartvig de Freitas

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 1 - Liga da Justiça Terra Dois

Pela primeira vez, este Blog vai publicar um post não escrito por mim. Neste caso, o autor é o José de Freitas que aqui publica a versão integral, não censurada do editorial que escreveu para o 1º volume da Colecção DC Comics, que ontem chegou às bancas com o jornal Público.
Uma das diferenças desta colecção para as anteriores da Marvel, é que o controle editorial da DC é muito mais burocrático e apertado. Por isso, os textos introdutórios que escrevemos para os primeiros cinco volumes, tiveram que sofrer diversas alterações de modo a ficarem mais politicamente correctos e adequados às restrições temáticas impostas pela DC. Essas restrições impedem, por exemplo, referências à Marvel, a questões religiosas, ao 11 de Setembro e um extremo cuidado no uso da palavra "criado" em relação em relação a autores e personagens. Por exemplo, não se pode dizer que o Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger, pois oficialmente a DC não reconhece a Bill Finger esse estatuto de criador...
Mas como a DC diz que os textos originais, embora não adequados a uma publicação oficial da DC, podem perfeitamente ser publicados em blogs e revistas da especialidade, aqui iremos publicar as versões UNCUT desses editoriais, escritos pelo José de Freitas, pelo Filipe Faria e por mim, que tiveram que ser "retrabalhados."


A Liga da Justiça para além do Bem e do Mal


O que é que define a história de super-heróis? Quais são os seus critérios, os seus pressupostos? Quais as regras pelas quais este género se rege? Nascida há quase um século na sua forma moderna, a história de super-heróis mergulha as suas raízes num passado muito mais distante, um passado de mito e de imaginação, e reflecte de certo modo tudo o que de melhor a humanidade pode ser. E também o pior.

Ao longo das décadas em que a história de super-heróis evoluiu, passou por inúmeras fases, e acompanhou o desenvolver da sensibilidade dos seus fãs, as mudanças que as sociedades Ocidentais foram sofrendo, as suas esperanças e desilusões, e o processo de maturidade dos leitores. Desde os inícios até à nossa era pós-moderna, passou de um período ingénuo e algo linear, a um período caracterizado pela sua desconstrução e pelo experimentalismo. Quando relemos muitas histórias dos anos 30, 40 ou 50, ficamos surpreendidos pelas suas regras “básicas”, pelo seu lado ingénuo e por vezes infantil. Nas histórias clássicas de super-heróis, o Bem vence sempre, por exemplo. Ao longo dos anos fizeram-se muitas experiências, e muitos autores se "revoltaram" contra estes pressupostos das histórias de super-heróis, explorando histórias em que os heróis morrem, o Mal vence, o sentido final das sagas remete para o absurdo ou para o caótico e aleatório. Uma evolução muito paralela com a de todos os outros media que nos rodeiam, como por exemplo a televisão. Basta ver a diferença entre uma série antiga como Bonanza, e uma moderna como Deadwood, embora ambas se integrem no mesmo género codificado que é o Western.

E no entanto, as histórias de super-heróis mantiveram sempre o seu pressuposto central, o da vitória do Bem sobre o Mal, ao longo de décadas em que os leitores, no mundo real, foram testemunhas de vitórias objectivas do mal, e em que esse lado ingénuo do género foi sendo cada vez mais posto à prova. Mas o Bem continua a vencer nos comics. Talvez devido ao carácter mítico dos super-heróis, um dos últimos loci literários em que se perpetua a grande tradição do mito heróico. Mas por vezes, lado mítico ou não, por mais que gostemos desta ou daquela saga, essa primazia do Bem deixa por vezes um amargo de boca, e cria mais uma clivagem entre o mundo real e o mundo mítico, que suspende por vezes o gozo puro de ler uma história de super-heróis.
É por isso que Terra Dois de Grant Morrison é uma das mais belas e mais "correctas" histórias de super-heróis jamais escritas, e talvez a homenagem absoluta ao lado mítico do género, conseguindo, quase que numa operação Alquímica, resolver a Coincidentia Oppositorum - a síntese dos opostos! - entre o Bem e o Mal, e reconciliando o leitor com essa regra não-escrita que diz que o Bem vence sempre. E por isso é talvez a melhor história possível para iniciar esta colecção de Herois DC!

Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Criados nos fanzines e revistas independentes da Grâ-Bretanha, traziam consigo uma sensibilidade muito diferente, bem mais política e radical, e mais disposta a questionar as bases fundamentais da história de super-heróis. Nomes como Alan Moore, Neil Gaiman, Peter Milligan, Jamie Delano ou Garth Ennis, encontraram nas grandes editoras americanas um lar novo, onde lhes foi permitido "experimentar" com as personagens e universos estabelecidos, ou criar os seus próprios universos, particularmente na Vertigo, o selo "adulto" da DC, onde foram publicadas muitas histórias seminais da BD anglo-saxónica dos nossos tempos. Grant Morrison tornou-se rapidamente numa das super-estrelas dos comics americanos, e ao contrário de muitos outros compatriotas seus (com a excepção de Alan Moore, diga-se) iniciou-se quase de imediato na história de super-heróis - em vez de ter começado por escrever as suas próprias criações - primeiro com Animal Man e Doom Patrol, duas séries a que imprimiu um cunho quase surrealista e algo pós-moderno, e logo depois com o espantoso Asilo Arkham, com arte de Dave McKean. Estes títulos estabeleceram desde logo algumas das preocupações centrais da obra de Morrison, e a sua capacidade imensa de analisar e desconstruir o género dos super-heróis. Morrison também foi ficando obcecado com a ideia da definição dos universos ficcionais dum ponto de vista meta-ficcional, ou seja, da história vista de fora e em que se analisam os pressupostos que a fazem funcionar, mas em que a própria reflexão sobre esses pressupostos e regras interage e influencia a história. A esta obsessão não será alheio o interesse de Morrison pelo oculto e pela magia, e a sua vontade de "contactar universos ficcionais distantes", como o próprio relata no seu livro Supergods, em que analisa profundamente o fenómeno da vida "independente" das criações literárias (e outras)!

Ao longo de uma década e meia, Grant Morrison fez um percurso complexo, que o levou de um ponto em que estava disposto a desconstruir completamente o género dos super-heróis, em criticá-lo, virá-lo do avesso, violar todas as regras que o definem, a um ponto de chegada em que redescobriu um respeito profundo pelos super-heróis, e em que mergulhou nas raizes míticas que o definem, e conseguiu revitalizá-lo duma maneira original. Podemos comparar este percurso de Morrison com o de Alan Moore, para termos uma uma ideia de quão revolucionário ele parece ter sido para um jovem irreverente da geração punk cuja missão inicial era arrasar tudo e chocar os leitores. Alan Moore também assinou comics de super-heróis que fizeram história - basta citar Piada Mortal, que integrará o volume dedicado ao Joker nesta colecção, ou o excelente Whatever Happened to the Man of Tomorrow? - e também ele desde o início pareceu questionar muitas das regras normais deste género. Mas a evolução de Moore levou-o a assinar Watchmen, com desenho de Dave Gibbons, que é nem mais, nem menos, do que a prova de que os super-heróis, como género clássico, com os seus universos e a sua continuidade, são impossíveis e não fazem sentido - e não estamos a falar da impossibilidade de seres com super-poderes, mas sim da incoerência interna deste género literário.

Morrison e Moore afastam-se assim um do outro na sua análise do género. Ao longo dos anos, Morrison foi ganhando novo respeito pelos super-heróis, chegando até de certo modo a lamentar o seu período desconstrucionista. E atira muitas culpas a Alan Moore pela idade das trevas que o género chegou a viver nos anos 80 e 90, e pelo antagonismo que muitos autores pareceram nutrir pelos seus heróis. Mas Morrison também sentiu que depois de Watchmen, passava a ser possível fazer algo diferente, e reflectir de modo mais produtivo acerca dos super-heróis, acerca daquilo que os torna míticos. Em Supergods, escreve "Mas por mais que tentássemos, o super-herói regressou dos mortos com novos poderes, como sempre fez, para se vingar daqueles que o quereriam destruir. Muito mais do que matar o género dos super-heróis, Watchmen tinha aberto caminho para o conceito ser examinado e para o seu potencial ser revigorado. (...) Eu queria mais das minhas ficções. Como sempre fui do contra, cansei-me de me dizerem o que os super-heróis seriam se fossem reais, e de descobrir sempre que eles não eram mais do que nós no nosso pior: venais, corruptos, mistificados e estúpidos. O realismo tinha acabado por ser confundido com um tipo muito particular de pessimismo adolescente e de sexualidade colérica, que me começou a parecer limitativa." O percurso desconstrucionista de Morrison tinha chegado ao fim, e quando em 1996 lhe confiaram a série da Liga da Justiça, relançou-a, imprimindo-lhe um cariz mitológico e arquetípico que teve um sucesso tremendo. A transformação acabou finalmente com este Terra Dois, e Morrison abandonou o seu papel de desconstruidor, para inaugurar a sua fase de reconstruidor de universos de super-heróis.

Voltemos à Liga da Justiça, um dos mais antigos grupos de super-heróis, e um dos mais populares. Surgida pela primeira vez pelas mãos do escritor Gardner Fox, a Liga da Justiça da América é de algum modo a sucessora da Sociedade de Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis de sempre, que tinha sido também criada por Fox com a ajuda do editor Sheldon Maier, e que tinha servido a função de "mostruário" de heróis menos conhecidos da editora. Foi o mítico lendário editor Julius Schwartz que pediu a Fox (com a ajuda do artista Mike Sekowsky) que recriasse a Sociedade dos anos 40, mas Fox decidiu actualizar o seu nome para Liga da Justiça da América. A Liga estreou-se na revista The Brave and the Bold #28 (Fevereiro/Março de 1960), mas a sua imediata popularidade levou a que logo no mesmo ano recebessem a sua própria revista e que se transformassem na espinha dorsal do universo DC.

Schwartz ajudou também à criação de conceitos revolucionários, que transformariam profundamente o universo de super-heróis da DC. A editora queria reaproveitar muitos dos heróis dos anos 40 que já não usava, e em Setembro de 1961 na história Flash of Two Worlds, também com argumento de Gardner Fox, o Flash criado dos anos 50, Barry Allen, descobre que consegue vibrar as suas moléculas a tal velocidade que viaja através das dimensões para chegar a outro mundo, que seria baptizado Terra-2, onde encontra o Flash dos anos 40, Jay Garrick, que lhe tinha servido de inspiração! Nesta Terra-2, o Flash da Terra-1 era uma personagem fictícia, o que não impediu que pouco tempo depois os heróis da Terra-1 se aventurassem com os da Terra-2 em aventuras cada vez mais empolgantes, que a DC publicava em revistas anuais, como por exemplo os team-ups da recém-criada Liga da Justiça (da Terra-1) com a Sociedade da Justiça (que vivia na Terra-2). E a proliferação de mundos continuou, com cada vez mais Terras paralelas em que existiam heróis ou vilões diversos, como por exemplo a Terra paralela em que os super-heróis nossos conhecidos - Super-Homem, Batman, etc... - eram vilões e tinham formado o Sindicato do Crime da América! Esta explosão de criatividade acabou por criar problemas de continuidade, que a DC tentaria mais tarde resolver numa saga épica, que veremos também nesta colecção, a Crise nas Terras Infinitas.

Neste volume, Terra Dois - um título que encerra uma surpresa, como veremos - o argumentista Grant Morrison recupera muitos destes conceitos para escrever uma história que questiona os próprios fundamentos do comic de super-heróis, o que faz dela mais do que uma simples história de super-heróis, embora seja uma muito boa "simples" história de super-heróis. Morrison pega naquela criação antiga do universo DC, o Sindicato do Crime da América - um grupo de super-vilões que são a contraparte maléfica da Liga da Justiça num universo paralelo - e transforma-os nos ditadores absolutos dum planeta Terra alternativo. Neste universo, Lex Luthor, o vilão das histórias do Super-Homem do universo regular da DC, é o único "super-herói" que se opõe ao Sindicato do Crime. Luthor consegue viajar para a Terra da Liga da Justiça para pedir a sua ajuda na luta contra os opressores do seu mundo. Embora os membros da Liga se questionem sobre se essa intervenção é correcta, acabam por aceder, e partir para a outra Terra. Aqui, conseguem triunfar temporariamente e prender o Sindicato no seu satélite espacial, enquanto desfazem a estrutura ditatorial e corrupta com que ele governa o mundo. Mas as coisas não são tão fáceis, e o próprio Coruja - o reflexo negro de Batman neste mundo - percebe que o Sindicato não precisa de fazer nada, e que num movimento cósmico de reequilíbrio, o Sindicato será transportado para o mundo da Liga, para restabelecer a simetria universal. Os heróis descobrem então que no mundo que invadiram, o Mal é mais forte que o Bem, e que está destinado a triunfar sempre no fim, tal como no seu mundo, o mundo regular do universo DC, o Bem triunfou sempre sobre o Mal, desde as primeiras histórias de comics de super-heróis... assim, os dois mundos são o reflexo um do outro, e de certo modo dependem um do outro, num delicado equilíbrio cósmico.
Quando ambos os mundos parecem estar destinados a destruir-se um ao outro, devido à ruptura deste equilíbrio com ambos os grupos de personagens a viajarem para os mundos um dos outros e com uma ameaça final a aparecer, na figura do Brainiac, Batman faz a descoberta simétrica da do Coruja: se não fizerem nada, os super-heróis serão de novo transportados para o seu mundo, enquanto os super-vilões regressam ao seu para derrotar Brainiac - afinal, no seu mundo os maus estão "condenados" a vencer! - numa espécie de princípio de wu-wei - não-acção - Taoista, neste verdadeiro símbolo do Yin e Yang que são os dois mundos, para sempre opostos e para sempre complementares. O lado pós-moderno e relativista da história é posto a nu pelo facto de a Terra Dois do título ser o universo DC normal, e a Terra Um ser aquela em que o Mal triunfa sempre no fim!

Mas por mais que Terra Dois reflicta muitas das preocupações pós-modernas e desconstrucionistas da história de super-heróis moderna, e que ela constitua uma reflexão meta-ficcional sobre elas, é ao mesmo tempo um tour de force maravilhoso: restaura a nossa fé nos clichés da história de super-heróis, permite-nos continuar a aceitar o pressuposto "ingénuo" de que nestas histórias o Bem triunfa sempre, e reconcilia-nos com isso, mantendo a suspensão de cepticismo que é o garante da dimensão mítica destas histórias, ao dar-nos uma explicação meta-ficcional para esses pressupostos, e ao permitir uma reflexão sofisticada e filosófica que "desculpa" a ingenuidade destas histórias! Como diz Julian Darius na sua análise do livro, Terra Dois permite "que os leitores deixem de necessitar que os heróis percam uma luta de vez em quando, para poderem ser mais realistas, e leva-os a reflectir sobre as implicações desses mesmos heróis serem invencíveis, uma reflexão que não é menos sofisticada!"

Terra Dois é maravilhosamente ilustrado por Frank Quitely, um dos nomes grandes dos comics, também ele escocês, e companheiro de longa data de Grant Morrison em muitas sagas. Conhecido pelo pormenor do seu desenho, trabalhou com Morrison em Novos X-Men, a mega-saga da Marvel que ambos assinaram (já publicada em Portugal pela Devir), bem como em Batman and Robin e All-Star Superman, só para citar livros de super-heróis, embora possamos também mencionar o espectacular WE3, também editado no nosso país.

Terra Dois foi a primeira grande obra de Morrison em que ele usou um universo de super-heróis estabelecidos para fazer uma reflexão profunda e meta-ficcional sobre o género. Já o tinha feito com outros títulos (como Flex Mentalo, por exemplo), mas Terra Dois marcou um ponto de viragem na sua percepção deste tipo de histórias. Como diz Metron em World War III, outra saga assinada por Morrison, a Liga mostra-nos uma visão de relance do futuro da humanidade, o futuro a que devíamos aspirar, e compete-nos a nós estar à sua altura. Este é o volume inaugural duma colecção que quer mostrar algo do melhor que se fez na história de super-heróis, no universo DC. Onde as personagens da Marvel são criadas para ser parecidas com pessoas reais, com os seus defeitos e peculiaridades, com os quais os leitores se identificam facilmente, os heróis da DC tendem as ser figuras mais míticas, e funcionam mais como símbolos das muitas facetas da personalidade e comportamento humano. Em 20 volumes, os leitores portugueses poderão poderão tomar contacto com as melhores sagas e os mais conhecidos heróis da DC.

José Hartvig de Freitas

AGRADECIMENTOS - Os meus agradecimentos, primeiro ao próprio Grant Morrison pelo extraordinário livro que escreveu sobre as suas aventuras com super-heróis, Supergods; a Julian Darius, crítico maravilhosamente perspicaz; ao João Miguel Lameiras, e ao meu amigo João Nuno Azevedo, que em muitas conversas acompanhadas de jantar e copos foi realimentando o meu gosto pela DC!