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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Super-Heróis DC 1 - Liga da Justiça: Origem


LIGA DA JUSTIÇA ABRE NOVA COLECÇÃO 
DEDICADA AOS SUPER-HERÓIS DA DC

Super-Heróis DC Vol 1
Liga da Justiça: Origem
Argumento – Geoff Johns 
Desenhos – Jim Lee e Scott Williams
Quinta, 04 de Fevereiro
Por + 9,90 €

Antecedendo a chegada triunfante ao grande ecrã dos maiores heróis da DC, no filme Batman v Super-Homem: o Despertar da Justiça, o Público e a Levoir lançam na próxima quinta-feira, uma nova colecção de 15 volumes, dedicada aos Super-Heróis da Editora do Batman e do Super-Homem.
Assim, até 12 de Maio, o leitor poderá acompanhar o regresso de velhos conhecidos, como a Liga da Justiça, Super-Homem, Batman, Arqueiro Verde, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Legião dos Super-Heróis e Novos Titãs, descobrir grandes sagas clássicas como O Contrato de Judas e Saga das Trevas Eternas e conhecer novos heróis e vilões como o Aquaman e o Esquadrão Suicida.
Mas os motivos de interesse desta nova colecção não se ficam por aqui, pois há ainda espaço para algumas das melhores histórias do Batman das últimas décadas, assinadas pela dupla Scott Snyder e Greg Capullo, para a origem definitiva do Arqueiro Verde, criada por Andy Diggle e Jock, e para a abordagem única de Brian Azzarello e Lee Bermejo ao maior dos inimigos do Super-Homem, Lex Luthor, com o mesmo toque inconfundível que fez da versão deles do Joker (publicada na anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC Comics) um estrondoso sucesso crítico e comercial, que influenciou a versão cinematográfica do Joker no filme de Christopher Nolan.
Outro grande motivo de interesse desta colecção, é a estreia em Portugal, no exacto mês em que se comemoram 45 anos sobre o início da sua publicação original, da mais ambiciosa saga de Jack Kirby: o Quarto Mundo. Uma saga épica de uma escala cósmica claramente à frente do seu tempo, onde nasceu o mais poderoso vilão do Universo DC: Darkseid, o senhor de Apokopolis.
Finalmente, esta colecção assinala a estreia em edição nacional da Linha Novos 52, a mais recente reformulação do Universo DC, que em 2011 modernizou o universo da editora para os leitores do século XXI, através de um recomeço radical, que passou pela renumeração de todos os títulos da editora, incluindo revistas míticas como a Action Comics (onde nasceu o Super-Homem) e a Detective Comics (onde nasceu o Batman) que se mantinham em publicação ininterrupta desde a década de 30.
Se a linha Novos 52 arranca com os heróis já em actividade há cinco anos, a revista da Liga da Justiça, cujos seis primeiros números preenchem o volume inaugural desta colecção, mostra-nos o primeiro encontro entre os futuros membros da Liga da Justiça, então a darem os primeiros passos como combatentes do crime, podendo por isso ser considerada como a pedra angular da linha Novos 52.
Verdadeiro dream team super-heróico, a Liga da Justiça surgiu pela primeira vez em 1960, nas páginas da revista The Brave and the Bold, funcionando como sucessora da Sociedade da Justiça da América, criada nos anos 40 por Gardner Fox e pelo editor Sheldon Mayer, como montra para os super-heróis menos conhecidos da editora. O próprio Fox foi encarregue pelo editor Julius Schwartz de criar esta nova versão da Sociedade da Justiça, que mudou o nome para Liga, aproveitando o sucesso da recém-criada Liga Nacional de Baseball e, que ao contrário da sua antecessora, contava com os principais heróis como o Batman, ou Super-Homem. O sucesso da Liga foi um elemento fundamental no relançar das histórias de super-heróis durante os anos 60, mantendo-se desde então como o principal título da editora.
Nesta nova versão, a Liga conta com as principais figuras do Panteão da DC, como o Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash e Lanterna Verde, a que se junta o Ciborgue, personagem que nas anteriores versões do Universo DC, era membro dos Novos Titãs, sendo por isso uma escolha menos óbvia.
Para assinar esta história, fundamental na afirmação do universo dos Novos 52, a DC escolheu dois nomes de peso, bem conhecidos dos leitores destas colecções: Geoff Johns e Jim Lee.
Director Criativo da DC, escritor para televisão e proprietário de uma loja de comics, Geoff Johns começou a sua carreira como assistente de Richard Donner, o realizador do primeiro filme do Super-Homem, com Christopher Reeves. Johns é um dos mais populares argumentistas da actualidade, tendo escrito a maioria dos heróis da DC, como bem sabe quem acompanhou a anterior colecção dedicada à DC, onde assinou o argumento dos volumes dedicados ao Flash, Lanterna Verde e Super-Homem e à Legião dos Super-Heróis.
Verdadeira estrela dos comics e um dos directores criativos da DC, Lee estreou-se como desenhador na Marvel em 1987, tornando-se rapidamente num dos mais populares ilustradores da editora. Depois do grande sucesso como desenhador da nova série dos X-Men, Lee, juntamente com outros desenhadores, deixou a Marvel para fundar a Image, publicando as suas histórias através do Estúdio Wildstorm. Quando a DC comprou a Wildstorm em 1998, Lee teve finalmente a oportunidade de desenhar os maiores heróis da DC, como o Super-Homem, Batman e Liga da Justiça. Na anterior coleção da DC, assegurou o desenho dos dois volumes de Pelo Amanhã, uma história do Super-Homem, escrita por Brian Azzarello.
Fica aqui o convite ao leitor para, guiado por Johns e Lee, descobrir o universo dos Novos 52, através da primeira missão da Liga da Justiça, em que os maiores heróis da DC têm de enfrentar a ameaça cósmica de Darkseid.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 27/01/2016

domingo, 11 de outubro de 2015

Frank Miller regressa a Batman com Dark Knight III: The Master Race


Quando se aproxima o 30º aniversário da publicação de The Dark Knight Returns, a seminal obra de Frank Miller, recentemente reeditada em Portugal pela Levoir, nos Estados Unidos, a DC Comics prepara-se para lançar no final do ano, Dark Knight III: The Master Race, uma continuação que pretende ser o capítulo final da trilogia iniciada com The Dark Knight Returns em 1986, e prosseguida com o controverso The Dark Knight Strykes Again, de 2001.
Depois da publicação na Net de uma dezena, entre as mais de 30 capas alternativas, assinadas pelos maiores nomes dos comics, específicas para diferentes livrarias, incluindo a capa feita por Frank Miller que abre este post, a New York Comic Con, que decorreu este fim-de-semana, serviu para a DC divulgar mais informação sobre este projecto, incluindo algumas páginas do primeiro volume desta mini-série de 8 números, que chega às livrarias especializadas dos EUA em finais de Novembro, em duas edições. Uma em formato comic, com um mini-comic de 16 páginas em formato mais pequeno, agrafado no interior e, duas semanas depois, uma edição para coleccionador, em formato maior, com ambas as histórias no mesmo tamanho e lombadas, que juntas formarão um desenho.
Escrito por Frank Miller e Brian Azzarello, DKIII assinala o regresso de Miller ao activo depois de alguns anos afastado devido a doença. Um cancro cujos efeitos eram bem visíveis aquando das últimas aparições públicas do autor, em 2013, para promover a estreia do segundo filme da série Sin City. 
Aparentemente, Miller conseguiu superar a doença e, embora não desenhe o capítulo final da trilogia, desenha  uma capa alternativa para cada número e as páginas interiores  do primeiro mini-comic de 16 páginas, dedicado ao Atom, que vai sair no nº 1, como encarte e cuja capa, com um Super-Homem "bem dotado" e desenhado num estilo próximo do usado no segundo Dark Knight, causou controvérsia na Net.
A tarefa de desenhar a série principal, ficou a cabo de Andy Kubert, que desenhou algumas histórias memoráveis do Batman, escritas por Grant Morrison e Neil Gaiman,publicadas em Portugal pela Levoir, e de Klaus Janson, que volta a encarregar-se da arte-final, como tinha feito no primeiro Dark Knight e passa também a tinta os desenhos a lápis de Miller na história do Atom, reatando assim uma das parcerias mais famosas dos comics americanos, primeiro na série Daredevil, e depois no TDKR original.
Com publicação mensal, a série vai sofrer um interregno de um mês ao fim de 3 números, para dar lugar em Fevereiro, mês em que se comemoram os trinta anos da série original, a uma prequela desenhada por John Romita Jr., que volta a trabalhar com Miller, depois do excelente Daredevil: Man Without Fear, que foi uma das influências maiores da fabulosa série do Demolidor da Netflix.
Resta esperar por Novembro, para perceber se o regresso de Miller ao Batman consegue estar à altura das expectativas, sobretudo depois da desilusão que foi Holy Terror, o último trabalho em BD que Miller publicou. 
A famosa frase de Nietzche que diz que "o que não nos mata, torna-nos mais forte" sempre funcionou quase como um mantra na forma como Miller tratava os seus personagens. Esperemos que o próprio criador consiga também fazer jus a essa máxima e surja, neste seu regresso à BD, revigorado e ao seu melhor nível.
Precisamente por o motivo deste post ser o regresso de Frank Miller à BD, optei por ilustrá-lo só com desenhos de Miller (duas capas e uma página da história do Atom, com arte-final de Klaus Janson), mas no interessante video da entrevista com Jim Lee e Dan Didio, que está logo abaixo, poderão ver várias capas alternativas e os desenhos a lápis de Andy Kubert para algumas das páginas do primeiro volume.

domingo, 22 de março de 2015

75 Anos do Batman 5 - Batman: 75 Anos de Aventuras


E com este 10º volume, o 5ª para o qual escrevi textos introdutórios, chega ao fim esta colecção dedicada aos 75 Anos do Cavaleiro Das Trevas, que permite ter novamente disponíveis algumas das melhores histórias de sempre do Batman, em belas edições. Esta foi também a colecção feita mais a correr, numa altura em que já começávamos a trabalhar na colecção das Novelas Gráficas. Mas julgo que o esforço valeu a pena e os fãs não se podem queixar, mesmo que inevitavelmente, haja sempre quem se queixe...

BATMAN, 75 ANOS DE AVENTURAS

Com esta recolha antológica de onze histórias de diferentes épocas, assinadas por alguns dos maiores nomes da história dos comics, concluímos esta viagem comemorativa dos 75 anos da criação do Batman. Criado por Bob Kane em 1939, com a colaboração de Bill Finger no argumento, na sequência do sucesso do Super-Homem de Jerry Siegel e Joe Schuster um ano antes, Batman é um dos super-heróis mais humanos e carismáticos de todos os tempos e um dos raros que não tem qualquer superpoder, funcionando quase como um negativo do Super-Homem. E é precisamente essa dimensão mais humana, que facilita a identificação dos leitores, um dos elementos que actualmente fazem do Batman o mais popular dos super-heróis.
Quando o descobrimos pela primeira vez, na história que abre este volume, publicada em 1939 no nº 27 da revista Detective Comics, Batman, o sombrio super-herói, está já no activo há algum tempo e a sua fama precede-o, enquanto o homem que se esconde por detrás da máscara, o milionário Bruce Wayne, tem uma participação mais discreta. E só largos meses depois, os leitores descobrem o que levou Bruce Wayne a transformar-se no vigilante vestido de morcego, através de um flash-back de duas páginas, publicado no # 33 da revista Detective Comics, que mostra como o assassinato dos pais do jovem Bruce Wayne levou o traumatizado órfão a consagrar a sua vida ao combate do crime, escolhendo a imagem do morcego para infundir terror a essas criaturas “medrosas e supersticiosas” que são os criminosos. Uma história que surge neste volume numa versão mais contemporânea, assinada por Jeph Loeb e Jim Lee.
O sucesso de Batman cedo lhe garantiu uma revista própria e, ao longo da década de 40, as aventuras de Batman começaram a aparecer também nas revistas Batman e World’s Finest Comics, para além da Detective Comics, que viria dar o nome à editora e onde tudo começou. É na revista Batman que vai aparecer pela primeira vez a jornalista Vicki Vale, uma intrépida repórter criada por Bob Kane, com o apoio de Bill Finger no argumento e de Charles Paris na arte, funcionando um pouco como a Lois Lane em relação ao Super-Homem. E é precisamente O Furo do Século, a história que assinala essa estreia, que este volume recolhe.
Com o aparecimento desses novos títulos, o grupo de colaboradores que rodeava Bob Kane, foi alargado a novos argumentistas e a desenhadores, para além de Bill Finger, como Sheldon Moldoff, Charles Paris, Jerry Robinson e Dick Sprang, autor cujo estilo único marcou a imagem do Homem-Morcego na década seguinte e que está presente neste livro com O Batman de Amanhã, história que explora o ambiente de ficção científica, tão em voga nos comics da década de 50.
Tal como a América, também o Batman vai mudar na década de 60. Esse processo, conhecido como “New Look”, culmina em Maio de 1964 com a mudança de imagem do herói, da qual o símbolo do morcego, que passa a surgir dentro de um círculo amarelo, é o exemplo mais imediato, mas que passa também pelo aparecimento de autores com um estilo mais elegante e realista como Carmine Infantino, aqui representado com a história que inaugurou essa mudança, publicada precisamente 25 anos e 300 nºs após a primeira aparição do Batman. O sucesso comercial deste “novo” Batman a que não é alheio o trabalho gráfico de Infantino, foi imediato e chamou a atenção do produtor William Dozier, que decidiu criar uma série de televisão dedicada ao Cruzado de Capa e que, quase 50 anos após a sua estreia, continua a marcar o imaginário de muitos leitores.
Na década de 70, Batman voltaria a aproximar-se do violento combatente do crime da fase inicial, graças ao trabalho da dupla Denny O’Neil/Neal Adams. Nessa América em mudança, é natural que os jovens leitores já não se identificassem com a versão kitsch do Batman que marcou a década de 60, de que a série televisiva com Adam West foi o expoente máximo em termos mediáticos. Daí a necessidade de criar um novo herói para uma nova era, um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores. Julius Schwartz, o editor da DC encarregado da personagem, sabia quem eram os homens certos para esse trabalho e optou por reunir novamente o escritor Denny O'Neil com o desenhador Neal Adams, depois da revolucionária passagem da dupla pela série Lanterna Verde/Arqueiro Verde, que os leitores puderam acompanhar na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC. E é precisamente a primeira colaboração da dupla numa história do Batman, que apresentamos neste livro.
Mas, no que ao Batman diz respeito, a década de 70 não se resume apenas ao trabalho de Neal Adams. Presentes neste volume estão dois outros mestres dos comics que desenharam o Batman nesta década. São eles Alex Toth, representado neste volume pela única história do Batman que desenhou ao longo da sua prestigiada carreira, e Marshall Rogers, ilustrador cujo estilo elegante e estilizado deu vida a uma imagem do Batman que à época foi considerada como “definitiva”. Mas como bem sabemos, “definitivo” é um termo difícil de aplicar a qualquer versão de um personagem que, como o Batman, se caracteriza por se saber adaptar ao pulsar do seu tempo. A prová-lo está a verdadeira revolução que chegaria em 1986, com Frank Miller e o seu Regresso do Cavaleiro das Trevas, já publicado nesta colecção. Mas já antes Miller tinha tido a oportunidade de desenhar o Batman em Procura-se: Pai Natal… morto ou vivo!,  uma tão singela como bem conseguida história de Natal, que não podia faltar nesta antologia.
Neste volume, há ainda espaço para uma história da década de 90, Crise de Identidade, uma perturbadora viagem pela mente de Bruce Wayne, assinada por Tom Mandrake e por Peter Milligan, argumentista inglês que deixou a sua marca na linha Vertigo. E, para fechar temos o magnífico J. H. Williams III, cujo fabuloso trabalho visual e de composição os leitores já conhecem do volume dedicado à Batwoman, da primeira colecção que a Levoir dedicou à DC e que aqui ilustra um inspirado argumento de Paul Dini, escritor que esteve em destaque em Detective, o sétimo volume desta colecção.
Mas esta história de 75 anos de sucesso não acaba aqui. Cada vez mais popular, o Cavaleiro das Trevas soube renovar-se, tanto na BD, como no cinema, ou nos jogos de computador. Nos comics essa renovação atingiu todo o universo DC, que através da Linha Novos 52, foi actualizado para o século XXI. A esse nível, é impossível não citar o excelente trabalho de Scott Snyder e Greg Capullo na principal revista do Batman. Mas essa, já é uma outra história que, quem sabe, talvez possamos vir um dia a acompanhar, em português de Portugal, numa nova colecção da Levoir.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 4 - Super-Homem: Pelo Amanhã (Parte 2)


E chegamos finalmente ao primeiro texto introdutório da minha autoria. Texto que teve que sofrer uma série de alterações que, basicamente, passaram pela supressão de quaisquer referências religiosas e aos atentados do 11 de Setembro. "Temas sensíveis" que, na opinião dos senhores da DC, "poderiam perturbar os leitores..." Confiante na falta de sensibilidade dos leitores deste blog, aqui fica a versão integral e não censurada do dito texto. No caso, improvável, de algum leitor se sentir perturbado pelo texto, o meu conselho é para que beba um copo, que isso passa-lhe logo...

O HOMEM QUE VEIO DO ESPAÇO

 SÍMBOLO MAIOR DA REINVENÇÃO PELA AMÉRICA DOS HERÓIS DA MITOLOGIA GREGA, O SUPER-HOMEM, TAMBÉM PELA SUA ORIGEM, DE IMIGRANTE CHEGADO Á TERRA PROMETIDA, É O MAIS AMERICANO DOS SUPER-HERÓIS. ISTO APESAR DE SER UM EXTRATERRESTRE, QUE SENDO SUPER, FOI EDUCADO COMO UM HOMEM E QUE, SOB O DISFARCE DE CLARK KENT, VIVE NO MEIO DOS HOMENS. ESSA DUALIDADE SUPER/HOMEM, KAL-EL/ CLARK KENT É UM DOS ASPECTOS MAIS FASCINANTES DA PERSONAGEM, QUE TEM SIDO OBJECTO DAS MAIS DIVERSAS ABORDAGENS AO LONGO DOS TEMPOS.
 Numa cena do filme Kill Bill vol 2, que se tornou marcante para os fãs da BD de super heróis, Quentin Tarantino desenvolve uma interessante teoria sobre o que torna o Super-Homem único e diferente dos restantes super-heróis. Essa teoria, que Tarantino nos dá a conhecer pela boca de Bill, personagem interpretada de forma inesquecível por David Carradine, consiste no seguinte: “A questão do alter ego, ou identidade secreta, é uma parte importante da mitologia dos super-heróis e aquela que torna precisamente a personagem do Super-Homem mais fascinante. Ao contrário do Batman e do Homem Aranha que, quando acordam são, respectivamente, Bruce Wayne e Peter Parker e só depois de vestirem o fato se transformam no Batman e Homem-Aranha, já o Super-Homem é diferente e único. O Super-Homem não se transforma em Super-Homem. O Super-homem nasceu Super-homem, quando acorda já é o Super-Homem. Clark Kent é apenas o seu alter ego. O S que serve de símbolo ao Super-Homem já estava no cobertor que o embrulhava quando os Kent o encontraram nos destroços da nave. É a sua roupa. Já o fato e os óculos de Clark Kent, são o disfarce que o Super-Homem usa para se misturar no meio de nós. Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. Clark Kent é a apreciação do Super-homem sobre a raça humana”.

 Se na mini-série Superman For All Seasons, de Jeph Loeb e Tim Sale, ou na série televisiva Smallville, o enfoque é posto claramente no alter ego Clark Kent, já Brian Azzarello e Jim Lee, na história que se conclui neste volume, dão o protagonismo a Kal-El, o todo-poderoso Super-Homem, fazendo de Clark Kent, apenas uma construção (literal) do Super-Homem, um simples autómato. Um Super-Homem que, ao criar com as melhores intenções uma nova Zona Fantasma, a Metropia, onde se poderia refugiar a humanidade, no caso de um desastre semelhante ao que destruiu o planeta Krypton, acaba por involuntariamente provocar o desaparecimento de um milhão de pessoas, incluindo a sua amada, Lois Lane. Essa catástrofe, a que o leitor não assiste, não deixa de evocar no leitor americano outra tragédia, esta bem real, e que ainda estava fresca na memória colectiva: os atentados de 11 de Setembro de 2001, que abalaram profundamente os Estados Unidos da América.
 Se a escolha de Jim Lee, vindo do sucesso estrondoso de Batman: Hush, para ilustrar esta história, era mais do que óbvia, conhecendo a espectacularidade, pormenor e dinamismo do seu traço e a sua popularidade junto dos leitores, já o mesmo não se pode dizer da opção de Brian Azzarello como argumentista. Conhecido principalmente pelo seu trabalho para a Vertigo, o selo mais adulto da editora DC, na premiada série 100 Bullets, um policial muito negro, com elementos conspirativos, ilustrado pelo argentino Eduardo Risso, o único trabalho de Azzarello com super-heróis até a altura tinha sido Broken City, uma história do Batman desenhada por Risso, muito mais próxima do policial negro do que das histórias de super-heróis. Perante os (anti)heróis tremendamente humanos, sobretudo nos seus defeitos, que marcam as suas histórias anteriores, os leitores esperavam talvez um Super-Homem mais frágil e humanizado, mas Azzarello raramente faz aquilo que os leitores esperam. Um dos problemas de escrever um personagem tão poderoso como o Super-Homem é a dificuldade em criar obstáculos credíveis a esse poder. A Kryptonita, o calcanhar de Aquiles do Super-Homem, foi criada precisamente para ajudar a resolver esse problema. Mas Azzarello não vai por aí, esquecendo a kryptonita, tal como esquece Jimmy Olsen, Perry White, o Daily Planet e a cidade de Smallville, todos os elementos habituais à face humana do Homem de Aço, o seu alter ego Clark Kent. Azzarello opta antes por mostrar um herói poderoso como um deus, capaz de criar mundos, mesmo que depois se esqueça que os criou…

Perante seres tão poderosos, como o Super-Homem, Mulher-Maravilha, e a feiticeira Alcióne, a personagem mais humana e mais tipicamente azzarelliana, é a do misterioso Sr. Orr, um mercenário amoral, ao serviço de uma poderosa corporação. Também na escolha do principal vilão, a opção de Azzarello foi atípica, deixando de fora Lex Luthor, o mais famoso inimigo do Homem de Aço (embora pegue nele pouco tempo depois, na mini-série Lex Luthor: Man of Steel, ilustrada por Lee Bermejo). Para além dele próprio, o principal adversário do Super-Homem nesta história é o General Zod, um kryptoniano como o Homem de Aço, que escapou à destruição do seu planeta-natal por estar aprisionado na Zona Fantasma. Criado em 1961, por Robert Bernstein e George Papp, nas páginas da revista Adventure Comics, o General Zod acabou por ficar mais conhecido graças à interpretação inesquecível de Terence Stamp nos dois primeiros filmes do Super-Homem, realizados por Richard Donner e Richard Lester, não admirando que tenha sido escolhido também para vilão principal do filme Man of Steel, com que Zack Snyder acaba de relançar o Super-Homem no cinema. Depois de uma primeira parte mais expositiva, é a acção que comanda os capítulos finais de Pelo Amanhã, dando oportunidade a Jim Lee de brilhar a alto nível nos combates entre Super-Homem e a Mulher-Maravilha e, principalmente, no combate épico entre o Homem de Aço e Zod.

E se, tal como refere Filipe Faria no editorial do primeiro volume, as referências à religião cristã são diversas e bem evidentes ao longo da história, essa tendência mantém-se nos capítulos finais, com o padre Leone a ser transformado numa arma viva chamada Pilatos, nome do cônsul romano que nada fez para impedir a condenação de Jesus Cristo. Mas também a este nível, Azzarello consegue surpreender o leitor, dando uma interpretação diferente a uma das mais simbólicas imagens da iconografia cristã, a cena da Criação do Mundo, pintada por Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina. Aqui, numa espectacular dupla página do capítulo final, Jim Lee recria, subvertendo-a, a imagem de Miguel Ângelo, com Zod no lugar de Deus, a fechar a mão no último momento, recusando a salvação que o Super-Homem lhe estende.
 Publicado originalmente entre Junho de 2004 e Maio de 2005, nos nºs 204 a 215 da revista Superman, este Pelo Amanhã vinha rodeado de grandes expectativas. Se na altura, as reacções dos leitores foram desiguais e extremadas, face à forma como Azzarello contrariou as suas expectativas, hoje, quase 10 anos depois, o tempo encarregou-se de lhe fazer justiça, e já não restam grandes dúvidas de que estamos perante um verdadeiro clássico, com lugar cativo numa coleção com estas características, que pretende dar a descobrir ao público português as melhores histórias com os maiores heróis da editora DC.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Colecção DC Comics: antevisão do Vol. 4 - Super-Homem: pelo Amanhã (Parte 2)

Super-Heróis DC Comics – Volume 4
Super-Homem: Pelo Amanhã (Vol 2)
Argumento: Brian Azzarello
Desenhos – Jim Lee e Scott Williams
Na conclusão da saga épica criada por Jim Lee e Brian Azzarello, o Homem de Aço descobre que foi ele próprio o responsável pelo desaparecimento de um milhão de pessoas, ao criar uma dimensão paralela chamada Metropia, mas esse não é o único dos seus problemas, pois vai ter ainda que enfrentar a Mulher-Maravilha e o mais poderoso de todos os kryptonianos, o General Zod, a serpente que se introduziu em Metropia, o paraíso criado pelo Super-Homem para proteger parte da humanidade de ameaças como a que destruiu o planeta Krypton. Depois de uma primeira parte mais expositiva, apesar dos combates com Equus e com os quatro elementos invocados pela feiticeira Alcione, é a acção que comanda os capítulos finais de Pelo Amanhã, dando oportunidade a Jim Lee de brilhar a alto nível nas disputas entre Super-Homem e a Mulher-Maravilha e, principalmente, no confronto épico entre o Homem de Aço e Zod.
Criado em 1961, por Robert Bernstein e George Papp, nas páginas da revista Adventure Comics, como adversário do Superboy, o General Zod é um kryptoniano como o Homem de Aço, que escapou à destruição do seu planeta-natal por estar aprisionado na Zona Fantasma. Embora nascido na Banda Desenhada, Zod acabou por ficar mais conhecido graças à interpretação inesquecível de Terence Stamp nos dois primeiros filmes do Super-Homem, realizados por Richard Donner e Richard Lester, não admirando que tenha sido escolhido também para vilão principal do filme Man of Steel, com que Zack Snider acaba de relançar o Super-Homem no cinema, onde é interpretado por Michael Shannon.
Mas a presença do General Zod não é o único ponto de contacto entre o Super-Homem cinematográfico de Zack Znider e a visão de Azzarello e Lee. Ambos exploram a ligação do Homem de Aço à mitologia e iconografias cristãs, que a presença do Padre Leone, personagem cuja participação na história vai assumir contornos inesperados neste segundo volume, acentua.
Texto publicado no Jornal Público em 26/07/2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

DC Comics UNCUT 3 - Super-Homem: Pelo Amanhã (Parte 1)


Depois do José de Freitas, chegou a vez deste blog abrir o seu espaço a mais outra pessoa que não eu. Neste caso, ao Filipe Faria, nome grande da fantasia nacional, autor das Crónicas de Allarya e grande fã da DC em geral e do Super-Homem em particular. Foi nessa qualidade que assinou a tradução e o editorial do 1º volume dedicado ao Homem de Aço na Colecção DC Comics. É a versão UNCUT, não censurada deste texto, que aqui se apresenta.

UM ESTRANHO VISITANTE DE OUTRO PLANETA

ENQUANTO SUPER-HERÓI POR EXCELÊNCIA, O SUPER-HOMEM É DONO DE UMA SÉRIE DE COGNOMES, ENTRE OS QUAIS FIGURAM EPÍTETOS COMO HOMEM DE AÇO, HOMEM DO AMANHÃ OU ÚLTIMO FILHO DE KRYPTON (A PAR DE OUTROS, MENOS CONHECIDOS MAS BEM MAIS ALITERATIVOS, COMO ÁS DA ACÇÃO OU MARAVILHA DE METRÓPOLIS). UM DOS MENOS USADOS É ESTRANHO VISITANTE DE OUTRO PLANETA, PROVAVELMENTE POR TER UM EFEITO DE ALIENAÇÃO E SUSCITAR UM CERTO DISTANCIAMENTO DEVIDO À SUA TOADA, QUE REMETE PARA O TÍTULO DE UM FILME SOBRE UMA INVASÃO ALIENÍGENA, OU A DESCRIÇÃO DE UM SER MISTERIOSO, QUIÇÁ AMEAÇADOR.

Está longe de ser essa a primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa no Super-Homem, o arquétipo do salvador, o bom samaritano sorridente que salva gatinhos de árvores com a mesma facilidade com que combate déspotas intergalácticos, o modelo heróico a partir do qual os super-heróis como os conhecemos foram moldados. Até pode ter vindo de outro planeta e ser um extraterrestre detentor de poderes que desafiam a compreensão, mas ao mesmo tempo sempre foi visto como o mais humano dos seus pares — se não na acepção biológica do termo, então certamente na ética — pois não só cresceu e foi educado como um de nós, como também sempre o caracterizaram uma incondicional abnegação e uma nobreza de carácter que poucos no Universo DC conseguem igualar. Nas palavras do próprio, algo retiradas do contexto de um dos mais reveladores diálogo deste tomo: «se alguém dedicar a sua vida à humanidade, acabará por se considerar como o mais humano de todos».

É esse o Super-Homem que o público em geral conhece, aquele com o qual se familiarizou ao longo dos anos nas mais variadas encarnações, desde a banda desenhada até ao cinema, com passagem pelos desenhos animados e séries de televisão — aquele que se pode dizer que a personagem na sua essência realmente é. Essa mesma essência é explorada a fundo neste Super-Homem: Pelo Amanhã, que a subverte e desafia ao colocar o Homem de Aço numa situação na qual ele se vê forçado a confrontar e pôr em causa tudo aquilo que representa. Trata-se de uma faceta que raramente vem à tona e que nunca antes fora abordada, não sem ser através das sempre convenientes ferramentas que fazem parte do arsenal de qualquer argumentista de histórias de super-heróis: controlo da mente, possessão demoníaca, indução psicotrópica, clones impostores, realidades alternativas, etc. Pelo Amanhã não recorre a semelhantes artifícios, limitando-se a colocar o herói numa situação na qual um evento misterioso causou o desaparecimento de um milhão de pessoas, entre as quais aquele que é considerado um dos mais importantes esteios da humanidade do próprio Homem de Aço: Lois Lane.

Originalmente rival de local de trabalho e parte integrante de um dos mais famosos triângulos amorosos do mundo da ficção, que dura desde o mítico Action Comics #1 (EUA, 1938), Lois Lane e a relação dela com o Super-Homem é bem conhecida pelo mundo fora, tendo ultrapassado barreiras culturais e artísticas ao tornar-se parte da cultura popular. Ao longo dos anos, entre crises, fraudes matrimoniais, reinícios narrativos, histórias hipotéticas e realidades alternativas, o amor entre ambos foi explorado através de todos os prismas possíveis e imaginários, até que, no ido ano de 1996 (Superman: The Wedding Album), após seis décadas de vai-não-vai, os dois deram finalmente o nó e a famosa repórter acabou mesmo por se tornar na esposa do Homem de Aço, por fim inteirada da mais famosa identidade secreta do mundo dos quadradinhos. No entanto, votos de casamento à parte, ela sempre foi vista acima de tudo como um dos «meros mortais» através dos quais o Super-Homem aprendeu a reconhecer a natureza humana em todo o seu imperfeito esplendor, e por conseguinte um dos mais importantes elos que o unem ao seu mundo adoptivo. Aquando do evento misterioso acima referido, o Homem de Aço vê-se então atingido por dois duros golpes dos quais nem mesmo a sua sobejamente conhecida invulnerabilidade o pode resguardar: a perda da sua mulher, e o saber que falhou para com o mundo, por não ter estado presente para evitar tamanho desastre.

Em resultado do desaparecimento de Lois Lane, é-nos apresentado um Super-Homem bem mais frio e distante que aquele a que estamos habituados, quase assustador no desapego que manifesta e sentindo mais do que nunca o peso do mundo sobre os seus ombros, mesmo enquanto tenta fazer boa cara e passar uma mensagem de esperança àqueles que contam com ele para resolver tudo. Quando a história começa, o nosso herói encontra-se na penúltima fase do luto, a da depressão, na qual se desprende sistematicamente das coisas que nele possam suscitar sentimentos de amor ou afecto, o que, mais uma vez, é um estado de espírito deveras atípico para o Homem de Aço. A tristeza, o arrependimento, o medo e a incerteza de que dá mostras são uma reacção perfeitamente natural e humana em semelhante fase, mas não correspondem àquilo que o mundo espera do seu maior herói em tal situação. É aqui que entra Brian Azzarello, autor mais conhecido por histórias de crime pulp noir (100 Bullets), horror (Hellblazer) e personagens falíveis com os pés bem assentes na terra — à partida, uma escolha no mínimo invulgar para escrever uma aventura sobre um alienígena invulnerável, capaz de voar e de comprimir carvão em diamante com as mãos. Contudo, Azzarello mostra em Pelo Amanhã a sua versatilidade, virando do avesso todas as expectativas ao abordar mais o sagrado do que o profano que dele se esperaria, ficando-se por uma nem por isso velada alusão a armas de destruição maciça e ao papel de uma certa superpotência nos conflitos do Médio-Oriente a título de comentário social. Só que, em vez de se perder em semelhantes considerações e enveredar pelo discurso contestatário fácil através da voz do Super-Homem, Azzarello eleva a personagem ao mesmo tempo que a rebaixa, contrastando-a com a mundanidade que a rodeia e focando mais o super do que o homem que, à partida, seria a sua zona de conforto narrativa. De realçar também que Pelo Amanhã é das poucas histórias em que o Super-Homem se vê como Kal-El, o último filho de Krypton, e não como Clark Kent, a identidade humana com a qual cresceu e foi criado — Clark Kent não aparece sequer, e essa curiosa disfunção na dicotomia que sempre caracterizou a personagem é explorada mais a fundo no segundo tomo.

Que se desenganem, contudo, aqueles que possam julgar que Pelo Amanhã representa uma desconstrução gratuita da figura, ou que os eventos o transfiguram ao ponto de se tratar de outra personagem — este Super-Homem continua a ser movido pelos mesmos motivos de sempre, tal como exemplificado pela sua sucinta e prosaica resposta quando, durante a história, alguém lhe pergunta por que razão ele se dá sequer ao trabalho de tentar salvar toda a gente: «Porque posso». Mal seria, se a única coisa que faz do percursor de todos os super-heróis aquilo que é fosse apenas o amor que sente por uma mulher, afinal de contas. Temos, isso sim, um homem — que, lá por que é super, não deixa de o ser — que perdeu aquilo que lhe era mais querido, e que passou um ano a sofrer as consequências das decisões drásticas tomadas em resultado dessa perda. Perda essa que o deixou incerto quanto à legitimidade de usar os seus tremendos poderes para resolver os problemas de outros à sua maneira, e que o leva a pesar os problemas do mundo contra os do seu foro pessoal, sobretudo quando é confrontado com a pura maldade humana numa altura em que se encontra emocionalmente tão abalado. Mais: o Super-Homem sempre foi uma fonte de inspiração heróica, representando, enquanto mandatário, o melhor que o género humano tem para oferecer e aquilo ao qual todas as pessoas de bem devem aspirar. O que acontece a essa noção, a partir do momento em que um símbolo de esperança como ele corre o risco de perder aquilo que faz dele humano?

Baseada nesta premissa, a DC Comics, editora que sempre se diferenciou da concorrente Marvel devido às suas personagens mais optimistas e idealistas, articula em Super-Homem: Pelo Amanhã um paradigma muito interessante e aparentemente contrário à sua filosofia — e logo através do seu herói mais emblemático. Neste primeiro volume temos uma narrativa ambiciosa, na qual se explora, entre outros elementos, o papel do Super-Homem no seu planeta adoptivo, a legitimidade do uso dos seus poderes para combater outras ameaças que não invasores alienígenas e as criações de cientistas loucos — bem como as inevitáveis consequências que daí advêm — e as proporções quase religiosas que ele foi adquirindo ao longo dos anos, qual deus benevolente a caminhar entre os mortais. A título de exemplo, a repetida ênfase nos motivos, iconografia e simbologia cristãs é tudo menos subtil, veiculadas pela nova personagem Padre Leone através do diálogo estilizado que é o apanágio de Brian Azzarello, e bem patentes nas poses messiânicas e afins detalhes da arte de Jim Lee, que aqui assinala um dos melhores trabalhos da sua lendária carreira. O subtexto religioso trata-se, aliás, de um aspecto incontornável da mitologia do Super-Homem — em cuja origem sempre esteve patente um inegável elemento cristofânico, na forma da analogia secular do filho que é enviado pelo pai para salvar a humanidade, para não falar da sua simbologia como uma divindade solar dos tempos modernos — e a sua prevalência nesta história apenas reforça a quase metafísica crise de fé com que a personagem se depara: deve assumir o papel que boa parte da humanidade de qualquer forma lhe reconhece e agir de forma autocrática para salvar o mundo, qual deus infalível? E qual será o derradeiro preço para a sua humanidade, caso o faça? Talvez já tenha sido pago, quando o próprio reconhece logo no início da história que o seu «pecado» foi «salvar o mundo», qual redentor que começa a pôr em causa o real valor do seu sacrifício em prol da humanidade; isto ao perceber que a verdadeira ameaça reside nos corações daqueles que jurou proteger, o que faz da sua já de si interminável batalha uma luta vã, ainda por cima.

Apesar de tudo, não seria de esperar ver um Super-Homem tão incerto e sorumbático quando a humanidade é vitimada por uma catástrofe sem precedentes, pois em circunstâncias normais uma situação destas seria sem sombra de dúvida «um trabalho para o Super-Homem». Acontece que, ao perder o amor da sua vida e ver-se confrontado com o seu fracasso em proteger aqueles que aprenderam a contar com ele, o Homem de Aço acaba até certo ponto por reverter ao seu legado alienígena em busca de conforto e orientação, por se sentir pela primeira vez na vida como um verdadeiro estranho visitante no seu planeta adoptivo, que devido a isso começa a ver o seu maior herói como uma potencial ameaça. Essa mesma impressão é partilhada pelos companheiros do Super-Homem na Liga da Justiça, que receiam que o maior protector da humanidade possa perder o rumo e pô-la em risco, o que não augura nada de bom para ele ou para o mundo — sendo que o próprio mundo acaba por ter uma palavra a dizer nesta situação, conduzindo a um clímax que, de certa forma, acaba por dar alguma legitimidade aos receios manifestados por humanos e super-humanos em igual medida. E assim se encontram reunidos os ingredientes para uma muito invulgar mas nem por isso menos memorável aventura do Super-Homem, neste primeiro capítulo de um polémico arco de história de grande sucesso comercial, cujo mérito artístico e narrativo lhe merece o lugar nesta colecção.

Filipe Faria

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Colecção DC Comics: Antevisão do Vol. 3 - Super-Homem: Pelo Amanhã (Parte 1)


Super-Heróis DC Comics – Volume 3
Super-Homem: Pelo Amanhã (Vol 1)
Argumento: Brian Azzarello 
Desenhos –  Jim Lee e Scott Williams
Ao mesmo tempo que o seu regresso cinematográfico, pelas mãos de Zack Snyder, conquista as bilheteiras de todo o mundo, o Super-Homem estreia-se nesta coleção com uma história demasiado épica para caber num só volume. Pelo Amanhã, essa história inédita em Portugal, foi originalmente publicada entre 2004 e 2005, nos nºs 204 a 215 da revista Superman, juntando pela primeira vez o desenhador Jim Lee, com o argumentista Brian Azzarello.

Como ponto de partida desta aventura, está um misterioso cataclismo que se abateu sobre a Terra, provocando o inesperado desaparecimento de um milhão de pessoas, incluindo a pessoa mais importante na vida do Super-Homem, Lois Lane, a sua mulher. Apesar de todo o seu imenso poder, o Homem de Aço vê-se impotente perante estes acontecimentos, que não consegue compreender e muito menos controlar. É essa sensação de impotência, estranha num herói com poderes quase divinos, que Azzarello explora muito bem, numa história em que passado e futuro se misturam com traição, esperança, culpa e amizade, e que reequaciona a relação do Super-Homem com o mundo que o acolheu.
Criador da série 100 Bullets, Brian Azzarello, sempre foi um autor associado mais às histórias policiais e ao realismo sombrio, o que não o impede de pegar numa personagem “maior do que a vida” como é o Homem de Aço e construir uma história épica, a que o traço espectacular de Jim Lee, artista que os leitores do Público já conhecem do volume da colecção Heróis Marvel dedicado ao Justiceiro, dá uma dimensão ainda mais icónica.

Pelo Amanhã vinha rodeado de grandes expectativas e o tempo encarregou-se de lhe fazer justiça, já não restando grandes dúvidas de que estamos perante um verdadeiro clássico, com lugar cativo numa colecção com estas características, criada de raiz para dar ao público português as melhores histórias com os maiores heróis da editora DC Comics. Heróis como o Homem de Aço, o primeiro e o maior de todos os super-heróis.      
Texto publicado originalmente no jornal Público de 19/07/2013

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Relançamento do Universo DC

Este mês de Setembro, a maioria das revistas do Universo DC (mais exactamente 52) recomeçam a partir do nº 1, em muitos casos, com novas versões dos personagens clássicos e novas equipas criativas, com destaque para Jim Lee e Geof Johns na Justice League e Grant Morrison como argumentista da revista Action Comics. Além disso, alguns personagens da Vertigo, como o Swamp Thing e Animal Man são incorporados no Universo DC.
À partida, esta poderá ser uma boa maneira de conquistar novos leitores, que têm uma óptima oportunidade de acompanhar as séries desde o início, sem estarem presos a uma continuidade complexa e por vezes contraditória. Confesso que ainda não vi nenhuma das novas revistas, nem é coisa que me tire o sono, mas se quiserem poderão facilmente saber mais, acompanhando a cobertura que o Bongop tem dado à coisa no seu blog, Leituras de BD.
Por enquanto, o esforço que a DC tem feito na divulgação das novas séries, com grande cobertura mediática e traillers para divulgar os títulos menos conhecidos, parece estar a resultar, com várias das revistas a esgotarem no primeiro dia em que são postas à venda.
Mas confesso que o que me levou a falar disto aqui, foi este divertido vídeo não oficial: