quarta-feira, 27 de junho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 4 - Calipso

UMA SEREIA NOS ALPES SUÍÇOS

Novela Gráfica IV - Vol. 4 
Calipso
Argumento e Desenhos – Cosey
Quarta-feira, 27 de Junho
Por + 10,90€
O quarto volume da série de 2018 da colecção Novela Gráfica, assinala o regresso de Cosey, autor vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 2017, pelo conjunto da sua obra, com Calipso, o seu mais recente trabalho, em que regressa aos Alpes suíços, que já tinham sido cenário de Em Busca de Peter Pan, título publicado na primeira colecção de Novelas Gráficas que o Público e a Levoir lançaram em 2015.
Nascido em 1950, perto de Lausanne, na Suíça, como Bernard Cosandey, Cosey, estreou-se na BD no início dos anos 70, pela mão do seu compatriota Derib, o criador de Yakary e Buddy Longway. Justamente conhecido e premiado pelo seu trabalho na série Jonathan, título incontornável da revista Tintin, e por novelas gráficas como o já citado Em Busca de Peter Pan, O Buda Azul, Viagem a Itália, Orchidea, ou Saigon-Hanoi, Cosey, em Calipso, mantém-se fiel ao seu universo criativo, mas inclui uma novidade assinalável no seu trabalho, o uso do preto e branco.
Essa primeira incursão pelo preto e branco, ao fim de quase cinquenta anos de carreira e mais de uma vintena de livros, foi nas palavras do próprio Cosey “o concretizar de um velho sonho” e também “uma forma de se surpreender”. Inspirado  pelas gravuras em madeira de Félix Valloton, de que é um admirador confesso, Cosey optou por “trabalhar o branco e o preto como duas cores, sem ter em conta as sombras nem a iluminação”. O resultado são páginas de alto contraste, em que as imagens atingem por vezes um elevado grau de abstraccionismo e uma dimensão gráfica impressionantes - bem evidente nas páginas iniciais e finais -  sem abdicar da legibilidade e fluidez da narrativa, que são marcas incontornáveis do seu trabalho.
Em termos de história, temos uma narrativa crepuscular, marcada pela nostalgia, protagonizada por personagens que, tal como o próprio Cosey, que já tem 68 anos, já deixaram a juventude bem para trás, mesmo que esses tempos deixem marcas indeléveis. É o que acontece com Gus, e com o seu amigo Pepe – um espanhol que na Suíça procura arranjar dinheiro para regressar à Catalunha e abrir um restaurante de fondues - que numa aldeia nos Alpes suíços assistem na televisão à retransmissão de Calipso, filme mítico protagonizado pela actriz Georgia Gould, cujo papel de sereia nesse filme lhe abriu as portas de Hollywood. Na realidade, Georgia Gould não é outra senão Georgette Schwitzgebel, com quem Gus viveu uma ardente paixão na adolescência. Mais tarde, no jornal local, Gus descobre que a Geórgia está de volta à Suíça, tendo-se instalado no Hotel Edelweiss, uma luxuosa e discreta clínica, à beira do lago Leman, especializada no tratamento de adições, para mais uma desintoxicação. Quando a visita, Gus fica convencido de que o amor da sua juventude está completamente dependente do director da clínica, que é também o seu tutor e controla a sua fortuna. É então que ela lhe propõe que ele a rapte para exigir um resgate, que lhes permita regressar a Nova Iorque e reviver o amor da juventude. Um plano tão ingénuo como arriscado que, inevitavelmente acabará por não correr como o previsto… até porque o destino intervém de forma inesperada.
Um regresso em grande forma de Cosey, pleno de humanidade e nostalgia que, graças à Colecção Novela Gráfica, sai em Portugal poucos meses depois da edição original francesa.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 23/06/2018

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Colecção Novela gráfica IV 3 - O Fantasma de Gaudí


O ARQUITECTO, A CIDADE E O SERIAL KILLER

Novela Gráfica IV - Vol 3
O Fantasma de Gaudí
Argumento – El Torres
Desenhos – Jesús Alonso Iglesias
Quarta-feira, 20 de Junho
Por + 10,90 €
Confirmando a extraordinária vitalidade da actual Novela Gráfica espanhola, o terceiro volume desta nova colecção traz-nos mais dois autores espanhóis (quase) desconhecidos em Portugal, com O Fantasma de Gaudí, um emocionante e divertido triller, centrado na obra de Antoni Gaudí, o famoso arquitecto catalão, cuja arquitectura única, marca de forma indelével a cidade de Barcelona.
Publicado originalmente em Espanha em 2015, O Fantasma de Gaudí venceu o prémio de Melhor Livro de Autor Espanhol no Salão del Comic de Barcelona de 2016 e está nomeada para o Prémio Eisner de Melhor Novela Gráfica Estrangeira, a atribuir em Julho na Comic Con de San Diego. Distinções merecidas para uma história muito bem construída, que aproveita uma intriga policial, que envolve um misterioso serial killer e o inspector da polícia que o persegue, para nos dar a descobrir por dentro a arquitectura de Gaudí e a sua ligação com a cidade de Barcelona, levando o leitor a visitar obras-primas da arquitectura gaudiana, como a Casa Vincens; os Pavilhões, o Palácio e o Parque Guell; a Casa Calvet; a Casa Batlló; a Casa Milà, mais conhecida como La Pedrera e, naturalmente, a inacabada Catedral da Sagrada Família, onde tem lugar o confronto final.
Tudo começa quando Antonia, uma caixa de supermercado, salva um velho de morrer atropelado, precisamente no mesmo local onde Gaudí morreu atropelado por um eléctrico em 1926. O mesmo Gaudí, cuja obra fica no centro de uma investigação policial, quando começam a surgir cadáveres mutilados, em edifícios emblemáticos de Barcelona, projectados pelo arquitecto catalão.
Famoso pelas suas histórias de terror, o argumentista Juan António Torres, mais conhecido por El Torres, tinha aqui um desafio complexo, que lhe foi proposto pelo seu editor. Como refere no posfácio do livro: “Possivelmente esta foi a história mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais fácil que escrevi até hoje. Difícil porque, imagina, estás sentado aí com as tuas coisas, e liga-te Ricardo Esteban, que te aguenta as penúrias e te paga os direitos, e essa pessoa diz-te: “Quero que façamos um livro de Gaudí”.
E dizes-lhe que sim. Demoras dois anos a escrevê-lo. Apesar de Gaudí fazer sempre parte das maravilhosas visitas a Barcelona, nunca tinha conhecido a sua vida em pormenor. Mas, claro, agora tinha uma história entre mãos. Tinha de entender a sua arquitectura, conhecer a sua vida. Era hora de pôr mãos à obra.
Senti-me angustiado. A dimensão da sua arte é gigantesca, quase impossível de estudar na sua totalidade.
Não podia escrever uma biografia. Não é o meu género favorito e, diga-se a verdade, vi-me incapaz de escrever uma história interessante baseada na sua vida.
Assim, teria de ser ficção. Ficção sobre Gaudí, sobre a sua obra. (…) Mais uma vez, senti-me angustiado. Foi assim que me senti, com todos e cada um dos protagonistas de O Fantasma de Gaudí. Odiava-o e amava-o ao mesmo tempo. Deixei os livros e deslumbrei-me quando pude a visitar as suas obras. Embrenhei-me na Casa Battló (não tanto como a personagem), para verificar se podia subir pelas escadas de saída, ia e vinha e a história não saía. Estive quase a dizer ao Ricardo que desistia. E de repente surgiu. Um assassino que em simultâneo odeia e ama Gaudí. Que se sente tão confuso e aborrecido quanto eu. De toda essa confusão de sentimentos surgiu esta banda desenhada.”
Uma bela banda desenhada, diga-se, muito bem ilustrada de forma dinâmica por Jesús Alonso Iglesias, com um estilo semi-caricatural no tratamento das personagens e realista nos cenários marcados pela espectacular arquitectura de Gaudí. Uma obra que prende e faz pensar o leitor e que está mesmo a pedir por uma adaptação ao cinema.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 16/06/2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Colecção Bonelli 10 - Dylan Dog: Os Inquilinos Arcanos

No caso deste último volume da colecção Bonelli, o texto que saiu no jornal Público é apenas uma versão reduzida, a menos de metade, do texto que tinha escrito originalmente. Como felizmente na Net não existem problemas de espaço, deixo-vos com a versão integral do último texto da colecção da Levoir que me deu mais gozo co-coordenar. Uma colecção que dificilmente teria sido possível sem o apoio do José Carlos Francisco, Mário João Marques e (em menor escala) do Pedro Bouça e Pedro Cleto, a quem agradeço.


DYLAN DOG ENCERRA COLECÇÃO BONELLI

Colecção Bonelli - Vol 10 
Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Quinta-feira, 14 de Junho
Por + 10,90€
Depois de ter protagonizado o terceiro volume, com o clássico Johnny Freak, Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção dedicada à editora Bonelli, num volume com prefácio do argumentista/pianista/compositor/realizador Filipe Melo - cuja série de culto, Dog Mendonça é uma assumida homenagem a Dylan Dog - que recolhe três histórias curtas a cores. A primeira, Os Inquilinos Arcanos, é uma história em três capítulos autónomos, mas que se completam, publicada originalmente na revista Comic Art, entre 1990 e 1991. Assinada por Tiziano Sclavi, o seu criador e por Corrado Roi, um dos melhores desenhadores da série Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos centra-se nos estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres, o condomínio Castevet, e que Dylan Dog vai investigar.
Apesar do número reduzido de páginas - para os padrões da Bonelli, em que as histórias têm normalmente 96 páginas - de cada capítulo, todos os elementos que caracterizam o trabalho de Sclavi estão presentes de forma concentrada, começando pelo humor negro, o toque surreal e as homenagens e citações. Na primeira história, O Fantasma do Terceiro Andar, cujo clima de paranóia vai beber muito ao filme O Apartamento, de Roman Polanski, as referências ao realizador são evidentes, começando na citação de Polanski que abre a história e terminando no nome, Trelkovski - que é o apelido do personagem interpretado pelo próprio Polanski em O Apartamento - que o porteiro dá a um inquilino que se chama… Kowalski, O mesmo sucede em O Apartamento nº 13, onde Sclavi homenageia simultaneamente o escritor Cornell Woolrich e o cineasta Frank Capra, cujo filme, Do Céu Caiu uma Estrela, os personagens vão ver ao cinema, numa história sobre um homem que descobre que não existe.  Comic Art, que lhe permite encaixar quatro tiras por prancha, em vez das três habituais nas revistas da editora italiana.
Ilustrada por Corrado Roi, que assegura também as belas e inesperadas cores, esta história em três partes tem também a singularidade de ser umas das raras aventuras de Dylan Dog em que este troca a habitual camisa vermelha, que se tornou a sua imagem de marca, por uma simples camisa branca. Em termos gráficos, o trabalho de Roi é fabuloso, perfeito na criação do ambiente opressivo das histórias e aproveitando muito bem o formato maior (do que o habitual formato Bonelli) da revista
As outras duas histórias que completam esta edição, foram publicadas na revista Dylan Dog Color Fest, um título mais experimental, que possibilita a autores que normalmente não colaboram com a Bonelli, a oportunidade de assinar histórias de Dylan Dog.
È o que acontece em O Grande Nevão, história que assinala a estreia do argentino Enrique Breccia (A Vida do Che, Tex: Capitan Jack) na Bonelli, aproveitada pelo argumentista Luigi Mignaco para fazer uma bela homenagem à mais importante BD argentina, El Eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, a história de um ataque extraterrestre a Buenos Aires, que começa precisamente com um nevão que mata todos aqueles que são tocados pelos flocos de neve.
Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi. Uma história com uma sensibilidade bem feminina, escrita por uma leitura e fã de Dylan Dog que, tal como aconteceu com Paola Barbato, se tornou uma das principais argumentistas da série e ilustrada com uma delicadeza também feminina, mas que não esconde as claras influências do irmão, por Nives Manara, a irmã mais nova do mestre do erotismo, Milo Manara.
Três abordagens bem diferentes, que demonstram as infinitas possibilidades que uma personagem com Dylan Dog permite, tal como aconteceu com Tex no volume que abriu esta colecção. Uma bela colecção, que nos deu a conhecer um pouco melhor, a melhor editora italiana.
Versão integral do texto publicado no jornal Público de 09/06/2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 2 - Aqui Mesmo, de Tardi e Forest

TARDI REGRESSA COM UM CLÁSSICO DO ROMAN BD

Novela Gráfica IV - Vol 2
Aqui Mesmo
Argumento – Jean-Claude Forest 
Desenhos – Jacques Tardi
Quarta-feira, 13 de Junho
Por + 10,90 € 
Depois de Taniguchi no primeiro volume, esta nova colecção de Novelas Gráficas prossegue com outro regresso, o de Tardi, com Aqui Mesmo, a sua primeira e mais mítica colaboração com a revista (A Suivre), ao lado de Jean-Claude Forest, o criador de Barbarella, que entregou uma história pensada originalmente para ser um guião de um filme, ao traço único do seu amigo Tardi. 

Título incontornável no desenvolvimento do conceito da Novela Gráfica (ou roman BD, na expressão usada na revista), a (A Suivre) era uma publicação que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, lhes dava a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso deste Aqui Mesmo, publicado originalmente em capítulos entre 1977 e 1979, nos nºs 0 a 12 da (A Suivre), tendo sido capa do primeiro número da revista (e, vinte anos depois, também do último). Aqui Mesmo é um bom exemplo de que não é o modo como é originalmente publicada, que define o estatuto de uma obra. O trabalho de escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro, seguiu a mesma estrutura folhetinesca de Aqui Mesmo. Um método de publicação que, como refere Forest na introdução, lhes permitiu: “evitar muitos dos constrangimentos impostos à BD, por razões editoriais ou económicas. Para o diabo com as histórias recortadas em episódios regulares, com finais falsos, com o número de páginas limitado, com os heróis e anti-heróis. E para o diabo sobretudo com a pior das escravaturas (por ser a mais insidiosa), a que conduz um autor a agarrar-se a um género bem definido, bem repertoriado: F.C., humor, aventura, erotismo, etc...”
Aqui Mesmo narra a história surreal e delirante de Arthur Mesmo, um antigo proprietário que se viu despojado de Mornemont, grande uma propriedade transformada num condomínio, de que só controla os muros, onde vive, funcionando como porteiro das diferentes famílias que lhe ocuparam a propriedade, que funciona como um pequeno país, um país fechado, abastecido por um barqueiro/merceeiro pouco conversador. Um mundo estranho, que vai ser perturbado pela sexualidade sem tabus da bela Julie.
Como refere Tardi, a colaboração entre os dois criadores, foi simples e fácil: “com Forest (que também era desenhador) nunca houve problemas em relação à planificação: ele sabia muito bem quando eram precisas duas ou três imagens. Não precisávamos de discutir. As indicações de planificação já estavam todas no argumento que ele me entregava. Quanto ao texto dele, não mudei uma vírgula. Apesar disso, de início tínhamos visões diferentes. Eu tinha as minhas fantasias em relação a esse país imaginário; tinha pensado numa coisa bastante mais delirante, mais próxima daquilo que fiz em La Véritable Histoire du Soldat Inconnu, em termos dos cenários e da arquitectura. Ele tinha uma visão mais dos subúrbios… Acabei por aceitar e fiz reperages nos subúrbios.” 
Mesmo seguindo as indicações de Forest, o resultado é do mais puro Tardi, com o traço único do desenhador de Foi Assim a Guerra das Trincheiras a fazer sua a incrível e triste história de Arthur Mesmo, no seu País Fechado.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/06/2018

sábado, 9 de junho de 2018

Colecção Bonelli 9 - Mister No: OVNIs na Amzónia


O EXPLORADOR E O ASTRONAUTA

Colecção Bonelli - Vol 9 
Mister No – OVNIs na Amazónia
Argumento – Tiziano Sclavi e Guido Nolitta
Desenhos – Fábio Civitelli e Roberto Diso
Quinta-feira, 7 de Junho
Por + 10,90€
O último herói da Bonelli a quem esta colecção possibilita a estreia em Portugal, já na próxima quinta-feira, foi também um dos primeiros: Mister No. Criado por Guido Nolitta (pseudónimo que Sergio Bonelli usava para assinar os argumentos que escrevia) em 1975, a partir de duas personagens reais que Sergio conheceu nas suas viagens pelo continente americano, Mister No é um aventureiro radicado na selva amazónica. Nascido Jerry Drake, Mister No - alcunha que nasceu devido à sua teimosia, que o leva a dizer facilmente “Não!” (No) aos seus clientes - é um antigo piloto de guerra americano que, depois da Guerra da Coreia, incapaz de se readaptar à vida civil, decide deixar os Estados Unidos e ir viver para Manaus, no Brasil, onde ganha a vida como guia na selva amazónica, o que, por vezes, o leva a envolver-se em situações que o obrigam a fazer apelo à sua experiência militar. O seu melhor amigo é outro estrangeiro, Otto Kruger, vulgo “Esse-Esse”, um alemão que, como Drake, é um veterano da Segunda Guerra Mundial. Não dos SS, como a alcunha pode levar a supor, mas do Afrika Korps, o célebre corpo expedicionário comandado pelo Marechal Rommel.
Com uma capa inédita de Fabio Civitelli realizada em exclusivo para esta edição, colorida pelo desenhador português Ricardo Venâncio, o livro que apresenta Mister No aos leitores portugueses, comporta duas histórias. A primeira, OVNI, escrita por Tiziano Sclavi (o criador de Dylan Dog) e ilustrada por Civitelli, e publicada originalmente em 1984 no nº 108 da revista mensal de Mister No, coloca o americano Mister No e um cosmonauta russo a terem de unir esforços em plena Guerra Fria, para conseguirem sobreviver a uma tribo de indígenas que os quer sacrificar aos seus Deuses. Um encontro inesperado, que ocorre na sequência da queda de um satélite russo em plena selva amazónica, provocando a destruição do avião de Mister No e motivando a hostilidade dos indígenas, que vêm no estranho fenómeno um sinal de desagrado divino. A história de uma amizade improvável que floresce, independentemente das bandeiras e das ideologias, como sucede com No e Arkady, o cosmonauta russo, escrita um ano antes de Gorbachov subir ao poder, é um tema grato a Sergio Bonelli, mas Sclavi não deixa de juntar o seu toque pessoal, introduzindo, de forma ambígua, alguns elementos fantásticos na narrativa. Uma história muitíssimo bem ilustrada pelo traço de grande detalhe e legibilidade de Fabio Civitelli, que se revela senhor de um apuradíssimo jogo de sombras, bem evidente nas cenas nocturnas e nos pesadelos de Mister No e de um óptimo sentido de mise-en-scène, de que a entrada em cena de Arkady, com o seu traje espacial, é um exemplo perfeito.
Para além desta história, em que Sclavi aborda pela primeira vez os OVNIs, tema a que regressará com alguma frequência em Dylan Dog, este volume traz também Garimpeiros, uma história curta escrita pelo próprio Sergio Bonelli e desenhada por Roberto Diso, que começou a desenhar Mister No logo na edição nº 5 e que, com o tempo, acabou por se tornar o mais importante desenhador da série, ocupando-se também das capas da revista a partir do nº 116. Bem representativa da colaboração da dupla, Garimpeiros coloca Mister No em confronto com diferentes aspectos da ganância humana, quando é obrigado a transportar os cunhados de um garimpeiro brasileiro, até ao local onde este supostamente encontrou a jazida que o tornou um homem rico.
Publicado originalmente no jornal Público de 02/06/2018