Quase uma semana depois, aqui vos deixo as minhas impressões da 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, que decorreu no passado fim-de-semana no Museu do Vinho, na Anadia, a uma vintena de quilómetros de Coimbra. A convite do incansável José Carlos Francisco, tive oportunidade de fazer umas perguntas e moderar a conversa com Stefano Biglia, um dos dois desenhadores do Tex presentes (o outro era Pasquale Frisenda) na tarde de domingo.
Mas o grande dia desta mostra foi o sábado, com o lançamento pela Polvo da edição portuguesa de Patagónia, o Tex Gigante desenhado por Frisenda que já tinha tido distribuição em Portugal em 2011, via edição brasileira da Mythos, de que falei aqui.
Para além de se tratar de um excelente livro, a edição da Polvo, apesar de ligeiramente mais pequena do que a edição da Mythos, compensa essa diferença de 3 cm na altura, com um tipo de papel muito superior à edição da Mythos que permite uma reprodução imaculada do traço de Frisenda, que capta todas as nuances do excelente trabalho de preto e branco de Frisenda. Com uma tiragem de apenas 500 exemplares, este segundo Tex "Made in Portugal" (o primeiro foi o volume 8 da colecção Série Ouro dos Clássicos da Banda Desenhada, lançada em 2003, como o jornal Correio da Manhã) tem tudo para ser um sucesso, face ao entusiasmo e à militância dos fãs portugueses do cowboy da editora Bonelli, pelo que não me admirava que a organização da Mostra e a Polvo, em próximas edições articulassem mais uma vez a vinda dos desenhadores, com a edição em português dos seus trabalhos.
Apenas consegui estar presente no sábado ao final da tarde, mas ainda deu para encontrar uma série de caras conhecidas destas andanças, como o João Amaral e a Cristina (a quem "roubei" a foto de grupo que publico neste post), o Geraldes Lino, Pedro Cleto, Ricardo Leite, Pedro Bouça, entre muitos outros que enchiam o Museu do Vinho.
Infelizmente, não tive grande ocasião de falar com Pasquale Frisenda, que, por razões familiares, apenas esteve presente no sábado, regressando a Itália logo de seguida, mas compensei no dia seguinte com Stefano Biglia, um ilustrador tão simpático como talentoso, que me fez uma belíssima "dedicace" em aguarela, que está entre as melhores da minha colecção.
Aqui vos deixo com um punhado de imagens desse fim-de-semana texiano, na sua maioria da autoria do fotógrafo Marco Guerra, que fez a cobertura do evento.
Foto de grupo na tarde de sábado
O jantar de sábado, na Nova Casa dos Leitões
Stefano Biglia a assinar o desenho que me fez
Exibindo o desenho para a fotografia de Marco Guerra
A belísima aguarela de Biglia, em todo o seu esplendor
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sexta-feira, 15 de maio de 2015
terça-feira, 11 de setembro de 2012
O Regresso de Rui Lacas
Nos tempos (difíceis) que correm, raros são autores nacionais que se podem gabar de conseguir editar dois livros no mesmo ano. Rui Lacas, com “Han Solo” e “Os Oráculos”,o 2º volume da série “Asteroid Fighters”, dois livros bem distintos que revelam aspectos bem diversos da personalidade do seu autor, é uma dessas raras e honrosas excepções.
Lançado pela Polvo, durante o último Festival de Beja, “Han Solo” traduz a vertente mais autoral de Lacas, com uma história intimista sobre um estudante Erasmus holandês, que troca Lisboa por Madrid, quando a namorada o deixa. Perturbado pelo desgosto e pela doença (Han é bipolar), o jovem holandês vai encontrar em Madrid um espaço para recomeçar e novos amigos que o vão apoiar.
Jogando com a bicromia, num registo bastante próximo do usado em “A Ermida”, o seu trabalhado anterior, em que os tons verdes se articulam com o preto e branco, Lacas tem aqui um dos seus trabalhos graficamente mais conseguidos, com excelentes soluções narrativas, como o momento em que Han recebe a mensagem de Sandra e o movimento da sua sombra reflecte, de uma maneira que só a BD permite, o desespero que o atinge.
O único problema de “Han Solo” é “saber a pouco”. Ou seja, a história acaba de modo demasiado abrupto, como se o autor se tivesse fartado de repente, abandonando Han e os leitores numa fase em que a nova vida de Han começa e muito havia ainda para contar. Já “Os Oráculos”, 2º volume de “Asteroid Fighters” opta por um registo mais comercial, marcado pela acção e aventura, na melhor tradição dos comics americanos de super-heróis, ou do mangá japonês, com a série “Akira” à cabeça, com mutantes super-poderosos, ameaças globais e vilões maléficos.
Talvez o melhor exemplo, a par do “Dog Mendonça” de Filipe Melo e Juan Cavia, de que é possível uma BD nacional de grande público com qualidade, “Asteroid Fighters” prossegue a história do primeiro volume, uma aventura futurista que se lê com prazer e que assume o seu caracter derivativo e a influência de séries televisivas como “Heroes”, ou filmes como “Armagedon”, tudo revisto pelo humor de Lacas, que transformou muitos dos seus amigos e colegas em personagens de BD.
Não recuando perante nenhum cliché (veja-se o irmão gémeo maléfico de Pepito), Lacas diverte-se e diverte-nos, com uma aventura despretensiosa que tem tudo para agradar aos leitores que não pedirem a “Asteroid Fighters” mais do que Lacas aqui quer e pode dar.
(“Asteroid Fighters 2: Os Oráculos”, de Rui Lacas, Edições Asa, 74 pags, 15,90 € “Han Solo, de Rui Lacas, Polvo, 64 pags, 10,49 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 7/09/2012
terça-feira, 8 de junho de 2010
Hans, o Cavalo Inteligente de Miguel Rocha

Das novidades editoriais lançadas durante o último Festival de Beja, aquela aguardada com maior expectativa, era o livro “Hans, o Cavalo Inteligente”, título escrito e desenhado por Miguel Rocha, que assinala o regresso da Polvo à edição. Depois do sucesso, crítico e comercial, de “Salazar” e de “A Noiva que o Rio Disputa ao Mar”, uma encomenda institucional da Câmara de Portimão, ainda sem distribuição comercial, ambos escritos por João Paulo Cotrim, Miguel Rocha volta a assinar os seus argumentos, com este “Hans, o Cavalo Inteligente”.
Antes de ser uma Banda Desenhada, Hans… foi uma produção teatral do Projecto Ruínas, de Montemor o Novo, com quem Miguel Rocha costuma trabalhar, tendo o texto da peça, escrito por Francisco Campos, servido de base à adaptação. Essa origem teatral é bem visível na forma como a BD está dividida, com cada capítulo a corresponder a cada um dos cinco actos da peça e a cortina, que se abre no início do primeiro capítulo e fecha no final, acentua essa dimensão teatral.

Graficamente, o trabalho de “Hans, o Cavalo Inteligente”, está na linha do registo utilizado em “Salazar”, com um complexo trabalho de preto e branco (realçado pela impressão a duas cores) e um uso repetido de padrões (as cortinas do primeiro capítulo e o papel de parede do capítulo 3) que ajuda a criar o ambiente. Embora longe da espectacularidade das cores de “Beterraba”, ou de “A Noiva que o Rio Disputa ao Mar”, o preto e branco tratado digitalmente de “Hans, o Cavalo Inteligente” confirma o virtuosismo gráfico de Miguel Rocha, embora o tratamento quase impressionista de algumas imagens e sombras, deixe intuir, mais do que ver, o que se está a passar.
A névoa que invade as imagens tem correspondência no argumento, também ele pouco linear e construído em torno de flash-backs. Em “Hans…” todos os detalhes contam, desde as personagens de “freak show” que aparecem nas badanas, e que devem pertencer ao espectáculo que vemos no primeiro capítulo, até aos anúncios de época no final do livro (na linha do que Alan Moore e Kevin O’Neill fizeram na “League of the Extraordinary Gentlemen”), que dão mais dados para a reconstituição de uma história muito pouco linear e contada em flash backs. Mais do que fornecer todos os dados, Miguel Rocha joga com a inteligência e curiosidade dos leitores. Resta é saber se não lhes estará a pedir demais…
(“Hans, o Cavalo Inteligente”, de Miguel Rocha, Edições Polvo, 96 pags, 12,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 5/06/2010
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