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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

LISBON CALLING: Os ícones da América visto pelos ilustradores portugueses


O último texto deste blog em 2015, tem uma particularidade especial. Apesar de ter sido escrito para uma publicação específica (o Catálogo do último AmadoraBD) mantinha-se inédito, em virtude do dito catálogo, que este ano, pela primeira vez, não teria direito a uma  versão impressa, não ter saído ainda sequer em formato digítal, mais de dois meses após o final do Festival.
Por isso, aqui o deixo, tal como foi escrito e fazendo referência apenas às peças que tinham sido entregues na altura em que redigi o texto.
Resta-me desejar um bom ano aos leitores deste blog, onde prometo regressar, logo no início de 2015, com a habitual lista das 10 Melhores BDs que li no ano que findou. 

LISBON CALLING: UM CONVITE DA EMBAIXADA AMERICANA AOS ARTISTAS PORTUGUESES

Entre as dezenas de milhares de visitantes que se deslocaram ao Fórum Luís de Camões durante os dezassete dias que durou o último AmadoraBD, houve um visitante muito especial. Robert Sherman, o Embaixador norte-americano em Portugal que, tendo-se deslocado à Amadora expressamente para visitar a exposição dedicada aos 75 Anos do Batman, acabaria por visitar as restantes exposições que compunham o núcleo central do Festival.
 Tendo colaborado directamente com Lawrence Klein no comissariado das exposições dedicadas aos 75 Anos do Batman e ao Surfista Prateado, outra personagem icónica dos Comics, tive o privilégio de fazer a visita guiada ao Embaixador. Umas das coisas que mais fascinou Robert Sherman na mostra dedicada ao septuagésimo quinto aniversário do Cavaleiro das Trevas, foi a recriação, feita por autores portugueses (e pelos argentinos Juan Cavia e Santiago Villa) de algumas das capas mais importantes da série, cujos originais não foi possível localizar.
 Logo ali, o embaixador sugeriu organizar para a edição seguinte do Festival, uma exposição, com o alto patrocínio da Embaixada, para divulgar o trabalho desses artistas nacionais, muitos deles a trabalhar directamente para o mercado americano. Mostrando que nem todos os políticos são iguais, Robert Sherman cumpriu a sua promessa e a mostra Lisbon Calling, organizada em conjunto pela Embaixada americana e pelo AmadoraBD, aqui está para o provar.
O convite, que era também um desafio, que o embaixador Sherman dirigiu aos desenhadores portugueses, através de Lawrence Klein, que comissariou a exposição a partir dos Estados Unidos, foi para que criassem, em total liberdade, imagens com personagens da cultura Pop americana em cenários portugueses, ou versões portuguesas de heróis americanos da BD ou do cinema. Ou seja, imagens que reflectissem o diálogo entre as duas culturas, recriando, deste lado do Atlântico, os ícones da cultura americana, que os comics e o cinema tornaram globais.
 A este desafio responderam com prontidão mais de uma dezena de artistas, na sua maioria membros integrantes do Lisbon Studio, um colectivo de autores (cuja composição vai variando conforme as entradas e saídas do estúdio) que partilham um atelier num apartamento em Lisboa, perto da Estação de Santa Apolónia e que têm aproveitado as sinergias resultantes desse convívio diário, para participarem activamente em projectos como este, ou editarem uma revista on-line com trabalhos dos seus elementos.
Curiosamente, quem melhor captou a essência do desafio, através de uma composição espectacular, tanto em termos cenográficos, como de detalhe e composição, foi Penim Loureiro, que nem é membro do Lisbon Studio. O arquitecto e autor de Banda Desenhada, que já no ano passado tinha participado na exposição do Surfista Prateado, recriando uma página emblemática de Moebius, pega agora num dos mais famosos monumentos de Lisboa, o Padrão dos Descobrimentos, criado para a Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, substituindo os navegadores por personagens dos comics, com o Batman, no lugar do Infante Dom Henrique, secundado por heróis como o Superman, Robin, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde, Demolidor, Rocketeer, Príncipe Valente, Wolverine, Homem de Ferro, Hellboy, Lanterna Verde, Lobo e Deadpool, com o Doutor Destino e o Marv de Sin City a erguerem um padrão, numa réplica perfeita das poses das figuras do lado este do monumento desenhado por Cotinelli Telmo e esculpido por Leopoldo de Almeida.
Como refere Penim Loureiro: “Quando o Lawrence Klein me convidou a fazer uma ilustração da fusão entre a cultura comics dos EUA e a de Portugal, pensei mais na contaminação cultural.
Seleccionei um marco na paisagem, com algum carácter maniqueísta, apelo ao imaginário português tão simplificado como a cultura americana. O Padrão dos Descobrimentos - mais propaganda e posse de "peito tufado" que humanidade - pareceu-me o momento (monumento que subverte a temporalidade) mais indicado. Este entrosamento de imagética exibicionista e fruição facilmente se transformou num grupo de super-heróis norte americanos em clássica posse escultórica. O resultado parece natural, no fim de contas as personagens modeladas por Leopoldo de Almeida, em 1939, não eram de carne e osso; eram mitos. Heróis que nos fazem esquecer da nossa fragilidade.”
Entre os heróis que repetem a sua presença na exposição, temos o Wolverine, o mais popular integrante dos X-Men, que, para além do Padrão dos Descobrimentos, surge a recorrer aos serviços de um amolador de tesouras para afiar as garras, numa ilustração de Joana Afonso e numa versão feminina, como Wolvarina, personagem fruto da ligação de Wolverine com uma varina de Lisboa, nascida da imaginação de Ricardo Cabral.

Outro herói também presente na composição do Padrão dos Descobrimentos, que vai ser aproveitado por outro autor, é o Superman. O Homem de Aço que Osvaldo Medina, coloca a cantar o fado, numa casa de fados. O mesmo sucede com o Batman, que Pedro Ribeiro Ferreira coloca multiplicado de fato e gravata, nas escadarias da Assembleia da República, numa evocação do escândalo das “viagens fantasma”, protagonizado por um deputado que ficou com a alcunha precisamente de “Batman”. Também os Peanuts, de Charles Schulz, estão presentes em duas imagens, através de Charlie Brown. Pepe Del Rei mete-o, e ao Snoopy, numa cena do filme Pátio das Cantigas (o original, com António Silva, naturalmente) a provocar o Evaristo, enquanto Marta Teives o põe agarrado à traseira de um eléctrico (possivelmente o 28) para subir uma das sete colinas de Lisboa.
 Os Vingadores, ou Avengers, que o cinema transformou no mais popular gupo de super-heróis da actualidade, estão numa divertida recriação de João Tércio, através de quatro falsas capas de revistas, que os reúne (como The Agenders) para uma sardinhada, para além de dar um toque bem português aos seus principais membros, transformando o Homem-Aranha em Spider-Mané, um típico “pintas” lisboeta, com bigode, barriga de cerveja e o cigarro ao canto da boca; o Capitão América em Sardine America (o que vem tornar algo estranha a sua presença numa sardinhada, com os restantes Agenders…), enquanto o Homem de Ferro se transforma no Iron Soccer, um cruzamento entre o Cristiano Ronaldo e o Homem de Ferro, da Marvel.
Outro membro dos Vingadores em destaque, é o Poderoso Thor, que Filipe Andrade desenha a sair do bar Viking, local emblemático da “noite” do Cais do Sodré. Mas as referências escolhidas pelos ilustradores portugueses não se ficam pela BD. Também o cinema está presente, seja na homenagem de Dileydi Florez ao filme de The Nightmare Before Christmas, de Tim Burton, cujas personagens são transpostas para Alfama durante os Santos populares, seja no encontro entre Marilyn Monroe e o Zé Povinho, encenado por Pedro Ribeiro Ferreira.
O mesmo podemos dizer em relação às personagens da televisão, pois o “nosso” Zé Gato (o primeiro detective da TV portuguesa) surge ao lado de Jessica Rabitt, numa ilustração de Pep Del Rei, enquanto Marta Teives coloca o Scooby Doo e os seus amigos, a fugirem de um Olharapo. Abordagem diferente é a seguida por Nuno Duarte (que assina “o outro Nuno” para não ser confundido com o argumentista seu homónimo) que recria duas imagens icónicas, introduzindo-lhes elementos tipicamente portugueses. Assim, na capa da revista Mad, que se transforma em Toma!, em vez Alfred E. Neuman - a mascote da revista, cuja cara está sempre em destaque nas capas, substituindo a personalidade, ou personagem, que é alvo de paródia - temos o “nosso” Zé Povinho, a fazer o típico “manguito”. O mesmo sucede na outra imagem que criou para esta exposição, que parte do célebre cartaz do Buffalo Bill’s Wild West Circus, substituindo o mais famoso dos cowboys, por um campino chamado JoaQuim Touro, enquanto que o Circo do Velho Oeste dá lugar ao Grupo de Forcados Amadores.
Finalmente, Pedro Ribeiro Ferreira cria uma daquelas sardinhas ilustradas que se tornaram um dos símbolos das Festas de Lisboa e da criatividade da ilustração nacional, enchendo-a de símbolos imediatamente reconhecíveis da América, do Tio Sam a Hommer Simpson, passando pelo Calvin, ou Rato Mickey. Ingredientes semelhantes, tem a salada criada por Nuno Lourenço Ferreira, onde caretos e galos de Barcelos se misturam com o Hulk, Homem-Aranha e Tartarugas Ninjas, num prato de aspecto apetitoso, temperado com as cores da bandeira portuguesa.
Toda esta diversidade e criatividade poderão ser  vistas durante o período em que decorre o Festival. Mais tarde, as peças viajarão naturalmente para os E.U.A, e em 2016 está também prevista a sua exibição no Festival de Lodz, na Polónia, dando assim outra visibilidade a este saboroso desafio intercontinental a que os artistas portugueses tão bem souberam responder.
Texto escrito originalmente para o Catálogo do 26º Amadora BD, ainda a aguardar publicação digital.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Universo Marvel 16 - X-Women: Mulheres da Marvel


Nesta série Universo Marvel, este foi o meu único texto que teve de ser alterado. Assim, na versão impressa desapareceram as referências ao filme Ilsa e os comentários ao argumento de Claremont tiveram que ser suavizados. Também a galeria de capas de Manara no final do livro sofreu alterações em relação ao previsto. Das 12 capas que falam no meu texto, apenas 11 aparecem. A ausente é (naturalmente) a famosa capa de Spider-Woman # 1 que tanta polémica provocou...

UNIVERSO MARVEL VOL 16
X-Women: Mulheres da Marvel
Argumento - Chris Claremont, Marjorie Liu, Stuart Moore e Kelly Sue DeConnick
Desenhos - Milo Manara, Filipe Andrade, Nuno Plati, Mark Brooks e Ryan Stegman


O HOMEM QUE GOSTAVA DE MULHERES

O cineasta François Trufaut dizia que “o cinema é arte de fazer coisas bonitas a mulheres bonitas”. Uma definição que assenta como uma luva ao trabalho em Banda Desenhada de Milo Manara. Um autor que apresenta grandes pontos de contacto com Bertrand Morane, o protagonista do filme de Truffaut O Homem Que Gostava de Mulheres, para quem “as pernas das mulheres são compassos que medem o globo terrestre em todas as direcções dando-lhe equilíbrio e harmonia”. Tal como Morane o fazia através da escrita, também Manara, graças ao seu traço sensual, fez do corpo feminino o centro do seu mundo poético.
Nascido em Luson, Itália, a 12 de Setembro de 1945, Manara depois do liceu, onde estudou arte, inscreveu-se na Faculdade de Arquitectura de Veneza, mas cedo abandonou os estudos para seguir a sua vocação artística, trocando Veneza por Verona, onde começou a trabalhar como ajudante do escultor espanhol Miguel Ortiz Berrocal. É então que descobre que a Banda Desenhada, à qual até então nunca dera muita atenção, se estava a tornar “um formidável meio de expressão total”.
Um meio em que se estreia em 1969, desenhando histórias eróticas, como as aventuras de Jolanda de Almaviva, para as Edições Erregi, ao mesmo tempo que colabora com Il Corriere dei Ragazzi desenhando La Parola Alla Giura (A palavra ao Júri), uma série escrita por Milo Milani que em Portugal foi publicada no Mundo de Aventuras. Seguiu-se entre 1976 a 1979, a participação na colecção A Descoberta do Mundo publicada pela prestigiada editora francesa Larousse, em que o seu desenho surge ao lado de outros grandes ilustradores franceses, espanhóis e italianos e do português Eduardo Teixeira Coelho.
Apesar do sucesso de Lo Scimmiotto, uma adaptação muito livre da mesma lenda chinesa que está na origem do Dragon Ball de Akira Toriyama, escrita por  Silvério Pisu, o grande ponto de viragem da obra (e da vida) de Manara dá-se quando conhece Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese, que além de seu mestre se torna seu grande amigo. Uma relação de respeito, amizade e cumplicidade, bem patente em H.P. e Giuseppe Bergman, a primeira aventura de Giuseppe Bergman, em que o próprio Pratt é um dos personagens, H. P., o mestre da aventura. Juntos, Pratt e Manara assinarão duas obras-primas, Verão Índio e El Gaúcho e construirão uma amizade que apenas a morte de Pratt veio interromper.

Mas os trabalhos que assinou com Hugo Pratt não são o único exemplo de colaboração entre Manara e outros importantes criadores, pois o desenhador vai trabalhar estreitamente com Pedro Almodovar, Alejandro Jodorowsky e sobretudo Federico Fellini, com quem vai transpor para a BD Viagem a Tulum e Il Viaggio di G. Mastorna detto Fernet, dois projectos cinematográficos de Fellini, nunca realizados.
Para além destas colaborações prestigiantes e das aventuras de Giuseppe Bergman o seu alter-ego em BD, ou se quisermos voltar a Trufaut, o seu Antoine Doinel, a carreira de Manara fez-se sobretudo de títulos que exploram a fundo o erotismo do corpo feminino, de que a série Clic é o exemplo mais popular e o seu maior sucesso comercial. Um sucesso que Manara não renega e que assume sem complexos, quando refere: “Não, não tenho a hipocrisia de quem mostra cús na televisão a toda a hora, para vender iogurte ou cera para pavimentos. Vendo o que desenho: exactamente aquilo que o público espera de mim”.
Perante o prestígio do seu nome, a popularidade da sua obra e, sobretudo, a qualidade do seu traço único e sensual, era só uma questão de tempo até Manara entrar no mercado americano. Essa entrada dá-se em 2003, através de Neil Gaiman, que o escolhe (naturalmente) para ilustrar o episódio protagonizado por Desire no livro Endless Nights, que assinalou o regresso do escritor inglês à série Sandman.
  Mais tarde, em Março de 2006, a Marvel anunciava que Manara estava a trabalhar com Chris Claremont numa história dos X-Men, em que seria dado natural destaque às heroínas do grupo. Como Manara tinha que conciliar este projecto com a sua colaboração com Jodorowsky na série Borgia, seria preciso esperar até ao Outono de 2008, para ver o trabalho de Manara nos X-Men, graças á edição italiana da Panini, que primeiro lançou a obra numa edição a preto e branco e formato europeu, com o título X-Men: Ragazze in Fuga. Finalmente, em Julho de 2009, chega a edição americana, numa revista de 48 páginas, com o título X-Women, em que Dave Stewart (colorista habitual de Mike Mignola e um dos mais premiados coloristas da indústria dos Comics) dá cor ao traço de Manara, substituindo Tanino Liberatore, o desenhador de Ranxerox que, conforme Manara me confidenciou em 2008, numa entrevista, era o colorista inicialmente previsto.
A história, feita por medida por Claremont para o desenho de Manara, é movimentada, tem algumas ideias interessantes, como a tribo de "cargo cultists", os adoradores de aviões, mas peca um pouco pela redundância dos textos, o que não é propriamente uma novidade em Claremont... Mas esta história, em que os elementos femininos dos X-Men vêm as suas férias na Grécia interrompidas pelo rapto de Rachel, o que as leva até Madripoor, onde têm que enfrentar uma inimiga que parece saída de um filme da série Ilsa, a Loba dos SS, é acima de tudo um pretexto para Manara fazer aquilo que faz melhor do que ninguém, desenhar mulheres elegantes e sensuais em poses provocantes e (até por vezes) gratuitas.

Tratando-se de uma história dos X-Men, não há qualquer nudez, mas o que o traço de Manara sugere é muito mais erótico do que se mostrasse tudo. E convém não esquecer que, além de saber desenhar mulheres como ninguém, Manara tem um perfeito domínio da narrativa em BD, um excelente sentido de composição da página e não poupa nos pormenores quando se trata de desenhar cenários naturais ou arquitectónicos.
Mas nem só de Manara vive este volume dedicado às Mulheres da Marvel. Temos também os portugueses Filipe Andrade e Nuno Plati, que ilustram uma história de Marjorie Liu centrada em X-23, a jovem mutante, clone de Wolverine, treinada para ser uma máquina de matar, que apenas quer viver a sua vida. A história de Marjorie Liu aproveita muito bem o talento e as características bem distintas dos dois desenhadores portugueses, como Plati a tratar num registo expressionista as cenas no mundo dos sonhos, enquanto Andrade desenha a realidade das ruas de Nova Iorque.

Também a heroína Adaga (e o seu inseparável Manto) está presente, numa história de Stuart Moore, ilustrada por Mark Brooks e Walden Wong, que explora a relação instável desta dupla inseparável de heróis, tal como Lady Sif, a companheira de Thor que, numa história escrita por Kelly Sue DeConick e ilustrada por Ryan Stegman, em que Sif se refugia em Nova Iorque para lidar com as memórias do período em que Loki assumiu o controlo do seu corpo.
E este volume termina como começou. Com o traço único e sedutor de Milo Manara a dar vida às principais heroínas da Marvel, numa dúzia de ilustrações, realizadas como capas alternativas de diversas revistas, em que Manara traz as mulheres da Marvel para o seu universo estético com excelentes resultados. Uma dúzia de imagens tão espectaculares como inesquecíveis, que aqui são recolhidas em conjunto pela primeira vez.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Editoriais para a Colecção Heróis Marvel II - Parte 1: Homem de Ferro


No dia em que chegou às bancas o último volume desta segunda série da colecção Heróis Marvel, pareceu-me interessante recuperar aqui os textos que fiz para a mesma. Para começar, aqui fica o dossier dedicado a Filipe Andrade que encerra o volume do Homem de Ferro. Volume esse, que para além da mini-série Extremis, traz também a história com que o Filipe se estreou na Marvel, Hack, uma história curta do Homem de Ferro, com argumento de Tim Fish.
Antes de mais, e com um pedido de desculpas ao Filipe, aqui fica o story board da história dele, que no livro saiu de pernas para o ar, reproduzido finalmente de forma correcta. Para além do texto original, incluo as páginas do dossier tal como saíram no livro, para poderem ver as diferenças, para a versão final.

FILIPE ANDRADE: UM PORTUGUÊS NA MARVEL
Licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e com um curso de pre-produção da Gnomon Schoool of Visual Efects, da Califórnia, Filipe Andrade estreou-se profissionalmente na BD em Portugal, com a série BRK, escrita por Filipe Pina e pré-publicada no BD Jornal entre 2006 e 2008, antes de ser recolhida em álbum pelas Edições Asa em 2009. Desde 2009, ano em que venceu o ChesterQuest International Talent Search, um programa da Marvel de descoberta de novos talentos, coordenado pelo editor C. B. Cebulsky, Filipe Andrade tem trabalhado essencialmente para a Marvel. Para a Casa das Ideias, desenhou uma história para a revista Iron Man: Titanium e o comic X-23, escrito por Marjorie Liu e posteriormente recolhido na colectânea The Mighty Woman of Marvel, que traz também uma história de Shana, the She-Devil, desenhada por Nuno Plati. De seguida, assinou também os desenhos de Wellcome Home e Underneath the Skin, duas aventuras de Nomad, publicadas em complemento da história principal da revista Captain America #608 e #614), e duas mini-séries: Onslaught Unleashed, escrita por Sean McKever, que contou com a cor de outro português, Ricardo Tércio, e John Carter: The Princess of Mars, uma mini-série em cinco partes, com argumento de Robert Landridge que serviu para relançar a personagem criada por Edgar Rice Burroughs no mercado americano, preparando o caminho para o filme John Carter of Mars. Apesar do fracasso do filme nas bilheteiras ter afectado o sucesso do livro, que teve muito pouca divulgação por parte da Marvel, o desenhador português, que fez aqui um excelente trabalho, não viu a sua carreira internacional afectada. A prova disso é que, actualmente, tem mais dois trabalhos prontos a sair na Marvel: o nº 63 da revista Deadpool e o Ultimate Comics X-Men 18.1
Hack, a história que Andrade desenhou para Iron Man: Titanium, foi o seu primeiro trabalho para a Marvel. Uma oportunidade que, conforme refere o desenhador português: “surgiu depois de ter feito dois testes para a Marvel. O primeiro foi uma história de 5 páginas feita a meias com o João Lemos (outro desenhador português a trabalhar para a Marvel), que me levou a desenhar outras 5, desta vez com argumento original de Brian K.Vaughn, para o titulo Runaways. Enviei-as ao Cb.Cebulski (editor da Marvel, responsável pela série Avengers Fairy Tales, em que participaram os desenhadores portugueses, João Lemos, Ricardo Venâncio e Nuno Plati) e passada uma semana tinha a proposta para desenhar esta história do Homem de Ferro no email.”
Uma revista em que participou também outro português, Nuno Plati. Algo que Andrade descreve como: “uma feliz coincidência Ligávamo-nos com alguma frequência, o que acabou por ser muito positivo para mim porque o Nuno já tinha alguma experiência na Marvel o que acabou por tonar tudo bem mais simples. Isto apesar do trabalho de um e doutro ser independente neste comic.” Algo que não aconteceu em X-23, o trabalho seguinte de Andrade para a Marvel, cujo desenho foi feito a meias com Nuno Plati. O facto de ter tido seis semanas para desenhar as 11 páginas de Hack, permitiu a Filipe Andrade fazer um trabalho de grande detalhe a nível de cenários, nomeadamente nas vistas aéreas da cidade de Boston, onde decorre a acção, o que, para Filipe Andrade, que gosta de desenhar cidades, permitiu juntar “o útil ao agradável.” Mesmo que, como podemos constatar pelos originais aqui reproduzidos, a arte-final de Rick Ketcham nem sempre faça inteira justiça ao traço de Andrade, que em trabalhos posteriores assegurou também a arte-final dos seus desenhos.

Ao incluir neste volume a revista Titanium, damos finalmente oportunidade aos leitores portugueses de descobrirem em português, o trabalho para a Marvel de dois desenhadores nacionais, contribuindo também para a visibilidade internas desses mesmos autores. O que dá a este volume uma importância que Filipe Andrade define nestes termos: “A verdade é que o mercado nacional é preenchido mais por banda desenhada de autor, que apesar de ser de grande qualidade não tem facilidade em criar novos leitores, o nosso maior problema. Temos vários exemplos de autores que publicaram no mercado internacional, nomeadamente americano que mereciam ter destaque e acabaram, não se sabe muito bem porquê, por nunca ter a justa visibilidade/reconhecimento em Portugal. Por isso, apesar de ter feito esta BD há 3 anos, acho este tipo de iniciativas importantes para dinamizar o mercado nacional e através do peso do nome Marvel, trazer mais leitores para o nosso mercado.”

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Artistas Portugueses na Colecção Heróis Marvel - Série II


Além das já divulgadas, a Série II da Colecção Heróis Marvel traz outra novidade de peso. A presença no volume dedicado ao Homem de Ferro, de duas histórias ilustradas por desenhadores portugueses: Filipe Andrade e Nuno Plati. A complementar o volume que chega às bancas no dia 1 de Novembro, como a mini-série Extremis, de Warren Ellis e Adi Granov, vem o comic Iron Man: Titanium, editado nos EUA em Dezembro de 2010, que reúne quatro histórias curtas, duas delas desenhadas pelos portugueses.
A assinalar este momento histórico, pois é a primeira que uma história desenhada por um português para a Marvel é editada no nosso país, o volume vai incluir um dossier final, com estudos, storyboards, uma entrevista e reprodução de pranchas originais de Filipe Andrade, autor para quem esta revista tem um significado especial, pois traz a primeira história que publicou na Marvel. Aqui fica uma página de cada uma das histórias dos autores tugas que participam neste volume:


Killer Commute, ilustrada por Nuno Plati

Hack, ilustrada por Filipe Andrade

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O Sonho Americano desenha-se em Português

Como bem saberão os que o tentaram, para um autor que viva e publique em Portugal, é praticamente impossível conseguir viver exclusivamente da Banda Desenhada. A insipiência da indústria dos quadradinhos nacional, a dificuldade de encontrar jornais ou revistas onde publicar o seu trabalho (e que paguem aos colaboradores), obrigaram vários dos nossos melhores desenhadores, de E. T. Coelho a Victor Péon, passando por Carlos Roque, a imigrarem para poderem (sobre)viver da Banda Desenhada.
Actualmente, o grande sonho da maior parte dos jovens autores portugueses, que pretendem embarcar na arriscada aventura de (tentar) viver da Banda Desenhada, é conseguir fazer carreira no atraente e competitivo mercado norte-americano. E, embora tal não seja fácil, por vezes esse sonho transforma-se mesmo numa realidade, mais ou menos duradoura. Depois de uma primeira geração, composta por Eliseu Gouveia, Miguel Montenegro e Ana Freitas, que conseguiu publicar alguns trabalhos no mercado americano, em inícios da década de 2000, mas sem grande continuidade, surge agora uma nova geração de desenhadores, composta por nomes como João Lemos, Nuno Plati, Ricardo Tércio, Filipe Andrade e Jorge Coelho, com histórias publicadas regularmente em editoras como a Marvel, ou a Image.
Ao contrário dos autores das gerações anteriores, que tiveram que emigrar para conseguirem trabalho fora de Portugal, os autores referidos neste texto trabalham para o mercado americano a partir das suas casas em Portugal, beneficiando das actuais facilidades de comunicação proporcionadas pela Internet e do próprio sistema de funcionamento da indústria americana dos comics, em que o “editor” (termo que nos EUA tem um significado diferente do que lhe dado em Portugal, designando não o dono da editora – o Publisher – mas sim quem faz o editing da história, sugerindo as alterações que considera necessárias aos autores) assegura a ligação entre a Editora e as várias pessoas envolvidas no projecto, que não necessitam de estar fisicamente próximas e que, muitas vezes, nem sequer se conhecem pessoalmente.
Se alguns destes autores desenham a lápis, passam a tinta e dão cor aos trabalhos que publicam, não é assim que as coisas geralmente funcionam no mercado americano. Por via do sistema de publicação mensal e dos prazos rigorosos que isso implica em termos de produção, a indústria dos comics aposta na especialização e numa separação de tarefas em que o argumento, o desenho a lápis, a passagem a tinta (ou arte-final) e a coloração são geralmente realizados por pessoas diferentes, com o editor a servir de elo de ligação entre todas elas.
Um editor com um papel muito importante no facto de haver tantos desenhadores portugueses com trabalhos publicados na Marvel, foi C. B. Cebulski, actual vice-presidente da Marvel, argumentista e grande descobridor de talentos que depois de ter tido acesso ao port-folio de João Lemos, que este tinha entregue ao Presidente da Marvel, Joe Quesada, não hesitou em contactar Lemos, para trabalhar com ele num projecto chamado Shiki. Embora essa série, inicialmente anunciada para sair em 2007, continue a aguardar publicação, a verdade é que Cebulski ficou tão impressionado com o trabalho de Lemos, que disse numa entrevista que o desenhador português: “é um artista com um estilo nunca visto. Ele vai ser uma grande estrela dos comics e a sua arte vai ter um valor incalculável na indústria, deixando um impacto estilístico muito ao género de Mike Mignola e de Bruce Timm.”,
Tendo tomado contacto com o trabalho de outros desenhadores portugueses, via João Lemos, Cebulski usou a série Marvel Fairy Tales para os lançar. Primeiro foi Ricardo Tércio a desenhar a história de Cebulski que adapta a lenda do Capuchinho Vermelho ao Universo Marvel, seguindo-se na série Avengers Fairy Tales, os trabalhos de João Lemos, Nuno Plati e novamente Ricardo Tércio. Um conjunto de trabalhos posteriormente recolhidos no livro Marvel Fairy Tales que, nas suas 144 páginas, tem nada mais de 94 páginas feitas por desenhadores portugueses, em estilos completamente diferentes e personalizados, que vão do traço etéreo e estilizado de Lemos, ao desenho mais “cartoony” de Tércio, passando pela elegância mais europeia de Plati.
Se na versão desenhada por João Lemos da história de Peter Pan, a cor é da responsabilidade de Christina Strain, Nuno Plati na sua versão de Pinóquio, assegura também as cores e a capa, tal como Ricardo Tércio, na sua versão do Feiticeiro de Oz, embora neste último caso, a capa seja da responsabilidade da francesa Claire Wendling.
De todos estes autores, Nuno Plati é o que mais histórias tem publicado na Marvel, com uma história curta para as revista Iron Man: Titanium (tal como outro português, Filipe Andrade, que também desenha uma história curta em Iron Man Titanium e divide o desenho de X-23 com Plati) e o desenho completo dos comics Shanna, the She Devil e Marvel Girl, a que se seguiu mais uma história curta para a revista Amazing Spider-Man 657, que assinala a entrada do Homem-Aranha para o Quarteto Fantástico, na sequência da morte de Johnny Storm, o Tocha Humana.
Mas se Nuno Plati, é o português cujo nome já apareceu em mais revistas da Marvel, o português que mais páginas desenhou para a “Casa das Ideias” é, indiscutivelmente Filipe Andrade, que os leitores portugueses bem conhecem da série BRK.
Andrade, além das histórias já referidas para as revistas X-23 e Iron Man: Titanium, assinou também os desenhos de Wellcome Home e Underneath the Skin, duas aventuras de Nomad, publicadas em complemento da história principal, nos nºs 608 a 614 da revista Captain America, antes de assegurar a arte dos quatro números da mini-série Onslaught Unleashed, actualmente em publicação e que ficará na história como a primeira mini-série da Marvel desenhada e colorida por portugueses, pois além dos desenhos de Andrade, as cores são da responsabilidade de Ricardo Tércio. E já em Setembro começa a sair nos EUA a mini-série John Carter, the Princess of Mars, em que Filipe Andrade assegura o desenho e as capas alternativas da nova versão do personagem de Edgar Rice Burroughs, prestes a chegar ao cinema num filme da Disney.
Também João Lemos ficará na história, mas como o primeiro português a escrever uma história para a Marvel, pois o desenhador português foi o argumentista de Wolverine: the Dust from Above, uma história do mais popular mutante da Marvel, desenhada pela italiana Francesca Ciregia. Lemos, que voltou a Wolverine como desenhador com The Adamantium Diaries, uma história curta, escrita por Sarah Cross para a revista Wolverine 1000. E o trabalho de Lemos não se limita à Marvel, pois ele foi um dos autores convidados por David Peterson para colaborar na série Legends of the Mouse Guard, editada pela Archaia Press, assinando como autor completo (argumento, desenhos cor e legendagem) a história que funciona como epílogo à edição encadernada.
Referência ainda um novo projecto independente, ainda em fase de desenvolvimento, chamado Mia, Tales from the Lost Islands, que vai juntar Nuno Plati e João Lemos, de que esperamos voltar a ouvir falar e que, depois das colaborações entre Nuno Plati e Ricardo Tércio, confirma a tendência dos autores portugueses para trabalharem juntos.
Outro autor português que também tem publicado nos Estados Unidos, mas sem ser na Marvel, é Jorge Coelho, de quem a Image publicou Forgetless, uma mini-série escrita por Nick Spencer, em que Coelho divide os desenhos com W. Scott Forbes e Marley Zarcone. Coelho que se estreou no mercado americano como desenhador de Below the Fold, uma história curta, escrita e colorida por Eric Skillman, publicada na antologia de histórias policiais EGG, auto-editada por Skillman.
O mais recente trabalho de Coelho para a Image, The Weel Turns, uma história curta de D. K. Stockton, publicada no 2º volume de Outlaw Territory, uma antologia de histórias do Oeste, conta mais uma vez com cor de Skillman, numa parceria que se irá prolongar na novela gráfica Submerged Mary, escrita por Eric Skillman e ainda à procura de editor.
Mas estes não são os únicos portugueses a publicar BD nos EUA. Também Filipe Melo conseguiu levar o seu Dog Mendonça às páginas da revista Dark Horse Presents. Um título prestigiado, que inaugurou a actividade editorial da Dark Horse em 1986 e onde o Sin City de Frank Miller foi publicado pela primeira vez. Vinte e cinco anos depois, a editora lançou uma nova versão da revista, com 25 números previstos. Essa nova antologia, cujo primeiro número saiu em Maio nos EUA, terá participações, entre outros autores, de Frank Miller (com uma entrevista e uma preview da prequela de 300 intitulada Xerxes), Mike Mignola (Hellboy), Neal Adams, Richard Corben e Dave Gibbons (Watchmen), entre muitos outros.
É para esta revista que Filipe Melo e Juan Cavia contribuíram com uma história de 24 páginas, dividida em três capítulos de 8 páginas, que vai ser publicada nos nº 4, 5 e 6 e tem como objectivo apresentar Dog Mendonça e os restantes personagens ao público americano, preparando o terreno para a posterior publicação pela Dark Horse de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy nos EUA.
Uma excelente oportunidade que se deveu à intervenção decisiva de John Landis. O realizador americano, que assinou o prefácio do álbum, gostou tanto do livro que fez chegar Dog Mendonça às mãos do seu amigo Mike Richardson, o editor da Dark Horse, que se mostrou interessado na série e viu na revista Dark Horse Presents o local ideal para uma primeira divulgação das personagens junto dos leitores americanos.
Se a tudo isto acrescentarmos a biografia em BD de Angelina Jolie, editada em Janeiro de 2011 pela Editora americana Blue Water, especializada em biografias em Bd de personalidades célebres, de Obama a Oprah, que tem desenhos de Nuno Nobre, um arquitecto, designer e ilustrador português, a viver e trabalhar entre Madrid, Lisboa e Nova Iorque e que assim se estreia na BD, não há dúvidas que o sonho americano dos autores de BD se desenha cada vez mais em português.
Versão actualizada do texto publicado no nº 10 da revista Bang!, em Maio de 2011