domingo, 28 de setembro de 2014

Universo Marvel 12 - Dr. Estranho e Dr. Destino: Triunfo e Tormento


Como no caso deste volume o editorial é da minha autoria, mais uma vez opto por deixar aqui esse editorial em vez do texto que saiu no jornal Público, que por questões óbvias de espaço é bastante menos  desenvolvido.

O HOMEM POR TRÁS DA MÁSCARA DE FERRO

UNIVERSO MARVEL VOL 12
Dr. Estranho e Dr. Destino: Triunfo e Tormento
Argumento –  Roger Stern, Gerry Conway e Bill Matlo
Desenhos – Mike Mignola, Gene Colan e Kevin Nowlan

Criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1962, o Doutor Destino é não só dos mais antigos vilões do Universo Marvel, mas também dos mais importantes. Uma importância bem evidente na história escrita por Roger Stern que dá nome a este volume, em que mais do que dividir o protagonismo com o Doutor Estranho, o Doutor Destino rouba esse mesmo protagonismo.
Tendo feito a sua primeira aparição no nº 5 da revista Fantastic Four, de Julho de 1962, a sua origem só seria contada quase dois anos depois, no Fantastic Four Annual nº 2. É ai que descobrimos o seu verdadeiro nome, Victor Von Doom, a sua infância no principado da Latveria, a sua origem cigana e o destino trágico da sua mãe, Cynthia Von Doom, uma feiticeira cigana, morta e condenada ao eterno sofrimento pelo demónio Mefisto, e também do seu pai, Werner, um médico prestigiado, que vai sacrificar a vida para salvar a de Victor. Tendo descoberto as actividades necromânticas da sua mãe após a morte desta, Victor vai alargar o seu ramo de estudos para o campo do oculto, buscando no sobrenatural uma maneira de se vingar do Barão, que reinava sobre a Latveria com mão de ferro e que foi responsável pela morte do seu pai e pela perdição da alma da sua mãe. A sua atracção pelo sobrenatural não o impediu de se revelar um aluno brilhante e inventivo nas disciplinas mais tradicionais, com resultados impressionantes que atraíram a atenção do Reitor da Empire State University, prestigiada Universidade americana, onde teve como colega outro aluno brilhante, Reed Richards, o futuro Sr. Fantástico, líder do Quarteto Fantástico.
Mais do que pela amizade e posterior rivalidade com Reed Richards, é através do equilíbrio instável entre os dois polos da sua herança familiar, a magia e a ciência, que o percurso do Doutor Destino vai ser traçado e, se na maior parte das histórias em que enfrenta o Quarteto Fantástico, o ênfase vai para o seu génio científico, no caso de Triunfo e Tormento, são as capacidades do Doutor Destino enquanto feiticeiro que ganham relevo.
Publicada originalmente como uma novela gráfica em 1989, Triunfo e Tormento centra-se na descida aos infernos do Doutor Destino para libertar a alma da sua mãe do Inferno, num combate com Mefisto anualmente repetido de forma inglória, em cada noite de solstício de Verão. Uma premissa que nos remete para as lendas da Antiguidade Clássica, como os Doze Trabalhos de Hércules e, sobretudo, a ida do poeta Orfeu ao Hades para tentar salvar a sua amada Eurídice. Mas já Gerry Conway, que por diversas vezes tinha ido beber inspiração à mitologia clássica, tinha utilizado essa premissa numa história ilustrada pelo grande Gene Colan, publicada em 1970 no nº 8 da revista Astonishing Tales e que Roger Stern soube aproveitar, criando uma continuação dessa história que nenhum autor posterior tinha explorado devidamente, em Triunfo e Tormento. Mas além de continuar a história, Stern introduz um novo elemento na equação, Doutor Estranho, o Feiticeiro supremo. E esta presença do Doutor Estranho revela-se perfeitamente lógica, pois como refere Roger Stern, o Doutor Destino “é um génio da ciência, mas claro que não é o maior feiticeiro do mundo, pois esse título pertence ao Doutor Estranho. Por isso, se ele tem descer aos Infernos, gostaria de ter o maior de todos os feiticeiros do seu lado. Mas como Destino é demasiado orgulhoso para pedir a ajuda do Doutor Estranho, vai ter que o manipular, de modo a conseguir a sua ajuda.”
Apesar da armadura e máscara que lhe dão um aspecto mecânico, quase robótico, o Dr. Destino é uma personagem tremendamente humana, com uma dimensão trágica que Roger Stern realça de forma eficaz, mostrando que por trás da máscara de ferro está um homem, um filho que não esquece a mãe e que, apesar da presença do Dr. Estranho, assume aqui o principal protagonismo. O próprio Roger Stern reconhece isso, ao dizer que “a história começou como uma novela gráfica do Doutor Estranho, mas à medida que ia escrevendo, quase que se tornou uma novela gráfica do Doutor Destino, porque a personalidade de Destino era tão forte que começou a tomar conta do livro”
Entre a ideia inicial de Roger Stern e a publicação da história, passaram-se quase sete anos. Um atraso motivado por outros afazeres de Stern, que escrevia em média duas a três revistas por mês, mas sobretudo por razões editoriais, pois nessa altura John Byrne estava a escrever e desenhar uma longa saga na revista Fantastic Four em que o Doutor Destino estava ausente, presumivelmente morto. Um atraso inesperado, mas que permitiu ter Mike Mignola, o futuro criador de Hellboy, como desenhador de uma história feita à medida do seu universo estético e criativo, então ainda em embrião.
Nascido em 1960, Mignola estudou ilustração no California College of the Arts e iniciou-se profissionalmente na BD na Marvel em 1983, um ano depois de ter concluído o curso, colaborando em títulos como The Incredible Hulk, a mini-série dedicada a Rocket Raccon, personagem que os leitores conhecem do volume dedicado aos Guardiões da Galáxia, e a antologia Marvel Fanfare. Mas o seu estilo peculiar, em que as sombras são usadas para criar ambientes, que se afirmou definitivamente durante a década seguinte, graças a Gotham, Sangue e Sombra, uma história alternativa do Batman, publicada em Portugal na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC, e à adaptação à BD do filme Dracula, de Francis Ford Coppola, está já presente neste Triunfo e Tormento, que assinala a primeira descida aos Infernos de um personagem desenhado pelo criador de Hellboy. Neste caso, grande parte do mérito não pode deixar de ir para Mark Badger que assegura a arte-final e as cores de Triunfo e Tormento de uma forma perfeita que realça devidamente as características identificativas da arte de Mignola, em que os elementos arquitectónicos em ruínas, envoltos nas sombras, contribuem para a criação de um ambiente único.
Apesar da presença de artistas do calibre de Gene Colan, ou Kevin Nowlan, Mignola é o autor mais em destaque e o principal elemento unificador deste volume, que recolhe também duas histórias protagonizadas por Namor, o Príncipe Submarino, desenhadas também por si e publicadas nos inícios da década de 1980 na revista Marvel Fanfare. Histórias em que Mignola troca as profundezas do Hades pelo fundo do mar onde reina Namor, e que permitem ao leitor acompanhar a evolução do desenhador em direcção ao traço mais estilizado que lhe conhecemos e que já começa a ser bem visível nas ilustrações que fecham este volume.

1 comentário:

Gabriel Dantas disse...

Vi essa história um dia desses na livraria.

Mas não peguei.

~arrependido

http://gotasdexp.blogspot.com/