terça-feira, 20 de abril de 2010

Bilal regressa com Animal'Z


Depois de “Quatro?”, álbum que encerra a trilogia em 4 volumes iniciada com “O sono do Monstro”, Enki Bilal regressa com “Animal’Z”, um peculiar western futurista que a Asa acaba de lançar em Portugal.
Como o próprio Bilal refere numa entrevista, “Animal’Z representa “uma ruptura narrativa -um one-shot, uma história num único álbum de perto de 100 páginas - mas também gráfica: preto e branco, em vez de pintura, o desenho em estado puro, realçado por alguns toques de cor, um traço mais rápido, mais enérgico. O tema é a destruição do planeta pelos elementos, o homem desamparado pelas suas falhas, e os animais que tentou modificar através de experiências. Estes tornaram-se simultaneamente nossos amigos e nossos inimigos, pois todos temos o mesmo objectivo: encontrar a pouca água potável que ainda resta. É um espécie de Western futurista, em ruptura com os temas longos e complexos que abordo há largos anos”
Por oposição a “Quatro?” e aos álbuns que o precederam, este “Animal’Z”, embora utilize o mesmo processo de tratar cada ilustração de forma individual, sendo a montagem da página feita posteriormente em computador, mostra um Bilal longe do fantástico trabalho de cor a que nos habituou, optando por explorar o traço de forma livre, num trabalho executado a grafite e pastel seco, num registo quase monocromático, em que a principal nota de cor é dada pela tonalidade do papel, em tons de azul, quebrado por pequenos apontamentos de branco e de vermelho. Em termos de construção de um universo futurista credível, Bilal continua a ter coisas inimitáveis e a fusão entre o humano e o aquático, simbolizado pelas imagens fortíssimas de homens e mulheres que saem de um corpo marinho, são um bom exemplo.
Ambientado numa Terra devastada pelo “golpe de sangue”, uma catástrofe natural que tornou a maior parte do planeta inabitável e a água potável um bem tão raro como precioso, “Animal’Z”, apesar do cenário pós-apocaliptico, segue as regras bem codificadas do Western, colocando dois pistoleiros em confronto, só que estes são dois pistoleiros niilistas, cuja perícia faz com que mutuamente se neutralizem, que cavalgam zebras/cavalos geneticamente modificadas e um deles não poupa nas citações.
Aliás, o excesso de referências literárias é um dos problemas de “Animal’Z”, em que a depuração gráfica não tem correspondência nos diálogos, que roçam o pedantismo, encadeando citações atrás de citações, como se não houvesse amanhã. E aqui, não posso deixar de concordar com a afirmação de Owles, uma das personagens do livro que, citando Cioran, diz: “tenho uma certa tendência para desconfiar daqueles cujo espírito só funciona com base no pensamento dos outros”. Uma autocrítica que só fica bem a Bilal, um excelente desenhador que raramente conseguiu escrever argumentos que façam esquecer as suas saudosas colaborações com Pierre Christin.
(“Animal’Z”, de Enki Bilal, Edições Asa, 104 pags, 19,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 17/04/2010

1 comentário:

o gato bluum disse...

Miau! Que mauzinho! Um livro com tantos ursos, só pode ser bom! (Citação: gato bluum!)