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domingo, 17 de abril de 2016

Jonathan de Cosey no Público - Algumas considerações sobre a colecção... e as suas ausências


É já no próximo dia 27 de Abril que o Público e a Asa iniciam mais uma colecção de BD franco-belga, explorando como tem sido habitual nos últimos tempo, o vasto espólio da revista Tintin, publicação que marcou gerações de leitores, actualmente entre os 40 e os 60 anos. 
A série escolhida, Jonathan, de Cosey,era uma das minhas favoritas na revista mas, tal como aconteceu com Bernard Prince, a opção de publicar apenas parte da série, parece-me (mais) uma oportunidade perdida, pois dos 16 livros publicados até agora em França, a Asa apenas escolheu 10 para esta colecção, cuja lista podemos ver já abaixo:
De fora ficam portanto 6 livros, que podiam perfeitamente ser editados se se tivesse optado por álbuns duplos (como se fez com a sérieXIII), com a vantagem adicional de a sobreposição com as colecções da Levoir (a dos Super-Heróis DC, ainda nas bancas e a Série II das Novelas Gráficas, que chega em Junho) ser menor. Perde-se assim a oportunidade de editar integralmente a série em Portugal, o que os coleccionadores certamente agradeciam e, mesmo o critério de selecção dos álbuns excluidos, não me parece o mais lógico em termos da própria série e de como ela reflecte os interesses e as inquietações de Cosey.
Iniciada em 1975, a série Jonathan pode ser facilmente dividida em dois ciclos. Um primeiro ciclo, de onze álbuns, que termina em 1986, com Greyshore Island e um segundo ciclo, que compreende os cinco álbuns restantes, iniciado em 1997, com Celui qui Mène les Fleuves à la Mer, álbum que assinala o regresso de Cosey à série, após mais de 10 dedicado a outros projectos, como a novela gráfica Em Busca de Peter Pan, Viagem a Itália e Orquídea, só para falar de títulos editados em Portugal.      
Não podendo editar a série toda, eu teria optado por publicar todo o primeiro ciclo, pois os álbuns que aqui faltam são importantes, como veremos. 
Le Privilège du Serpent, para além da homenagem de Cosey a Derib  (o criador de Yakari e Buddy Longway, que o ajudou a lançar na BD), que empresta o rosto a Casimir Forel, o protagonista da história, é um dos bons álbuns da série e o primeiro em que se torna evidente o fascínio de Cosey pela cultura americana e pelo cinema americano, patente nas referências ao célebre filme de Nicholas Ray com James Dean, Rebell Without a Cause (Fúria de Viver, em português) que estão no centro da história.
Esse fascínio pela América que marca também a obra de Cosey, a par da cultura oriental, é ainda mais evidente no díptico Oncle Howard est de Retour e Greyshore Island, em que Jonathan troca as montanhas do Tibete, pela América, de Nova Iorque à California. Aqui, para além dos cenários americanos, não faltam referências a icones da cultura Pop, como o Rato Mickey (que Cosey desenhou recentemente) e Michael Jackson, mas o que torna esta história verdadeiramente importante no contexto da série, é o regresso de Kate, o grande amor de Jonathan e uma das mais inesquecíveis personagens femininas da BD franco-belga. 
Mesmo com estas falhas globais na colecção, aconselho vivamente alguns dos álbuns da série, como Kate, que ganhou o Prémio de Melhor BD no Festival de Angoulême, de 1982 e, sobretudo, o magnífico O Espaço Azul entre as Nuvens, mas se gostarem da série e souberem ler francês, o melhor mesmo é comprarem antes a edição integral francesa, recheada de belíssimos extras e que, em termos de relação qualidade/preço, bate aos pontos a coleccção que a Asa se prepara para lançar com o jornal Público.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Depois de Billie Holiday, Bernard Prince: A BD no Público todas as semanas

Embora só nesta quinta-feira termine a colecção Poderosos Heróis Marvel, com a publicação de Marvels: Por Trás da Objectiva, de Kurt Busiek e Jay Anacleto, já são conhecidas as próximas edições de BD a sair com o jornal Público, que até ao fim do ano,terá  Banda Desenhada todas as semanas.
No dia 5 de Novembro será lançado Billie Holiday, a biografia em BD da cantora de jazz Billie Holiday, cujo centenário de nascimento se comemora em 2015, assinada por dois mestres da BD argentina, José Muñoz e Carlos Sampayo, os criadores de Alack Sinner.
Na quarta-feira, dia 11 de Novembro, arranca mais uma colecção em parceria com a Asa, dedicada ao um dos grandes clássicos da BD franco-belga de aventuras: Bernard Prince, de Hermann e Greg. A série, que revelou o desenhador Hermann, vai ter direito a uma selecção de 12 títulos, que cobrem a maioria das histórias desenhadas por Hermann e ainda tem espaço para A Cilada dos Cem Mil Dardos, desenhada por Dany, o artista que teve a espinhosa missão de suceder a Hermann..

De fora, ara além de A Fortaleza das Brumas e Objectivo Cormoran, já publicados numa anterior colecção Público/Asa ficam Ameaça sobre o Rio, o álbum que assinala o regresso de Hermann a Bernard Prince, mais de trinta anos depois, Bernard Prince d'Hier e d'Aujourd'hui, uma recolha de histórias curtas desenhadas por Hermann, Orage sur le Cormoran, o segundo álbum desenhado por Dany e  La Dinamitera e Poison Vert, os dois álbuns finais desenhada por E. Aidans
Dois grandes lançamentos, que terão o merecido destaque neste blog.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ric Hochet na nova colecção do Público: Capas, títulos e algumas considerações


Depois das Novelas Gráficas, a próxima colecção de BD a distribuir com o jornal Público, desta vez em parceria com a editora Asa, é um clássico da BD franco-belga, a série Ric Hochet, criada por Tibet e A P Duchateau  em 1955. A primeira aparição de Ric Hochet dá-se no nº 242 da edição belga da revista Tintin com a história curta Ric Hochet méne le Jeu,  em que o futuro jornalista é ainda um simples ardina de treze anos que se deslocava numa scooter, em vez do vistoso Porsche laranja que bem conhecemos. Só em 1963, um Ric Hochet entretanto tornado adulto se estreia numa história longa, com Traquenard au Havre, primeiro título de uma colecção que compreende 78 volumes, publicados a um ritmo, muito pouco habitual na BD franco-belga, de um novo álbum de oito em oito meses.
Com a morte de Tibet, a 3 de Janeiro de 2010, numa altura em que apenas tinha desenhado 28 páginas de À La Porsuite du Griffon D'Or, o 78º álbum da série que, à semelhança de Tintin et L'Alph Art, de Hergé, seria publicado exactamente como o desenhador o deixou, a série entrou num hiato, até a editora, aproveitando o 60ª aniversário da criação de Ric Hochet, decidir reviver o jornalista detective, através de uma nova equipa, constituída pelo argumentista Zidrou e pelo desenhador Simon Van Leimt, responsáveis pelo novo álbum, R.I.P. Ric, a lançar em França no fim deste mês e que, poucos dias depois, a 3 de Junho, abre esta colecção de 12 volumes dedicados aos Piores Inimigos de Ric Hochet.  Uma colecção composta por volumes de 48 páginas, em capa mole, com badanas e um preço de venda ao público de 5,40 €.
Não tendo tido ainda oportunidade de ler o livro e verificar se Zidrou soube ou não agarrar a personagem, já o traço de Vam Leimt, pelas páginas que vi,  parece-me algo apressado e bem longe da elegância "Linha Clara" tão característica de Tibet, mas será necessário ler o livro para emitir um juízo mais fundamentado.
Desta vez, o lançamento de o último álbum da série quase em simultâneo com a versão original francesa, parece-me uma muito boa ideia, ao contrário do que aconteceu com a série XIII, a anterior colecção Público/Asa, onde a novidade que abriu a colecção era a segunda parte de uma história, cuja primeira parte os leitores apenas puderam ler 11 semanas depois, no fim da colecção e a cuja conclusão, ainda por publicar em França, provavelmente nunca terão acesso em português...
O que já não me parece tão boa ideia, é repetir o álbum Ric Hochet contra o Serpente, já publicado numa anterior colecção Público/Asa, dedicada aos Clássicos da revista Tintin, até porque, numa série que conta com 78 títulos, não faltavam histórias inéditas em Portugal, que pudessem substituir com vantagem este segundo álbum da colecção.
 Com uma boa percentagem de álbuns inéditos em Portugal (como podem ver pela lista aqui ao lado, em que os títulos inéditos no nooso país estão assinalados a amarelo, são 8 em 12), a maior parte pertencentes à fase mais recente da série, esta nova colecção agradará certamente aos leitores que cresceram com a edição portuguesa da revista Tintin, de que Ric Hochet era um dos títulos mais populares.
Resta é saber se esses leitores nostálgicos serão em número suficiente para assegurar o sucesso da colecção que, tendo em conta o classicismo do traço e das histórias,em que a intriga policial ligeira mas bem escrita contrasta com algum maniqueísmo e ingenuidade no tratamento das personagens, com a excepção de Richard, o pai de Ric Hochet, em que a fronteira entre o bem e o mal está mais diluída, terá maiores dificuldades  em cativar um público mais novo. Um público que está habituado a outra dinâmica na narrativa, e que não acompanhou as aventuras do repórter detective desde a infância...













domingo, 23 de fevereiro de 2014

As Águias de Roma IV



OS LOBOS E A ÁGUIA

Quase em simultâneo com a edição original francesa, a Asa lançou em final de 2013 o quarto livro da série As Águias de Roma, título que assinala a estreia do desenhador suíço Enrico Marini como argumentista. Protagonizada por dois homens, Marcus, filho de um oficial romano e Ermanamer, filho de um príncipe da Germânia, levado para Roma como refém e rebaptizado Caius Julius Arminius, que são criados juntos como irmãos, mas que o destino irá colocar em lados diferentes da barricada, a história de As Águias de Roma tem por base acontecimentos históricos reais das Guerras Germânicas.
Acontecimentos esses, ocorridos no século I e que culminaram com a batalha da floresta de Teutoburgo, no ano 9, em que o exército romano foi massacrado pelas tribos germânicas comandadas por Armínio. Esse combate, em que os lobos germânicos trucidaram a águia romana, obrigou as tropas de Roma a retirar para cá do rio Reno, que se manteve como uma das fronteiras definitivas do Império romano.

Tal como acontece com Murena, de Dufaux e Delaby, outra série tendo como pano de fundo o Império romano, que a Asa também está editar em Portugal, em relação a Lucius Murena, Marini também cria um personagem fictício, como Marcus, colocando-o a interagir com personagens históricos, como Arminius e Varos, de modo a criar uma intriga ancorada nos factos históricos. Mas se compararmos as duas séries, é evidente o maior peso da acção sobre a intriga em As Águias de Roma, consequência lógica de Marini ser, antes de tudo, um desenhador. Ao contrário de Murena, em que o traço rigoroso do malogrado Philippe Delaby, ao serviço de uma rigorosa reconstituição histórica, servia sobretudo para fazer avançar a intriga, Marini opta por desenvolver bastante mais as sangrentas cenas de combate. Cenas complexas e bem coreografadas, desenhadas com grande realismo, mas sem abdicar de uma dimensão espectacular, patente no uso de poucos quadrados por página, a sua maioria num formato panorâmico, que permite enquadramentos mais épicos e cinematográficos.

Também em termos de cor, o trabalho de Marini é notável, com os tons frios e cinzentos das paisagens da Germania e das armaduras dos legionários romanos, a dominarem este álbum, em contraste com as cores mais luminosas dos dois primeiros álbuns, cuja acção decorria sobretudo em Roma. Um dos mais dinâmicos e espectaculares desenhadores realistas europeus, Marini mostra aqui que também é um bom argumentista, criando personagens complexos, por quem o leitor se interessa. Nesse aspecto, a ambiguidade de Arminius, dividido entre a sua amizade por Marcus e a vontade de libertar o seu povo do jugo romano, está bastante bem explorada.
Se Marini não alterar as suas intenções iniciais, a série terminará no próximo volume, com a batalha de Teutoburgo, momento-chave da afirmação de Arminius como líder incontestável do povo germano. E, mesmo sabendo qual das partes saiu vencedora, isso não diminui em nada a minha expectativa em relação ao capítulo final desta excelente série, que afirmou Marini como um autor completo.  
(“As Águias de Roma - Livro IV”, de Marini, Asa, 60 pags, 16,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 22/02/2014 

domingo, 3 de novembro de 2013

Crítica ao novo álbum de Astérix


Desde a passada quinta-feira, que chegou às livrarias de toda a Europa, incluindo Portugal, “Astérix entre os Pictos” o tão aguardado 35º álbum da série Astérix, e o primeiro sem a assinatura de qualquer um dos seus criadores originais.
Com uma tiragem inicial de 2 milhões de exemplares, só em língua francesa, que esgotou numa semana, o novo Astérix, mais do que um livro, é um acontecimento mediático, que mereceu grande destaque em toda a imprensa, em que, dos jornais à Internet, muito se escreveu sobre o novo livro, que praticamente ninguém tinha tido ainda oportunidade de ler.
Mas agora, que o álbum já está nas livrarias e nas mãos de muitos leitores há mais de uma semana, podemos confirmar que, mesmo sem deslumbrar, o novo livro está à altura das expectativas e um largos furos acima dos últimos álbuns assinados por Uderzo, o que reconheça-se, só por si não é grande proeza, tal o nível a que a série tinha descido…

Profissionais competentes, Ferri e Conrad dão bem conta do pesado caderno de encargos, que no caso de Conrad implicou desenhar um livro de 48 páginas, num estilo que não é o seu, em apenas 6 meses. Uma tarefa ciclópica, de que se saiu com distinção, mesmo que seja evidente uma evolução ao longo do álbum (compare-se a vistosa mulher de Agecanonix das primeiras páginas, com a das últimas). Já Ferri, saiu-se também bastante bem da missão de recriar na sua história, os álbuns daquela que considera como a época de ouro da série, os anos 70 e, mesmo sem nunca atingir o nível de Goscinny (uma missão impossível), constrói uma história de viagens escorreita, com alguns trocadilhos bem conseguidos, embora nem todos resistam bem à tradução, e momentos divertidos, como o funcionário romano que pretende fazer um censo à população da aldeia gaulesa.
Ainda assim, a história peca por uma linearidade excessiva, pela pouca acção e pelo deficiente aproveitamento das potencialidades de uma figura como o Monstro de Loch Ness, cuja imagem parece ter sido criada mais a pensar nos bonecos de peluche a que vai dar origem…
Esperemos que num próximo álbum, os autores possam encontrar uma voz própria e prosseguir a renovação dentro da continuidade, que neste álbum, ainda é demasiado tímida. Assim Uderzo e a editora lhes deem oportunidade para isso…
(“Astérix entre os Pictos”, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, Edições Asa, 48 pags, 12,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 02/11/2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A propósito do novo Astérix - Entrevista com Jean-Yves Ferri


A convite do jornal Público, tive a oportunidade de entrevistar Ferri, o novo argumentista de Astérix, aquando da sua vinda a Lisboa, em finais de Setembro, quando ele passou fugazmente pela capital portuguesa, para promover uma colecção de álbuns do Astérix que o jornal começou a lançar esta semana. Aqui fica a entrevista na sua versão integral. As imagens foram pilhadas de forma mais ou menos indiscriminada pelos quatro cantos da Internet. 

Desenhador e argumentista, nascido em 1959, tal como Astérix, o francês Jean-Yves Ferri é o responsável pelo argumento da nova aventura do irredutível gaulês e dos seus companheiros que, pela primeira vez, não conta com nenhum dos seus criadores como autor. Astérix entre os Pictos o 35º álbum da série é publicado a nível mundial no dia 24 de Outubro e sairá em Dezembro, numa versão em capa mole, com o Jornal Público, integrado na colecção As Viagens de Astérix. Ferri, que passou por Lisboa em Setembro, para a apresentação da colecção, falou ao Público deste importante desafio e da sua experiência como sucessor de Goscinny no argumento de umas das mais populares séries da BD mundial.

Nasceu em 1959, precisamente o mesmo ano em que a série Astérix começou a ser publicada na revista Pilote. Vê o facto de ser escolhido como o novo argumentista de Astérix como uma simples coincidência, ou um sinal do destino?

O mais engraçado é que também o desenhador, Didier Conrad, nasceu em 1959. Por isso, talvez o próprio Uderzo tenha visto nisso um sinal de que seríamos as pessoas certas para continuar Astérix.
Como é que foi escolhido para ser o novo argumentista de Astérix?
Fui contactado pela editora Hachette (que detém os direitos da série desde 2011), tal como vários outros argumentistas, para apresentar uma proposta para uma história. O processo foi rodeado de grande secretismo, tendo sido obrigado a assinar uma cláusula de confidencialidade, que não me permitia contar a ninguém, nem à minha família, o que estava a fazer. As diversas propostas foram apresentadas, sem indicação dos autores, a Uderzo, que escolheu uma, que por acaso era a minha.

Considera-se um fã de Astérix?

Claro! Tanto eu como o Conrad fazemos parte de uma geração que cresceu a ler BD nas revistas semanais como o Tintin, Spirou e Pilote. Por isso, conhecíamos perfeitamente todos esses heróis e temos uma ligação afectiva com o Astérix, o que faz com que abordemos a série de um modo algo particular. O nosso objectivo, com este álbum, é recuperar aquelas impressões de infância, que sentimos ao ler as histórias pela primeira vez.
Por isso, procurei que este álbum estivesse na linha de alguns dos meus álbuns preferidos da década de 70, como o Astérix Legionário, O Escudo de Arverne, Astérix na Hispania, ou Astérix na Córsega. Que fosse uma homenagem a esses álbuns que tanto me marcaram. Posteriormente, espero conseguir impor o meu cunho próprio à série, mas este ainda é um álbum de transição. Uma transição suave, marcada pela minha admiração pela escrita de Goscinny.

O tema do novo álbum, os Pictos e a Escócia. Foi ideia sua, ou sugestão de Uderzo?

Foi ideia minha. Tive inteira liberdade na criação da história. Entreguei uma primeira sinopse de uma página e quando foi aprovada, comecei a escrever o argumento. Como também sou desenhador, fiz também um story board com a planificação da história, quadrado a quadrado, para o desenhador seguir.

E a editora impôs algumas alterações? 

Praticamente nenhumas. Apenas Uderzo sugeriu duas pequenas alterações. Uma tinha a ver com a estação do ano em que se desenrola a acção e a outra consistiu em algumas pequenas observações a propósito da psicologia do Obélix. Uderzo esteve muito mais atento ao trabalho do desenhador.

Por falar em desenhador. Sei que Conrad não foi o desenhador inicialmente escolhido. Houve um primeiro desenhador Frédérick Mébarky, que acabou por abandonar o projecto. O que é que realmente se passou?

É simples. Frédérick não aguentou a pressão e literalmente explodiu. O problema é que ele era um desenhador do estúdio de Uderzo, que fazia ilustrações publicitárias e passava a tinta os desenhos de Uderzo, mas que não tinha nenhuma experiência da planificação e da narrativa em BD. Por isso, tinha muitas dificuldades em contar uma história em Banda Desenhada. Quando percebemos que a coisa não ia resultar, tivemos que arranjar um substituto, que foi Conrad.

 E Conrad introduziu alguma alteração na história, em relação à versão com que Mebarky tinha trabalhado?

Não, e por duas razões. Primeiro, por quando ele chegou, o story board já estava todo feito e depois, como ele teve um prazo muito curto para desenhar o álbum, o meu story board até lhe deu jeito.

E o que é que nos pode adiantar sobre o novo álbum?

Oficialmente, a única coisa que posso adiantar é que a história termina com um banquete na aldeia gaulesa, como sempre (risos)… De resto, não posso dizer nada, mas como há algumas pequenas informações que já apareceram na Internet, posso dizer que, como é habitual nos álbuns de Astérix, haverá uma série de elementos típicos da tradição do país, como o monstro de Loch Ness e vamos saber também a verdadeira razão porque a Muralha de Adriano foi construída.

Foi à Escócia fazer pesquisa para escrever a história?

Já conhecia a Escócia e voltei lá por causa do álbum. Mas o cenário não é o principal. A história passa-se numa Escócia que, mais do que corresponder à Escócia histórica real, tem que corresponder à ideia que as pessoas têm da Escócia. Ou seja, há que jogar com os estereótipos de forma divertida. Do mesmo modo, a pesquisa histórica é importante, mas não é decisiva. Quando decidi escrever sobre os Pictos, fui naturalmente investigar. Mas a verdade é que não há grande informação sobre os Pictos, o que até me deu jeito, pois assim pude inventar os meus Pictos que, na boa tradição de Astérix, são os ascendentes dos escoceses modernos.

E já tem ideias para os próximos álbuns?

Ideias, tenho algumas. Mas a verdade é que o contrato que assinei foi só para este álbum. Vamos a ver como é que as coisas correm, como é que o livro é recebido… E depois, se a editora estiver interessada, também é preciso que eu arranje uma boa história que queira contar e que agrade ao editor. Sem estar entusiasmado com a história, não consigo trabalhar.

Qual é a diferença entre trabalhar numa série como Astérix, ou em projectos mais pessoais como a série Le Retour à la Terre, feita com o seu amigo Manu Larcenet.

São coisas diferentes. Com um personagem que eu criei, sou eu que comando o jogo. No caso de Astérix, não me sinto inteiramente responsável pelo universo da série. Astérix já existia, não fui eu que o criei. As regras do jogo são outras. É um desafio muito particular.

Está em Lisboa para o lançamento de uma colecção de álbuns de Astérix, que vai ser distribuída com o jornal Público. Que pensa deste tipo de iniciativas?

Acho que estas colecções vêm de encontro à vocação da Banda Desenhada, que é chegar ao grande público. Na minha infância, lembro-me que os álbuns de Lucky Luke eram vendidos em edição de capa mole, mais baratas e isso funcionava muito bem! E acho que no caso do Astérix também vai funcionar bem. Os colecionadores têm as edições normais em capa dura e estas edições chegam a um público mais alargado. Além disso, juntar as histórias de viagem todas numa mesma colecção é uma boa ideia!


Até agora, a presença dos Lusitanos na série Astérix limitou-se a um escravo no álbum o Domínio dos Deuses, que não sabia cantar, mas recitava poesia. Será que vamos ver algum dia Astérix na Lusitânia?

Astérix na Lusitânia é um bom título para um álbum. Soa mesmo a um título de Astérix! Já vi algumas sugestões nesse sentido na Internet.
E porque não? Mas para isso preciso de conhecer Portugal. Esta é a primeira vez que aqui venho e não vou ter tempo para ver grande coisa. Tenho que voltar com tempo, conhecer o país e arranjar uma história que justifique a visita de Astérix.
Versão integral da entrevista publicada no suplemento Fugas do jornal Público de 19/10/2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Sangue e as Cinzas


Um dos períodos mais fascinantes da História da Humanidade, o Império Romano tem sido fonte de inspiração constante para os autores franco-belgas de BD. Basta pensar em séries como “Alix”, ou até mesmo “Astérix”, cuja acção se situa durante o governo de Júlio César. Mas, com a excepção desses clássicos, nas últimas décadas a Roma imperial deixou gradualmente de ser cenário habitual de aventuras, tanto na BD como no cinema. Se no cinema, o sucesso de um filme como “O Gladiador”, de Ridley Scott parece ter ressuscitado o “Peplum”, já na BD esse regresso dá-se mais cedo, em 1998, com “Murena”, a série de Dufaux e Delaby, que a Asa continua a editar no mercado nacional, tendo conseguido “apanhar” a edição francesa, com a publicação quase simultânea neste Verão dos tomos 8 e 9.
Argumentista de séries como “Rapaces” e “Jessica Blandy”, Dufaux já tinha tentado uma incursão pela BD histórica com a série “Giacomo C.”, passada na Veneza do século XIX, mas este “Murena” é claramente a sua aproximação mais feliz ao género e um dos seus trabalhos mais consistentes. Embora aqui, para além do talento narrativo de Dufaux, cuja eficácia é inquestionável, há também que contar com a grande riqueza do material que lhe serve de inspiração, pois a história do Império Romano, com todo um cortejo de sexo, violência, intrigas palacianas e corrupção, tem todos os ingredientes para prender o leitor, mais facilmente até do que uma história de ficção.

E “Murena”, aproveita muito bem o pano histórico em que se desenrola a acção, introduzindo personagens ficcionais num contexto histórico real, que acaba por ser o mais interessante da narrativa inventada por Dufaux, em que a lenda se apoia na História. Nesse aspecto, o jovem Murena, filho de Lola Paulina, a amante do Imperador Cláudio, que dá nome ao livro, revela-se um personagem muito menos interessante do que a personagem real de Agripina, a mãe de Nero, que tudo fez para colocar o seu filho no trono de Roma, ou do que o próprio Nero, em grande destaque nos mais recentes volumes da série.
E os dois últimos volumes centram-se precisamente no grande incêndio que quase destruiu Roma e que a lenda (e o romance “Quo Vadis” e o filme que o adapta) atribuiu a Nero, mas que nesta história resulta de um acto acidental de Lucius Murena.
Mas se a autoria do incêndio de Roma nunca foi provada, sendo um acidente a hipótese mais provável, a verdade é que o incêndio criou o pretexto ideal para uma perseguição aos cristãos, que o Imperador Nero não soube, não quis, ou não pode evitar. Por isso, mais do que Murena, é São Pedro que assume o protagonismo neste nono volume, que culmina com o seu martírio.

A eficácia do argumento de Dufaux tem correspondência, em termos gráficos, no traço clássico e pormenorizado de Philippe Delaby, um desenhador belga, com grande traquejo em termos de BD histórica (logo em 1994 ganhou o Prémio Clio atribuído pelo Salon Historique de Paris, com o álbum “Richard Coeur de Lion”, escrito pelo veterano Yves Duval) cujas páginas revelam um sólido trabalho de documentação e um apurado sentido narrativo. E, para quem acompanha a série deste o início, é evidente o modo como o traço de Delaby foi ganhando leveza, personalidade, e um espectacular sentido de composição, que brilha a grande altura no volume oito, dedicado ao incêndio de Roma. Não restam grandes dúvidas que Delaby é um dos grandes desenhadores realistas da actualidade, e o seu trabalho em “Murena”, onde é muito bem secundado pelo excelente trabalho de cores de Sebastien Girard, é a prova disso mesmo.
Agora que a edição portuguesa está finalmente a par com a original francesa, seria bom que a Asa reeditasse os volumes 1 e 2 da série, há muito esgotados, para que mais leitores possam descobrir uma das grandes séries franco-belgas das últimas décadas.
(“Murena 8: A Vingança das Cinzas”, de Dufaux e Delaby, Edições Asa, 56 pags, 16,50 €
“Murena 9: Espinhos”, de Dufaux e Delaby, Edições Asa, 48 pags, 16,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 14/09/2013

sábado, 20 de abril de 2013

Oh, Miúdas!. O regresso de Lepage




Depois do díptico “Muchacho”, que lhe valeu o Prémio de Melhor álbum, com uma exposição e consequente passagem pelo Festival da Amadora, Lepage regressa às livrarias portuguesas com “Oh, Miúdas!”, uma história publicada originalmente em duas partes, que as Edições Asa reuniram num único volume de pequeno formato.


Desta vez Lepage troca os cenários exóticos da América do Sul, e as cores garridas da natureza selvagem, presentes em “A Terra sem Mal” e “Muchacho”, os seus trabalhos anteriores, pelas ruas de uma Paris cinzenta, numa história mais intimista, que acompanha a vida de três raparigas de diferentes estratos sociais, desde o seu nascimento, até à idade adulta. Uma história, escrita pela sua ex-companheira, Sophie Michel que, nas palavras do próprio Lepage, “permitiu surpreender-me, a mim e aos leitores”. Leila, filha de imigrantes árabes, Clhoe, com uma mãe divorciada e sem grandes meios, e Agnés, nascida numa família da alta burguesia, mas criada pela ama portuguesa, vêm de meios sociais diferentes e têm histórias de vida diversas, o que não as impede de criarem uma sólida amizade, que resistirá ao tempo e aos diferentes problemas que as afectam.

Naturalmente, ao trocar a aventura em cenários exóticos, por uma história do quotidiano, centrada em personagens femininas, o resultado final tinha que ser visualmente menos espectacular, como de facto é. Mas mesmo com essa mudança de registo, não restam dúvidas de que Lepage é um grande desenhador e um notável colorista, que domina perfeitamente a linguagem da BD, estando tão à vontade nas cenas de movimento, como a transmitir emoções através de um simples olhar, ou de um sorriso, ou uma careta. Em termos narrativos, vejam-se duas sequências exemplares protagonizadas por Leila, em que as imagens contam a história sem necessitarem de qualquer texto de apoio: na página 16, em que Leila apaga e acende a luz, ao mesmo ritmo que a irmã vai sendo espancada pela polícia; e na página 61, a preparação do corpo da mãe de Leila segundo os rituais islâmicos, para o funeral.

Quanto à edição da Asa, bem impressa, num papel amarelado que se adapta às belas cores de Lepage, tem a vantagem de agrupar num único livro, os dois volumes da edição original francesa da Futuropolis. O grande problema é o formato em que o livro foi impresso. Um tamanho inferior ao dos comics americanos, que implica uma grande redução do desenho de Lepage. E é fácil de ver que o belo desenho de Lepage merecia outro formato. Uma formato que, não sendo o formato original, podia muito bem ser o formato que a Asa usa para a nova edição da série “Tintin”, que implica uma redução menor em relação à edição original.

(“Oh, Miúdas!”, de Emmanuel Lepage e Sophie Michel, Edições Asa, 128 pags, 21,90 €) Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 20/04/2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Evocando Comés (1942-2013)


Como os visitante mais regulares deste espaço terão reparado, nos últimos tempos têm sido poucas as actualizações neste blog. Mas, apesar da falta de tempo para um texto mais desenvolvido, não quis deixar de evocar a memória de Didier Comés, desaparecido hoje, aos 71 anos, vencido pela doença que já há alguns anos o impedia de desenhar. CAdmirador confesso de Hugo Pratt, Comés foi mestre do preto e branco e um dos grandes nomes da revista (A Suivre) onde saíram os seus títulos mais importantes, incluindo o magnífico "Silêncio", que foi uma das leituras mais marcantes da minha adolescência, graças a uma edição da Bertrand. Mais tarde, a Asa reeditou "Silêncio", a cores e em dois volumes. É o texto que escrevi sobre essa edição, há mais de 10 anos, que hoje aqui recupero, prestando assim a minha modesta homenagem a Comés (que na foto acima, tirada no último Festival de Angoulême, aparece ao lado de outro mestre do preto e branco, o argentino José Muñoz, naquela que foi a sua última aparição pública) e ao seu livro mais marcante.

UM IRREPETÍVEL SILÊNCIO

Se há obras que marcaram toda um geração de leitores, “Silêncio” é indiscutivelmente uma delas. Publicada inicialmente em 1979 na revista (A Suivre), este “Roman BD” de Didier Comés, seria publicado em álbum em Portugal, alguns anos depois, através da Bertrand que, num mercado onde os álbuns de 48 páginas a cores ditavam a lei e o virtuosismo do preto e branco de Hugo Pratt ainda não convencia totalmente os leitores da revista “Tintin”, arriscou publicar uma história a preto e branco com mais de uma centena de páginas, assinada por um autor praticamente desconhecido.

Mas este “Silêncio” merecia o risco, graças a uma história sensível e de uma terna melancolia, sobre um jovem mudo e deficiente mental cuja inocência choca com a intriga e a perversidade da aldeia perdida da França profunda em que vive. Através de uma descrição desencantada da França rural, em que a ignorância e obscurantismo se misturam com a magia e a superstição, Comés criou uma intriga inesquecível, em que os traumas da perda da inocência se misturam com os prazeres da descoberta do amor, servida por um grafismo de poderoso contraste em que as sombras da obra do seu mestre Hugo Pratt eram bem evidentes, até no melancólico final em que os dois amantes mortos entram pelo mar adentro, rodeados por gaivotas que podiam ter saído de uma página do autor de Corto Maltese.

Depois de “Silêncio”, a obra de Comés continuou a ser divulgada em Portugal de forma regular, pela Meribérica, através de uma série de livros, como “A Árvore-Coração” e “A Casa onde as Árvores Sonham”, em que o autor belga, fiel às suas obsessões (os ambientes rurais, as religiões primitivas, a magia telúrica, ligada ao culto da natureza e aos rituais de fertilidade) procurou em vão repetir a magia de “Silêncio” sem nunca o lograr totalmente. “As Lágrimas do Tigre”, o mais recente título de Comès, que a Asa acaba de lançar em português neste início de 2003, é um bom exemplo. Apesar da notável técnica de preto e branco de Comès, da elegância de um traço cada vez mais seguro e apurado e do rigor da planificação, falta a esta adaptação de uma lenda índia, aquela magia única e irrepetível que encontramos em “Silêncio”. Uma magia que toda uma nova geração de leitores poderá descobrir através da reedição colorida em dois volumes, com que a Asa assinala a entrada no seu catálogo cada vez mais forte.

Esta moda de reeditar alguns clássicos da BD a preto e branco, em novas versões coloridas e divididas em vários volumes, parece ter pegado nas Edições Casterman, que assim rentabilizam um valioso fundo de catálogo que inclui algumas obras-primas da BD franco-belga dos anos 80, como este “Silêncio”, ou “O Grande Poder de Chninkell”, de Rosinski e Van Hamme, que a Meribérica está também a publicar numa nova versão colorida. Uma opção comercial válida, mas que não deixa de ter os seus detractores, para quem estas reedições coloridas não passam de uma forma descarada de vender duas vezes o mesmo produto.


E a verdade é que, mesmo que as novas cores, bastante suaves, não choquem muito, ao ver um clássico destes adulterado, para quem conhece a versão original, fica sempre um sentimento purista de frustração, semelhante ao que terá um cinéfilo perante a versão colorida de um filme como “Casablanca”.
 No fundo, é o mesmo problema colocado pelas reedições a cores dos trabalhos de Hugo Pratt que, não convencendo completamente os adeptos do excelente jogo de sombras de Pratt, tem no entanto o grande mérito de atrair novos leitores, para quem a cor é um elemento imprescindível da BD.
 Mas, a cores ou a preto e branco, o importante é que o livro está novamente disponível em Portugal, de modo a que mais leitores possam descobrir finalmente o encanto (até agora irrepetível) de “Silêncio”.


Texto originalmente publicado no Diário As Beiras de 22/02/2003

sábado, 5 de janeiro de 2013

Blake e Mortimer: O Juramento dos Cinco Lords


Como vem sendo hábito, o final do ano viu chegar às livrarias mais um álbum, o 21º, da série “Blake e Mortimer”, que a Asa editou em Portugal quase em simultâneo com a edição no mercado francófono. Quinto álbum assinado pela dupla Yves Sente e André Juillard, “O Juramento dos Cinco Lords” traz de volta os heróis mais “british” da BD franco-belga, para mais uma aventura, desta vez tendo como cenário a universidade de Oxford.

Tendo como modelo a fase áurea de Jacobs, entre os álbuns “A Marca Amarela” e “S.O.S. Meteoros”, a série prossegue a evolução na continuidade, alternando os álbuns escritos por Yves Sente, com os de Jean Van Hamme. Embora respeitando escrupulosamente o “caderno de encargos”, Sente não deixa ainda assim de apresentar algumas novidades neste álbum, como a mudança de cenário, trocando os cenários exóticos pela britânica cidade de Oxford, a ausência de Olrik, o eterno inimigo da dupla de aventureiros, ou o desenvolvimento de aspectos menos conhecidos do passado de Francis Blake, tal como tinha feito com Mortimer em “Os Sarcófagos do 6º Continente”.
Desta vez, ficamos a conhecer os primeiros tempos do Capitão Blake nos Serviços secretos ingleses e a sua participação involuntária na morte de T. E. Lawrence, o mítico Lawrence da Arábia. E é precisamente a memória de Lawrence da Arábia que marca toda esta história de vingança que se abate sobre um grupo de cinco antigos alunos de Oxford. Uma história escorreita e bem contada, onde estão completamente ausentes os elementos fantásticos e de ficção científica, por isso, mais próxima dos policiais à inglesa de Agatha Christie, do que das histórias clássicas de Jacobs. Uma mudança agradável, que confirma Sente e Juillard como os mais sólidos continuadores da série, mesmo que o talento gráfico de Juillard brilhe muito mais quando não tem que imitar Jacobs (algo que não é tão fácil como parece, que o digam os vários desenhadores com quem Van Hamme já trabalhou na série) e se limita a ser ele próprio.
A continuação das aventuras de Blake e Mortimer, após a morte de Jacobs foi ditada por razões meramente comerciais. Mas a verdade é que a aposta deu certo e mesmo os álbuns de Jacobs vendem mais agora do que quando ele era vivo. É um negócio em que todos ganham: o editor, os autores, que vendem bem mais do que com as suas séries habituais e os leitores, que têm a oportunidade de reencontrar os seus heróis favoritos. E, enquanto as aventuras de Blake e Mortimer pós-Jacobs, tiverem a qualidade média deste “Juramento dos Cinco Lords”, não sou eu que me vou queixar…
(“Blake & Mortimer: O Juramento dos Cinco Lords”, de Yves Sente e André Juillard, Edições Asa, 64 pags, 14,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 04/01/2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Schuiten regressa com 12: A Doce


Uma das novidades da Asa para esta “rentrée” foi o regresso de Schuiten às livrarias portuguesas, desta vez assinando a autoria completa de uma história fora do universo das Cidades Obscuras, centrada na relação de um velho mecânico com a sua locomotiva, a mítica 12, uma poderosa e velocíssima locomotiva a vapor de linhas arrojadas, de que apenas se construíram seis exemplares, nos finais dos anos 30 e que o advento dos comboios electricos e a falta de metal durante a II Guerra Mundial, que levou à destruição de cinco das seis locomotivas produzidas, atiraria para o esquecimento, de que Schuiten a veio resgatar.
É precisamente a última dessas lendárias máquinas, a 12.004, cujo “design” futurista não destoaria num álbum das Cidades Obscuras, que Schuiten escolheu para protagonista do seu primeiro álbum a solo. Uma consequência do envolvimento de Schuiten no projecto de cenografia do futuro Museu dos Caminhos de Ferro Belgas, a abrir proximamente em Bruxelas, de que a 12 é uma peça central. Antes de mais, convém descansar os leitores mais inquietos, pois este livro não significa o fim da colaboração entre Schuiten e Peeters, nem das suas incursões pelo universo das Cidades Obscuras. Foi apenas uma pausa ocasional no percurso comum da dupla, motivada por uma momentânea falta de disponibilidade de Peeters, para colaborar com o seu amigo e cúmplice de mais de quatro décadas, que levou Schuiten a contar sozinho esta história.
Uma história que em termos de estrutura e de personagens, não difere muito dos álbuns das Cidades Obscuras, com um homem mais velho e solitário, neste caso, o maquinista Léon Van Bel, cujo quotidiano cinzento é perturbado pela chegada de uma mulher mais nova e rebelde, que nesta história é Elya, uma jovem muda. Ou seja, se não fosse a ausência de elementos fantásticos, aqui circunscritos aos sonhos de Van Bel, este poderia ser perfeitamente um álbum das Cidades Obscuras, a que faltasse o toque literário dos diálogos de Peeters, pois se as histórias são criadas a meias, em constante diálogo, Peeters introduz outra profundidade no resultado final, graças aos seus diálogos.
Já em termos gráficos, Schuiten está ao seu melhor nível e completamente apaixonado pelas linhas aerodinâmicas da 12, que é a verdadeira protagonista da história. Uma história em que a sua apurada técnica de preto e branco, próxima da gravura, remete graficamente para alguns volumes das Cidades Obscuras, como “A Torre”, ou “A Criança Inclinada”, com páginas magníficas que confirmam todo o virtuosismo de um dos maiores mestres da Banda Desenhada europeia.

Em suma, mesmo que a falta de Peeters se faça notar um pouco em alguns momentos, este “12: A Doce”, não deixa de ser absolutamente indispensável para os fãs da dupla, que já nos deu obras-primas, como “A Febre de Urbicanda”, ou “A Fronteira Invisível”.
(“12: A Doce”, de François Schuiten, Edições Asa, 88 pags, 21,90 €)