Mostrar mensagens com a etiqueta Neal Adams. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Neal Adams. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Batman 80 Anos 10 - Batman: 80 Anos de Aventuras

DE BOB KANE A TOM KING: 80 ANOS EM 8 HISTÓRIAS

80 Anos de Batman Vol 10
Batman: 80 Anos de Aventuras
Argumento – Vários Autores
Desenhos – Vários Autores
Quinta, 25 de Abril
Por + 11,90 €
A terminar com chave de ouro a colecção dedicada aos 80 anos de aventuras do Cavaleiro das Trevas, temos um volume antológico criado em exclusivo para esta colecção, que chega aos quiosques de todo o país no próximo dia 25 de Abril. Uma data simbólica para uma edição também simbólica, pelo modo como cobre o passado, presente e futuro do Homem-Morcego, em oito histórias representativas de diferentes fases da personagem.
Uma viagem no tempo, que começa com a origem do Batman pelos seus criadores originais, Bob Kane e Bill Finger, publicada em 1940 no nº 1 da revista Batman e prossegue pela fase de Sheldon Moldoff, através de Robin Morre ao Amanhecer, uma história escrita por Bill Finger, bem representativa do Batman dos anos 50 e 60, com intrigas mais próximas da ficção científica do que do policial e o alargar da Batfamília, aqui representada por Ace, o Batcão. A antologia continua com o regresso à dimensão mais sombria do Cavaleiro das Trevas nos anos 70, representada por duas histórias ilustradas por Neal Adams e Jim Aparo. A primeira, A Casa que Assombrou Batman, é escrita por Len Wein, o criador do Monstro do Pântano, apresentando um clima sobrenatural para uma intriga que tem uma explicação racional, mas que assenta como uma luva ao realismo heróico de Neal Adams, aqui contando com o veterano Dick Giordano na arte-final. Já O Cadáver que se Recusava a Morrer, traz-nos um dos melhores momentos da dupla Bob Haney/Jim Aparo na revista The Brave and the Bold, numa história em que um Batman em morte cerebral conta com a ajuda do Átomo para salvar uma mulher em perigo.
A Noite não tão Silenciosa da Harley Quinn é um pequeno divertimento de Natal escrito por Paul Dini, o criador da Harley Quinn e (muito bem) ilustrado por Neal Adams, que assim está presente nesta antologia com duas histórias separadas por mais de 40 anos.
Quem também repete a dose é Tom King, o actual escritor da principal revista do Cavaleiro das Trevas. Antes de se tornar um escritor premiado, com romances na lista de best-sellers do New York Times, Tom King trabalhou como agente da CIA, como oficial de operações de contra terrorismo, tendo estado destacado no Iraque após a queda de Saddam Hussein, experiência que lhe serviu de inspiração para o livro O Xerife da Babilónia, já publicado em Portugal pela Levoir. Tendo tido a ingrata missão de substituir Scott Snyder como escritor da revista principal do Batman, King tem-se saído com distinção desse desafio, conquistando tanto o público como a crítica, através de histórias plenas de humanidade, como as duas que fecham o último volume desta colecção. Alguns Desses Dias, em que King conta com a arte de Lee Weeks e Michael Lark, é uma belíssima história de amor. O amor entre Batman e a Catwoman, desde o seu primeiro até ao último beijo. Já em Força Verdadeira, uma pequena pérola de apenas três páginas, King conta com o basco Mikel Janin, um dos desenhadores habituais da série mensal, para explicar ao leitor o que realmente faz de Batman um herói.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/04/2019

quarta-feira, 15 de março de 2017

No Coração das Trevas DC 1 - Joker: O Príncipe Palhaço do Crime


O JOKER ABRE DESCIDA AO CORAÇÃO DAS TREVAS DA DC

No Coração das Trevas DC Vol 1
Joker: O Príncipe Palhaço do Crime
Argumento – Bill Finger, Denny O’Neil, Ed Brubaker e Andy Kubert
Desenhos – Bob Kane, Neal Adams, Dough Mahnke e Andy Clark
Quinta, 09 de Março, Por + 9,90 €
Depois de duas colecções dedicadas aos principais heróis da editora de Batman e Super-Homem, o Universo DC regressa a Portugal já na próxima quinta-feira com uma colecção de 10 volumes dedicados ao lado sombrio desse universo, com os vilões a ganharem o protagonismo que raramente lhes está reservado. Vilões como Sinestro, o Lanterna Verde renegado que se revolta contra aqueles que jurou servir, numa saga épica que é um momento fulcral da memorável ligação de Geoff Johns às séries protagonizadas pelo Gladiador Esmeralda; o Esquadrão Suicida, que regressa com uma formação mais próxima daquela que conhecemos no cinema; Apocalipse, a única criatura capaz de matar o Super-Homem e que volta a defrontá-lo para tentar repetir o feito; culminando com a tão épica como inesperada união de todos os vilões em torno de Lex Luthor, para impedir a destruição da nossa Terra pelos heróis de outra dimensão, em Mal Eterno, a história em duas partes, magnificamente ilustrada por David Finch, que fecha esta colecção.
Mas no centro desta colecção estão os vilões de Gotham. Vilãs como a Harley Quinn, a Hera Venenosa, ou a Catwoman e vilões como o Pinguim e Duas-Caras, para além naturalmente do Joker, que está presente em três dos volumes desta colecção, que começa precisamente com uma antologia dedicada ao Jogral do Genocídio, que acompanha a sua carreira de décadas, reflectindo as alterações que acompanharam a própria evolução do género.
No início, o Joker não passava de um assassino, que os próprios criminosos de Gotham temiam e queriam eliminar. Foi sob essa forma que surgiu em 1940, nas páginas do nº 1 da revista Batman como arqui-inimigo do Cavaleiro das Trevas. Surge na primeira história da revista, e reaparece logo na última, mostrando bem a sua resiliência e o seu futuro como vilão. Ao longo dos anos 50 e 60, o seu carácter mudou, talvez influenciado pelo Comics Code Authority, que pretendia suavizar a violência nos comics, ou talvez sob influência da série de TV com o seu toque algo burlesco. Caído algo em desgraça, ressurgiria finalmente em 1973, nas páginas da revista Batman nº 251, o segundo capítulo deste volume, pelas mãos de Denny O'Neil e de Neal Adams, em As Cinco Vinganças do Joker, sob a forma do homicida louco e psicopático que nos habituámos a adorar.
Em O Homem que Ri, a principal história desta antologia, é o Joker e (o então Tenente) Gordon quem vão estar no centro da acção, numa história que faz a ponte com dois títulos clássicos da bibliografia do Cavaleiro das Trevas: Batman Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli e Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, com Ed Brubaker a mostrar-se um digno sucessor do trabalho desenvolvido por Miller e Moore.
Começando imediatamente após Batman Ano Um, O Homem que Ri reinventa o primeiro confronto entre Batman e o Joker, desenvolvendo a personalidade dos diversos intervenientes, através do mesmo recurso usado em Ano Um de pôr o Batman e Gordon a narrarem a história alternadamente, um mecanismo característico da literatura policial, género que Brubaker domina perfeitamente.
Finalmente, e a encerrar, uma pequena história mais moderna, assinada por Andy Kubert, aqui surpreendentemente como argumentista, com desenho de Andy Clarke, em que vemos um relance do passado e infância do Joker.
Uma excelente antologia dedicada ao mais popular e carismático vilão da DC, assinada por grandes autores, que serve de ponto de partida ideal para esta viagem de dez semanas ao coração das trevas do Universo DC.
Publicado originalmente no jornal Público de 03/03/2017

segunda-feira, 21 de março de 2016

Super-heróis DC 7 - Super_Homem & Batman: Antologia

AINDA ANTES DO CINEMA, BATMAN E SUPER-HOMEM ENCONTRAM-SE NOS QUIOSQUES 

Super-Heróis DC Vol 6 Super-Homem & Batman: Antologia
Argumento – Vários Desenho – Vários 
Quinta, 17 de Março Por + 9,90 € 
Exactamente uma semana antes de se encontrarem pela primeira vez nos ecrãs de cinema, Batman e Super-Homem dividem o protagonismo no sétimo volume da colecção Super-Heróis DC, que chega aos quiosques na próxima quinta-feira.
Este volume antológico recolhe, por ordem cronológica, os principais encontros entre os dois mais populares heróis do Universo DC ao longo dos tempos. Criados respectivamente em 1938 e 1939, o Super-Homem e o Batman, apesar de partilharem a capa da revista World’s Finest Comics (que, como o próprio nome indica, recolhia aventuras a solo dos dois maiores heróis do Mundo), desde 1941, só se encontraram pela primeira vez numa BD em 1952, na história A Mais Poderosa Equipa do Mundo, de Ed Hamilton e Curt Swan, aventura que, não por acaso, abre o volume da próxima quinta-feira.
 Seguem-se duas histórias ilustradas pelo grande Neal Adams, nome bem conhecido dos leitores do Público, pois foi o desenhador de Batman: A Saga de Ra’s Al Ghul e Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida, dois clássicos incontornáveis, publicados na anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC. Um dos pontos altos desta edição é a história Ontem, Hoje e Amanhã, escrita por Geoff Johns em 2006, que revisita de forma nostálgica alguns dos momentos mais importantes da história dos dois heróis, interpretados no estilo original de cada um desses momentos por um naipe impressionante de artistas (que inclui nomes como Dick Giordano, George Pérez, Ethan Van Sciver, Adam Kubert, Ed Benes ou Dan Jurgens) que ao longo das décadas deixaram a sua marca nas aventuras dos dois heróis.
Depois de uma aventura escrita por Jeff Lemire, em que o Super-Homem e o Batman combatem ao lado de outro Super-Herói DC, o Átomo, chega outro momento imperdível deste volume: Se Calhar já Ouviram Esta…, uma tão divertida como delirante história, em que Joe Kelly e um punhado de artistas, actualizam e reinventam o primeiro encontro entre Batman e Super-Homem, tal como foi descrito em A Mais Poderosa Equipa do Mundo. A terminar, temos um breve momento de pura poesia de Jeph Loeb e Tim Sale, que imaginam o primeiro encontro entre Clark Kent e Bruce Wayne… que não chegou a ser, terminando em beleza este livro. Um volume antológico, recheado de grandes histórias, que permitirá aos leitores conhecer melhor o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas, antes do seu tão aguardado confronto nas salas de cinema.
Texto originalmente publicado no jornal Público de 11/03/2016

domingo, 22 de março de 2015

75 Anos do Batman 5 - Batman: 75 Anos de Aventuras


E com este 10º volume, o 5ª para o qual escrevi textos introdutórios, chega ao fim esta colecção dedicada aos 75 Anos do Cavaleiro Das Trevas, que permite ter novamente disponíveis algumas das melhores histórias de sempre do Batman, em belas edições. Esta foi também a colecção feita mais a correr, numa altura em que já começávamos a trabalhar na colecção das Novelas Gráficas. Mas julgo que o esforço valeu a pena e os fãs não se podem queixar, mesmo que inevitavelmente, haja sempre quem se queixe...

BATMAN, 75 ANOS DE AVENTURAS

Com esta recolha antológica de onze histórias de diferentes épocas, assinadas por alguns dos maiores nomes da história dos comics, concluímos esta viagem comemorativa dos 75 anos da criação do Batman. Criado por Bob Kane em 1939, com a colaboração de Bill Finger no argumento, na sequência do sucesso do Super-Homem de Jerry Siegel e Joe Schuster um ano antes, Batman é um dos super-heróis mais humanos e carismáticos de todos os tempos e um dos raros que não tem qualquer superpoder, funcionando quase como um negativo do Super-Homem. E é precisamente essa dimensão mais humana, que facilita a identificação dos leitores, um dos elementos que actualmente fazem do Batman o mais popular dos super-heróis.
Quando o descobrimos pela primeira vez, na história que abre este volume, publicada em 1939 no nº 27 da revista Detective Comics, Batman, o sombrio super-herói, está já no activo há algum tempo e a sua fama precede-o, enquanto o homem que se esconde por detrás da máscara, o milionário Bruce Wayne, tem uma participação mais discreta. E só largos meses depois, os leitores descobrem o que levou Bruce Wayne a transformar-se no vigilante vestido de morcego, através de um flash-back de duas páginas, publicado no # 33 da revista Detective Comics, que mostra como o assassinato dos pais do jovem Bruce Wayne levou o traumatizado órfão a consagrar a sua vida ao combate do crime, escolhendo a imagem do morcego para infundir terror a essas criaturas “medrosas e supersticiosas” que são os criminosos. Uma história que surge neste volume numa versão mais contemporânea, assinada por Jeph Loeb e Jim Lee.
O sucesso de Batman cedo lhe garantiu uma revista própria e, ao longo da década de 40, as aventuras de Batman começaram a aparecer também nas revistas Batman e World’s Finest Comics, para além da Detective Comics, que viria dar o nome à editora e onde tudo começou. É na revista Batman que vai aparecer pela primeira vez a jornalista Vicki Vale, uma intrépida repórter criada por Bob Kane, com o apoio de Bill Finger no argumento e de Charles Paris na arte, funcionando um pouco como a Lois Lane em relação ao Super-Homem. E é precisamente O Furo do Século, a história que assinala essa estreia, que este volume recolhe.
Com o aparecimento desses novos títulos, o grupo de colaboradores que rodeava Bob Kane, foi alargado a novos argumentistas e a desenhadores, para além de Bill Finger, como Sheldon Moldoff, Charles Paris, Jerry Robinson e Dick Sprang, autor cujo estilo único marcou a imagem do Homem-Morcego na década seguinte e que está presente neste livro com O Batman de Amanhã, história que explora o ambiente de ficção científica, tão em voga nos comics da década de 50.
Tal como a América, também o Batman vai mudar na década de 60. Esse processo, conhecido como “New Look”, culmina em Maio de 1964 com a mudança de imagem do herói, da qual o símbolo do morcego, que passa a surgir dentro de um círculo amarelo, é o exemplo mais imediato, mas que passa também pelo aparecimento de autores com um estilo mais elegante e realista como Carmine Infantino, aqui representado com a história que inaugurou essa mudança, publicada precisamente 25 anos e 300 nºs após a primeira aparição do Batman. O sucesso comercial deste “novo” Batman a que não é alheio o trabalho gráfico de Infantino, foi imediato e chamou a atenção do produtor William Dozier, que decidiu criar uma série de televisão dedicada ao Cruzado de Capa e que, quase 50 anos após a sua estreia, continua a marcar o imaginário de muitos leitores.
Na década de 70, Batman voltaria a aproximar-se do violento combatente do crime da fase inicial, graças ao trabalho da dupla Denny O’Neil/Neal Adams. Nessa América em mudança, é natural que os jovens leitores já não se identificassem com a versão kitsch do Batman que marcou a década de 60, de que a série televisiva com Adam West foi o expoente máximo em termos mediáticos. Daí a necessidade de criar um novo herói para uma nova era, um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores. Julius Schwartz, o editor da DC encarregado da personagem, sabia quem eram os homens certos para esse trabalho e optou por reunir novamente o escritor Denny O'Neil com o desenhador Neal Adams, depois da revolucionária passagem da dupla pela série Lanterna Verde/Arqueiro Verde, que os leitores puderam acompanhar na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC. E é precisamente a primeira colaboração da dupla numa história do Batman, que apresentamos neste livro.
Mas, no que ao Batman diz respeito, a década de 70 não se resume apenas ao trabalho de Neal Adams. Presentes neste volume estão dois outros mestres dos comics que desenharam o Batman nesta década. São eles Alex Toth, representado neste volume pela única história do Batman que desenhou ao longo da sua prestigiada carreira, e Marshall Rogers, ilustrador cujo estilo elegante e estilizado deu vida a uma imagem do Batman que à época foi considerada como “definitiva”. Mas como bem sabemos, “definitivo” é um termo difícil de aplicar a qualquer versão de um personagem que, como o Batman, se caracteriza por se saber adaptar ao pulsar do seu tempo. A prová-lo está a verdadeira revolução que chegaria em 1986, com Frank Miller e o seu Regresso do Cavaleiro das Trevas, já publicado nesta colecção. Mas já antes Miller tinha tido a oportunidade de desenhar o Batman em Procura-se: Pai Natal… morto ou vivo!,  uma tão singela como bem conseguida história de Natal, que não podia faltar nesta antologia.
Neste volume, há ainda espaço para uma história da década de 90, Crise de Identidade, uma perturbadora viagem pela mente de Bruce Wayne, assinada por Tom Mandrake e por Peter Milligan, argumentista inglês que deixou a sua marca na linha Vertigo. E, para fechar temos o magnífico J. H. Williams III, cujo fabuloso trabalho visual e de composição os leitores já conhecem do volume dedicado à Batwoman, da primeira colecção que a Levoir dedicou à DC e que aqui ilustra um inspirado argumento de Paul Dini, escritor que esteve em destaque em Detective, o sétimo volume desta colecção.
Mas esta história de 75 anos de sucesso não acaba aqui. Cada vez mais popular, o Cavaleiro das Trevas soube renovar-se, tanto na BD, como no cinema, ou nos jogos de computador. Nos comics essa renovação atingiu todo o universo DC, que através da Linha Novos 52, foi actualizado para o século XXI. A esse nível, é impossível não citar o excelente trabalho de Scott Snyder e Greg Capullo na principal revista do Batman. Mas essa, já é uma outra história que, quem sabe, talvez possamos vir um dia a acompanhar, em português de Portugal, numa nova colecção da Levoir.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Batman no CNBDI na próxima quinta-feira


Este mês, nas habituais Às Quintas falamos de BD, os 75 anos de Batman vão estar em destaque.
Eu vou lá estar, em muito boa companhia de José de Freitas e Luís Salvado, para abordarmos a história do mais carismático super-herói dos Comics americanos. Da importância de Bill Finger e Jerry Robinson na criação do universo de Batman, aos contributos de Neal Adams e Frank Miller na sua modernização, passando pela sua presença na televisão e no cinema, até à tardia chegada aos quiosques e livrarias nacionais, tudo será tratado. Vai ser a partir das 21h de quinta-feira, dia 27 de Março, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, na Amadora. Apareçam!

sábado, 14 de setembro de 2013

DC Comics UNCUT 10 - Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida


De todos os volumes desta colecção, este é o meu favorito! Também por isso, para além da selecção das histórias e do editorial, fiz questão de traduzi-lo. O editorial não sofreu qualquer alteração por parte da DC, pelo que a maior limitação foi mesmo o espaço disponível, que não me permitiu falar deste punhado de histórias incontornáveis, com o desenvolvimento que justificam. Espero vir a fazê-lo brevemente.

OS TEMPOS ESTÃO A MUDAR

The Times They Are a-Changin', cantava Bob Dylan em 1964 no tema título do seu terceiro álbum. E nos anos seguintes, um pouco por todo o lado, esses sinais de mudança tornavam-se cade vez mais evidentes. Os EUA estavam envolvidos na Guerra do Vietnam, de onde só sairiam, derrotados, em 1973. O reverendo Martin Luther King Jr., opositor declarado à guerra no Vietnam, que em 1964 tinha ganhado o Prémio Nobel da Paz, pelo seu combate não violento contra a discriminação racial, é assassinado em Memphis, no Tennessee, em Abril de 1968. Precisamente um mês antes de estalar em Paris uma revolta estudantil que pretendia levar “a imaginação ao poder”. Um mês depois, a 5 de Junho, em Los Angeles, o Senador Robert Kennedy, que seguindo as pisadas do irmão, se tinha candidatado à presidência dos E.U.A., tem o mesmo destino de John F. Kennedy, sendo assassinado a tiro, abrindo o caminho para a vitória de Richard Nixon nas Presidenciais, em Novembro desse ano.

Apenas os super-heróis não se apercebiam dos problemas de um mundo em convulsão, continuando a combater as mesmas ameaças galácticas, derrotando pela enésima vez os mesmos vilões fantasiados, não se dando conta que o mundo à sua volta estava a mudar. Até que em 1970, o lendário editor Julius Schwartz, um judeu de Nova Iorque apaixonado pela ficção científica e pela fantasia, tendo sido agente de escritores como Ray Bradbury e Robert Bloch, se lembrou de entregar o destino da revista Green Lantern, título então à beira do cancelamento devido às fracas vendas, nas mãos do argumentista Denny O’Neil.
O’Neil, que além de escritor tinha trabalhado como jornalista, procurou trazer para a Banda Desenhada uma mistura de ficção e jornalismo, na linha dos escritores que admirava, os “novos jornalistas” como Norman Mailer, Truman Capote e Hunter S. Thompson e a série Green Lantern podia ser o terreno ideal para essa experiência, de trazer temas do quotidiano socialmente relevantes para um universo dominado pela fantasia.
Como o próprio refere, na introdução a uma reedição da série, em 2004: “O que aconteceria se puséssemos um super-herói num cenário real, tendo que lidar com problemas da vida real? Comecemos pela personagem. O Lanterna Verde era, para todos os efeitos, um polícia. Um polícia incorruptível, obviamente, com intenções nobres, mas um polícia, um cripto-fascista: cumpria ordens, exercia a violência de acordo com as instruções dos seus superiores, cuja autoridade nunca questionava. Se assistia a alguma infração à lei, o seu instinto dizia-lhe para atacar quem não cumpriu a lei, sem se interrogar quanto aos seus motivos. Não foi essa mentalidade que mandou as tropas americanas para a Coreia e o Vietnam? (…) Não é que o Lanterna Verde fosse mau (…) ele apenas nunca teve nenhum motivo para duvidar das suas motivações. Aqui estava um bom ponto de partida. Ia dar-lhe dúvidas.

Enquanto magicava em possíveis histórias, apercebi-me que o Lanterna Verde necessitava de um parceiro, alguém com quem discutir. O Arqueiro Verde era a escolha lógica e não só por causa dos nomes. O Arqueiro Verde era o “bombeiro de serviço” dos heróis da DC. Andava por aí desde 1941, mas nunca foi suficientemente popular para ter uma revista própria. (…) Tirei partido dessa existência fluida numa história da Liga da Justiça, fazendo-o perder a sua fortuna e com isso arrastar os seus amigos para uma crise. Tive autorização para fazer isso porque nenhum dos editores se parecia preocupar muito com ele; ninguém estava minimamente interessado no que acontecia ao Arqueiro Verde. Por coincidência, Neal Adams, tinha alterado a sua aparência, redesenhado o seu uniforme, e acrescentado uma barba, numa história para a revista Brave & Bold, escrita por Bob Haney. Assim, o Arqueiro Verde já tinha um uniforme novo e um estatuto social diferente. Porque não dar-lhe também uma nova personalidade, especialmente porque a antiga era tão indefinida que ninguém sabia bem qual era? Ele podia ser um anarquista saudável e com pelo na venta, em contraste com o calmo e cerebral cidadão-modelo que era o Lanterna Verde. Formariam as duas partes em diálogo sobre os assuntos que decidíssemos abordar nas histórias”.
Embora O’Neil tenha escrito a primeira história pensando que seria o veterano Gil Kane, então o desenhador regular da série, a desenhá-la, Schwartz decidiu entregar essa missão ao jovem Neal Adams, que tinha feito um excelente trabalho ao criar o novo uniforme do Arqueiro e o resultado só veio confirmar a visão de Schwartz na escolha dos autores certos para cada herói.

Vindo da ilustração e da publicidade, Neal Adams concilia o dinamismo próprio dos comics de super-heróis, com um hiper-realismo no tratamento das feições, que se revela extremamente adequado a uma série que introduz os problemas da sociedade moderna, num universo de ficção heroica. Ao longo do livro qua vão ler, são inúmeros os exemplos da excelência do traço dinâmico de Adams e do seu notável talento narrativo. Mas detenhamo-nos apenas numa sequência da primeira história, uma sequência de três quadrados, dos mais reproduzidos da história da BD, em que um velho negro confronta o Lanterna Verde com a sua passividade face ao racismo. A cena passa-se no terraço de um prédio em ruinas, mas esse cenário, mostrado na página anterior, está ausente desta sequência, pois só iria distrair os leitores da importância do diálogo. Em vez disso, a cor dos fundos, diferente nos três quadrados, transmite emoções, desde a raiva do velho negro, simbolizada pelo fundo vermelho, até o desmoronar das certezas do Lanterna Verde, que o fundo cinzento e cheio de ruído, tal como a sua postura, de um homem abatido e envergonhado, bem traduzem.
E, mesmo que o talento de Adams fale por si, não resisto a citar mais uma vez O’Neil, a propósito da arte de Neal Adams: “ele é um indivíduo imensamente talentoso, com uma abordagem própria à arte da Banda Desenhada. No fundo é um realista cuja imaginação consegue esticar os parâmetros das coisas-tal-como-são, de modo a incluir o extravagante e o fantástico. “Se os super-heróis existissem”, disse-me uma vez, “tinham que se parecer com os meus desenhos”.
Nas histórias de Adams e O’Neil, o Lanterna Verde vai trocar os combates intergalácticos a que estava habituado, pela realidade da América profunda, que percorre na companhia do Arqueiro Verde e de um dos guardiões. Uma América onde há racismo, trabalho escravo e a lei protege os corruptos. Uma América que chora a morte dos Kennedy e de Luther King, com uma juventude que procura fugir à ameaça real da guerra do Vietnam refugiando-se na droga. Tudo temas controversos, aqui tratados de forma directa e sem grandes subtilezas. Veja-se o famoso díptico de histórias dedicado ao problema das drogas, em que o Arqueiro Verde descobre que o seu pupilo Speedy, é viciado em heroína. Para além do inesperado de ver um super-herói, mesmo júnior, entregue a um vício mortal, há ainda a posição pouco confortável do Arqueiro Verde, demasiado ocupado a tentar mudar o mundo para se aperceber do drama que tinha em sua casa. Uma história incontornável, que representou um verdadeiro choque para os leitores da época e trouxe a Banda Desenhada para as primeiras páginas dos jornais, para além de ter motivado uma carta de agradecimento do Presidente da Câmara de Nova Iorque, pela forma realista e responsável como um tema tão importante para a juventude, foi tratado.

Nesta série, que embora escrita e publicada no início da década de 70, está firmemente ancorada na década de 60, não falta uma homenagem a Bob Dylan e aos cantores de protesto, através da personagem de Johnny Walden, cuja música incentiva os habitantes de Desolation, uma pequena aldeia mineira, a lutarem contra o dono da mina que os escraviza. Memorável é também a história que encerra este volume, em que a figura de Jesus Cristo é actualizada para o século XX, através de Isaac, um líder ecologista disposto a morrer pelos seus ideais, que acaba crucificado na asa de um avião.
Apesar do impacto que a série teve, e da qualidade e da relevância das histórias que publicaram, a colaboração da dupla limitou-se a apenas doze números, os nºs 76 a 89 da revista Green Lantern publicados entre 1970 e 1972, para além de quatro histórias curtas, publicadas como complemento na revista Flash, entre 1973 e 1974. O seu esforço não foi suficiente para salvar a revista, que foi cancelada no nº 89. Mas então a dupla já estava mais centrada noutra aventura. Reformular o Batman, em histórias inesquecíveis, como as que tivemos o privilégio de ler no volume anterior desta colecção.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

DC Comics UNCUT 9 - Batman: saga de Ra's Al Ghul


Este volume, que é um dos meus favoritos da colecção, deveria logicamente ter publicado primeiro do que Herança Maldita, o vol 2 da colecção, cuja acção não só é posterior, mas deriva directamente dos acontecimentos narrados neste volume, mas por razões comerciais, a DC achou melhor publicar primeiro a história em que Batman conhece e treina o seu filho, do que a saga em que conhece Talia, a mãe do seu filho e esse filho é gerado... Por isso, se por acaso ainda não leram nenhum dos volumes, sugiro que comecem por este e só depois leiam o Herança Maldita...


BATMAN CONTRA O DEMÓNIO

Se quisermos encontrar a palavra que melhor define a passagem de Neal Adams e Denny O'Neil pela série Batman, entre os finais dos anos 60 e inícios da década de 70, essa palavra será mudança. Uma palavra que traduz bem o zeitgeist (espírito da época) de uma América a braços com a guerra do Vietname e a ainda a recuperar do pesadelo da morte de Kennedy, que assinalou o princípio do fim do sonho americano, que o escândalo de Watergate que levou à demissão de Nixon em 1974, enterraria de vez.
Nessa América em mudança, é natural que os jovens leitores já não se identificassem com a versão kitsch do Batman que marcou a década de 60, de que a série televisiva com Adam West foi o expoente máximo em termos mediáticos. Daí a necessidade de criar um novo herói para uma nova era, um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores. Julius Schwartz, o editor da DC encarregue da personagem, sabia quem eram os homens certos para esse trabalho e optou por reunir novamente o escritor Denny O'Neil com o desenhador Neal Adams, depois da revolucionária passagem da dupla pela série Lanterna Verde/Arqueiro Verde, de que poderemos ler uma selecção dos melhores episódios no próximo volume desta colecção.

Se Adams, com o seu traço único, que alia um realismo fotográfico a uma planificação dinâmica e espectacular, já tinha desenhado e modernizado a imagem de Batman na série The Brave And the Bold, ilustrando histórias de Bob Hanney, O'Neill, que começou a sua carreira como repórter especializados em assuntos criminais, vai introduzir uma série de alterações na vida da personagem, que farão com que os leitores percebam que estão perante um novo Batman, um Batman diferente. Para além do tom das histórias, mais sombrias e realistas, essas mudanças passam pela ida de Robin para a Universidade de Hudson, colocando fim ao duo dinâmico e levando Bruce Wayne a trocar a Mansão Wayne, demasiado grande para ele e o seu mordomo Alfred viverem lá sozinhos, por um luxuoso apartamento com terraço no centro de Gotham. Mas, a mais importante de todas essas mudanças e aquela que nos interessa especialmente foi o aparecimento de um novo inimigo do Batman, um inimigo diferente, sem uniformes vistosos, ou superpoderes, mas com os meios, a motivação e o intelecto que lhe permitem afirmar-se como uma tremenda ameaça para o Cavaleiro das Trevas. Esse vilão é Ra's Al Ghul.
Com um nome de origem árabe, sugerido por Schwartz, que numa tradução literal significa "cabeça do demónio", Ra's Al Ghul revela-se um adversário poderoso, com a perspicácia e os meios que lhe permitem descobrir a identidade secreta de Batman. Um homem a quem o Poço de Lázaro, dispositivo que lhe permite regenerar o corpo, dá uma espécie de imortalidade, e que está obcecado com a sua missão de transformar o mundo decadente que o rodeia num mundo melhor, sem crime, nem poluição. Uma missão que pretende cumprir a todo o custo, independente dos milhões de pessoas que seria preciso sacrificar para tornar esse sonho realidade. E que, embora tenha pelo Batman grande respeito e até admiração, não hesitará em matá-lo, caso o Cavaleiro das Trevas se atravesse no seu caminho.

O nome de origem árabe e o uso do terrorismo como meio de impor a sua ideologia, poderão levar alguns leitores a ver na personagem de Ra’s Al Ghul uma alusão, mais ou menos indirecta, ao terrorismo islâmico, mas esta é claramente uma interpretação abusiva, pois na época o terrorismo não era ainda um tema que tivesse grande impacto no público americano, para além de ser então, tanto na Europa como Médio Oriente, um processo mais colectivo, sem um líder carismático e claramente identificável. Parece-nos pois mais provável a interpretação de Jess Nevins, no livro Heroes and Monsters, que defende que a filiação de Ra’s Al Ghul vem mais de personagens da literatura pulp, como o Dr. Fu Manchu, de Sax Rohner. E a verdade é que Ra’s Al Ghul partilha com o Dr. Fu Manchu uma série de características, para além da origem não ocidental. Ambos são autênticos génios que pretendem a todo o custo moldar o mundo aos seus ideais. Os dois comandam uma rede de assassinos bem treinados, a Liga das Sombras de Al Ghul e os Si-Fan de Fu Manchu. E ambos têm filhas belas e independentes, Talia e Fah So Luee, que se vão envolver romanticamente com os inimigos dos pais, Batman e Sir Denis Nayland Smith  
E a sua filha Tália é outro aspecto que torna Ra’s Al Ghul uma personagem fundamental do universo DC. Uma mulher fatal, tão bela quanto perigosa, que se vai tornar o grande amor de Batman, apesar de muitas vezes estarem em lados diferentes da barricada. E essa história de amor, que as actividades criminosas de Talia e do seu pai, tornam proibido, vem revelar uma dimensão mais humana do Cavaleiro das Trevas, dividido entre o amor e o dever.

Curiosamente, Talia até aparece antes do pai nas aventuras do Batman, salvando a vida do herói numa história publicada em Maio de 1971 no nº 411 da revista Detective Comics, que O’Neil escreveu para os desenhos de Bob Brown e Dick Giordano e que, por uma questão de espaço não incluímos neste volume. E se o nome de Ra’s Al Ghul é aqui referido pela primeira vez, a sua primeira aparição física acontece apenas um mês depois, na história A Filha do Demónio, que abre este volume, em que Dick Giordano passa a tinta os desenhos de Neal Adams, de quem, curiosamente, era o editor na série Deadman. A imagem imediatamente identificável de Ra’s Al Ghul, com a testa larga, ausência de sobrancelhas que acentuam o olhar penetrante, nariz aquilino e lábios finos, é da inteira responsabilidade de Adams, que quis desenhar uma personagem que fosse imediatamente reconhecível, mesmo sem um uniforme colorido. Como refere O’Neil numa entrevista: “ na altura, não tinha nenhuma ideia para o visual dele. Foi uma surpresa quando vi o que Neal tinha feito com a personagem. Mas foi uma surpresa muito agradável.”
Embora o trabalho de Denny O’Neil com Ra’s Al Ghul seja incontornável, tanto nas histórias que escreveu para Neal Adams, como em trabalhos posteriores, como a novela gráfica Birth of the Demon, ilustrada por Norm Bretfogle que explora o passado de Al Ghul, entre a história e a lenda, O’ Neil não foi o único a utilizar a personagem em histórias com grande impacto na mitologia do Cavaleiro das Trevas. Para além de inúmeros exemplos na Banda Desenhada, veja-se a trilogia cinematográfica que Cristopher Nolan dedicou ao Cavaleiro das Trevas, em que Ra’s Al Ghul e a Liga das Sombras têm um papel fundamental, no primeiro e no terceiro filme.

Outro exemplo da importância de Ra’s Al Ghul na mitologia do Batman é O filho do Demónio, a novela gráfica de Mike W. Barr e Jerry Bingham que encerra este volume. Uma história épica, ilustrada de forma dinâmica por Bingham, com os cenários a acção e a grandiosidade dos melhores filmes de James Bond, em que Batman e Ra’s Al Ghul se aliam para derrotar Quain, um fanático religioso que tinha sido responsável pela morte da mãe de Talia e pretendia provocar a 3ª Guerra Mundial. É nesta história que se desenvolve até às últimas consequências o romance entre Batman e Talia. Uma complexa história de amor, finalmente consumado, e que vai dar origem a um filho.
Filho de cuja existência Batman só terá conhecimento anos mais tarde, quando Grant Morrison decide reintegrar Damian - assim se chama a criança que Talia vai criar e educar como um guerreiro - na continuidade oficial do Cavaleiro das Trevas. Isso aconteceu numa história que os leitores puderam acompanhar na saga Herança Maldita, já publicada no volume 2 desta coleção.