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domingo, 22 de março de 2015

75 Anos do Batman 5 - Batman: 75 Anos de Aventuras


E com este 10º volume, o 5ª para o qual escrevi textos introdutórios, chega ao fim esta colecção dedicada aos 75 Anos do Cavaleiro Das Trevas, que permite ter novamente disponíveis algumas das melhores histórias de sempre do Batman, em belas edições. Esta foi também a colecção feita mais a correr, numa altura em que já começávamos a trabalhar na colecção das Novelas Gráficas. Mas julgo que o esforço valeu a pena e os fãs não se podem queixar, mesmo que inevitavelmente, haja sempre quem se queixe...

BATMAN, 75 ANOS DE AVENTURAS

Com esta recolha antológica de onze histórias de diferentes épocas, assinadas por alguns dos maiores nomes da história dos comics, concluímos esta viagem comemorativa dos 75 anos da criação do Batman. Criado por Bob Kane em 1939, com a colaboração de Bill Finger no argumento, na sequência do sucesso do Super-Homem de Jerry Siegel e Joe Schuster um ano antes, Batman é um dos super-heróis mais humanos e carismáticos de todos os tempos e um dos raros que não tem qualquer superpoder, funcionando quase como um negativo do Super-Homem. E é precisamente essa dimensão mais humana, que facilita a identificação dos leitores, um dos elementos que actualmente fazem do Batman o mais popular dos super-heróis.
Quando o descobrimos pela primeira vez, na história que abre este volume, publicada em 1939 no nº 27 da revista Detective Comics, Batman, o sombrio super-herói, está já no activo há algum tempo e a sua fama precede-o, enquanto o homem que se esconde por detrás da máscara, o milionário Bruce Wayne, tem uma participação mais discreta. E só largos meses depois, os leitores descobrem o que levou Bruce Wayne a transformar-se no vigilante vestido de morcego, através de um flash-back de duas páginas, publicado no # 33 da revista Detective Comics, que mostra como o assassinato dos pais do jovem Bruce Wayne levou o traumatizado órfão a consagrar a sua vida ao combate do crime, escolhendo a imagem do morcego para infundir terror a essas criaturas “medrosas e supersticiosas” que são os criminosos. Uma história que surge neste volume numa versão mais contemporânea, assinada por Jeph Loeb e Jim Lee.
O sucesso de Batman cedo lhe garantiu uma revista própria e, ao longo da década de 40, as aventuras de Batman começaram a aparecer também nas revistas Batman e World’s Finest Comics, para além da Detective Comics, que viria dar o nome à editora e onde tudo começou. É na revista Batman que vai aparecer pela primeira vez a jornalista Vicki Vale, uma intrépida repórter criada por Bob Kane, com o apoio de Bill Finger no argumento e de Charles Paris na arte, funcionando um pouco como a Lois Lane em relação ao Super-Homem. E é precisamente O Furo do Século, a história que assinala essa estreia, que este volume recolhe.
Com o aparecimento desses novos títulos, o grupo de colaboradores que rodeava Bob Kane, foi alargado a novos argumentistas e a desenhadores, para além de Bill Finger, como Sheldon Moldoff, Charles Paris, Jerry Robinson e Dick Sprang, autor cujo estilo único marcou a imagem do Homem-Morcego na década seguinte e que está presente neste livro com O Batman de Amanhã, história que explora o ambiente de ficção científica, tão em voga nos comics da década de 50.
Tal como a América, também o Batman vai mudar na década de 60. Esse processo, conhecido como “New Look”, culmina em Maio de 1964 com a mudança de imagem do herói, da qual o símbolo do morcego, que passa a surgir dentro de um círculo amarelo, é o exemplo mais imediato, mas que passa também pelo aparecimento de autores com um estilo mais elegante e realista como Carmine Infantino, aqui representado com a história que inaugurou essa mudança, publicada precisamente 25 anos e 300 nºs após a primeira aparição do Batman. O sucesso comercial deste “novo” Batman a que não é alheio o trabalho gráfico de Infantino, foi imediato e chamou a atenção do produtor William Dozier, que decidiu criar uma série de televisão dedicada ao Cruzado de Capa e que, quase 50 anos após a sua estreia, continua a marcar o imaginário de muitos leitores.
Na década de 70, Batman voltaria a aproximar-se do violento combatente do crime da fase inicial, graças ao trabalho da dupla Denny O’Neil/Neal Adams. Nessa América em mudança, é natural que os jovens leitores já não se identificassem com a versão kitsch do Batman que marcou a década de 60, de que a série televisiva com Adam West foi o expoente máximo em termos mediáticos. Daí a necessidade de criar um novo herói para uma nova era, um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores. Julius Schwartz, o editor da DC encarregado da personagem, sabia quem eram os homens certos para esse trabalho e optou por reunir novamente o escritor Denny O'Neil com o desenhador Neal Adams, depois da revolucionária passagem da dupla pela série Lanterna Verde/Arqueiro Verde, que os leitores puderam acompanhar na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC. E é precisamente a primeira colaboração da dupla numa história do Batman, que apresentamos neste livro.
Mas, no que ao Batman diz respeito, a década de 70 não se resume apenas ao trabalho de Neal Adams. Presentes neste volume estão dois outros mestres dos comics que desenharam o Batman nesta década. São eles Alex Toth, representado neste volume pela única história do Batman que desenhou ao longo da sua prestigiada carreira, e Marshall Rogers, ilustrador cujo estilo elegante e estilizado deu vida a uma imagem do Batman que à época foi considerada como “definitiva”. Mas como bem sabemos, “definitivo” é um termo difícil de aplicar a qualquer versão de um personagem que, como o Batman, se caracteriza por se saber adaptar ao pulsar do seu tempo. A prová-lo está a verdadeira revolução que chegaria em 1986, com Frank Miller e o seu Regresso do Cavaleiro das Trevas, já publicado nesta colecção. Mas já antes Miller tinha tido a oportunidade de desenhar o Batman em Procura-se: Pai Natal… morto ou vivo!,  uma tão singela como bem conseguida história de Natal, que não podia faltar nesta antologia.
Neste volume, há ainda espaço para uma história da década de 90, Crise de Identidade, uma perturbadora viagem pela mente de Bruce Wayne, assinada por Tom Mandrake e por Peter Milligan, argumentista inglês que deixou a sua marca na linha Vertigo. E, para fechar temos o magnífico J. H. Williams III, cujo fabuloso trabalho visual e de composição os leitores já conhecem do volume dedicado à Batwoman, da primeira colecção que a Levoir dedicou à DC e que aqui ilustra um inspirado argumento de Paul Dini, escritor que esteve em destaque em Detective, o sétimo volume desta colecção.
Mas esta história de 75 anos de sucesso não acaba aqui. Cada vez mais popular, o Cavaleiro das Trevas soube renovar-se, tanto na BD, como no cinema, ou nos jogos de computador. Nos comics essa renovação atingiu todo o universo DC, que através da Linha Novos 52, foi actualizado para o século XXI. A esse nível, é impossível não citar o excelente trabalho de Scott Snyder e Greg Capullo na principal revista do Batman. Mas essa, já é uma outra história que, quem sabe, talvez possamos vir um dia a acompanhar, em português de Portugal, numa nova colecção da Levoir.

domingo, 8 de março de 2015

75 Anos de Batman 4 - Batman: O regresso do Cavaleiro das Trevas I


No penúltimo editorial que escrevi para a colecção 75 Anos do Batman tive o azar de ver o meu nome trocado e, a verdade, é que, embora, tenha sido eu a escrever o editorial deste volume, o texto acabou por sair assinado pelo Luís Salvado, que escreveu, isso sim, o editorial do volume seguinte. Não foi a primeira vez que isto me aconteceu, pois na primeira colecção que fizemos com a Panini para o Correio da Manhã, Os Clássicos da Banda Desenhada,  os textos que escrevi para o volume dedicado a Corto Maltese, saiu assinado em nome de João Miguel LAMERASI, em vez de João Miguel Lameiras. Feita a correcção, aqui fica o meu editorial para o 1º volume do Regresso do Cavaleiro das Trevas, a obra-prima de Frank Miller.



O ÚLTIMO COMBATE DE BATMAN

Se fizermos uma lista das mais importantes histórias do Batman ao longo dos 75 anos da vida do personagem, a história que vão poder ler em seguida, estará certamente no topo dessa lista.
Embora ainda sem o estatuto de superestrela que conquistaria nos anos seguintes, Frank Miller, em meados da década de 80, era já um autor influente graças ao seu trabalho na série Daredevil, que abandonou para a aproveitar a total liberdade concedida pela DC e criar Ronin, uma mini-série inovadora, misturando ficção científica e histórias de samurais que, por estar claramente à frente do seu tempo, não teve o acolhimento imediato que Miller esperava. O menor sucesso comercial de Ronin na altura em que foi lançado, não impediu a editora de continuar a apostar no evidente talento de Miller, não hesitando em entregar-lhe a sua jóia da coroa, ao dar-lhe a oportunidade de criar a sua versão do Batman, personagem que Miller já tinha desenhado uma vez em 1980, em Wanted Santa Claus - Dead ir Alive, uma história curta de Natal - escrita por Denny O'Neil que curiosamente seria um dos editores do Regresso do Cavaleiro das Trevas - que poderão ler no último volume desta colecção.
Originalmente publicada numa mini-série de quatro episódios, em 1986 (o mesmo ano em que foram publicados Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons e Maus de Art Spiegelmann, dois outros títulos fundamentais da história da BD) o extraordinário sucesso desta obra trouxe a Banda Desenhada para as primeiras páginas dos jornais e revistas (com Frank Miller a aparecer como capa da revista Roling Stone) ao mesmo tempo que ajudou a introduzir o formato graphic novel (edições mais luxuosas, impressas em excelente papel e com uma capa mais grossa do que o habitual nos comics) no mercado americano, e ainda abriu caminho para os filmes de Batman realizados por Tim Burton.
O Regresso do Cavaleiro das Trevas é uma história crepuscular que apresenta um Batman envelhecido, que interrompe a sua reforma, para lutar pela sobrevivência num futuro distópico, depois de ter sido obrigado a sair do seu torpor pelo aparecimento dos Mutantes, um novo gang urbano particularmente violento. Último super-herói num mundo violento, onde já não há lugar para super-heróis, o regresso ao activo do Cavaleiro das Trevas vai agitar profundamente a sociedade, incentivando o regresso dos seus principais adversários, que Miller apresenta como reflexos distorcidos do próprio Batman. O pulsar desta sociedade futura cujo status quo o regresso de Batman vem perturbar, é-nos dado de forma magistral através dos omnipresentes ecrãs de televisão, que pontuam a acção e nos transmitem informação, funcionando como o coro das tragédias gregas, ao mesmo tempo que traduzem a óbvia crítica de Frank Miller à cada vez maior mediatização da sociedade do seu tempo e à visão redutora e simplificada que a TV transmite da realidade. Uma análise que, quase três décadas passadas sobre a publicação original da história, não só não perdeu actualidade, como assume cada vez maior pertinência.
Apesar de ter resistido muito bem ao tempo, como verdadeiro clássico que é, O Regresso do Cavaleiro das Trevas é uma história que, tal como o Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, reflecte claramente o zeitgeist, o espírito da época em que foi criada, mesmo que a acção decorra num futuro próximo. Como o próprio Miller refere: "foi em 1985 que eu comecei a trabalhar nisto [O Regresso Do Cavaleiro das Trevas] e pensei, "que tipo de mundo será suficientemente assustador para o Batman?" Então olhei pela janela". E a verdade é que a Gotham City de Batman está bastante próxima da Nova Iorque dos anos 80, que Miller tinha recentemente trocado pela Califórnia, depois de ser assaltado pela terceira vez, e o clima político vigente é o da Guerra Fria que a política da administração Reagan veio reacender.
Contando com a arte-final de Klaus Janson, seu colaborador desde os tempos da revista Daredevil e com as cores de Lynn Varley, Miller consegue dar uma dimensão épica ao seu desenho, perfeitamente adequado a um herói poderoso e larger than life como é o Batman. Mas, apesar do resultado ser espectacular em termos visuais, o desenho não é ainda assim o ponto mais forte de Frank Miller que, apesar de ser um grande desenhador, é um óptimo escritor e sobretudo um extraordinário narrador.
Um bom exemplo, bem demonstrativo do talento narrativo de Frank Miller e do seu completo domínio dos mecanismos da linguagem da BD, é toda a sequência inicial, em que Bruce Wayne recorda o assassinato dos seus pais enquanto faz zapping na TV, ou a conversa entre Superman e o Presidente americano na página 28, do capítulo 2, que, pela sua extraordinária simplicidade e eficácia, merece uma análise mais detalhada:
Na primeira imagem da dita página, vemos a Casa Branca através dos portões vigiados por um guarda armado, enquanto que os balões de diálogo nos informam que, no seu interior, o Presidente conversa com alguém. Uma conversa que prossegue sempre fora de campo e a que assistimos sem nunca ver os interlocutores, pois a imagem é ocupada por uma bandeira americana tremulando ao vento, que através de um efeito de zoom, vai ficando cada vez mais próxima até que os seus contornos se fundem gradualmente no símbolo do Super-Homem. A força destes dois ícones imediatamente reconhecíveis (a bandeira americana e o S do Super-Homem) permitem-nos identificar facilmente a pessoa com quem o Presidente estava a falar, mesmo sem a ver, ao mesmo tempo que nos transmite de uma forma extremamente eficaz a relação entre o Super-Homem e o governo americano, com o Homem de Aço a ser retratado como um homem de mão da Casa Branca, aspecto que Miller desenvolve no segundo volume desta obra notável.

E o confronto entre o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas, que, a julgar pelo primeiro teaser, serviu de principal fonte de inspiração ao tão aguardado filme Batman V Superman: Dawn of Justice, de Zack Snyder, tal como o inevitável regresso para um combate final, de um velho e carismático inimigo, vão estar em foco no volume final desta história incontornável, cujo desfecho poderão ler já na próxima semana.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

75 Anos de Batman 3 - Batman: Presa


O MÉDICO E O MORCEGO

Temos podido apreciar ao longo  desta colecção dedicada aos 75 Anos de Aventuras do Batman, a forma como a colaboração harmoniosa entre um argumentista e um desenhador permite realçar os pontos fortes de cada um, criando uma obra cuja qualidade é superior à mera soma do talento individual dos seus criadores. Isso ficou bem evidente na forma como os textos de Grant Morrison ganham uma dimensão completamente diferente ao serem ilustrados por Dave McKean, ou Klaus Janson e ainda mais nas colaborações reveladoras de uma extraordinária cumplicidade entre Frank Miller e David Mazzucchelli e Jeph Loeb e Tim Sale, dois bons exemplos de duplas criativas em absoluta sintonia, cuja capacidade de colaboração que confirmamos de forma inequívoca nesta colecção, já tínhamos podido antever em anteriores colecções de super-heróis da Levoir.

O escritor Doug Moench e o desenhador Paul Gulacy - que assinam a história que poderão ler a seguir, publicada originalmente entre 1990 e 1991, nos nºs 11 a 15 da revista Legends of the Dark Knight - desde os anos 70 do século XX, que são o exemplo perfeito dessa capacidade de entendimento quase telepática entre dois criadores que se completam. Nascido em Chicago em 1948, Moench iniciou a sua carreira como escritor profissional em 1970, escrevendo artigos para o Chicago Sun-Times e argumentos de comics para a editora Warren, mas os leitores da DC conhecem bem o seu trabalho nas revistas do Batman ao longo de várias décadas, onde foi responsável pela substituição de Dick Grayson por Jason Todd como Robin, nos anos 80, sendo na década seguinte um dos principais argumentistas de Knightfall, o famoso arco de histórias em que Bane parte a coluna a Bruce Wayne e Azrael é obrigado a assumir temporariamente o manto do Batman. Com a colaboração do desenhador Kelley Jones, Moench foi também responsável pela versão vampiro do Cavaleiro das Trevas no Universo Elseworlds, que os leitores portugueses puderam descobrir em Chuva Vermelha, uma das histórias incluídas no volume Batman: Outros Mundos, publicado na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC.
Nascido em 1953, Gulacy tem o seu trabalho espalhado pelas principais editoras americanas, mostrando-se perfeitamente à-vontade nos mais diversos registos, da ficção científica às histórias de super-heróis, passando pelo Western e pelas histórias de espionagem, ou de espada e feitiçaria, sendo responsável, com o escritor Don McGregor, por Sabre, uma das primeiras graphic novels a ser publicada no mercado americano, tendo mesmo chegado às livrarias em Agosto de 1978, dois meses antes da publicação de A Contract With God, de Will Eisner, considerada por muitos como o título fundador do género graphic novel.
A primeira (e para muitos, a mais marcante) colaboração entre Moench e Gulacy dá-se no início da carreira deste último, em 1974, quando ainda era estudante no Art Institute of Pittsburgh e Doug Moench substituiu o argumentista Steven Englehart no nº 20 da revista Master of Kung-fu, que Gulacy tinha começado a desenhar pouco antes, no nº 18. Juntos, pegaram numa série criada apenas para aproveitar a grande popularidade que os filmes de Kung-Fu tinham na altura, e misturando ingredientes de histórias de espionagem, policial e artes marciais, criaram uma série épica, que muitos leitores, entre os quais o realizador Quentin Tarantino colocam entre os melhores comics da década de 70. O realizador de Pulp Fiction afirma mesmo que Master of Kung-Fu foi, de longe, o melhor comic que leu na década de 70.
Um dos factores que atraiu leitores como Tarantino, é a dimensão cinematográfica do trabalho da dupla, um aspecto realçado pelo editor Archie Goodwin, que refere que “Doug Moench e Paul Gulacy têm produzido de forma consistente material que é inovador, intenso e visualmente cativante… muitos de nós que trabalhamos no meio dos comics aspiramos a uma abordagem cinematográfica, mas através da sua mescla de ritmo narrativo, diálogos e impacto visual, Moench e Gulacy criam verdadeiros filmes em papel.”
Por isso, não admira que Moench e Gulacy tenham sido dos primeiros autores convidados a colaborar na revista Legends of the Dark Knight, criada em 1989 para permitir a criadores de prestígio explorar em histórias autónomas, longe da continuidade das revistas mensais, os primeiros anos de actividade do Batman. No caso de Moench e Gulacy, não se tratou da sua estreia com o personagem, pois os dois já tinham colaborado em The Dark Rider, uma história do Cavaleiro das Trevas, publicada em 1986, nos nºs 393 e 394 da revista Batman. Mas este foi um regresso muito agradável para o desenhador, que refere: “para mim, a parte divertida de trabalhar com o Batman é que ele actua principalmente de noite. Isso dá-me oportunidade de jogar com as sombras e com uma iluminação de alto contraste. Batman adora a escuridão e adora trabalhar sozinho. Consigo identificar-me com isso.”
Em Prey, a dupla vai explorar a forma como Batman e o então Capitão James Gordon vão criar uma relação de cumplicidade, ao mesmo tempo que recupera um vilão clássico, o Professor Hugo Strange, um dos primeiros inimigos do Batman, que apareceu pela primeira em 1940, nas revistas Batman e Detective Comics, onde é retratado como um cientista louco. Em Prey, Strange surge adaptado aos novos tempos, apresentando como um psiquiatra obcecado pelo Cavaleiro das Trevas, que consegue mobilizar a opinião pública contra o Batman. Um indivíduo tão perturbado como inteligente, que quase descobre a identidade secreta de Batman e que, nas palavras de Paul Gulacy “é definitivamente o mais estranho vilão que alguma vez desenhei e um dos mais divertidos.”
Não faltam também nesta história outros momentos fundadores da mitologia do Cavaleiro das Trevas, como a criação do Batsinal, ou a construção do primeiro Batmóvel, mas o que antes de mais chama a atenção do leitor, é a audácia da planificação, o dinamismo do traço realista de Paul Gulacy, muito bem servido pela arte-final de Terry Austin, e o extraordinário sentido de movimento presente nas cenas de acção, coreografadas por Gulacy como um verdadeiro filme de artes marciais.
Naturalmente, os leitores não ficaram indiferentes à qualidade desde “filme de papel”, na expressão feliz de Archie Goodwin, dirigido por Moench e Gulacy e a dupla de criadores foi convidada a escrever uma continuação para esta história, trazendo de volta o Professor Hugo Strange. Essa continuação, publicada cerca de 10 anos depois, nos nºs 137 a 141 da revista Legends of the Dark Knight, foi Terror, mas apesar de não desiludir, bem longe disso, Prey continua a ser indiscutivelmente o ponto mais alto da ligação de Doug Moench e Paul Gulacy com o Cavaleiro das Trevas.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

75 Anos de Batman 2 - Batman: Asilo Arkham


BATMAN DO OUTRO LADO DO ESPELHO

Um dos mais importantes edifícios de Gotham City, o Asilo Arkham, um hospital-prisão, que acolhe os mais perturbados inimigos do Batman, surge pela primeira vez numa aventura do Cavaleiro das Trevas, numa história escrita por Denny O’Neil e desenhada por Irv Novick, publicada em 1974 no nº 258 da revista Batman, mas seria Len Wein o primeiro a explorar mais a fundo a sua história no nº1 da revista Who’s Who, de 1985.
Neil Gaiman, o criador de Sandman, define perfeitamente a importância do Asilo Arkham na mitologia da DC, ao referir que “o que torna o Asilo Arkham interessante é ser aquilo que está debaixo da pedra da DC. Tens uma bela pedra com todos esses heróis, mas se levantarmos essa pedra descobrimos uma série de pequenos insectos e vermes a estrebuchar. O Asilo Arkham é a terra onde esses vermes repousavam.”
Na história que podem ler nas páginas seguintes, essa pedra é levantada e o Batman é atirado para essa terra remexida e rodeado pelos vermes, numa viagem, tanto física como mental, pelo lado mais sombrio do Universo DC, que põe em risco a sua própria sanidade. Publicado originalmente em 1989, Asilo Arkham para além de ser a história definitiva sobre o Asilo Arkham, foi o título que atirou os seus autores, o escocês Grant Morrison e o inglês Dave McKean, para o estrelato, muito pelo modo como o excepcional trabalho gráfico de McKean se articula com o texto cheio de referências literárias de Morrison, que explora aqui pela primeira vez o universo do Cavaleiro das Trevas, iniciando um percurso brilhante como escritor do Batman, de que pudemos acompanhar alguns dos principais momentos nas anteriores colecções que a Levoir dedicou à DC Comics.
No entanto, esta bem-sucedida dupla nasceu de um acaso. Grant Morrison escreveu Asilo Arkham sem ter nenhum desenhador específico em mente e a decisão de entregar a arte da história a Dave McKean partiu da editora da DC, Karen Berger, que esteve ligada ao recrutamento de alguns dos maiores criadores ingleses, de Alan Moore a Neil Gaiman, passando por Brian Bolland e Dave Gibbons, pela DC. Na altura Mckean estava a desenhar a mini-série Black Orchid, escrita pelo seu amigo Neil Gaiman, mas Berger achou que era muito arriscado lançar dois jovens autores ingleses completamente desconhecidos do público americano, num título também desconhecido. Por isso, decidiu pôr McKean numa aventura de Batman que Grant Morrison estava a escrever, e dar um título mensal a Neil Gaiman. E foi assim que McKean conseguiu Asilo Arkham, e Gaiman conseguiu Sandman, embora, na prática, Black Orchid acabasse por ser editado antes do Asilo Arkham, pois a DC acabou por atrasar o lançamento do livro, de modo a não interferir com a estreia do filme Batman, de Tim Burton, então prestes a chegar às salas.
Com um nome que traduz uma clara homenagem ao escritor H.P. Lovecraft (cujas histórias tinham normalmente por cenário uma cidade fictícia chamada... Arkham) o Asilo Arkham é um hospício onde está aprisionada a vasta galeria de inimigos de Batman. Uma casa de loucos, fundada por um louco, o professor Amadeus Arkham, cuja história se cruza com a de Batman na complexa narrativa criada por Morrison. O escritor escocês, em 2005, no texto incluído na edição do 15º aniversário da publicação do Asilo Arkham define a sua história como “uma narrativa sobre a psicologia humana em que Batman e os seus inimigos são usados como símbolos. A Casa, o Asilo, não é um lugar físico, mas o cérebro de alguém.
A construção da história foi influenciada pela arquitectura da casa - o passado e o conto de Amadeus Arkham formam a cave. As passagens secretas ligam ideias e segmentos do livro. As histórias que se passam nos pisos superiores, estão cheias de simbolismos e de metáforas. Temos também referências à geometria sagrada, pois a planta do Asilo Arkham é inspirada pela Abadia de Glastonbury e pela Catedral de Chartres. O percurso ao longo do livro é como uma travessia pelos vários pisos da casa. A casa e o cérebro são um só.”
Não por acaso, o livro abre e fecha com citações da Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol e, tal como a heroína de Carrol, também Batman passa para o outro lado do espelho ao entrar no Asilo Arkham. Tal como acontece no filme O Feiticeiro de Oz, de Victor Fleming, também aqui essa passagem do mundo real para um universo fantástico é dada pela cor, que está ausente das sequências iniciais com Batman em Gotham City e que McKean trabalha como ninguém, numa espectacular mistura de técnicas, nas cenas passadas no interior do Asilo Arkham.
Também a opção de o Batman ser uma figura mais sugerida que mostrada, que deu uma aura de mistério ao livro, tem segundo Neil Gaiman uma explicação bastante prosaica, como se percebe pelo excerto da entrevista conduzida por Whitley O’Donnell, publicada em 1991, no nº 103 da revista Comics Interview em que refere: “As pessoas estão sempre a perguntar ao Dave onde é que ele foi buscar a ideia de representar o Batman como essa figura negra e misteriosa que o leitor nunca chega a ver bem, mas a verdade é que ele não gosta de desenhar o Batman. Por isso, passou o livro todo a tentar mostrar o menos possível do Batman!”
Muito mais uma história de terror psicológico carregada de simbolismos do que uma simples aventura de Batman, Asilo Arkham, para além de ser o resultado de uma feliz sucessão de acasos, é, acima de tudo, um deslumbrante catálogo das notáveis possibilidades estéticas  da arte de Dave McKean, um dos mais talentosos e versáteis artistas (e designer) que já passaram pelo mundo dos comics que, tal como Morrison faz em relação às referências literárias, vai buscar elementos da pintura simbolista, do impressionismo e do surrealismo, numa mistura de técnicas, em que o desenho se articula com a pintura, com a fotografia e as colagens, num todo visualmente deslumbrante e, até então, nunca visto numa história de super-heróis.
Considerado pelo site IGN como uma das cinco melhores histórias do Batman de sempre, Asilo Arkham está também na origem de uma série de jogos de computador de sucesso, iniciada em 2009, com o jogo escrito por Paul Dini - um dos responsáveis pela série de animação Batman Adventures e argumentista responsável por Batman: Detective, um dos próximos volumes desta colecção - que veio alargar a imensa popularidade de Batman a um público que não se restringe aos leitores de comics. Mas foi nesta viagem perturbadora ao outro lado do espelho que tudo começou!

domingo, 18 de janeiro de 2015

75 Anos de Batman 1 - Batman: O Longo Halloween Vol 1


Como tem sido habitual, aqui deixarei os textos editoriais que escrevi para a colecção dedicada aos 75 Anos do Batman, que a Levoir está a lançar com o jornal Sol. O primeiro foi precisamente este, dedicado a um dos meus livros favoritos da dupla Jeph Loeb/Tim Sale.

BATMAN ANO DOIS

Se o leitor for um fã de cinema, encontrará certamente algo de familiar nas primeiras páginas deste livro. Com efeito, a imagem de Bruce Wayne, envolto nas sombras a dizer a Carmine Falcone, o Padrinho da principal família mafiosa de Gotham, que acredita na sua cidade, na página inicial desta história, não pode deixar de evocar no leitor cinéfilo, a cena de abertura do filme O Padrinho, de Francis Ford Coppola, que começa precisamente com a frase “acredito na América” dirigida a Vito Corleone, o Padrinho do romance de Mario Puzo, que inspirou o filme de Coppola.
Para além do Carmine Falcone desenhado por Tim Sale ter parecenças físicas com o Vito Corleone superiormente interpretado por Marlon Brando, o facto de ambas as cenas terem lugar durante a festa de casamento de um parente do chefe mafioso, não deixa dúvidas sobre a óbvia homenagem que Loeb e Sale quiseram prestar ao filme de Coppola. Uma homenagem tão merecida como arriscada, pois pode levar a inevitáveis comparações entre o clássico do cinema e a BD de Loeb e Sale. Mas a verdade é que, tal como O Padrinho tem um lugar de destaque no cânone do cinema americano do século XX, também The Long Halloween é presença indiscutível na lista das 10 melhores histórias do Batman de sempre.
Na anterior coleção da Levoir dedicada à DC, pudemos apreciar o trabalho de Tim Sale com o Batman, numa série de histórias soltas escritas por diferentes argumentistas, mas isso foi apenas um aperitivo para a "piece de resistance" que se vai seguir: o primeiro trabalho de grande fôlego da dupla Loeb/Sale protagonizado pelo Cavaleiro das Trevas. Um marco na história dos Comics americanos cuja influência é evidente na trilogia cinematográfica de Christopher Nolan.
Mas não negando os méritos do trabalho de uma dupla de criadores em perfeita sintonia, convém não esquecer o papel fundamental do editor Archie Goddwin em The Long Halloween, que Loeb é o primeiro a salientar, na entrevista que lhe fez o cineasta Kevin Smith para o programa de rádio Fatman on Batman. Aí Loeb refere que foi o mítico editor e argumentista a ir buscar a dupla para as revistas do Batman, numa fase em que o trabalho dos dois criadores para a DC se limitava à sua passagem pela série Chalengers of the Unknow, convidando-os a criar uma história de Halloween para a revista Legends of the Dark Knight, de que Godwin era o editor. Essa história foi Fears e a DC gostou tanto do resultado que resolveu lançar à história num número especial em "prestige format" (formato mais luxuoso, com papel de gramagem superior, lombada e capa cartonada, usado pela primeira no The Dark Knight Returns de Frank Miller), em vez de a espalhar por três Comics, como era habitual.
Uma aposta arriscada, tento em conta que tanto Loeb como Sale eram ainda relativamente desconhecidos, mas que se revelou ganhadora, tanto em termos críticos como comerciais. Seguiram-se mais dois especiais de Halloween nos anos seguintes (Madness e Ghosts, posteriormente reunidos, com Fears, no livro Haunted Knights), até que Goodwin, enquanto tomava o pequeno-almoço com Loeb, durante a Comic Con de San Diego, de 1995, se lembrou que podia ser interessante aplicar esta lógica a uma história que durasse o ano inteiro, sugerindo ainda o nome The Long Halloween, para essa história.
Para Loeb, que naquela época, além do seu trabalho no cinema e na televisão, estava também a escrever a série Cable para uma editora rival, não era fácil ter disponibilidade para aceitar o desafio, mas quando Goodwin lhe disse que tinha falado com Frank Miller e que este não se opunha a que alguém usasse os Falcone e os Maroni, as duas famílias mafiosas que Miller tinha criado em Ano Um, Loeb percebeu que não podia perder a oportunidade de explorar os primeiros anos de actividade de Batman, numa história que homenageasse simultaneamente o trabalho de Miller e os clássicos do filme noir.
Nascia assim The Long Halloween, uma história em 13 partes, pensada para funcionar simultaneamente como uma intriga policial clássica e como a continuação do Ano Um de Miller e Mazzucchelli, com a acção a decorrer seis meses depois dos acontecimentos de Batman: Ano Um. E se em Ano Um é Jim Gordon quem assume o principal protagonismo, agora, seguindo uma sugestão de Mark Waid, Loeb e Sale vão contar o processo de transformação de Harvey Dent no Duas Caras.
O resultado é uma história que mistura ingredientes do romance policial clássico, com o Film Noir e os filmes de gangsters, sem esquecer a mitologia do Cavaleiro das Trevas e a colorida galeria de vilões do Batman, que Sale teve carta-branca para reformular graficamente. A esse nível a mudança mais notável é a do Calendar Men, um dos mais obscuros (e também dos mais ridículos) vilões do Batman, que Sale já tinha tido oportunidade de desenhar numa história de Alan Grant - publicada em Portugal em Contos do Batman, volume pertencente à segunda colecção que a Levoir dedicou à DC Comics - e que aqui surge completamente transformado. Um personagem muito mais misterioso e sombrio, que da sua cela no Asilo Arkham vai dando pistas a Batman que o ajudem a descobrir a identidade do misterioso Holliday, o assassino dos Feriados. No fundo, um papel muito semelhante ao de Hannibal Lecter em relação à agente Clarice Sterling no filme The Silence of the Lambs, de Jonathan Demme.
Articulando de forma muito equilibrada o mistério e o suspense das boas histórias policiais, com a acção e as personagens hiperbólicas das histórias de super-heróis clássicas e o ambiente sombrio das histórias de gangsters, O Longo Halloween conquista o leitor de forma inapelável, tanto pela história como pela arte, com Tim Sale a aproveitar muito bem a grande quantidade de páginas disponíveis para brilhar nas sequências de acção e nas belas páginas duplas.

Terminado este primeiro volume, todos dados estão lançados e a intriga está em marcha. Agora só resta ao leitor esperar uma semana pela conclusão desta história épica, para conhecer finalmente a identidade do misterioso Halloween.