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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

DC Comics Uncut 25 - Batman: O regresso do Joker




E aqui está finalmente o último post desta secção, desta vez com um texto que não chegou a ser impresso de todo.Na nossa selecção inicial  para a II série dedicada à DC Comics, estavam alguns títulos da Linha New 52 que, depois de aprovados, tiveram posteriormente que ser substituídos, quando alguém da Panini se lembrou que estavam a distribuir as revistas brasileiras com as histórias dos Novos 52 e que assim, acabavam por fazer concorrência a si próprios...
Por isso, a não ser que haja uma terceira série dedicada à DC, com títulos dos Novos 52, esta história vai continuar inédita no português de Portugal. Felizmente, graças a este blog, o mesmo não acontece com o texto que escrevi para este volume.Espero que gostem.

JOGO DE MÁSCARAS

No mais conseguido dos filmes que fez para Hollywood, John Woo, o mestre do cinema de Hong Kong que revolucionou os filmes de gangsters, com obras como The Killer, ou A Better Tomorrow, filma uma intriga em que Nicolas Cage, no papel de um criminoso e John Travolta, como o polícia que o persegue, trocam literalmente de cara, e assumem a vida um do outro, transformando na sua máscara, o rosto do seu inimigo. Esse filme chama-se Face Off e esse título encaixaria como uma luva à história do Batman que vão ler de seguida, pois se no filme de Woo o rosto do rival se transforma na máscara de cada um dos protagonistas, o que permite a Travolta e a Cage jogar com os tiques de representação do parceiro, o Joker aqui vai ainda mais longe e transforma o seu próprio rosto na sua máscara.

Na sequência da reformulação das revistas do universo DC com o lançamento da linha Novos 52, o maior dos vilões desse universo, o Joker, esteve ausente das páginas da principal revista do Batman durante um ano, enquanto Scott Snyder e Greg Capullo enriqueciam a mitologia do Cavaleiro das Trevas, introduzindo a Corte das Corujas, uma sociedade secreta que controlava os destinos de Gotham há mais de uma centena de anos.
Apenas terminada essa saga, o Joker regressou pelas mãos de Snyder e Capullo, numa das mais perturbadoras histórias do Batman de sempre, em que a tensão psicológica e o terror atingem níveis muito elevados. Como o próprio Snyder refere numa entrevista, “o que aconteceu foi que a DC queria afastar o Joker para dar espaço a novos vilões que estavam a ser criados no âmbito da linha Novos 52, e eu disse-lhes que tinha uma ideia para uma história do Joker mais à frente. Tony (S. Daniel, o escritor da revista Detective Comics) tinha-se lembrado de um par de maneiras de fazer o Joker desaparecer por uns tempos. Falámos sobre essas diferentes hipóteses, de que ambos gostávamos e chegámos à conclusão que a história que mais lhe interessava contar, podia encaixar muito, muito bem na minha história”.

E foi assim que, no nº 1 da nova revista Detective Comics, em Novembro de 2011, o Joker se deixa capturar pelo Batman e é levado para o Asilo Arkham, onde convence o Dollmaker a remover-lhe cirurgicamente o rosto. Rosto que é deixado pregado como uma relíquia na parede da sela, enquanto o Joker, tal como uma serpente que deixa para traz a antiga pele, desaparece deixando o que resta da sua face na mão das autoridades. Só no nº 12 da revista Detective Comics, numa história curta de James Tynion IV, um jovem escritor lançado por Snyder no mundo dos comics, ilustrada por Szymon Kudranski, cujo título The Tell Tale Face, remete para The Tell Tale Heart o conto de terror de Edgar Alan Poe, o peso da presença da cara do Joker na esquadra de Gotham é evocado, numa história que prepara o leitor para o eminente regresso do sorridente vilão, cujo rosto descarnado é escondido pelas sombras.
Assim, depois de um ano desaparecido, planeando o seu regresso, o Joker está de volta, para atacar o Batman através daqueles que lhe são queridos, mas primeiro vai recuperar o seu rosto, numa impressionante sequência, em que, jogando com as sombras e sugerindo muito mais do que mostram, Snyder e Capullo criam momentos de puro terror. Momentos que culminam, no final do primeiro capítulo, com a revelação da nova imagem do Joker, em que o rosto que perdeu se transforma na sua máscara, uma máscara presa à carne viva por correias de couro.

Uma imagem fortíssima, que não consegue deixar de evocar um ícone do terror cinematográfico, o personagem Leatherface do filme Texas Chain Saw Massacre, de Tobe Hopper. E se virmos bem, mais do que uma saga de super-heróis, este O regresso do Joker, é uma história de terror psicológico, o que acaba por ser natural, pois tanto Scott Snyder como Greg Capullo têm grandes ligações ao género. Capullo estreou-se na BD ilustrando Gore Shriek, um comic de terror para adultos, enquanto Snyder, ainda antes de se dedicar à BD, se estreou como escritor em 2006 com Voodoo Heart, uma recolha de contos de terror, dois dos quais foram selecionados por Stephen King para a antologia The Best American Short Stories, de 2007. O mesmo Stephen King que vai colaborar com Snyder em American Vampire, a série que este último lançou na Vertigo em 2010 e que o tornou um nome popular e prestigiado junto dos leitores de comics.
Mas, embora crie uma história que acentua o lado negro do Cavaleiro das Trevas, Snyder não esquece o contributo dos autores que o antecederam para a mitologia da personagem e do seu maior inimigo. Assim, se o título original desta saga, Death of the Family, remete para o clássico Death in the Family, de Jim Starlin e Jim Aparo, em que o Joker mata Jason Todd, o segundo Robin, essa não é a única das grandes histórias com o Joker a ser evocada. Ao colocar o Joker a reencenar alguns dos seus crimes mais famosos, Snyder homenageia histórias clássicas, como The Killing Joke, de Alan Moore e Brian Bolland, já publicado na 1ª série dedicada ao Universo DC, The Man who Laughs, de Ed Brubaker e Doug Mahnke e o incontornável Arkham Asylum de Grant Morrison e Dave McKean.

O que não impede que este Regresso do Joker, pela forma como explora a relação do Batman com os seus amigos e aliados mais próximos e como estes, ao tornarem-se alvos preferenciais do Joker, se revelam a sua maior vulnerabilidade, se aproxime até mais de outro título publicado na 1ª série desta coleção, em que a participação do Batman é bastante limitada. Refiro-me à Crise de Identidade, de Brad Meltzer e Rags Morales, que mostrava que a maior fragilidade dos super-heróis residia na incapacidade de proteger aqueles que amam e lhes são próximos, dos ataques dos seus inimigos. Se o talento de Snyder para escrever histórias do Batman inesquecíveis, já não é surpresa para ninguém desde o magnífico Black Mirror, a escolha de Greg Capullo para ilustrar o Batman na principal revista da linha Novos 52, foi recebida com surpresa, pois o desenhador, cuja carreira está sobretudo associada à sua colaboração com Todd McFarlane na série Spawn, durante perto de vinte anos, estava longe de ser uma escolha óbvia para desenhador do Cavaleiro das Trevas.
Mas a verdade é que Capullo revelou-se um dos melhores desenhadores do Batman deste século, adaptando o seu estilo, bastante mais legível sem a arte-final de McFarlane, às necessidades da personagem e influenciando a própria narração de Snyder. Um escritor que, embora habituado a escrever argumentos extremamente detalhados, em que nada é deixado ao acaso, foi gradualmente dando maior autonomia a Capullo, que nesta história assume a principal responsabilidade pela planificação e colabora também na própria evolução da história.

Como refere Snyder, “no fim de contas, o que Greg (Capullo) traz para a história não é só o que está na página, em termos artísticos. De um ponto de vista visual, ele discute a história comigo e contribui com ideias. Ele é realmente o co-autor, o co-criador das histórias. Quem gosta deste Batman devia agradecer ao Greg Capullo, porque ele é fundamental em fazer do Batman aquilo que é aqui.” O efusivo endosso de Snyder não ficou por aqui: “O Greg é um mestre da expressão. Ele é mesmo, mesmo bom a fazer com que as personagens contem a história através de expressões faciais e gestos, e também é mesmo, mesmo bom tanto em sequências de acção como em cenas estáticas. Com o Greg, em vez de ter personagens a conversar longe do leitor, tento sempre mantê-las próximas, porque sei que ele é óptimo a acrescentar subtilezas às expressões delas”.
Conciliando tradição e modernidade, Scott Snyder e Greg Capullo construíram uma das melhores histórias do Batman da última década, trazendo uma dimensão ainda mais icónica ao mais carismático dos vilões do Universo DC. Uma história única, tão sombria como espectacular, que os leitores portugueses também vão finalmente poder descobrir neste segundo volume da 2ª série da Coleção Heróis DC.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dc Comics Uncut 24 - Super-Homem e Batman: Poder Absoluto


Embora este seja o último volume da 2ª colecção que a Levoir dedicou à Dc, não é o último texto desta rubrica, como poderão ver proximamente. No caso deste texto, o mais curioso é que a tentativa de cortes partiu, não da DC, mas de quem reviu o texto, o Filipe Faria, que decidiu fazer alguns cortes, que eu não aceitei, e acrescentou uma frase sobre a história que conclui este volume. 

O JARDIM DOS CAMINHOS QUE BIFURCAM

Num dos mais inspirados contos do livro Ficções, de 1941, o escritor argentino Jorge Luís Borges antecipa em 16 anos as teorias do físico Hugh Everett, que revolucionaram a física quântica, defendendo que em cada instante que uma escolha é feita, seja pelo acaso, seja por opção humana, o universo divide-se em dois: um para cada escolha possível.
O paradoxo que Everett procurou provar através das fórmulas matemáticas, já tinha intuído Borges no conto O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. O jardim em causa não é um espaço físico, mas um conto escrito por Ts'ui Pen, um antepassado do espião alemão que protagoniza a história. Um conto que tenta representar através de um labirinto, o universo e todas as suas infinitas possibilidades. Ou, citando Borges, através de uma das personagens: "comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros que a negligência dos copistas introduziu, conjecturei o plano desse caos, julguei estabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira: resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts'ui Pen. Ao contrário de Newton e de Schopenhauer, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam e se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros eu, e não você; noutros ainda existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; noutro, você, ao atravessar o jardim, deu comigo morto; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma."
Essas infinitas possibilidades abertas por diferentes escolhas, estão também na base da história que vão ler a seguir, escrita por Jeph Loeb para os desenhos dos espanhóis Carlos Pacheco e Jesus Merino e publicada originalmente nos nºs 14 a18 da revista Superman/Batman, de que já pudemos ler no último volume da série 1 desta colecção o arco de histórias anterior, ilustrado por Michael Turner.
 Neste terceiro arco da revista que voltou a juntar os dois maiores heróis do Universo DC, Loeb explora as ilimitadas potencialidades narrativas que a existência de universos paralelos permitia e que, com a reformulação do Universo DC provocada pela Crise nas Terras Infinitas, ficou praticamente limitada às histórias da linha Elseworlds, de que tivemos um exemplo, tanto na primeira como na segunda série, com Batman: Outros Mundos e Super-Homem: Herança Vermelha. Neste caso, Loeb recorreu às viagens no tempo para explorar a forma como uma alteração crucial no início das suas vidas - com os dois heróis a serem educados por três membros da Legião dos Super-Vilões - pode modificar completamente a vida do Homem de Aço e do Cavaleiro das Trevas e, por inerência, o universo em que eles se inserem.
 No fundo, Loeb pega na premissa utilizada por Mark Millar em Herança Vermelha e leva-a mais longe, para além de lhe introduzir diversas variantes. Variante que se traduzem em futuros alternativos, causados por alterações no passado, que permitem recuperar uma série de personagens que a Crise nas Terras Infinitas tinha afastado da continuidade regular, mas que são parte incontornável da história da DC. Desde os heróis do Oeste, de que Jonah Hex é o mais carismático exemplo, até ao símbolo maior da América, a representação do espírito americano, o Tio Sam, cuja imagem foi fixada por James Montgomery Flagg, em 1917, nos cartazes de propaganda e que Will Eisner trouxe para a Banda Desenhada em 1940, e que mais uma vez surge como símbolo do combate pela liberdade e contra a opressão. Uma opressão neste caso representada pelo Batman e pelo Super-Homem. Mas, mais dos que os heróis, a que mestres como Will Eisner e Joe Kubert (não falta aqui o Sargento Rock), emprestaram o seu talento, Loeb vai buscar para esta história épica, muitas das personagens que passaram pelas histórias do mais épico dos criadores. O grande Jack Kirby, aqui representado pelos personagens do Quarto Mundo, como Darseid e Metron e por Kamandi, o último rapaz da Terra, nascido numa série inesquecível em que o King levou mais longe o futuro distópico que o filme Planeta dos Macacos tinha aflorado. Para articular esta multitude de referências diversas de uma forma graficamente coerente, Loeb necessitava de um desenhador tão versátil como virtuoso do seu lado. Encontrou-o em Carlos Pacheco.
Um dos mais importantes e populares autores latinos a trabalhar nos comics de super-heróis, o espanhol, natural de Cádis, soube rapidamente construir uma carreira ímpar, em que deu o seu cunho pessoal aos principais heróis da Marvel e da DC, para além de abrir o caminho para a invasão do mercado americano de super-heróis por uma série de desenhadores de origem espanhola, como Salvador Larroca, Rafa Fonteriz, Guillem March, Javier Pulido, Oscar Jimenez e Jesus Merino, seu colaborador habitual, que aqui assina a arte.final. Profundamente influenciado pelos comics de super-heróis, Pacheco iniciou-se na BD em Espanha através dos concursos de descobertas de novos talentos promovidos pelo editor Josep Toutain, mas começou a dar nas vistas entre 1978 e 1982 como ilustrador das capas da Colecção “Clássicos Marvel”, da editorial Forúm, onde teve a possibilidade de desenhar pela primeira vez muitos dos heróis com que viria a trabalhar anos mais tarde, como desenhador regular. Leitor ávido e profundo conhecedor das histórias de super-heróis, a ponto de ter criado, com Rafael Marin e Rafa Fonteriz, a série Iberia Inc., protagonizada por um grupo de super-heróis espanhóis, a entrada de Carlos Pacheco no mundo dos comics de super-heróis era uma questão de tempo.

Essa entrada vai ter lugar em Dezembro de 1992, pela porta dos fundos, através da Marvel UK, ao fim de 10 anos a mandar submissões às grandes editoras americanas. O seu trabalho como desenhador na série Dark Guard desperta a atenção dos editores e, quase em simultâneo, Pacheco recebe convites para trabalhar para as duas grandes editoras americanas. Para a DC, para além do seu trabalho no encontro entre a Liga da Justiça e a Sociedade da Justiça, que já puderam apreciar nesta colecção, destaca-se a sua etapa como desenhador do Super-Homem e a sua colaboração com Kurt Busiek em Arrowsmith, série que transpunha a dura realidade da I Guerra Mundial para um universo de fantasia, que a Devir publicou em Portugal.
 Pela forma como consegue reunir numa história coerente, tantos heróis e vilões, evocadores de diferentes períodos da riquíssima história do Universo DC, Poder Absoluto é a história ideal para concluir esta emocionante viagem de 30 semanas pelos meandros do Universo DC, que a Levoir proporcionou aos leitores portugueses. Uma viagem inesquecível, feita de histórias épicas, protagonizadas por grandes heróis e vilões à altura.

sábado, 18 de janeiro de 2014

DC Comics Uncut 23 - Contos do Batman


O Batman segundo Tim Sale

Graças a obras tão populares e prestigiadas como The Long Halloween e Dark Victory, Tim Sale é considerado como um dos mais importantes artistas a desenhar o Batman nas últimas duas décadas. Mas a ligação de Sale com o Cavaleiro das Trevas não começou com as sagas em que Sale e Jeph Loeb deram continuidade ao passado de Batman, que Frank Miller e David Mazzucchelli começaram a narrar em Batman: Ano Um. Essa ligação começou bem antes. Começou precisamente nas histórias que vão poder ler neste volume.

Nascido em 1956 em Ithaca, Nova Iorque, Sale passou a infância e a dolescência em Seattle, de onde saiu para frequentar durante dois anos a School of Visual Arts, a célebre escola nova-iorquina criada por Burne Hogarth, onde Will Eisner foi professor,  para além de ter feito um workshop em Banda Desenhada com John Buscema. Mesmo que tenha regressado a Seattle sem ter concluído a sua licenciatura na S.V.A., o contacto com tão bons mestres deixou marcas e não admira que tenha acaba por decidir fazer carreira na Banda Desenhada. Uma carreira que se iniciou em 1983, com a série Mith Adventures da Warp Graphics, mas que só arrancaria dois anos mais tarde ao conhecer o autor Matt Wagner e a editora Diana Schutz na Comic Con de San Diego. Um encontro que lhe valeu o convite para colaborar na série Grendel, de Wagner, como desenhador, e que acabou por levar ao encontro mais importante da sua vida, com o escritor Jeph Loeb, vindo do mundo do cinema, que lhe foi apresentado por Wagner e Schutz.
A série Chalengers of the Unkwon, o primeiro argumento de comics escrito por Loeb em 1991, foi naturalmente ilustrado por Sale e desde então a dupla colaborou em inúmeros projectos, não só para a DC. Foi o caso das mini-séries Homem-Aranha: Azul e Demolidor: Amarelo, publicadas em Portugal pela Devir e da participação de Sale na série televisiva Heroes, de que Loeb foi produtor e argumentista e onde Sale, para além de conselheiro artístico, foi o responsável pelas pinturas de Isaac Mendez, um dos personagens da série, cujos poderes divinatórios se revelavam nos quadros que pintava.
 Mas apesar das memoráveis histórias do Batman em que trabalharam juntos, a estreia de Tim Sale como desenhador do Cavaleiro das Trevas não se faz ao lado de Loeb, mas sim do inglês James Robinson, o criador de Starman, com Lâminas (Blades), uma história em três partes publicada em 1992 nos nºs 32 a 34 da revista Legends of the Dark Knight, coordenada pelo mítico editor Archie Goodwin. Embora fosse a primeira vez que estava a desenhar o Batman, a imagem que abre a história mostra já duas características bem identificadoras do estilo de Sale: um cuidadoso uso das sombras, que cobrem o uniforme do Cavaleiro das Trevas e o rigor e o detalhe no tratamento do cenário, visível nos post-its que cobrem o frigorífico, ou nos retratos de família sobre a mesa da sala, que introduzem o leitor na casa da família cuja vida acaba de ser destruída.
 Com uma planificação dinâmica, que explora bem as possibilidades da dupla página, Sale não hesita perante algumas soluções narrativas mais ousadas, como na cena em que descobrimos a casa do Cavaleiro. Uma dupla página tratada como se fosse um plano-sequência, em que o Cavaleiro se movimenta pela sala como um actor pelo palco e que nos recorda as extraordinárias adaptações que o italiano Gianni De Luca fez das peças de Shakespeare, em que a página e a dupla página funcionavam como um palco por onde deambulavam as personagens.
Para esta aventura do início da carreira do Batman, Robinson vai recuperar o Cavaleiro, um obscuro vilão cuja primeira aparição remonta a 1943, numa história escrita por Don Cameron e desenhada por Bob Kane, o criador de Batman, publicada no nº 81 da revista Detective Comics. Mas apenas o nome e uso de uma espada ligam o Cavaleiro original ao personagem criado por Robinson e Sale. O novo Cavaleiro tem um traje mais próximo do do Zorro do que do fato de mosqueteiro do Cavaleiro original e mesmo o homem por trás da máscara é outro, com Mortimer Drake a dar lugar a Hudson Pyle, um ex-duplo de cinema em busca da fama que, por amor de uma mulher acaba por cair numa vida de crime e entrar em confronto com o Batman. Inspirado pelos heróis interpretados por Errol Flynn nos filmes clássicos de aventuras, como Robin Hood, The Sea Hawk, ou Captain Blood, o Cavaleiro revela-se um personagem extremamente interessante,  e até cativante, que nos remete para uma das inspirações do Batman, o Zorro.
O conto seguinte, Os Marginais (The Misfits) é assinado pelo inglês Alan Grant, um dos principais argumentistas do Judge Dredd, o mais conhecido vigilante da BD inglesa e é a segunda colaboração entre Grant e Sale ambientada no universo do Cavaleiro das Trevas, pois já antes a dupla tinha colaborado em Mad Men Across the Water, uma curiosa história de 1991, protagonizada pelos vilões do Asilo Arkham, em que o Batman prima pela ausência e onde Tim sale apenas assegura o desenho a lápis, ficando a arte-final a cargo de Jimmy Palmiotti. Para esta história, publicada originalmente nos nºs 7 a 9 da revista Shadow of the Bat, Grant vai recuperar vilões clássicos de segunda, ou terceira linha, como o Traça Assassina, O Homem-Gato e o Calendarista e criar um novo vilão, o Audaz, que junta num bando de falhados, chamado apropriadamente os Marginais, que decidem dar o golpe das suas vidas, ao raptar o Presidente da Câmara de Gotham, o Comissário Gordon e… Bruce Wayne.

Curiosamente, o Calendarista, que aqui tem um papel relativamente discreto, vai ser um personagem fundamental de The Long Halloween e da sua continuação, Dark Victory mas Loeb e Sale vão dar-lhe uma caracterização muito mais sinistra nessa nova versão. Para além de ser uma história bem contada, Os Marginais tem a particularidade de ser a única história do Batman que Sale desenhou dentro da continuidade regular da série, com Tim Drake, o terceiro Robin, a assumir algum protagonismo.

A terminar temos aMor Cego (Date Knight), uma pequena história protagonizada pelo Batman e pela Mulher-Gato. Publicada originalmente em 2004, no volume da série Solo dedicado a Tim Sale, esta história reúne Sale a Darwyn Cooke, com Cooke, que voltaria a trabalhar com Sale anos depois na revista Superman Confidential, a criar aqui uma intriga tão simples como movimentada e divertida, que faz brilhar a elegância, o dinamismo e o talento narrativo de Tim Sale. Curiosamente, esta história assinala o reencontro dos dois criadores com a Mulher-Gato, pois se Tim Sale já tinha tido oportunidade de desenhar a Mulher-Gato em When in Rome, um spin off de Dark Victory, escrito também por Jeph Loeb, já Darwyn Cooke tinha ilustrado as primeiras histórias do relançamento da revista da Mulher-Gato, feito por Ed Brubaker em 2001, para além de ter escrito e desenhado a novela gráfica Selina’s Big Score, que funcionou como prequela à fase de Ed Brubaker da revista mensal da felina mais sensual do universo DC.
Deixo-vos então com estas três histórias. Três contos do Batman, que traduzem outros tantos encontros entre o Cavaleiro das Trevas e um dos desenhadores que melhor lhe soube dar vida.

domingo, 12 de janeiro de 2014

DC Comics Uncut 22 - Super-Homem: Herança Vermelha


HOMEM DE AÇO, CORTINA DE FERRO

Há ideias assim. Tão geniais na sua simplicidade, que nos interrogamos como é que ninguém se lembrou disso antes. A história que vão poder ler neste livro, tem um ponto de partida desses: o que aconteceria se a nave que permitiu ao pequeno Kal El escapar à destruição do planeta Krypton, ao chegar à Terra, tivesse aterrado no meio das estepes ucranianas, em vez de numa planície do Kansas?
É partindo dessa premissa, tão simples como cheia de possibilidades, de um Super-Homem educado segundo a doutrina comunista, que em vez de lutar pela verdade, justiça e pelo modo de vida americano, trava "uma batalha sem fim por Stalin, pelo socialismo e pela expansão internacional do Pacto de Varsóvia", que o argumentista Mark Millar criou Herança Vermelha. Publicada originalmente em 2003 como uma míni-série em três partes,  integrada na linha Elseworlds, Herança Vermelha analisa as implicações geoestratégicas de um acontecimento como esse, no equilíbrio entre as duas superpotências.

Exactamente por ser óbvio que alguém com os poderes do Super-Homem seria capaz de pôr termo a uma guerra em poucos minutos, que, ao contrário do que acontece por exemplo com o Capitão América, a participação do Homem de Aço na Segunda Guerra Mundial se limitou à frente interna, com excepção de algumas capas, bastante mais patrióticas do que o conteúdo das respectivas revistas, e de  uma curiosa história de duas páginas publicada em 1940 na revista Look, chamada precisamente How Superman Would Win the War,  em que o Homem de Aço rapta Hitler e Stalin e leva-os para a Suíça para serem julgados pelo Tribunal da Sociedade das Nações.
Apesar de, naturalmente, não se integrar na continuidade da série, o impacto desta história chegou até à Alemanha nazi, onde motivou um artigo no Das Schwarze Korps, o jornal das SS., em que o Super-Homem é acusado de "ignorar as leis da física" e de corromper a mente das crianças americanas, e os seus autores, um dos quais, apresentado como sendo "um indivíduo intelectualmente e fisicamente circuncisado" de roubarem a ideia do Super-Homem aos ideais da raça superior ariana...
Durante a Guerra Fria, o Super-Homem, na Banda Desenhada manteve-se relativamente afastado das disputas ideológicas entre os Estados Unidos e a União Soviética, o que não foi tão evidente em outros média, como a televisão. Foi precisamente na televisão, na célebre série televisiva protagonizada por George Reeves, onde nasceu o famoso slogan que o apresenta como um lutador pela "verdade, justiça e pelo modo de vida americano". Um aspecto que é tratado de forma paródica no incontornável The Dark Knight Returns, de Frank Miller, em que o Homem de Aço surge retratado como um homem de mão da administração Reagan, ajudando o exército americano a combater as tropas do Pacto de Varsóvia.
É precisamente essa ameaça pendente de uma guerra nuclear, que ainda estava na ordem do dia durante a década de 80, que está presente em The Dark Knight Returns, e que encontramos também no Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, em que a existência de um indivíduo com superpoderes como o Dr. Manhattan, vem alterar decisivamente o equilíbrio de poder entre as duas superpotências a favor dos Estados Unidos. Mas, apesar dos pontos de contacto com Watchmen e The Dark Knight Returns, o primeiro ponto de partida para Herança Vermelha foi outro. Conforme refere o próprio Millar: “Red Son é baseado numa ideia que me surgiu quando li o Superman # 300, aos seis anos. Era uma história imaginária em que a nave do Super-Homem aterrava numa terra de ninguém entre os Estados Unidos e a União Soviética e ambas as potências tentavam reclamar a criança. Como uma criança nascida na sombra da Guerra Fria, a ideia do que poderia ter acontecido se os Soviéticos tivessem ficado com a criança pareceu-me fascinante."

É pois numa realidade histórica alternativa à que os leitores conhecem, o que, tal como vimos no volume Batman: Outros Mundos, publicado na primeira série desta colecção, é um dos elementos que distingue a linha Elseworlds, que a intriga imaginada por Mark Millar tem lugar. Uma realidade alternativa, com uma evolução histórica diferente, uma ucronia, género cultivado pela ficção científica desde os anos 50, em obras como The Man in  the High Castle, de Philip K. Dick,  em que não ocorre a desintegração do Bloco Soviético, nem a queda do Muro de Berlim e em que é Nixon, não Kennedy, que é assassinado em Dallas, em 1963, com Kennedy, que se divorcia de Jackie e casa como Marilyn Monroe,  a continuar como Presidente.
E se a existência de alguém com os poderes do Super-Homem vem naturalmente desequilibrar o balanço de forças a favor da Potência que ele defende, também é natural que o próprio Super-Homem acabe naturalmente por assumir o poder, sucedendo a Stalin como Senhor Supremo da Rússia, transformando-se num ditador, que embora benevolente e bem intencionado, não deixa de ser um ditador. No fundo, embora não vá tão longe como Alan Moore em Miracleman, Millar também conclui que, se o poder corrompe, nem mesmo o Super-Homem está imune a essa corrupção.

E se o Super-Homem está do lado daqueles a que os leitores americanos se habituaram a identificar como os maus, o “modo de vida americano” é defendido por Lex Luthor, que mesmo nesta realidade alternativa, continua dominado pelo seu ego incomensurável e por uma total falta de escrúpulos e desprezo pela vida humana. Além do eterno confronto Super-Homem/Lex Luthor, para os fãs de Super-Homem, há ainda a curiosidade de ver como Millar consegue integrar de forma harmoniosa na narrativa, alguns elementos característicos da mitologia do Homem de Aço, da Fortaleza da Solidão, à cidade engarrafada de Kandor, passando por Bizarro.
Mas o Super-Homem e o seu maior inimigo, não são as únicas personagens do universo DC que os leitores reconhecerão, apesar de ligeiramente transformadas. Tanto Lois Lane como Perry White e Jimmy Olsen existem neste universo, mas o facto de não conviverem de perto com o Super-Homem, não permite que este molde as suas vidas. Já o Batman, cuja origem é semelhante à que conhecemos, com a diferença de os pais não terem sido mortos por um simples ladrão, mas por agentes da NKVD (a polícia política, percursora da bastante mais conhecida KGB), estabelece com o Super-Homem, não uma relação de cumplicidade, mas de confronto, o que, mais uma vez nos remete para o Dark Knight Returns, de Frank Miller. 

Apesar da forma brilhante como Millar soube desenvolver uma ideia tão simples como genial, o sucesso de Herança Vermelha, passa e muito, pela arte de Dave Johnson. Conhecido e premiado ilustrador, responsável pelas capas de séries como 100 Bullets, que lhe valeram mais do que um Prémio Eisner, o “Reverendo” Dave Johnson (além da sua actividade artística, Johnson desenvolve uma actividade religiosa como Pastor da Igreja Metodista) assina aqui um dos raros trabalhos como desenhador sequencial, em que mistura imagens imediatamente reconhecíveis de histórias clássicas do Super-Homem, com a iconografia dos cartazes de propaganda soviética, com excelente resultados.
De Kick Ass a Superior, passando pela Guerra Civil, que os leitores portugueses puderam ler numa anterior coleção, Mark Millar sempre especulou sobre as consequências da existência de super-heróis no mundo real. Mas foi nesta história, passada num mundo alternativo, em que a História seguiu um percurso divergente, que tudo começou. E não podia ter começado de melhor maneira.

sábado, 21 de dezembro de 2013

DC Comics Uncut 21 - Universo DC: Justiça 1


Nesta segunda série, lançada com o jornal Sol, por uma questão de tempo e porque ainda não tive acesso às imagens dos primeiros volumes, optei por publicar aqui apenas os editoriais que eu escrevi, começando precisamente por este Justiça, que assinala o regresso de Alex Ross em português.

Justiça para Todos

Há artistas cujo grafismo único não se limita a contar visualmente uma história. Ilustradores cujas imagens influenciam a maneira como a própria história é contada. Criadores com um universo visual facilmente reconhecível e que influencia a própria evolução das narrativas que são chamados a ilustrar.
Jack Kirby, com o dinamismo e a visceralidade do seu traço era um desses artistas. Tal como o era Moebius, com a sua capacidade imbatível de criar imagens que continham em si universos inteiros. Mas, se quisermos avançar no tempo e juntar um autor contemporâneo a esses nomes míticos de artistas já desaparecidos, o nome do ilustrador americano Alex Ross revela-se incontornável.

Com um estilo que o crítico Brian Mullen definiu como “tão realista, que podíamos jurar que as personagens estiveram a posar para ele”, Alex Ross nasceu em Portland, no Oregon, em 1970, tendo-se licenciado na American Academy of Art, de Chicago. A sua formação académica, é um dos segredos para o seu estilo gráfico, pois Ross mistura influências vindas dos comics, como George Pérez, Bernie Wrightson, ou Jack Kirby, com a de ilustradores como Norman Rockwell e J. C. Leyendecker, e pintores como Salvador Dali, criando imagens espectaculares, que aliam o dinamismo dos comics com a gravitas da pintura clássica. Excelente pintor e retratista, Ross é senhor de um estilo hiperrealista que lembra bastante as ilustrações de Norman Rockwell, embora com um toque épico normalmente ausente do trabalho do célebre ilustrador do “american way of life” e que se adequa perfeitamente às histórias de super-heróis, cujos personagens são por definição “larger than life”.
Essa dimensão simultaneamente realista e épica, ajudaram a transformar Alex Ross, num dos mais populares artistas americanos da actualidade, cuja fama extravasou largamente o mundo dos Comics. Vejam-se as ilustrações que fez para filmes como Spiderman 2, de Sam Raimi, ou Unbreakable, de M. Night Shyamalan, ou as capas para revistas como a Time e a TV Guide e até para o cartaz da Entrega dos Óscares de Hollywood, já para não falar na sua participação activa na campanha presidencial de 2008, com duas ilustrações que fizeram história, em que Obama é apresentado numa pose próxima do Super-Homem, abrindo a camisa para deixar ver o uniforme por baixo, enquanto a George W. Bush cabe o papel de vilão, aparecendo como um vampiro que morde o pescoço da estátua da Liberdade

Mas bem antes do grande público descobrir o seu trabalho, Alex Ross já tinha saltado para a fama, junto dos fãs de super-heróis, com Marvels, uma mini-série escrita por Kurt Busiek em 1994. Um escritor com quem voltará trabalhar na série Astro City, em que Ross se encarrega das capas e da concepção gráfica dos inúmeros Super-heróis que enxameiam a cidade criada por Busiek.
Embora a sua estreia como ilustrador de personagens da DC tenha acontecido logo em 1993, quando pintou a capa do romance Superman: Doomsday & Beyond, o seu primeiro grande projecto para a editora de Batman e Super-Homem, foi a série Kingdom Come em que colabora com o escritor Mark Waid na criação de um futuro distópico e sombrio para o Universo DC. Seguiram-se uma série de projectos com Paul Dini, um dos argumentistas da premiada série televisiva Batman Adventures, cujo grande formato permitia explorar melhor a dimensão épica da arte de Ross. Assim, entre 1998 e 2003, nasceram seis livros dedicados aos principais heróis do Universo DC, Batman, Super-Homem, Mulher Maravilha, Shazam e a Liga da Justiça, grupo que protagonizou os volumes Secret Origin e Liberty and Justice.
  Justiça, a história cuja primeira parte vão poder ler nas páginas seguintes, é o corolário lógico da ligação de Alex Ross aos heróis da DC. Uma história épica que reúne heróis e vilões numa guerra sem quartel. Como refere o próprio Ross “estava a terminar o livro da Liga da Justiça quando comecei a falar com Dan Didio sobre a ideia de uma revista da Liga da Justiça que pudesse ser uma série. Algo com a Liga da Justiça clássica, de modo a satisfazer a vontade dos fãs em rever esses heróis. Desde o início que a história se iria chamar Justiça. Pareceu-me uma sequência lógica do anterior Liberdade e Justiça.”

Mas, se os heróis (e os vilões) são os clássicos, mesmo que a sua actuação não o seja, menos clássica é a aproximação de Ross à arte deste projecto, em que em vez de assegurar sozinho o desenho a lápis, a passagem a tinta e a aplicação da cor, como aconteceu nos restantes trabalhos que ilustrou para a DC, trabalha em equipa com o desenhador Doug Braithwaite, que assegura a planificação e o desenho a lápis, cabendo a Alex Ross a arte-final. Esta colaboração com Braithwaite, iniciada em Earth X, uma história também escrita por Jim Krueger, que é igualmente o argumentista de Justiça, permite a Ross participar num projecto com uma periodicidade regular bimensal, algo inédito num criador que, pela complexidade (e morosidade) do seu estilo estava naturalmente mais vocacionado para mini-séries como Marvels e Kingdom Come. Ainda mais do que em Earth X, a colaboração entre os dois artistas revela-se tão harmoniosa que os leitores menos atentos nem se aperceberão que a história não é apenas desenhada por Alex Ross, que não tem quaisquer dúvidas em realçar o trabalho de Braithwaite. Nas palavras de Ross: “sou um enorme fã de Doug e um grande seguidor dos artistas contemporâneos que têm um traço forte e realista. Tenho uma relação de quatro anos com ele e a maior confiança na sua capacidade e na capacidade de colaborarmos os dois, de modo a criarmos um produto final que seja melhor do que a mera soma dos nossos talentos.”
Também em termos de história, o respeito pela dimensão clássica dos heróis e vilões presentes (os maiores do Universo DC) não impede uma visão adulta desses personagens. Mais do que actualizá-los para o século XXI, Ross e Krueger pretendem reflectir sobre o que os mantém tão carismáticos durante tantos anos. Ou, como refere Ross: “como é que posso recuar às raízes do que faz com que um personagem como Brainiac pareça aterrador desde a sua primeira aparição? Como é que posso olhar para esses personagens sem decidir que necessitam de uma armadura nova para terem estilo? Daí ter decidido antes recriar para os leitores actuais, a sensação de como estes vilões pareciam assustadores das primeiras vezes que apareceram.”

Gerindo de forma harmoniosa o difícil equilíbrio entre tradição e modernidade, Ross, Krueger e Braithwaite conseguem criar uma história intemporal com este Justiça. Uma história em que o cineasta e argumentista Jim Krueger cria uma inédita união dos vilões, em torno do plano perfeito para desacreditar a Liga da Justiça e que passa por provar a vacuidade da sua actuação, que se limita a resolver situações pontuais, em vez de usar os imensos poderes dos seus membros, para melhorar realmente o mundo. Assim, são os vilões como Lex Luthor, Brainiac e o Joker quem, numa extraordinária campanha de relações públicas, vão pôr as suas capacidades ao serviço da humanidade. Uma humanidade que cedo descobrirá que, tal como um leopardo nunca perde as pintas, também os principais vilões do universo DC, não conseguem (nem querem) contrariar a sua natureza.  


domingo, 24 de novembro de 2013

DC Comics Uncut 19 - Super-Homem: A Legião dos Super-Heróis


O LEGADO DO FUTURO

A chamada Era de Prata dos comics foi um período no qual se criaram e estabeleceram alguns dos mais marcantes e duradouros aspectos da mitologia de muitos super-heróis. Foi uma época de criatividade desenfreada, em que viagens no tempo eram feitas de ânimo leve, breves paragens intergalácticas se resolviam em poucas páginas, e segredos obscuros e comprometedores do passado atormentavam as personagens num único número, para nunca mais serem mencionados. Em semelhante conjuntura, a premissa de o Super-Homem ser visitado durante a sua juventude por três viajantes do tempo não causou estranheza a ninguém... nem mesmo quando esses três se revelaram como membros de uma tal de Legião dos Super-Heróis — um «clube» de super-heróis do futuro, cuja formação fora inspirada pela lenda do Super-Homem — e que tinham decidido viajar para o passado com o intuito de o recrutarem. Essa singela história teve lugar em Adventure Comics #247 (1958), uma publicação que relatava as aventuras de Superboy — como o Super-Homem foi conhecido durante a adolescência nessa era — e podia ter acabado aí, tal como tantas outras aventuras inconsequentes da época. Só que esses três jovens do futuro e o potencial das histórias que eles tinham para contar intrigaram os leitores, que manifestaram interesse em ler mais sobre eles. Mort Weisinger e Otto Binder, os responsáveis pela criação do conceito, fizeram a vontade ao público e a Legião dos Super-Heróis foi o foco de várias outras aventuras nos anos seguintes, alternando entre os periódicos Adventure Comics, Action Comics e Superboy.

Tal como mais tarde se veio a saber, tudo começou no futuro, em pleno século 30, quando três adolescentes com superpoderes salvam acidentalmente R.J. Brande, o homem mais rico do universo. Grato e impressionado pelo potencial dos jovens, Brande encoraja-os a seguirem as passadas do lendário Superboy e, para que eles melhor pudessem usar os seus poderes ao serviço do Bem, financia a criação de um grupo oficialmente ratificado pelo governo: a Legião dos Super-Heróis. Intitulando-se agora de Cósmico, Relâmpago e Satúrnia, os três membros fundadores não tardaram a receber candidaturas de todos os cantos do universo, fazendo jus ao nome de «legião» num longo processo de recruta que culminou com uma viagem ao passado, na qual alistaram o próprio Superboy, que a partir de então se tornou numa personagem recorrente das aventuras do grupo. Dessa forma, os Legionários cimentaram a sua ligação à mitologia do Super-Homem à medida que iam conquistando o seu próprio espaço no Universo DC, no qual, embora não tivessem sequer um título a que pudessem chamar seu, começaram a adquirir uma identidade muito própria, que atraía cada vez mais fãs leais.

Fãs esses que participavam activamente no processo criativo, influenciando a liderança rotativa do grupo ao votarem durante as periódicas eleições da Legião, sugerindo novas personagens e escolhendo fatos novos para os membros, o que fazia deles um subconjunto único e invulgarmente pró-activo da fandom da DC. A começar por um tal de Jim Shooter, um dos nomes grandes da indústria, que aos 13 anos de idade escreveu e desenhou umas histórias da Legião e as enviou ao editor Mort Weisinger. Algumas dessas histórias foram redesenhadas por artistas profissionais e subsequentemente publicadas, naquele que foi um contributo notável e duradouro para a mitologia da franquia. Outros fãs de renome foram Mike Flynn e Harry Broertjes, que, durante uma fase complicada dos Legionários durante o início dos anos 70, fundaram um fã-clube e fanzine extremamente populares, que revitalizaram o interesse dos leitores na Legião dos Super-Heróis e que tiveram o seu peso na decisão da DC em finalmente dar à equipa o seu próprio título: Superboy starring the Legion of Super-Heroes (1973), mais tarde Superboy and the Legion of Super-Heroes (1976), até se assumir definitivamente como Legion of Super-Heroes em 1980. Em reconhecimento do seu empenho, Flynn e Broertjes tiveram direito a uma homenagem muito especial numa aventura dos Legionários, na qual estes são auxiliados por um fã que dava pelo nome de Flynt Brojj. A resposta do público foi positiva e, no final dos anos 70, a Legião era o título da DC que mais correio de leitores recebia, e na década de 80 foi um dos títulos mais aclamados pela crítica e com maior sucesso comercial.

Não é muito difícil perceber qual a atracção por detrás destes jovens com super-poderes do século 30, a começar pela mensagem implicitamente positiva que a sua mera existência incorpora: o futuro é risonho. E fascinante, com carros voadores, refeições sintetizadas, cinemas sensoriais, discotecas antigravitacionais e planetas inteiros convertidos em parques de diversão. Tinha tanto de ópera espacial como de telenovela, com gente jovem, bonita e em trajes justos a viver aventuras fantásticas intercaladas com férias e romance, conseguindo manter relações saudáveis com os pais mas sem deixar que o controlo parental influenciasse as suas vidas. Em suma, um grito do Ipiranga vicário para todo e qualquer adolescente. Mas essa era apenas uma das facetas que tornaram a Legião tão apelativa para os leitores, sendo a outra a sofisticação das próprias histórias à frente do seu tempo, que abordaram temáticas controversas como o racismo e a sexualidade. Além disso, uma vez que ocupavam o seu próprio canto no Universo DC, não havia qualquer problema em as personagens envelhecerem, casarem, terem filhos... ou mesmo morrerem, como aconteceu a vários infelizes membros, alguns sem direito a subsequente ressurreição. Tudo isso fazia da Legião um título muito idiossincrático, juntamente com o seu vastíssimo elenco principal e secundário — no qual se incluía a Legião dos Heróis Substitutos, a Academia da Legião e a Reserva da Legião — e, acima de tudo, a sua memorável galeria de vilões: o Quinteto Fatal, o Senhor do Tempo, Mordru o Implacável, Universo, a Legião dos Supervilões e muitos mais.

No entanto, a nível conceptual havia algo de problemático com a Legião. Em virtude da inerente mutabilidade do futuro, ela estava mais vulnerável ainda à mudança do que qualquer outra propriedade da DC, sobretudo ao tipo de mudança que crises com «C» maiúsculo costumam acarretar. Devido às alterações drásticas que a cronologia do Universo DC repetidamente sofreu, a Legião dos Super-Heróis teve quatro encarnações bem distintas umas das outras ao longo de mais de cinquenta anos de história, alternando entre o distópico e o utópico, entre a subversão e a probidade, sendo repetidamente rejuvenescidos e envelhecidos, e vendo mesmo a dada altura alterada por completo a sua origem e razão de ser. O livro que o leitor agora tem em mãos assinala o regresso definitivo da encarnação «original» pelas mãos de Geoff Johns, que em 2008 uniu forças com o conceituado artista Gary Frank para um arco narrativo destinado a dar continuidade à sua reinvenção da franquia, essa iniciada no ano anterior no evento intitulado The Lightning Saga. Naquele que já é conhecido como o seu modus operandi, Johns vai ao cerne da Legião, mina aquilo que as histórias clássicas tinham de melhor e reembala-as em função das sensibilidades modernas dos leitores actuais neste Super-Homem: Legião dos Super-Heróis.

O futuro afinal parece tudo menos risonho, e talvez nem mesmo o herói que inspirou a Legião seja capaz de a salvar quando o mundo inteiro se vira contra os seus antigos protectores e os obriga a viverem como foras-da-lei a monte. Escorraçados, dispersos e perseguidos por um regime totalitário e opressivo — cujos alicerces assentam em alguns erros passados do grupo — os Legionários terão de limpar o seu nome de alguma forma, não só para salvarem as próprias vidas, como também para salvaguardarem a integridade dos ideais pelos quais sempre lutaram. Trata-se de uma história na qual o Super-Homem tem de provar que, mais do que a super-força ou a invulnerabilidade, talvez seja a sua capacidade de inspirar os outros o seu maior poder, ao deparar-se com uma ameaça que não tem como combater sozinho. Mas trata-se acima de tudo de uma história da Legião, uma das mais historiadas e coloridas propriedades da DC Comics, que vê epitomados pelos Legionários o optimismo e o idealismo pelos quais a editora tradicionalmente sempre se destacou. Isto porque, no contexto deste universo ficcional, a mera existência da Legião significa que, desde que os heróis do presente façam o seu trabalho, existem boas razões para olhar o futuro com esperança. Que assim continue durante muito tempo.

Longa Vida à Legião!

FILIPE FARIA

terça-feira, 5 de novembro de 2013

DC Comics Uncut 18 - Batman: Outros Mundos


OUTROS MUNDOS, O MESMO BATMAN

Todos conhecemos bem os principais heróis da DC comics. As suas origens, poderes, os seus principais amigos e adversários, o meio onde se movimentam… Mas, e se esses heróis familiares fossem retirados dos cenários habituais das suas aventuras e “transportados para outros tempos ou lugares - lugares que existiram, ou podiam ter existido, ou outros que não existem, não podiam, ou não deviam existir. O resultado são histórias que fazem com que as personagens que são tão familiares como o dia de ontem pareçam tão inovadoras como o dia de amanhã”.

Estas palavras, escritas por Denny O’Neil, definem com exactidão a premissa que orienta este volume e a linha Elseworlds, ou em português, Outros Mundos. Uma linha em que é dada aos autores a liberdade de pegar em personagens icónicas e imediatamente reconhecíveis, heróis clássicos como o Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha e transpô-los para contextos diferentes e inesperados, sejam épocas distantes ou mundos estranhos, jogando com essa diferença para criar histórias únicas, impossíveis de concretizar no contexto tradicional da cronologia regular do universo DC. Se as histórias imaginárias não eram exactamente uma novidade na DC Comics, sendo bastante frequentes durante a década de 60, especialmente nas revistas do Super-Homem editadas por Mort Weisinger que, não por acaso, era conhecido como “o rei das histórias imaginárias”, a linha Elseworlds, activa entre 1989 e 2005, veio desenvolver esse conceito, sem colocar qualquer limite às suas imensas potencialidades, levando-o até bastante mais longe do que Weisinger poderia sequer sonhar.  
As histórias protagonizadas pelo Batman que publicamos neste número exploram precisamente as imensas possibilidades proporcionadas pela linha Elseworlds, transpondo o Cavaleiro das Trevas para os finais do século XIX, onde tem de defrontar  Jack, o Estripador, numa Gotham City iluminada por candeeiros a gás e onde as sombras e o nevoeiro criam uma atmosfera tão misteriosa como sombria, ou transformando-o num vampiro de modo a combater a ameaça do mais poderoso de todos os vampiros, o Conde Drácula, ou ainda levando-o a enfrentar uma entidade lovecraftiana num cemitério, numa história em que as fronteiras entre o sonho e a realidade são demasiado difusas para serem perceptíveis.

Uma das razões que levaram Bruce Wayne a adoptar a imagem de um morcego, foi a necessidade de “infundir o terror no coração dos criminosos” e as três histórias que compõem este volume, mostram a forma como o terror e o Cavaleiro das Trevas podem andar de braço dado, ao tocarem diferentes géneros de terror. Gotham By Gaslight é um conto policial, com um clima de terror vitoriano, protagonizado pelo primeiro e mais famoso de todos os serial killers, Jack, o Estripador; Batman & Dracula: Red Rain é uma história de vampiros que tem Gotham City como cenário, mas uma Gotham City que parece saída do cruzamento entre a frieza de um filme expressionista alemão e a sensualidade dos filmes de vampiros da produtora Warren; enquanto que Sanctum é uma história de fantasmas, ambientada num cemitério e cheia de referências à obra de do escritor H. P. Lovecraft.
Publicada originalmente em 1989, Gotham by Gaslight é anterior à criação oficial da linha Elseworlds, mas foi posteriormente considerada como a primeira história do género, até porque foi o seu grande sucesso, tanto comercial, como crítico, que levou a DC a explorar de forma consistente as infinitas potencialidades deste tipo de histórias. Pensada originalmente para uma edição anual da revista Batman, a história, nascida de uma simples conversa entre o editor Mark Waid e o argumentista Brian Augustyn, rapidamente ganhou outra dimensão, graças ao entusiasmo do editor-chefe Dick Giordano e do desenhador Mike Mignola, cujo traço único, muito bem servido pela arte-final de P. Craig Russell contribuiu para a atmosfera sombria do livro.

Mignola, que tinha acabado de desenhar Cosmic Odissey, uma saga cósmica escrita por Jim Starlin, em que a Liga da Justiça se confronta com os personagens criados por Jack Kirby para o seu Fourth World, não pretendia continuar a ser conotado com as histórias tradicionais de super-heróis e Gotham By Gaslight permitia-lhe mudar de registo, numa história de época, em que a pesquisa histórica é fundamental, pois Bruce Wayne cruza-se com Sigmund Freud e personagens reais como Ted Roosevelt e os actores Conrad Vedlt e Bela Lugosi emprestam as suas feições a alguns dos protagonistas.
Publicada originalmente em 1991, e colocada pelo site especializado IGN Comics no Top Ten das melhores novelas gráficas protagonizadas pelo Cavaleiro das Trevas, Batman & Dracula: Red Rain, coloca o homem morcego em confronto com o mais famoso vampiro da literatura, o Conde Drácula, criado por Bram Stoker. Mas, mais do que ao romance original vitoriano, o livro escrito por Doug Moench presta homenagem ao cinema expressionista alemão dos anos 30, aos filmes de terror da Hammer, protagonizados por Peter Cushing e Christopher Lee e à arquitectura de Gaudí, contando com o contributo inspirado do traço pormenorizado de Kelley Jones e da arte-final de Malcom Jones III, dupla que estava perfeitamente à vontade a ilustrar histórias de terror e fantasia, por ter colaborado regularmente com Neil Gaiman na prestigiada série Sandman.

Publicada originalmente em 1993, no nº 54 da revista Legends of the Dark Knight, Sanctum não pode ser considerada como pertencendo à linha Elseworlds, mas o facto de assinalar o regresso de Mignola ao Batman depois de Gotham By Gaslight, de ser uma das melhores histórias de terror com o Batman como protagonista e de ser um momento incontornável da evolução do desenhador como criador, levaram-nos a incluí-la neste volume. Embora Dan Raspler surja creditado como argumentista, esta é uma história imaginada por Mignola, em que o seu universo estético e criativo já está bem presente. Ou seja, embora Sanctum seja uma história do Batman, o Mignola que conhecemos da série Hellboy, já é visível aqui e a história funcionaria igualmente bem se Hellboy substituísse o Cavaleiro das Trevas como protagonista. Veja-se a planificação, o uso das sombras, ou a utilização dos cenários, mais sugeridos do que representados, para criar um ambiente de terror gótico.

O próprio Mignola é o primeiro a reconhecer numa entrevista à revista Comic Book Artist a importância de Sanctum na criação de Hellboy: “era uma história de fantasmas, com o Batman e eu fiquei muito satisfeito com o resultado e com vontade de fazer mais histórias dessas. Será que devo criar mais histórias destas e tentar encaixar nelas o Batman, o Wolverine, ou outro personagem do género, ou devo criar um personagem meu especificamente para ser o protagonista desse tipo de histórias?”. O aparecimento de Hellboy, pouco tempo depois, não deixa dúvidas quanto à resposta encontrada por Mignola…
As aventuras do Batman da era vitoriana prosseguiram em Batman: Master of The Future, com o traço clássico e elegante de Eduardo Barreto a substituir, sem grandes vantagens o desenho mais ambiental de Mike Mignola, enquanto a trilogia de aventuras do Batman Vampiro, prosseguiu nas histórias Bloodstorm, de 1994, e Crimson Mist, de 1999, mas foi nas histórias incluídas neste volume que tudo começou. Tal como também é aqui que encontramos o ponto de viragem no estilo e na carreira de um dos mais influentes criadores de comics das últimas décadas, Mike Mignola.


DC Comics UNCUT 17 - Lanterna Verde: Origem Secreta


DA NOITE MAIS DENSA AO DIA MAIS CLARO

Para quem não é leitor assíduo de comics, o Lanterna Verde talvez seja daqueles heróis que se conhece, mas acerca do qual pouco se sabe, apesar de ele ser um dos «Sete Grandes» da afamada Liga da Justiça. Para isso, muito contribuiu o errático histórico de publicação da personagem, embora na última década tenha conseguido cimentar o seu estatuto como uma das estrelas maiores do panteão da DC. Seja como for, e independentemente do seu sucesso comercial ou da estabilidade do seu periódico, o Lanterna Verde foi frequentemente uma espécie de «farol» para o Universo DC, sinalizando o rumo durante algumas das épocas mais marcantes da história da editora.

Criado por Bill Finger e Martin Nodell na Idade de Ouro dos comics, a primeira encarnação do Lanterna Verde dava pelo nome de Alan Scott, um engenheiro ferroviário cuja vida mudaria para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um fato particularmente chamativo, munido de um anel mágico e uma lanterna verde provenientes de um meteorito que caíra na antiga China (e que lhe caíram nas mãos para que pudesse punir os responsáveis por um mortífero acidente ferroviário), Alan Scott reunia assim os ingredientes para uma personagem que incorporava vários dos elementos pulp que capturavam o espírito da época. Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos mais poderosos heróis do mundo, capaz de efectuar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel, que tinha contudo um ponto fraco: era incapaz de afectar madeira ou matéria vegetal. Este aparentemente arbitrário calcanhar de Aquiles era um constante entrave e empecilho nas aventuras de Alan Scott, que invariavelmente se via atingido por paus e enfrentava algozes compostos de matéria vegetal ou capazes de controlar plantas. Outro ponto fraco era a carga limitada do anel místico, que tinha de ser recarregado a cada 24 horas pela lanterna verde que dava o nome à personagem, num ritual pontuado por um simples juramento solene, que foi evoluindo ao longo dos anos e que viria a tornar-se numa peça fundamental do legado e posterior mitologia da figura. Alan Scott foi uma personagem popular nos anos 40, aventurando-se sozinho no seu próprio título e em All-Star Comics com a Sociedade da Justiça da América, da qual foi membro e líder. Porém, tal como referido num anterior editorial, os super-heróis tiveram vida complicada após o final da 2ª Guerra Mundial, e a carreira do primeiro Lanterna Verde decaiu de forma acentuada no final da década. O periódico Green Lantern foi cancelado em 1949 e foi precisa uma espera de 10 anos até a luz do Lanterna Verde tornar a luzir, como que sinalizando a alvorada da Idade da Prata dos comics.

Em 1959, e perante as claras evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse por super-heróis, o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o mesmo tratamento que fora dado a uma outra personagem dos anos 40, o Flash, e alistou John Broome e Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. Uma vez que o volume em mão trata precisamente da origem de Hal Jordan, o piloto de prova que se tornaria no segundo Lanterna Verde, este editorial não se alongará muito acerca da génese da personagem, mas sim das diferenças que a distinguem do seu predecessor e de como estas pautaram a evolução de uma parte considerável do Universo DC. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a natureza de ambos era agora científica e não mística, e ambos os artefactos eram obra de uma raça de potestades benignas que dedicavam as suas vidas à protecção do universo e se auto-intitulavam de Guardiões. Desta forma, o Lanterna Verde deixou de ser um herói baseado na Terra e a jurisdição dele estendeu-se a todo um sector espacial, o que deu uma nova esfera de acção às suas aventuras, cuja dimensão se expandiu mais ainda com a inclusão de um importantíssimo novo elemento: o Corpo dos Lanternas Verdes. Esta força policial intergaláctica composta de milhares de Lanternas de todos os cantos do universo rapidamente se tornou num dos principais esteios da DC, e viria a servir de base para algumas das mais marcantes sagas das décadas seguintes. Outro aspecto que se manteve foi o aparentemente arbitrário ponto fraco do anel, sendo que a madeira se viu substituída pela cor amarela, contra a qual a energia da bateria nada podia. Desta feita, o calcanhar de Aquiles foi explicado como uma «impureza necessária» na bateria, e escusado será dizer que não houve falta de inimigos e ameaças com guarda-roupa ou tez em tons amarelados. Este novo Lanterna Verde foi um sucesso, e Hal Jordan rapidamente ganhou a sua própria casa com o relançamento de Green Lantern em 1960, um título que, apesar do cariz cósmico das suas aventuras, pautou pela diferença de forma curiosamente mundana, nomeadamente a inclusão de personagens de minorias que não eram representadas como estereótipos, um aspecto no qual as histórias do Lanterna Verde foram pioneiras. A indústria dos comics espelhava assim as mudanças que se começavam a fazer sentir na consciência social americana do final da década de 60, sobretudo o movimento de contracultura que então predominava e que se reflectiu de forma notória no Lanterna Verde em particular.

Tal como o leitor pôde constatar em Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida (outro volume da presente colecção a não perder), Hal Jordan deu corpo à desautorização das normas vigentes da sua época e sofreu uma profunda crise de identidade, que culminou com o cancelamento do seu título em 1972, e a sua viagem de auto-(re)descoberta teve de continuar na forma de histórias complementares nas páginas de The Flash durante quatro anos. Green Lantern só regressou às bancas em 1976, e continuou a espelhar os danos que a guerra do Vietname e o escândalo de Watergate haviam infligido à auto-confiança e fé dos norte-americanos na sua presidência. Hal Jordan punha cada vez mais em causa o discernimento dos Guardiões e a situação chegou a um ponto crítico na década de 80, quando ele se viu forçado a escolher entre o dever e o amor, e acabou por abandonar o Corpo dos Lanternas Verdes. Não foi senão após a Crise nas Terras Infinitas (um evento espoletado pelas acções de um membro renegado da raça dos Guardiões, note-se) que Hal Jordan regressou ao Corpo, mas o seu título foi novamente cancelado em 1986. O que nem por isso diminuiu o impacto da mitologia do Lanterna Verde no resto do Universo DC, tal como o atesta a mini-série Millennium (1988), na qual se revela a terrível trama milenar dos Caçadores, os predecessores do Corpo. Enquanto isso, as aventuras do Lanterna Verde prosseguiram no título de antologia Action Comics Weekly, até Green Lantern ser novamente relançado em 1990.

Muitas outras mudanças se avizinhavam, no entanto. Além de ser dos poucos heróis de alto gabarito a envelhecerem visivelmente nas páginas do seu próprio título, qual baby boomer confrontado com a sua mortalidade e com as escolhas da sua vida, Hal Jordan tornou-se subsequentemente num dos mais proeminentes exemplos da mudança — a palavra de ordem da década de 90 — na DC. Numa altura em que o mundo assistia a um tremendo realinhamento do poder económico e político, à proliferação dos novos média e a um crescente cepticismo para com a ordem social estabelecida, vários super-heróis tombaram ou foram substituídos, e o Lanterna Verde foi quem sofreu a mais duradoura perda. A sua cidade-natal foi nivelada e Hal Jordan, tomado pelo pesar, tentou reconstrui-la com o poder do seu anel, que lhe foi então negado pelos Guardiões. Em resultado de tão grande perda e daquilo que viu como frieza e ingratidão dos seus mestres, Jordan enlouqueceu, destruiu o Corpo dos Lanternas Verdes e tornou-se no vilão Parallax, que mais tarde foi morto ao tentar reescrever a história em Zero Hour (1994). Foi então substituído por uma nova personagem, Kyle Rayner, que se tornou no novo Lanterna Verde. Hal Jordan apenas regressou em definitivo uns dez anos mais tarde em Green Lantern: Rebirth (2004), uma série limitada que redimiu e ressuscitou a personagem, dando início a uma autêntica vaga revivalista na DC Comics nos anos 00, nos quais, espelhando de certa forma o saudosismo que se fazia sentir na cultura popular, o panorama da DC viu o regresso de uma série de velhas personagens e conceitos. Foi esse o princípio do apogeu do Lanterna Verde, que às mãos de Geoff Johns viu redefinidos e modernizados inúmeros aspectos da sua mitologia e se tornou no portador da tocha para o rumo narrativo do Universo DC na década seguinte, conduzindo-o através de várias sagas de enorme sucesso como Sinestro Corps War (2007), Blackest Night (2009) ou Brightest Day (2010).

Assim, ao fim de mais de 50 anos de existência (70, se contarmos com Alan Scott), o Lanterna Verde é hoje uma das séries mais bem-sucedidas da indústria, tendo dado origem a uma autêntica «família» de títulos, algo que apenas está ao alcance dos nomes maiores dos comics — um estatuto que não mais pode ser negado a esta atribulada e fascinante personagem, cuja origem é recontada neste Lanterna Verde: Origem Secreta para novas e velhas gerações de leitores em igual medida.

FILIPE FARIA

terça-feira, 29 de outubro de 2013

DC Comics UNCUT 16 - Batwoman: Elegia

Batwoman: Ano um, ano cinquenta

A Batwoman é um dos super-heróis que fazem parte da família Batman, entre os quais podemos encontrar os vários Robins, a Batmoça, ou heróis como Asa Nocturna ou Azrael. Criada há décadas, Batwoman foi originalmente pensada como um potencial interesse romântico do Cavaleiro das Trevas, embora se tenha alçado rapidamente ao estatuto de verdadeira rival. Foi também uma das personagens que sofreu mais transformações ao longo dos tempos. De potencial namorada acabou por se transformar em rival, desapareceu durante parte dos anos 1960, para reaparecer e ser assassinada em finais dos anos 1970, e renascer finalmente já no século 21 como uma das mais invulgares personagens do Universo DC, uma super-heroína gay.

A década de 1950 foi crucial na evolução dos comics americanos. Quando em 1954 o psiquiatra Fredric Wertham publicou o seu livro Seduction of Innocents, em que responsabilizava os comics pelo aumento da violência e delinquência juvenil, estava-se longe de imaginar as transformações a que a indústria seria submetida. Wertham chegou a testemunhar numa comissão especial de inquérito do Senado Americano, após o que a indústria dos comics promulgou um código de conduta voluntário, o célebre Comics Code Authority, que serviu como um manual de regras de auto-censura. Nas suas críticas, Wertham destacou sobretudo os temas sexuais que estariam escondidos nos comics, atacando a nudez feminina, bem como os comportamentos dos heróis, tendo nomeadamente insinuado a existência duma relação homosexual entre Batman e Robin. Por tudo isso, não é de espantar que quando o grupo de editores à frente dos destinos das histórias do Homem-Morcego quis expandir a “família” de personagens do universo de Batman, a Batwoman tenha surgido como um interesse romântico para combater essas alegações de Wertham.

Batwoman surgiu pela primeira vez nas páginas da revista Detective Comics #233, em 1956, numa história escrita por Edmond Hamilton e desenhada por Sheldon Moldoff. Edmond Hamilton era um escritor famoso de ficção-científica e de pulps, com um estilo sensacionalista que era quase a antítese do estilo “moralmente aceitável” que Wertham ambicionava para os comics. E o sensacionalismo saltava quase fora da extraordinária capa desenhada por Sheldon Moldoff, que apresentava uma Batwoman de moto a afastar-se a grande velocidade do Batmóvel, em direcção ao leitor, com o Duo Dinâmico a exclamar que ela os ia ultrapassar na missão, anunciada nos céus pelo Batsinal! O fato amarelo e negro da heroína contrastava com o fato do Batman, que era na altura cinzento, e anunciava uma personagem bem cheia de "panache". Em apenas doze páginas, a Batwoman salva o Batman duas ou três vezes e demonstra ser o reflexo feminino do Homem-Morcego, numa espécie de imagem de espelho quase humorística. Em vez dos gadgets científicos e “militarizados” do Batman, os gadgets dela estão incorporados na panóplia feminina duma rapariga elegante da alta sociedade: as suas pulseiras servem de algemas e a caixa de pó de arroz consegue disparar uma nuvem de fumo que provoca espirros, enquanto o seu frasco de perfume pulveriza gás lacrimogéneo e a sua mala de senhora pode ser usada como as “bolas” das pampas argentinas para fazer tombar e capturar os seus adversários. No fim desta primeira aventura, Batman descobre a identidade da super-heroína e arranca-lhe a promessa de que ela não voltará a combater o crime. A Batwoman é Katherine Kane, uma talentosa artista de circo - trapezista e acrobata como o Robin, mas também a “melhor condutora de motos acrobática”, motos essas que passarão a ser uma das suas imagens de marca - que herdou uma fortuna. Decidiu então embarcar numa cruzada contra o crime, tal como o seu ídolo Batman, que ela espera assim conhecer, e talvez seduzir.

Claro que a Batwoman não cumprirá a sua palavra, e continuará a aparecer em inúmeras aventuras do Cavaleiro das Trevas, tornando-se numa personagem muito popular do universo do Batman. No entanto, quando o lendário editor Julius Schwartz começou a planear a sua reformulação do universo DC, empurrando-o para moldes mais realistas, decidiu remover personagens que achava não-essenciais. A família de personagens “Batman” tinha crescido até incorporar algumas personagens bastante ridículas, numa altura em que as aventuras do Homem-Morcego se tinham tornado cada vez mais satíricas e cómicas - um ser extradimensional diminuto, o Bat-Mite, ou Ace, o Batcão, por exemplo. Schwartz decidiu então reformular uma segunda personagem feminina, a Batmoça, originalmente a sobrinha de Katherine Kane e potencial interesse amoroso de Robin, transformando a sua identidade, que passou a ser a de Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon. Entre a nova Batmoça e a antiga Batwoman, a escolha foi óbvia, e Katherine Kane desapareceu de cena. Embora tenha reaparecido algumas vezes no final dos anos 70, acabaria por ser morta no número 485 de Detective Comics, pela Liga de Assassinos de Ra’s al Ghul. A personagem permaneceria fora de cena até ao século 21, mas em meados dos anos 2000 a DC reformulou o seu universo de super-heróis com a série Infinite Crisis, uma história que é descendente directa da Crise nas Terras Infinitas que já pudemos ler nesta colecção. Depois dessa Crise, todo o universo avançou um ano com o evento 52, durante o qual foi decidido relançar a Batwoman, tendo os editores da DC decidido fazer história e reformular completamente o conceito da personagem. A Batwoman renasceu nessa série como uma das poucas personagens homossexuais no universo dos super-heróis.

O trabalho de escrever a primeira história a solo desta nova heroína - Elegia, o volume que têm entre mãos - recaiu sobre o argumentista Greg Rucka, conhecido no meio pelas suas personagens femininas fortes e independentes. Rucka é um escritor de romances policiais aclamados, que irrompeu na cena dos comics no final dos anos 1990 com uma mini-série intitulada Whiteout (entretanto adaptada ao cinema, com Kate Beckinsale no papel principal), a que se seguiu a sua série mais longa até à data, Queen & Country. Em ambos os casos, tratam-se de histórias policiais ou de espionagem, em que as personagens principais são femininas e granjearam enorme popularidade junto dos leitores. Rucka começou entretanto a trabalhar para a DC, nos anos 2000, e já escreveu argumentos para inúmeras personagens, entre as quais destacamos as histórias que assinou para a Mulher Maravilha, e a série Gotham Central, que escreveu a meias com Ed Brubaker. O relançamento de Batwoman permitiu-lhe aliás recuperar personagens desse comic. Gotham Central acompanhava as aventuras e casos duma série de polícias e detectives de Gotham, focando a acção numa esquadra da polícia e não no Batman, e uma das personagens principais da série, a detective Renée Montoya, reaparece em na série da nova Batwoman como namorada da super-heroína. Tal como a primeira Batwoman, esta também é uma rica herdeira chamada Kate Kane. Ao contrário da primeira Batwoman, Kate é de origem judaica, a sua aparência é a duma jovem gótica e algo anarquista, é lésbica, e o seu pai é um ex-militar e operacional de forças especiais, que treinou a filha para combater o crime.

Mas para além do argumento da série Elegia, é justo reconhecer que uma parte importante da fama que este livro atingiu vem da arte estonteante de J. H. Williams, que assina aqui uma das suas obras-primas. Williams é um veterano dos comics que assinou várias séries para a DC em finais dos anos 1990, mas que atingiu pela primeira vez o sucesso crítico com o seu trabalho em Promethea, escrito por Alan Moore, com o qual conquistou o seu primeiro Prémio Eisner, os Óscares dos comics. Williams cria em Batwoman um registo duplo, em dois estilos completamente diferentes. Por um lado, o traço mais clássico e algo reservado que acompanha a vida de Kate Kane, a identidade secreta da super-heroína, por outro lado as páginas duplas absolutamente brilhantes e dinâmicas em que o protagonismo recai sobre a Batwoman. Williams conquistou mais dois Eisners em 2010 com este seu trabalho, como melhor artista e para a melhor capa. A história foi publicada na revista Detective Comics, num período em que Bruce Wayne estava aparentemente morto, parte do imenso arco de história revolucionário que o escritor Grant Morrison elaborou para o Cavaleiro das Trevas, como já referimos em Batman para Sempre!, o texto que acompanha o segundo volume desta colecção, e o sucesso foi tal que Batwoman acabou por incorporar o relançamento geral dos heróis da DC no evento New 52 com o seu próprio título, tendo J. H. Williams assumido a série também como argumentista, um passo decisivo na carreira deste criador.

Assim, numa espécie de retorno irónico da história, uma personagem que foi criada para combater os rumores de homossexualidade de Batman, renasceu ela própria cinquenta anos mais tarde como uma super-heroína gay, quase que como vingança do universo dos comics sobre o seu detractor. Mas não devemos levar demasiado a mal o Dr. Fredric Wertham, já que as suas acusações e o debate que causaram fizeram parte dos factores que inauguraram uma das maiores épocas de sempre da banda desenhada americana, a Silver Age of Comics. Essa era possibilitou o desenvolvimento da moderna era do comic de super-heróis, dos quais este espantoso Elegia é sem dúvida um dos bons exemplos.

José Hartvig de Freitas