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quarta-feira, 14 de março de 2018

Um Punhado de Imagens do Coimbra BD

Como dizia o Chico, "foi bonita a festa, pá!" E no caso deste terceiro Coimbra BD, isso é mesmo verdade! Embora o tempo não tivesse ajudado, o público acorreu em bom número e, sobretudo, era um público interessado, que esgotou as novidades dos autores presentes. Foram uns dias cansativos, mas muito agradáveis, também pela simpatia dos convidados estrangeiros, Walter Venturi e R. M. Guéra, e portugueses, André Lima Araújo, Ricardo Venâncio, Manuel Morgado e Filipe Faria.
Aqui vos deixo com um punhado de fotografias, tiradas pela Sónia Lopes, a melhor assistente de produção que já tive.
       André Lima Araújo, Manuel Morgado e a mochila do Filipe Faria
                                           Alguns dos cosplayers presentes
                            A exposição dedicada a Arcindo Madeira
                                     Público a assistir a uma das tertúlias
                                        À conversa com os autores portugueses
                                           As animadas sessões de autógrafos
                                          Os cosplayers também compram BD
  Venturi e Guéra junto a uma das vitrinas com a colecção de José Carlos Francisco
                                   W. Venturi e r.m. Guéra dando autógrafos
                               Venturi, Guéra e J. C. Francisco
                                  A tertúlia de homenagem a Fernando Relvas
                                    Visita guiada à exposição de rm Guéra
                                         Vista da zona comercial
                           Autógrafo de rm Guéra no meu Scalped 1
                                           O descanso dos guerreiros

sábado, 3 de março de 2018

Coimbra BD 2018 - O programa Completo


Está finalmente disponível o programa completo da terceira edição do Coimbra BD. Uma iniciativa da Câmara Municipal de Coimbra, com produção e programação minha e do Bruno Caetano (Comic Heart). Um trabalho que foi um prazer e uma honra, até porque, desta vez, foram-nos dadas um pouco  mais de condições para programar uma Mostra mais ambiciosa. Lá vos espero pela Casa Municipal da Cultura a partir de quinta-feira.



PROGRAMA OFICIAL - COIMBRA BD 2018

8 de março (5ª) 
11h00 - Abertura
14h30 - Apresentação do projeto SAPATA PRESS – Casa da Esquina (Sala Francisco Sá de Miranda)
15h30 - Oficina criativa Mulher de Borracha – Casa da Esquina (Sala Francisco Sá de Miranda)
21h00 - Jogos tabuleiro (Sala Francisco Sá de Miranda)

9 de março (6ª)
19h00 - Visita guiada à exposição 70 anos de Tex, com José Carlos Francisco e Walter Venturi

21h00 - Curtas-metragens de terror premiadas no Festival de Cinema MoteLx apresentadas por Pedro Souto e João Monteiro, da direcção do Festival (Sala Silva Dias) – duração 67 min:
       - “A tua Plateia”, de Óscar Faria, (9 min).
- "Palhaços" de Pedro Crispim (15 min) - Menção especial Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2016
- “Depois do Silêncio" de Guilherme Daniel (15 min) - Menção especial Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017
- “Andlit” de João Figueira (5 min)
- “Sangue Frio”, de Patrick Mendes (15 min)
- Papá Wrestling, de Fernando Alle (9 min) – Prémio especial MoteLX 2009.

10 de março (sábado)
11h00 – “Filminhos Infantis à solta pelo país”, Sessão de curtas-metragens de animação para a família: Programação Zero em Comportamento (Sala Silva Dias):
- “Maestro”, de Geza M. Toth (Hungria),
- “O Coelho e o Veado”, Péter Vácz ( Hungria),
- “Foxy e Meggy” - André Letria (Portugal)
- “As Aventuras de Miriam: As Cores”,  Girlin-Bassovskaja (Estónia)
- “Mancha e Manchinhas: Perdidos”, Uzi Geffenblad e Lotta Geffenblad (Suécia)
- “Big Buck Bunny”, Sacha Goedegebure ( Holanda)
- “Rumores”, Frits Standaert (Bélgica/ França)

11h00/13h00 – Workshop: “Uma sequência de imagens”, com Carlos Correia (duas sessões de duas horas sobre imagem sequencial através do uso de brinquedos ópticos –– mediante inscrição presencial) (Sala Francisco Sá de Miranda)
14h00/15h00 – Emissão em directo do programa “Conta-me!”, da Rádio Universidade de Coimbra, com Sandra Tavares e Cátia Soares (Biblioteca Municipal)
15h00/15h30m – Tertúlia: Coleccionar originais de BD: Negócio, ou Paixão?, com João Antunes, Margarida Mesquita, Bruno Caetano (Biblioteca Municipal)
15h30/16h00 – Painel: Apresentação dos livros Dragomante, com Manuel Morgado e Filipe Faria e Man Plus, com André Lima Araújo (Biblioteca Municipal)
16h00/18h00 - Sessões de autógrafos dos artistas convidados r.m. Guéra, Walter Venturi, André Lima Araújo, Manuel Morgado, Filipe Faria, André Diniz e Ricardo Venâncio (átrio da Casa Municipal da Cultura)
17h00 - Desfile e concurso de Cosplay (Sala Silva Dias)
17h00 /18h00 - Tertúlia sobre edição: presença dos editores Nuno Catarino (Goody), Mário Freitas (Kingpin), Rui Brito (Polvo) e José de Freitas (G Floy) (Biblioteca Municipal)
18h30 – Sessão de desenho com modelo ao vivo: Salão 40 (Sala Francisco Sá de Miranda)
18h00/18h30 - Tertúlia de homenagem a Fernando Relvas: Com Nina Govedarica, Margarida Mesquita e João Queirós (Biblioteca Municipal)
18h30/19h00 – Painel: 70 Anos de Tex, com José Carlos Francisco e Mário João Marques (Biblioteca Municipal)

21h00 – Curtas-metragens de terror premiadas no MoteLx (Sala Silva Dias) – duração 65 min.
- “Nico – A Revolta”, de Paulo Araújo (8 min) - Selecção oficial Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2013
- "Mãe Querida" de João Silva Santos (14 min)  - Selecção oficial Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017
- "Post-Mortem" de Belmiro Ribeiro (14 min) - Vencedor Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2016
- “Miss Mishima” de Pedro Rocha (14 min) - Selecção oficial Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2011
- “Maria”, de Joana Viegas (15 min) - - Selecção oficial Prémio MOTELX - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2014
21h00 - Jogos tabuleiro (Sala Francisco Sá de Miranda)

11 de março (domingo)
11h00 - Filminhos Infantis à solta pelo país, Sessão de curtas-metragens de animação para a família – Programação Zero em Comportamento (Sala Silva Dias)
- “A Janela”, Camille Müller (França)
- “Os Tumblies”, Patrick Raats,  (Holanda)
- “Jonas e o Mar”, Marlies Van der Wel, (Holanda)
- “O Rapaz Bolota”, Dace Riduze, (Letónia)
- “Os porcos-Espinhos e a Cidade” Evalds Lacis, (Letónia)
- “Mancha e Manchinhas: Sapatos Mágicos”, Uzi Geffenblad e Lotta Geffenblad (Suécia)
- “Fábulas Delirantes 2”, Fabrice Luang Vija, (França/ Bélgica)

11h00/13h00 - Workshop Uma sequência de imagens, por Carlos Correia (duas sessões de duas horas sobre imagem sequencial através do uso de brinquedos ópticos –– mediante inscrição presencial) (Sala Francisco Sá de Miranda)
15h00/15h30 - Podcast Geek do Olimpo. Programa para o canal YouTube sobre BD e cultura geek, com Miguel Jorge e convidados (Biblioteca Municipal)
15h30/16h00 – Visita guiada à exposição de r.m. Guéra feita pelo autor.
16h00/18h00 - Sessões de autógrafos dos artistas convidados Walter Venturi, R. M. Guéra, Ricardo Venâncio, Manuel Morgado e Filipe Faria (entrada da Casa Municipal da Cultura?)

Atividades permanentes
Venda BD, ilustração e merchandising
Com as editoras e lojas Apocryphus, Arena Porto, Arte de Autor, BD Mania, Bicho Carpinteiro, Bruaá Editora, CLC Portugal, Comic Heart, Devir, G Floy, Goody, Ink Tshirt Store, JAN KEN PON, Kingpin Books, Levoir, Livraria Dr. Kartoon, Mini-Orfeu, Polvo

Exposições:
- Walter Venturi: um mestre dos fumetti - Desenhador italiano que tem trabalhado nas séries Tex e Zagor, da editora Bonelli, e é autor da novela gráfica Il Grande Belzoni (dedicada à vida do grande egiptólogo Giovanni Battista Belzoni, que foi um dos responsáveis pela descoberta de Abu Simbel e o primeiro homem a entrar na segunda pirâmide de Gizé) Walter Venturi vai estar pela primeira vez em Portugal com exposição própria, para além de ter trabalhos seus integrados na exposição dedicada aos 70 Anos de Tex.
- r.m. Guéra. Um autor sérvio no mercado internacional – Com trabalhos publicados nos principais mercados internacionais, desde os Estados Unidos, onde publicou nas editoras DC, Vertigo, Marvel e Image, até França (Glenat e Delcourt), passando por Itália, para onde está a desenhar um álbum especial do cowboy Tex, o sérvio Rajko Miloševic-Gera é um dos nomes maiores da BD realista internacional, que permanecia inédito em Portugal. Lacuna que será colmatada pela edição do livro The Goddamned (Os Malditos) que será lançado no Coimbra BD, com a presença do autor e o apoio da editora, G Floy.
– 70 Anos de Tex: A colecção de José Carlos Francisco – Um português, residente perto de Coimbra (Anadia) é proprietário da mais importante colecção de desenhos originais ligados à personagem Tex, o mais célebre cowboy da BD italiana, que comemora 70 anos em 2018. Uma fantástica colecção com trabalhos de diversos autores estrangeiros, que será exposta em público pela primeira vez no Coimbra BD.
– Manuel Morgado – desenhador português que fez a sua formação académica em Coimbra, na ARCA, Manuel Morgado vai expor originais do álbum Les Arcanes de la Lune Noire: Greldinard, que realizou para a editora francesa Dargaud, bem como de Dragomante, livro com argumento do escritor de fantasia, Filipe Faria, que será lançado durante o evento.
– Homenagem a Fernando Relvas – Falecido em 2017, Fernando Relvas foi um dos mais importantes autores portugueses de BD do século XX e, por ocasião da próxima publicação em livro do Espião Acácio, o seu primeiro grande sucesso na revista Tintin, alguns dos seus trabalhos originais serão expostos pela primeira vez na nossa cidade (com a presença da viúva do autor).
– André Lima Araújo: Man Plus – Exposição dedicada ao livro que assinala a estreia em Portugal de André Lima Araújo, desenhador português que tem publicado regularmente nas principais editoras americanas, como a Marvel e a Image.
- Arcindo Madeira, ilustração - referente à obra de Arcindo Madeira, ilustrador natural de Coimbra.

Autores Presentes:
Convidados internacionais
- Walter Venturi
- r.m. Guéra

Convidados Nacionais
- Manuel Morgado – Autor presente com exposição
- Filipe Faria – Escritor de fantasia, argumentista do livro Dragomante
- André Lima Araújo - Autor presente com exposição
- Ricardo Venâncio – Autor presente com o livro Hanuran, Prémio Melhor Desenho na Comic Con Portugal 2017, que esteve em exposição pela primeira vez na edição de 2017.
- Nina Govedarica – Viúva do autor Fernando Relvas

Programação paralela:
Exposição de ilustração Histórias por contar, de João Vaz de Carvalho, Galeria Pedro Olayo (filho) do Convento São Francisco, 3 de março a 8 de abril de 2018, de segunda-feira a domingo, 15h00 - 20h00.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

DC Comics UNCUT 17 - Lanterna Verde: Origem Secreta


DA NOITE MAIS DENSA AO DIA MAIS CLARO

Para quem não é leitor assíduo de comics, o Lanterna Verde talvez seja daqueles heróis que se conhece, mas acerca do qual pouco se sabe, apesar de ele ser um dos «Sete Grandes» da afamada Liga da Justiça. Para isso, muito contribuiu o errático histórico de publicação da personagem, embora na última década tenha conseguido cimentar o seu estatuto como uma das estrelas maiores do panteão da DC. Seja como for, e independentemente do seu sucesso comercial ou da estabilidade do seu periódico, o Lanterna Verde foi frequentemente uma espécie de «farol» para o Universo DC, sinalizando o rumo durante algumas das épocas mais marcantes da história da editora.

Criado por Bill Finger e Martin Nodell na Idade de Ouro dos comics, a primeira encarnação do Lanterna Verde dava pelo nome de Alan Scott, um engenheiro ferroviário cuja vida mudaria para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um fato particularmente chamativo, munido de um anel mágico e uma lanterna verde provenientes de um meteorito que caíra na antiga China (e que lhe caíram nas mãos para que pudesse punir os responsáveis por um mortífero acidente ferroviário), Alan Scott reunia assim os ingredientes para uma personagem que incorporava vários dos elementos pulp que capturavam o espírito da época. Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos mais poderosos heróis do mundo, capaz de efectuar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel, que tinha contudo um ponto fraco: era incapaz de afectar madeira ou matéria vegetal. Este aparentemente arbitrário calcanhar de Aquiles era um constante entrave e empecilho nas aventuras de Alan Scott, que invariavelmente se via atingido por paus e enfrentava algozes compostos de matéria vegetal ou capazes de controlar plantas. Outro ponto fraco era a carga limitada do anel místico, que tinha de ser recarregado a cada 24 horas pela lanterna verde que dava o nome à personagem, num ritual pontuado por um simples juramento solene, que foi evoluindo ao longo dos anos e que viria a tornar-se numa peça fundamental do legado e posterior mitologia da figura. Alan Scott foi uma personagem popular nos anos 40, aventurando-se sozinho no seu próprio título e em All-Star Comics com a Sociedade da Justiça da América, da qual foi membro e líder. Porém, tal como referido num anterior editorial, os super-heróis tiveram vida complicada após o final da 2ª Guerra Mundial, e a carreira do primeiro Lanterna Verde decaiu de forma acentuada no final da década. O periódico Green Lantern foi cancelado em 1949 e foi precisa uma espera de 10 anos até a luz do Lanterna Verde tornar a luzir, como que sinalizando a alvorada da Idade da Prata dos comics.

Em 1959, e perante as claras evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse por super-heróis, o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o mesmo tratamento que fora dado a uma outra personagem dos anos 40, o Flash, e alistou John Broome e Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. Uma vez que o volume em mão trata precisamente da origem de Hal Jordan, o piloto de prova que se tornaria no segundo Lanterna Verde, este editorial não se alongará muito acerca da génese da personagem, mas sim das diferenças que a distinguem do seu predecessor e de como estas pautaram a evolução de uma parte considerável do Universo DC. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a natureza de ambos era agora científica e não mística, e ambos os artefactos eram obra de uma raça de potestades benignas que dedicavam as suas vidas à protecção do universo e se auto-intitulavam de Guardiões. Desta forma, o Lanterna Verde deixou de ser um herói baseado na Terra e a jurisdição dele estendeu-se a todo um sector espacial, o que deu uma nova esfera de acção às suas aventuras, cuja dimensão se expandiu mais ainda com a inclusão de um importantíssimo novo elemento: o Corpo dos Lanternas Verdes. Esta força policial intergaláctica composta de milhares de Lanternas de todos os cantos do universo rapidamente se tornou num dos principais esteios da DC, e viria a servir de base para algumas das mais marcantes sagas das décadas seguintes. Outro aspecto que se manteve foi o aparentemente arbitrário ponto fraco do anel, sendo que a madeira se viu substituída pela cor amarela, contra a qual a energia da bateria nada podia. Desta feita, o calcanhar de Aquiles foi explicado como uma «impureza necessária» na bateria, e escusado será dizer que não houve falta de inimigos e ameaças com guarda-roupa ou tez em tons amarelados. Este novo Lanterna Verde foi um sucesso, e Hal Jordan rapidamente ganhou a sua própria casa com o relançamento de Green Lantern em 1960, um título que, apesar do cariz cósmico das suas aventuras, pautou pela diferença de forma curiosamente mundana, nomeadamente a inclusão de personagens de minorias que não eram representadas como estereótipos, um aspecto no qual as histórias do Lanterna Verde foram pioneiras. A indústria dos comics espelhava assim as mudanças que se começavam a fazer sentir na consciência social americana do final da década de 60, sobretudo o movimento de contracultura que então predominava e que se reflectiu de forma notória no Lanterna Verde em particular.

Tal como o leitor pôde constatar em Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida (outro volume da presente colecção a não perder), Hal Jordan deu corpo à desautorização das normas vigentes da sua época e sofreu uma profunda crise de identidade, que culminou com o cancelamento do seu título em 1972, e a sua viagem de auto-(re)descoberta teve de continuar na forma de histórias complementares nas páginas de The Flash durante quatro anos. Green Lantern só regressou às bancas em 1976, e continuou a espelhar os danos que a guerra do Vietname e o escândalo de Watergate haviam infligido à auto-confiança e fé dos norte-americanos na sua presidência. Hal Jordan punha cada vez mais em causa o discernimento dos Guardiões e a situação chegou a um ponto crítico na década de 80, quando ele se viu forçado a escolher entre o dever e o amor, e acabou por abandonar o Corpo dos Lanternas Verdes. Não foi senão após a Crise nas Terras Infinitas (um evento espoletado pelas acções de um membro renegado da raça dos Guardiões, note-se) que Hal Jordan regressou ao Corpo, mas o seu título foi novamente cancelado em 1986. O que nem por isso diminuiu o impacto da mitologia do Lanterna Verde no resto do Universo DC, tal como o atesta a mini-série Millennium (1988), na qual se revela a terrível trama milenar dos Caçadores, os predecessores do Corpo. Enquanto isso, as aventuras do Lanterna Verde prosseguiram no título de antologia Action Comics Weekly, até Green Lantern ser novamente relançado em 1990.

Muitas outras mudanças se avizinhavam, no entanto. Além de ser dos poucos heróis de alto gabarito a envelhecerem visivelmente nas páginas do seu próprio título, qual baby boomer confrontado com a sua mortalidade e com as escolhas da sua vida, Hal Jordan tornou-se subsequentemente num dos mais proeminentes exemplos da mudança — a palavra de ordem da década de 90 — na DC. Numa altura em que o mundo assistia a um tremendo realinhamento do poder económico e político, à proliferação dos novos média e a um crescente cepticismo para com a ordem social estabelecida, vários super-heróis tombaram ou foram substituídos, e o Lanterna Verde foi quem sofreu a mais duradoura perda. A sua cidade-natal foi nivelada e Hal Jordan, tomado pelo pesar, tentou reconstrui-la com o poder do seu anel, que lhe foi então negado pelos Guardiões. Em resultado de tão grande perda e daquilo que viu como frieza e ingratidão dos seus mestres, Jordan enlouqueceu, destruiu o Corpo dos Lanternas Verdes e tornou-se no vilão Parallax, que mais tarde foi morto ao tentar reescrever a história em Zero Hour (1994). Foi então substituído por uma nova personagem, Kyle Rayner, que se tornou no novo Lanterna Verde. Hal Jordan apenas regressou em definitivo uns dez anos mais tarde em Green Lantern: Rebirth (2004), uma série limitada que redimiu e ressuscitou a personagem, dando início a uma autêntica vaga revivalista na DC Comics nos anos 00, nos quais, espelhando de certa forma o saudosismo que se fazia sentir na cultura popular, o panorama da DC viu o regresso de uma série de velhas personagens e conceitos. Foi esse o princípio do apogeu do Lanterna Verde, que às mãos de Geoff Johns viu redefinidos e modernizados inúmeros aspectos da sua mitologia e se tornou no portador da tocha para o rumo narrativo do Universo DC na década seguinte, conduzindo-o através de várias sagas de enorme sucesso como Sinestro Corps War (2007), Blackest Night (2009) ou Brightest Day (2010).

Assim, ao fim de mais de 50 anos de existência (70, se contarmos com Alan Scott), o Lanterna Verde é hoje uma das séries mais bem-sucedidas da indústria, tendo dado origem a uma autêntica «família» de títulos, algo que apenas está ao alcance dos nomes maiores dos comics — um estatuto que não mais pode ser negado a esta atribulada e fascinante personagem, cuja origem é recontada neste Lanterna Verde: Origem Secreta para novas e velhas gerações de leitores em igual medida.

FILIPE FARIA

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

DC Comics UNCUT 11: Flash: Renascer


UM HERÓI PARA TODAS AS CRISES

Ele pode não fazer parte da Trindade dos heróis da DC (Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha) e é frequentemente relegado para segundo plano, quando comparado aos seus mais ilustres companheiros da Liga da Justiça, por exemplo. Mas o Flash é uma das mais importantes figuras da história dos comics de super-heróis, que devem a sua continuada existência em grande parte a esta personagem e ao seu legado único.

Criado em 1940 por Gardner Fox e Harry Lampert, o primeiro Flash foi Jay Garrick, um estudante universitário que, ao inalar vapores de água dura, ganhou o poder de super-velocidade. Alcunhado de «Corredor Carmim», este Flash foi uma personagem popular na década de 40, com direito a dois títulos (Flash Comics e All-Flash Quarterly) e ao estatuto de membro fundador da Sociedade da Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis da história. Vivia-se então o auge da chamada Idade do Ouro dos comics, quando estes se afirmaram como uma forma de arte e a sua publicação se tornou numa indústria lucrativa. Este estado de graça duraria até ao final da 2ª Guerra Mundial, à qual se seguiu um declínio acentuado da popularidade dos super-heróis, que viram o seu mercado ser tomado de assalto por histórias de horror, crime, romance e westerns. Inúmeros títulos, incluindo os do Flash, foram cancelados nos últimos anos da década de 40, à medida que os EUA entravam num período de introspecção pós-guerra, no qual foi deixando de haver lugar para heróis patrióticos, que se viram substituídos por anti-heróis e figuras niilistas à medida que uma nação sentia a iminência da Guerra Fria. Houve sobreviventes, mas mesmo um portento como o Super-Homem — cujo Action Comics #1 dera início à própria Idade do Ouro — apenas se conseguiu destacar durante a primeira metade da década de 50 graças à publicação Superman's Pal Jimmy Olsen, uma série de grande e duradouro sucesso, na qual o Homem de Aço servia praticamente como ajudante do seu jovem amigo em histórias de interesse humano. O mundo dos super-heróis estava em crise, portanto.

O primeiro sinal de mudança deu-se em 1954, quando, após uma série de controvérsias derivadas da alegada correlação entre a delinquência juvenil e o conteúdo dos comics (sobretudo os populares títulos de crime e horror), várias editoras decidiram implementar o Comics Code Authority. Uma vez regulado o conteúdo das suas publicações, as editoras começaram timidamente a optar novamente pelas apostas sadias e seguras do passado: os super-heróis. Havia no entanto que modernizar o material antigo, e a primeira dessas experiências foi, precisamente, o Flash, que surgiu «reembalado» com uma nova identidade, origem e uniforme em Showcase #4 (1956) pela mão de Robert Kanigher e Carmine Infantino. Este novo Flash era Barry Allen, um cientista forense cujo laboratório foi atingido por um relâmpago durante uma tempestade, banhando-o com uma solução de produtos químicos sobrecarregados que alterou a sua estrutura molecular permanentemente e fez do incauto cientista o novo Corredor Carmim. Após ler um velho comic do «velho» Flash dos anos 40(!), Barry Allen decide assumir a identidade desse herói e criar um uniforme para usar os seus poderes ao serviço da humanidade. A estreia deste novo Flash não criou grandes ondas, mas justificou uma segunda aventura em Showcase #8 no ano seguinte, no qual se registou um aumento nas vendas. Aberto este precedente, e embora o que mais vendia continuasse a ser humor, romance e western, o Flash abriu as portas para as estreias de mais heróis e nesse mesmo ano teve direito a duas outras aventuras nos #13-14 de Showcase. O crescente sucesso levou a DC Comics a devolver o Flash ao seu título epónimo, que continuou com a antiga numeração e recomeçou no número #105 (1959). Seguiram-se os regressos de Aquaman, Lanterna Verde e Arqueiro Verde, todos com novas origens e conceitos renovados, bem como uma modernização da Mulher-Maravilha e a criação da primeira super-heroína em dez anos: a Supermoça. Esta torrente de renovação criativa culminou em 1960 com a formação da sucessora da Sociedade da Justiça da América: a Liga da Justiça da América, que foi o título de maior sucesso da DC em 1961 e se tornou no ponto de referência para todo e qualquer grupo de super-heróis. A Idade da Prata dos comics começara, os super-heróis enquanto conceito estavam vivos e de boa saúde, outras editoras seguiram os passos da DC e o Flash resolvera a primeira de quatro crises.

Barry Allen viveu incontáveis aventuras, frequentemente acompanhado pelo jovem companheiro Kid Flash, e conseguiu basear mais de vinte anos de histórias à volta do aparentemente simplista conceito da velocidade que caracterizava o estilo de arte distinto usado por Carmine Infantino, cuja abordagem artística dava a impressão de movimento ao Flash nos quadradinhos. Mas não só: o Flash tem também aquela que é possivelmente a mais imaginativa galeria de vilões de qualquer herói da DC, com algozes como o Flautista, o Meteoromante, o Mestre dos Espelhos, o Gorila Grodd, o Flash Reverso e, certa vez, a própria Morte. Este nível de ameaças e o alto conceito científico do teor das suas aventuras — que frequentemente acarretavam viagens no tempo e o quebrar das barreiras que separam dimensões paralelas — obrigavam Barry Allen a ser criativo com os seus poderes de velocista, e alguns números do Flash eram autênticas lições de física (com precisão científica variável, bem entendido). Foram esses os poderes que salvaram o Universo DC nas crises subsequentes, a começar pela Crise nas Terras Infinitas, que deixou uma marca indelével no mundo dos comics. O papel do Corredor Carmim nesse épico foi fundamental, quando ultrapassou os limites da velocidade e sacrificou a própria vida para destruir o engenho apocalíptico que se preparava para obliterar o que restava de um já devassado multiverso. Tão depressa correu, que voltou atrás no tempo e se tornou no próprio relâmpago que lhe daria os seus poderes, numa recriação do símbolo de Ouroboros, a representação da eternidade da serpente que morde a própria cauda. Este fim ambíguo serviria de pretexto para o ocasional vislumbre de Barry Allen em futuras aventuras, mas após o fim desta segunda crise, o manto do Flash seria definitivamente assumido pelo seu parceiro Wally West, que até então fora o Kid Flash, e que continuou o legado do Corredor Carmim durante mais de vinte anos.

Muito aconteceu a Wally West durante esse período: duvidou durante anos estar à altura do seu mentor, mas finalmente fez por merecer o título de Flash; conheceu Bart Allen, o neto de Barry Allen, que veio do futuro e se tornou no jovem herói Impulso; casou e formou família; e descobriu a Força Aceleratriz, um conceito que viria a mudar para sempre a mitologia do Homem Mais Rápido do Mundo. Tratava-se de uma fonte de energia extra-dimensional, à qual os velocistas do Universo DC podiam aceder, cada um à sua maneira (tal como evidenciado pelos acidentes e experiências diferentes que deram a cada um dos Flashes os seus poderes) e uma espécie de vida após a morte para eles. Este último aspecto viria mais tarde a revelar-se essencial, pois a alma de Barry Allen fora parar precisamente à Força Aceleratriz, da qual emergiu num momento crucial durante a Crise Infinita (2006) para ajudar o seu antigo parceiro e o seu neto (que por essa altura já assumira a identidade de Kid Flash, em sinal de respeito para com o legado da sua família). Wally West desapareceu durante algum tempo após esse confronto, e o manto do Flash passou então temporariamente para Bart Allen, que se tornou no quarto Corredor Carmim. A terceira Crise fora solucionada...
...mas ainda faltava a Crise Final (2009), em que o derradeiro Mal regressava ao Universo DC e no qual, uma vez mais, Barry Allen viria a ser chamado a agir para evitar o fim da própria Criação. Misteriosamente trazido de volta ao mundo dos vivos em forma corpórea, a sua intervenção é novamente providencial na derrota do Mal, ao correr através do espaço e do tempo com a Morte a morder-lhe os calcanhares. Após uma ausência de duas décadas, Barry Allen regressava assim definitivamente ao mundo dos vivos, e as forças que o trouxeram de volta são explanadas neste Flash: Renascer, no qual o herói retornado questiona e tenta encontrar o seu lugar num mundo que muito lhe deve, mas que parece ter seguido em frente sem ele. Não só isso, pois a Força Aceleratriz parece ainda guardar alguns segredos surpreendentes, e o regresso de Barry Allen pode bem vir a significar um perigo mortal para todos os velocistas...

Seja como for, uma coisa é certa: Salvar o dia cabe frequentemente a heróis como o Super-Homem. Mas é ao Flash que o Universo DC deve o facto de ter sequer havido um dia para salvar ao longo de tantas crises, reais e fictícias. E esse é um legado que não pode ser ignorado.

FILIPE FARIA

sábado, 31 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 8 -Crise nas Terras Infinitas (Parte 2)



MUNDOS VIVERAM, MUNDOS MORRERAM, E
O UNIVERSO DC NUNCA MAIS FOI O MESMO...


“Só uma crise — verdadeira ou percepcionada — produz verdadeiras mudanças. Quando essa crise ocorre, os actos dependem das ideias em circulação. Acredito que essa é a nossa principal função: desenvolver alternativas às políticas vigentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível passe a politicamente inevitável.”

As palavras são do economista Milton Friedman, mas aplicam-se perfeitamente àquilo que sucedeu ao Universo DC na década de 80. Com uma mitologia cada vez mais convoluta e um historial cada vez mais insondável para novos (e mesmo alguns velhos) leitores, havia necessidade premente de uma arrumação a fundo, de forma a energizar um multiverso que começava a vergar-se debaixo do próprio peso. Seria necessária uma «crise» sem precedentes para levar a cabo as «mudanças» de que o panorama da DC claramente necessitava. Os «actos» basear-se-iam nas «ideias em circulação», ou seja, o riquíssimo manancial de personagens e mundos disponíveis, e as «alternativas às políticas vigentes» passariam por uma mudança de paradigma, a partir da qual a confusa tapeçaria de múltiplos universos e infinitas terras seria unificada. O «politicamente impossível» de mudar a face de toda uma editora a partir de uma série limitada tornou-se «politicamente inevitável», e assim surgiu a Crise das Terras Infinitas, a que este segundo volume dá dramática conclusão. Quem percepcionou a crise vivida pela DC Comics e a solucionou com outra foi Marv Wolfman, que em criança idealizara um épico com todos os seus super-heróis favoritos, e que realizou esse sonho ao escrever um dos mais importantes capítulos da história dos comics.

Tudo começou com uma personagem circunspecta com o ainda mais circunspecto nome de «Bibliotecário», criado por um jovem Marv Wolfman. No imaginário do futuro argumentista, o Bibliotecário era um corretor de informações, vivia num satélite que orbitava a Terra e vigiava sorrateiramente os super-heróis, vendendo a informação aos inimigos deles. Seria este o malfeitor para a saga idealizada por Wolfman durante a sua infância, na qual congeminara uma aventura com todos os heróis do passado, presente e futuro da DC. Uma ideia que não foi fácil de vender, pelo que Wolfman rapidamente tirou daí o sentido quando se tornou argumentista profissional no final dos anos 60, e tanto o Bibliotecário como a ideia da saga permaneceram no Limbo das criações durante mais uma década. Não foi senão na esteira do tremendo sucesso dos Novos Titãs — a série que começou a delinear o nome de Wolfman no panteão dos argumentistas de topo do seu meio — que a personagem foi por fim apresentada aos leitores com o novo nome e identidade de «Monitor» em The New Teen Titans #21 (EUA, 1982), onde aparece nas sombras como um vilão misterioso. Alguns anos mais tarde, face às provas dadas de Wolfman enquanto autor de sucesso e à inegável necessidade de revigorar as propriedades intelectuais da DC, a ambiciosa saga foi então aprovada. Finalmente, o Bibliotecário/Monitor viria a cumprir o propósito que lhe fora destinado, embora com uma finalidade bem diferente da originalmente idealizada...

Uma vez aprovado o ambicioso projecto de uma «maxi-série» para fazer tábua rasa do passado, presente e futuro de todos os cantos do Universo DC, Wolfman e o seu companheiro de armas George Pérez viram no Monitor o veículo perfeito para levar a cabo essa operação. A personagem teve direito a várias aparições ao longo de um monstruoso prelúdio de 40 números agourentos, espalhados por praticamente todas as publicações da editora enquanto se preparava os leitores para a Crise iminente. Misterioso, insondável e com acesso aos mais bem guardados segredos do multiverso, seria ele o catalisador de uma crise sem precedentes que viria a mudar o panorama da DC durante mais de vinte anos. O panorama com o qual o próprio Wolfman crescera a ler, e que iria alterar decisivamente através de uma história que idealizara desde criança, embora com repercussões que dificilmente poderia ter imaginado. A começar pelo nobre sacrifício do Monitor, o «vilão» que no volume anterior desta presente colecção deu a vida para salvar os mundos que ainda não tinham sido destruídos pela investida da sua contraparte maligna: o Antimonitor. O «Bibliotecário» fechava assim o círculo, mas o seu legado viria a perdurar, surgindo inclusive vinte anos mais tarde noutra forma e numa outra crise, e mesmo morto tornou-se literalmente parte indelével da própria estrutura do Universo DC.

E assim chegamos a este segundo volume de Crise nas Terras Infinitas, no qual a parada está mais alta do que nunca e as terras sobreviventes se vêem à mercê do terrível poder do Antimonitor, uma ameaça de tamanha capacidade destrutiva, que nem mesmo o poder conjunto dos heróis de vários mundos parece ser o suficiente para o impedir. Numa história desta natureza, face a tão poderoso algoz e com os universos a ruírem em redor dos super-heróis desesperados, seria inevitável que houvesse algumas baixas. E há, de facto, o que tornou a série mais marcante ainda, pois a morte de super-heróis era algo de extremamente incomum à época. Normalmente, esse destino era reservado a companheiros e personagens secundárias e, embora a Crise das Terras Infinitas tivesse deixado bem claro desde cedo que ninguém estava a salvo e que o fim do universo como os leitores o conheciam estava próximo (só no volume anterior, a contagem de corpos de heróis e vilões ia já nas dezenas), ninguém teria conseguido prever o destino de duas das mais emblemáticas figuras dos comics.

No espaço de dois números (Crisis of Infinite Earths #7-8, 1985) um dos chamados «Sete Grandes» da Liga da Justiça e uma das mais queridas personagens da DC são também eles forçados a fazer o derradeiro sacrifício em prol dos seus companheiros e do que resta do multiverso. O choque da parte dos leitores foi tremendo e as mortes desses dois heróis ficaram imortalizadas como dois dos momentos mais dramáticos e memoráveis da história da DC Comics. Uma delas teve mesmo repercussões duradouras e significativas, que se fizeram sentir décadas mais tarde, mesmo no universo renovado pós-Crise — o termo que, a par de «pré-Crise», passou a situar cronologicamente a vasta história deste universo — e perdurou até ao recente advento dos Novos 52, a mais rasa das tábuas até à data... Mas essa é uma história para outro editorial.

A Crise nas Terras Infinitas foi um tremendo sucesso a todos os níveis, dando início a uma nova geração de histórias e actualizando para uma nova era o panteão dos mais famosos super-heróis do mundo. Também popularizou e abriu definitivamente o precedente para o chamado evento transversal (crossover), que desde então se tornou num dado adquirido da indústria: um evento anual a larga escala, que influencia de uma forma ou de outra quase todas as publicações de uma editora enquanto decorre, e no qual heróis morrem ou o status quo é drasticamente alterado — pelo menos durante algum tempo. Essa premissa foi cumprida a preceito pela Crise nas Terras Infinitas e as consequências foram consideráveis, deixando marcas tão profundas, que mais tarde acabou por ser encaixada como a primeira parte da chamada Trilogia do Multiverso, à qual se seguiram a Crise Infinita (2006) e a Crise Final (2008). As três formavam assim um tríptico que consistia da morte do multiverso, a reconstrução do multiverso e a saga final do multiverso, por essa ordem. Apesar dos vinte anos que separam a primeira Crise das restantes duas (com um breve seguimento em 1994 em Zero Hora: Crise no Tempo, no qual se rectificou a díspar cronologia do Universo DC, que ficara comprometida aquando da fusão dos universos), e tal como o leitor irá perceber no final deste volume, o último capítulo da saga deixa de facto indícios que permitiam margem de manobra a suficiente para dar seguimento ao épico. Isto porque, pese embora a inegável finalidade dos eventos que ocorrem nos dois volumes da saga, muita coisa fica em aberto.

Dito isto, o legado mais duradouro da Crise vai bem além da sua classificação como talvez a mais marcante e bem arquitectada reestruturação de um universo ficcional nos comics, a derradeira sublimação do mito apocalíptico como sacrifício necessário para a renovação, e do potencial de novas histórias que despertou. Afinal, esta «maxi-série» introduziu também de forma épica e empolgante novas formas de as histórias de super-heróis interagirem com os seus contextos históricos e com a sua audiência, explorando o seu próprio historial com laivos metatextuais e introspectivos que mais tarde viriam a ser recuperados e aprofundados na Crise Final, entre outras obras de relevo. Não será, portanto, grande exagero dizer que, com este volume, o leitor tem nas suas mãos um pedaço da história, não só da DC Comics, mas de toda uma indústria que nunca mais foi a mesma desde então.

FILIPE FARIA