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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Mulher Maravilha 4 - Homens e Deuses


A MULHER-MARAVILHA DE GEORGE PÉREZ 
CHEGA AO PÚBLICO

Mulher-Maravilha: Homens e Deuses
Argumento – LenWein e George Pérez
Desenhos – George Pérez
Quinta, 15 de Junho, Por + 11,90 €
De entre os inúmeros autores cujo talento ficou ligado às aventuras da Mulher-Maravilha, ao longo dos setenta e cinco anos de existência da Princesa Amazona, há um nome que brilha mais do que outros e que muitos leitores associam imediatamente à mais importante (e popular) heroína da DC: o de George Pérez 
Nascido em Nova Iorque em 1954, George Pérez estreou-se na BD em 1973, como assistente do desenhador Rick Buckler, mas um ano depois já trabalhava regularmente para a Marvel. Apesar de ter trabalhado em séries como os Avengers e Fantastic Four, da Marvel, os trabalhos mais importantes da sua carreira foram publicados na DC, onde para além de ter desenhado a saga cósmica Crise nas Terras Infinitas, (já publicada numa anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à editora de Batman e do Super-Homem) que revolucionou profundamente o universo da DC teve passagens memoráveis por séries como Teen Titans e sobretudo pela Mulher-Maravilha, cujas aventuras desenhou durante cinco anos inesquecíveis e cuja origem reinventou nas histórias que este volume, que chegará às bancas na próxima quinta-feira, recolhe.
Reunindo os sete primeiros números da segunda série da revista da Mulher-Maravilha, publicados originalmente entre Fevereiro e Agosto de 1987, Deuses e Homens centra-se, tal como o título indica, na relação entre os Deuses da mitologia grega, que criaram a Mulher-Maravilha e a humanidade cujo futuro está perigo, face aos planos de Ares, o Deus da Guerra e inimigo jurado das amazonas, que só a Mulher-Maravilha conseguirá derrotar.
A própria Patty Jenkins, a directora do filme da Mulher-Maravilha, que está a ser um estrondoso sucesso, tanto crítico como comercial, é a primeira a reconhecer a grande influência da fase de Pérez no filme e a maneira como ele conseguiu dar um destaque maior à mitologia clássica, mantendo-se fiel à herança de Marston. Como refere Jenkins: ““Eu acho que (o mais importante da fase de Pérez) foi o facto de ele expandir o papel dos deuses. Ele esteve sempre lá - nada que ele fez, contradiz o que William Marston fez e criou, acho que só expandiu e demonstrou quem são os deuses. Qual é essa relação e como é que ela funciona. O que foi uma coisa maravilhosa para nós usarmos no filme.”
Essa importância da origem mitológica de Diana e das outras Amazonas, é evidente em Temiscira, a ilha Paraíso das Amazonas, que finalmente ganhou um nome (o mesmo da cidade das Amazonas da mitologia grega clássica),e passou de mero cenário a um espaço que se assume ele próprio como personagem das histórias.
O mesmo acontece com os Deuses do Olimpo, cujo comportamento está mais próximo do descrito pelas fontes literárias clássicas, como Homero ou Ovídio, ganhando personalidades complexas e bruscas (e perigosas) oscilações de humor. Basicamente, como refere José Pedro Castello Branco, no prefácio a este volume: “ Pérez solidificaria os nomes dos protectores das Amazonas nas suas versões originais, as gregas. Teríamos Afrodite e não Vénus. Atena e não Minerva. Zeus e não Júpiter. A mitologia grega regressaria à versão original, como se este mundo da BD fosse uma continuação das epopeias clássicas.”
Sendo fiel às epopeias clássicas, o mundo que Pérez cria para a série não deixa de ter um toque pessoal, pleno de espectacularidade, bem evidente nos cenários grandiosos. Veja-se a sua versão do Monte Olimpo, com as suas grandiosas arquitecturas escherianas, ou a sua versão do rio Estige e da Barca de Caronte. Extraordinário desenhador clássico, com um traço tão elegante como detalhado, George Pérez tem aqui um dos seus melhores trabalhos de sempre que, trinta anos após a sua publicação original, se lê com inegável prazer. No fundo, é essa capacidade de resistir com distinção à passagem do tempo, que define um verdadeiro clássico.
Publicado originalmente no jornal Público de 10/06/2017

domingo, 21 de maio de 2017

Apresentação da colecção Mulher-Maravilha

É já na próxima quinta-feira, 25 de Maio, que começa a colecção que o  Público e a Levoir dedicam à Mulher-Maravilha, precisamente uma semana antes do filme que ela protagoniza chegar às salas de cinema nacionais. Como de costume, aqui vos deixarei, no dia da saída de cada livro, o texto que escrevi sobre ele para o jornal Público. Mas antes disso, aqui fica o destacável de 4 páginas de apresentação da colecção, que foi distribuído ontem com o  jornal de sábado e será redistribuído na próxima terça-feira.

A PRIMEIRA SUPER-HEROÍNA

Outubro de 1940. O editor Max Gaines lê uma entrevista na revista Familiy Circle em que o psicólogo William Moulton Marston defende que a Banda Desenhada tem um grande potencial ainda por desenvolver e decide contratá-lo como conselheiro educacional da National Periodical, uma das companhias que irá dar origem à DC Comics. Face ao sucesso de personagens como Super-Homem e Batman, criados poucos anos antes, Marston, que além da sua actividade como psicólogo, tinha trabalhado também em Hollywood, como consultor da Universal Studios, lembrou-se também ele de criar um super-herói. Ao comentar essa ideia com a sua mulher, Elizabeth Holoway Marston, esta sugeriu-lhe que criasse antes uma mulher. Uma ideia inesperada, mas que foi bem aceite pelos editores, até por romper com o carácter exclusivamente masculino dos super-heróis existentes à época.
Assim, em Dezembro de 1941 - ao mesmo tempo que o Presidente Roosevelt declara oficialmente a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, na sequência do bombardeamento japonês a Pearl Harbor - os leitores descobrem pela primeira vez no nº 8 da revista All-Star Comics, Diana, a Princesa Amazona, herdeira da tradição dos mitos da Grécia antiga, que troca a sua ilha pelo mundo dos homens, para participar activamente na guerra contra os alemães ao lado de Steve Trevor, um piloto cuja vida salvou e por quem se apaixona. A essa primeira história, escrita por Marston sob o pseudónimo Charles Moulton, e desenhada por H.G. Peter, seguir-se-ia a capa do primeiro número da revista Sensation Comics, no mês seguinte, até que, no Verão de 1942, a Mulher-Maravilha ganha finalmente uma revista própria, o que significava que, nesta fase, as suas histórias apareciam em três revistas diferentes, todas escritas por Marston.
O sucesso dessa personagem feminina que, nas palavras do próprio Marston, tinha “a força do Super-Homem e a elegância de uma bela mulher” e representava o novo tipo de mulher que ele achava que devia governar a sociedade, vai de encontro à alteração do estatuto da própria mulher nos EUA, onde as mulheres passaram a desempenhar trabalhos antes destinados exclusivamente aos homens, por estes se encontrarem na frente de batalha. São estas mulheres que, apesar de realizarem trabalhos pesados e masculinos, não perdem a sua feminilidade, bem simbolizadas por Rosie, the Riveter, a operária imortalizada pela famosa ilustração de Norman Rockwell, que se vão facilmente identificar com a Mulher-Maravilha.
No período do pós-guerra, os super-heróis perdem muita da sua popularidade e a Mulher-Maravilha não é excepção. Mas ao contrário do que aconteceu a outros heróis da época de Ouro, a sua revista manteve-se em publicação, mesmo que em finais dos anos 60, uma decisão editorial faça com que Diana perca os seus super-poderes e as suas aventuras se aproximem mais das histórias de espionagem e de artes marciais. Uma situação que seria revertida na década de 70, graças a dois factores: os artigos da activista feminista Gloria Steinem, que crescera a ler a Mulher-Maravilha e que se insurgiu numa série de artigos e ensaios contra aquilo que via como um rebaixar do estatuto da mais famosa super-heróina de todas e, principalmente, a série televisiva da Mulher-Maravilha, protagonizada por Lynda Carter, que conferiu à Mulher-Maravilha o estatuto de ícone da cultura Pop.
Com algumas alterações na sua origem, na sequência da Crise nas Terras Infinitas, e mudanças ocasionais no seu uniforme, que durante algum tempo passou a incluir umas calças, a Mulher-Maravilha mantém-se como a mais importante super-heroína dos comics americanos, graças ao trabalho de grandes criadores como George Pérez, John Byrne, Devin Grayson, Phil Gimenez, Brian Azzarello, ou Greg Rucka que, dando o seu toque pessoal às aventuras da Princesa Amazona, souberam respeitar a essência da personagem, contribuindo assim para o manter da sua popularidade.
Uma popularidade que não podia estar mais em alta, numa altura em que a Princesa Amazona, que completou 75 anos de carreira em Dezembro de 2016, se prepara para estrelar o primeiro filme de super-heróis com uma protagonista feminina, dirigido também ele por uma mulher, Patty Jenkins. A pesada responsabilidade de encarnar a icónica heroína no filme que chega às salas de cinema portuguesa no mesmo dia em que o segundo volume desta colecção chega às bancas, coube à actriz israelita Gal Gadot, que no filme Batman V Superman mostrou estar perfeitamente à altura do difícil desafio de dar corpo à Mulher-Maravilha, a primeira e a maior de todas as super-heroínas.


O CRIADOR DA MULHER-MARAVILHA


Nascido em 1893 em Massachusetts, William Moulton Marston foi psicólogo, professor universitário, inventor de um dos mais importantes componentes do polígrafo, escritor de livros de divulgação sobre psicologia, conselheiro educacional de editoras, director de relações públicas da Universal, um dos mais importantes estúdios de Hollywood, actor em filmes publicitários, mas o que lhe valeu verdadeiramente um lugar na história, foi a criação, com a colaboração de H.G. Peter na parte gráfica, da Mulher-Maravilha.
Casado com Elizabeth Holoway, Marston vivia assumidamente numa relação poliamorosa com a sua mulher e com Olive Byrne. As duas mulheres da sua vida foram de particular importância para o desenvolvimento da sua mais famosa criação. Através da primeira, Marston teve contacto com importantes figuras sufragistas do início do século. Por seu lado, Olive Byrne era filha de Ethel Byrne, uma das mais progressistas feministas americanas. Olive foi assistente de Marston em projectos universitários, e foi uma forte influência na figura da Princesa Diana. Era conhecida pelos braceletes que usava que, segundo o próprio Marston, foram a inspiração dos usados pelas amazonas. Existem também teorias que a própria terá servido de modelo para a Mulher-Maravilha de H.G. Peter.
Marston era adepto de práticas sexuais alternativas, como o bondage e explorou a fundo o conceito de submissão, que implementava regularmente nas histórias da personagem que criou. Consta que a situação chegou a um ponto tal, que o editor teve de pedir a Marston que reduzisse o número de situações nas quais a heroína se via acorrentada… Também o famoso laço da verdade, com que a Mulher-Maravilha dominava os seus adversários e os obrigava a contar a verdade, remete para essas práticas sexuais, sem deixar de evocar o polígrafo, aparelho a cuja criação Marston esteve intimamente ligado.
Até à sua morte em 1947, devido a um cancro, William Moulton Marston continuou a escrever as aventuras da Mulher-Maravilha. Após o seu falecimento, Elisabeth e Olive, as duas mulheres que amou e que lhe serviram de inspiração continuaram a viver juntas até à morte de Olive, no final dos anos 80.

SABIA QUE?

- A participação bastante passiva da Mulher-Maravilha nas primeiras aventuras da Sociedade da Justiça, de que era membro honorário, tal como o Super-Homem e o Batman, deveu-se à falta de tempo do seu criador, William Moulton Marston - que fazia questão de escrever todas as histórias da personagem e já estava ocupado com três revistas mensais - para colaborar na escrita dessas aventuras.

- Nos finais dos anos 60 a Mulher-Maravilha, seguindo o sucesso de séries de televisão como Kung-Fu (O Sinal do Dragão em Portugal) e The Avengers, sofre uma transformação radical, deixando de ser uma super-heroína, ao abdicar os seus poderes para poder ficar no Mundo dos Homens, em vez de seguir o seu povo para a dimensão onde a Ilha Paraíso foi exilada. Nesta fase mais urbana, que vai durar cinco anos, Diana tem uma loja de roupas, é treinada em artes-marciais por um mestre chinês de nome I-Ching, e Steve Trevor morre.

- O conhecido logotipo da Mulher-Maravilha, com o duplo WW, foi criado em 1982 pelo famoso designer Milton Glaser, criador do icónico I ❤ NY. Não foi essa a única colaboração de Glaser com a DC, pois o designer foi também responsável pelo mais duradouro logotipo da DC Comics, conhecido como “DC Bullet”, que foi usado entre 1977 e 2005.

- Apesar de ser um símbolo feminino incontornável, só em 2008 as aventuras da Mulher-Maravilha foram finalmente escritas por uma mulher, Gail Simone. Antes disso, só outra mulher, Trina Robbins tinha escrito uma história da Princesa Amazona, a mini-série The Legend of Wonder Woman, mas, neste caso, a meias com o escritor Kurt Busiek.

- No universo criado por Frank Miller na série O Regresso do Cavaleiro das Trevas e nas suas duas sequelas, o Super-Homem e Mulher-Maravilha têm uma ligação amorosa de que resultaram dois filhos superpoderosos: Lara e Jonathan.

- Durante dois meses, a Mulher-Maravilha foi embaixatriz das Nações Unidas para a autodeterminação das mulheres. Este cargo, atribuído em 21 de Outubro de 2016, ano em que a personagem completava 75 anos de existência, acabaria por ser extinto menos de dois meses depois, em 16 de Dezembro, devido às pressões dos lobbies feministas.

- O português Miguel Mendonça, que desenhou a Mulher-Maravilha durante a fase final da linha Novos 52, escrita por Meredith Finch, voltou a desenhá-la já em 2017 no nº 7 da revista Trinity da linha DC Rebirth, a mais recente reformulação do Universo DC.

- Embora só agora, em 2017, chegue ao grande ecrã, pelas mãos de Patty Jenkins, a Mulher-Maravilha esteve muito perto de ser adaptada ao cinema 10 anos antes, num filme escrito e dirigido por Joss Whedon, o criador da série televisiva Buffy the Vampire Slayer que, frustrado este projecto, acabou por realizar o primeiro filme dos Vingadores, da Marvel, com o sucesso que se conhece.


OS AUTORES EM DESTAQUE

GRANT MORRISON
Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Os seus trabalhos para a Vertigo tornaram-no conhecido, mas a fama chegaria com a novela gráfica do Batman, Asilo Arkham, ilustrada por Dave McKean e já publicada pela Levoir.
Desde então Morrison tem sido responsável por algumas das mais importantes histórias protagonizadas por Batman, Super-Homem e a Liga da Justiça. Já em anteriores colecções dedicadas à DC, podemos descobrir o seu trabalho com a Liga da Justiça, em Terra 2 e com Batman, em Herança Maldita. Com Terra Um temos o privilégio de o ver finalmente (re)escrever a origem da Mulher-Maravilha, o único membro da trindade dos maiores heróis da DC a quem faltava emprestar o seu talento.


CHRISTOPHER MOELLER
O escritor e pintor americano começou a sua carreira na Innovation Comics e ganhou nome na Dark Horse ilustrando capas da série Star Wars, antes de se estrear na Helix, a chancela de ficção científica da DC Comics e pintar capas para a revista Shadow of the Bat, protagonizada pelo Batman. Mas o seu mais famoso trabalho para a DC é este Um por Todos, que pintou e escreveu, conciliando o mundo dos super-heróis, com um universo de fantasia inspirado por Tolkien.


GREG RUCKA
Escritor de romances policiais, com uma solida carreira na BD, de que os leitores portugueses tiveram um bom exemplo em Batwoman: Elegia, publicado numa anterior colecção dedicada à DC, Greg Rucka, que é conhecido pelas suas personagens femininas fortes, tem uma grande ligação à Mulher-Maravilha. Rucka escreveu as aventuras da Princesa Amazona entre 2003 e 2006, sendo também o actual escritor da revista mensal, após a mais recente remodelação do Universo DC, com a linha DC Rebirth. Mas tudo começou com A Hiketeia, a história incluída nesta colecção, que foi a primeira aventura da Mulher-Maravilha que Rucka escreveu.


J. G. JONES
Já conhecido dos leitores portugueses pela história que ilustrou da Viúva Negra, numa anterior colecção público/Levoir, o desenhador americano, natural da Louisiana, tem-se distinguido sobretudo como ilustrador de capas, para séries como Y, the Last Men, tendo ganho em 2006, o prémio da revista Wizard para melhor ilustrador de capas. Mas para além de um excelente ilustrador Jones é um também um grande artista sequencial, com um traço simultaneamente realista e espectacular, como prova a história que desenhou para esta colecção.


GEORGE PEREZ
Nascido em Nova Iorque em 1954, George Perez estreou-se na BD em 1973, mas um ano depois já trabalhava regularmente para a Marvel. Apesar de ter trabalhado em séries como os Avengers e Fantastic Four, da Marvel, os trabalhos mais importantes da sua carreira foram publicados na DC, onde teve passagens memoráveis por séries como Teen Titans e Mulher-Maravilha. Em anteriores colecções podemos apreciar o seu trabalho na saga cósmica Crise nas Terras Infinitas, que revolucionou profundamente o universo da DC e abriu caminho para a reformulação da Mulher-Maravilha de que Pérez foi o principal responsável.

PHIL JIMENEZ
Natural da Califórnia, onde nasceu em 1971, Jimenez veio para Nova Iorque para frequentar a School of Visual Arts, onde se formou em 1991 e onde dá actualmente aulas. Nesse mesmo ano foi trabalhar para a DC Comics, a convite do director criativo Neal Pozner que lhe atribuiu como primeiro trabalho, o desenho de quatro páginas da saga War of The Gods, com que George Pérez fechou a sua passagem pela série da Mulher-Maravilha.
Esta ligação artística entre Jimenez e Pérez é bem evidente no seu trabalho gráfico, que vai beber muito ao seu mestre, com quem até escreveu em conjunto uma história da Mulher-Maravilha, que o próprio Jimenez ilustrou. Responsável pelo desenho e pela escrita das aventuras da Princesa Amazona entre 2001 e 2003, Jimenez assinou aí algumas histórias memoráveis, como as que podemos ler nesta colecção.


Ficha dos livros

1 - Mulher-Maravilha: Terra Um
25 de Maio
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Yannick Paquette
Diana de Temiscira viveu toda a vida na ilha paradisíaca das Amazonas, mas, ao decidir aventurar-se pela primeira vez no mundo dos homens, na companhia de Steve Trevor, o homem que salvou da morte à mão das suas irmãs de raça, será perseguida e julgada pelas outras Amazonas pelo seu crime de ter desafiado as suas mais antigas tradições.
Um regresso às raízes da Mulher-Maravilha plantadas pelo seu criador, William Moulton Marston que não evita alguns dos aspectos mais controversos da personagem, ligados à sexualidade de Diana e das amazonas, assinado por Grant Morrison e Yanick Paquette, no âmbito da linha Terra Um, que reinventa para os leitores do século XXI a origem dos mais icónicos personagens da DC, através de uma história ao mesmo tempo moderna e intemporal.


2  – Mulher-Maravilha: Um por Todos
01 de Junho
Argumento e Desenhos – Christopher Moeller
Quando o Oráculo das Amazonas profetiza que a Liga da Justiça está fadada a ser destruída por um antigo e maléfico dragão, despertado do seu sono subterrâneo para mais uma vez ameaçar um mundo que já esqueceu que tais monstros alguma vez existiram, a Mulher-Maravilha tem de tomar a mais difícil decisão da sua vida: assumir sozinha uma batalha que sabe que não pode vencer, para assim poder preservar a vida daqueles que mais ama.
O pintor e escritor Cristopher Moeller assina o desenho e a fabulosa arte pintada em cor directa desta lenda dos tempos modernos, que funde, de forma tão inesperada como eficaz, os universos da fantasia e dos super-heróis.


3  – Mulher-Maravilha: A Hiketea
08 de Junho
Argumento – Greg Rucka
Desenhos – J. G. Jones
A Mulher-Maravilha aceita tomar sob sua protecção uma jovem humana, Danielle Wellys, de acordo com a Hiketeia, um antigo ritual consagrado pelos deuses, e terá de a proteger contra todos os que a perseguem, mesmo contra o Batman, que a quer prender por assassinato e, como sempre não está disposto a deixar escapar a sua presa, mesmo que isso implique defrontar a sua amiga e companheira da Liga da Justiça.
Construída sob a forma de uma tragédia clássica, onde não faltam as Hiríneas, personagens mitológicas que castigam duramente aqueles infringem a lei divina, esta história que assinala a estreia de Greg Rucka na escrita das aventuras da Princesa Amazona, contando com o traço rigoroso e espectacular de J-G. Jones na arte, é considerada uma das grandes histórias da Mulher-Maravilha e um bom exemplo do carácter intemporal da personagem.



4  – Mulher-Maravilha: Homens e Deuses
15 de Junho
Argumento – LenWein
Desenhos – George Pérez
Na mítica ilha de Temiscira, uma orgulhosa e feroz raça guerreira de amazonas criou uma filha de beleza, graça e força inauditas - a princesa Diana, também conhecida como Mulher-Maravilha. Quando um piloto de caça do Exército, Steve Trevor, pára na ilha, a rebelde e obstinada Diana desafia a lei das amazonas ao acompanhar Trevor de volta à civilização. Enquanto isso, Ares (o deus da guerra) escapou de sua prisão nas mãos das Amazonas e decidiu exigir a sua vingança: uma guerra mundial que não só durará séculos como acabará com todos os seres vivos do planeta! Cabe à Princesa Diana salvar seu povo e o mundo, usando os seus poderes para provar que merece o nome de Mulher Maravilha.
O início da épica e incontornável remodelação da Mulher-Maravilha, levada ao cabo por George Pérez na sequência das alterações no Universo DC provocadas pela saga Crise nas terras Infinitas.

5  – Mulher-Maravilha: Deuses de Gotham
22 de Junho
Argumento – Phil Jimenez e J.M. De Matteis
 Desenhos –  Phil Jimenez e Andy Lanning
A cidade de Batman, Gotham City, foi transformada numa terra semelhante à antiga Grécia, dominada pelos deuses do mal. E uma vez que Ares, o deus da guerra, e os deuses da discórdia, do medo e do terror combinam suas essências com as do Joker, do Espantalho e da Hera Venenosa, Batman vai precisar da ajuda da Mulher Maravilha, mas quando os deuses também conseguem possuir o Batman, a Princesa Amazona descobre que mesmo a ajuda de outros protectores de Gotham, como o Asa Nocturna e o Robin, bem como da seu própria protegida, Donna Troy, a Wonder Girl, podem não ser suficientes para acabar com o reinado maligno dos deuses do submundo.
Phil Jimenez assina aqui o início da sua passagem marcante pela série mensal da Mulher-maravilha, que escreveu e desenhou durante três inesquecíveis anos.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 20/05/2017

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Super-Heróis DC 13 - Novos Titãs: O Contrato de Judas



Este grande clássico também não teve no Público o espaço que justificava. Na verdade, este foi o texto mais curto que escrevi para esta colecção. De qualquer maneira, apesar de algo datado em alguns aspectos, vale muito a pena e finalmente está disponível em Portugal. 

O CONTRATO DE JUDAS: 
O CLÁSSICO DE WOLFAN E PÉREZ CHEGA AO PÚBLICOSuper-Heróis DC Vol 13
Novos Titãs: O Contrato de Judas  
Argumento –  Marv Wolfman
Desenhos – George Pérez 
Quinta, 28 de Abril
Por + 9,90 €
Por mais estranho que isso possa parecer nos dias de hoje, em 1984, havia um título protagonizado por jovens heróis que chegou a vender mais do que as revistas do Batman e do Super-Homem. Esse título era a revista dos Novos Titãs e os responsáveis por esse sucesso, tão inesperado como fulgurante, foram o argumentista Marv Wolfman e o desenhador George Pérez.
Grupo composto pelos parceiros adolescentes dos principais heróis da DC, como Robin, Kid Flash e Aqualad, os Titãs surgem pela primeira vez em 1964, na revista The Brave and the Bold e dois anos depois ganham um título próprio que, com altos e baixos, se manteve em publicação até 1976. A revista seria relançada em 1980, como The New Teen Titans, e o sucesso foi imediato, por força do talento conjunto de Wolfman e Pérez que, nos 50 números em que colaboraram, constroem uma saga épica, cheia de reviravoltas e emoção, que culmina com este Contrato de Judas.

Uma história em que os leitores descobrem, estupefactos, que existe um traidor infiltrado no grupo de jovens heróis, que está a ajudar Slade Wilson, o Exterminador, na sua missão de eliminar os Novos Titãs.
Clássico incontornável da história da DC e ponto mais alto da passagem dos autores pela revista dos Novos Titãs, O Contrato de Judas está finalmente em português!
Texto publicado originalmente no jornal Público de 22/04/2016

sábado, 31 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 8 -Crise nas Terras Infinitas (Parte 2)



MUNDOS VIVERAM, MUNDOS MORRERAM, E
O UNIVERSO DC NUNCA MAIS FOI O MESMO...


“Só uma crise — verdadeira ou percepcionada — produz verdadeiras mudanças. Quando essa crise ocorre, os actos dependem das ideias em circulação. Acredito que essa é a nossa principal função: desenvolver alternativas às políticas vigentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível passe a politicamente inevitável.”

As palavras são do economista Milton Friedman, mas aplicam-se perfeitamente àquilo que sucedeu ao Universo DC na década de 80. Com uma mitologia cada vez mais convoluta e um historial cada vez mais insondável para novos (e mesmo alguns velhos) leitores, havia necessidade premente de uma arrumação a fundo, de forma a energizar um multiverso que começava a vergar-se debaixo do próprio peso. Seria necessária uma «crise» sem precedentes para levar a cabo as «mudanças» de que o panorama da DC claramente necessitava. Os «actos» basear-se-iam nas «ideias em circulação», ou seja, o riquíssimo manancial de personagens e mundos disponíveis, e as «alternativas às políticas vigentes» passariam por uma mudança de paradigma, a partir da qual a confusa tapeçaria de múltiplos universos e infinitas terras seria unificada. O «politicamente impossível» de mudar a face de toda uma editora a partir de uma série limitada tornou-se «politicamente inevitável», e assim surgiu a Crise das Terras Infinitas, a que este segundo volume dá dramática conclusão. Quem percepcionou a crise vivida pela DC Comics e a solucionou com outra foi Marv Wolfman, que em criança idealizara um épico com todos os seus super-heróis favoritos, e que realizou esse sonho ao escrever um dos mais importantes capítulos da história dos comics.

Tudo começou com uma personagem circunspecta com o ainda mais circunspecto nome de «Bibliotecário», criado por um jovem Marv Wolfman. No imaginário do futuro argumentista, o Bibliotecário era um corretor de informações, vivia num satélite que orbitava a Terra e vigiava sorrateiramente os super-heróis, vendendo a informação aos inimigos deles. Seria este o malfeitor para a saga idealizada por Wolfman durante a sua infância, na qual congeminara uma aventura com todos os heróis do passado, presente e futuro da DC. Uma ideia que não foi fácil de vender, pelo que Wolfman rapidamente tirou daí o sentido quando se tornou argumentista profissional no final dos anos 60, e tanto o Bibliotecário como a ideia da saga permaneceram no Limbo das criações durante mais uma década. Não foi senão na esteira do tremendo sucesso dos Novos Titãs — a série que começou a delinear o nome de Wolfman no panteão dos argumentistas de topo do seu meio — que a personagem foi por fim apresentada aos leitores com o novo nome e identidade de «Monitor» em The New Teen Titans #21 (EUA, 1982), onde aparece nas sombras como um vilão misterioso. Alguns anos mais tarde, face às provas dadas de Wolfman enquanto autor de sucesso e à inegável necessidade de revigorar as propriedades intelectuais da DC, a ambiciosa saga foi então aprovada. Finalmente, o Bibliotecário/Monitor viria a cumprir o propósito que lhe fora destinado, embora com uma finalidade bem diferente da originalmente idealizada...

Uma vez aprovado o ambicioso projecto de uma «maxi-série» para fazer tábua rasa do passado, presente e futuro de todos os cantos do Universo DC, Wolfman e o seu companheiro de armas George Pérez viram no Monitor o veículo perfeito para levar a cabo essa operação. A personagem teve direito a várias aparições ao longo de um monstruoso prelúdio de 40 números agourentos, espalhados por praticamente todas as publicações da editora enquanto se preparava os leitores para a Crise iminente. Misterioso, insondável e com acesso aos mais bem guardados segredos do multiverso, seria ele o catalisador de uma crise sem precedentes que viria a mudar o panorama da DC durante mais de vinte anos. O panorama com o qual o próprio Wolfman crescera a ler, e que iria alterar decisivamente através de uma história que idealizara desde criança, embora com repercussões que dificilmente poderia ter imaginado. A começar pelo nobre sacrifício do Monitor, o «vilão» que no volume anterior desta presente colecção deu a vida para salvar os mundos que ainda não tinham sido destruídos pela investida da sua contraparte maligna: o Antimonitor. O «Bibliotecário» fechava assim o círculo, mas o seu legado viria a perdurar, surgindo inclusive vinte anos mais tarde noutra forma e numa outra crise, e mesmo morto tornou-se literalmente parte indelével da própria estrutura do Universo DC.

E assim chegamos a este segundo volume de Crise nas Terras Infinitas, no qual a parada está mais alta do que nunca e as terras sobreviventes se vêem à mercê do terrível poder do Antimonitor, uma ameaça de tamanha capacidade destrutiva, que nem mesmo o poder conjunto dos heróis de vários mundos parece ser o suficiente para o impedir. Numa história desta natureza, face a tão poderoso algoz e com os universos a ruírem em redor dos super-heróis desesperados, seria inevitável que houvesse algumas baixas. E há, de facto, o que tornou a série mais marcante ainda, pois a morte de super-heróis era algo de extremamente incomum à época. Normalmente, esse destino era reservado a companheiros e personagens secundárias e, embora a Crise das Terras Infinitas tivesse deixado bem claro desde cedo que ninguém estava a salvo e que o fim do universo como os leitores o conheciam estava próximo (só no volume anterior, a contagem de corpos de heróis e vilões ia já nas dezenas), ninguém teria conseguido prever o destino de duas das mais emblemáticas figuras dos comics.

No espaço de dois números (Crisis of Infinite Earths #7-8, 1985) um dos chamados «Sete Grandes» da Liga da Justiça e uma das mais queridas personagens da DC são também eles forçados a fazer o derradeiro sacrifício em prol dos seus companheiros e do que resta do multiverso. O choque da parte dos leitores foi tremendo e as mortes desses dois heróis ficaram imortalizadas como dois dos momentos mais dramáticos e memoráveis da história da DC Comics. Uma delas teve mesmo repercussões duradouras e significativas, que se fizeram sentir décadas mais tarde, mesmo no universo renovado pós-Crise — o termo que, a par de «pré-Crise», passou a situar cronologicamente a vasta história deste universo — e perdurou até ao recente advento dos Novos 52, a mais rasa das tábuas até à data... Mas essa é uma história para outro editorial.

A Crise nas Terras Infinitas foi um tremendo sucesso a todos os níveis, dando início a uma nova geração de histórias e actualizando para uma nova era o panteão dos mais famosos super-heróis do mundo. Também popularizou e abriu definitivamente o precedente para o chamado evento transversal (crossover), que desde então se tornou num dado adquirido da indústria: um evento anual a larga escala, que influencia de uma forma ou de outra quase todas as publicações de uma editora enquanto decorre, e no qual heróis morrem ou o status quo é drasticamente alterado — pelo menos durante algum tempo. Essa premissa foi cumprida a preceito pela Crise nas Terras Infinitas e as consequências foram consideráveis, deixando marcas tão profundas, que mais tarde acabou por ser encaixada como a primeira parte da chamada Trilogia do Multiverso, à qual se seguiram a Crise Infinita (2006) e a Crise Final (2008). As três formavam assim um tríptico que consistia da morte do multiverso, a reconstrução do multiverso e a saga final do multiverso, por essa ordem. Apesar dos vinte anos que separam a primeira Crise das restantes duas (com um breve seguimento em 1994 em Zero Hora: Crise no Tempo, no qual se rectificou a díspar cronologia do Universo DC, que ficara comprometida aquando da fusão dos universos), e tal como o leitor irá perceber no final deste volume, o último capítulo da saga deixa de facto indícios que permitiam margem de manobra a suficiente para dar seguimento ao épico. Isto porque, pese embora a inegável finalidade dos eventos que ocorrem nos dois volumes da saga, muita coisa fica em aberto.

Dito isto, o legado mais duradouro da Crise vai bem além da sua classificação como talvez a mais marcante e bem arquitectada reestruturação de um universo ficcional nos comics, a derradeira sublimação do mito apocalíptico como sacrifício necessário para a renovação, e do potencial de novas histórias que despertou. Afinal, esta «maxi-série» introduziu também de forma épica e empolgante novas formas de as histórias de super-heróis interagirem com os seus contextos históricos e com a sua audiência, explorando o seu próprio historial com laivos metatextuais e introspectivos que mais tarde viriam a ser recuperados e aprofundados na Crise Final, entre outras obras de relevo. Não será, portanto, grande exagero dizer que, com este volume, o leitor tem nas suas mãos um pedaço da história, não só da DC Comics, mas de toda uma indústria que nunca mais foi a mesma desde então.

FILIPE FARIA

terça-feira, 27 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 7 - Crise nas Terras Infinitas (Parte 1)



Embora a partir do volume 6, os editoriais tenham sofrido poucas e nenhumas alterações por parte da DC, decidimos continuar a divulgá-los neste blog, até porque em alguns casos, aproveitámos para acrescentar algumas coisas que não couberam na versão impressa, que tem um limite rígido entre os 8.000 e os 9.000 caracteres. Aqui fica pois o texto do José de Freitas para o Volume 1 da Crise nas Terras Infinitas, um dos títulos mais aguardados pelos leitores.

No cruzamento das estradas infinitas

Hoje em dia, a palavra Crise para um leitor da DC significa exactamente a saga que o leitor tem neste momento em mãos, a Crise nas Terras Infinitas. Mas ao longo das décadas, houve muitas outras Crises, que ajudaram a consolidar um dos aspectos mais marcantes do universo DC, o multiverso dos super-heróis que está na origem desta saga.

Em 1961, na história Flash of Two Worlds (Flash#123, Set. 1961 USA), as barreiras entre mundos quebravam-se. O Flash conseguia atravessar as dimensões e chegar a uma outra Terra, onde encontraria outro Flash, o Flash da Golden Age dos comics, dos anos 40. Baptizada Terra-2, os leitores descobririam rapidamente que nessa Terra os heróis da Terra-1, o mundo em que decorriam as aventuras que a DC publicava então, eram personagens de ficção para os heróis da Terra-2. A DC descobria assim uma solução brilhante para explicar porque razão os heróis cujas aventuras então contava não tinham envelhecido, ou tinham mudado de personalidade ou poderes: as aventuras dos anos 40 tinham decorrido num mundo paralelo, diferente do actual. Ao mesmo tempo, esta solução permitia à DC reutilizar muitas dessas personagens antigas, ressuscitando os heróis da Golden Age, o que inaugurou a época das Crises - números especiais que saíam anualmente e em que se juntavam os super-heróis da Terra-1 com os da Terra-2. Assim, logo em 1963 era lançada a história Crise na Terra-1 nas páginas da revista Justice League of America #21, a que se seguiria uma Crise na Terra-2 no número seguinte. E no ano seguinte a Crise saltaria para a Terra-3 - baptizada o mundo mais perigoso de todos, porque os heróis que os leitores conheciam tão bem eram aqui vilões!

E o número de Terras iria crescendo, lentamente formando um vasto multiverso em que era possível encontrar as variações mais incríveis e por vezes fantasiosas. Nalgumas Terras a DC instalou outros super-heróis que não pertenciam originalmente ao seu universo, e que tinha absorvido através da aquisição de outras empresas. Noutros casos, os conceitos foram ainda mais longe. Na Terra-2, os heróis da Terra-1 eram personagens de ficção (e vice-versa na Terra-1), mas e os autores? Quem eram? Pouco tardou para que os próprios autores da DC aparecessem nalgumas destas histórias, com ramificações filosóficas e meta-ficcionais aparentes. O Flash é atirado para a nossa Terra real, e procura "o único homem neste mundo que será capaz de acreditar em mim e ajudar-me, o editor daquela revista de comics do Flash"! O multiverso expandia-se como uma função de onda quântica, explorando todos os estados possíveis dos comics, qual gato de Schrödinger, ao mesmo tempo morto, vivo, e todos os estados intermédios! Mas uma tal explosão de criatividade trouxe consigo vários problemas, e o multiverso estava só à espera de aparecer um observador capaz de colapsar essa onda de mundos, de lhes dar um estado determinado, de decidir se o gato estava morto ou vivo.

Esse colapso da função de onda do universo DC viria em 1985, pela ocasião do 50º aniversário da editora, num evento colossal, a Crise que têm nas mãos, já não Crise da Terra-2 ou Terra-3, ou mesmo da Terra-8, mas Crise nas Terras Infinitas! A continuidade do universo DC tinha atingido uma complexidade tremenda, e para um leitor novo podia parecer demasiado avassaladora. Um único universo já representa um "mundo" de dificuldades, quanto mais quando esse mundo se multiplica por inúmeros mundos paralelos. Para além disso, todas estas Terras eram por vezes usadas para justificar histórias menos lógicas, ou como dei ex machina capazes de resolver qualquer dificuldade. O herói morria no início da história, mas o final revelava que era só um duplo de uma das Terras paralelas, por exemplo. Conseguir manter uma continuidade de heróis, com histórias que vinham desde antes da Segunda Guerra Mundial, mas se espalhavam por mundos paralelos, começava a ser uma tarefa hercúlea. A DC decidiu então actualizar o seu universo, criando um mega-evento que iria reorganizar toda a sua continuidade.

O trabalho de criar esta história recaiu sobre o argumentista Marv Wolfman e o artista George Peréz, dois dos nomes maiores da DC, que a completaram sob a forma de uma série de doze números. Nascido em 1946, Wolfman começou a trabalhar para os comics no final dos anos 60, com algumas histórias para Teen Titans da DC, antes de trabalhar durante os anos 70 para a Marvel, tanto como escritor, como editor. Ficou particularmente conhecido pelo seu trabalho em Tomb of Dracula, em colaboração com Gene Colan, ainda hoje considerado um dos melhores comics de terror de todos os tempos. Nos anos 80 regressou à DC, onde voltou a escrever histórias para os Teen Titans, que se tornaram num dos grandes sucessos da editora. Foi aqui que iniciou a sua colaboração com George Pérez. Pérez está indelevelmente ligado à Crise nas Terras Infinitas que o estabeleceu como talvez o maior desenhador de super-heróis da sua época - com ênfase na metade Super da palavra. Pérez nasceu em Porto-Rico em 1954, no seio duma família humilde que se mudou depois para Nova Iorque. Durante os anos 70 estreou-se nos comics em títulos da Marvel, antes de começar a desenhar a série Teen Titans com Wolfman. Foi o seu trabalho nesta série que o estabeleceu e lhe deu fama. Quando os dois foram recrutados para escrever e desenhar a Crise nas Terras Infinitas, a arte de Pérez explodiu de criatividade e atingiu uma escala grandiosa raramente vista nos comics de super-heróis. Ainda hoje os seus desenhos continuam a servir de verdadeira bitola de comparação para todas as histórias à escala cósmica. Pérez está também para sempre ligado à Mulher Maravilha, já que na segunda metade dos anos 80 ajudou a relançar e a recontar a origem desta heroína. Ao longo das décadas seguintes, ambos os autores continuaram a estar ligados ao universo dos super-heróis, com Wolfman a passar também cada vez mais tempo a escrever para a indústria da animação e do cinema, e Pérez a trabalhar em inúmeros projectos de super-heróis, dentre os quais podemos destacar o célebre crossover Liga da Justiça/Vingadores. São dois dos nomes maiores da banda-desenhada americana, e têm a seu crédito dezenas de histórias, personagens e aventuras de entre as mais marcantes de sempre.

A Crise nas Terras Infinitas arrancaria quase um ano antes da mini-série, com o surgimento do Monitor, uma estranha personagem quase omnisciente, que fez breves aparições em muitas histórias da DC ao longo dos meses. Tratava-se duma estratégia original que estabeleceu o carácter misterioso do Monitor e a sua importância. O Monitor era o oposto do Anti-Monitor, o vilão da série, cujo propósito era nada mais, nada menos, do que a destruição de todo o Multiverso, a cuja origem ambos tinham assistido. E para impedir essa destruição, os heróis viajariam até aos fins do tempo, e até ao nascimento do universo, e teriam que se sujeitar por fim ao colapso de infinitas dimensões num só universo, que se transformaria finalmente no único universo dos super-heróis da DC. Toda a continuidade da DC seria reajustada, por vezes retroactivamente. O multiverso anterior, com os seus mundos paralelos infinitos, tinha sido um erro cósmico causado por uma interferência aquando da sua origem, e agora tudo tinha voltado à "normalidade". Esta explicação serviu para racionalizar muitas das decisões editoriais tomadas pela DC, em que algumas personagens desapareceram, outras colapsaram várias encarnações numa só, com uma origem nova, outras saltaram da Terra-2 para a Terra-1 e assim por diante, e as próprias memórias dos sobreviventes se reajustaram a esta nova realidade. Dizemos “sobreviventes”, porque alguns dos maiores super-heróis da DC morreram nesta saga, como veremos no segundo volume.

É impossível exagerar o impacto e a importância desta saga, não só no universo da DC, mas em todo o género dos comics de super-heróis. Foi uma das primeiras vezes em que as decisões editoriais conscientes dos autores, de transformar um universo de modo a reorganizá-lo radicalmente, foram postas tão à vista, mas sem que isso prejudicasse a qualidade da história. Crise nas Terras Infinitas foi assim certamente a melhor prenda que a DC podia ter recebido, e oferecido aos seus leitores simultaneamente, pelo seu aniversário de meio-século: uma saga que lhe proporcionou o fôlego para encarar o meio-século seguinte com confiança e segurança, e com um universo coerente e acabado de renascer. E as histórias fenomenais que uma nova geração de autores criou para a DC no seguimento da Crise, recontando as origens dos maiores heróis de todos os tempos para uma nova geração de leitores, são disso a maior prova.

José Hartvig de Freitas