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sábado, 31 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 8 -Crise nas Terras Infinitas (Parte 2)



MUNDOS VIVERAM, MUNDOS MORRERAM, E
O UNIVERSO DC NUNCA MAIS FOI O MESMO...


“Só uma crise — verdadeira ou percepcionada — produz verdadeiras mudanças. Quando essa crise ocorre, os actos dependem das ideias em circulação. Acredito que essa é a nossa principal função: desenvolver alternativas às políticas vigentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível passe a politicamente inevitável.”

As palavras são do economista Milton Friedman, mas aplicam-se perfeitamente àquilo que sucedeu ao Universo DC na década de 80. Com uma mitologia cada vez mais convoluta e um historial cada vez mais insondável para novos (e mesmo alguns velhos) leitores, havia necessidade premente de uma arrumação a fundo, de forma a energizar um multiverso que começava a vergar-se debaixo do próprio peso. Seria necessária uma «crise» sem precedentes para levar a cabo as «mudanças» de que o panorama da DC claramente necessitava. Os «actos» basear-se-iam nas «ideias em circulação», ou seja, o riquíssimo manancial de personagens e mundos disponíveis, e as «alternativas às políticas vigentes» passariam por uma mudança de paradigma, a partir da qual a confusa tapeçaria de múltiplos universos e infinitas terras seria unificada. O «politicamente impossível» de mudar a face de toda uma editora a partir de uma série limitada tornou-se «politicamente inevitável», e assim surgiu a Crise das Terras Infinitas, a que este segundo volume dá dramática conclusão. Quem percepcionou a crise vivida pela DC Comics e a solucionou com outra foi Marv Wolfman, que em criança idealizara um épico com todos os seus super-heróis favoritos, e que realizou esse sonho ao escrever um dos mais importantes capítulos da história dos comics.

Tudo começou com uma personagem circunspecta com o ainda mais circunspecto nome de «Bibliotecário», criado por um jovem Marv Wolfman. No imaginário do futuro argumentista, o Bibliotecário era um corretor de informações, vivia num satélite que orbitava a Terra e vigiava sorrateiramente os super-heróis, vendendo a informação aos inimigos deles. Seria este o malfeitor para a saga idealizada por Wolfman durante a sua infância, na qual congeminara uma aventura com todos os heróis do passado, presente e futuro da DC. Uma ideia que não foi fácil de vender, pelo que Wolfman rapidamente tirou daí o sentido quando se tornou argumentista profissional no final dos anos 60, e tanto o Bibliotecário como a ideia da saga permaneceram no Limbo das criações durante mais uma década. Não foi senão na esteira do tremendo sucesso dos Novos Titãs — a série que começou a delinear o nome de Wolfman no panteão dos argumentistas de topo do seu meio — que a personagem foi por fim apresentada aos leitores com o novo nome e identidade de «Monitor» em The New Teen Titans #21 (EUA, 1982), onde aparece nas sombras como um vilão misterioso. Alguns anos mais tarde, face às provas dadas de Wolfman enquanto autor de sucesso e à inegável necessidade de revigorar as propriedades intelectuais da DC, a ambiciosa saga foi então aprovada. Finalmente, o Bibliotecário/Monitor viria a cumprir o propósito que lhe fora destinado, embora com uma finalidade bem diferente da originalmente idealizada...

Uma vez aprovado o ambicioso projecto de uma «maxi-série» para fazer tábua rasa do passado, presente e futuro de todos os cantos do Universo DC, Wolfman e o seu companheiro de armas George Pérez viram no Monitor o veículo perfeito para levar a cabo essa operação. A personagem teve direito a várias aparições ao longo de um monstruoso prelúdio de 40 números agourentos, espalhados por praticamente todas as publicações da editora enquanto se preparava os leitores para a Crise iminente. Misterioso, insondável e com acesso aos mais bem guardados segredos do multiverso, seria ele o catalisador de uma crise sem precedentes que viria a mudar o panorama da DC durante mais de vinte anos. O panorama com o qual o próprio Wolfman crescera a ler, e que iria alterar decisivamente através de uma história que idealizara desde criança, embora com repercussões que dificilmente poderia ter imaginado. A começar pelo nobre sacrifício do Monitor, o «vilão» que no volume anterior desta presente colecção deu a vida para salvar os mundos que ainda não tinham sido destruídos pela investida da sua contraparte maligna: o Antimonitor. O «Bibliotecário» fechava assim o círculo, mas o seu legado viria a perdurar, surgindo inclusive vinte anos mais tarde noutra forma e numa outra crise, e mesmo morto tornou-se literalmente parte indelével da própria estrutura do Universo DC.

E assim chegamos a este segundo volume de Crise nas Terras Infinitas, no qual a parada está mais alta do que nunca e as terras sobreviventes se vêem à mercê do terrível poder do Antimonitor, uma ameaça de tamanha capacidade destrutiva, que nem mesmo o poder conjunto dos heróis de vários mundos parece ser o suficiente para o impedir. Numa história desta natureza, face a tão poderoso algoz e com os universos a ruírem em redor dos super-heróis desesperados, seria inevitável que houvesse algumas baixas. E há, de facto, o que tornou a série mais marcante ainda, pois a morte de super-heróis era algo de extremamente incomum à época. Normalmente, esse destino era reservado a companheiros e personagens secundárias e, embora a Crise das Terras Infinitas tivesse deixado bem claro desde cedo que ninguém estava a salvo e que o fim do universo como os leitores o conheciam estava próximo (só no volume anterior, a contagem de corpos de heróis e vilões ia já nas dezenas), ninguém teria conseguido prever o destino de duas das mais emblemáticas figuras dos comics.

No espaço de dois números (Crisis of Infinite Earths #7-8, 1985) um dos chamados «Sete Grandes» da Liga da Justiça e uma das mais queridas personagens da DC são também eles forçados a fazer o derradeiro sacrifício em prol dos seus companheiros e do que resta do multiverso. O choque da parte dos leitores foi tremendo e as mortes desses dois heróis ficaram imortalizadas como dois dos momentos mais dramáticos e memoráveis da história da DC Comics. Uma delas teve mesmo repercussões duradouras e significativas, que se fizeram sentir décadas mais tarde, mesmo no universo renovado pós-Crise — o termo que, a par de «pré-Crise», passou a situar cronologicamente a vasta história deste universo — e perdurou até ao recente advento dos Novos 52, a mais rasa das tábuas até à data... Mas essa é uma história para outro editorial.

A Crise nas Terras Infinitas foi um tremendo sucesso a todos os níveis, dando início a uma nova geração de histórias e actualizando para uma nova era o panteão dos mais famosos super-heróis do mundo. Também popularizou e abriu definitivamente o precedente para o chamado evento transversal (crossover), que desde então se tornou num dado adquirido da indústria: um evento anual a larga escala, que influencia de uma forma ou de outra quase todas as publicações de uma editora enquanto decorre, e no qual heróis morrem ou o status quo é drasticamente alterado — pelo menos durante algum tempo. Essa premissa foi cumprida a preceito pela Crise nas Terras Infinitas e as consequências foram consideráveis, deixando marcas tão profundas, que mais tarde acabou por ser encaixada como a primeira parte da chamada Trilogia do Multiverso, à qual se seguiram a Crise Infinita (2006) e a Crise Final (2008). As três formavam assim um tríptico que consistia da morte do multiverso, a reconstrução do multiverso e a saga final do multiverso, por essa ordem. Apesar dos vinte anos que separam a primeira Crise das restantes duas (com um breve seguimento em 1994 em Zero Hora: Crise no Tempo, no qual se rectificou a díspar cronologia do Universo DC, que ficara comprometida aquando da fusão dos universos), e tal como o leitor irá perceber no final deste volume, o último capítulo da saga deixa de facto indícios que permitiam margem de manobra a suficiente para dar seguimento ao épico. Isto porque, pese embora a inegável finalidade dos eventos que ocorrem nos dois volumes da saga, muita coisa fica em aberto.

Dito isto, o legado mais duradouro da Crise vai bem além da sua classificação como talvez a mais marcante e bem arquitectada reestruturação de um universo ficcional nos comics, a derradeira sublimação do mito apocalíptico como sacrifício necessário para a renovação, e do potencial de novas histórias que despertou. Afinal, esta «maxi-série» introduziu também de forma épica e empolgante novas formas de as histórias de super-heróis interagirem com os seus contextos históricos e com a sua audiência, explorando o seu próprio historial com laivos metatextuais e introspectivos que mais tarde viriam a ser recuperados e aprofundados na Crise Final, entre outras obras de relevo. Não será, portanto, grande exagero dizer que, com este volume, o leitor tem nas suas mãos um pedaço da história, não só da DC Comics, mas de toda uma indústria que nunca mais foi a mesma desde então.

FILIPE FARIA

terça-feira, 27 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 7 - Crise nas Terras Infinitas (Parte 1)



Embora a partir do volume 6, os editoriais tenham sofrido poucas e nenhumas alterações por parte da DC, decidimos continuar a divulgá-los neste blog, até porque em alguns casos, aproveitámos para acrescentar algumas coisas que não couberam na versão impressa, que tem um limite rígido entre os 8.000 e os 9.000 caracteres. Aqui fica pois o texto do José de Freitas para o Volume 1 da Crise nas Terras Infinitas, um dos títulos mais aguardados pelos leitores.

No cruzamento das estradas infinitas

Hoje em dia, a palavra Crise para um leitor da DC significa exactamente a saga que o leitor tem neste momento em mãos, a Crise nas Terras Infinitas. Mas ao longo das décadas, houve muitas outras Crises, que ajudaram a consolidar um dos aspectos mais marcantes do universo DC, o multiverso dos super-heróis que está na origem desta saga.

Em 1961, na história Flash of Two Worlds (Flash#123, Set. 1961 USA), as barreiras entre mundos quebravam-se. O Flash conseguia atravessar as dimensões e chegar a uma outra Terra, onde encontraria outro Flash, o Flash da Golden Age dos comics, dos anos 40. Baptizada Terra-2, os leitores descobririam rapidamente que nessa Terra os heróis da Terra-1, o mundo em que decorriam as aventuras que a DC publicava então, eram personagens de ficção para os heróis da Terra-2. A DC descobria assim uma solução brilhante para explicar porque razão os heróis cujas aventuras então contava não tinham envelhecido, ou tinham mudado de personalidade ou poderes: as aventuras dos anos 40 tinham decorrido num mundo paralelo, diferente do actual. Ao mesmo tempo, esta solução permitia à DC reutilizar muitas dessas personagens antigas, ressuscitando os heróis da Golden Age, o que inaugurou a época das Crises - números especiais que saíam anualmente e em que se juntavam os super-heróis da Terra-1 com os da Terra-2. Assim, logo em 1963 era lançada a história Crise na Terra-1 nas páginas da revista Justice League of America #21, a que se seguiria uma Crise na Terra-2 no número seguinte. E no ano seguinte a Crise saltaria para a Terra-3 - baptizada o mundo mais perigoso de todos, porque os heróis que os leitores conheciam tão bem eram aqui vilões!

E o número de Terras iria crescendo, lentamente formando um vasto multiverso em que era possível encontrar as variações mais incríveis e por vezes fantasiosas. Nalgumas Terras a DC instalou outros super-heróis que não pertenciam originalmente ao seu universo, e que tinha absorvido através da aquisição de outras empresas. Noutros casos, os conceitos foram ainda mais longe. Na Terra-2, os heróis da Terra-1 eram personagens de ficção (e vice-versa na Terra-1), mas e os autores? Quem eram? Pouco tardou para que os próprios autores da DC aparecessem nalgumas destas histórias, com ramificações filosóficas e meta-ficcionais aparentes. O Flash é atirado para a nossa Terra real, e procura "o único homem neste mundo que será capaz de acreditar em mim e ajudar-me, o editor daquela revista de comics do Flash"! O multiverso expandia-se como uma função de onda quântica, explorando todos os estados possíveis dos comics, qual gato de Schrödinger, ao mesmo tempo morto, vivo, e todos os estados intermédios! Mas uma tal explosão de criatividade trouxe consigo vários problemas, e o multiverso estava só à espera de aparecer um observador capaz de colapsar essa onda de mundos, de lhes dar um estado determinado, de decidir se o gato estava morto ou vivo.

Esse colapso da função de onda do universo DC viria em 1985, pela ocasião do 50º aniversário da editora, num evento colossal, a Crise que têm nas mãos, já não Crise da Terra-2 ou Terra-3, ou mesmo da Terra-8, mas Crise nas Terras Infinitas! A continuidade do universo DC tinha atingido uma complexidade tremenda, e para um leitor novo podia parecer demasiado avassaladora. Um único universo já representa um "mundo" de dificuldades, quanto mais quando esse mundo se multiplica por inúmeros mundos paralelos. Para além disso, todas estas Terras eram por vezes usadas para justificar histórias menos lógicas, ou como dei ex machina capazes de resolver qualquer dificuldade. O herói morria no início da história, mas o final revelava que era só um duplo de uma das Terras paralelas, por exemplo. Conseguir manter uma continuidade de heróis, com histórias que vinham desde antes da Segunda Guerra Mundial, mas se espalhavam por mundos paralelos, começava a ser uma tarefa hercúlea. A DC decidiu então actualizar o seu universo, criando um mega-evento que iria reorganizar toda a sua continuidade.

O trabalho de criar esta história recaiu sobre o argumentista Marv Wolfman e o artista George Peréz, dois dos nomes maiores da DC, que a completaram sob a forma de uma série de doze números. Nascido em 1946, Wolfman começou a trabalhar para os comics no final dos anos 60, com algumas histórias para Teen Titans da DC, antes de trabalhar durante os anos 70 para a Marvel, tanto como escritor, como editor. Ficou particularmente conhecido pelo seu trabalho em Tomb of Dracula, em colaboração com Gene Colan, ainda hoje considerado um dos melhores comics de terror de todos os tempos. Nos anos 80 regressou à DC, onde voltou a escrever histórias para os Teen Titans, que se tornaram num dos grandes sucessos da editora. Foi aqui que iniciou a sua colaboração com George Pérez. Pérez está indelevelmente ligado à Crise nas Terras Infinitas que o estabeleceu como talvez o maior desenhador de super-heróis da sua época - com ênfase na metade Super da palavra. Pérez nasceu em Porto-Rico em 1954, no seio duma família humilde que se mudou depois para Nova Iorque. Durante os anos 70 estreou-se nos comics em títulos da Marvel, antes de começar a desenhar a série Teen Titans com Wolfman. Foi o seu trabalho nesta série que o estabeleceu e lhe deu fama. Quando os dois foram recrutados para escrever e desenhar a Crise nas Terras Infinitas, a arte de Pérez explodiu de criatividade e atingiu uma escala grandiosa raramente vista nos comics de super-heróis. Ainda hoje os seus desenhos continuam a servir de verdadeira bitola de comparação para todas as histórias à escala cósmica. Pérez está também para sempre ligado à Mulher Maravilha, já que na segunda metade dos anos 80 ajudou a relançar e a recontar a origem desta heroína. Ao longo das décadas seguintes, ambos os autores continuaram a estar ligados ao universo dos super-heróis, com Wolfman a passar também cada vez mais tempo a escrever para a indústria da animação e do cinema, e Pérez a trabalhar em inúmeros projectos de super-heróis, dentre os quais podemos destacar o célebre crossover Liga da Justiça/Vingadores. São dois dos nomes maiores da banda-desenhada americana, e têm a seu crédito dezenas de histórias, personagens e aventuras de entre as mais marcantes de sempre.

A Crise nas Terras Infinitas arrancaria quase um ano antes da mini-série, com o surgimento do Monitor, uma estranha personagem quase omnisciente, que fez breves aparições em muitas histórias da DC ao longo dos meses. Tratava-se duma estratégia original que estabeleceu o carácter misterioso do Monitor e a sua importância. O Monitor era o oposto do Anti-Monitor, o vilão da série, cujo propósito era nada mais, nada menos, do que a destruição de todo o Multiverso, a cuja origem ambos tinham assistido. E para impedir essa destruição, os heróis viajariam até aos fins do tempo, e até ao nascimento do universo, e teriam que se sujeitar por fim ao colapso de infinitas dimensões num só universo, que se transformaria finalmente no único universo dos super-heróis da DC. Toda a continuidade da DC seria reajustada, por vezes retroactivamente. O multiverso anterior, com os seus mundos paralelos infinitos, tinha sido um erro cósmico causado por uma interferência aquando da sua origem, e agora tudo tinha voltado à "normalidade". Esta explicação serviu para racionalizar muitas das decisões editoriais tomadas pela DC, em que algumas personagens desapareceram, outras colapsaram várias encarnações numa só, com uma origem nova, outras saltaram da Terra-2 para a Terra-1 e assim por diante, e as próprias memórias dos sobreviventes se reajustaram a esta nova realidade. Dizemos “sobreviventes”, porque alguns dos maiores super-heróis da DC morreram nesta saga, como veremos no segundo volume.

É impossível exagerar o impacto e a importância desta saga, não só no universo da DC, mas em todo o género dos comics de super-heróis. Foi uma das primeiras vezes em que as decisões editoriais conscientes dos autores, de transformar um universo de modo a reorganizá-lo radicalmente, foram postas tão à vista, mas sem que isso prejudicasse a qualidade da história. Crise nas Terras Infinitas foi assim certamente a melhor prenda que a DC podia ter recebido, e oferecido aos seus leitores simultaneamente, pelo seu aniversário de meio-século: uma saga que lhe proporcionou o fôlego para encarar o meio-século seguinte com confiança e segurança, e com um universo coerente e acabado de renascer. E as histórias fenomenais que uma nova geração de autores criou para a DC no seguimento da Crise, recontando as origens dos maiores heróis de todos os tempos para uma nova geração de leitores, são disso a maior prova.

José Hartvig de Freitas