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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Apresentação colecção Watchmen/ Doomsday Clock

Como os visitantes mais regulares devem ter notado este blogue tem estado parado desde Outubro do ano passado. Regressa agora com a apresentação do nova colecção Público/Levoir dedicada ao Watchmen e a Doomsday Clock, história que integra as personagens criadas por Alan Moore e Dave Gibbons no universo dos super-heróis da DC. 
Aqui vos deixo o destacável que escrevi para o Público, na sua versão integral, pois o texto sobre as adaptações ao cinema e à televisão acabou por não entrar no destacável por falta de espaço.

DE WATCHMEN A DOOMSDAY CLOCK

Há obras que marcam profundamente um género, tornando-se um marco incontornável da sua história. É indiscutivelmente o caso de Watchmen, a obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons, não por acaso, a única BD incluída pela revista Time na sua lista dos 100 Melhores Livros de Todos os Tempos. Watchmen, que está no centro desta nova colecção do Público e da Levoir. Uma colecção que inclui ainda Renascer e Doomsday Clock, de Geoff Johns e Gary Frank, saga que revisita o mundo de Watchmen integrando-o no resto do universo DC.
Nascido em Northampton em 1953, Alan Moore é uma lenda viva da BD, até pela excentricidade da imagem que cultiva e pelo afastamento total das grandes manifestações públicas, como os Festivais e as Convenções de BD, trocados pelo exílio voluntário da sua casa de Northampton, uma pequena cidade do interior de Inglaterra. A sua longa carreira, recheada de prémios e sucessos comerciais, iniciou-se em Inglaterra, nas páginas das revistas 2000 AD e Warrior (onde começou a ser publicado o notável V de Vingança) mas seria em 1984, ao passar a trabalhar para o mercado americano, que o mundo pode finalmente apreciar todo o talento de Moore e a sua capacidade de insuflar uma nova vida a personagens cansados, provando que a BD também pode ser literatura. Como refere Barbara Kessel, editora da DC na altura em que Watchmen foi publicado, “Alan mudou o papel do argumentista nos comics. Os seus argumentos contêm mais do que uma história completa. Podes ler um argumento dele e ter o mesmo impacto de um comic completo. Com a maioria dos escritores, o argumento é uma mera descrição para o desenhador. No caso de Alan Moore ele descreve cada porção da cena com um detalhe tal, que tu acabas por visualizá-la de uma forma tão completa que ler o comic é como ver Shakespeare outra vez”.
A dar vida aos argumentos incrivelmente densos e detalhados de Moore, está Dave Gibbons. Desenhador inglês nascido em 1949 com uma carreira iniciada em Inglaterra na série Dan Dare e na revista 2000 AD, Gibbons estreou-se nos EUA trablhando nas revistas Green Lantern e Flash e, além de Moore, colaboraria ainda com Frank Miller na série Martha Washington e com Mark Millar em Kingsman, para além de escrever argumentos para Mike Mignola, Steve Rude (Batman e Super-Homem: Os Melhores do Mundo, já editado pelo Público e Levoir) e Adam e Andy Kubert, entre outros.
Pegando num grupo original de super-heróis inspirados em personagens da editora Charlton, cujos direitos a DC tinha adquirido, Moore constrói uma obra complexa, que além de fazer a autópsia do universo de super-heróis, explora de uma forma nunca antes vista as extraordinárias potencialidades narrativas da linguagem da BD. Como o próprio refere: “É muito fácil deduzir as nossas intenções, quando nos sentámos para produzir o primeiro número de Watchmen: queríamos fazer uma banda desenhada de super-heróis nova e inusitada, que nos desse a oportunidade de experimentar algumas ideias narrativas novas pelo caminho. Mas acabámos por obter algo substancialmente maior do que isso.
Nalgum ponto ao longo desse caminho, entre o material com o qual estávamos a trabalhar e as novas técnicas narrativas que estávamos a experimentar, começou a acontecer uma coisa que não tínhamos antecipado. Quanto mais olhávamos para a história, mais profundidade ela mostrava ter. Quanto maior a nossa compreensão dos detalhes subliminares que serviam de pano de fundo que estávamos a usar, mais esses detalhes se tornavam parte integrante da linha da história, agindo como uma espécie de meta continuidade que acabou por igualar-se ao guião em termos de importância para a obra acabada.”
Tentar dar continuidade a uma obra com esta complexidade e importância é algo a que poucos se atreveriam, mas Geoff Johns, um dos principais arquitectos do actual Universo DC, cujo trabalho os leitores portugueses têm podido apreciar nas colecções que o Público dedicou à editora do Batman e Super-Homem, saiu-se com distinção de tão espinhosa missão, muito bem secundado pelo belíssimo traço de Gary Frank. Pegando em muitos dos elementos narrativos de Watchmen, desde a grelha de nove quadrados por página, a narração em voz off e os dossiers no final do capítulo; Johns cria uma história excitante e original, que homenageia a obra de Mooore e Gibbons e a história da DC, sem se sentir aprisionada por elas.


QUEM SÃO OS WATCHMEN?

HOMENS-MINUTO – Primeiro grupo de super-heróis, activo entre 1939 e 1949, os Homens-minuto eram constituídos por Silhueta, Espectral, Comediante, Justiça Encapuçada, Capitão Metrópole, Coruja, Traça e Dólar. Embora a acção principal de Watchmen se passe na década de 80, a história dos Homens-Minuto é-nos contada através de flash-backs e principalmente do livro Sob o Capuz, escrito por Hollis Manson, o primeiro Coruja.

COMEDIANTE – Inspirado no Pacificador, um dos heróis da Charlton cujos direitos foram comprados pela DC, com elementos de Nick Fury, Edward Blake é um psicopata cínico e violento, ao serviço do governo americano. Um homem que reconhece o horror presente nas relações humanas e se refugia no humor. A sua morte espoleta a trama de Watchmen.

RORSCHACH - Baseado nos personagens Questão e Mr. A, da Charlton Comics, Walter Kovacs, o Rorschach, é um sociopata, considerado o terror do submundo e um fugitivo da justiça. É ele quem move o enredo e todos os personagens desde o começo da saga, ao tentar descobrir quem matou o Comediante. Em Doomsday Clock, já não é Walter Kovacs, mas sim um seu seguidor, quem faz da máscara de Rorschach o seu verdadeiro rosto.

DR. MANHATTAN – Jonathan Osterman era um cientista nuclear, acidentalmente desintegrado numa experiência. Aos poucos, a sua força de vontade faz com que os seus átomos se unam novamente e volta à vida, mas como um ser capaz de manipular a matéria, viajar no espaço, estar em vários lugares ao mesmo tempo e ver o seu, mas apenas o seu, passado e futuro simultaneamente. Inspirado no Capitão Átomo, o Dr. Manhattan é um homem-Deus, que vê a vida como apenas mais um fenómeno do cosmos, e o único herói dotado de superpoderes. Na história torna-se o grande trunfo dos Estados Unidos na área militar e tecnológica.

ESPECTRAL - Laurie Jupiter, é uma mulher forçada a viver à sombra do pragmatismo da sua mãe, Sally Jupiter, a primeira Espectral, que foi a primeira vigilante a explorar comercialmente a sua actividade. É ex-mulher do Dr. Manhattan e mantém com ele uma certa cumplicidade. Adaptada da Sombra da Noite, com elementos de Lady Fantasma e Canário Negro.

CORUJA – Inspirado no primeiro Besouro Azul (Dan Garret) o primeiro Coruja foi Hollis Mason, um polícia que se tornou um vigilante, inspirado na BD e na literatura pulp. As suas memórias estão reunidas no livro Sob o Capuz. O segundo Coruja é Dan Dreiberg, um intelectual rico, solitário e retraído. Adaptado do segundo Besouro Azul (Ted Kord) com elementos do Batman, o novo Coruja é um especialista em tecnologia avançada, muito bem equipado para combater o crime.

OZYMANDIAS - Adrian Veidt é um milionário excêntrico, considerado o homem mais inteligente do mundo. Exímio atleta e lutador, cientista genial e homem de negócios extraordinário, Veidt reformou-se três anos antes da lei Kenee que proibiu os vigilantes, dedicando-se à gestão das suas empresas.

TRAÇA – Um dos homens-Minuto originais cuja carreira de combatente do crime terminou devido a problemas mentais e ao alcoolismo, Byron Lewis tem uma participação apenas episódica em Watchmen, mas em Doomsday Clock, Geoff Johns dá-lhe um maior destaque.


MÍMICO E MARIONETA – Únicos personagens criados de raiz por Johns e Frank para Doomsday Clock, Marcos Maez e Erika Manson são um casal de super-vilões capturados pelo Dr. Manhattan, que se vão revelar centrais no plano de Adrian Veldt para voltar a impedir o apocalipse nuclear.


O RELÓGIO DO APOCALIPSE, OU 
COMO CONTINUAMOS A VIVER SOBRE A AMEAÇA DA BOMBA

Publicado originalmente em 1986, num momento em que as tensões entre os EUA e a União Soviética estavam no seu ponto mais crítico, Watchmen reflecte o zeitgeist da época, em que a ameaça de um conflito nuclear entre as duas superpotências era um perigo bem real.
Naturalmente, essa situação acaba por se reflectir também na ficção da época, tanto na Banda Desenhada, como no cinema. Veja-se O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, também de 1986, em que os EUA e a URRS quase entram em guerra pelo domínio da Ilha de Corto Maltese (uma óbvia homenagem de Miller a Hugo Pratt), ou em séries europeias como Simon du Fleuve, de Auclair, Jeremiah de Hermann, Armalite 15, de Michel Crespin, ou Hombre de Segura e Ortiz, todas ambientadas num futuro pós-apocalíptico. No cinema, basta pensar na saga Mad Max, ou em filmes como O Planeta dos Macacos, cuja imagem final, poderosíssima, inspirou a série Kamandi, de Jack Kirby.
Um elemento que traduz bem o peso dessa ameaça de um conflito nuclear em Watchmen, é a presença do Relógio do Apocalipse, cujo avançar dos ponteiros em direcção à meia-noite, avisa para o momento que corresponderia à destruição da humanidade. Em Watchmen o que leva o Relógio do Apocalipse a aproximar-se perigosamente da meia-noite é a forma como a presença do Dr. Manhattan, que tinha permitido aos americanos vencer a guerra do Vietname, vem perturbar o equilíbrio estratégico entre as duas superpotências, levando o bloco de Leste a uma reacção desesperada, invadindo o Afeganistão (algo que aconteceria anos depois no mundo real) e o Paquistão. É precisamente para evitar que o relógio chegasse à meia-noite, que Adrian Veldt, o Ozymandias, criou um elaborado plano.
É esse mesmo Relógio do Apocalipse que dá título a Doomsday Clock (um título cujas iniciais são as mesmas da editora DC, numa aliteração óbvia que inevitavelmente se perderia na tradução) e que, no passado dia 23 de Janeiro foi acertado para os 100 minutos para a meia-noite, assinalando o momento em que a humanidade se aproximou mais da destruição total, desde que o Relógio foi criado, em 1947. Um avançar para o abismo ditado pelas alterações climáticas e pelo risco de um conflito nuclear.
Em Doomsday Clock tanto a dimensão onde estão os Watchmen, como a Terra onde vivem o Batman e os outros super-heróis da DC estão à beira de um conflito nuclear. E se em Doomsday Clock, o plano de Ozymandias e as contribuições do Dr. Manhattan e do Super-Homem chegaram para evitar o Apocalipse, no nosso mundo pode ser bem mais complicado.


SABIA QUE?

A primeira presença dos personagens de Watchmen no Universo DC não aconteceu apenas com o especial de DC Rebirth, incluído nesta Colecção. Muito antes, em 1988, Rorschach faz uma participação espacial no nº 17 da revista Question, numa história intitulada A Dream of Rorschach, em que o herói adormece a ler o Watchmen num avião e sonha com o Rorschach. Uma homenagem, feita com o conhecimento e aprovação de Moore e Gibbons, que têm direito a um agradecimento especial na ficha técnica e que tem uma dimensão simbólica, pois Alan Moore inspirou-se precisamente no Questão para criar Rorschach.

Todas as pranchas originais de Watchmen foram vendidas ainda antes de serem publicadas. O desenhador Dave Gibbons tinha à época, um acordo com uma livraria especializada inglesa, que lhe deu um adiantamento pelas pranchas originais, em troca de ficar com todas as páginas dos doze números para venda à medida que o desenhador as fosse desenhando. Um acordo que, face à popularidade que a série acabou por adquirir, se revelou muito mais vantajoso para o comprador do que para o autor.

Entre o inúmero merchandising a que Watchmen deu origem, está uma torradeira que faz torradas com as manchas de Rorschach. Esse processo passa por uma placa de metal com as manchas de Rorschach recortadas colocada entre a resistência e o espaço onde entram as fatias de pão, de modo a que o calor passe pelos espaços recortados, deixando a marca nas torradas.

Os autores tinham um acordo com a DC que lhes permitia recuperar para si todos os direitos de Watchmen um ano depois da série estar esgotada. Algo que a DC contornou facilmente, reimprimindo Watchmen de cada vez que estava perto de esgotar, mantendo-a sempre disponível no mercado. Essa impossibilidade de conseguir os direitos da série que tinha criado, foi um dos motivos que levou Alan Moore a cortar relações com a DC e a exigir que o seu nome não aparecesse nas adaptações cinematográficas das obras que escreveu para a editora americana.

Alan Moore teve uma participação especial na série de animação The Simpsons. No sétimo episódio da temporada 19, Husbands and Knives, Moore, que dá voz à sua própria personagem, participa numa sessão de autógrafos em Coolsville, a nova livraria de BD de Springfield juntamente com Art Spiegelman e Daniel Clowes, em que Millhouse lhe pede para autografar um livro dos Watchmen Babies, chamado V for Vacation, numa paródia aos dois mais populares títulos que Moore fez para a DC, Watchmen e V de Vingança.

TEXTO INÉDITO - DA BD PARA O CINEMA… E TELEVISÃO


A vontade de adaptar Watchmen ao cinema vem de longe. Logo a seguir à publicação da mini-série original, em 1986, os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver compraram os direitos da novela gráfica para a 20th Century Fox, encarregando Sam Hamm (argumentista do primeiro Batman de Tim Burton) da adaptação, depois de Moore ter recusado adaptar o livro que tinha escrito. Em 1991 a Fox deixou cair o projecto que passou para a Warner Bros (proprietária da DC) que escolheu o cineasta Terry Gilliam, um dos Monty Python e o director do filme Brazil para levar em frente o projecto. Um dos primeiros passos de Gilliam foi perguntar a Alan Moore como se adaptava Watchmen ao cinema. A resposta de Mooore foi simples: “não se adapta.” E Gilliam viu-se obrigado a concordar, acabando por se afastar do projecto, por considerar que Watchmen “não era filmável.”
O projecto passou depois por diversas mãos, como David Hayter, Paul Greengrass, Michael Bay e Darren Aronofsky, até que Warner, impressionada com o trabalho de Zack Snyder em 300, outra adaptação de uma BD, neste caso de Frank Miller, o escolheu para levar Watchmen ao grande ecrã, num filme que chegou às salas de cinema em 2009.  
Snyder disse que já ficaria contente se o seu filme funcionasse como um trailler de 2h30m que levasse as pessoas a comprar o livro de Moore e Gibbons. E, se esse objectivo foi amplamente cumprido, com as vendas do livro a dispararem, não foi o único. Apesar das mudanças no final, o filme demonstra grande respeito e admiração pela obra original e é um bom filme de acção, com cenas espectaculares e um genérico notável.   
Mesmo que o Director’s Cut lançado apenas em DVD e BluRay, com mais meia hora de filme, a animação de Contos do Cargueiro Negro, (a história de piratas que um dos personagens lê no livro e que funciona como contraponto e comentário à acção principal) e o documentário Sob o Capuz, que conta a origem dos Minutemen, permita uma experiência imersiva ainda mais próxima da BD original, tal como chegou às salas de cinema, o Watchmen de Zack Snyder não desiludiu os fãs da novela gráfica
Em 2019, a HBO lançou uma série televisiva, dirigida por Damon Lindelof que prossegue a história de Watchmen de uma forma tão surpreendente como conseguida. Fiel ao original, mas sem medo de ir mais além, Watchmen, a série de TV, viu o seu último episódio ir para o ar na mesma semana em que chegou às lojas o último capítulo de Doomsday Clock. Uma simples coincidência, mas que une duas excelentes histórias que mostram que Watchmen, sendo uma obra notável, não é intocável.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 13/02/2019

sábado, 18 de agosto de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 1 - Hellblazer: Na Prisão

JOHN CONSTANTINE ABRE COLECÇÃO 
DEDICADA AOS 25 ANOS DA VERTIGO

25 Anos Vertigo - Vol 1
Hellblazer: Na Prisão 
Argumento – Brian Azzarello
Desenhos – Richard Corben
Sábado, 18 de Agosto
Por + 13,90 €
É já no próximo sábado que se inicia a colecção dedicada aos 25 anos da Vertigo, a linha mais adulta e literária da DC Comics, a editora de Batman e Super-Homem, que acolheu títulos tão diversos como Daytripper e V de Vingança, ou as séries Sandman e Y, O Último Homem. E, para abrir a colecção, a escolha óbvia é a série Hellblazer, o título de maior longevidade da Vertigo, com 300 números de publicados mensalmente entre Janeiro de 1988 e Fevereiro de 2013, protagonizado pelo mágico John Constantine.
Constantine surgiu pela primeira vez no número 37 da revista Swamp Thing, pelas mãos de Alan Moore. Moore tinha pegado nesta antiga série da DC e tinha-a relançado com um sucesso que ninguém esperava numa época totalmente dominada pelo comic de super-heróis. Mas Moore só criou Constantine devido à insistência dos desenhadores com que trabalhava em Swamp Thing, John Totleben e Steve Bissete - ambos eram fãs dos Police e apetecia-lhes desenhar uma personagem igual ao Sting.
Moore descreve da seguinte maneira o processo que levou ao surgimento de Constantine: “Tinha um bocado aquela ideia de que em geral os mágicos e místicos eram retratados como tipos de meia-idade ou velhos, muito “classe média”, que falavam bem, austeros, muito correctos e nada funcionais na rua e no dia-a-dia. Pareceu-me interessante dar cabo dos estereótipos todos e criar um mago que fosse mais espertalhão, classe operária, que falasse em calão, sempre a fumar, com um passado totalmente diferente do normal.” A personagem cedo ganhou uma vida própria, devido ao seu carisma muito particular. Quem começou com tudo foi finalmente Neil Gaiman, quando comentou com Moore que Constantine parecia uma personagem boa de mais para que ele a matasse nas páginas de Swamp Thing. Karen Berger, que era na altura a editora da série e viria a assumir a direcção editorial da Vertigo, foi uma das primeiras a ser conquistada pelo carisma de Constantine. Berger disse mais tarde: “Embora não tenha havido assim um momento especial em que tenhamos decidido dar-lhe o seu título regular, desde o início que se tinha tornado claro que ele era uma personagem capaz de ser a estrela de um comic.”

Esse comic foi Hellblazer, que se tornou ponto de passagem obrigatório para os autores britânicos (tanto escritores como desenhadores) a trabalhar no mercado americano, embora no caso da história que preenche este primeiro volume, tanto o argumentista como o desenhador são americanos e o próprio John Constantine troca a sua Inglaterra natal pelo desconforto de uma prisão americana de alta segurança.
Brian Azzzarello, nome bem conhecido dos leitores, foi o primeiro americano a escrever a série, entre 2000 e 2002, levando o mago britânico numa perigosa viagem pela América profunda, que começa com ele na prisão. Uma prisão de alta segurança, habitada pelos piores ladrões e assassinos, que vão descobrir à sua própria custa que não é John Constantine que está preso com eles. Eles é que estão presos com Constantine…
A dar vida a esta história sombria e violenta, está um nome maior dos comics americanos: Richard Corben. Vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 2018, Corben estava à época praticamente afastado da BD, na sequência da falência da sua própria editora, Fantagor, em 1996. O seu trabalho em Na Prisão deu-o a conhecer a uma nova geração de leitores, que descobriu assim o seu estilo único.
Depois de Hellblazer, nas quatro semanas seguintes haverá espaço para o regresso de Neil Gaiman ao universo Sandman, com a Morte, a estreia de Sean Murphy, com Punk Rock Jesus e duas novas séries de culto que irão dar que falar: 100 Balas, o épico policial/conspirativo de Brian Azzarello e Eduardo Risso, e Preacher, a delirante saga de Garth Ennis e Steve Dillon, sobre um pregador texano com poderes especiais, que atravessa os EUA em busca de Deus, na companhia de uma assassina a soldo e de um vampiro irlandês, e que já virou série televisiva de sucesso.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/08/2018

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Liga da Justiça 3 - O Prego: Teoria do Caos

UM MUNDO SEM SUPER-HOMEM

Liga da Justiça: O Prego – Teoria do Caos
Argumento – Alan Davis
Desenhos – Alan Davis e Mark Farmer
Quinta, 23 de Novembro, Por + 11,90 €
Este terceiro volume da colecção da Liga da Justiça assinala a estreia, numa colecção editada pelo Público e pela Levoir de um dos maiores nomes dos comics de super-heróis, o britânico Alan Davis. Uma estreia que se dá com este O Prego: Teoria do Caos, uma história alternativa, que explora de forma brilhante o que aconteceria ao universo DC e à Liga da Justiça, se o Super-Homem não existisse.
Nascido em Inglaterra em 1956, Alan Davis iniciou a sua carreira profissional na Marvel UK (o ramo inglês da Marvel, que tinha autonomia suficiente em relação à casa-mãe para criar as suas próprias séries), trabalhando, entre outros títulos, na série Captain Britain, ao lado de Alan Moore, com quem voltaria a trabalhar na série Miracleman e com quem criou também D.R. and Quinch para a revista 2000AD. 

Em 1985, Davis passou a trabalhar para o mercado americano, tanto para a DC (desenhando Batman and the Outsiders), como para a Marvel, onde trabalhou ao lado de Chris Claremont nas revistas dos X-Men, tendo ajudado a criar dois grupos de mutantes com membros britânicos, Excalibur (que lhe permitiu voltar a desenhar o Captain Britain) e ClanDestine, que em 1996 protagonizaram uma aventura conjunta com os X-Men, escrita e desenhada por Davis.
Em O Prego: Teoria do Caos, o título que chega na próxima quinta-feira aos quiosques de todo o país, Davis assegura igualmente o argumento e o desenho, contando com a colaboração de Mark Farmer na passagem a tinta. Publicada na linha Elseworlds -  uma linha em que é dada aos autores a liberdade de pegar em personagens icónicas e imediatamente reconhecíveis, heróis clássicos como o Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha e transpo-los para contextos diferentes e inesperados, sejam épocas distantes, mundos estranhos, ou realidades alteradas, jogando com essa diferença para criar histórias únicas, impossíveis de concretizar no contexto tradicional da cronologia regular do universo DC - O Prego: Teoria do Caos, explora as mudanças que um simples prego, que fura um pneu, pode causar. Neste caso, o pneu furado é o do carro dos Kent que, por esse motivo, falham o encontro com a nave espacial que trouxe Kal-El para a Terra, o que resultou num mundo em que o Super-homem não existe e Luthor é Presidente da Câmara de Metropolis. Um político poderoso que controla a comunicação social e utiliza a tecnologia kryptoniana presente na nave de Kal-El, que foi encontrada deserta, para criar armas e um exército que lhe permita capturar e destruir todos os seres superpoderosos que poderão ser um entrave aos seus planos.
De Perry White a Jimmy Olson, passando por Lana Lang, todos os personagens secundários do universo do Super-Homem estão presentes neste universo alternativo e, embora o comportamento de muitos deles seja diferente do que conhecemos, essas mudanças são consequentes com a ausência do Super-Homem e com a própria história das personagens. Por exemplo, Jimmy Olsen, que assume um papel preponderante nesta história, já tinha tido os diferentes superpoderes aqui descritos, nas aventuras delirantes que viveu durante a década de 60 na revista Superman’s Pal Jimmy Olsen. Mas não são só as personagens das revistas do Homem de Aço que estão presentes, numa história que é um verdadeiro Quem é Quem no Universo DC. No fundo, como o próprio Davis refere: “toda a série é uma homenagem ao Universo DC e a todos os criadores que nele trabalharam”. Uma bela homenagem, acrescentamos nós, que em nada perturba, antes valoriza, o fruir de uma excelente história.
Publicado originalmente no jornal Público de 18 de Novembro de 2017  

domingo, 19 de junho de 2016

Novela Gráfica II 1 - V de Vingança

V DE VINGANÇA, DE ALAN MOORE ABRE SEGUNDA COLECÇÃO DEDICADA À NOVELA GRÁFICA

Novela Gráfica II
Vol 1
V de Vingança
Argumento – Alan Moore
Desenhos – David Lloyd
Quinta, 16 de Junho
Por + 9,90 €
É já na próxima quinta-feira que a Novela Gráfica regressa ao Público numa colecção, muito colecção muito pedida pelos leitores, dedicada aos maiores nomes da novela gráfica, que durante as próximas quinze semanas levará às bancas mais uma selecção de grande qualidade do que melhor que faz no campo da literatura desenhada. Uma colecção marcada pela diversidade, apostando essencialmente na divulgação de autores não publicados na colecção anterior, com a honrosa excepção de Moebius, Taniguchi e Altarriba e Kim, e que abre com chave de ouro, com a publicação de V de Vingança, um dos mais influentes trabalhos de Alan Moore, que aqui colabora com o seu compatriota David Lloyd.
Fábula distópica, ambientada numa Inglaterra governada por uma ditadura fascista, V for Vendetta (título original de V de Vingança) começou a ser publicada a preto e branco na revista britânica Warrior em 1982, e só seria completada anos mais tarde, em 1988, nos Estados Unidos, pela DC Comics, que publicou V como um mini-série em 10 volumes a cores, beneficiando da popularidade que Alan Moore tinha conseguido com o sucesso de Watchmen, a obra-prima de Moore, que a Levoir, com o apoio do Público, vai lançar directamente nas livrarias, durante este mês de Junho.
Ficção marcadamente política, na linha do 1984 de George Orwell, tendo como cenário uma Inglaterra poupada ao conflito nuclear, V de Vingança tem como personagem principal um misterioso mascarado anarquista que pretende pôr fim ao regime totalitário vigente, através de uma série de atentados à bomba. Embora a acção do livro decorra em 1998, não restam dúvidas que a fábula criada por Moore e Lloyd tinha por modelo o governo conservador de Margaret Tatcher, como os próprios reconhecem nos textos introdutórios à edição em livro.
Originalmente, Moore não pensava escrever uma distopia. Como o próprio refere: “V for Vendetta nasceu originalmente do facto de eu ter sido convidado pela revista Warrior a escrever uma série para David Lloyd ilustrar. Inicialmente, pensei numa história noir, um policial passado em 1930, mas Dave não estava especialmente interessado em ter de fazer pesquisas sobre os anos 30... Então, lembrámo-nos que talvez pudéssemos obter o mesmo efeito se passássemos a história para um futuro próximo. A partir dai, tudo evoluiu a partir de várias fontes diferentes, mas decidi jogar com o facto de em Inglaterra termos uma tradição bastante boa de vilões e sociopatas como heróis. Como o Robin Hood, Guy Fawkes e outros do género. E na nossa ficção, na BD infantil inglesa, havia tantos vilões sociopatas que tinham obtido suas próprias revistas, como havia heróis. Possivelmente mais. Os ingleses sempre tiveram grande simpatia por um bandido elegante”.
É precisamente um desses bandidos, Guy Fawkes, que em 5 de Novembro de 1605 tentou destruir à bomba o Parlamento Inglês, para assassinar o Rei James I, num atentado falhado, que ficou conhecido como o Gunpowder Plot. Um bombista mal sucedido que alguém, num típico momento de humor britânico, definiu como “o último homem a entrar no parlamento com boas intenções” que David Lloyd escolheu para emprestar as feições à máscara estilizada usada por V e que, graças ao sucesso do livro, mas sobretudo do filme produzido pelos irmãos Wachowski (Matrix) e realizado por James McTiegue, em 2006, se tornou o símbolo do movimento Anonymous.
Mais do que uma ficção política, ou um manifesto anarquista, V de Vingança é uma poderosa e assustadora história sobre a perda da liberdade e da identidade num mundo totalitário. Um livro imprescindível, do maior escritor de BD de língua inglesa, que está finalmente disponível em português.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 10/06/2016

sábado, 18 de junho de 2016

Novela Gráfica - Série II - Apresentação da colecção


A NOVELA GRÁFICA REGRESSA AO PÚBLICO 

Os leitores pediram e o Público fez-lhes à vontade com a publicação, já a partir da próxima quinta-feira, da Série II da colecção Novela Gráfica, que chega às bancas a 16 de Junho. São quinze títulos, na sua grande maioria assinados por autores que não integraram a primeira colecção, mas onde há ainda espaço para o regresso de nomes de peso, como Jiro Taniguchi e Altarriba e Kim, os grandes vencedores dos galardões para a melhor BD estrangeira publicada em Portugal, atribuídos pelo Festival da Amadora e pela Comic Con, com O Diário do meu Pai e A Arte de Voar, respectivamente. Também de regresso, está Moebius, desta vez a solo, com A Garagem Hermética, um dos títulos marcantes de uma carreira incontornável.
Nas estreias, destaque para Zeina Abirached, a primeira mulher publicada na colecção Novela Gráfica, corrigindo uma lacuna da colecção anterior, com a Dança das Andorinhas e para o lançamento, quase em simultâneo com a edição original, de Presas Fáceis, de Miguelanxo Prado e A Asa Quebrada, de Altarriba e Kim.
Mas um dos grandes objectivos destas colecções é dar a descobrir grandes clássicos que se mantinham escandalosamente inéditos em português de Portugal. É o caso de V de Vingança, um dos melhores e mais influentes trabalhos de Alan Moore, o criador de Watchmen, que abre a colecção, ou de Fogos e Murmúrios, dois dos mais importantes trabalhos de Lorenzo Mattotti, reunidos num único livro, que dá a descobrir aos leitores portugueses o extraordinário trabalho de cor do mestre italiano.
Numa colecção em que a actualidade política e os conflitos armados estão bastante presentes, há também espaço para obras mais intimistas, como Daytripper, o premiado trabalho dos gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, que conta, num registo intimista com um toque de realismo mágico sul-americano, a vida (e as mortes) de Braz de Oliva Domingos, um escritor de obituários. Num registo próximo, está A História de um Rato Mau, de Bryan Talbot, que mistura o universo fantástico da escritora e ilustradora Beatrix Potter, com a realidade nua e crua do abuso de menores, numa história tocante. Igualmente tocante é Terra de Sonhos, uma recolha de, tão belas como comoventes, histórias curtas, sobre o amor aos animais e à natureza, que confirmam à saciedade o talento e a sensibilidade de Taniguchi, o autor japonês responsável por um dos maiores sucessos da colecção anterior.

O MUNDO É UM LUGAR PERIGOSO

Embora todos os géneros sejam permitidos, uma das tendências dominantes da Novela Gráfica, tem sido a reportagem de guerra. Histórias, autobiográficas, ou não, que tentam dar uma perspectiva interna e real da forma como os conflitos que agitam este mundo, se reflectem em quem os vive, ou testemunha.
A força das imagens permite explicar mais facilmente aos leitores a complexidade de algumas situações geoestratégicas e a adopção de um ponto de vista concreto, em vez de uma visão mais global, ajuda o leitor a perceber que, por trás das estatísticas das mortes em combate e, sobretudo dos “danos colaterais”, estão pessoas como nós, que vêm a sua vida completamente destruída e são obrigadas a recomeçar noutro lugar.  
O actual drama dos refugiados sírios mostra-nos que estas situações se mantém bem presentes e alguns títulos desta colecção, ajudam-nos a perceber melhor o que é (sobre)viver no meio de uma guerra.

 A libanesa Zeina Abirached, nascida em Beirute, em 1981, viveu os primeiros dez anos da sua vida numa cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil que provocou mais de centena e meia de milhar de mortos, mas no seu Livro, A Dança das Andorinhas, apesar da crueldade da realidade exterior, o que ressalta é a inocência da infância e a capacidade de uma comunidade se manter unida, quando tudo à sua volta desaba.
Já em Fax de Sarajevo, o norte-americano Joe Kubert relata a historia real do seu agente Ervin Rustemagic, que perdeu a casa e os seus bens, incluindo uma impressionante colecção de desenhos originais de grandes nomes da BD, durante a guerra da Bósnia Herzegóvina, quando a sua casa em Dobrinja, nos subúrbios de Sarajevo, foi bombardeada pelas tropas sérvias. Prisioneiro numa cidade sitiada, Rustemagic tinha um aparelho de fax como único meio de contacto com o exterior e foi com base nos faxes que Rustemagic lhe ia enviando, que Kubert pode contar a sua história.
Embora sejam claramente obras de ficção, tanto V de Vingança, como Presas Fáceis, mostram como a ficção se pode aproximar (perigosamente) da realidade. Distopia futurista na linha do 1984, de George Orwell, V de Vingança imagina uma Inglaterra sob domínio de uma ditadura fascista, com campos de concentração, e câmaras de televisão que vigiam todos os movimentos das pessoas. Se o próprio Alan Moore considerava o governo neoliberal de Margaret Tatcher como a concretização desse futuro totalitário imaginado em V, a actual omnipresença de câmaras de vigilância e a forma como as comunicações electrónicas são monitorizadas, mostram que, neste caso, a realidade ultrapassou a própria ficção.
Já em Presas Fáceis, é a crise financeira e os abusos do sistema bancário que estão em destaque, numa história de estrutura policial, mas que se revela um verdadeiro libelo acusatório contra a ânsia desmedida de lucro, que leva as instituições bancárias a não terem o menor escrúpulo de enganar os seus clientes, em especial aqueles que pouparam toda uma vida para ter uma reforma descansada e acabam por perder as suas poupanças, em aplicações bancárias claramente imorais e de legalidade discutível.


UM GÉNERO EM REVISTA(S)

Embora, actualmente, as novelas gráficas sejam publicadas completas, num único volume, que recolhe toda a história, durante várias décadas, a pré-publicação por capítulos em revista, era forma mais usual de publicar essas histórias pela primeira vez.
Uma solução com vantagens para o autor, que assim ia recebendo à medida que ia publicando, para além de ter um feedback mais imediato dos leitores, o que lhe permitia até fazer eventuais alterações na história durante a publicação.
Na anterior colecção, vimos o caso da revista (A Suivre), onde A Guerra das Trincheiras, de Tardi, foi pré-publicado e da sua importância na criação do conceito de “Roman BD”. Nesta segunda série, embora não tenhamos nenhum título prépublicado na (A Suivre), não faltam exemplos de histórias que surgiram primeiro nas páginas das revistas. É o caso, desde logo, de V de Vingança, cujos primeiros capítulos foram publicados originalmente em Inglaterra, entre 1982 e 1983 na revista Warrior, ou das histórias de Terra de Sonhos, de Taniguchi, que antes de serem recolhidas em livro, foram originalmente publicadas no Japão, entre 1991 e 1992, nas páginas da revista Big Comic, da editora Shogakukan.
Também Parque Chas, de Barreiro e Risso, teve uma primeira publicação na Argentina, na mítica revista Fierro, publicação dirigida pelo argumentista e teórico Juan Sasturain, que aproveitou a liberdade concedida pelo fim da ditadura militar, em meados dos anos 80, para dar espaço e inteira liberdade criativa, aos excelentes desenhadores e argumentistas que a Argentina produz.
Mas a revista mais representada nesta colecção, é a Metal Hurlant. Um sonho de liberdade criativa concretizado por um grupo de autores, que incluía Moebius e Jean-Claude Dionnet. Logo no editorial do nº1, Moebius lembra que: “uma história de BD não tem de parecer-se com uma casa, com a sua porta de entrada, as janelas para ver a paisagem e uma chaminé para o fumo… também é perfeitamente imaginável uma história em forma de elefante, de campo de trigo, ou de fogo-de-artifício.”
A Garagem Hermética, cujos episódios iam sendo inventados à medida que eram publicados, sem guião prévio, ou qualquer tentativa de continuidade, é um bom exemplo dessa atmosfera de liberdade total, enquanto Os Exércitos do Conquistador, de Dionnet e Gal, subverte as regras das histórias de Sword and Sorcery, introduzindo um toque existencialista tipicamente francês.
Finalmente, também Guido Crepax publicou as aventuras de Valentina nas principais revistas italianas, como Linus, Alter-Alter e Corto Maltese, tal como as duas histórias que compõem o volume dedicado a Mattotti saíram primeiro em revista em Itália, antes de serem publicadas em livro em França. Fogos, na revista Alter-Alter em 1984 e Murmúrios na revista La Dolce Vita, em 1987.

A FORÇA DA NOVELA GRÁFICA ESPANHOLA

Numa colecção que inclui autores japoneses, libaneses, brasileiros, argentinos, sérvios, ingleses, franceses, italianos e americanos, a nação mais representada é a nossa vizinha Espanha, o que diz bem do momento actual da Banda Desenhada no país dos “nuestros hermanos”. Se Miguelanxo Prado cujo mais recente trabalho, Presas Fáceis, estreia em Portugal antes de ser publicado em França e quase em simultâneo com a sua publicação original em Espanha, tem praticamente toda a sua obra editada em português, o mesmo sucede com os trabalhos mais recentes de Altarriba que, depois de A Arte de Voar, sobre o pai, regressa com a Asa Quebrada, dedicado à mãe, também editado no nosso país quase em simultâneo com a edição original. Já de Paco Roca, que se estreia nesta colecção com O Inverno do Desenhador, baseado na história real de um grupo de desenhadores que, na Espanha dos anos 50, ousou desafiar a poderosa editora Bruguera, os leitores portugueses vão poder descobrir que a sua obra não se limita ao premiado Rugas.
Quantidade e qualidade que confirmam que, pelo menos no que diz respeito à novela gráfica, o ditado “de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”, não podia estar mais longe da realidade.


A COLECÇÃO

1 –V de Vingança 
16 de Junho
Argumento – Alan Moore 
Desenhos – David Lloyd
A Inglaterra mergulhou num regime fascista depois de uma catastrófica guerra nuclear, e todos os opositores ao poder instalado foram exterminados. Neste universo, ao mesmo tempo distópico e familiar, V, um revolucionário anarquista, vai encetar uma complexa campanha revolucionária para deitar abaixo o governo, enquanto inspira uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta.
Primeiro grande sucesso de Alan Moore, a história desenhada por David Lloyd e publicada originalmente na revista Warrior no início da década de 80, deu origem a um filme de grande sucesso, produzido pelos irmãos Wachowsky (Matrix) graças ao qual a máscara usada por V se tornou a imagem de marca do grupo Anonymous.

2  – Terra de Sonhos
23 de Junho
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Jiro Taniguchi, o premiado autor japonês de O Diário do meu Pai, regressa à colecção Novela Gráfica com Terra de Sonhos. Livro que recolhe um punhado de relatos da felicidade e da melancolia simples da vida, como ela é.
Histórias intimistas, marcadas pela sensibilidade de Taniguchi, impregnadas da observação do quotidiano da vida moderna, que mergulham o leitor na realidade da vida e da sua emoção humana: a morte de velhice de um cão, o nascimento de uma ninhada de gatos e a dificuldade de se separar deles, a chegada de uma jovem sobrinha que fugiu de casa, os sonhos que um alpinista abandonou em troca de uma família...

3 – Presas Fáceis
30 de Junho
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Presas Fáceis, o mais recente trabalho de Miguelanxo Prado, um dos mais premiados autores espanhóis da actualidade, chega à colecção Novela Gráfica, quase em simultâneo com a sua publicação original em Espanha, numa edição que conta com um prefácio exclusivo do historiador e colunista do Público, Rui Tavares.
Tendo como pano de fundo a crise financeira actual, por entre as indemnizações milionárias a gestores e políticos que levaram um país à falência e o desespero dos cidadãos comuns, que sofrem as consequências da fraude bancária, uma sucessão de homicídios de banqueiros lança dois polícias numa investigação que se tornará num verdadeiro thriller. Uma muito bem urdida história de vingança que gira em torno de um tema de gritante actualidade, tanto em Portugal como em Espanha.

4  – A Dança das Andorinhas: Morrer, Partir, Regressar
07 de Julho
Argumento e Desenhos – Zeina Abirached
Primeira mulher a publicar na colecção Novela Gráfica, a libanesa Zeina Abirached, retrata em A Dança das Andorinhas, uma noite na vida das famílias que habitam um prédio na zona este de Beirute, perto da linha de demarcação, em 1984, em plena Guerra do Líbano.
Um relato sensível da realidade de uma cidade devastada pela guerra e das pessoas que tentam (sobre)viver e levar uma vida tanto quanto possível normal, contado com grande originalidade gráfica, ternura e humor por Zeina Abirached, nascida em Beirute em 1981, um ano antes da invasão do Líbano pelas tropas israelitas.

5  – A História de um Rato Mau
14 de Julho
Argumento e Desenhos – Bryan Talbot
Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra rural, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz e a felicidade... Neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior que lhe permitirá confrontar os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem.
Um dos mais celebrados trabalhos do inglês Bryan Talbot (Grandville), galardoado com o prémio Eisner para a Melhor Novela Gráfica, aquando da sua primeira reedição, em 1996.

6 – Parque Chas
21 de Julho
Argumento – Ricardo Barreiro
Desenho – Eduardo Risso
Em cada capital do mundo, existem “Lugares Mágicos”. Locais obscuros onde, não se sabe como, forças desconhecidas exprimem a angústia e o medo. Triângulos das Bermudas do Imaginário, onde vampiros, sereias, fantasmas e personagens de BD se cruzam e reencontram, para levar o visitante para um lugar de onde não conseguirá, provavelmente, regressar… Em Buenos Aires, esse lugar é o Parque Chas.
Escrito por Ricardo Barreiro, Parque Chas, foi o primeiro grande sucesso do desenhador argentino Eduardo Risso (Batman Noir), aqui num registo gráfico diferente, que encaixa como uma luva na dimensão onírica da história.

7 – Garagem Hermética
28 de Julho
Argumento e Desenho – Moebius
O universo de bolso que o Major Grubert criou no interior do seu asteróide, contém três mundos sobrepostos, com os seus povos e civilizações. Três mundos que ignoram tudo das suas origens, mas em que alguns habitantes começam a suspeitar a verdade.
Inicialmente publicada em episódios na revista Metal Hurlant, de que Moebius foi um dos fundadores e publicado pela primeira vez no nosso país da versão original a preto e branco, a Garagem Hermética é um marco na revolução da Banda Desenhada iniciada pela revista Metal Hurlant, com Jean (Moebius) Giraud a subverter todas as convenções, ao criar uma história surreal, repleta de ideias incríveis, que eram inventadas à medida que os episódios eram publicados.

8  – Fax de Sarajevo
04 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Kubert
Em 1992, com o eclodir da guerra da Bósnia, o editor e agente Ervin Rustemagic, além de perder, a casa, a editora e todos os seus bens num bombardeamento, viu-se aprisionado durante mais de um ano com a sua família, na cidade sitiada de Sarajevo, sob a ameaça constante das bombas e dos snipers sérvios, tendo como único contacto com o exterior, um aparelho de fax.
Umas das pessoas com quem Rustemagic trocou faxes, foi o desenhador americano Joe Kubert (Tarzan, Sgt. Rock), que passou esta história trágica e verídica para a BD, numa novela gráfica que arrebatou os Prémios Harvey e Eisner, para além do Prémio de Angoulême para a Melhor BD Estrangeira.

9 –Valentina
11 de Agosto
Argumento e Desenhos – Guido Crepax
Embora nascida como personagem secundária noutra série de Guido Crepax, Valentina, uma sensual fotógrafa de moda vai tornar-se a mais conhecida personagem do seu autor, graças às suas aventuras surreais, em que o onirismo e o erotismo se fundem.
Este volume recolhe uma selecção das melhores aventuras de Valentina. Clássicos intemporais, marcados pelo traço sensual de Crepax e pelo seu uso inovador da planificação, com destaque para Baba Yaga, história que seria adaptada ao cinema em 1973, e para Valentina no Metro, uma criativa (e emotiva) homenagem de Crepax à Banda Desenhada e aos seus heróis e criadores.

10  –  Daytripper
18 de Agosto
Argumento e Desenhos – Fabio Moon e Gabriel Bá
Os gémeos brasileiros Fabio Moon e Gabriel Bá, chegam à colecção Novela Gráfica, com Daytripper, o seu trabalho mais premiado, feito para a editora americana Vertigo. Definida muito simplesmente pelos seus autores como “uma história sobre a vida”, cada capítulo de Daytripper incide sobre um momento específico da vida de Brás de Oliva Domingos, o filho de um escritor famoso que ser ele próprio também escritor, e sobre a forma como as escolhas que faz podem modificar a sua vida... e a sua morte.
Intimista e surpreendente, Daytripper mostra a dupla ao seu melhor nível, numa história profundamente brasileira nos cenários e nas personagens, mas que lida com questões universais.

11  –  Luna Park
25 de Agosto
Argumento –Kevin Baker
Desenhos – Danijel Zezelj
Alik Strelnikov vive na sombra de Coney Island, um mundo de passeios silenciosos e parques de diversões enferrujados, que ridicularizam os seus sonhos de se tornar um herói. Há dez anos, trocou uma existência brutal no exército Russo pela promessa de se tornar um executor da máfia de Brooklyn, mas as suas noites são atormentadas por pesadelos em que as atrocidades a que assistiu na Chechénia se misturam com visões alternativas do passado, que terminam sempre da mesma forma trágica.
Na sua estreia na BD, o popular escritor Kevin Baker, alia-se ao ilustrador croata Danijel Zezelj, para criar uma novela gráfica perturbadora, que marca o regresso de Baker a Coney Island, cenário da sua aclamada trilogia Dreamland.

12  –  Fogos e Murmúrios
01 de Setembro
Argumento – Mattotti e Kransky  
Desenhos – Lorenzo Mattotti
Um dos mais consagrados ilustradores da actualidade, o italiano Lorenzo Mattotti  tem publicado o seu trabalho em revistas como Cosmopolitan, Vogue, The New Yorker, Le Monde e a Vanity Fair, o que não o impediu de construir uma importante carreira também na BD.
Fogos e Murmúrios, as duas obras que preenchem o volume que a Colecção Novela Gráfica II lhe dedica, representam um momento de charneira na sua carreira, mais evidente em Fogos, normalmente considerado como a sua obra mais importante e um ponto de viragem do autor, que passa de um tipo de trabalho mais narrativo, para um registo mais pictórico, em que a cor é um elemento simbólico e dramático, que condiciona a própria história.

13 – O Inverno do Desenhador
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Paco Roca, o premiado autor de Rugas, estreia-se na colecção Novela Gráfica com O Inverno do Desenhador. A história verídica de um grupo de cinco dos mais populares desenhadores da Editorial Brugera (uma editora espanhola criada em Barcelona em 1910, que se dedicou sobretudo à produção de literatura popular e tiras de BD) que, desiludidos com as condições de trabalho e com a falta de reconhecimento que tinham, decidem criar a sua própria editora de BD na Espanha nos anos 50.
A história destes pioneiros pelos direitos de autor, chega à colecção Novela gráfica, numa cuidada edição, que inclui uma história de seis páginas feita para o jornal El Pais e nunca antes recolhida em livro.

14  – A Asa Quebrada
 15 de Setembro
Argumento – António Altarriba
Desenho – Kim
Depois do premiado (Prémio de Excelência para a Melhor Banda Desenhada Estrangeira na Comic Con 2016) A Arte de Voar, Altarriba e Kim regressam à colecção Novela Gráfica, com A Asa Quebrada. Um relato em que Altarriba volta às décadas conturbadas da vida do seu país, desta vez através dos olhos da sua mãe. O destino e a vida trágica desta mulher, que viveu as maiores agruras às mãos dos homens que a rodeavam, abusada pelo seu pai e violada, esconderá um segredo e uma esperança que o seu filho, Antonio Altarriba, perseguirá neste livro poderoso e duro, que servirá de chave para ele poder finalmente fazer as pazes com o seu passado.

15 – Os Exércitos do Conquistador
 22 de Setembro
Argumento – Jean-Pierre Dionnet
Desenho – Jean-Claude Gal
Criado por Jean-Pierre Dionnet, um dos fundadores da revista Metal Hurlant, para o traço espectacularmente detalhado de Jean-Claude Gal, Os Exércitos do Conquistador foi um dos títulos mais marcantes da fase inicial da mítica revista, mostrando uma abordagem europeia da Heroic Fantasy que em nada fica atrás dos trabalhos dos melhores autores americanos do género. Este volume recolhe, na sua versão original a preto e branco, todas as colaborações de Dionnet e Gal, em Os Exércitos do Conquistador e nas duas histórias que compõem a saga de Arn, e inclui ainda A Catedral, uma história curta de Bill Mantlo, que Gal ilustrou para a revista norte-americana Epic.
Textos originalmente publicados no destacável distribuído com o jornal Público de 11 e 14/06/2016

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 5: Joker: O Último a Rir


No caso da introdução ao volume do Joker, também da minha autoria, as alterações em relação à versão inicial, têm a ver com a questão da criação do Batman, que oficialmente só foi criado por Bob Kane, e com uma referência ao litígio de Alan Moore com a DC na sequência de Watchmen. Ou seja, pouca coisa, quando comparado com outros textos... Curiosamente, esta versão publicada nem é mais politicamente correcta, pois cheguei a escrever uma terceira versão, mas que não chegou a ser mandada para a DC, porque não foi preciso, uma vez que esta segunda acabou por ser aprovada sem quaisquer cortes.

O HOMEM QUE RI


JÁ DIZIA HITCHOCK QUE O SUCESSO DE UM FILME DEPENDIA, E MUITO, DO CARISMA DO VILÃO. E NA BEM RECHEADA GALERIA DE INIMIGOS DE BATMAN, NÃO HÁ VILÃO MAIS CARISMÁTICO DO QUE O JOKER. O IMPREVISÍVEL ARLEQUIM TEM SIDO O PRINCIPAL ANTAGONISTA DO BATMAN AO LONGO DE MAIS DE SETENTA ANOS, MAS NAS DUAS HISTÓRIAS QUE COMPÕEM ESTE VOLUME, O PROTAGONISMO VAI TODO PARA O JOKER, QUE SE ASSUME AQUI COMO A PERSONAGEM PRINCIPAL, ECLIPSANDO O CAVALEIRO DAS TREVAS COM O BRILHO DA SUA LOUCURA.

Criado por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger em 1940, o Joker foi o antagonista do Batman na primeira aventura na sua própria revista, Batman # 1, título que surgiu na sequência do sucesso das aparições do Cavaleiro das Trevas na revista Detective Comics, a partir do hoje mítico nº 27. Embora os relatos divirjam quanto à importância de cada um dos autores na criação do personagem, com Bob Kane e Jerry Robinson a disputarem entre si o mérito da criação da imagem do Joker, ambos reconhecem a importância de Bill Finger como argumentista e o contributo decisivo de uma fotografia do actor Corand Veidt no filme The Man Who Laughs, de 1928, baseado no romance homónico de Victor Hugo, para o sorriso rasgado que torna o Joker imediatamente reconhecível.
Presença constante nas aventuras de Batman ao longo de décadas, o Joker chegou a ter direito à sua própria série, em meados dos anos 70. Uma série que durou apenas nove números e na qual defrontou os mais variados adversários, incluindo... Sherlock Holmes. Foi também durante a década de 70 que o Joker voltou às origens em termos de comportamento, deixando de ser apenas um comic relief para se transformar num personagem ameaçador e mortífero, nas histórias de Denny O’Neil e Neal Adams que depois dos delírios kitsch dos anos 50 e 60, trouxeram o Batman e os seus adversários para um caminho mais realista, que possibilitou histórias como as assinadas por Frank Miller na década de 80, ou A Piada Mortal, a novela gráfica de Alan Moore e Brian Bolland que abre este volume, dedicado não a um herói, mas ao principal vilão do Universo DC.

Última história escrita por Alan Moore para a DC, em 1988, pouco antes de cortar relações com a editora devido a divergências sobre os royalties de Watchmen, A Piada Mortal é descrita por Moore, como “apenas uma história de Batman”, mas tanto o desenhador, Brian Bolland, como os leitores, sabem que não é bem assim. A Piada Mortal é uma das mais importantes histórias de Batman de sempre, até pelas consequências que teve na vida de Barbara Gordon, que uma bala do Joker deixa paralisada numa cadeira de rodas, pondo fim à sua carreira como Batgirl, durante mais de 20 anos. Situação que só se alterou em 2011, quando na sequência do relançar das principais revistas da DC, no âmbito da iniciativa conhecida como “Novos 52”, Barbara voltou a andar e pode voltar a vestir a fato de Batgirl.
Exemplo perfeito da articulação harmoniosa entre texto e imagem, com Bolland, que agora se dedica sobretudo à ilustração de capas, a brilhar a grande altura no seu último trabalho de grande folego como desenhador, A Piada Mortal explora a relação entre Batman e o Joker e a forma como funcionam como reflexo um do outro, dando-nos a conhecer os acontecimentos que levaram o Joker à loucura.
Numa sequência de flahbacks magistralmente executados, Moore dá-nos a sua versão da origem do Joker, apresentado como um comediante falhado que se envolve com um grupo de criminosos para ganhar dinheiro que lhe permitam sustentar a mulher e o filho prestes a nascer e que perde a sanidade, na sequência de um dia que lhe corre extremamente mal. Um dia que o deixa viúvo, sem filho e deformado. Um passado trágico que justificaria a sua actuação, mas que o próprio Joker não sabe se é real, pois, como o próprio refere: "as minhas memórias nem sempre são as mesmas... Já que tenho que ter um passado, que seja de escolha múltipla!"
Embora Brian Bolland, por falta de tempo, não tenha podido na altura colorir a história, como pretendia, tendo esse trabalho ficado a cargo de John Higgins, que já tinha colaborado com Moore em Watchmen, em 2008, por ocasião do 20º aniversário da publicação de The Killing Joke, o livro foi reeditado numa edição de luxo, como novas cores digitais de Bolland, mais próximas da sua intenção original e que o leitor português pode apreciar pela primeira vez, pois a anterior edição portuguesa da Devir utilizava as cores originais de John Higgins.
Separadas por mais de 20 anos, as duas histórias que compõem este volume, têm em comum o facto de atribuírem o principal protagonismo ao Joker, que surge sorridente e destacado em ambas as capas. Capas essas em que Batman prima pela ausência. Mas a principal diferença entre a Piada Mortal e Joker, é uma diferença de ponto de vista do narrador. Enquanto Moore nos dava a conhecer as recordações do Joker, o que nos permitia perceber as suas motivações, em Joker, Azzarello opta por ter como narrador um pequeno criminoso, Jonny Frost, que vai servir como motorista do alucinado vilão, transmitindo por isso ao leitor uma perspectiva externa.
Depois da mini-série Broken City, publicada em Portugal pela Devir com o título Batman: Cidade Destroçada, Joker assinala o regresso de Azzarello a Gotham City e ao universo do Batman. Um universo onde, curiosamente, se aventurou pela primeira vez ao lado de Bermejo, na mini-série Batman/Deathblow: after the Fire, que juntava o Cavaleiro das Trevas ao mercenário criado por Jim Lee e Brandon Choi. Desta vez, Batman está muito menos presente (embora a sua sombra paire por todo o livro) mas mantém-se a aproximação realista, mais próxima do film noir do que das histórias de super-heróis, que faz do Croc não um mutante com genes de crocodilo, mas apenas um brutamontes com um sério problema de pele. Do mesmo modo, Harley Quinn a companheira do Joker que tinha surgido inicialmente na série de animação do Batman, num episódio escrito por Paul Dini e Bruce Timm, surge aqui numa versão muito realista e sensual, mesmo que, coisa rara numa personagem de Azzarello, que trabalha os diálogos como poucos autores, não a ouçamos dizer uma palavra… Também o Enigma nos aparece modernizado, trocando o uniforme de licra por um vestuário bastante mais urbano. O próprio Joker, acabado de sair do Asilo Arkham, comporta-se mais como um Senhor do Crime que pretende recuperar o seu território, do que como um simples louco, sem um objectivo lógico perceptível. O que não impede que a sua loucura se manifeste de forma assustadoramente inesquecível, sobretudo na violência exacerbada, que Bermejo traduz em imagens hiper-realistas capazes de perturbar os estômagos mais sensíveis.  
Talvez por o livro ter saído muito próximo da estreia de The Dark Knight, o segundo filme da trilogia cinematográfica que Cristopher Nolan dedicou ao Homem Morcego, houve quem visse no Joker de Azzarello e Bermejo, uma versão em papel do Joker magistralmente interpretado por Heath Ledger no cinema, mas as semelhanças entre o livro e o filme são apenas coincidência, pois Azzarello escreveu a história em 1986, dois anos antes do filme estrear, sem ter tido acesso ao argumento, o que não impede que um desenho que Bermejo fez para o site Batman on Film, em 2006, quando começou a trabalhar no livro, possa ter servido de inspiração aos responsáveis pela concepção visual do filme de Nolan.
  Se Azzarello constrói com grande eficácia uma história extremamente violenta de luta pelo poder, o maior responsável pela visão perturbadora que esta história transmite ao leitor é Lee Bermejo. O desenhador passou quase dois anos a desenhar as mais de cem páginas desta história, mas o resultado valeu a pena, mesmo que em alguns casos seja evidente o uso de referências fotográficas, como numa imagem em que o Joker aparece em contrapicado a apontar um revolver que apresenta grandes semelhanças com um dos mais emblemáticos planos do filme brasileiro Cidade de Deus.
 Alternando na mesma páginas imagens desenhadas a traço, com ilustrações em cor directa, Bermejo, contando com a arte-final de Mick Gray consegue imagens espectaculares, de um realismo perturbador, acentuado pelas cores sombrias de Patrícia Mulvihill, que já tinha sido a colorista de 100 Bullets. E, num livro cheio de pormenores, que justificam sucessivas leituras, não falta mesmo uma homenagem à Piada Mortal, na cena no restaurante italiano, em que o Joker a comer camarões numa mesa rodeado de bandidos, nos remete para uma cena idêntica num dos flash backs da Piada Mortal, só com a grande diferença que, em vez de um jovem inseguro, pressionado por um grupo de criminosos a participar no assalto que vai mudar a sua vida, desta vez é o Joker quem comanda o jogo.    

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Lá Fora - Before Watchmen


Se houve um projecto editorial recente no mercado americano rodeado pela polémica mal foi anunciado, esse projecto foi Before Watchmen. Um conjunto de prequelas ao clássico Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, publicadas contra a vontade expressa de Moore. O mesmo Alan Moore que estava de relações cortadas com a editora há muitos anos, precisamente por causa dos direitos de Watchmen, que aquando da publicação original da míni-série, em 1986, tinha ficado acordado que reverteriam para os seus autores, quando a série deixasse de estar disponível nas livrarias. Mas o problema é que a série nunca deixou de estar disponível  nas livrarias, sucedendo-se as reedições ao longo dos anos, que tornaram Watchmen a graphic novel mais vendida de todos os tempos. Um sucesso comercial que o filme de Zack Snider a partir da graphic novel, que muitos, incluindo o próprio Moore, consideravam impossível de adaptar ao cinema, só veio aumentar de forma exponencial.

Perante um sucesso comercial tão grande e tão dilatado no tempo, era só uma questão de tempo até que a editora DC decidisse explorar o universo de Watchmen em histórias originais. Tendo em conta que o final de Watchmen não deixava grande espaço para continuações, uma prequela era o caminho mais lógico e foi esse que a DC seguiu, envolvendo no projecto alguns dos maiores nomes dos Comics americanos.
Se Dave Gibbons deu a sua benção mais ou menos envergonhada ao projecto, já Moore fez questão de gritar bem alto a sua oposição, apelando ao boicote da série e a controvérsia não se fez esperar, pois se houve autores que apoiaram Moore, houve também quem lembrasse que Moore não tinha grande autoridade moral para criticar os autores que iam utilizar as suas personagens, quando ele próprio construiu grande parte da sua carreira a trabalhar com personagens que não foram criadas por si, e em casos como Lost Girls e The League of Extraordinary Gentlemen, utilizando-as de uma forma que certamente não agradaria muito aos criadores originais.
Mas este texto não é sobre a polémica, mas sim sobre os livros e, num momento em que falta apenas publicar o último número da míni-série Comedian e os volumes encadernados já estão anunciados para Junho, já se pode fazer um balanço deste projecto. Embora nenhuma das seis míni-séries principais atinja o nível do original (o que seria muito difícil, uma vez que estamos a falar de uma das melhores histórias de super-heróis de sempre), a verdade é que estamos perante livros sólidos, com alto nível de produção escritos e desenhados de forma no mínimo eficaz por grandes autores que encararam este projecto como uma forma de homenagear a série original.
Embora o trabalho gráfico seja do melhor que os diferentes desenhadores já fizeram, a verdade é que este é um projecto, acima de tudo, de argumentistas.

Darwyn Cooke além de escrever e desenhar a míni-série Minutemen, respeitando a planificação habitual de Dave Gibbons, de 3 tiras de 3 quadrados por página, assina também a míni-série Silk Spectre, maravilhosamente desenhada por Amanda Conner.Dois trabalhos com ambições diferentes, mas muito conseguidos.
Brian Azzarello escreveu as míni-séries dedicadas ao Comendian e a Rorschach, os dois personagens mais sombrios de Watchmen. Se Comedian, com desenhos de Gerard Jones, mostra a ligação do Comediante à família Kennedy, e a sua participação na morte de Marillyn Monroe, a mando de Jacqueline Kennedy, já Comedian, com desenhos espectaculares de Lee Bermejo, mostra o lado negro de Nova Iorque dos anos 70, em que Roschach se cruza com Travis Bickle, o Taxi Driver do filme de Martin Scorcese. Se Roscharch é uma história policial simples, que tem lugar antes dos acontecimentos
de Watchmen, já Comedian tem um âmbito mais vasto, fazendo a ligação entre a história pessoal do Comediante e a história da América, num percurso que vai do fim do sonho americano, com a morte  de Kennedy (em que o Comediante não está envolvido, ao contrário do que insinua Moore na série original), até ao pesadelo da guerra do Vietnam.
J. M. Straczynski assina o argumento de outras duas mini-séries, Nite Owl e Dr. Manhattan. A primeira, ilustrada por Andy Kubert, com arte final do seu pai, Joe Kubert, que faleceu durante a publicação da série e teve que ser substituido por Bill Sienkiewicz, é talvez a menos interessante de todas as mini-séries, esperando-se mais dos nomes envolvidos. Já em Dr. Manhattam, Straczynski vai mais longe do que Alan Moore, jogando com as imensas possibilidades de uma personagem como o Dr. Manhattan, numa história inteligente, que joga com os paradoxos do espaço e do tempo, muito bem ilustrada por Adam Huges.
Por último, Len Wein, que tinha sido editor de Alan Moore na série Watchmen e na sua passagem pela série Swamp Thing, assina a mini-série dedicada a Ozymandias que, mais do que pela história, vale pela forma como Jae Lee trabalha as páginas, em composições magníficas. Também é de Wein o argumento da história Crimson Corsair, a história de piratas que os personagens de Watchmen liam nas revistas e que aqui corre paralela às várias mini-séries, em capítulos de 2 páginas em continuação. Como decidi esperar pelo volume encadernado para ler a história toda de seguida, apenas me posso referir ao desenho de John Higgins, que tinha sido o colorista original de Watchmen e que aqui se revela um desenhador bastante competente.
Face ao sucesso de vendas, já com as séries em publicação, foram anunciadas mais duas revistas. Moloch, uma mini-série em 2 números dedicada ao principal vilão de Watchmen, escrita por Straczynski para o traço inimitável de Eduardo Risso, o desenhador de Chicanos e 100 Bullets, e Dollar Bill, um one-shot dedicado ao malogrado super-herói, escrito por Len Wein, com desenhos cheios de elegância e de glamour de Steve Rude.  
Se qualquer um dos argumentistas envolvidos já fez melhor do que mostra na sua participação neste projecto, já em termos de desenho não se pode dizer o mesmo, pois desenhadores como Amanda Conner, Jae Lee e Lee Bermejo assinam aqui dos seus melhores trabalhos, muito bem servidos por excelentes trabalhos de cor.
Em suma, mesmo que Before Watchmen não vá ficar na história como ficou a BD que lhe deu origem, este é um projecto que mostra um grande respeito pela BD original, esmiuçando de forma eficaz e coerente, o passado das personagens que Moore e Gibbons apenas tinham esboçado.