Ainda a colecção Bonelli não terminou e já aí está mais uma colecção de Novelas Gráficas. Aqui vos deixo com os textos que escrevi para o destacável de apresentação da colecção, que volta a sair com o Público do próximo sábado.
NOVELA GRÁFICA ENTRE A ARTE, A LITERATURA E A VIDA
Numa entrevista que lhe fiz em 2001, José Muñoz, o desenhador da biografia em BD da cantora Billie Holliday que a Levoir e o PÚBLICO editaram em 2015 e um dos maiores artistas argentinos vivos, referia como, através da arte em geral e da BD em particular é possível sublimar: “a tremenda injustiça da história humana, que é uma história não ilustrável, a história de uma atracção fatal pelo sangue. A Banda Desenhada trata de separar-se da história da humanidade e melhorá-la, porque a história humana é pouco interessante. Está mal escrita! Quando fazemos BD, tentamos buscar um consolo do desastre que o ser humano protagoniza ao longo de milénios, na sua relação com o outro. Isso faz parte do aspecto terapêutico do nosso trabalho, que funciona como uma catarse e um refúgio em relação à consciência que temos, de que somos tão humanos e injustos como os outros e que, embora a história humana careça de sentido, viver é maravilhoso!”
Essa capacidade da arte e da literatura reflectirem sobre a vida e a existência humana, está presente de diferentes formas nesta nova colecção de Novelas Gráficas. Uma colecção que se inicia com o incontornável Jiro Taniguchi, desaparecido cedo demais em 2017, que nos traz, no seu formato original de leitura à japonesa, Os Guardiões do Louvre, uma ficção alegórica com uma grande dimensão autobiográfica, onde o autor assume a importância da pintura europeia no seu trabalho.
Já Aqui Mesmo, de Forest e Tardi, para além da sua dimensão surreal e metafórica, onde não faltam as piscadelas à própria BD (veja-se o livro do Mickey que Arthur se obstina em guardar até ao fim) revela sobretudo o aproveitar da liberdade que um espaço como a revista (A Suivre) oferecia aos seus autores, permitindo-lhes, nas palavras do próprio Forest: “evitar muitos dos constrangimentos impostos à BD, por razões editoriais ou económicas. Para o diabo com as histórias recortadas em episódios regulares, com finais falsos, com o número de páginas limitado, com os heróis e anti-heróis. E para o diabo sobretudo com a pior das escravaturas (por ser a mais insidiosa), a que conduz um autor a agarrar-se a um género bem definido, bem repertoriado: F.C., humor, aventura, erotismo, etc...”
O Fantasma de Gaudí, de El Torres e Jesús Alonso Iglesias, dois estreantes nestas colecções, parte de um género codificado, o romance policial, para mostrar como a arquitectura de Gaudí marca a cidade de Barcelona e os seus habitantes. Em Calipso, o seu mais recente trabalho, o suíço Cosey, galardoado com o Grande Prémio de Angoulême em 2017, escolhe a sua Suíça natal, que já tinha sido cenário de Em Busca de Peter Pan, para palco de uma história de amor crepuscular, marcada pela sombra de Hollywood.
Em O Farol e O Jogo Lúgubre, as duas histórias que assinalam o regresso do nosso bem-conhecido Paco Roca, é a homenagem à literatura que une as duas histórias. Seja a Odisseia, as Mil e Uma Noites e As Viagens de Gulliver, em O Farol, seja o Drácula de Bram Stoker, que dita a estrutura de O Jogo Lúgubre.
Já Bastien Vivès, depois da dança em Polina, opta em Uma Irmã, por um registo mais quotidiano e intimista, numa história sobre o despertar sexual de um adolescente, confirmando a grande sensualidade e eficácia do seu traço único, feito de simplicidade e elegância.
Já Pénélope Bagieu conta de forma sintética e divertida a história de 15 mulheres destemidas, em As Destemidas, livro que conheceu um incrível sucesso em França e que, depois de Zeina Abirached em 2016, assinala o regresso de uma mulher à colecção Novela Gráfica. Em Tatuagem, é um herói clássico da literatura policial, o detective Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, para quem a gastronomia é também uma forma de arte, que ganha vida através da escrita de Hernán Migoya e do desenho de Bartolomé Seguí, o ilustrador de Histórias do Bairro, talvez o melhor título da colecção de 2017.
Em Gente de Dublin, do espanhol Alfonso Zapico, mais uma vez a história e a literatura andam de braço dado, na bem documentada biografia em BD do escritor James Joyce. Literatura que está na origem de O Jogador de Xadrez, a sumptuosa adaptação do último romance de Stefan Zweig feita por David Sala, em que o tabuleiro é uma metáfora de outros combates bem mais sangrentos, cujas recordações levaram Zweig a pôr termo à sua vida, pouco tempo depois de ter escrito este livro.
Em O Último Recreio, obra maior da prestigiada dupla de autores argentinos, Horacio Altuna e Carlos Trillo, a ficção científica distópica serve de metáfora à crueldade do género humano, enquanto que em Novembro, obra inédita do espanhol Sebastià Cabot, a complexidade das relações humanas e os altos e baixos de uma ligação amorosa estão no centro de uma história simples, em que as referências cinematográficas e musicais pontuam a história.
REGRESSOS E ESTREIAS
As colecções de Novelas Gráficas que o PÚBLICO e a Levoir têm lançado anualmente desde 2015, têm-se caracterizado por duas filosofias complementares: por um lado, dar a descobrir finalmente aos leitores portugueses alguns dos clássicos na Nona Arte que permaneciam inéditos em Portugal, décadas após a sua publicação original; e, por outro lado, acompanhar a actualidade em termos de edição, divulgando as novas tendências e as mais recentes obras de autores que, pela singularidade do seu trabalho, souberam marcar o seu espaço no campo da Novela Gráfica.
Estão nesta primeira categoria obras intemporais, como Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia, Sharaz De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, A Garagem Hermética, de Moebius e Ronin, de Frank Miller, entre muitos outros. Enquadram-se na segunda categoria, autores como Paco Roca, Bastien Vivès, Miguelanxo Prado ou Asaf Hanuka, e livros como Histórias do Bairro, Presas Fáceis, ou O Idiota.
E é precisamente neste equilíbrio entre classicismo e modernidAqui Mesmo, um clássico incontornável da BD europeia, em colaboração com o seu amigo Jean-Claude Forest, o criador de Barbarella. Outro grande nome da BD europeia que regressa a esta colecção é o suíço Cosey, Grande Prémio de Angoulême em 2017, que surpreende os seus leitores com uma incursão pelo preto e branco em Calipso, o seu mais recente trabalho.
ade, regressos e estreias que se faz esta nova colecção de Novelas Gráficas. Uma colecção que abre justamente com Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses e figura tutelar nestas diferentes colecções, com a excepção da colecção de 2017, o ano da sua morte. Um trágico acontecimento, que não impede que a sua obra permaneça bem viva e ainda com muito por descobrir pelos leitores portugueses. Também de regresso está Tardi, com
Igualmente presente com o seu mais recente trabalho está Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD francesa, que nos traz Uma Irmã, uma belíssima história de iniciação sexual. Paco Roca, um dos mais importantes criadores espanhóis da actualidade, também não podia faltar, com a recuperação de O Farol e o Jogo Lúgubre, duas histórias do autor valenciano que estavam inéditas em português. O último regresso desta colecção é o do desenhador espanhol Bartolomé Seguí, o desenhador de Histórias do Bairro, que agora ilustra uma adaptação feita por Hernán Migoya de um romance de Manuel Vázquez Montalbán.
No campo das estreias, além de uma dupla de autores argentinos, Carlos Trillo e Horacio Altuna, que nos trazem o clássico O Último Recreio, temos dois criadores franceses: David Sala, com uma deslumbrante adaptação de O Jogador de Xadrez de Stefan Zweig e Pénélope Bagieu, com As Destemidas, biografias em BD de uma série de mulheres que marcaram o seu tempo. Finalmente, e como já vem sendo tradição, o maior número de estreias vem da vizinha Espanha, com autores como Jesús Alonso Iglesias e El Torres, que assinam O Fantasma de Gaudí, um triller ambientado em Barcelona, Alfonso Zapico, com Gente de Dublin, uma biografia em BD do escritor James Joyce e Sebastià Cabot, que encerra a colecção com Novembro, obra publicada nesta colecção em estreia mundial.
DOS CLÁSSICOS ILUSTRADOS À LITERATURA DESENHADA
Se há género com grande tradição ao longo da história da Banda Desenhada, esse género é a adaptação de obras literárias, mesmo que a forma como essas adaptações são feitas tenha naturalmente evoluído.
Perante as adaptações à BD de textos literários, as opiniões tendem a dividir-se. Enquanto alguns as consideram como desajustadas, por redutoras do texto literário, outros salientam a sua importância como forma de dar a conhecer aos mais novos, ou àqueles menos atreitos à leitura, obras que de outra forma nunca conheceriam, podendo estas adaptações abrir o apetite para a leitura dos textos originais adaptados. Foi essa a abordagem dominante durante bastante tempo, tanto nos Estados Unidos, com a Colecção Classics illustrated, como na Europa. Portugal, naturalmente, não foi excepção, especialmente a partir da década de 50 do século XX, quando as Instruções sobre a Literatura Infantil, legislação que impunha sérios limites aos temas que era permitido tratar em Banda Desenhada, veio dar um impulso decisivo a este tipo de adaptações. Essa limitação veio dar origem ainda assim a trabalhos muito interessantes, como as adaptações que Eduardo Teixeira Coelho fez dos contos de Eça de Queirós, ou o Beau Geste, ou a Ilha de Tesouro, de Fernando Bento.
Apesar da indiscutível qualidade de muitas dessas adaptações mais “clássicas”, não podemos deixar de ter em conta que a literatura e a BD são duas formas de linguagem diferentes, com códigos narrativos distintos, estando a BD, enquanto linguagem visual, bastante mais próxima do cinema.
Mesmo tendo como ponto de partida uma obra literária, uma Banda Desenhada deve obedecer às suas características narrativas próprias, algo praticamente impossível quando se pretende manter inalterável o texto original. Quando isso acontece, estamos perante uma adaptação falhada, ou perante um texto ilustrado, que acaba por não ser verdadeiramente Banda Desenhada. Mantendo-nos ainda no caso português, basta comparar a adaptação que José Ruy fez dos Lusíadas, em que manteve a totalidade do texto de Camões, com resultados narrativa e esteticamente discutíveis, com a abordagem bastante mais livre de Diniz Conefrey a três textos de Herberto Helder em Os Labirintos da Água.
Um dos objectivos do formato Novela Gráfica tem sido precisamente desenvolver a dimensão literária da Banda Desenhada. Hugo Pratt, que também ele adaptou à BD obras literárias como A ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ou Sandokan de Emílio Salgari, mais do que como BD, termo que ele achava desadequado, preferia definir o seu trabalho como “Literatura Desenhada”, para salientar a carga literária que ele pretendia trazer para as suas histórias. O nível de abstracção superior ao do cinema que o desenho permite, possibilitou a Alberto Breccia nas adaptações que fez dos contos de H. P. Lovecraft, “traduzir o intraduzível e representar o irrepresentável”, encontrando assim a tradução visual adequada para os horrores que as personagens de Lovecraft não se atreviam sequer a recordar. Do mesmo modo, se compararmos as adaptações que Breccia fez dos contos de Edgar Alan Poe, com o trabalho feito por outros autores, como Richard Corben, ou Horácio Layla a partir dos mesmos textos, verificamos que a marca autoral é importantíssima.
Resumindo, para uma adaptação bem conseguida, respeitando a obra original, cabe ao autor reinventá-la, integrando-a no seu próprio universo criativo. Depois de na primeira colecção de Novelas Gráficas termos tido a reinterpretação que Toppi fez das Mil e Uma Noites, em Sharaz De, na última colecção, tivemos mais um bom exemplo com a adaptação radical que André Diniz fez de O Idiota, em que teve coragem para praticamente abdicar do texto de Dostoiévski, numa adaptação em que a história do romance do prestigiado escritor russo era contada de forma visual.
Nesta quarta série das Novelas Gráficas, além de uma biografia em BD do escritor James Joyce, em que a sua vida e obra se fundem e confundem, temos duas adaptações literárias distintas. O Jogador de Xadrez, em que o francês David Sala dá vida e cor à última obra de Stefan Zweig, indo beber à pintura de Gustav Klimt para criar páginas visualmente deslumbrantes, graças a um notável trabalho de aguarela. E Tatuagem, a primeira aventura do detective Pepe Carvalho, em que Hernán Migoya adaptou o romance de Montalbán, com Bartolomé Seguí, num estilo gráfico distinto ao usado em Histórias de Bairro, a dar um rosto definitivo ao detective, que até aqui vivia apenas na imaginação dos leitores.
A COLECÇÃO
1 – Os Guardiões do Louvre
06 de Junho
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Um desenhador japonês, de passagem por Paris, decide visitar o Museu do Louvre. Uma visita que se revelará surpreendente, ao cair num limbo onírico, entre o sonho e a realidade, que lhe permite entrar em contacto com os misteriosos Guardiões do Museu, que incluem uma Vitória de Samotrácia que ganha vida, e pintores como Corot, Van Gogh e Asi Chu. Com eles, faz uma viagem pela história do Louvre, onde não podia faltar Jacques Jaujard, o director do Museu que salvou as obras de arte do Louvre da pilhagem dos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial
Jiro Taniguchi, o único autor japonês galardoado com dois prémios no Festival de Angoulême, depois de O Diário do meu Pai e Terra de Sonhos, regressa à colecção Novela Gráfica com aquele que foi o seu último livro para o mercado francês.
2 – Aqui Mesmo
13 de Junho
Argumento – Jean-Claude Forest
Desenhos –Tardi
A história surreal e satírica de Arthur Même que mora nos muros e pretende recuperar as terras que lhe foram usurpadas pelos seus primos, é uma metáfora do mecanismo do mundo, das certezas, das dúvidas, das inquietudes e do destino. Aqui Mesmo foi um dos títulos fundadores da revista francesa (À Suivre) em 1978, tendo feito a capa do primeiro número e vencido o prémio de melhor argumento no Festival de Angoulême de 1980.
Jean-Claude Forest, foi o criador de Barbarella, a sua mais conhecida personagem, levada ao cinema por Roger Vadim e interpretada por Jane Fonda. Em 1983 foi galardoado com o Grande Prémio de Angoulême. Quanto a Tardi, depois de Foi Assim a Guerra das Trincheiras em 2015, regressa à colecção Novela Gráfica com este clássico do roman BD elaborado em perfeita cumplicidade com Forest.
3 – O Fantasma de Gaudí
20 de Junho
Argumento – El Torres
Desenhos – Jesús Alonso Iglesias
Antonia, uma empregada de supermercado salva um idoso de ser atropelado e a partir desse momento desencadeia-se uma série de terríveis acontecimentos. Nos monumentos do célebre arquitecto catalão Anton Gaudí aparecem cadáveres mutilados de forma estranha e violenta. A polícia fica perplexa, e Antonia continua a afirmar que viu o fantasma de Gaudí.
A Barcelona de Gaudí serve de pano de fundo para O Fantasma de Gaudí, thriller policial com a dose certa de intriga, terror, paixão e loucura.
Um dos mais prolíficos e prestigiados argumentistas espanhóis da actualidade, considerado como o “Mestre do terror”, El Torres tem obras publicadas em França, Alemanha, Japão e Estados Unidos. O ilustrador Jesús Alonso, licenciado em Belas Artes pela Universidade de Madrid, tem no seu percurso profissional, trabalhos em animação, publicidade e em projectos de BD para editoriais espanholas e francesas.
4 – Calipso
27 de Junho
Argumento e Desenhos – Cosey
Gus e seu amigo Pepe assistem na televisão à retransmissão de Calipso, filme mítico protagonizado pela actriz Georgia Gould. Na realidade, Georgia Gould não é outra senãooutro senão Georgette Schwitzgebel, com quem Gus viveu uma ardente paixão. Mais tarde, no jornal local, Gus descobre que a Geórgia está de volta à SuiçaSuíça, na luxuosa e discreta clínica Edelweiss, especializada no tratamento de adições. Quando a visita, Gus fica convencido de que o amor da sua juventude está completamente dependente do marido, que controla a sua fortuna. É então que ela lhe propõe que ele a rapte para exigir um resgate, que lhes permita regressar a Nova Iorque. Mas as coisas acabam por não correr como previsto…
Cosey, o criador de Jonathan e de Em Busca de Peter Pan, vencedor do Grande prémio Prémio de Angoulême de 2017, regressa à colecção Novela Gráfica com o seu mais recente trabalho, num surpreendente registo de preto e branco de alto contraste.
5 – O Farol e O Jogo Lúgubre
04 de Julho
Argumento e Desenho – Paco Roca
Francisco é um jovem soldado republicano que tenta escapar da guerra civil. Na sua fuga, ele vai chegar a um lugar isolado, apenas com o mar e a companhia do faroleiro, Telmo, que o vai guiar numa jornada iniciática pelos clássicos da aventura. O Farol é uma homenagem de Paco Roca às aventuras de sua infância, uma canção em favor da liberdade e da imaginação.
Em O Jogo Lúgubre, Jonás chega a Cadaqués (Girona) em busca de um lugar tranquilo, mas uma atmosfera de mistério envolve a pequena vila de pescadores. Os seus habitantes estão assustados com o pintor que vive na praia de Port Lligat. Salvador Deseo, o pintor surrealista catalão, que passa pelo seu estágio criativo mais excêntrico e brilhante.
Paco Roca, o premiado autor de O Inverno do Desenhador, A Casa e Os Trilhos do Acaso, regressa à colecção Novela Gráfica com duas das suas primeiras novelas gráficas, em que já era evidente todo o seu talento e sensibilidade.
6 – Uma Irmã
11 de Julho
Argumento e Desenho – Bastien Vivès
Antoine, de 13 anos, está de férias em família numa casa à beira-mar. Desenha, caça o caranguejo com seu irmão mais novo, Titi, saboreando um verão sem história, até aparecer Helen, de 16 anos, que vem passar alguns dias com a mãe dele. Entre os dois adolescentes rapidamente se vai estabelecer um lapso singular, que vai tornar estas férias verdadeiramente inesquecíveis para Antoine, cuja sexualidade vai despertar graças à sensualidade transbordante de Helen.
Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD franco-belga, co-criador da popular série Last Man e autor de Polina, regressa à colecção Novela Gráfica com o seu mais recente trabalho, uma polémica história de iniciação amorosa.
7 – Destemidas
18 de Julho
Argumento e Desenhos – Pénélope Bagieu
Clémentine Delait, mulher barbada, Agnodice, ginecologista da Antiguidade, Delia Akeley, exploradora americana, Annette Kellerman, nadadora responsável pela introdução do fato de banho feminino, ou Leymah Gbowee, liberiana, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2014. Estas são algumas das quinze mulheres singulares, cuja biografia Pénélope Bagieu retrata neste livro, que começou em 2016 num blog do jornal francês Le Monde, em que todas as segundas-feiras Pénélope Bagieu colocava online a biografia de uma mulher destemida.
Pénélope Bagieu tem um bacharelato em Artes Decorativas, divide a sua actividade entre a BD, a animação e uma banda rock de que é baterista. Mas foi precisamente a sua actividade na BD, seja nos blogs ou em livro, que lhe valeu o grau de Cavaleiro de Artes e Letras, atribuído pelo Ministério da Cultura francês, em 2013.
8 – Tatuagem
25 de Julho
Argumento – Hernán Migoya (a partir do romance de Manuel Vázquez Montalbán)
Desenho – Bartolomé Seguí
Numa praia de Barcelona aparece o cadáver de um homem novo, com a cara comida pelos peixes e uma tatuagem na omoplata com a frase “Nasci para revolucionar o inferno”. Esse é o ponto de partida da primeira aventura de Pepe Carvalho, o detective galego criado pelo escritor Manuel Vázquez Montalbán, que o vai levar das ramblas de Barcelona aos canais de Amesterdão, para desvendar a identidade do misterioso homem.
Hernán Migoya, um dos mais prestigiados escritores e argumentistas espanhóis, junta-se a Bartolomé Segui Seguí (o desenhador de Histórias do Bairro) para dar vida a um dos mais carismáticos detectives da literatura policial.
09 – Gente de Dublin
01 de Agosto
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Gente de Dublin é um romance gráfico centrado na vida de James Joyce que passa pelos momentos, conversas, dificuldades e aventuras que ajudaram a construir a personalidade e a carreira de uma das grandes figuras do século XX. Fruto de um exaustivo trabalho de documentação, esta história, polvilhada com muitas anedotas, é também uma viagem cativante de comboio através de Dublin, Trieste, Paris e Zurique, as cidades por onde passou o escritor irlandês. Um percurso movimentado, onde Joyce se cruza com personalidades como Henrik Ibsen, WB Yeats, Ezra Pound, HG Wells, Bernard Shaw, TS Eliot, Virginia Woolf, Paul Valéry, Marcel Proust, Ernest Hemingway, Samuel Beckett, Sergei Eisenstein, Henri Matisse, André Gide, Le Corbusier e até Lenine.
Este trabalho valeu ao desenhador e ilustrador asturiano o Prémio Nacional del Comic, a mais elevada distinção espanhola para uma novela gráfica, no ano de 2010.
10 – O Jogador de Xadrez
08 de Agosto
Argumento – David Sala (a partir do romance de Stefan Zweig)
Desenhos – David Sala
Nos tranquilos salões de um paquete em viagem para a Argentina, o campeão do mundo de xadrez defronta numa última partida, a um aristocrata vienense cujo incrível domínio do jogo nasceu do isolamento forçado, durante o domínio nazi. Esta denúncia esmagadora e desesperada da barbárie nazi, foi o l último texto escrito por Stefan Zweig antes de se suicidar, a partir do qual David Sala realizou esta adaptação que a revista L’Express classificou como sumptuosa.
Nascido em Décines, perto de Lyon, em 1973, David Sala não é estranho às adaptações à BD de obras literárias, pois com a colaboração de Jorge Zentner, publicou a serie Nicolás Eymerich, inquisidor, uma adaptação de uma novela de Valerio Evangelisti.
11 – O Último Recreio
15 de Agosto
Argumento – Carlos Trillo
Desenhos – Horacio Altuna
Num mundo pós-apocalíptico, em que foi detonada uma bomba cujos efeitos devastadores atingem apenas aqueles que atingiram a maturidade sexual, os adultos desapareceram e os únicos sobreviventes são as crianças. Num ambiente sem outras regras para além das que se possam impor pela força e violência, aos sobreviventes resta apenas escolher se querem ser vítimas, ou executores.
Inocência e crueldade em partes iguais num ambiente sem limites, que evoca o Senhor das Moscas, de William Golding.
Carlos Trillo, um dos mais importantes argumentistas argentinos de sempre, que colaborou com os maiores desenhadores do seu país, faz com Horácio Altuna uma equipa de enorme eficácia e cumplicidade, responsável por obras-primas como este O Último Recreio, o trabalho mais prestigiado da dupla.
12 – Novembro
22 de Agosto
Argumento e Desenhos – Sebastià Cabot
Gus é um escritor novato que trabalha em uma antiga loja de discos e tem problemas para estabelecer relacionamentos sérios até conhecer Clara, uma recém-licenciada em artes, que está a tentar assumir o controle de sua vida e parar de dormir no sofá de da sua melhor amiga, Lucia, uma viciada em redes sociais que está constantemente a mudar de namorado.
Na primeira parte do livro, vemos como Gus e Clara se encontram e acabam se apaixonando. A segunda parte da história é passada três anos depois, quando a sua relação se aproxima do fim.
Novembro é uma história que tenta falar sobre separação, solidão e incomunicação na sociedade contemporânea, com um toque retro dado pelas referências ao cinema noir clássico e à música jazz.
Sebastià Cabot, autor de BD e ilustrador, nascido e radicado em Palma de Maiorca, tem nesta colecção a estreia a nível mundial de Novembro.
Publicado originalmente no jornal Público de 06/06/2018
Mostrar mensagens com a etiqueta Taniguchi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Taniguchi. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 6 de junho de 2018
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Novela Gráfica II 2 - Terra de Sonhos
TANIGUCHI REGRESSA PARA LEVAR O LEITOR À TERRA DE SONHOS
Novela Gráfica II- Vol 2
Terra de Sonhos
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Quinta, 23 de Junho
Por + 9,90 €
Depois da estreia nesta colecção de Alan Moore e David Lloyd, inaugurando esta segunda série com um clássico incontornável, como é V de Vingança, na próxima quinta-feira chega a vez do japonês Jiro Taniguchi regressar à colecção Novela Gráfica. Depois do sucesso de O Diário do meu Pai, premiado no último Festival AmadoraBD com o Galardão destinado aos Clássicos da Nona Arte é com naturalidade que Taniguchi regressa nesta série II com Terra de Sonhos, livro que recolhe um punhado de histórias curtas publicadas originalmente entre 1991 e 1992, na revista japonesa Big Comic.
Tal como sucedia com O Diário do Meu Pai, também os cinco contos reunidos neste Terra de Sonhos têm quase todos laivos autobiográficos. Dimensão bem evidente nos dois primeiros contos, centrados nos momentos finais de Tam, o cão do autor e na gata persa que o irá substituir na casa e no coração dos seus donos.
O próprio Taniguchi no posfácio do livro não esconde e até aclara essa dimensão autobiográfica, contando como tudo se passou: “o nosso cão morreu há dois anos. Já tinha quinze anos. Ao assistir ao envelhecimento e depois à morte desse velho cão, uma pequena célula no fundo de mim, daquelas que controlam a minha necessidade de contar histórias, começou a mostrar alguma actividade. Comecei a sentir uma vontade, que se transformou numa necessidade, de contar e de desenhar a história da vida e da morte desse cão. Mas na verdade, parecia-me que seria bastante difícil conseguir publicar uma história destas, uma história banal da vida quotidiana, no circuito do manga comercial.
Foi então que fui contactado por um velho conhecido, um editor com quem tinha trabalhado numa revista para a juventude e que estava agora na Big Comics e que me perguntou se não queria fazer uma história curta para eles.
Lembro-me perfeitamente desse dia, 29 de Novembro de 1990. O nosso cão tinha morrido há pouco menos de um mês, chovia, fazia frio. Encontramo-nos num café em Jimbochô. Enquanto tomávamos um café, falei-lhe da história do meu cão. Ele concordou imediatamente em publicá-la (…) e disse-me: “acho que esse é exactamente o tipo de história que faz falta no manga actual”. Para mim, foi uma reacção muito encorajante.
Foi assim que nasceu Ter um Cão e que o meu desejo se realizou. No início, pensei fazer uma história maior, que teria coberto toda a vida do nosso cão, desde a sua chegada a nossa casa, ainda cachorro, até à sua morte; mas ficaria demasiado grande para o formato da revista. Então, decidi limitar a história a um único ano, o ano da sua morte.
Creio que a história ganhou em força e ritmo, e a imagem também ganhou uma certa tensão. Estou muito satisfeito com o resultado. Ainda assim, acho que fazem falta mais algumas imagens de serenidade e de calma. Seja como for, permitiu-me tomar consciência da dificuldade em transformar uma experiência pessoal que me marcou realmente, numa história.”
O excelente acolhimento desta história, que ganhou o Prémio Especial do Júri da Editora Shôgakukan, mostrou a Taniguchi que havia público para um tipo de histórias mais contemplativas, mais centradas nas vivências do quotidiano, como são a maioria das histórias deste livro e outros títulos importantes do autor, como O Homem que Caminha.
A excepção a este registo mais centrado no quotidiano é A Terra Prometida, inspirada na experiência real do alpinista Kawamura Keisuke e que permitiu a Taniguchi regressar a um género muito presente ao longo da sua carreira, as histórias de montanha, de que Le Sommet des Dieux é o expoente máximo.
Seja relatando com sensibilidade e poesia a relação de uma família com os seus animais de estimação, ou a luta entre o homem e a natureza hostil, Taniguchi confirma neste Terra de Sonhos porque, mais do que um grande autor japonês, é um dos nomes maiores da BD mundial.
Novela Gráfica II- Vol 2
Terra de Sonhos
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Quinta, 23 de Junho
Por + 9,90 €
Depois da estreia nesta colecção de Alan Moore e David Lloyd, inaugurando esta segunda série com um clássico incontornável, como é V de Vingança, na próxima quinta-feira chega a vez do japonês Jiro Taniguchi regressar à colecção Novela Gráfica. Depois do sucesso de O Diário do meu Pai, premiado no último Festival AmadoraBD com o Galardão destinado aos Clássicos da Nona Arte é com naturalidade que Taniguchi regressa nesta série II com Terra de Sonhos, livro que recolhe um punhado de histórias curtas publicadas originalmente entre 1991 e 1992, na revista japonesa Big Comic.
Tal como sucedia com O Diário do Meu Pai, também os cinco contos reunidos neste Terra de Sonhos têm quase todos laivos autobiográficos. Dimensão bem evidente nos dois primeiros contos, centrados nos momentos finais de Tam, o cão do autor e na gata persa que o irá substituir na casa e no coração dos seus donos.
O próprio Taniguchi no posfácio do livro não esconde e até aclara essa dimensão autobiográfica, contando como tudo se passou: “o nosso cão morreu há dois anos. Já tinha quinze anos. Ao assistir ao envelhecimento e depois à morte desse velho cão, uma pequena célula no fundo de mim, daquelas que controlam a minha necessidade de contar histórias, começou a mostrar alguma actividade. Comecei a sentir uma vontade, que se transformou numa necessidade, de contar e de desenhar a história da vida e da morte desse cão. Mas na verdade, parecia-me que seria bastante difícil conseguir publicar uma história destas, uma história banal da vida quotidiana, no circuito do manga comercial.
Foi então que fui contactado por um velho conhecido, um editor com quem tinha trabalhado numa revista para a juventude e que estava agora na Big Comics e que me perguntou se não queria fazer uma história curta para eles.
Lembro-me perfeitamente desse dia, 29 de Novembro de 1990. O nosso cão tinha morrido há pouco menos de um mês, chovia, fazia frio. Encontramo-nos num café em Jimbochô. Enquanto tomávamos um café, falei-lhe da história do meu cão. Ele concordou imediatamente em publicá-la (…) e disse-me: “acho que esse é exactamente o tipo de história que faz falta no manga actual”. Para mim, foi uma reacção muito encorajante.
Foi assim que nasceu Ter um Cão e que o meu desejo se realizou. No início, pensei fazer uma história maior, que teria coberto toda a vida do nosso cão, desde a sua chegada a nossa casa, ainda cachorro, até à sua morte; mas ficaria demasiado grande para o formato da revista. Então, decidi limitar a história a um único ano, o ano da sua morte.
Creio que a história ganhou em força e ritmo, e a imagem também ganhou uma certa tensão. Estou muito satisfeito com o resultado. Ainda assim, acho que fazem falta mais algumas imagens de serenidade e de calma. Seja como for, permitiu-me tomar consciência da dificuldade em transformar uma experiência pessoal que me marcou realmente, numa história.”
O excelente acolhimento desta história, que ganhou o Prémio Especial do Júri da Editora Shôgakukan, mostrou a Taniguchi que havia público para um tipo de histórias mais contemplativas, mais centradas nas vivências do quotidiano, como são a maioria das histórias deste livro e outros títulos importantes do autor, como O Homem que Caminha.
A excepção a este registo mais centrado no quotidiano é A Terra Prometida, inspirada na experiência real do alpinista Kawamura Keisuke e que permitiu a Taniguchi regressar a um género muito presente ao longo da sua carreira, as histórias de montanha, de que Le Sommet des Dieux é o expoente máximo.
Seja relatando com sensibilidade e poesia a relação de uma família com os seus animais de estimação, ou a luta entre o homem e a natureza hostil, Taniguchi confirma neste Terra de Sonhos porque, mais do que um grande autor japonês, é um dos nomes maiores da BD mundial.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 17/06/2016
sábado, 18 de junho de 2016
Novela Gráfica - Série II - Apresentação da colecção
A NOVELA GRÁFICA REGRESSA AO PÚBLICO
Os leitores pediram e o Público fez-lhes à vontade com a publicação, já a partir da próxima quinta-feira, da Série II da colecção Novela Gráfica, que chega às bancas a 16 de Junho. São quinze títulos, na sua grande maioria assinados por autores que não integraram a primeira colecção, mas onde há ainda espaço para o regresso de nomes de peso, como Jiro Taniguchi e Altarriba e Kim, os grandes vencedores dos galardões para a melhor BD estrangeira publicada em Portugal, atribuídos pelo Festival da Amadora e pela Comic Con, com O Diário do meu Pai e A Arte de Voar, respectivamente. Também de regresso, está Moebius, desta vez a solo, com A Garagem Hermética, um dos títulos marcantes de uma carreira incontornável.
Nas estreias, destaque para Zeina Abirached, a primeira mulher publicada na colecção Novela Gráfica, corrigindo uma lacuna da colecção anterior, com a Dança das Andorinhas e para o lançamento, quase em simultâneo com a edição original, de Presas Fáceis, de Miguelanxo Prado e A Asa Quebrada, de Altarriba e Kim.
Mas um dos grandes objectivos destas colecções é dar a descobrir grandes clássicos que se mantinham escandalosamente inéditos em português de Portugal. É o caso de V de Vingança, um dos melhores e mais influentes trabalhos de Alan Moore, o criador de Watchmen, que abre a colecção, ou de Fogos e Murmúrios, dois dos mais importantes trabalhos de Lorenzo Mattotti, reunidos num único livro, que dá a descobrir aos leitores portugueses o extraordinário trabalho de cor do mestre italiano.
Numa colecção em que a actualidade política e os conflitos armados estão bastante presentes, há também espaço para obras mais intimistas, como Daytripper, o premiado trabalho dos gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, que conta, num registo intimista com um toque de realismo mágico sul-americano, a vida (e as mortes) de Braz de Oliva Domingos, um escritor de obituários. Num registo próximo, está A História de um Rato Mau, de Bryan Talbot, que mistura o universo fantástico da escritora e ilustradora Beatrix Potter, com a realidade nua e crua do abuso de menores, numa história tocante. Igualmente tocante é Terra de Sonhos, uma recolha de, tão belas como comoventes, histórias curtas, sobre o amor aos animais e à natureza, que confirmam à saciedade o talento e a sensibilidade de Taniguchi, o autor japonês responsável por um dos maiores sucessos da colecção anterior.
O MUNDO É UM LUGAR PERIGOSO
Embora todos os géneros sejam permitidos, uma das tendências dominantes da Novela Gráfica, tem sido a reportagem de guerra. Histórias, autobiográficas, ou não, que tentam dar uma perspectiva interna e real da forma como os conflitos que agitam este mundo, se reflectem em quem os vive, ou testemunha.
A força das imagens permite explicar mais facilmente aos leitores a complexidade de algumas situações geoestratégicas e a adopção de um ponto de vista concreto, em vez de uma visão mais global, ajuda o leitor a perceber que, por trás das estatísticas das mortes em combate e, sobretudo dos “danos colaterais”, estão pessoas como nós, que vêm a sua vida completamente destruída e são obrigadas a recomeçar noutro lugar.
O actual drama dos refugiados sírios mostra-nos que estas situações se mantém bem presentes e alguns títulos desta colecção, ajudam-nos a perceber melhor o que é (sobre)viver no meio de uma guerra.
A libanesa Zeina Abirached, nascida em Beirute, em 1981, viveu os primeiros dez anos da sua vida numa cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil que provocou mais de centena e meia de milhar de mortos, mas no seu Livro, A Dança das Andorinhas, apesar da crueldade da realidade exterior, o que ressalta é a inocência da infância e a capacidade de uma comunidade se manter unida, quando tudo à sua volta desaba.
Já em Fax de Sarajevo, o norte-americano Joe Kubert relata a historia real do seu agente Ervin Rustemagic, que perdeu a casa e os seus bens, incluindo uma impressionante colecção de desenhos originais de grandes nomes da BD, durante a guerra da Bósnia Herzegóvina, quando a sua casa em Dobrinja, nos subúrbios de Sarajevo, foi bombardeada pelas tropas sérvias. Prisioneiro numa cidade sitiada, Rustemagic tinha um aparelho de fax como único meio de contacto com o exterior e foi com base nos faxes que Rustemagic lhe ia enviando, que Kubert pode contar a sua história.
Embora sejam claramente obras de ficção, tanto V de Vingança, como Presas Fáceis, mostram como a ficção se pode aproximar (perigosamente) da realidade. Distopia futurista na linha do 1984, de George Orwell, V de Vingança imagina uma Inglaterra sob domínio de uma ditadura fascista, com campos de concentração, e câmaras de televisão que vigiam todos os movimentos das pessoas. Se o próprio Alan Moore considerava o governo neoliberal de Margaret Tatcher como a concretização desse futuro totalitário imaginado em V, a actual omnipresença de câmaras de vigilância e a forma como as comunicações electrónicas são monitorizadas, mostram que, neste caso, a realidade ultrapassou a própria ficção.
Já em Presas Fáceis, é a crise financeira e os abusos do sistema bancário que estão em destaque, numa história de estrutura policial, mas que se revela um verdadeiro libelo acusatório contra a ânsia desmedida de lucro, que leva as instituições bancárias a não terem o menor escrúpulo de enganar os seus clientes, em especial aqueles que pouparam toda uma vida para ter uma reforma descansada e acabam por perder as suas poupanças, em aplicações bancárias claramente imorais e de legalidade discutível.
UM GÉNERO EM REVISTA(S)
Embora, actualmente, as novelas gráficas sejam publicadas completas, num único volume, que recolhe toda a história, durante várias décadas, a pré-publicação por capítulos em revista, era forma mais usual de publicar essas histórias pela primeira vez.
Uma solução com vantagens para o autor, que assim ia recebendo à medida que ia publicando, para além de ter um feedback mais imediato dos leitores, o que lhe permitia até fazer eventuais alterações na história durante a publicação.
Na anterior colecção, vimos o caso da revista (A Suivre), onde A Guerra das Trincheiras, de Tardi, foi pré-publicado e da sua importância na criação do conceito de “Roman BD”. Nesta segunda série, embora não tenhamos nenhum título prépublicado na (A Suivre), não faltam exemplos de histórias que surgiram primeiro nas páginas das revistas. É o caso, desde logo, de V de Vingança, cujos primeiros capítulos foram publicados originalmente em Inglaterra, entre 1982 e 1983 na revista Warrior, ou das histórias de Terra de Sonhos, de Taniguchi, que antes de serem recolhidas em livro, foram originalmente publicadas no Japão, entre 1991 e 1992, nas páginas da revista Big Comic, da editora Shogakukan.
Também Parque Chas, de Barreiro e Risso, teve uma primeira publicação na Argentina, na mítica revista Fierro, publicação dirigida pelo argumentista e teórico Juan Sasturain, que aproveitou a liberdade concedida pelo fim da ditadura militar, em meados dos anos 80, para dar espaço e inteira liberdade criativa, aos excelentes desenhadores e argumentistas que a Argentina produz.
Mas a revista mais representada nesta colecção, é a Metal Hurlant. Um sonho de liberdade criativa concretizado por um grupo de autores, que incluía Moebius e Jean-Claude Dionnet. Logo no editorial do nº1, Moebius lembra que: “uma história de BD não tem de parecer-se com uma casa, com a sua porta de entrada, as janelas para ver a paisagem e uma chaminé para o fumo… também é perfeitamente imaginável uma história em forma de elefante, de campo de trigo, ou de fogo-de-artifício.”
A Garagem Hermética, cujos episódios iam sendo inventados à medida que eram publicados, sem guião prévio, ou qualquer tentativa de continuidade, é um bom exemplo dessa atmosfera de liberdade total, enquanto Os Exércitos do Conquistador, de Dionnet e Gal, subverte as regras das histórias de Sword and Sorcery, introduzindo um toque existencialista tipicamente francês.
Finalmente, também Guido Crepax publicou as aventuras de Valentina nas principais revistas italianas, como Linus, Alter-Alter e Corto Maltese, tal como as duas histórias que compõem o volume dedicado a Mattotti saíram primeiro em revista em Itália, antes de serem publicadas em livro em França. Fogos, na revista Alter-Alter em 1984 e Murmúrios na revista La Dolce Vita, em 1987.
A FORÇA DA NOVELA GRÁFICA ESPANHOLA
Numa colecção que inclui autores japoneses, libaneses, brasileiros, argentinos, sérvios, ingleses, franceses, italianos e americanos, a nação mais representada é a nossa vizinha Espanha, o que diz bem do momento actual da Banda Desenhada no país dos “nuestros hermanos”. Se Miguelanxo Prado cujo mais recente trabalho, Presas Fáceis, estreia em Portugal antes de ser publicado em França e quase em simultâneo com a sua publicação original em Espanha, tem praticamente toda a sua obra editada em português, o mesmo sucede com os trabalhos mais recentes de Altarriba que, depois de A Arte de Voar, sobre o pai, regressa com a Asa Quebrada, dedicado à mãe, também editado no nosso país quase em simultâneo com a edição original. Já de Paco Roca, que se estreia nesta colecção com O Inverno do Desenhador, baseado na história real de um grupo de desenhadores que, na Espanha dos anos 50, ousou desafiar a poderosa editora Bruguera, os leitores portugueses vão poder descobrir que a sua obra não se limita ao premiado Rugas.
Quantidade e qualidade que confirmam que, pelo menos no que diz respeito à novela gráfica, o ditado “de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”, não podia estar mais longe da realidade.
A COLECÇÃO
1 –V de Vingança
16 de Junho
Argumento – Alan Moore
Desenhos – David Lloyd
A Inglaterra mergulhou num regime fascista depois de uma catastrófica guerra nuclear, e todos os opositores ao poder instalado foram exterminados. Neste universo, ao mesmo tempo distópico e familiar, V, um revolucionário anarquista, vai encetar uma complexa campanha revolucionária para deitar abaixo o governo, enquanto inspira uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta.
Primeiro grande sucesso de Alan Moore, a história desenhada por David Lloyd e publicada originalmente na revista Warrior no início da década de 80, deu origem a um filme de grande sucesso, produzido pelos irmãos Wachowsky (Matrix) graças ao qual a máscara usada por V se tornou a imagem de marca do grupo Anonymous.
2 – Terra de Sonhos
23 de Junho
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Jiro Taniguchi, o premiado autor japonês de O Diário do meu Pai, regressa à colecção Novela Gráfica com Terra de Sonhos. Livro que recolhe um punhado de relatos da felicidade e da melancolia simples da vida, como ela é.
Histórias intimistas, marcadas pela sensibilidade de Taniguchi, impregnadas da observação do quotidiano da vida moderna, que mergulham o leitor na realidade da vida e da sua emoção humana: a morte de velhice de um cão, o nascimento de uma ninhada de gatos e a dificuldade de se separar deles, a chegada de uma jovem sobrinha que fugiu de casa, os sonhos que um alpinista abandonou em troca de uma família...
3 – Presas Fáceis
30 de Junho
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Presas Fáceis, o mais recente trabalho de Miguelanxo Prado, um dos mais premiados autores espanhóis da actualidade, chega à colecção Novela Gráfica, quase em simultâneo com a sua publicação original em Espanha, numa edição que conta com um prefácio exclusivo do historiador e colunista do Público, Rui Tavares.
Tendo como pano de fundo a crise financeira actual, por entre as indemnizações milionárias a gestores e políticos que levaram um país à falência e o desespero dos cidadãos comuns, que sofrem as consequências da fraude bancária, uma sucessão de homicídios de banqueiros lança dois polícias numa investigação que se tornará num verdadeiro thriller. Uma muito bem urdida história de vingança que gira em torno de um tema de gritante actualidade, tanto em Portugal como em Espanha.
4 – A Dança das Andorinhas: Morrer, Partir, Regressar
07 de Julho
Argumento e Desenhos – Zeina Abirached
Primeira mulher a publicar na colecção Novela Gráfica, a libanesa Zeina Abirached, retrata em A Dança das Andorinhas, uma noite na vida das famílias que habitam um prédio na zona este de Beirute, perto da linha de demarcação, em 1984, em plena Guerra do Líbano.
Um relato sensível da realidade de uma cidade devastada pela guerra e das pessoas que tentam (sobre)viver e levar uma vida tanto quanto possível normal, contado com grande originalidade gráfica, ternura e humor por Zeina Abirached, nascida em Beirute em 1981, um ano antes da invasão do Líbano pelas tropas israelitas.
5 – A História de um Rato Mau
14 de Julho
Argumento e Desenhos – Bryan Talbot
Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra rural, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz e a felicidade... Neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior que lhe permitirá confrontar os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem.
Um dos mais celebrados trabalhos do inglês Bryan Talbot (Grandville), galardoado com o prémio Eisner para a Melhor Novela Gráfica, aquando da sua primeira reedição, em 1996.
6 – Parque Chas
21 de Julho
Argumento – Ricardo Barreiro
Desenho – Eduardo Risso
Em cada capital do mundo, existem “Lugares Mágicos”. Locais obscuros onde, não se sabe como, forças desconhecidas exprimem a angústia e o medo. Triângulos das Bermudas do Imaginário, onde vampiros, sereias, fantasmas e personagens de BD se cruzam e reencontram, para levar o visitante para um lugar de onde não conseguirá, provavelmente, regressar… Em Buenos Aires, esse lugar é o Parque Chas.
Escrito por Ricardo Barreiro, Parque Chas, foi o primeiro grande sucesso do desenhador argentino Eduardo Risso (Batman Noir), aqui num registo gráfico diferente, que encaixa como uma luva na dimensão onírica da história.
7 – Garagem Hermética
28 de Julho
Argumento e Desenho – Moebius
O universo de bolso que o Major Grubert criou no interior do seu asteróide, contém três mundos sobrepostos, com os seus povos e civilizações. Três mundos que ignoram tudo das suas origens, mas em que alguns habitantes começam a suspeitar a verdade.
Inicialmente publicada em episódios na revista Metal Hurlant, de que Moebius foi um dos fundadores e publicado pela primeira vez no nosso país da versão original a preto e branco, a Garagem Hermética é um marco na revolução da Banda Desenhada iniciada pela revista Metal Hurlant, com Jean (Moebius) Giraud a subverter todas as convenções, ao criar uma história surreal, repleta de ideias incríveis, que eram inventadas à medida que os episódios eram publicados.
8 – Fax de Sarajevo
04 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Kubert
Em 1992, com o eclodir da guerra da Bósnia, o editor e agente Ervin Rustemagic, além de perder, a casa, a editora e todos os seus bens num bombardeamento, viu-se aprisionado durante mais de um ano com a sua família, na cidade sitiada de Sarajevo, sob a ameaça constante das bombas e dos snipers sérvios, tendo como único contacto com o exterior, um aparelho de fax.
Umas das pessoas com quem Rustemagic trocou faxes, foi o desenhador americano Joe Kubert (Tarzan, Sgt. Rock), que passou esta história trágica e verídica para a BD, numa novela gráfica que arrebatou os Prémios Harvey e Eisner, para além do Prémio de Angoulême para a Melhor BD Estrangeira.
9 –Valentina
11 de Agosto
Argumento e Desenhos – Guido Crepax
Embora nascida como personagem secundária noutra série de Guido Crepax, Valentina, uma sensual fotógrafa de moda vai tornar-se a mais conhecida personagem do seu autor, graças às suas aventuras surreais, em que o onirismo e o erotismo se fundem.
Este volume recolhe uma selecção das melhores aventuras de Valentina. Clássicos intemporais, marcados pelo traço sensual de Crepax e pelo seu uso inovador da planificação, com destaque para Baba Yaga, história que seria adaptada ao cinema em 1973, e para Valentina no Metro, uma criativa (e emotiva) homenagem de Crepax à Banda Desenhada e aos seus heróis e criadores.
10 – Daytripper
18 de Agosto
Argumento e Desenhos – Fabio Moon e Gabriel Bá
Os gémeos brasileiros Fabio Moon e Gabriel Bá, chegam à colecção Novela Gráfica, com Daytripper, o seu trabalho mais premiado, feito para a editora americana Vertigo. Definida muito simplesmente pelos seus autores como “uma história sobre a vida”, cada capítulo de Daytripper incide sobre um momento específico da vida de Brás de Oliva Domingos, o filho de um escritor famoso que ser ele próprio também escritor, e sobre a forma como as escolhas que faz podem modificar a sua vida... e a sua morte.
Intimista e surpreendente, Daytripper mostra a dupla ao seu melhor nível, numa história profundamente brasileira nos cenários e nas personagens, mas que lida com questões universais.
11 – Luna Park
25 de Agosto
Argumento –Kevin Baker
Desenhos – Danijel Zezelj
Alik Strelnikov vive na sombra de Coney Island, um mundo de passeios silenciosos e parques de diversões enferrujados, que ridicularizam os seus sonhos de se tornar um herói. Há dez anos, trocou uma existência brutal no exército Russo pela promessa de se tornar um executor da máfia de Brooklyn, mas as suas noites são atormentadas por pesadelos em que as atrocidades a que assistiu na Chechénia se misturam com visões alternativas do passado, que terminam sempre da mesma forma trágica.
Na sua estreia na BD, o popular escritor Kevin Baker, alia-se ao ilustrador croata Danijel Zezelj, para criar uma novela gráfica perturbadora, que marca o regresso de Baker a Coney Island, cenário da sua aclamada trilogia Dreamland.
12 – Fogos e Murmúrios
01 de Setembro
Argumento – Mattotti e Kransky
Desenhos – Lorenzo Mattotti
Um dos mais consagrados ilustradores da actualidade, o italiano Lorenzo Mattotti tem publicado o seu trabalho em revistas como Cosmopolitan, Vogue, The New Yorker, Le Monde e a Vanity Fair, o que não o impediu de construir uma importante carreira também na BD.
Fogos e Murmúrios, as duas obras que preenchem o volume que a Colecção Novela Gráfica II lhe dedica, representam um momento de charneira na sua carreira, mais evidente em Fogos, normalmente considerado como a sua obra mais importante e um ponto de viragem do autor, que passa de um tipo de trabalho mais narrativo, para um registo mais pictórico, em que a cor é um elemento simbólico e dramático, que condiciona a própria história.
13 – O Inverno do Desenhador
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Paco Roca, o premiado autor de Rugas, estreia-se na colecção Novela Gráfica com O Inverno do Desenhador. A história verídica de um grupo de cinco dos mais populares desenhadores da Editorial Brugera (uma editora espanhola criada em Barcelona em 1910, que se dedicou sobretudo à produção de literatura popular e tiras de BD) que, desiludidos com as condições de trabalho e com a falta de reconhecimento que tinham, decidem criar a sua própria editora de BD na Espanha nos anos 50.
A história destes pioneiros pelos direitos de autor, chega à colecção Novela gráfica, numa cuidada edição, que inclui uma história de seis páginas feita para o jornal El Pais e nunca antes recolhida em livro.
14 – A Asa Quebrada
15 de Setembro
Argumento – António Altarriba
Desenho – Kim
Depois do premiado (Prémio de Excelência para a Melhor Banda Desenhada Estrangeira na Comic Con 2016) A Arte de Voar, Altarriba e Kim regressam à colecção Novela Gráfica, com A Asa Quebrada. Um relato em que Altarriba volta às décadas conturbadas da vida do seu país, desta vez através dos olhos da sua mãe. O destino e a vida trágica desta mulher, que viveu as maiores agruras às mãos dos homens que a rodeavam, abusada pelo seu pai e violada, esconderá um segredo e uma esperança que o seu filho, Antonio Altarriba, perseguirá neste livro poderoso e duro, que servirá de chave para ele poder finalmente fazer as pazes com o seu passado.
15 – Os Exércitos do Conquistador
22 de Setembro
Argumento – Jean-Pierre Dionnet
Desenho – Jean-Claude Gal
Criado por Jean-Pierre Dionnet, um dos fundadores da revista Metal Hurlant, para o traço espectacularmente detalhado de Jean-Claude Gal, Os Exércitos do Conquistador foi um dos títulos mais marcantes da fase inicial da mítica revista, mostrando uma abordagem europeia da Heroic Fantasy que em nada fica atrás dos trabalhos dos melhores autores americanos do género. Este volume recolhe, na sua versão original a preto e branco, todas as colaborações de Dionnet e Gal, em Os Exércitos do Conquistador e nas duas histórias que compõem a saga de Arn, e inclui ainda A Catedral, uma história curta de Bill Mantlo, que Gal ilustrou para a revista norte-americana Epic.
Textos originalmente publicados no destacável distribuído com o jornal Público de 11 e 14/06/2016
Etiquetas:
Alan Moore,
BD,
Bryan Talbot,
Crepax,
David Lloyd,
Eduardo Risso,
Joe Kubert,
Levoir,
Mattotti,
Miguelanxo Prado,
Moebius,
Novela Gráfica,
Paco Roca,
Público,
Série II,
Taniguchi,
Zeina Abirached
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Colecção Novela Gráfica 10 - O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi
TANIGUCHI REGRESSA AO PASSADO COM O DIÁRIO DO MEU PAI
Novela Gráfica – Vol. 10
O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenho – Jiro Taniguchi
Por + 9,90€
Na próxima quinta-feira, a colecção Novela Gráfica acolhe Taniguchi, o mais ocidental dos autores japoneses, com O Diário do meu Pai, uma história intimista e plena de sensibilidade, com laivos autobiográficos, considerada como um dos mais importantes trabalhos do autor nipónico.
Nascido em 1947 em Tottori, no Japão, Jiro Taniguchi começou a sua vida profissional como empregado de escritório, até descobrir que aquilo que queria realmente fazer era desenhar. Nos inícios dos anos 70, começou a publicar os seus trabalhos em diversas revistas japonesas, dando início a uma carreira sólida e prestigiada. Grande conhecedor da BD franco-belga e admirador confesso de autores como Moebius, Schuiten e Tito, Taniguchi, que já desenhou um argumento de Moebius, colaborou com Boilet e Peeters em Tokio est mon Jardin, foi o único autor japonês a ganhar dois prémios em Angoulême, o maior Festival de BD europeu, que lhe dedicou uma grande exposição em 2015.
Em O Diário do meu Pai, Taniguchi conta-nos a história de Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio e regressa a Tottori, a sua terra natal, depois de uma longa ausência, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que o leva a evocar a infância e a perceber finalmente o verdadeiro motivo por que o pai abandonou a família.
Taniguchi queria contar uma história que tivesse a sua terra natal, Tottori, como cenário, mas, como refere numa entrevista a Benoit Peeters: “quando me pus a reflectir na história, apercebi-me que, de facto, não sabia quase nada sobre o meu pai. Imaginei então uma personagem que regressa à sua terra natal para descobrir quem era verdadeiramente o seu pai. Comecei a fazer as pesquisas, voltei a Tottori para recolher documentação e aos poucos, a história nasceu (…) A história é inventada, mas os sentimentos e o espírito da história resultam da minha experiência pessoal. Tinha em relação ao meu pai o mesmo tipo de sentimentos que estão descritos no livro. No fundo, durante a minha juventude, tinha a ideia que não queria ser como ele. Achava que a vida do meu pai não era uma vida interessante. Mas depois, descobri que afinal não era bem assim, e é isso mesmo que tento transmitir neste livro”.
Não sendo a primeira vez que os leitores portugueses têm oportunidade de descobrir o trabalho de Taniguchi, pois O Homem que Caminha foi editado em 2005 na Série Ouro da Colecção Clássicos da Banda Desenhada, foi preciso esperar 10 anos para o poder voltar a ler novamente em português, mas desta vez numa edição em capa dura, traduzida directamente do japonês. Também por isso, valeu a pena a espera!
Publicado originalmente no jornal Público de 24/04/2015
Etiquetas:
BD,
Levoir,
Novela Gráfica,
Público,
Taniguchi
quarta-feira, 4 de março de 2015
Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada
NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA
A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.
Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA
A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.
Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015
Etiquetas:
António Altarriba,
Baudoin,
BD,
Breccia,
Cosey,
Jodorowsky,
Levoir,
Miguel Rocha,
Moebius,
Novela Gráfica,
Oesterheld,
Público,
Taniguchi,
Tardi,
Toppi,
Wil Eisner
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Apresentação da Colecção Novela Gráfica
É já na próxima quinta-feira que estreia a nova colecção de Banda Desenhada da Levoir, distribuída com o jornal Público. Uma colecção que motivou que este blog não tenha sido tão actualizado nos últimos tempos como gostaria, mas que, para mim, é a melhor colecção de BD já publicada com um jornal e o maior acontecimento editorial em Portugal nos últimos anos, na área da Banda Desenhada.
Deixo-vos então com o texto do destacável de apresentação da colecção distribuído ontem com o jornal Público e, no dia em que cada volume chegar às bancas, aqui postarei o texto de apresentação do mesmo escrito para o Público.
NOVELA GRÁFICA: UM FENÓMENO UNIVERSAL
Embora o termo tenha surgido pela primeira vez nos Estados Unidos, a novela gráfica está presente em todos os mercados e esta colecção pretende também transmitir uma ideia da dimensão global que este género de Banda Desenhada atingiu, apresentando alguns dos títulos mais emblemáticos e premiados, originários dos quatro cantos do mundo, começando naturalmente pelos E.U.A, onde a expressão nasceu.
1 – ESTADOS UNIDOS
E a colecção não podia abrir com outro autor, que não Will Eisner. Tido como o pai da novela gráfica, graças a Um Contrato com Deus, o título que abre esta colecção, Eisner nasceu em 1917 e faleceu em 2005. Foi toda uma vida dedicada à BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe) tendo estado ligado ao nascimento da indústria dos comics em 1936, através do estúdio Eisner/Eiger, do mesmo modo que, em 1978 quando regressa à BD com Um Contrato com Deus, alarga mais uma vez os limites da Banda Desenhada, fazendo-a entrar nas livrarias. Desenhador virtuoso, aliou a sua criação artística ao pensamento e análise sobre os comics, sendo autor de livros técnicos incontornáveis como Comics and Sequential Art e professor durante várias décadas na School of Visual Arts, de Nova Iorque.
Outro criador americano incontornável é Robert Crumb, o papa do Underground Comix, aqui representado por O Livro de Mr. Natural, uma recolha de histórias curtas daquele que é, a par com Fritz, the Cat, o seu personagem mais carismático.
Nascido em Filadélfia em 1943, Crumb estreou-se profissionalmente como desenhador em 1962, numa companhia de cartões de boas festas de Cleveland, mas foi no final dos anos 60 que a sua carreira na BD arrancou, graças à revista Zap Comix!, titulo escrito, desenhado e publicado pelo próprio Crumb, que rapidamente se tornou um sucesso junto da comunidade underground. Para além de uma vastíssima produção, dividida entre a Banda Desenhada e a ilustração, Crumb é também um apaixonado pela música, tocando banjo numa banda e tendo ilustrado capas para inúmeros discos de jazz, blues e rock. Crumb está radicado em França desde 1991, país que lhe atribuiu o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1999 e lhe consagrou uma grande exposição no Museu de Arte Moderna, em Paris, em 2012.
2 – PAÍSES FRANCÓFONOS
A Banda Desenhada de língua francesa está representada nesta colecção por um punhado de criadores incontornáveis, começando desde logo pela dupla Moebius/Jodorowsky. Senhores de carreiras impossíveis de resumir neste curto espaço, Jean (Moebius) Giraud e Alejandro Jodorowsky são conhecidos sobretudo pela série de ficção científica de culto, O Incal, mas a sua colaboração, que começou no cinema, vai muito para além disso, como o provam obras incontornáveis como Os Olhos do Gato, ou este A Louca do Sacré Coeur, uma tão divertida como desconcertante paródia às religiões, onde é possível estabelecer paralelos com a biografia dos autores.
Outro nome que dispensa apresentações é o do francê Jacques Tardi. Várias vezes premiado no Festival de Angoulême e vencedor de três Prémios Eisner, o autor nascido em 1946, que os leitores portugueses conhecem graças à série Adèle Blanc-Sec, está representado por Foi Assim a Guerra das Trincheiras, a sua obra mais emblemática, dedicada a um tema fulcral da na sua obra, a I Guerra Mundial.
Também o suíço Cosey é bem conhecido dos leitores portugueses, graças à série Jonathan, um dos títulos mais emblemáticos da revista Tintin e aqui surge representado pela sua primeira história sem herói, Em Busca de Peter Pan, díptico que tem por cenário os Alpes da sua Suíça natal e que aqui surge publicado na versão integral.
E há ainda o francês Edmond Baudoin, de que falaremos mais à frente, uma vez que o livro que o representa nesta colecção foi feito para o mercado japonês.
3 – ITÁLIA
Pátria de grandes nomes da história da BD, como Hugo Pratt, Dino Battaglia, Guido Buzzelli, ou Milo Manara, a Itália está representada nesta colecção pelo mais fabuloso dos seus desenhadores, Sergio Toppi. Senhor de um estilo único, marcado pelo revolucionário tratamento da página enquanto unidade estética, Toppi (1932 – 2012) está representado pela sua obra-prima, Sharaz-De, uma deslumbrante revisitação dos contos das Mil e Uma Noites, a que o seu grafismo único dá uma ainda maior dimensão fantástica.
4 – JAPÃO
Berço da maior indústria de Banda Desenhada a nível mundial, pátria de criadores como Osamu Tezuka e Naoki Urasawa, o Japão está (muito bem) representado por Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses. Nascido em Totori, no Japão, em 1947, Taniguchi, que tem publicado em Portugal, O Homem que Caminha, surge nesta colecção com O Diário do meu Pai, relato intimista, de grande beleza e sensibilidade, que tem precisamente por cenário a aldeia natal do autor.
Um dos primeiros desenhadores europeus a entrar no poderoso mercado japonês, onde este livro foi originalmente publicado, o francês Edmond Baudoin, estreia-se em português nesta colecção com A Viagem. Premiado com o Alph Art para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 1997, AViagem concilia a dimensão onírica e sensual, tão típicas de Baudoin, com uma narrativa assente na componente visual, características dos mangá, a BD japonesa.
5 – PENÍNSULA IBÉRICA
A Península Ibérica surge representada nesta colecção por duas novelas gráficas multi-premiadas, como são o caso de Beterraba, e A Arte de Voar. Assinada por Miguel Rocha, um dos mais virtuosos ilustradores portugueses, responsável pela ilustração do cartaz do Euro 2004, de futebol, Beterraba: A Vida numa Colher, é uma saga alentejana, contada com cores luminosas e vibrantes, feita ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, tendo vencido os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival da Amadora de 2004.
Já a nossa vizinha Espanha está representada por A Arte de Voar, título de António Altarriba e Kim, que arrebatou os principais Prémios de BD espanhóis em 2010, incluindo o prestigiado Premio Nacional del Comic. Escrito pelo escritor, professor e ensaísta Antonio Altarriba e ilustrado por Kim, um dos nomes maiores da emblemática (e controversa) revista El Jueves, A Arte de Voar é um bom exemplo da grande qualidade actual da BD feita por nuestros hermanos.
6 – AMÉRICA DO SUL
E a colecção fecha com dois títulos oriundos da América do Sul, que irão ser distribuídos na mesma semana. São eles Mort Cinder, o ponto mais alto da colaboração entre o urugaio Alberto Breccia e o argentino Hector Oesterheld, que é finalmente publicado na íntegra em português e Bando de Dois, uma história de cangaceiros, narrada pelo brasileiro Danilo Beiruth, no melhor registo dos Western Spaguettis de Sergio Leone.
Hector German Oesterheld (1919-1977) foi o maior argumentista de língua espanhola, autor de séries incontornáveis como El Eternauta, Sgt. Kirk (com Hugo Pratt), ou Ernie Pike, mas foi nas suas colaborações com Alberto Breccia (1919-1993) que a sua escrita mais brilhou, muito por via do virtuosismo e da criatividade visual de Breccia, que tem em Mort Cinder o seu expoente máximo.
Nascido em São Paulo em 1973, o brasileiro Danilo Beiruth trocou a publicidade pela BD em 2007, mas foi em 2010, com Bando De Dois, título que além do Prémio Angelo Agostini, lhe valeu três troféus HQ Mix, os mais importantes prémios da indústria de BD brasileira, que se tornou um nome incontornável da BD brasileira contemporânea.
DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE NOVELA GRÁFICA
Tradução literal (e incorrecta, pois novel em português, significa romance…) do termo inglês graphic novel, o termo novela gráfica entrou já no vocabulário dos leitores portugueses de Banda Desenhada e associa-se instintivamente a histórias de qualidade e com uma dimensão estética e literária requintada, menos provável de encontrar na produção editorial corrente.
A designação surge pela necessidade sentida por alguns autores americanos, de demarcarem o seu trabalho da carga depreciativa associada ao termo comics, usado de forma indiscriminada para designar a BD nos Estados Unidos. Exactamente por terem consciência que o termo se aplicava apenas a uma pequena parte da produção existente (as histórias cómicas, ou humorísticas, constituem uma parte cada vez mais ínfima da produção americana, onde os super-heróis continuam a ser o género dominante) e ao formato específico dos comic books (revistas com uma dimensão de 17 X 26 cm, com vinte e poucas páginas, normalmente ocupadas por histórias de super-heróis), surgiram outros nomes alternativos. É o caso do termo comix, utilizado para definir a BD alternativa (ou underground) surgida nos campus universitários americanos durante os anos 60 do século XX, e graphic novel, designação que aproxima a BD da literatura. Uma designação aplicada a um tipo de narrativas extensas, com uma dimensão literária e um tipo de preocupações estéticas muito difíceis de encontrar no formato restritivo de um comic book, limitado a narrativas breves, passíveis de serem contadas em pouco mais de vinte páginas.
Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo, que já estava presente no Zeitgest cultural americano do final dos anos 70, tanto na sua forma actual, como em subtis variações, como graphic album, visual novel, ou illustrated novel, Eisner, sem nunca ter reivindicado para si esse estatuto, foi considerado por muitos como o criador da novela gráfica, pelo impacto crítico e comercial que Um Contrato com Deus teve junto do público americano.
O sucesso de títulos posteriores como Maus de Art Spiegelman e de The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (dois títulos publicados originalmente como mini-séries) ajudou a que o termo graphic novel entrasse na linguagem comum.
Mas, mesmo que ninguém lhes desse ainda esse nome, as novelas gráficas são bem anteriores, podendo mesmo englobar-se nesta categoria L’Histoire de M. Vieux Bois, de Rodolphe Topffer, publicada em 1837, como a primeira novela gráfica. Pelo menos era essa a opinião do seu amigo e primeiro crítico de BD, o filósofo e escritor Goethe, que definiu a obra de Topffer, como “a literatura do futuro”.
Também uma obra como A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, criador que preferia usar o termo literatura desenhada, para classificar o seu trabalho, pode ser considerada uma novela gráfica. O mesmo se pode dizer em relação à esmagadora maioria das histórias publicadas na revista francesa (A Suivre) que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, dava-lhes a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso de Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, publicado originalmente em capítulos na revista (A Suivre) e incluído nesta colecção. No fundo, não é o modo como é originalmente publicado, que define o estatuto de uma obra. Basta pensar em escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro.
Assim, nesta colecção temos títulos concebidos originalmente para o formato novela gráfica, como o é o caso de Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Beterraba, de Miguel Rocha, A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, e Bando de Dois, de Danilo Beiruth, a par com livros publicados originalmente por capítulos em revistas, como A Viagem, de Baudoin, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Livro de Mr. Natural, de Robert Crumb, Sharaz-De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi e Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld e ainda histórias completas que foram originalmente publicadas em mais do que um volume, por razões puramente editoriais, como é o caso de A Louca do Sacré Coeur, de Moebiusw e Jodorowsky.
Ou seja, títulos com origens diversas, mas que têm como grande elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, de grande qualidade estética e literária, que sendo arte sequencial, são também literatura desenhada.
A COLECÇÃO
1 – Um Contrato com Deus
26 de Fevereiro
Argumento e Desenhos – Will Eisner
Considerada por muitos como a obra fundadora do género Novela Gráfica, Um Contrato com Deus recolhe quatro histórias curtas inspiradas nas vivências de Eisner nos bairros pobres da Nova Iorque dos anos 30. Histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos no Bronx, traçando uma imagem cheia de riqueza das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.
2 – A Louca do Sacré Coeur
05 de Março
Argumento – Alejandro Jodorowsky
Desenhos – Moebius
Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mística, farsa sagrada, caminho iniciático, e exorcismo, assinado por dois nomes maiores da BD mundial.
3 – A Viagem
12 de Março
Argumento e Desenhos – Edmond Baudoin
Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, com a cabeça cheia de imagens abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, com um toque surreal, contada pelo traço sensual de Baudoin, feita originalmente para o mercado japonês e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.
4 – Foi Assim a Guerra das Trincheiras
19 de Março
Argumento e Desenhos – Jacques Tardi
Retrato realista e cruel da Guerra de 1914-1918, Foi Assim a Guerra das Trincheiras é, de longe, a mais popular e aclamada obra de Tardi, um dos mais respeitados e premiados autores franceses. Homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial, foi evoluindo ao longo dos anos em que foi sendo publicada. De pano de fundo para histórias contadas em banda desenhada, transformou-se lentamente numa denúncia poderosa dos horrores do conflito que aniquilou uma geração inteira.
5 – Beterraba: A Vida numa Colher
26 de Março
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Oligário, um patriarca alentejano luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano. Um livro poderoso, de um dos mais talentosos ilustradores nacionais, que volta a estar disponível, agora em capa dura e com uma nova capa.
6 – A Arte de Voar
02 de Abril
Argumento – António Altarriba
Desenho – Kim
Nascido em 1910 em Espanha, António Altarriba pai atravessará o século e as suas horas mais negras, para se suicidar em 2001. António Altarriba, filho, irá em busca da história dele, para poder contá-la e talvez conseguir perceber as razões do suicídio deste homem de 91 anos que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais. Mas mais do que uma simples biografia gráfica, A Arte de Voar é um panorama brilhante do século 20 espanhol.
7 – O Livro de Mr. Natural
09 de Abril
Argumento e Desenho – Robert Crumb
Um verdadeiro clássico do comic underground, assinado pelo mestre Robert Crumb, protagonizado pela sua carismática criação, o guru Mr. Natural, cuja trajectória acompanhamos, desde as aventuras iniciais dos anos 60, até aos anos 90, marcados pelo controverso ciclo da Devil Girl.
8 – Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Sir Melvin Woodworth, um escritor inglês, parte para os Alpes em busca de inspiração para o seu novo romance, e das memórias do seu irmão Dragan, um pianista desaparecido naquelas montanhas anos antes. Mas, no cenário imponente dos Alpes suíços, Melvin vai fazer uma descoberta que vai afectar de forma profunda a sua vida. A primeira novela gráfica de Cosey, o criador de Jonathan.
9 – Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenhos – Sergio Toppi
Sharaz-De, a Sherazade dos contos das Mil e Uma Noites, surge aqui reinterpretada pelo traço inconfundível do mestre Italiano Sergio Toppi, num conjunto de 11 contos ilustrados num estilo de grande audácia gráfica, marcado por um espectacular sentido de composição, que revoluciona a estrutura habitual da página clássica de banda desenhada. A obra-prima do Mestre Italiano finalmente disponível em Portugal!
10 – O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio, regressa a Tottori, a sua terra natal, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que leva a evocar a infância e a perceber finalmente o motivo por que o seu pai abandonou a família. Um relato intimista e comovente, com laivos de autobiografia, contado com grande beleza e extrema sensibilidade pelo mais europeu dos desenhadores japoneses, Jiro Taniguchi.
11 – Mort Cinder
06 de Maio
Argumento – Hector Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia
A vida pacata do antiquário Ezra Wiston vai sofrer uma alteração radical quando conhece Mort Cinder, o vagabundo do tempo, homem de mil e uma vidas e outras tantas mortes. Juntos vivem aventuras em que o ambiente fantástico não esconde uma visão profundamente humana do mundo.
Ponto mais alto da colaboração entre os dois geniais criadores argentinos, Mort Cinder é justamente considerado como uma obra-prima e um livro absolutamente incontornável, que surge primeira vez em Portugal numa edição integral.
12 – Bando de Dois
07 de Maio
Argumento e Desenhos – Danilo Beyruth
Tinhoso e Caveira de Boi, "os dois últimos sobreviventes de um bando de vinte cangaceiros partem em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, preparados para enfrentar um exército. Cada um com os seus motivos. O brasileiro Danilo Beiruth cria em O Bando de Dois um verdadeiro Western Spaguetti em papel, que conquistou a crítica e os leitores brasileiros aquando da sua publicação, em 2010.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/02/2015
Etiquetas:
Baudoin,
BD,
Breccia,
Cosey,
Graphic Novel,
Jodorowsky,
Levoir,
Moebius,
Novela Gráfica,
Oesterheld,
Público,
Robert Crumb,
Taniguchi,
Tardi,
Toppi,
Wil Eisner
Subscrever:
Mensagens (Atom)














































