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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Colecção Novela Gráfica IV 4 - Calipso

UMA SEREIA NOS ALPES SUÍÇOS

Novela Gráfica IV - Vol. 4 
Calipso
Argumento e Desenhos – Cosey
Quarta-feira, 27 de Junho
Por + 10,90€
O quarto volume da série de 2018 da colecção Novela Gráfica, assinala o regresso de Cosey, autor vencedor do Grande Prémio de Angoulême em 2017, pelo conjunto da sua obra, com Calipso, o seu mais recente trabalho, em que regressa aos Alpes suíços, que já tinham sido cenário de Em Busca de Peter Pan, título publicado na primeira colecção de Novelas Gráficas que o Público e a Levoir lançaram em 2015.
Nascido em 1950, perto de Lausanne, na Suíça, como Bernard Cosandey, Cosey, estreou-se na BD no início dos anos 70, pela mão do seu compatriota Derib, o criador de Yakary e Buddy Longway. Justamente conhecido e premiado pelo seu trabalho na série Jonathan, título incontornável da revista Tintin, e por novelas gráficas como o já citado Em Busca de Peter Pan, O Buda Azul, Viagem a Itália, Orchidea, ou Saigon-Hanoi, Cosey, em Calipso, mantém-se fiel ao seu universo criativo, mas inclui uma novidade assinalável no seu trabalho, o uso do preto e branco.
Essa primeira incursão pelo preto e branco, ao fim de quase cinquenta anos de carreira e mais de uma vintena de livros, foi nas palavras do próprio Cosey “o concretizar de um velho sonho” e também “uma forma de se surpreender”. Inspirado  pelas gravuras em madeira de Félix Valloton, de que é um admirador confesso, Cosey optou por “trabalhar o branco e o preto como duas cores, sem ter em conta as sombras nem a iluminação”. O resultado são páginas de alto contraste, em que as imagens atingem por vezes um elevado grau de abstraccionismo e uma dimensão gráfica impressionantes - bem evidente nas páginas iniciais e finais -  sem abdicar da legibilidade e fluidez da narrativa, que são marcas incontornáveis do seu trabalho.
Em termos de história, temos uma narrativa crepuscular, marcada pela nostalgia, protagonizada por personagens que, tal como o próprio Cosey, que já tem 68 anos, já deixaram a juventude bem para trás, mesmo que esses tempos deixem marcas indeléveis. É o que acontece com Gus, e com o seu amigo Pepe – um espanhol que na Suíça procura arranjar dinheiro para regressar à Catalunha e abrir um restaurante de fondues - que numa aldeia nos Alpes suíços assistem na televisão à retransmissão de Calipso, filme mítico protagonizado pela actriz Georgia Gould, cujo papel de sereia nesse filme lhe abriu as portas de Hollywood. Na realidade, Georgia Gould não é outra senão Georgette Schwitzgebel, com quem Gus viveu uma ardente paixão na adolescência. Mais tarde, no jornal local, Gus descobre que a Geórgia está de volta à Suíça, tendo-se instalado no Hotel Edelweiss, uma luxuosa e discreta clínica, à beira do lago Leman, especializada no tratamento de adições, para mais uma desintoxicação. Quando a visita, Gus fica convencido de que o amor da sua juventude está completamente dependente do director da clínica, que é também o seu tutor e controla a sua fortuna. É então que ela lhe propõe que ele a rapte para exigir um resgate, que lhes permita regressar a Nova Iorque e reviver o amor da juventude. Um plano tão ingénuo como arriscado que, inevitavelmente acabará por não correr como o previsto… até porque o destino intervém de forma inesperada.
Um regresso em grande forma de Cosey, pleno de humanidade e nostalgia que, graças à Colecção Novela Gráfica, sai em Portugal poucos meses depois da edição original francesa.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 23/06/2018

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Apresentação da colecção Novela Gráfica - Série IV

Ainda a colecção Bonelli não terminou e já aí está mais uma colecção de Novelas Gráficas. Aqui vos deixo com os textos que escrevi para o destacável de apresentação da colecção, que volta a sair com o Público do próximo sábado.

NOVELA GRÁFICA ENTRE A ARTE, A LITERATURA E A VIDA

Numa entrevista que lhe fiz em 2001, José Muñoz, o desenhador da biografia em BD da cantora Billie Holliday que a Levoir e o PÚBLICO editaram em 2015 e um dos maiores artistas argentinos vivos, referia como, através da arte em geral e da BD em particular é possível sublimar: “a tremenda injustiça da história humana, que é uma história não ilustrável, a história de uma atracção fatal pelo sangue. A Banda Desenhada trata de separar-se da história da humanidade e melhorá-la, porque a história humana é pouco interessante. Está mal escrita! Quando fazemos BD, tentamos buscar um consolo do desastre que o ser humano protagoniza ao longo de milénios, na sua relação com o outro. Isso faz parte do aspecto terapêutico do nosso trabalho, que funciona como uma catarse e um refúgio em relação à consciência que temos, de que somos tão humanos e injustos como os outros e que, embora a história humana careça de sentido, viver é maravilhoso!”
Essa capacidade da arte e da literatura reflectirem sobre a vida e a existência humana, está presente de diferentes formas nesta nova colecção de Novelas Gráficas. Uma colecção que se inicia com o incontornável Jiro Taniguchi, desaparecido cedo demais em 2017, que nos traz, no seu formato original de leitura à japonesa, Os Guardiões do Louvre, uma ficção alegórica com uma grande dimensão autobiográfica, onde o autor assume a importância da pintura europeia no seu trabalho.
Já Aqui Mesmo, de Forest e Tardi, para além da sua dimensão surreal e metafórica, onde não faltam as piscadelas à própria BD (veja-se o livro do Mickey que Arthur se obstina em guardar até ao fim) revela sobretudo o aproveitar da liberdade que um espaço como a revista (A Suivre) oferecia aos seus autores, permitindo-lhes, nas palavras do próprio Forest: “evitar muitos dos constrangimentos impostos à BD, por razões editoriais ou económicas. Para o diabo com as histórias recortadas em episódios regulares, com finais falsos, com o número de páginas limitado, com os heróis e anti-heróis. E para o diabo sobretudo com a pior das escravaturas (por ser a mais insidiosa), a que conduz um autor a agarrar-se a um género bem definido, bem repertoriado: F.C., humor, aventura, erotismo, etc...”
O Fantasma de Gaudí, de El Torres e Jesús Alonso Iglesias, dois estreantes nestas colecções, parte de um género codificado, o romance policial, para mostrar como a arquitectura de Gaudí marca a cidade de Barcelona e os seus habitantes. Em Calipso, o seu mais recente trabalho, o suíço Cosey, galardoado com o Grande Prémio de Angoulême em 2017, escolhe a sua Suíça natal, que já tinha sido cenário de Em Busca de Peter Pan, para palco de uma história de amor crepuscular, marcada pela sombra de Hollywood.
Em O Farol e O Jogo Lúgubre, as duas histórias que assinalam o regresso do nosso bem-conhecido Paco Roca, é a homenagem à literatura que une as duas histórias. Seja a Odisseia, as Mil e Uma Noites e As Viagens de Gulliver, em O Farol, seja o Drácula de Bram Stoker, que dita a estrutura de O Jogo Lúgubre.
Já Bastien Vivès, depois da dança em Polina, opta em Uma Irmã, por um registo mais quotidiano e intimista, numa história sobre o despertar sexual de um adolescente, confirmando a grande sensualidade e eficácia do seu traço único, feito de simplicidade e elegância.
Já Pénélope Bagieu conta de forma sintética e divertida a história de 15 mulheres destemidas, em As Destemidas, livro que conheceu um incrível sucesso em França e que, depois de Zeina Abirached em 2016, assinala o regresso de uma mulher à colecção Novela Gráfica. Em Tatuagem, é um herói clássico da literatura policial, o detective Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, para quem a gastronomia é também uma forma de arte, que ganha vida através da escrita de Hernán Migoya e do desenho de Bartolomé Seguí, o ilustrador de Histórias do Bairro, talvez o melhor título da colecção de 2017.
Em Gente de Dublin, do espanhol Alfonso Zapico, mais uma vez a história e a literatura andam de braço dado, na bem documentada biografia em BD do escritor James Joyce. Literatura que está na origem de O Jogador de Xadrez, a sumptuosa adaptação do último romance de Stefan Zweig feita por David Sala, em que o tabuleiro é uma metáfora de outros combates bem mais sangrentos, cujas recordações levaram Zweig a pôr termo à sua vida, pouco tempo depois de ter escrito este livro.
Em O Último Recreio, obra maior da prestigiada dupla de autores argentinos, Horacio Altuna e Carlos Trillo, a ficção científica distópica serve de metáfora à crueldade do género humano, enquanto que em Novembro, obra inédita do espanhol Sebastià Cabot, a complexidade das relações humanas e os altos e baixos de uma ligação amorosa estão no centro de uma história simples, em que as referências cinematográficas e musicais pontuam a história.

REGRESSOS E ESTREIAS

As colecções de Novelas Gráficas que o PÚBLICO e a Levoir têm lançado anualmente desde 2015, têm-se caracterizado por duas filosofias complementares: por um lado, dar a descobrir finalmente aos leitores portugueses alguns dos clássicos na Nona Arte que permaneciam inéditos em Portugal, décadas após a sua publicação original; e, por outro lado, acompanhar a actualidade em termos de edição, divulgando as novas tendências e as mais recentes obras de autores que, pela singularidade do seu trabalho, souberam marcar o seu espaço no campo da Novela Gráfica.
Estão nesta primeira categoria obras intemporais, como Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia, Sharaz De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, A Garagem Hermética, de Moebius e Ronin, de Frank Miller, entre muitos outros. Enquadram-se na segunda categoria, autores como Paco Roca, Bastien Vivès, Miguelanxo Prado ou Asaf Hanuka, e livros como Histórias do Bairro, Presas Fáceis, ou O Idiota.
E é precisamente neste equilíbrio entre classicismo e modernidAqui Mesmo, um clássico incontornável da BD europeia, em colaboração com o seu amigo Jean-Claude Forest, o criador de Barbarella. Outro grande nome da BD europeia que regressa a esta colecção é o suíço Cosey, Grande Prémio de Angoulême em 2017, que surpreende os seus leitores com uma incursão pelo preto e branco em Calipso, o seu mais recente trabalho.
ade, regressos e estreias que se faz esta nova colecção de Novelas Gráficas. Uma colecção que abre justamente com Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses e figura tutelar nestas diferentes colecções, com a excepção da colecção de 2017, o ano da sua morte. Um trágico acontecimento, que não impede que a sua obra permaneça bem viva e ainda com muito por descobrir pelos leitores portugueses. Também de regresso está Tardi, com
Igualmente presente com o seu mais recente trabalho está Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD francesa, que nos traz Uma Irmã, uma belíssima história de iniciação sexual. Paco Roca, um dos mais importantes criadores espanhóis da actualidade, também não podia faltar, com a recuperação de O Farol e o Jogo Lúgubre, duas histórias do autor valenciano que estavam inéditas em português. O último regresso desta colecção é o do desenhador espanhol Bartolomé Seguí, o desenhador de Histórias do Bairro, que agora ilustra uma adaptação feita por Hernán Migoya de um romance de Manuel Vázquez Montalbán.
No campo das estreias, além de uma dupla de autores argentinos, Carlos Trillo e Horacio Altuna, que nos trazem o clássico O Último Recreio, temos dois criadores franceses: David Sala, com uma deslumbrante adaptação de O Jogador de Xadrez de Stefan Zweig e Pénélope Bagieu, com As Destemidas, biografias em BD de uma série de mulheres que marcaram o seu tempo. Finalmente, e como já vem sendo tradição, o maior número de estreias vem da vizinha Espanha, com autores como Jesús Alonso Iglesias e El Torres, que assinam O Fantasma de Gaudí, um triller ambientado em Barcelona, Alfonso Zapico, com Gente de Dublin, uma biografia em BD do escritor James Joyce e Sebastià Cabot, que encerra a colecção com Novembro, obra publicada nesta colecção em estreia mundial.

DOS CLÁSSICOS ILUSTRADOS À LITERATURA DESENHADA

Se há género com grande tradição ao longo da história da Banda Desenhada, esse género é a adaptação de obras literárias, mesmo que a forma como essas adaptações são feitas tenha naturalmente evoluído.
Perante as adaptações à BD de textos literários, as opiniões tendem a dividir-se. Enquanto alguns as consideram como desajustadas, por redutoras do texto literário, outros salientam a sua importância como forma de dar a conhecer aos mais novos, ou àqueles menos atreitos à leitura, obras que de outra forma nunca conheceriam, podendo estas adaptações abrir o apetite para a leitura dos textos originais adaptados. Foi essa a abordagem dominante durante bastante tempo, tanto nos Estados Unidos, com a Colecção Classics illustrated, como na Europa. Portugal, naturalmente, não foi excepção, especialmente a partir da década de 50 do século XX, quando as Instruções sobre a Literatura Infantil, legislação que impunha sérios limites aos temas que era permitido tratar em Banda Desenhada, veio dar um impulso decisivo a este tipo de adaptações. Essa limitação veio dar origem ainda assim a trabalhos muito interessantes, como as adaptações que Eduardo Teixeira Coelho fez dos contos de Eça de Queirós, ou o Beau Geste, ou a Ilha de Tesouro, de Fernando Bento.
Apesar da indiscutível qualidade de muitas dessas adaptações mais “clássicas”, não podemos deixar de ter em conta que a literatura e a BD são duas formas de linguagem diferentes, com códigos narrativos distintos, estando a BD, enquanto linguagem visual, bastante mais próxima do cinema.
Mesmo tendo como ponto de partida uma obra literária, uma Banda Desenhada deve obedecer às suas características narrativas próprias, algo praticamente impossível quando se pretende manter inalterável o texto original. Quando isso acontece, estamos perante uma adaptação falhada, ou perante um texto ilustrado, que acaba por não ser verdadeiramente Banda Desenhada. Mantendo-nos ainda no caso português, basta comparar a adaptação que José Ruy fez dos Lusíadas, em que manteve a totalidade do texto de Camões, com resultados narrativa e esteticamente discutíveis, com a abordagem bastante mais livre de Diniz Conefrey a três textos de Herberto Helder em Os Labirintos da Água.

Um dos objectivos do formato Novela Gráfica tem sido precisamente desenvolver a dimensão literária da Banda Desenhada. Hugo Pratt, que também ele adaptou à BD obras literárias como A ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ou Sandokan de Emílio Salgari, mais do que como BD, termo que ele achava desadequado, preferia definir o seu trabalho como “Literatura Desenhada”, para salientar a carga literária que ele pretendia trazer para as suas histórias. O nível de abstracção superior ao do cinema que o desenho permite, possibilitou a Alberto Breccia nas adaptações que fez dos contos de H. P. Lovecraft, “traduzir o intraduzível e representar o irrepresentável”, encontrando assim a tradução visual adequada para os horrores que as personagens de Lovecraft não se atreviam sequer a recordar. Do mesmo modo, se compararmos as adaptações que Breccia fez dos contos de Edgar Alan Poe, com o trabalho feito por outros autores, como Richard Corben, ou Horácio Layla a partir dos mesmos textos, verificamos que a marca autoral é importantíssima.
Resumindo, para uma adaptação bem conseguida, respeitando a obra original, cabe ao autor reinventá-la, integrando-a no seu próprio universo criativo. Depois de na primeira colecção de Novelas Gráficas termos tido a reinterpretação que Toppi fez das Mil e Uma Noites, em Sharaz De, na última colecção, tivemos mais um bom exemplo com a adaptação radical que André Diniz fez de O Idiota, em que teve coragem para praticamente abdicar do texto de Dostoiévski, numa adaptação em que a história do romance do prestigiado escritor russo era contada de forma visual.
Nesta quarta série das Novelas Gráficas, além de uma biografia em BD do escritor James Joyce, em que a sua vida e obra se fundem e confundem, temos duas adaptações literárias distintas. O Jogador de Xadrez, em que o francês David Sala dá vida e cor à última obra de Stefan Zweig, indo beber à pintura de Gustav Klimt para criar páginas visualmente deslumbrantes, graças a um notável trabalho de aguarela. E Tatuagem, a primeira aventura do detective Pepe Carvalho, em que Hernán Migoya adaptou o romance de Montalbán, com Bartolomé Seguí, num estilo gráfico distinto ao usado em Histórias de Bairro, a dar um rosto definitivo ao detective, que até aqui vivia apenas na imaginação dos leitores.

A COLECÇÃO

1 – Os Guardiões do Louvre 
06 de Junho
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Um desenhador japonês, de passagem por Paris, decide visitar o Museu do Louvre. Uma visita que se revelará surpreendente, ao cair num limbo onírico, entre o sonho e a realidade, que lhe permite entrar em contacto com os misteriosos Guardiões do Museu, que incluem uma Vitória de Samotrácia que ganha vida, e pintores como Corot, Van Gogh e Asi Chu. Com eles, faz uma viagem pela história do Louvre, onde não podia faltar Jacques Jaujard, o director do Museu que salvou as obras de arte do Louvre da pilhagem dos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial
Jiro Taniguchi, o único autor japonês galardoado com dois prémios no Festival de Angoulême, depois de O Diário do meu Pai e Terra de Sonhos, regressa à colecção Novela Gráfica com aquele que foi o seu último livro para o mercado francês.

2 – Aqui Mesmo
13 de Junho
Argumento – Jean-Claude Forest 
Desenhos –Tardi
A história surreal e satírica de Arthur Même que mora nos muros e pretende recuperar as terras que lhe foram usurpadas pelos seus primos, é uma metáfora do mecanismo do mundo, das certezas, das dúvidas, das inquietudes e do destino. Aqui Mesmo foi um dos títulos fundadores da revista francesa (À Suivre) em 1978, tendo feito a capa do primeiro número e vencido o prémio de melhor argumento no Festival de Angoulême de 1980.
Jean-Claude Forest, foi o criador de Barbarella, a sua mais conhecida personagem, levada ao cinema por Roger Vadim e interpretada por Jane Fonda. Em 1983 foi galardoado com o Grande Prémio de Angoulême. Quanto a Tardi, depois de Foi Assim a Guerra das Trincheiras em 2015, regressa à colecção Novela Gráfica com este clássico do roman BD elaborado em perfeita cumplicidade com Forest.

3  – O Fantasma de Gaudí
20 de Junho
Argumento – El Torres
Desenhos – Jesús Alonso Iglesias
Antonia, uma empregada de supermercado salva um idoso de ser atropelado e a partir desse momento desencadeia-se uma série de terríveis acontecimentos. Nos monumentos do célebre arquitecto catalão Anton Gaudí aparecem cadáveres mutilados de forma estranha e violenta. A polícia fica perplexa, e Antonia continua a afirmar que viu o fantasma de Gaudí.
A Barcelona de Gaudí serve de pano de fundo para O Fantasma de Gaudí, thriller policial com a dose certa de intriga, terror, paixão e loucura.
Um dos mais prolíficos e prestigiados argumentistas espanhóis da actualidade, considerado como o “Mestre do terror”, El Torres tem obras publicadas em França, Alemanha, Japão e Estados Unidos. O ilustrador Jesús Alonso, licenciado em Belas Artes pela Universidade de Madrid, tem no seu percurso profissional, trabalhos em animação, publicidade e em projectos de BD para editoriais espanholas e francesas.

4 – Calipso
27 de Junho
Argumento e Desenhos – Cosey
Gus e seu amigo Pepe assistem na televisão à retransmissão de Calipso, filme mítico protagonizado pela actriz Georgia Gould. Na realidade, Georgia Gould não é outra senãooutro senão Georgette Schwitzgebel, com quem Gus viveu uma ardente paixão. Mais tarde, no jornal local, Gus descobre que a Geórgia está de volta à SuiçaSuíça, na luxuosa e discreta clínica Edelweiss, especializada no tratamento de adições. Quando a visita, Gus fica convencido de que o amor da sua juventude está completamente dependente do marido, que controla a sua fortuna. É então que ela lhe propõe que ele a rapte para exigir um resgate, que lhes permita regressar a Nova Iorque. Mas as coisas acabam por não correr como previsto…
Cosey, o criador de Jonathan e de Em Busca de Peter Pan, vencedor do Grande prémio Prémio de Angoulême de 2017, regressa à colecção Novela Gráfica com o seu mais recente trabalho, num surpreendente registo de preto e branco de alto contraste.

5 – O Farol e O Jogo Lúgubre
04 de Julho
Argumento e Desenho – Paco Roca
Francisco é um jovem soldado republicano que tenta escapar da guerra civil. Na sua fuga, ele vai chegar a um lugar isolado, apenas com o mar e a companhia do faroleiro, Telmo, que o vai guiar numa jornada iniciática pelos clássicos da aventura. O Farol é uma homenagem de Paco Roca às aventuras de sua infância, uma canção em favor da liberdade e da imaginação.
Em O Jogo Lúgubre, Jonás chega a Cadaqués (Girona) em busca de um lugar tranquilo, mas uma atmosfera de mistério envolve a pequena vila de pescadores. Os seus habitantes estão assustados com o pintor que vive na praia de Port Lligat. Salvador Deseo, o pintor surrealista catalão, que passa pelo seu estágio criativo mais excêntrico e brilhante.
Paco Roca, o premiado autor de O Inverno do Desenhador, A Casa e Os Trilhos do Acaso, regressa à colecção Novela Gráfica com duas das suas primeiras novelas gráficas, em que já era evidente todo o seu talento e sensibilidade.

6 – Uma Irmã
11 de Julho
Argumento e Desenho – Bastien Vivès
Antoine, de 13 anos, está de férias em família numa casa à beira-mar. Desenha, caça o caranguejo com seu irmão mais novo, Titi, saboreando um verão sem história, até aparecer Helen, de 16 anos, que vem passar alguns dias com a mãe dele. Entre os dois adolescentes rapidamente se vai estabelecer um lapso singular, que vai tornar estas férias verdadeiramente inesquecíveis para Antoine, cuja sexualidade vai despertar graças à sensualidade transbordante de Helen.
Bastien Vivès, o jovem prodígio da BD franco-belga, co-criador da popular série Last Man e autor de Polina, regressa à colecção Novela Gráfica com o seu mais recente trabalho, uma polémica história de iniciação amorosa.

7 – Destemidas
18 de Julho
Argumento e Desenhos – Pénélope Bagieu
Clémentine Delait, mulher barbada, Agnodice, ginecologista da Antiguidade, Delia Akeley, exploradora americana, Annette Kellerman, nadadora responsável pela introdução do fato de banho feminino, ou Leymah Gbowee, liberiana, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2014. Estas são algumas das quinze mulheres singulares, cuja biografia Pénélope Bagieu retrata neste livro, que começou em 2016 num blog do jornal francês Le Monde, em que todas as segundas-feiras Pénélope Bagieu colocava online a biografia de uma mulher destemida.
Pénélope Bagieu tem um bacharelato em Artes Decorativas, divide a sua actividade entre a BD, a animação e uma banda rock de que é baterista. Mas foi precisamente a sua actividade na BD, seja nos blogs ou em livro, que lhe valeu o grau de Cavaleiro de Artes e Letras, atribuído pelo Ministério da Cultura francês, em 2013.

8 – Tatuagem
25 de Julho
Argumento – Hernán Migoya (a partir do romance de Manuel Vázquez Montalbán)
Desenho – Bartolomé Seguí
Numa praia de Barcelona aparece o cadáver de um homem novo, com a cara comida pelos peixes e uma tatuagem na omoplata com a frase “Nasci para revolucionar o inferno”. Esse é o ponto de partida da primeira aventura de Pepe Carvalho, o detective galego criado pelo escritor Manuel Vázquez Montalbán, que o vai levar das ramblas de Barcelona aos canais de Amesterdão, para desvendar a identidade do misterioso homem.
Hernán Migoya, um dos mais prestigiados escritores e argumentistas espanhóis, junta-se a Bartolomé Segui Seguí (o desenhador de Histórias do Bairro) para dar vida a um dos mais carismáticos detectives da literatura policial.

09 – Gente de Dublin
01 de Agosto
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Gente de Dublin é um romance gráfico centrado na vida de James Joyce que passa pelos momentos, conversas, dificuldades e aventuras que ajudaram a construir a personalidade e a carreira de uma das grandes figuras do século XX. Fruto de um exaustivo trabalho de documentação, esta história, polvilhada com muitas anedotas, é também uma viagem cativante de comboio através de Dublin, Trieste, Paris e Zurique, as cidades por onde passou o escritor irlandês. Um percurso movimentado, onde Joyce se cruza com personalidades como Henrik Ibsen, WB Yeats, Ezra Pound, HG Wells, Bernard Shaw, TS Eliot, Virginia Woolf, Paul Valéry, Marcel Proust, Ernest Hemingway, Samuel Beckett, Sergei Eisenstein, Henri Matisse, André Gide, Le Corbusier e até Lenine.
Este trabalho valeu ao desenhador e ilustrador asturiano o Prémio Nacional del Comic, a mais elevada distinção espanhola para uma novela gráfica, no ano de 2010.

10 – O Jogador de Xadrez
08 de Agosto
Argumento – David Sala (a partir do romance de Stefan Zweig)
Desenhos – David Sala
Nos tranquilos salões de um paquete em viagem para a Argentina, o campeão do mundo de xadrez defronta numa última partida, a um aristocrata vienense cujo incrível domínio do jogo nasceu do isolamento forçado, durante o domínio nazi. Esta denúncia esmagadora e desesperada da barbárie nazi, foi o l último texto escrito por Stefan Zweig antes de se suicidar, a partir do qual David Sala realizou esta adaptação que a revista L’Express classificou como sumptuosa.
Nascido em Décines, perto de Lyon, em 1973, David Sala não é estranho às adaptações à BD de obras literárias, pois com a colaboração de Jorge Zentner, publicou a serie Nicolás Eymerich, inquisidor, uma adaptação de uma novela de Valerio Evangelisti.

11 – O Último Recreio
15 de Agosto
Argumento – Carlos Trillo 
Desenhos – Horacio Altuna
Num mundo pós-apocalíptico, em que foi detonada uma bomba cujos efeitos devastadores atingem apenas aqueles que atingiram a maturidade sexual, os adultos desapareceram e os únicos sobreviventes são as crianças. Num ambiente sem outras regras para além das que se possam impor pela força e violência, aos sobreviventes resta apenas escolher se querem ser vítimas, ou executores.
Inocência e crueldade em partes iguais num ambiente sem limites, que evoca o Senhor das Moscas, de William Golding.
Carlos Trillo, um dos mais importantes argumentistas argentinos de sempre, que colaborou com os maiores desenhadores do seu país, faz com Horácio Altuna uma equipa de enorme eficácia e cumplicidade, responsável por obras-primas como este O Último Recreio, o trabalho mais prestigiado da dupla.

12 – Novembro
22 de Agosto
Argumento e Desenhos – Sebastià Cabot
Gus é um escritor novato que trabalha em uma antiga loja de discos e tem problemas para estabelecer relacionamentos sérios até conhecer Clara, uma recém-licenciada em artes, que está a tentar assumir o controle de sua vida e parar de dormir no sofá de da sua melhor amiga, Lucia, uma viciada em redes sociais que está constantemente a mudar de namorado.
Na primeira parte do livro, vemos como Gus e Clara se encontram e acabam se apaixonando. A segunda parte da história é passada três anos depois, quando a sua relação se aproxima do fim.
Novembro é uma história que tenta falar sobre separação, solidão e incomunicação na sociedade contemporânea, com um toque retro dado pelas referências ao cinema noir clássico e à música jazz.
Sebastià Cabot, autor de BD e ilustrador, nascido e radicado em Palma de Maiorca, tem nesta colecção a estreia a nível mundial de Novembro.
Publicado originalmente no jornal Público de 06/06/2018

domingo, 17 de abril de 2016

Jonathan de Cosey no Público - Algumas considerações sobre a colecção... e as suas ausências


É já no próximo dia 27 de Abril que o Público e a Asa iniciam mais uma colecção de BD franco-belga, explorando como tem sido habitual nos últimos tempo, o vasto espólio da revista Tintin, publicação que marcou gerações de leitores, actualmente entre os 40 e os 60 anos. 
A série escolhida, Jonathan, de Cosey,era uma das minhas favoritas na revista mas, tal como aconteceu com Bernard Prince, a opção de publicar apenas parte da série, parece-me (mais) uma oportunidade perdida, pois dos 16 livros publicados até agora em França, a Asa apenas escolheu 10 para esta colecção, cuja lista podemos ver já abaixo:
De fora ficam portanto 6 livros, que podiam perfeitamente ser editados se se tivesse optado por álbuns duplos (como se fez com a sérieXIII), com a vantagem adicional de a sobreposição com as colecções da Levoir (a dos Super-Heróis DC, ainda nas bancas e a Série II das Novelas Gráficas, que chega em Junho) ser menor. Perde-se assim a oportunidade de editar integralmente a série em Portugal, o que os coleccionadores certamente agradeciam e, mesmo o critério de selecção dos álbuns excluidos, não me parece o mais lógico em termos da própria série e de como ela reflecte os interesses e as inquietações de Cosey.
Iniciada em 1975, a série Jonathan pode ser facilmente dividida em dois ciclos. Um primeiro ciclo, de onze álbuns, que termina em 1986, com Greyshore Island e um segundo ciclo, que compreende os cinco álbuns restantes, iniciado em 1997, com Celui qui Mène les Fleuves à la Mer, álbum que assinala o regresso de Cosey à série, após mais de 10 dedicado a outros projectos, como a novela gráfica Em Busca de Peter Pan, Viagem a Itália e Orquídea, só para falar de títulos editados em Portugal.      
Não podendo editar a série toda, eu teria optado por publicar todo o primeiro ciclo, pois os álbuns que aqui faltam são importantes, como veremos. 
Le Privilège du Serpent, para além da homenagem de Cosey a Derib  (o criador de Yakari e Buddy Longway, que o ajudou a lançar na BD), que empresta o rosto a Casimir Forel, o protagonista da história, é um dos bons álbuns da série e o primeiro em que se torna evidente o fascínio de Cosey pela cultura americana e pelo cinema americano, patente nas referências ao célebre filme de Nicholas Ray com James Dean, Rebell Without a Cause (Fúria de Viver, em português) que estão no centro da história.
Esse fascínio pela América que marca também a obra de Cosey, a par da cultura oriental, é ainda mais evidente no díptico Oncle Howard est de Retour e Greyshore Island, em que Jonathan troca as montanhas do Tibete, pela América, de Nova Iorque à California. Aqui, para além dos cenários americanos, não faltam referências a icones da cultura Pop, como o Rato Mickey (que Cosey desenhou recentemente) e Michael Jackson, mas o que torna esta história verdadeiramente importante no contexto da série, é o regresso de Kate, o grande amor de Jonathan e uma das mais inesquecíveis personagens femininas da BD franco-belga. 
Mesmo com estas falhas globais na colecção, aconselho vivamente alguns dos álbuns da série, como Kate, que ganhou o Prémio de Melhor BD no Festival de Angoulême, de 1982 e, sobretudo, o magnífico O Espaço Azul entre as Nuvens, mas se gostarem da série e souberem ler francês, o melhor mesmo é comprarem antes a edição integral francesa, recheada de belíssimos extras e que, em termos de relação qualidade/preço, bate aos pontos a coleccção que a Asa se prepara para lançar com o jornal Público.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Colecção Novela Gráfica 8 - Em Busca de Peter Pan, de Cosey


NOS ALPES SUÍÇOS, À PROCURA DE PETER PAN

Novela Gráfica – Vol. 8

Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Por + 9,90€

Na próxima quinta-feira a colecção Novela Gráfica abre as suas portas ao suíço Cosey, um autor bem conhecido dos leitores portugueses em geral e dos leitores do Público em particular, pois esteve presente com trabalhos seus nas colecções Clássicos da Revista Tintin e Os Incontornáveis de Banda Desenhada, distribuídas com este jornal.
Nascido em 1950, perto de Lausanne, na Suíça, Bernard Cosandey, que os leitores conhecem como Cosey, estreou-se na BD no início dos anos 70, pela mão do seu compatriota Derib, o criador de Yakary e Buddy Longway. Justamente conhecido e premiado pelo seu trabalho na série Jonathan, título incontornável da revista Tintin, Cosey, com Em Busca de Peter Pan, abandona pela primeira vez o seu herói e alter-ego e troca temporariamente as montanhas do Tibete onde decorrem as aventuras de Jonathan, pelos Alpes suíços, que se revelam o cenário ideal desta história de grande poesia e sensibilidade.
 Passada em 1930, a narrativa acompanha Melvin Z. Woodworth, um jovem escritor britânico que vem procurar inspiração para o seu terceiro romance na aldeia de Ardolaz, nos Alpes valesianos, onde tinha estado seu meio-irmão, Dragan Z. Zmadjevic, um músico e compositor, que ali faleceu 10 anos antes. Uma viagem ao passado, pontuada por citações do Peter Pan de James M. Barrie, em que a paisagem da montanha, que Cosey retrata como ninguém, se assume como uma personagem de pleno direito.
Obra que lhe permitiu fugir ao limite das 48 páginas do álbum tradicional, Em Busca de Peter Pan, representa um decisivo passo em frente no percurso de Cosey como criador. Como o próprio refere, Em Busca de Peter Pan foi “o meu primeiro one-shot, feito por volta de 1985, para a colecção Histoires et Légendes da Lombard. Na altura, estava profundamente empenhado na série Jonathan, que estava em grande. Os álbuns vendiam-se cada vez mais, mas sentia vontade de sair por algum tempo daquela rotina. Há muito tempo que queria fazer uma história que se passasse nos Alpes valesianos, que conheço muito bem. O meu editor estava um pouco receoso e disse-me: “O Tibete, sim, pode interessar a muita gente. Mas uma história nos Alpes valesianos, só vai interessar a três suíços…” Mas na editora perceberam que eu tinha necessidade dessa mudança, mas não estavam à espera é que o livro vendesse tão bem, ou até melhor, do que o Jonathan. E sobretudo, Em Busca de Peter Pan é um livro que teve, e tem, uma longa vida.”
Publicado inicialmente em dois volumes, Em Busca de Peter Pan juntou o sucesso comercial ao reconhecimento crítico, traduzido   no Prémio do Público na Convention de la Bande Dessinée de Paris, em 1984 e no Grand Prix da cidade de Sierre em 1985. Mais tarde o livro foi publicado num único volume e integrado na colecção Signé, a linha de prestígio da Lombard, E, confirmando essa longa vida que é a marca dos clássicos, Em Busca de Peter Pan chega finalmente a Portugal, dando a conhecer aos leitores nacionais, tanto aos que sonharam ao lado de Jonathan, como os que estão agora a descobrir o trabalho de Cosey pela primeira vez, a obra mais emblemática do autor suíço e a sua primeira novela gráfica.
Publicado originalmente no jornal Público de 10/04/2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada

NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL 
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA

A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.

Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Apresentação da Colecção Novela Gráfica


É já na próxima quinta-feira que estreia a nova colecção de Banda Desenhada da Levoir, distribuída com o jornal Público. Uma colecção que motivou que este blog não tenha sido tão actualizado nos últimos tempos como gostaria, mas que, para mim, é a melhor colecção de BD já publicada com um jornal e o maior acontecimento editorial em Portugal nos últimos anos, na área da Banda Desenhada.
Deixo-vos então com o texto do destacável de apresentação da colecção distribuído ontem com o jornal Público e, no dia em que cada volume chegar às bancas, aqui postarei o texto de apresentação do mesmo escrito para o Público.


NOVELA GRÁFICA: UM FENÓMENO UNIVERSAL

Embora o termo tenha surgido pela primeira vez nos Estados Unidos, a novela gráfica está presente em todos os mercados e esta colecção pretende também transmitir uma ideia da dimensão global que este género de Banda Desenhada atingiu, apresentando alguns dos títulos mais emblemáticos e premiados, originários dos quatro cantos do mundo, começando naturalmente pelos E.U.A, onde a expressão nasceu.


1 – ESTADOS UNIDOS
E a colecção não podia abrir com outro autor, que não Will Eisner. Tido como o pai da novela gráfica, graças a Um Contrato com Deus, o título que abre esta colecção, Eisner nasceu em 1917 e faleceu em 2005. Foi toda uma vida dedicada à BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe) tendo estado ligado ao nascimento da indústria dos comics em 1936, através do estúdio Eisner/Eiger, do mesmo modo que, em 1978 quando regressa à BD com Um Contrato com Deus, alarga mais uma vez os limites da Banda Desenhada, fazendo-a entrar nas livrarias. Desenhador virtuoso, aliou a sua criação artística ao pensamento e análise sobre os comics, sendo autor de livros técnicos incontornáveis como Comics and Sequential Art e professor durante várias décadas na School of Visual Arts, de Nova Iorque.

Outro criador americano incontornável é Robert Crumb, o papa do Underground Comix, aqui representado por O Livro de Mr. Natural, uma recolha de histórias curtas daquele que é, a par com Fritz, the Cat, o seu personagem mais carismático.
Nascido em Filadélfia em 1943, Crumb estreou-se profissionalmente como desenhador em 1962, numa companhia de cartões de boas festas de Cleveland, mas foi no final dos anos 60 que a sua carreira na BD arrancou, graças à revista Zap Comix!, titulo escrito, desenhado e publicado pelo próprio Crumb, que rapidamente se tornou um sucesso junto da comunidade underground. Para além de uma vastíssima produção, dividida entre a Banda Desenhada e a ilustração, Crumb é também um apaixonado pela música, tocando banjo numa banda e tendo ilustrado capas para inúmeros discos de jazz, blues e rock. Crumb está radicado em França desde 1991, país que lhe atribuiu o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1999 e lhe consagrou uma grande exposição no Museu de Arte Moderna, em Paris, em 2012.

2 – PAÍSES FRANCÓFONOS
A Banda Desenhada de língua francesa está representada nesta colecção por um punhado de criadores incontornáveis, começando desde logo pela dupla Moebius/Jodorowsky. Senhores de carreiras impossíveis de resumir neste curto espaço, Jean (Moebius) Giraud e Alejandro Jodorowsky são conhecidos sobretudo pela série de ficção científica de culto, O Incal, mas a sua colaboração, que começou no cinema, vai muito para além disso, como o provam obras incontornáveis como Os Olhos do Gato, ou este A Louca do Sacré Coeur, uma tão divertida como desconcertante paródia às religiões, onde é possível estabelecer paralelos com a biografia dos autores.
Outro nome que dispensa apresentações é o do francê Jacques Tardi. Várias vezes premiado no Festival de Angoulême e vencedor de três Prémios Eisner, o autor nascido em 1946, que os leitores portugueses conhecem graças à série Adèle Blanc-Sec, está representado por Foi Assim a Guerra das Trincheiras, a sua obra mais emblemática, dedicada a um tema fulcral da na sua obra, a I Guerra Mundial.
Também o suíço Cosey é bem conhecido dos leitores portugueses, graças à série Jonathan, um dos títulos mais emblemáticos da revista Tintin e aqui surge representado pela sua primeira história sem herói, Em Busca de Peter Pan, díptico que tem por cenário os Alpes da sua Suíça natal e que aqui surge publicado na versão integral.
E há ainda o francês Edmond Baudoin, de que falaremos mais à frente, uma vez que o livro que o representa nesta colecção foi feito para o mercado japonês.


3 – ITÁLIA
Pátria de grandes nomes da história da BD, como Hugo Pratt, Dino Battaglia, Guido Buzzelli, ou Milo Manara, a Itália está representada nesta colecção pelo mais fabuloso dos seus desenhadores, Sergio Toppi. Senhor de um estilo único, marcado pelo revolucionário tratamento da página enquanto unidade estética, Toppi (1932 – 2012) está representado pela sua obra-prima, Sharaz-De, uma deslumbrante revisitação dos contos das Mil e Uma Noites, a que o seu grafismo único dá uma ainda maior dimensão fantástica.


4 – JAPÃO
Berço da maior indústria de Banda Desenhada a nível mundial, pátria de criadores como Osamu Tezuka e Naoki Urasawa, o Japão está (muito bem) representado por Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses. Nascido em Totori, no Japão, em 1947, Taniguchi, que tem publicado em Portugal, O Homem que Caminha, surge nesta colecção com O Diário do meu Pai, relato intimista, de grande beleza e sensibilidade, que tem precisamente por cenário a aldeia natal do autor.
Um dos primeiros desenhadores europeus a entrar no poderoso mercado japonês, onde este livro foi originalmente publicado, o francês Edmond Baudoin, estreia-se em português nesta colecção com A Viagem. Premiado com o Alph Art para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 1997, AViagem concilia a dimensão onírica e sensual, tão típicas de Baudoin, com uma narrativa assente na componente visual, características dos mangá, a BD japonesa.


5 – PENÍNSULA IBÉRICA
A Península Ibérica surge representada nesta colecção por duas novelas gráficas multi-premiadas, como são o caso de Beterraba, e A Arte de Voar. Assinada por Miguel Rocha, um dos mais virtuosos ilustradores portugueses, responsável pela ilustração do cartaz do Euro 2004, de futebol, Beterraba: A Vida numa Colher, é uma saga alentejana, contada com cores luminosas e vibrantes, feita ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, tendo vencido os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival da Amadora de 2004.
Já a nossa vizinha Espanha está representada por A Arte de Voar, título de António Altarriba e Kim, que arrebatou os principais Prémios de BD espanhóis em 2010, incluindo o prestigiado Premio Nacional del Comic. Escrito pelo escritor, professor e ensaísta Antonio Altarriba e ilustrado por Kim, um dos nomes maiores da emblemática (e controversa) revista El Jueves, A Arte de Voar é um bom exemplo da grande qualidade actual da BD feita por nuestros hermanos.


6 – AMÉRICA DO SUL
E a colecção fecha com dois títulos oriundos da América do Sul, que irão ser distribuídos na mesma semana. São eles Mort Cinder, o ponto mais alto da colaboração entre o urugaio Alberto Breccia e o argentino Hector Oesterheld, que é finalmente publicado na íntegra em português e Bando de Dois, uma história de cangaceiros, narrada pelo brasileiro Danilo Beiruth, no melhor registo dos Western Spaguettis de Sergio Leone.
Hector German Oesterheld (1919-1977) foi o maior argumentista de língua espanhola, autor de séries incontornáveis como El Eternauta, Sgt. Kirk (com Hugo Pratt), ou Ernie Pike, mas foi nas suas colaborações com Alberto Breccia (1919-1993) que a sua escrita mais brilhou, muito por via do virtuosismo e da criatividade visual de Breccia, que tem em Mort Cinder o seu expoente máximo.  
Nascido em São Paulo em 1973, o brasileiro Danilo Beiruth trocou a publicidade pela BD em 2007, mas foi em 2010, com Bando De Dois, título que além do Prémio Angelo Agostini, lhe valeu três troféus HQ Mix, os mais importantes prémios da indústria de BD brasileira, que se tornou um nome incontornável da BD brasileira contemporânea.


DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE NOVELA GRÁFICA


Tradução literal (e incorrecta, pois novel em português, significa romance…) do termo inglês graphic novel, o termo novela gráfica entrou já no vocabulário dos leitores portugueses de Banda Desenhada e associa-se instintivamente a histórias de qualidade e com uma dimensão estética e literária requintada, menos provável de encontrar na produção editorial corrente.
A designação surge pela necessidade sentida por alguns autores americanos, de demarcarem o seu trabalho da carga depreciativa associada ao termo comics, usado de forma indiscriminada para designar a BD nos Estados Unidos. Exactamente por terem consciência que o termo se aplicava apenas a uma pequena parte da produção existente (as histórias cómicas, ou humorísticas, constituem uma parte cada vez mais ínfima da produção americana, onde os super-heróis continuam a ser o género dominante) e ao formato específico dos comic books (revistas com uma dimensão de 17 X 26 cm, com vinte e poucas páginas, normalmente ocupadas por histórias de super-heróis), surgiram outros nomes alternativos. É o caso do termo comix, utilizado para definir a BD alternativa (ou underground) surgida nos campus universitários americanos durante os anos 60 do século XX, e graphic novel, designação que aproxima a BD da literatura. Uma designação aplicada a um tipo de narrativas extensas, com uma dimensão literária e um tipo de preocupações estéticas muito difíceis de encontrar no formato restritivo de um comic book, limitado a narrativas breves, passíveis de serem contadas em pouco mais de vinte páginas.
Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo, que já estava presente no Zeitgest cultural americano do final dos anos 70, tanto na sua forma actual, como em subtis variações, como graphic album, visual novel, ou illustrated novel, Eisner, sem nunca ter reivindicado para si esse estatuto, foi considerado por muitos como o criador da novela gráfica, pelo impacto crítico e comercial que Um Contrato com Deus teve  junto do público americano.
O sucesso de títulos posteriores como Maus de Art Spiegelman e de The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (dois títulos publicados originalmente como mini-séries) ajudou a que o termo graphic novel entrasse na linguagem comum.
Mas, mesmo que ninguém lhes desse ainda esse nome, as novelas gráficas são bem anteriores, podendo mesmo englobar-se nesta categoria L’Histoire de M. Vieux Bois, de Rodolphe Topffer, publicada em 1837, como a primeira novela gráfica. Pelo menos era essa a opinião do seu amigo e primeiro crítico de BD, o filósofo e escritor Goethe, que definiu a obra de Topffer, como “a literatura do futuro”.
Também uma obra como A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, criador que preferia usar o termo literatura desenhada, para classificar o seu trabalho, pode ser considerada uma novela gráfica. O mesmo se pode dizer em relação à esmagadora maioria das histórias publicadas na revista francesa (A Suivre) que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, dava-lhes a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso de Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, publicado originalmente em capítulos na revista (A Suivre) e incluído nesta colecção. No fundo, não é o modo como é originalmente publicado, que define o estatuto de uma obra. Basta pensar em escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro.
Assim, nesta colecção temos títulos concebidos originalmente para o formato novela gráfica, como o é o caso de Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Beterraba, de Miguel Rocha, A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, e Bando de Dois, de Danilo Beiruth, a par com livros publicados originalmente por capítulos em revistas, como A Viagem, de Baudoin, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Livro de Mr. Natural, de Robert Crumb, Sharaz-De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi e Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld e ainda histórias completas que foram originalmente publicadas em mais do que um volume, por razões puramente editoriais, como é o caso de A Louca do Sacré Coeur, de Moebiusw e Jodorowsky.
Ou seja, títulos com origens diversas, mas que têm como grande elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, de grande qualidade estética e literária, que sendo arte sequencial, são também literatura desenhada.


A COLECÇÃO


1 – Um Contrato com Deus
26 de Fevereiro
Argumento e Desenhos – Will Eisner
Considerada por muitos como a obra fundadora do género Novela Gráfica, Um Contrato com Deus recolhe quatro histórias curtas inspiradas nas vivências de Eisner nos bairros pobres da Nova Iorque dos anos 30. Histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos no Bronx, traçando uma imagem cheia de riqueza das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.

2  – A Louca do Sacré Coeur
05 de Março
Argumento – Alejandro Jodorowsky
Desenhos – Moebius
Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mística, farsa sagrada, caminho iniciático, e exorcismo, assinado por dois nomes maiores da BD mundial.

3  – A Viagem
12 de Março
Argumento  e Desenhos – Edmond Baudoin
Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, com a cabeça cheia de imagens abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, com um toque surreal, contada pelo traço sensual de Baudoin, feita originalmente para o mercado japonês e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.


4  – Foi Assim a Guerra das Trincheiras
19 de Março
Argumento  e Desenhos – Jacques Tardi
Retrato realista e cruel da Guerra de 1914-1918, Foi Assim a Guerra das Trincheiras é, de longe, a mais popular e aclamada obra de Tardi, um dos mais respeitados e premiados autores franceses. Homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial, foi evoluindo ao longo dos anos em que foi sendo publicada. De pano de fundo para histórias contadas em banda desenhada, transformou-se lentamente numa denúncia poderosa dos horrores do conflito que aniquilou uma geração inteira.


5  – Beterraba: A Vida numa Colher
26 de Março
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Oligário, um patriarca alentejano luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano. Um livro poderoso, de um dos mais talentosos ilustradores nacionais, que volta a estar disponível, agora em capa dura e com uma nova capa.

6  – A Arte de Voar
02 de Abril
Argumento – António Altarriba
Desenho –  Kim
Nascido em 1910 em Espanha, António Altarriba pai atravessará o século e as suas horas mais negras, para se suicidar em 2001. António Altarriba, filho, irá em busca da história dele, para poder contá-la e talvez conseguir perceber as razões do suicídio deste homem de 91 anos que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais. Mas mais do que uma simples biografia gráfica, A Arte de Voar é um panorama brilhante do século 20 espanhol.


7  –  O Livro de Mr. Natural
09 de Abril
Argumento e Desenho – Robert Crumb
Um verdadeiro clássico do comic underground, assinado pelo mestre Robert Crumb, protagonizado pela sua carismática criação, o guru Mr. Natural, cuja trajectória acompanhamos, desde as aventuras iniciais dos anos 60, até aos anos 90, marcados pelo controverso ciclo da Devil Girl.

8  – Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Sir Melvin Woodworth, um escritor inglês, parte para os Alpes em busca de inspiração para o seu novo romance, e das memórias do seu irmão Dragan, um pianista desaparecido naquelas montanhas anos antes. Mas, no cenário imponente dos Alpes suíços, Melvin vai fazer uma descoberta que vai afectar de forma profunda a sua vida. A primeira novela gráfica de Cosey, o criador de Jonathan.

9  – Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenhos –  Sergio Toppi
Sharaz-De, a Sherazade dos contos das Mil e Uma Noites, surge aqui reinterpretada pelo traço inconfundível do mestre Italiano Sergio Toppi, num conjunto de 11 contos ilustrados num estilo de grande audácia gráfica, marcado por um espectacular sentido de composição, que revoluciona a estrutura habitual da página clássica de banda desenhada. A obra-prima do Mestre Italiano finalmente disponível em Portugal!


10  –  O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio, regressa a Tottori, a sua terra natal, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que leva a evocar a infância e a perceber finalmente o motivo por que o seu pai abandonou a família. Um relato intimista e comovente, com laivos de autobiografia, contado com grande beleza e extrema sensibilidade pelo mais europeu dos desenhadores japoneses, Jiro Taniguchi.

11  –  Mort Cinder
06 de Maio
Argumento – Hector Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia
A vida pacata do antiquário Ezra Wiston vai sofrer uma alteração radical quando conhece Mort Cinder, o vagabundo do tempo, homem de mil e uma vidas e outras tantas mortes. Juntos vivem aventuras em que o ambiente fantástico não esconde uma visão profundamente humana do mundo.
Ponto mais alto da colaboração entre os dois geniais criadores argentinos, Mort Cinder é justamente considerado como uma obra-prima e um livro absolutamente incontornável, que surge primeira vez em Portugal numa edição integral.

12  –  Bando de Dois
07 de Maio
Argumento e Desenhos – Danilo Beyruth
Tinhoso e Caveira de Boi, "os dois últimos sobreviventes de um bando de vinte cangaceiros partem em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, preparados para enfrentar um exército. Cada um com os seus motivos. O brasileiro Danilo Beiruth cria em O Bando de Dois um verdadeiro Western Spaguetti em papel, que conquistou a crítica e os leitores brasileiros aquando da sua publicação, em 2010.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/02/2015