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sexta-feira, 27 de maio de 2016
A caminho de Beja, para o XII Festival Internacional de BD
Se há evento ligado à BD que faço questão de não falhar, é o Festival de BD de Beja, que começa precisamente esta noite e dura até 12 de Junho. Como sempre, o primeiro fim-de-semana é o mais importante, pois é aquele em que estão todos os autores convidados, entre portugueses e estrangeiros. É também a altura dos lançamentos e apresentações de livros e de programas editoriais.
Eu, para além de estar por lá durante o fim-de-semana, a conviver e a aproveitar a gastronomia e os vinhos alentejanos, vou também estar à conversa com dois autores de que gosto particularmente. Edmond Baudoin, no sábado, entre as 17h e as 17h30m, e Eduardo Risso, entre as 21h e as 21h30m. Neste caso, para os resistentes que preferirem ouvir falar de BD a ver a Final da Champions.
O Programa completo do Festival, organizado com a simpatia e eficácia do costume por Paulo Monteiro e a sua equipa, que este ano troca a Casa da Cultura, pelo Teatro Pax Júlia, bem no centro histórico, pode ser consultado aqui. Mas há desde logo destaques que se impõem, como a exposição e o lançamento dos Vampiros de Filipe Melo e Juan Cavia e as presenças de Paco Roca, um dos mais interessantes autores espanhóis da actualidade, que se estreia num Festival português, Eduardo Risso, Edmond Baudoin, Henrique Magalhães e Marcelo D' Salete, entre os autores estrangeiros
Quanto a mim, se o tempo o permitir, conto aqui deixar um punhado de imagens de mais uma edição do mais simpático Festival de BD nacional.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Colecção Novela Gráfica: Duas Entrevistas com Edmond Baudoin, a propósito de A Viagem
No caso deste 3º volume, além do texto para o Público e da entrevista que o acompanha, assinei também o Editorial que abre o livro. Mas, como além deste material ,tinha também uma entrevista com o Baudoin sobre a sua experiência no mercado japonês que permanecia inédita e que cito abundantemente no editorial, optei por apresentar aqui antes essa entrevista de 2000, bem como a mini-entrevista com Baudoin feita por mail este ano, que acompanhou o texto do Público. Caso queiram mesmo ler o texto do Público, também é simples. Basta carregar na imagem, para ampliar a imagem do artigo até um formato legível. Quanto ao Editorial, por uma vez, terão que comprar o livro para o poder ler. Mas comecemos pela entrevista que saiu no Público:
BAUDOIN: “SIGAM OS VOSSOS SONHOS”
Aproveitando a sua estreia em português na próxima semana, com o livro A Viagem, Edmond Baudoin concedeu uma pequena entrevista exclusiva ao Público, centrada no título que chega às bancas na próxima quinta-feira, integrado na colecção Novela Gráfica.
O que é que pensa desta colecção?
Estou muito de feliz por estar incluído nesta colecção, junto com autores tão prestigiados. Gosto muito de Portugal. Já fui convidado por várias vezes para estar presente nos vossos Festivais, mas esta é a primeira vez que um livro meu é traduzido em português. Isso deixa-me muito feliz, pois da próxima vez que vier a Portugal, haverá um livro meu traduzido em português para autografar.
Como é que descreveria A Viagem, para alguém que não conheça o seu trabalho?
Há muito tempo, fiz um livro chamado Le Premier Voyage, que foi editado em França pela Futuropolis, num álbum de 44 páginas. Há uns quinze anos, um editor japonês, Kodansha, convidou-me para fazer um remake desse livro. Foi assim que nasceu A Viagem. Ou seja, é um livro que começou por ser um mangá, tendo sido publicado no Japão antes da França e desenhado no sentido de leitura japonês, que é oposto do ocidental.
É a história de um homem que no mesmo dia, abandona a sua família e o seu emprego, para partir numa viagem sem destino. O editor japonês sentiu uma grande afinidade com esta história, porque, como me contou, no Japão acontece com alguma frequência, por razões que ninguém compreende, que um indivíduo abandone tudo e acabe a viver como um vagabundo, ou como um selvagem, numa das muitas ilhas.
Para mim, esta é uma história um pouco autobiográfica. Aos 30 anos, era contabilista-chefe numa empresa, mas abandonei essa profissão para seguir o meu sonho e viver do desenho. Fui pobre durante muito tempo, mas muito mais feliz. É muito importante seguir os seus sonhos!
Quer deixar alguma mensagem para os seus novos leitores portugueses?
Sim, acabei de o escrever na pergunta anterior. Sigam os vossos sonhos. Mesmo que sejam pobres, terão uma vida muito mais rica… ao mesmo tempo, sinto-me um pouco incomodado ao propor que sejam pobres… Há tanta gente pobre actualmente, que gostaria de ter um emprego, mesmo de ajudante de contabilidade, para poder criar os seus filhos. É sempre difícil seguir os seus sonhos.
(realizada em Angoulême no dia 29/1/2000)
Falemos da sua experiência de trabalho para o Japão. Como é que foi contactado?
Um belo dia recebi muito simplesmente um telefonema da editora Kodansha, em que eles me perguntavam se eu estaria interessado em trabalhar para o mercado japonês. Apenas isto. Isso foi alguns meses depois de os Japoneses terem estado no Salão de Angoulême em 1992, ano em que o Japão era o país convidado, a contactar artistas franceses. Quando me contactaram, já tinham contratado Baru e Joliguth e julgo que foi Baru que lhes deu o meu contacto.
De qualquer modo, eles conheciam bem o meu trabalho e tinham ideias concretas em relação àquilo que queriam que eu fizesse. Pediram-me para fazer um “remake” do álbum Le Voyage, que eu tinha feito para a editora Futuropolis, começando precisamente onde terminava a anterior história. Eles queriam uma continuação dessa história.
Qual foi o seu método de trabalho. Foi viver para o Japão ou continuou a trabalhar em casa, mandando os desenhos para o Japão?
Apenas estive no Japão 15 dias como turista, a convite da editora Kodansha que me tratou principescamente. O trabalho foi todo feito em minha casa, em Nice. Eu desenhava as pranchas da direita para a esquerda, tal como iriam sair na edição japonesa, mandando o texto em folhas separadas e desenhava já as páginas no formato em que iriam ser publicadas na revista Morning, de modo a facilitar-lhes o trabalho. Para a edição francesa da Association foi necessário reverter a ordem dos filmes, juntar as legendas e retrabalhar as imagens, para as adequar ao sentido de leitura ocidental.
Qual era o feed back da Editora japonesa ao seu trabalho? Eles contactavam-no directamente, ou havia alguém que fazia a ligação entre os autores e a editora?
Eu começava por fazer uma sinopse rápida de cada episódio, uma espécie de story board feito de forma simples e rápida (normalmente demorava 2 dias a desenhar as 30 páginas da sinopse) e mandava esses esboços, acompanhados pelo texto a Takako Nasegawa, a representante da editora Kodansha em Paris, que fazia a tradução e mandava tudo para o Japão. Depois o editor japonês dizia o que é que achava, indicando as correcções a fazer, no caso de as haver. Com base nessas sugestões, sempre muito ajustadas, eu desenhava a versão final. As sugestões eram feitas pelo editor que estava encarregue de trabalhar comigo e que apenas tinha mais 2 desenhadores a seu cargo. Era alguém extremamente profissional, que conhecia perfeitamente a minha obra, tendo lido tudo aquilo que eu fiz! E as suas observações eram sempre extremamente pertinentes e tinham a ver com aspectos que pudessem dificultar a apreensão pelo público japonês do meu trabalho.
Para dar um exemplo: eu costumo fazer como José Muñoz, quando desenho uma figura de cabelos negros sobre um fundo negro, não me preocupo em distinguir os cabelos do fundo. No Japão isso é impossível. É preciso traçar uma linha branca que delimite bem os contornos da figura. Outro exemplo, os balões com as falas das personagens devem estar a meia altura do rosto das figuras, de modo a que o leitor japonês perceba quem é que está a falar. Do mesmo modo, enquanto que na BD europeia é perfeitamente possível ter um quadrado com duas pessoas à conversa, em que uma fala, a outra responde e a primeira fala outra vez, no Japão isso é impossível. A 3ª fala teria que vir no quadrado seguinte. O que explica que a história necessite de muito mais páginas para se desenvolver.
Nas minhas histórias, muitas vezes há quadrados em que a imagem diz uma determinada coisa, o texto diz outra e há ainda um bocado de texto em voz off, que simboliza o narrador da história. Isto é, três diferentes níveis de leitura na mesma imagem. No Japão isso é impossível, tal como não é aconselhável utilizar balões de pensamento, ou aqueles pequenos textos a dizer “entretanto”, “enquanto isso”, ou “no dia seguinte”. Em contrapartida, temos um espaço muito maior para desenvolver o jogo corporal das personagens. E, mais do que pelos diálogos, a caracterização das personagens faz-se através desse jogo corporal, dos olhares, dos sorrisos. É uma forma mais visual de contar uma história, mas tão ou mais eficaz do que a nossa!
Foi fácil passar do ritmo de trabalho habitual dos desenhadores europeus para um tipo de produção muito mais exigente como é a japonesa?
Para mim isso nunca foi grande problema, pois sou muito rápido a desenhar. Apenas não queria que o trabalho para o Japão me ocupasse o tempo todo, impedindo-me de fazer outras coisas de características mais pessoais. Por isso, disse-lhes que apenas poderia desenhar 30 páginas por mês e eles não levantaram qualquer problema.
Mas trinta páginas por mês, equivale a uma página por dia, o que é muito, sobretudo se tivermos em conta que a maioria dos autores franceses demora perto de um ano a desenhar um álbum de 48 páginas…
Para mim não era nada de puxado… Eu era perfeitamente capaz de fazer 5 a 6 páginas por dia, sem sequer acelerar muito! Assim, a encomenda de 30 páginas por mês era perfeita, pois eu normalmente desenhava essas 30 páginas em 10 ou 15 dias, e ficava com o resto do mês livre para outros projectos.
Ofereceram-me 1.000 francos por página (cerca de 153 €) o que eu aceitei logo, até porque com uma encomenda de 30 páginas por mês eram mais de 4.500 € mensais garantidos, o que era bem mais do que aquilo que eu estava habituado a ganhar! Como tinha muitas dívidas acumuladas e precisava bastante de dinheiro, no primeiro mês fiz 60 páginas em vez das 30 combinadas. 60 páginas que desenhei em 15 dias, num traço bastante rápido e livre, que tinha medo que não agradasse ao editor japonês.
Pouco depois recebi um telefonema da representante da editora a dizer-me que tinham gostado muito do meu trabalho! Algo que nenhum editor francês tinha tido alguma vez a gentileza de me dizer… Ainda por cima eles acharam que eu estava a ser muito mal pago e que o meu trabalho valia mais, tendo decidido aumentar o meu pagamento para 1.500 francos por página (228,60 €). Eu estava verdadeiramente nas nuvens! Ainda por cima, eles achavam que, por uma questão de honestidade, esse aumento devia ser retroactivo e as 60 páginas que eu já tinha enviado iriam também ser pagas a 1.500 francos cada! E isto apenas pelos direitos de publicação na revista Morning, pois quando Le Voyage foi editado em álbum no Japão, recebi também os respectivos direitos de autor! Podia verdadeiramente ter enriquecido a trabalhar para o Japão.
A verdade é que se isso não aconteceu, foi por culpa minha! Por exemplo, o contrato para a história Le Voyage falava em 200 páginas e eu ao fim de 200 páginas lá acabei a história. Pouco depois recebo um fax da editora a perguntar porque é que eu tinha acabado com a história. Afinal, as 200 páginas referidas no contrato eram o mínimo! Eu podia perfeitamente continuar com a história e fazer 2.000 páginas que eles ficavam todos contentes! Eu tinha lido mal o contrato que vinha em inglês… Se calhar, se tenho continuado com Le Voyage ainda hoje estava a trabalhar para a Kodansha.
Durante quanto tempo é que trabalhou para a editora Kodansha ?
Durante cerca de 4 anos. Mas acabei por não desenhar uma grande quantidade de páginas, sobretudo quando comparado com aquilo que podia ter feito. Le Voyage tem 220 páginas, Salade Nicoise tem 360 páginas… embora nem todas as histórias tenham sido incluídas na edição francesa, pois retirei 2 episódios que considero mais fracos. Ao todo fiz cerca de 600 páginas em 4 anos, de 1993, 94 a 1998, mas podia ter feito bem mais! De qualquer modo, foi uma óptima experiência que me permitiu ser rico durante 4 anos e fazer coisas à borla para outras editoras como L’Association, sempre que me pediam.
Mas, para além da parte económica foi uma bela experiência. Uma experiência muito agradável que me permitiu aprender muita coisa e evoluir dentro do meu próprio trabalho. Mas foi suficiente para mim. Não me importo que tenha acabado, até porque, por mim, dificilmente teria coragem de tomar a iniciativa de virar as costas a um trabalho tão bem pago. Daí que não tenha ficado triste quando a editora Kodansha decidiu parar.
Eles terminaram os contratos com todos os autores franceses? Na sua opinião, o que é se passou que os levou a tomar essa decisão.
Praticamente todos…Acho que Alex Varene ainda continua a trabalhar para eles. Mas actualmente deve ser o único. Pode ter a ver com uma mudança editorial, mas essa mudança editorial traduz já um questionamento sobre o sucesso da política de contratar autores europeus. Mas a principal razão deve ter tido a ver com a crise económica japonesa, que é real. E nestes casos, os editores japoneses reagem da mesma maneira que os editores franceses, belgas, espanhóis, ou americanos. Quando as coisas correm mal, continua-se apenas com as séries de sucesso garantido, o que não era o caso dos autores europeus, que nunca foram grandes sucessos de vendas. A nossa contratação foi uma experiência para tentar perceber como funcionava a BD europeia e aprender com ela, em que a parte comercial nunca foi importante. Por isso, quando as vendas das revistas começaram a baixar, não puderam continuar com a experiência.
A minha ideia, partilhada por autores como François Schuiten e Miguelanxo Prado, é que os Japoneses contrataram os autores europeus mais para funcionarem como professores dos desenhadores japoneses, do que por razões comerciais. Era uma forma de renovar a linguagem da BD japonesa, muito marcada pelo trabalho de Osamu Tezuka e pela forma reverencial e perfeitamente assumida como os novos autores copiam o trabalho dos Mestres.
Também partilho dessa ideia! Mas, para ser ainda mais claro, os japoneses que trabalham com as imagens, não apenas os desenhadores, pensam que a América descobriu o Graal com as sit-coms e o cinema de Hollywood. E sabem que não podem bater a América nesse campo, mas estão em condições de lhe ganhar no desenho animado. O objectivo é ser o primeiro do mundo a nível dos desenhos animados, pois amanhã, aquele que tiver a força da imagem a nível mundial, terá a força económica. Isto foi-me dito por um japonês e é verdade!
Claro que os computadores e outras coisas são importantes, mas a potência da imagem é fundamental, é algo que vende. Eles querem ganhar essa batalha, mas têm consciência de que, para ganhar, é preciso ultrapassar aquilo que fazem actualmente. É preciso ler, devorar, compreender as outras formas de imagem para poder ir mais longe, sempre mais longe. Uma sociedade que avança sempre na horizontal acaba por se afundar, é preciso subir continuamente para ganhar. E para os japoneses a vitória é o único objectivo. Daí fazer trabalhar os autores europeus para que os desenhadores japoneses vejam aquilo que os europeus fazem e possam aprender e evoluir com eles. Mas o objectivo final não é a BD, os manga, mas sim a animação, algo que no Japão está intimamente ligado, pois a maioria das séries de manga de sucesso dá inevitavelmente origem a desenhos animados e a jogos de computador.
É preciso que o desenho animado japonês conquiste o mundo, e para atingirem esse objectivo, os japoneses estão abertos ao exterior e dispostos a aprender com os outros. Já os americanos pensam que podem ganhar sozinhos, enquanto que os japoneses estão dispostos a ver o que os outros fazem, para aproveitarem o que lhes parece o melhor dos outros. É muito simples. No fundo, estamos perante uma guerra mundial. Uma guerra cultural e económica, mas ainda assim uma guerra mundial!
Teve reacções dos autores japoneses ao seu trabalho?
Agora nem tanto. Mas, quando estava a trabalhar para o Japão era muito frequente receber cartas e livros de desenhadores japoneses que se gabavam de copiar o meu trabalho. Mas eu olhava para o trabalho deles e não conseguia perceber onde me tinham copiado. Para mim, pareciam-me mangas iguais aos outros. É curioso, porque é um tipo de mentalidade exactamente oposta à maioria dos autores franceses, que quando questionados, negam as suas influências, mesmo quando são perfeitamente óbvias. Chegam a afirmar que não conhecem um determinado autor quando é mais do que evidente que são influenciados por ele!
No Japão é completamente diferente. O indivíduo não existe, o que conta é o colectivo! O objectivo é ganhar em em conjunto, os japoneses não têm uma visão individualista do mundo. E é estranho, pois foram chamar para trabalhar com eles os artistas de estilo mais pessoal e individualizado, tal como acontece com o cinema. Eles adoram o cinema europeu, cineastas como Godard e Almodovar, artistas com obras extremamente pessoais que só falam deles próprios nos seus filmes. Da sua vida, dos seus problemas com a imagem, com as mulheres… E os japoneses adoram isso, apesar de ser o tipo de preocupações que não lhes devia interessar. O japonês nunca fala da sua mulher, ou dos seus problemas pessoais, é sempre o colectivo que está em jogo. No entanto, eles adoram cineastas como Pedro Almodovar… É algo complicado, que não é fácil de explicar, até porque autores como Taniguchi e grandes cineastas como Kurosawa ou Kitano, têm um tipo de reflexões que estão muito próximas do pensamento europeu. É um problema muito complexo… E quando eles se viram para a nossa cultura, não é apenas para copiar. Eles gostam verdadeiramente, fundamentalmente e com honestidade, da nossa maneira de pensar.
Quando eu estive no Japão apercebi-me um pouco dessa realidade e vi que não se podia reduzir tudo a uma mera questão comercial e de poder. Mesmo as editoras japonesas são estruturas imensas, autênticos hangares, mas que conservam um lado artesanal, apesar de estarmos no país dos computadores. Há muita coisa que é feita à mão, em folhas de papel, mais até do que na BD europeia e americana, em que o computador é cada vez mais utilizado. É algo estranho mas agradável, com uma estrutura muito organizada, mas em que existe uma grande camaradagem, como se se tratasse de um grande grupo de amigos. Há uma estranha mistura de uma estrutura asfixiante e inumana mas em que há lugar para uma imensa humanidade. Por exemplo, nos enormes escritórios da editora Kodansha vê-se imensa gente a trabalhar, mas o patrão não tem um escritório maior do que os empregados. Se há um funcionário ou outro, que por ter trabalhado demasiado, adormeceu sobre a secretária, ninguém o incomoda e os colegas deixam-no dormir as horas que ele quiser. Algo que para nós é incrível, pois na Europa, numa situação semelhante o patrão vinha logo ter com o funcionário repreendê-lo. No Japão não, deixam-no dormir sossegado, o que para nós é estranho… E o editor, que está no escritório a fazer o seu trabalho, pode passar dias em casa do desenhador, ajudando-o, dando-lhe apoio a todos os níveis, desde ir às compras até cozinhar para eles.
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quarta-feira, 4 de março de 2015
Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada
NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA
A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.
Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA
A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.
Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015
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domingo, 1 de março de 2015
Revoir Paris 2 - No Atelier de Baudoin e Herman em Versailles
No que à Banda Desenhada diz respeito, esta estadia em Paris a seguir ao Festival de Angoulême, não se ficou pelas exposições de Schuiten e Peeters e Miyazaki, ou pela visita às Livrarias. do Quartier Latin. Um dos momentos mais importantes, de que não pude falar na altura em que fiz o primeiro post, por ainda não ser pública a colecção Novela Gráfica, que a Levoir está a editar com o jornal Público, foi a vista ao apartamento/atelier de Baudoin em Paris. Baudoin, um dos autores presentes na colecção Novela Gráfica, com o livro A Viagem, que traduzi durante a viagem e de que assinei o prefácio que poderão ler dentro de duas semanas, é um velho conhecido e uma pessoa extremamente simpática.
Conhecemo-nos em 2000 em Angoulême e, depois disso, cruzámo-nos algumas vezes tanto em Angoulême, como em Portugal, nos Festivais de Lisboa e da Amadora, onde ele esteve ainda em 2014, quando falámos pela primeira vez da edição de A Viagem em Portugal.
Daí que tenha aproveitado a oportunidade para lhe fazer uma visita em Paris e conversar sobre A Viagem e sobre os seus projectos actuais. Para além de me ter oferecido uma prancha original de Le Voyage, que podemos ver a assinar na foto aqui ao lado, Baudoin mostrou-me também algumas páginas do seu próximo trabalho, um livro desenhado a duas mãos com Craig Thompson, o autor de Blankets e de Habibi. Um projecto que não deverá sair antes de 2016 e que reúne dois mestres do desenho e que é ainda mais curioso, pois nem Baudoin fala inglês, nem Thompson fala francês, pelo que a comunicação entre eles foi feita através do desenho.
No final deste post podem ver duas pranchas deste magnífico projecto, que promete! Peço desculpa pela qualidade das imagens, fotografadas com o meu telemóvel, mas achei que mesmo assim, era importante mostrá-las!
Na viagem de regresso de Paris, ficámos um dia em Versailles, destino turístico por excelência, graças ao seu magnífico Palácio e Jardins, mas que neste caso tinha para nós um motivo de interesse acrescido, graças à exposição que a Câmara de Versailles dedicou ao desenhador belga Herman Huppen, nome bem conhecido dos leitores portugueses, graças a séries como Bernard Prince, Comanche, ou As Torres de Bois-Maury. Um mostra bastante sóbria, mas com muitos originais e algumas coisas menos conhecidas, como as ilustrações que Hermann fez para o filme Piratas de Roman Polansky, que mais tarde serviram de inspiração ao seu filho e argumentista, Yves H. para o argumento de O Diabo dos Sete Mares. Uma bela iniciativa da Câmara de Versailles que, descobri na altura, tem como tradição anual promover uma exposição dedicada a um autor de Banda Desenhada, logo a seguir ao Festival de Angoulême, em inícios de Fevereiro. Assim, antes de Hermann passaram pela Câmara de Versailles, autores como William Vance, André Juillard, Patrice Pellerin, Philippe Francq e Rosinsky. Ou seja, há que estar atento à programação da Câmara de Versailles, pois pode valer a pena fazer um desvio até Versailles, para quem se deslocar a França para o Festival de Angoulême, até porque não faltam pontos de interesse turístico pelo caminho.
Storyboard de Herman para o filme de Polansky
Cartaz da exposição de Hermann nas escadarias da Câmara de VersaillesPormenor da exposição
Baudoin no seu apartamento/atellier
Prancha desenhada por Craig Thompson para o livro conjunto com Baudoin
Página feita a duas mãos por Craig Thompson e Baudoin
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domingo, 22 de fevereiro de 2015
Apresentação da Colecção Novela Gráfica
É já na próxima quinta-feira que estreia a nova colecção de Banda Desenhada da Levoir, distribuída com o jornal Público. Uma colecção que motivou que este blog não tenha sido tão actualizado nos últimos tempos como gostaria, mas que, para mim, é a melhor colecção de BD já publicada com um jornal e o maior acontecimento editorial em Portugal nos últimos anos, na área da Banda Desenhada.
Deixo-vos então com o texto do destacável de apresentação da colecção distribuído ontem com o jornal Público e, no dia em que cada volume chegar às bancas, aqui postarei o texto de apresentação do mesmo escrito para o Público.
NOVELA GRÁFICA: UM FENÓMENO UNIVERSAL
Embora o termo tenha surgido pela primeira vez nos Estados Unidos, a novela gráfica está presente em todos os mercados e esta colecção pretende também transmitir uma ideia da dimensão global que este género de Banda Desenhada atingiu, apresentando alguns dos títulos mais emblemáticos e premiados, originários dos quatro cantos do mundo, começando naturalmente pelos E.U.A, onde a expressão nasceu.
1 – ESTADOS UNIDOS
E a colecção não podia abrir com outro autor, que não Will Eisner. Tido como o pai da novela gráfica, graças a Um Contrato com Deus, o título que abre esta colecção, Eisner nasceu em 1917 e faleceu em 2005. Foi toda uma vida dedicada à BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe) tendo estado ligado ao nascimento da indústria dos comics em 1936, através do estúdio Eisner/Eiger, do mesmo modo que, em 1978 quando regressa à BD com Um Contrato com Deus, alarga mais uma vez os limites da Banda Desenhada, fazendo-a entrar nas livrarias. Desenhador virtuoso, aliou a sua criação artística ao pensamento e análise sobre os comics, sendo autor de livros técnicos incontornáveis como Comics and Sequential Art e professor durante várias décadas na School of Visual Arts, de Nova Iorque.
Outro criador americano incontornável é Robert Crumb, o papa do Underground Comix, aqui representado por O Livro de Mr. Natural, uma recolha de histórias curtas daquele que é, a par com Fritz, the Cat, o seu personagem mais carismático.
Nascido em Filadélfia em 1943, Crumb estreou-se profissionalmente como desenhador em 1962, numa companhia de cartões de boas festas de Cleveland, mas foi no final dos anos 60 que a sua carreira na BD arrancou, graças à revista Zap Comix!, titulo escrito, desenhado e publicado pelo próprio Crumb, que rapidamente se tornou um sucesso junto da comunidade underground. Para além de uma vastíssima produção, dividida entre a Banda Desenhada e a ilustração, Crumb é também um apaixonado pela música, tocando banjo numa banda e tendo ilustrado capas para inúmeros discos de jazz, blues e rock. Crumb está radicado em França desde 1991, país que lhe atribuiu o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1999 e lhe consagrou uma grande exposição no Museu de Arte Moderna, em Paris, em 2012.
2 – PAÍSES FRANCÓFONOS
A Banda Desenhada de língua francesa está representada nesta colecção por um punhado de criadores incontornáveis, começando desde logo pela dupla Moebius/Jodorowsky. Senhores de carreiras impossíveis de resumir neste curto espaço, Jean (Moebius) Giraud e Alejandro Jodorowsky são conhecidos sobretudo pela série de ficção científica de culto, O Incal, mas a sua colaboração, que começou no cinema, vai muito para além disso, como o provam obras incontornáveis como Os Olhos do Gato, ou este A Louca do Sacré Coeur, uma tão divertida como desconcertante paródia às religiões, onde é possível estabelecer paralelos com a biografia dos autores.
Outro nome que dispensa apresentações é o do francê Jacques Tardi. Várias vezes premiado no Festival de Angoulême e vencedor de três Prémios Eisner, o autor nascido em 1946, que os leitores portugueses conhecem graças à série Adèle Blanc-Sec, está representado por Foi Assim a Guerra das Trincheiras, a sua obra mais emblemática, dedicada a um tema fulcral da na sua obra, a I Guerra Mundial.
Também o suíço Cosey é bem conhecido dos leitores portugueses, graças à série Jonathan, um dos títulos mais emblemáticos da revista Tintin e aqui surge representado pela sua primeira história sem herói, Em Busca de Peter Pan, díptico que tem por cenário os Alpes da sua Suíça natal e que aqui surge publicado na versão integral.
E há ainda o francês Edmond Baudoin, de que falaremos mais à frente, uma vez que o livro que o representa nesta colecção foi feito para o mercado japonês.
3 – ITÁLIA
Pátria de grandes nomes da história da BD, como Hugo Pratt, Dino Battaglia, Guido Buzzelli, ou Milo Manara, a Itália está representada nesta colecção pelo mais fabuloso dos seus desenhadores, Sergio Toppi. Senhor de um estilo único, marcado pelo revolucionário tratamento da página enquanto unidade estética, Toppi (1932 – 2012) está representado pela sua obra-prima, Sharaz-De, uma deslumbrante revisitação dos contos das Mil e Uma Noites, a que o seu grafismo único dá uma ainda maior dimensão fantástica.
4 – JAPÃO
Berço da maior indústria de Banda Desenhada a nível mundial, pátria de criadores como Osamu Tezuka e Naoki Urasawa, o Japão está (muito bem) representado por Jiro Taniguchi, o mais europeu dos desenhadores japoneses. Nascido em Totori, no Japão, em 1947, Taniguchi, que tem publicado em Portugal, O Homem que Caminha, surge nesta colecção com O Diário do meu Pai, relato intimista, de grande beleza e sensibilidade, que tem precisamente por cenário a aldeia natal do autor.
Um dos primeiros desenhadores europeus a entrar no poderoso mercado japonês, onde este livro foi originalmente publicado, o francês Edmond Baudoin, estreia-se em português nesta colecção com A Viagem. Premiado com o Alph Art para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 1997, AViagem concilia a dimensão onírica e sensual, tão típicas de Baudoin, com uma narrativa assente na componente visual, características dos mangá, a BD japonesa.
5 – PENÍNSULA IBÉRICA
A Península Ibérica surge representada nesta colecção por duas novelas gráficas multi-premiadas, como são o caso de Beterraba, e A Arte de Voar. Assinada por Miguel Rocha, um dos mais virtuosos ilustradores portugueses, responsável pela ilustração do cartaz do Euro 2004, de futebol, Beterraba: A Vida numa Colher, é uma saga alentejana, contada com cores luminosas e vibrantes, feita ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, tendo vencido os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival da Amadora de 2004.
Já a nossa vizinha Espanha está representada por A Arte de Voar, título de António Altarriba e Kim, que arrebatou os principais Prémios de BD espanhóis em 2010, incluindo o prestigiado Premio Nacional del Comic. Escrito pelo escritor, professor e ensaísta Antonio Altarriba e ilustrado por Kim, um dos nomes maiores da emblemática (e controversa) revista El Jueves, A Arte de Voar é um bom exemplo da grande qualidade actual da BD feita por nuestros hermanos.
6 – AMÉRICA DO SUL
E a colecção fecha com dois títulos oriundos da América do Sul, que irão ser distribuídos na mesma semana. São eles Mort Cinder, o ponto mais alto da colaboração entre o urugaio Alberto Breccia e o argentino Hector Oesterheld, que é finalmente publicado na íntegra em português e Bando de Dois, uma história de cangaceiros, narrada pelo brasileiro Danilo Beiruth, no melhor registo dos Western Spaguettis de Sergio Leone.
Hector German Oesterheld (1919-1977) foi o maior argumentista de língua espanhola, autor de séries incontornáveis como El Eternauta, Sgt. Kirk (com Hugo Pratt), ou Ernie Pike, mas foi nas suas colaborações com Alberto Breccia (1919-1993) que a sua escrita mais brilhou, muito por via do virtuosismo e da criatividade visual de Breccia, que tem em Mort Cinder o seu expoente máximo.
Nascido em São Paulo em 1973, o brasileiro Danilo Beiruth trocou a publicidade pela BD em 2007, mas foi em 2010, com Bando De Dois, título que além do Prémio Angelo Agostini, lhe valeu três troféus HQ Mix, os mais importantes prémios da indústria de BD brasileira, que se tornou um nome incontornável da BD brasileira contemporânea.
DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE NOVELA GRÁFICA
Tradução literal (e incorrecta, pois novel em português, significa romance…) do termo inglês graphic novel, o termo novela gráfica entrou já no vocabulário dos leitores portugueses de Banda Desenhada e associa-se instintivamente a histórias de qualidade e com uma dimensão estética e literária requintada, menos provável de encontrar na produção editorial corrente.
A designação surge pela necessidade sentida por alguns autores americanos, de demarcarem o seu trabalho da carga depreciativa associada ao termo comics, usado de forma indiscriminada para designar a BD nos Estados Unidos. Exactamente por terem consciência que o termo se aplicava apenas a uma pequena parte da produção existente (as histórias cómicas, ou humorísticas, constituem uma parte cada vez mais ínfima da produção americana, onde os super-heróis continuam a ser o género dominante) e ao formato específico dos comic books (revistas com uma dimensão de 17 X 26 cm, com vinte e poucas páginas, normalmente ocupadas por histórias de super-heróis), surgiram outros nomes alternativos. É o caso do termo comix, utilizado para definir a BD alternativa (ou underground) surgida nos campus universitários americanos durante os anos 60 do século XX, e graphic novel, designação que aproxima a BD da literatura. Uma designação aplicada a um tipo de narrativas extensas, com uma dimensão literária e um tipo de preocupações estéticas muito difíceis de encontrar no formato restritivo de um comic book, limitado a narrativas breves, passíveis de serem contadas em pouco mais de vinte páginas.
Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo, que já estava presente no Zeitgest cultural americano do final dos anos 70, tanto na sua forma actual, como em subtis variações, como graphic album, visual novel, ou illustrated novel, Eisner, sem nunca ter reivindicado para si esse estatuto, foi considerado por muitos como o criador da novela gráfica, pelo impacto crítico e comercial que Um Contrato com Deus teve junto do público americano.
O sucesso de títulos posteriores como Maus de Art Spiegelman e de The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (dois títulos publicados originalmente como mini-séries) ajudou a que o termo graphic novel entrasse na linguagem comum.
Mas, mesmo que ninguém lhes desse ainda esse nome, as novelas gráficas são bem anteriores, podendo mesmo englobar-se nesta categoria L’Histoire de M. Vieux Bois, de Rodolphe Topffer, publicada em 1837, como a primeira novela gráfica. Pelo menos era essa a opinião do seu amigo e primeiro crítico de BD, o filósofo e escritor Goethe, que definiu a obra de Topffer, como “a literatura do futuro”.
Também uma obra como A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, criador que preferia usar o termo literatura desenhada, para classificar o seu trabalho, pode ser considerada uma novela gráfica. O mesmo se pode dizer em relação à esmagadora maioria das histórias publicadas na revista francesa (A Suivre) que, ao não impor limites de páginas aos trabalhos dos seus autores, dava-lhes a possibilidade de criar “os grandes romances da Banda Desenhada”, como é o caso de Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, publicado originalmente em capítulos na revista (A Suivre) e incluído nesta colecção. No fundo, não é o modo como é originalmente publicado, que define o estatuto de uma obra. Basta pensar em escritores como Charles Dickens, Alexandre Dumas, ou o “nosso” Camilo Castelo Branco, cuja obra saiu primeiro em capítulos nos jornais, antes de ser recolhida em livro.
Assim, nesta colecção temos títulos concebidos originalmente para o formato novela gráfica, como o é o caso de Um Contrato com Deus, de Will Eisner, Beterraba, de Miguel Rocha, A Arte de Voar, de Altarriba e Kim, e Bando de Dois, de Danilo Beiruth, a par com livros publicados originalmente por capítulos em revistas, como A Viagem, de Baudoin, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Livro de Mr. Natural, de Robert Crumb, Sharaz-De, de Toppi, Em Busca de Peter Pan, de Cosey, O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi e Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld e ainda histórias completas que foram originalmente publicadas em mais do que um volume, por razões puramente editoriais, como é o caso de A Louca do Sacré Coeur, de Moebiusw e Jodorowsky.
Ou seja, títulos com origens diversas, mas que têm como grande elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, de grande qualidade estética e literária, que sendo arte sequencial, são também literatura desenhada.
A COLECÇÃO
1 – Um Contrato com Deus
26 de Fevereiro
Argumento e Desenhos – Will Eisner
Considerada por muitos como a obra fundadora do género Novela Gráfica, Um Contrato com Deus recolhe quatro histórias curtas inspiradas nas vivências de Eisner nos bairros pobres da Nova Iorque dos anos 30. Histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos no Bronx, traçando uma imagem cheia de riqueza das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.
2 – A Louca do Sacré Coeur
05 de Março
Argumento – Alejandro Jodorowsky
Desenhos – Moebius
Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mística, farsa sagrada, caminho iniciático, e exorcismo, assinado por dois nomes maiores da BD mundial.
3 – A Viagem
12 de Março
Argumento e Desenhos – Edmond Baudoin
Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, com a cabeça cheia de imagens abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, com um toque surreal, contada pelo traço sensual de Baudoin, feita originalmente para o mercado japonês e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.
4 – Foi Assim a Guerra das Trincheiras
19 de Março
Argumento e Desenhos – Jacques Tardi
Retrato realista e cruel da Guerra de 1914-1918, Foi Assim a Guerra das Trincheiras é, de longe, a mais popular e aclamada obra de Tardi, um dos mais respeitados e premiados autores franceses. Homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial, foi evoluindo ao longo dos anos em que foi sendo publicada. De pano de fundo para histórias contadas em banda desenhada, transformou-se lentamente numa denúncia poderosa dos horrores do conflito que aniquilou uma geração inteira.
5 – Beterraba: A Vida numa Colher
26 de Março
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Oligário, um patriarca alentejano luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano. Um livro poderoso, de um dos mais talentosos ilustradores nacionais, que volta a estar disponível, agora em capa dura e com uma nova capa.
6 – A Arte de Voar
02 de Abril
Argumento – António Altarriba
Desenho – Kim
Nascido em 1910 em Espanha, António Altarriba pai atravessará o século e as suas horas mais negras, para se suicidar em 2001. António Altarriba, filho, irá em busca da história dele, para poder contá-la e talvez conseguir perceber as razões do suicídio deste homem de 91 anos que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais. Mas mais do que uma simples biografia gráfica, A Arte de Voar é um panorama brilhante do século 20 espanhol.
7 – O Livro de Mr. Natural
09 de Abril
Argumento e Desenho – Robert Crumb
Um verdadeiro clássico do comic underground, assinado pelo mestre Robert Crumb, protagonizado pela sua carismática criação, o guru Mr. Natural, cuja trajectória acompanhamos, desde as aventuras iniciais dos anos 60, até aos anos 90, marcados pelo controverso ciclo da Devil Girl.
8 – Em Busca de Peter Pan
16 de Abril
Argumento e Desenho – Cosey
Sir Melvin Woodworth, um escritor inglês, parte para os Alpes em busca de inspiração para o seu novo romance, e das memórias do seu irmão Dragan, um pianista desaparecido naquelas montanhas anos antes. Mas, no cenário imponente dos Alpes suíços, Melvin vai fazer uma descoberta que vai afectar de forma profunda a sua vida. A primeira novela gráfica de Cosey, o criador de Jonathan.
9 – Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenhos – Sergio Toppi
Sharaz-De, a Sherazade dos contos das Mil e Uma Noites, surge aqui reinterpretada pelo traço inconfundível do mestre Italiano Sergio Toppi, num conjunto de 11 contos ilustrados num estilo de grande audácia gráfica, marcado por um espectacular sentido de composição, que revoluciona a estrutura habitual da página clássica de banda desenhada. A obra-prima do Mestre Italiano finalmente disponível em Portugal!
10 – O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenhos – Jiro Taniguchi
Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio, regressa a Tottori, a sua terra natal, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que leva a evocar a infância e a perceber finalmente o motivo por que o seu pai abandonou a família. Um relato intimista e comovente, com laivos de autobiografia, contado com grande beleza e extrema sensibilidade pelo mais europeu dos desenhadores japoneses, Jiro Taniguchi.
11 – Mort Cinder
06 de Maio
Argumento – Hector Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia
A vida pacata do antiquário Ezra Wiston vai sofrer uma alteração radical quando conhece Mort Cinder, o vagabundo do tempo, homem de mil e uma vidas e outras tantas mortes. Juntos vivem aventuras em que o ambiente fantástico não esconde uma visão profundamente humana do mundo.
Ponto mais alto da colaboração entre os dois geniais criadores argentinos, Mort Cinder é justamente considerado como uma obra-prima e um livro absolutamente incontornável, que surge primeira vez em Portugal numa edição integral.
12 – Bando de Dois
07 de Maio
Argumento e Desenhos – Danilo Beyruth
Tinhoso e Caveira de Boi, "os dois últimos sobreviventes de um bando de vinte cangaceiros partem em busca das cabeças decepadas de seus companheiros, preparados para enfrentar um exército. Cada um com os seus motivos. O brasileiro Danilo Beiruth cria em O Bando de Dois um verdadeiro Western Spaguetti em papel, que conquistou a crítica e os leitores brasileiros aquando da sua publicação, em 2010.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/02/2015
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Je Suis Charlie
É a notícia do dia, o ataque à sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, esta manhã em Paris, que provocou 12 mortos, entre os quais Charb, o director do jornal e os cartoonistas Cabu, Tignoux e Wolinski, decano da caricatura francesa e Grande Prémio de Angoulême em 2005. As paródias que o jornal e os seus cartoonistas faziam com todas as religiões valeram-lhes vários processos e um atentado à bomba em 2011, como represália de terem publicado em França as caricaturas de Maomé. Mas hoje os extremistas religiosos foram ainda mais longe e dois ou três homens armados entraram no jornal e abateram a sangue frio 10 jornalistas e cartoonistas e dois polícias, tendo provocado mais de uma dezena de feridos.
Não vai ser fácil ao Charlie Hebdo, privado do seu director e dos seus principais ilustradores, sobreviver a este duro golpe, mas é importante que o faça em nome da liberdade de expressão e para mostrar ao mundo que o terror desta vez não venceu. E a verdade é que neste momento, todos somos Charlie Hebdo, como o demonstram este punhado de cartoons feitos por autores de Banda Desenhada, que escolhi entre as várias dezenas que circulam na Net, demonstrando a solidariedade da classe artística para com estes mártires da liberdade de expressão.
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Joann Sfar
Falcato
Benjamin Lacombe
Não vai ser fácil ao Charlie Hebdo, privado do seu director e dos seus principais ilustradores, sobreviver a este duro golpe, mas é importante que o faça em nome da liberdade de expressão e para mostrar ao mundo que o terror desta vez não venceu. E a verdade é que neste momento, todos somos Charlie Hebdo, como o demonstram este punhado de cartoons feitos por autores de Banda Desenhada, que escolhi entre as várias dezenas que circulam na Net, demonstrando a solidariedade da classe artística para com estes mártires da liberdade de expressão.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Caçador de Autógrafos II: Edmond Baudoin
Enquanto não escrevo sobre o Festival da Amadora (estou a preparar um post de balanço, a publicar durante a próxima semana) aproveito a presença de Baudoin na Amadora durante o fim de semana passada, para ressuscitar uma rubrica deste blog, que tem estado algo esquecida: Caçadores de Autógrafos. Neste caso, com os diferentes desenhos que Baudoin me fez ao longo do tempo, desde o Festival de Angoulême, em 1998 e 2000, até ao Festival da Amadora deste ano, passando pelo Salão Lisboa de 2001. E uma primeira constatação é óbvia. Baudoin aplicou-se muito mais nos desenhos feitos em portugal, do que nos do Festival de Angoulême, onde a pressão do público é muito maior. Mas, como uma palavra vale mais do que mil imagens, aqui ficam os belíssimos desenhos de Baudoin, um autor tão simpático como virtuoso.
Angoulême, 1998
Angoulême, 2000
Lisboa, 2001
Amadora, 2012
Amadora, 2012
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