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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie

É a notícia do dia, o ataque à sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, esta manhã em Paris, que provocou 12 mortos, entre os quais Charb, o director do jornal e os cartoonistas Cabu, Tignoux e Wolinski, decano da caricatura francesa e Grande Prémio de Angoulême em 2005. As paródias que o jornal e os seus cartoonistas faziam com todas as religiões valeram-lhes vários processos e um atentado à bomba em 2011, como represália de terem publicado em França as caricaturas de Maomé. Mas hoje os extremistas religiosos foram ainda mais longe e dois ou três homens armados entraram no jornal e abateram a sangue frio 10 jornalistas e cartoonistas e dois polícias, tendo provocado mais de uma dezena de feridos.
Não vai ser fácil ao Charlie Hebdo, privado do seu director e dos seus principais ilustradores, sobreviver a este duro golpe, mas é importante que o faça em nome da liberdade de expressão e para mostrar ao mundo que o terror desta vez não venceu. E a verdade é que neste momento, todos somos Charlie Hebdo, como o demonstram este punhado de cartoons feitos por autores de Banda Desenhada, que escolhi entre as várias dezenas que circulam na Net, demonstrando a solidariedade da classe artística para com estes mártires da liberdade de expressão.

                                                             Zep

                                             Geluck

                                              Boulet

                                                        Baudoin

                                             Joann Sfar

                                              Falcato

                                               Benjamin Lacombe

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Azul é uma Cor Cinematográfica



Para o ciclo de Cinema e Banda Desenhada, organizado pelo Cineclube de Tomar, e que ontem terminou, preparei este texto que funcionou com folha de sala da segunda parte do ciclo. O meu agradecimento à organização do Cineclube pelo convite e aos corajosos espectadores que enfrentaram o frio glacial do Cinema Paraíso, onde decorreu o ciclo, para assistir aos filmes que seleccionamos para eles.

Depois de uma primeira parte que começou com a recuperação de um clássico da ficção científica, que foi a primeira superprodução internacional baseada numa BD (Barbarella), prosseguiu com a estreia de Marjane Satrapi na direcção de actores (entre os quais a portuguesa Maria de Medeiros), numa história que mergulha nas memórias familiares da autora de Persépolis (Galinha com Ameixas) e que terminou com adaptação de uma das menos conhecidas, mas nem por isso menos interessante, criação de René Goscinny (O Menino Nicolau) o ciclo de Banda Desenhada e cinema organizado pelo Cineclube de Tomar, chega ao fim em tons de azul.

Com efeito, é azul a cor dos cabelos das personagens principais dos dois filmes que passarão nas sessões nocturnas de quinta e sexta-feira: Jill Bioskop, a "mulher armadilha" de Imortal de Enki Bilal, e Emma, a rapariga que vai levar Adele a descobrir a sua verdadeira sexualidade em A Vida de Adele, de Abdellatif Kechiche. Daí que se possa dizer com propriedade que, nesta segunda parte do ciclo, o azul é uma cor cinematográfica.

A abrir está segunda semana do ciclo temos Imortal, de 2004, a terceira longa metragem de Enki Bilal, nome maior da Banda Desenhada europeia. Nascido em Belgrado em 1951, filho de uma mãe checa e de um pai Bósnio, Bilal mudou-se com a sua família para Paris em 1961, onde descobriu a BD e o cinema, as duas formas artísticas a que dedicaria a sua vida. Tendo iniciado a sua carreira na BD na revista “Pilote” em 1972, é nas páginas dessa mesma revista que inicia a sua colaboração com o escritor Pierre Christin, de que sairiam trabalhos como As Falanges da Ordem Negra e, sobretudo, A Caçada, obras marcadas por uma forte componente política, a que o traço barroco de Bilal dava uma dimensão mais inquietante e surreal.
              Iniciada em 1980, com A Feira dos Imortais, numa fase em que a colaboração com Christin ainda estava bem activa e prestes a dar os seus melhores frutos (o notável A Caçada) a Trilogia Nikopol veio provar que Enki Bilal também era capaz de criar as suas próprias histórias, escolhendo como cenário um futuro próximo, tão sombrio como as cores que o seu autor utiliza habitualmente. E, se os treze anos que separam a realização dos três álbuns permitem verificar a evolução do traço de Bilal e a forma brilhante como passa do sistema de trabalho clássico para uma fabulosa cor directa, também é interessante verificar como o autor se vai afastando da narrativa tradicional da BD, através da introdução de elementos como recortes de jornais (no caso de Mulher Armadilha, o segundo álbum, é mesmo um suplemento do jornal Liberation, datado de 1993, mas com textos de 2025), que fornecem informação complementar sobre  o futuro distópico imaginado por Bilal.
              Centrada em três personagens, o deus Egípcio renegado Horus,  a jornalista Jill Bioskop, a mulher armadilha de cabelo azul e pele branca, e o astronauta Alcides Nikopol, cujo corpo vai servir de abrigo a Horus, a Trilogia Nikopol é o trabalho mais conceituado do seu autor, tendo o último volume, Frio Equador sido considerado pela revista “Lire” como o melhor livro do ano em 1993, em todas as categorias literárias, não apenas na área da BD. Mas o reconhecimento dos seus pares e da crítica literária francesa não foi suficiente para Bilal, que se tornou também realizador de cinema. A paixão de Bilal pelo cinema esteve sempre presente  na sua obra (não por acaso, o apelido da Mulher Armadilha, Bioskop, significa cinema em russo e o personagem Nikopol tem as feições do actor Bruno Ganz) e, depois de ter trabalhado com Alan Resnais, primeiro ilustrando o cartaz de Mon Oncle d'Amerique e depois pintando os cenários de La Vie est un Roman, Bilal estreou-se na realização em 1989, com Bunker Palace Hotel, um filme escrito por Christin que transpõe  para o grande ecrã com fidelidade o universo de papel de Bilal.
              Seguiu-se Thyko Moon, em 1997, filme que passou completamente despercebido e foi um fracasso comercial, o que não diminuiu a vontade de Bilal de fazer cinema. Uma vontade satisfeita finalmente em 2004, com a estreia de "imortal", uma revisitação, mais do que uma adaptação da Trilogia Nikopol, centrada na sua personagem mais emblemática, Jill Bioskop, a "mulher armadilha". Para além da mudança da acção de Paris para Nova Iorque, há várias diferenças naturais em relação às BDs originais o que não impede que o todo seja facilmente reconhecível - apesar de alguns feitos digitais menos conseguidos, que faz com que falte a algumas imagens a patine oxidada tão característica do desenhador - como sendo inequivocamente de Bilal. Como o próprio autor refere "os meus filmes parecem-se com as minhas BDs e vice-versa. E nem uns nem outros são tradicionais. Daí que os puristas de qualquer uma das linguagens tenham dificuldade em se reconhecer neles."

Seguem-se nas sessões de sexta, dirigidas ao público infantil, dois filmes de animação em que os próprios autores adaptam para o cinema as suas mais famosas criações. É o caso de Zep, com o seu Titeuf, que depois de uma série de animação que já passou na televisão portuguesa, protagoniza agora uma longa metragem, e de Joann Sfar, que depois da inspirada biografia do cantor Serge Gainsbourg (Gainsbourg, Vie Heroique) adapta ao cinema a sua série mais popular,Le Chat du Rabin, num filme de animação tradicional, que consegue preservar todo o humor e poesia da BD original.

O mais aguardado filme deste ciclo, recém-galardoado com a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, chega na sexta-feira à noite. A Vida de  Adele. Capítulos 1e 2, de Abdellatif Kechiche, que adapta livremente a novela gráfica Le Bleu est une Couleur Chaude de Julie Maroh. Obra de estreia da autora, premiada com o Prémio do Público no Festival de Angouléme de 2001, "Le Bleu..." é uma história trágica de amor, marcada pela homossexualidade, com contornos autobiográficos e que serviu de ponto de partida ao filme de Kechiche, mas não de ponto de chegada. A mudança é evidente, até no nome das personagens, com a Clementine da BD, a dar lugar a Adele que, não por acaso, é o nome da extraordinária actriz que Kechiche filma de forma vampírica. Essa alteração, introduzida no decorrer das filmagens, é sintomática da relação que o realizador estabeleceu com a sua actriz e que faz com que o filme se afaste da BD que lhe serviu de base. Esqueçamos as acusações das actrizes e da equipa de produção em relação ao carácter tirânico de Kechiche, ou as queixas de Marohe de que o realizador a ignorou completamente, antes e depois do filme estrear. O que interessa é o resultado. Um filme extraordinário que, como sabiamente conclui Julie Marohe "é uma outra versão/ visão/ realidade de uma mesma história". Uma história que nasceu nas páginas de uma Banda Desenhada.

Para encerrar o ciclo temos, no sábado, Astérix: Missão Cleópatra, a mais inspirada das adaptações ao cinema das aventuras do popular gaulês criado por Goscinny e Uderzo. Dirigido por Alain Chabat, este é o filme que melhor soube captar o humor intemporal de Goscinny, feito de trocadilhos deliciosos e de anacronismos que permitem fazer um paralelo com a realidade actual. Chabat, que anos mais tarde levou também ao cinema outro célebre personagem da BD franco-belga, o Marsupilami, criado por Franquin para as aventuras de Spirou, tem experiência como argumentista de Banda Desenhada, tendo escrito o argumento do terceiro álbum de Ranxerox, a série de culto criada por Tamburini e Liberatore. O mesmo Liberatore que trabalhou como conselheiro visual neste filme, tendo desenhado, entre outras coisas, os vestidos que fazem de Mónica Belucci um Cleópatra ainda mais inesquecível. Curiosamente, este é o filme de Astérix de que  o Uderzo menos gosta. Tendo em conta a qualidade média dos argumentos que Uderzo escreveu para a série, até nem admira...

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Cinema e Banda Desenhada no Cineclube de Tomar


O Cineclube de Tomar vai apresentar um conjunto de filmes subordinado ao tema Cinema e Banda Desenhada Francesa

Este Ciclo será apresentado em dois fins de semana: 21, 22, 23 de Novembro, e 5, 6, 7 de Dezembro. Em cada fim de semana teremos duas sessões para adultos e duas sessões infantis. As sessões infantis (às 15.30h) terão entrada livre.
Nas sessões para adultos serão cobrados os valores habituais.

Organizadores:
João Miguel Lameiras, Mestre em História da Arte pela Universidade de Coimbra e docente nos Mestrados de Ilustração e Animação da ESAP em Guimarães e do IPCA em Barcelos, tem desenvolvido vasta actividade no campo da Banda Desenhada enquanto crítico, investigador, conselheiro editorial, livreiro, tradutor e curador de diversas exposições. Autor do blog “Por um Punhado de Imagens”

João Miguel Reis, médico, amante de BD, e livreiro especializado em BD.

Duas artes visuais nascidas no final do século XIX, o Cinema e a Banda Desenhada percorreram um longo caminho juntas, de que o actual boom de adaptações cinematográficas de super-heróis levadas a cabo pelos grandes estúdios de Hollywood, é a face mais visível, com um protagonismo tal que acaba por tirar visibilidade a outras adaptações, feitas deste lado do Atlântico.

Concretamente, o cinema de expressão francesa tem uma grande ligação com a Banda Desenhada, menos conhecida do grande público e que, por isso mesmo, importa divulgar.

Uma ligação que começa mesmo com os irmãos Lumiere, cujo filme “L'Arroseur Arrosé” adapta directamente uma BD popularizada pelas célebres “Images d' Epinal”, gravuras vendidas avulsas muito populares no século XIX e inícios do século XX.

Uma ligação que se mantém até à actualidade, onde encontramos autores de BD como Enki Bilal, Marjane Satrapi e Joann Sfar a adaptarem os seus próprios livros ao cinema. É esse universo criativo que pretendemos mostrar num ciclo dedicado ao cinema e à Banda Desenhada francesa.

Programação 1º fim de semana:


21 de Novembro: Barbarella, de Roger Vadim (19h)  

22 de Novembro: O Menino Nicolau, de Laurent Tirard (15.30h)
                              Galinha com Ameixas, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (21.30H)
                           
23 de Novembro: Titeuf, de Zep (15.30h)


Programação 2º fim de semana:


5 de Dezembro: Imortal, de Enki Bilal (19h)

6 de Dezembro: O Gato do Rabino (15.30h)
                           A Vida de Adèle de Abdellatif Kechiche (Palma de Ouro no Festival de Cannes 2013) (21.30h)
                                                     
7 de Dezembro: Astérix e Cleópatra, de Jean Chabat (15.30h)

Se estiverem por esses lados, apareçam!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Le Chat du Rabin chega ao cinema


Depois do sucesso de Gainsbourg, Vie Heroique, o autor de BD Joann Sfar, tem um novo filme pronto a estrear. Desta vez, é a versão em animação de Le Chat du Rabin (série de que a Asa lançou os três primeiros volumes com o jornal Público. O filme, que chega às Salas de cinema francesas já no próximo dia 1 de Junho, foi realizado por Sfar e Deslesvaux produzido pelo estúdio Autochenille Productions, de Sfar, Clément Oubrerie e Antoine Delesvaux, com um orçamento estimado em 12,5 milhões de euros.
Além de Sfar e de Oubriere, outros actores de BD, como Christophe Blain (Isac, o Pirata) e Gradimir Smudja (Vincent e Van Gogh)participaram também no filme, só possível graças ao sucesso de "Persepolis#, que mostrou que havia um público para este tipo de adaptações. Agora é esperar para ver se o filme de Sfar chega a Portugal, nem que seja em DVD, ou na próxima Festa do Cinema Francês. Até lá, aqui fica o trailer.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Gato de Sfar


Tal como aqui referi na semana passada, há que estar atento à colecção “Os Incontornáveis da Banda Desenhada”, actualmente em distribuição nos quiosques. A prová-lo está este 2º volume, que recolhe 3 álbuns da série “O Gato do Rabino”, de Joann Sfar.
Um dos mais prolíficos criadores da BD europeia, Sfar tem uma produtividade inacreditável, acumulando uma vasta actividade como argumentista e desenhador, com incursões ocasionais noutras áreas, como o cinema, onde se estreou com o magnífico “Gainsbourg, Vie Heroique”, uma biografia em tom de fábula do cantor francês Serge Gainsbourg, que passou de forma discreta nos cinemas portugueses (em Coimbra, passou apenas durante a Festa do Cinema Francês), estando a trabalhar neste momento num filme de animação baseado precisamente nesta série “O Gato do Rabino”, de que já circulam algumas imagens.
Com excepção da série “Donjon”, escrita a meias entre Sfar e Trondheim, e dos álbuns “O Principezinho” e “A Filha do Professor”, não há muita coisa de Sfar editada em Portugal, o que dá uma importância ainda maior a esta edição, que recolhe os 3 primeiros álbuns de uma das séries mais emblemáticas de Joann Sfar, que se devia chamar, não o gato do rabino, mas “o Gato da Filha do Rabino”, pois a dona do gato é a bela Zlabya, filha do Rabino.
Ambientada na comunidade judia sefardita da Argélia dos inícios do século XX e protagonizada por um gato que ganha o dom da palavra depois de comer um papagaio, a série é uma divertida e sensível análise às questões da religião, servida por diálogos deliciosos (veja-se a conversa entre o gato, que quer fazer o “Bar-Mitzvá”, e o rabino do rabino). Sfar desenha tão depressa como escreve, mas o seu traço, mais caligráfico do que ilustrativo, é de uma eficácia surpreendente, sendo excelente em termos de criação de ambientes e na forma como retrata as poses do gato (o que nem deve ter sido difícil, pois foi um dos gatos de Sfar que serviu de modelo para o gato do Rabino).
O único problema desta edição, é que deixa de fora, os 2 últimos álbuns da série: “Le Paradis Terrestre” e “Jerusalém d’Afrique”, em que, depois de uma viagem a Paris, que não entusiasmou o Rabino, a família regressa a África. O que, não havendo garantias de que a Asa prossiga a série, deixa os leitores que queiram saber o que acontece a seguir, condenados a recorrer às edições de língua francesa ou inglesa.
(“Os Incontornáveis de Banda Desenhada 2: O Gato do Rabino”, de Joann Sfar, Edições Asa/Público, 144 pags, 7,40 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 12/03/2011

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Gainsbourg Vie Heroique



Já circula pela Net o trailler do filme que Joann Sfar realizou sobre Serge Gainsbourg e que tem estreia marcada em França para 20 de Janeiro de 2010. O trailler deixa perceber que Sfar está tão à vontade a contar histórias no cinema como na BD.
Vale também a pena espreitar o site oficial do filme aqui. Além de diversas ilustrações de do autor do Chat du Rabin, o site contém também vários vídeos e um interessante diário de rodagem desenhado por Mathieu Sapin.