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terça-feira, 26 de março de 2019

Batman 80 Anos 5 - Noel

O NATAL DO CAVALEIRO DAS TREVAS 

80 Anos de Batman Vol 5
Batman: Noel - Um Conto de Natal
Argumento  e Desenhos – Lee Bermejo
Quinta, 21 de Março
Por + 11,90 €
Depois de quatro volumes dedicados ao Batman da era Novos 52, o quinto volume desta Colecção, que chegará às bancas de todo o país no próximo dia 21 de Março, é uma história intemporal, liberta de qualquer cronologia, que homenageia um clássico da literatura mundial, o Conto de Natal (A Christmas Carol, no original) de Charles Dickens, aqui adaptado ao universo do Cavaleiro das Trevas.
Obra que assinala a estreia de Lee Bermejo, o desenhador de Joker e Lex Luthor: Preconceito e Orgulho - para falar apenas de títulos já publicados pelo Público e pela Levoir em anteriores colecções dedicadas à DC Comics - como autor completo, esta peculiar versão do conto de Dickens, é uma bem conseguida homenagem à história de Batman, onde para além de Batman e do Joker, não faltam aliados como Robin, o Comissário Gordon, Catwoman e o Super-Homem e a evocação de etapas marcantes da história da personagem.
O Scrooge desta história narrada por Bob, um pequeno criminoso que cometeu o erro de trabalhar para o Joker, ao seu filho Tim, é o próprio Batman, mas, como o próprio Bermejo refere numa entrevista: “não estamos perante uma adaptação literal. A história segue a estrutura do Conto de Natal de Dickens e temos um narrador que nos está a contar essa história, na perspectiva dele, que é aberta a interpretações. Mas, visualmente, é uma história autónoma, sobre um homem bom, mas fraco, que comete o erro de se associar ao Joker e que vai pagar por isso.”
Não obstante esse carácter autónomo, a colagem ao texto clássico de Dickens, é óbvia e perfeitamente assumida. Jason Todd, o antigo Robin morto pelo Joker, desempenha um papel semelhante ao de Jacob Marley, o falecido sócio de Scrooge. O papel que os três fantasmas das diferentes épocas representam no Conto de Natal de Charles Dickens, está aqui a cargo de três figuras icónicas do universo DC: A Catwoman simboliza o fantasma do Natal Passado; o Super-Homem, o fantasma do Natal Presente,; e o Joker, o fantasma do Natal Futuro.
Conhecido pelo seu estilo sombrio e hiper-realista, o norte-americano Lee Bermejo opta aqui por um registo mais luminoso, que se adequa melhor à história que pretende contar, que é, apesar de tudo, bem mais esperançosa na bondade intrínseca do ser humano, do que o pessimismo quase niilista que encontramos nos argumentos de Brian Azzarello, com quem Bermejo colaborou em todas as suas anteriores incursões no universo do Batman e do Super-Homem.
Publicado originalmente em Novembro de 2011, bem a tempo para o Natal, como uma Novela Gráfica em capa dura, Batman: Noel foi concebido como um conto infantil, mesmo que a mulher de Lee Bermejo goze com ele a esse respeito, dizendo: “se achas que esta é uma história do Batman para crianças, claramente não conheces as crianças e torna-se perfeitamente óbvio que nós não temos filhos...”
Mas essa dimensão de fábula está patente no uso de um narrador que nos conta a história na sua perspectiva - um mecanismo narrativo semelhante ao usado por Azzarello em Joker - o que reduz bastante o número de diálogos, e no tratamento da cor, bastante mais luminosa do que o habitual em Bermejo. Para além da presença da neve, cujo manto branco ajuda a esconder a dimensão sombria de Gotham, também a colorista Barbara Ciardo - com quem Bermejo volta a trabalhar depois da história curta do Super-Homem para a revista Wednesday Comics - acentua esse lado mais luminoso de conto de fadas, através de uma paleta de cores mais clara e mais alegre, que não interfere com o estilo gráfico inconfundível que já se tornou uma imagem de marca de Bermejo. Um belo clássico, graficamente deslumbrante, que mostra que, mesmo em Gotham City, o Natal é “sempre que um homem quiser”.
Publicado originalmente no Jornal Público de 16/03/2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Apresentação da colecção Batman 80 Anos

BATMAN, 80 ANOS DE AVENTURAS

Tudo começou há oitenta anos, em 1939, quando Bob Kane e Bill Finger na sequência do sucesso do Super-Homem de Jerry Siegel e Joe Schuster, nascido um ano antes, decidem criar um herói funcionasse quase como um negativo do Super-Homem, com o lado lunar do Cavaleiro das Trevas a surgir como contraponto à dimensão mais solar do Homem de Aço. Uma oposição que está igualmente presente nas duas cidades onde actuam os dois heróis, com a sombria Gotham City a funcionar como negativo da luminosa Metropolis. É essa dimensão mais humana, de um dos super-heróis mais humanos e carismáticos de todos os tempos e um dos raros que não tem qualquer super-poder, que facilitou a identificação dos leitores. Aspecto que ajudou a transformar Batman no mais popular dos super-heróis. Uma popularidade que não dá mostras de abrandar, bem pelo contrário, pois oitenta anos depois, Batman continua a ser no século XXI, o mesmo ícone da cultura pop que foi ao longo do século XX.
O Batman original foi criado como um vigilante próximo de outras personagens da época como o Shadow, enquadrando-se no mesmo registo de policial negro, visível não só no cinema como na literatura da época. Herói sombrio, nascido numa era sombria, com uma espantosa galeria de inimigos - de que o Joker é o mais conseguido - com paralelo apenas na série Dick Tracy, apoiado num engenhoso leque de gadgets - do cinto de utilidades ao Batmóvel -  Batman foi-se gradualmente afastando das suas raízes policiais à medida que a série foi mais dirigida a um público infantil, que se identifica facilmente com Robin, o jovem ajudante de Batman, criado por Jerry Robinson, numa resposta à tendência da época de juntar adolescentes (os sidekicks) aos super-heróis adultos. Nesta fase, Bruce Wayne, o homem por trás da máscara, é apenas um disfarce de milionário fútil e entediado, que Batman usa quando tira a capa.
Quando o descobrimos pela primeira vez, na história The Case of the Chemical Syndicate, publicada em 1939 no nº 27 da revista Detective Comics, Batman, o sombrio super-herói, está já no activo há algum tempo e a sua fama precede-o, enquanto o homem que se esconde por detrás da máscara, o milionário Bruce Wayne, apenas aparece fugazmente na última página da história. E só largos meses depois Bob Kane e Bill Finger nos explicam o que levou Bruce Wayne a transformar-se no vigilante vestido de morcego, que os leitores bem conhecem, mostrando num flashback de duas páginas, publicado no último volume desta colecção, como o assassinato dos pais do jovem Bruce Wayne levou o traumatizado órfão a consagrar a sua vida ao combate do crime, escolhendo a imagem do morcego para infundir terror a essas criaturas “medrosas e supersticiosas” que são os criminosos.
A crescente popularidade do herói fez com que cedo extravasasse as páginas da BD, chegando ao cinema. A primeira incursão do Cavaleiro das Trevas pela 7ª Arte, deu-se na década de 40, através de dois serials (filmes em episódios de meia hora), o primeiro em 1943, em que Batman participava no esforço da guerra então em curso, combatendo espiões japoneses na América e uma segunda, em 1949, onde surge pela primeira vez a repórter Vicky Vale, personagem que será rapidamente aproveitada para as aventuras no papel do Cavaleiro das Trevas. Apesar da debilidade das histórias e da falta de meios, estes dois serials contribuíram para a popularidade de Batman, embora a nível muito menor do que a série de televisão dos anos 60.
Filmada durante o apogeu da Pop Art, a série protagonizada por Adam West e Burt Ward, que esteve em exibição entre 1966 e 1968, era uma comédia de acção dirigida a um público juvenil, com efeitos visuais a reproduzirem os sons da BD, que eram um autêntico prodígio kitsch. Com um visual garrido, a série deu a conhecer ao grande público um Batman com muito poucas semelhanças com o vigilante original de 1939, mas que estava na linha da BD da época, onde a violência das histórias iniciais dera lugar a delirantes aventuras de ficção científica, que não se levavam minimamente a sério.
Na década de 70, Batman voltaria a aproximar-se do violento combatente do crime da fase inicial, trocando o tom de comédia por histórias de acção, centradas nos problemas da época. Surge assim um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores, que o traço dinâmico de Neal Adams definiu como ninguém.
Mas a verdadeira revolução chegaria em 1986, com Frank Miller e o seu Regresso do Cavaleiro das Trevas, uma aventura futurista em que um Batman já cinquentenário volta a vestir o uniforme para impor a sua lei numa Gotham City cinzenta e ameaçadora. Um clássico incontornável, cuja surpreendente continuação publicamos nesta colecção.
O fulgurante sucesso do Batman de Frank Miller, abriu não só o caminho a outras visões complexas e adultas do Cavaleiro das Trevas, como Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland, ou Asilo Arkham, de Grant Morrison e Dave Mckean, mas sobretudo gerou um renovado interesse pelo herói junto do grande público, criando assim as condições ideais para o regresso de Batman ao cinema. Um regresso que se dá pela mão de Tim Burton e que, passa pelos filmes de Joel Schumacher, pela aclamada trilogia de Christopher Nolan, até aos filmes mais recentes de Zack Snyder, sem esquecer a série de animação Batman Adventures, dirigida por Paul Dini e Bruce Timm, que contribuiu para o enriquecer da mitologia de Batman, através de novas personagens, como Harley Quinn, a namorada do Joker, que actualmente é uma das personagens de maior sucesso da DC.
Na BD o herói também se soube renovar, tal como o resto do catálogo da DC, através da Linha Novos 52, que actualizou o universo da editora para o século XXI. É precisamente o Batman da Linha Novos 52 que protagoniza metade dos 10 volumes desta colecção, com destaque para o excelente trabalho de Scott Snyder e Greg Capullo na principal revista do Batman, mas sem esquecer as versões de John Layman e Francis Manapul na revista Detective Comics. Mas a capacidade do Batman atrair os maiores nomes da mundial, está bem patente no volume antológico que encerra esta colecção, mas sobretudo em Batman Black & White, história que recolhe os melhores contos noir do Batman em histórias a preto e branco, assinadas por (muitos) nomes de prestígio da BD europeia e mundial, como Katshuiro Otomo e Richard Corben, dois dos últimos Grandes Prémios de Angoulême, provando que o impacto do Batman, oitenta anos após a sua criação, é verdadeiramente global.

A COLECÇÃO

1 – Batman: Jogo Final
21 de Fevereiro
Argumento – Scott Snyder
Desenhos – Greg Capullo e Dany Miki
O Joker quer pregar uma última partida ao seu adversário de sempre, mas desta vez, ninguém se vai ficar a rir. Depois do Batman se ter recusado a alinhar nos planos maquiavélicos do Príncipe Palhaço do Crime, está na altura de uma vingança que irá colocar à prova não só o Batman, mas todos aqueles que ele ama! A continuação da saga criada por dois dos maiores autores de sempre do Batman, Scott Snyder e Greg Capullo, um dos grandes clássicos modernos da DC. O Joker deixou-se de comédias... e enveredou pela tragédia negra!

2 – Batman: Peso Pesado
28 de Fevereiro
Argumento – Scott Snyder
Desenhos – Greg Capullo e Dany Miki
O Comissário Gordon transformou-se no novo Batman! Depois da desaparição e aparente morte do Cavaleiro das Trevas, o ex-comissário da polícia teve de assumir o seu papel, para patrulhar as ruas de Gotham envergando a nova e poderosa armadura do Cavaleiro das Trevas. Mas serão a alta tecnologia e capacidades de uma Bat-Armadura suficientes para deter o misterioso Sr. Bloom, antes dos seus planos maléficos destruírem a cidade? A continuação de uma das maiores sagas do Batman de sempre, os Novos 52 de Scott Snyder e Greg Capullo, os autores best-seller do New York Times

3 – Batman: Bloom
07 de Março
Argumento – Scott Snyder
Desenhos – Greg Capullo e Dany Miki
Bruce Wayne parece ter uma vida de sonho: está apaixonado por uma mulher extraordinária com quem trabalha num dos centros para jovens de Gotham, onde ajuda as crianças da cidade que ele adora... embora ainda tenha amnésia depois de quase ter sido morto num ataque do Joker. Mas os ecos e as memórias escondidas de um passado que esqueceu, negro e cheio de violência, continuam a puxar por ele...
 mas, se responder ao apelo do Batman, o que acontecerá à vida feliz que entretanto construiu? A conclusão da saga de Scott Snyder do Batman Novos 52, um dos clássicos modernos dos comics americanos.

4 – Batman: Gothopia
14 de Março
Argumento – John Layman
Desenhos – Jason Fabok e Aaron Lopresti
O argumentista John Layman e o artista Jason Fabok assinam uma estranha e inquietante história do Batman. Gotham é uma utopia, livre de crime, e em que os heróis são celebrados por todo o lado. O Batman é um vigilante universalmente adorado, vestido com o seu brilhante fato de Cavaleiro da Luz. E a sua companheira – e amante – não é outra senão Selina Kyle, a Asa Felina. Quem terá criado esta versão alternativa do mundo do Cavaleiro das Trevas? E com que propósito?

5 – Batman: Noel – Um Conto de Natal
21 de Março
Argumento e Desenhos – Lee Bermejo
Enquanto o Cavaleiro das Trevas persegue o seu pior inimigo pelas ruas cobertas de neve de Gotham City, um bizarra sequência de eventos, ameaça roubar a sua alma para sempre. Lee Bermejo, o desenhador de Joker e Lex Luthor estreia-se como autor completo com esta peculiar versão do Conto de Natal de Charles Dickens, onde para além de Batman e de um Scrooge, não faltam aliados como Robin, o Comissário Gordon, Catwoman e o Superman, e inimigos como o Joker.

6 – Batman: Ícaro
28 de Março
Argumento – Francis Manapul e Brian Bucellato
Desenhos – Francis Manapul
O Batman, o Maior Detective do Mundo, tem de investigar um caso que envolve uma nova, letal e misteriosa droga que está a devastar as ruas de Gotham, bem como vários políticos corruptos e grupos criminosos rivais. Conseguirá o Homem-Morcego deter estas ameaças antes que a cidade seja mergulhada numa guerra que não faria quaisquer prisioneiros? O artista Francis Manapul possui um dos mais originais e brilhantes estilos gráficos nos comics da actualidade, que ilustra na perfeição esta história escrita a meias com Brian Buccellato.

7 – Batman: Black & White – Os Melhores Contos Noir
04 de Abril
Argumento – Vários Autores
Desenhos – Vários Autores
Vinte contos noir que exploram as imensas potencialidades do preto e branco, assinados por grandes nomes da BD mundial, numa premiada antologia que fez história. Os melhores desenhadores, como Brian Bolland, Joe Kubert, Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, José Muñoz, Walt Simonson, Richard Corben, Kent Williams, Jorge Zaffino, Klaus Janson, Liberatore, Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Ted Kristiansen, Kevin Nowlan, Gary Gianni, Brian Stelfreeze e Katshuiro Otomo, juntos num volume que inclui ainda ilustrações de Moebius, Frank Miller, Jim Lee, Alex Toth e Barry Windsor-Smith.

8 – O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar Vol 1
11 de Abril
Argumento e Desenhos – Frank Miller
Quinze anos depois da publicação de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Frank Miller retorna ao universo distópico e futurista de um Batman envelhecido, que regressa ao activo para combater o crime. Uma sequela cuja acção decorre três anos depois da aparente morte do Cavaleiro Das Trevas, num mundo aparentemente perfeito, onde reina a paz e a harmonia. Mas esta harmonia é apenas uma fachada que vai ser destruída por um regressado Batman que vai reunir os seus aliados para combater a ameaça do homem que controla todos, até o Presidente dos Estados Unidos da América.

9 – O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar Vol 1
18 de Abril
Argumento e Desenhos – Frank Miller
A conclusão do regresso do Batman crepuscular de Frank Miller, concretiza-se neste segundo volume, em que a complexa intriga que envolve a maioria dos membros da Liga da Justiça se cruza com a dura realidade do ataque às Torres Gémeas em 11 de Setembro de 2001. Um acontecimento real, que Frank Miller acompanhou do seu estúdio em Nova Iorque e que acabou por influenciar decisivamente a evolução desta história, que começou como uma homenagem de Miller aos heróis e vilões do universo DC, para se tornar, tal como aconteceu com O Regresso do Cavaleiro das Trevas, um reflexo da época em que a história foi feita.

10 –Batman: 80 Anos de Aventuras
25 de Abril
Argumento – Vários Autores
Desenhos – Vários Autores
De Bob Kane a Tom King, 80 anos de aventuras do Cavaleiro das Trevas cobertos numa antologia criada em exclusivo para esta colecção. Desde a origem do Batman pelos seus criadores originais, passando pela fase de Sheldon Moldoff nos anos 50, continuando com o regresso à dimensão mais sombria do Cavaleiro das Trevas nos anos 70, em histórias ilustradas por Neal Adams e Jim Aparo, incluindo ainda o trabalho de Alan Davis e Paul Neary da década de 80 e terminando com dois histórias escritas por Tom King, o actual escritor da principal revista do Cavaleiro das Trevas.

AUTORES EM DESTAQUE

SCOTT SNYDER E GREG CAPULLO
Tendo iniciado a sua carreira como escritor de terror, Scott Snyder tornou-se rapidamente num dos maiores escritores dos comics americanos deste século. Na sua etapa com o Batman, Snyder conta com a arte de Greg Capullo, desenhador, cuja carreira está sobretudo associada à sua colaboração com Todd McFarlane na série Spawn, durante perto de vinte anos. Capullo revelou-se um dos melhores desenhadores do Batman deste século, adaptando o seu estilo às necessidades da personagem e influenciando a própria narração de Snyder. Um escritor que, embora habituado a escrever argumentos extremamente detalhados, em que nada é deixado ao acaso, foi gradualmente dando maior autonomia a Capullo, que ao longo do tempo acabará por assumir a principal responsabilidade pela planificação, colaborando também na própria evolução das histórias.

FRANK MILLER
Um dos mais importantes nomes dos comics americanos das últimas décadas, Frank Miller lançou-se nos inícios dos anos 80 nas páginas da revista Daredevil, da Marvel, reformulando de forma brilhante o super-herói cego em histórias notáveis. Mas seria na DC que Miller iria revolucionar os comics americanos, primeiro com Ronin, e depois com O Regresso do Cavaleiro das Trevas e Batman Ano Um, duas obras-primas já editadas em Portugal pela Levoir, em que Miller redefine o futuro e a origem de Batman. Entre as suas criações mais importantes, destacam-se 300 e a série que redefiniu o policial negro na BD, Sin City, ambas adaptadas ao cinema com sucesso. Depois de um período de afastamento por doença, Miller regressou recentemente à BD com The Master Race, a terceira parte da trilogia do Cavaleiro das Trevas - cuja segunda parte ocupa os volumes 8 e 9 desta colecção  -  e Xerxes, a sequela de 300.

TOM KING
Antes de se tornar um escritor premiado, com romances na lista de best-sellers do New York Times, Tom King trabalhou como agente da CIA, como oficial de operações de contra terrorismo, tendo estado destacado no Iraque após a queda de Saddam Hussein, experiencia que lhe serviu de inspiração para o livro O Xerife da Babilónia, já publicado em Portugal pela Levoir. Tendo tido a ingrata missão de substituir Scott Snyder como escritor da revista principal do Batman, King saiu-se com distinção desse desafio, conquistando tanto o público como a crítica, através de histórias plenas de humanidade, como as duas que podemos ler no último volume desta colecção.


AS SOMBRAS DO CAVALEIRO DAS TREVAS

É ponto mais ou menos assente no mundo da edição de comics que os leitores preferem a cor e o preto e branco não vende. Do mesmo modo, também é ideia assente que as antologias raramente têm sucesso comercial. Daí que, quando o editor Mark Chiarello se lembrou de criar de criar uma antologia de histórias do Batman a preto e branco, a ideia foi recebida com desconfiança. Inspirada em revistas como a Creepy e a Eerie, da editora Warren, que durante a década de 70 publicou alguns dos melhores trabalhos de sempre de autores como Frank Frazetta, Bernie Wrightson, Ricard Corben e Steve Ditko, na sua maioria escritos e editados pelo mítico Archie Goodwin, a antologia editada por Chiarello tinha uma estratégia simples para conquistar os leitores: chamar os maiores nomes da BD de todas as latitudes, muitos dos quais nunca tido qualquer contacto com o Batman, ou com qualquer super-herói, para criarem o seu Batman.
O resultado foi uma mini-série de 4 números, publicados entre Junho e Setembro de 1996, recolhendo vinte contos noir de oito páginas cada, escritas por veteranos como Dennis O’Neil, Archie Goodwin, Jan Strnad, Chuck Dixon e Neil Gaiman, para grandes nomes da BD mundial que exploram aqui, cada um à sua maneira, as imensas potencialidades do preto e branco. Um elenco absolutamente de luxo, que inclui desenhadores como Joe Kubert, Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, José Muñoz, Walt Simonson, Richard Corben, Kent Williams, Jorge Zaffino, Simon Bisley, Klaus Janson, Liberatore, Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Ted Kristiansen, Kevin Nowlan, Gary Gianni, Brian Stelfreeze e Katshuiro Otomo, a ilustrarem histórias curtas, a que se juntam as ilustrações de Moebius – que escreveu e desenhou uma divertidíssima história que a DC não se atreveu a publicar, tendo acabado por só sair anos depois na revista Penthouse Comix - Frank Miller, Neal Adams, P. Craig Russel, Jim Lee, Alex Toth e Barry Windsor-Smith.
E a série acabou por se revelar um sucesso tremendo, ganhando dois prémios Eisner e um prémio Harvey no ano seguinte e dando origem a mais três antologias com o mesmo título, publicadas em 2001, 2004 e 2013 e diversas vezes reeditadas, para além de inspiram colecções como Batman Noir, que publica a preto e branco histórias clássicas do Batman originalmente publicadas a cores, como aconteceu com o volume dedicado a Brian Azzarello e a Eduardo Risso, que a Levoir publicou em Portugal. Mas a verdade é que foi, na mini-série que preenche o volume 7 desta colecção, que tudo começou.

O BATMAN NA ERA NOVOS 52

Um dos destaques desta colecção vai para os títulos englobados na linha Novos 52, que constituem metade da colecção. A Linha Novos 52 - que em 2011 veio transformar o universo DC para o século XXI, relançando a totalidade da sua linha editorial, num total de 52 títulos – que os leitores portugueses já tinham podido descobrir na colecção que o Público e a Levoir dedicaram em 2016 ao maiores heróis da DC, acompanhando as mais recentes fases das aventuras do Batman, do Super-Homem, da Mulher-Maravilha e do Aquaman, está desta vez em destaque graças às aventuras do Batman. Depois dos três volumes iniciais da fase da dupla Scott Snyder e Greg Capullo na revista principal do Batman publicados na colecção de 2016, esta colecção comemorativa dos 80 anos do Cavaleiro das Trevas, prossegue com a edição dos três volumes finais desta etapa que foi um estrondoso sucesso, tanto crítico como comercial.
Mas, se na colecção de 2016 a presença do Batman se tinha limitado às histórias da revista com o seu nome, desta vez há espaço para dois volumes que recolhem histórias publicadas na mais antiga revista da DC, que deu nome à própria editora, a Detective Comics, em cujo nº 27 o Batman surgiu pela primeira vez em 1939. São eles Gothopia, uma versão utópica da cidade e da vida do Batman, boa demais para ser verdade, escrita por John Layman, o argumentista de Tony Chu, com desenhos espectaculares de Jason Fabok e Ícaro, que nos mostra o altíssimo nível que o trabalho da dupla Francis Manapul/Brian Bucellato consegue atingir.
Finalmente, sem ligação directa com a cronologia das revistas mensais, mas publicado também durante a era Novos 52, temos Noel: Um Conto de Natal, que nos traz o nosso conhecido Lee Bermejo (Joker, Lex Luthor) aqui como autor completo, com um versão muito pessoal de A Christmas Carrol, de Charles Dickens, com os personagens do escritor inglês a darem lugar aos nossos conhecidos heróis e vilões do universo de Batman.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 16/12/2019

quinta-feira, 31 de março de 2016

Super-Heróis DC 9 - Lex Luthor: Preconceito e Orgulho

LEX LUTHOR EM DESTAQUE 
NA COLECÇÃO SUPER-HERÓIS DC

Super-Heróis DC Vol 9
Lex Luthor: Preconceito e Orgulho
Argumento – Brian Azzarello
Desenho – Lee Bermejo
Quinta, 31 de Março
Por + 9,90 €
Já dizia Alfred Hitchcock que o sucesso de um filme dependia, e muito, do carisma do vilão. E não há grandes dúvidas de que a DC tem os vilões mais carismáticos da história dos comics. É pois com naturalidade que, depois do Joker na colecção anterior, o destaque do volume que chega às bancas na próxima quinta-feira vá para o outro grande vilão do Universo DC, Lex Luthor, o Némesis do Super-Homem. Novamente, os responsáveis por esta abordagem inesperada da relação entre o Homem de Aço e o seu mais astucioso adversário, são Brian Azzarello e Lee Bermejo, os mesmos autores de Joker, que mostram mais uma vez a incrível sintonia existente entre eles, que lhes permite criar histórias inesquecíveis.
Embora tenha saído depois em Portugal, este Lex Luthor: Preconceito e Orgulho, é anterior ao livro dedicado ao Joker, tendo sido publicado originalmente nos EUA em 2005, como Lex Luthor: Men Of Steel, uma mini-série em 5 partes e foi precisamente o seu grande sucesso que possibilitou a posterior publicação da novela gráfica dedicada ao Joker.
Segunda colaboração entre o escritor Brian Azzarello e o desenhador Lee Bermejo, depois da mini-série Batman/Deathblow: After the Fire, de 2003, Lex Luthor… é uma das primeiras histórias a ter um vilão como protagonista, o que Azzarello justifica com uma maior facilidade em identificar-se com os vilões do que com os heróis, algo que a série 100 Bullets, onde não há inocentes, já deixava perceber.
Outro aspecto extremamente inovador deste livro, é a história ser contada na perspectiva do vilão, que nos apresenta a sua visão do Super-Homem, que Luthor considera, não como a encarnação do sonho americano e símbolo da verdade, da justiça e do modo de vida americano -  como o emigrante que encontrou o sucesso na terra prometida - mas sim como uma ameaça extraterrestre. Um ser quase divino, demasiado poderoso para ser controlado e que Luthor considera como uma potencial ameaça para a humanidade. É precisamente a origem alienígena do Homem de Aço, aliada à sua popularidade, que faz dele um alvo a abater por Luthor, que o teme e o inveja.
Criado por Jerry Siegel e Joe Schuster em 1940, Lex Luthor começou por ser um cientista que criava armas de guerra que lhe permitissem dominar o mundo, mas depois disso já foi homem de negócios impiedoso, milionário, génio científico e até Presidente dos Estados Unidos, mas poucos autores compreenderam melhor a complexidade da personagem do que Azzarello e Bermejo.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 25/03/2016

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

DC Comics UNCUT 5: Joker: O Último a Rir


No caso da introdução ao volume do Joker, também da minha autoria, as alterações em relação à versão inicial, têm a ver com a questão da criação do Batman, que oficialmente só foi criado por Bob Kane, e com uma referência ao litígio de Alan Moore com a DC na sequência de Watchmen. Ou seja, pouca coisa, quando comparado com outros textos... Curiosamente, esta versão publicada nem é mais politicamente correcta, pois cheguei a escrever uma terceira versão, mas que não chegou a ser mandada para a DC, porque não foi preciso, uma vez que esta segunda acabou por ser aprovada sem quaisquer cortes.

O HOMEM QUE RI


JÁ DIZIA HITCHOCK QUE O SUCESSO DE UM FILME DEPENDIA, E MUITO, DO CARISMA DO VILÃO. E NA BEM RECHEADA GALERIA DE INIMIGOS DE BATMAN, NÃO HÁ VILÃO MAIS CARISMÁTICO DO QUE O JOKER. O IMPREVISÍVEL ARLEQUIM TEM SIDO O PRINCIPAL ANTAGONISTA DO BATMAN AO LONGO DE MAIS DE SETENTA ANOS, MAS NAS DUAS HISTÓRIAS QUE COMPÕEM ESTE VOLUME, O PROTAGONISMO VAI TODO PARA O JOKER, QUE SE ASSUME AQUI COMO A PERSONAGEM PRINCIPAL, ECLIPSANDO O CAVALEIRO DAS TREVAS COM O BRILHO DA SUA LOUCURA.

Criado por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger em 1940, o Joker foi o antagonista do Batman na primeira aventura na sua própria revista, Batman # 1, título que surgiu na sequência do sucesso das aparições do Cavaleiro das Trevas na revista Detective Comics, a partir do hoje mítico nº 27. Embora os relatos divirjam quanto à importância de cada um dos autores na criação do personagem, com Bob Kane e Jerry Robinson a disputarem entre si o mérito da criação da imagem do Joker, ambos reconhecem a importância de Bill Finger como argumentista e o contributo decisivo de uma fotografia do actor Corand Veidt no filme The Man Who Laughs, de 1928, baseado no romance homónico de Victor Hugo, para o sorriso rasgado que torna o Joker imediatamente reconhecível.
Presença constante nas aventuras de Batman ao longo de décadas, o Joker chegou a ter direito à sua própria série, em meados dos anos 70. Uma série que durou apenas nove números e na qual defrontou os mais variados adversários, incluindo... Sherlock Holmes. Foi também durante a década de 70 que o Joker voltou às origens em termos de comportamento, deixando de ser apenas um comic relief para se transformar num personagem ameaçador e mortífero, nas histórias de Denny O’Neil e Neal Adams que depois dos delírios kitsch dos anos 50 e 60, trouxeram o Batman e os seus adversários para um caminho mais realista, que possibilitou histórias como as assinadas por Frank Miller na década de 80, ou A Piada Mortal, a novela gráfica de Alan Moore e Brian Bolland que abre este volume, dedicado não a um herói, mas ao principal vilão do Universo DC.

Última história escrita por Alan Moore para a DC, em 1988, pouco antes de cortar relações com a editora devido a divergências sobre os royalties de Watchmen, A Piada Mortal é descrita por Moore, como “apenas uma história de Batman”, mas tanto o desenhador, Brian Bolland, como os leitores, sabem que não é bem assim. A Piada Mortal é uma das mais importantes histórias de Batman de sempre, até pelas consequências que teve na vida de Barbara Gordon, que uma bala do Joker deixa paralisada numa cadeira de rodas, pondo fim à sua carreira como Batgirl, durante mais de 20 anos. Situação que só se alterou em 2011, quando na sequência do relançar das principais revistas da DC, no âmbito da iniciativa conhecida como “Novos 52”, Barbara voltou a andar e pode voltar a vestir a fato de Batgirl.
Exemplo perfeito da articulação harmoniosa entre texto e imagem, com Bolland, que agora se dedica sobretudo à ilustração de capas, a brilhar a grande altura no seu último trabalho de grande folego como desenhador, A Piada Mortal explora a relação entre Batman e o Joker e a forma como funcionam como reflexo um do outro, dando-nos a conhecer os acontecimentos que levaram o Joker à loucura.
Numa sequência de flahbacks magistralmente executados, Moore dá-nos a sua versão da origem do Joker, apresentado como um comediante falhado que se envolve com um grupo de criminosos para ganhar dinheiro que lhe permitam sustentar a mulher e o filho prestes a nascer e que perde a sanidade, na sequência de um dia que lhe corre extremamente mal. Um dia que o deixa viúvo, sem filho e deformado. Um passado trágico que justificaria a sua actuação, mas que o próprio Joker não sabe se é real, pois, como o próprio refere: "as minhas memórias nem sempre são as mesmas... Já que tenho que ter um passado, que seja de escolha múltipla!"
Embora Brian Bolland, por falta de tempo, não tenha podido na altura colorir a história, como pretendia, tendo esse trabalho ficado a cargo de John Higgins, que já tinha colaborado com Moore em Watchmen, em 2008, por ocasião do 20º aniversário da publicação de The Killing Joke, o livro foi reeditado numa edição de luxo, como novas cores digitais de Bolland, mais próximas da sua intenção original e que o leitor português pode apreciar pela primeira vez, pois a anterior edição portuguesa da Devir utilizava as cores originais de John Higgins.
Separadas por mais de 20 anos, as duas histórias que compõem este volume, têm em comum o facto de atribuírem o principal protagonismo ao Joker, que surge sorridente e destacado em ambas as capas. Capas essas em que Batman prima pela ausência. Mas a principal diferença entre a Piada Mortal e Joker, é uma diferença de ponto de vista do narrador. Enquanto Moore nos dava a conhecer as recordações do Joker, o que nos permitia perceber as suas motivações, em Joker, Azzarello opta por ter como narrador um pequeno criminoso, Jonny Frost, que vai servir como motorista do alucinado vilão, transmitindo por isso ao leitor uma perspectiva externa.
Depois da mini-série Broken City, publicada em Portugal pela Devir com o título Batman: Cidade Destroçada, Joker assinala o regresso de Azzarello a Gotham City e ao universo do Batman. Um universo onde, curiosamente, se aventurou pela primeira vez ao lado de Bermejo, na mini-série Batman/Deathblow: after the Fire, que juntava o Cavaleiro das Trevas ao mercenário criado por Jim Lee e Brandon Choi. Desta vez, Batman está muito menos presente (embora a sua sombra paire por todo o livro) mas mantém-se a aproximação realista, mais próxima do film noir do que das histórias de super-heróis, que faz do Croc não um mutante com genes de crocodilo, mas apenas um brutamontes com um sério problema de pele. Do mesmo modo, Harley Quinn a companheira do Joker que tinha surgido inicialmente na série de animação do Batman, num episódio escrito por Paul Dini e Bruce Timm, surge aqui numa versão muito realista e sensual, mesmo que, coisa rara numa personagem de Azzarello, que trabalha os diálogos como poucos autores, não a ouçamos dizer uma palavra… Também o Enigma nos aparece modernizado, trocando o uniforme de licra por um vestuário bastante mais urbano. O próprio Joker, acabado de sair do Asilo Arkham, comporta-se mais como um Senhor do Crime que pretende recuperar o seu território, do que como um simples louco, sem um objectivo lógico perceptível. O que não impede que a sua loucura se manifeste de forma assustadoramente inesquecível, sobretudo na violência exacerbada, que Bermejo traduz em imagens hiper-realistas capazes de perturbar os estômagos mais sensíveis.  
Talvez por o livro ter saído muito próximo da estreia de The Dark Knight, o segundo filme da trilogia cinematográfica que Cristopher Nolan dedicou ao Homem Morcego, houve quem visse no Joker de Azzarello e Bermejo, uma versão em papel do Joker magistralmente interpretado por Heath Ledger no cinema, mas as semelhanças entre o livro e o filme são apenas coincidência, pois Azzarello escreveu a história em 1986, dois anos antes do filme estrear, sem ter tido acesso ao argumento, o que não impede que um desenho que Bermejo fez para o site Batman on Film, em 2006, quando começou a trabalhar no livro, possa ter servido de inspiração aos responsáveis pela concepção visual do filme de Nolan.
  Se Azzarello constrói com grande eficácia uma história extremamente violenta de luta pelo poder, o maior responsável pela visão perturbadora que esta história transmite ao leitor é Lee Bermejo. O desenhador passou quase dois anos a desenhar as mais de cem páginas desta história, mas o resultado valeu a pena, mesmo que em alguns casos seja evidente o uso de referências fotográficas, como numa imagem em que o Joker aparece em contrapicado a apontar um revolver que apresenta grandes semelhanças com um dos mais emblemáticos planos do filme brasileiro Cidade de Deus.
 Alternando na mesma páginas imagens desenhadas a traço, com ilustrações em cor directa, Bermejo, contando com a arte-final de Mick Gray consegue imagens espectaculares, de um realismo perturbador, acentuado pelas cores sombrias de Patrícia Mulvihill, que já tinha sido a colorista de 100 Bullets. E, num livro cheio de pormenores, que justificam sucessivas leituras, não falta mesmo uma homenagem à Piada Mortal, na cena no restaurante italiano, em que o Joker a comer camarões numa mesa rodeado de bandidos, nos remete para uma cena idêntica num dos flash backs da Piada Mortal, só com a grande diferença que, em vez de um jovem inseguro, pressionado por um grupo de criminosos a participar no assalto que vai mudar a sua vida, desta vez é o Joker quem comanda o jogo.    

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Lá Fora - Before Watchmen


Se houve um projecto editorial recente no mercado americano rodeado pela polémica mal foi anunciado, esse projecto foi Before Watchmen. Um conjunto de prequelas ao clássico Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, publicadas contra a vontade expressa de Moore. O mesmo Alan Moore que estava de relações cortadas com a editora há muitos anos, precisamente por causa dos direitos de Watchmen, que aquando da publicação original da míni-série, em 1986, tinha ficado acordado que reverteriam para os seus autores, quando a série deixasse de estar disponível nas livrarias. Mas o problema é que a série nunca deixou de estar disponível  nas livrarias, sucedendo-se as reedições ao longo dos anos, que tornaram Watchmen a graphic novel mais vendida de todos os tempos. Um sucesso comercial que o filme de Zack Snider a partir da graphic novel, que muitos, incluindo o próprio Moore, consideravam impossível de adaptar ao cinema, só veio aumentar de forma exponencial.

Perante um sucesso comercial tão grande e tão dilatado no tempo, era só uma questão de tempo até que a editora DC decidisse explorar o universo de Watchmen em histórias originais. Tendo em conta que o final de Watchmen não deixava grande espaço para continuações, uma prequela era o caminho mais lógico e foi esse que a DC seguiu, envolvendo no projecto alguns dos maiores nomes dos Comics americanos.
Se Dave Gibbons deu a sua benção mais ou menos envergonhada ao projecto, já Moore fez questão de gritar bem alto a sua oposição, apelando ao boicote da série e a controvérsia não se fez esperar, pois se houve autores que apoiaram Moore, houve também quem lembrasse que Moore não tinha grande autoridade moral para criticar os autores que iam utilizar as suas personagens, quando ele próprio construiu grande parte da sua carreira a trabalhar com personagens que não foram criadas por si, e em casos como Lost Girls e The League of Extraordinary Gentlemen, utilizando-as de uma forma que certamente não agradaria muito aos criadores originais.
Mas este texto não é sobre a polémica, mas sim sobre os livros e, num momento em que falta apenas publicar o último número da míni-série Comedian e os volumes encadernados já estão anunciados para Junho, já se pode fazer um balanço deste projecto. Embora nenhuma das seis míni-séries principais atinja o nível do original (o que seria muito difícil, uma vez que estamos a falar de uma das melhores histórias de super-heróis de sempre), a verdade é que estamos perante livros sólidos, com alto nível de produção escritos e desenhados de forma no mínimo eficaz por grandes autores que encararam este projecto como uma forma de homenagear a série original.
Embora o trabalho gráfico seja do melhor que os diferentes desenhadores já fizeram, a verdade é que este é um projecto, acima de tudo, de argumentistas.

Darwyn Cooke além de escrever e desenhar a míni-série Minutemen, respeitando a planificação habitual de Dave Gibbons, de 3 tiras de 3 quadrados por página, assina também a míni-série Silk Spectre, maravilhosamente desenhada por Amanda Conner.Dois trabalhos com ambições diferentes, mas muito conseguidos.
Brian Azzarello escreveu as míni-séries dedicadas ao Comendian e a Rorschach, os dois personagens mais sombrios de Watchmen. Se Comedian, com desenhos de Gerard Jones, mostra a ligação do Comediante à família Kennedy, e a sua participação na morte de Marillyn Monroe, a mando de Jacqueline Kennedy, já Comedian, com desenhos espectaculares de Lee Bermejo, mostra o lado negro de Nova Iorque dos anos 70, em que Roschach se cruza com Travis Bickle, o Taxi Driver do filme de Martin Scorcese. Se Roscharch é uma história policial simples, que tem lugar antes dos acontecimentos
de Watchmen, já Comedian tem um âmbito mais vasto, fazendo a ligação entre a história pessoal do Comediante e a história da América, num percurso que vai do fim do sonho americano, com a morte  de Kennedy (em que o Comediante não está envolvido, ao contrário do que insinua Moore na série original), até ao pesadelo da guerra do Vietnam.
J. M. Straczynski assina o argumento de outras duas mini-séries, Nite Owl e Dr. Manhattan. A primeira, ilustrada por Andy Kubert, com arte final do seu pai, Joe Kubert, que faleceu durante a publicação da série e teve que ser substituido por Bill Sienkiewicz, é talvez a menos interessante de todas as mini-séries, esperando-se mais dos nomes envolvidos. Já em Dr. Manhattam, Straczynski vai mais longe do que Alan Moore, jogando com as imensas possibilidades de uma personagem como o Dr. Manhattan, numa história inteligente, que joga com os paradoxos do espaço e do tempo, muito bem ilustrada por Adam Huges.
Por último, Len Wein, que tinha sido editor de Alan Moore na série Watchmen e na sua passagem pela série Swamp Thing, assina a mini-série dedicada a Ozymandias que, mais do que pela história, vale pela forma como Jae Lee trabalha as páginas, em composições magníficas. Também é de Wein o argumento da história Crimson Corsair, a história de piratas que os personagens de Watchmen liam nas revistas e que aqui corre paralela às várias mini-séries, em capítulos de 2 páginas em continuação. Como decidi esperar pelo volume encadernado para ler a história toda de seguida, apenas me posso referir ao desenho de John Higgins, que tinha sido o colorista original de Watchmen e que aqui se revela um desenhador bastante competente.
Face ao sucesso de vendas, já com as séries em publicação, foram anunciadas mais duas revistas. Moloch, uma mini-série em 2 números dedicada ao principal vilão de Watchmen, escrita por Straczynski para o traço inimitável de Eduardo Risso, o desenhador de Chicanos e 100 Bullets, e Dollar Bill, um one-shot dedicado ao malogrado super-herói, escrito por Len Wein, com desenhos cheios de elegância e de glamour de Steve Rude.  
Se qualquer um dos argumentistas envolvidos já fez melhor do que mostra na sua participação neste projecto, já em termos de desenho não se pode dizer o mesmo, pois desenhadores como Amanda Conner, Jae Lee e Lee Bermejo assinam aqui dos seus melhores trabalhos, muito bem servidos por excelentes trabalhos de cor.
Em suma, mesmo que Before Watchmen não vá ficar na história como ficou a BD que lhe deu origem, este é um projecto que mostra um grande respeito pela BD original, esmiuçando de forma eficaz e coerente, o passado das personagens que Moore e Gibbons apenas tinham esboçado.