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sábado, 19 de abril de 2014
Lá Fora - Charly 9, de Richard Guerineau e Jean Teulé
Publicado em França em finais do ano passado pela Delcourt, Charly 9 adapta à BD o romance de Jean Teulé sobre o Rei Carlos IX de França, que entrou para a História como o responsável pelo famoso massacre da noite de São Bartolomeu, em que vários milhares de protestantes huguenotes foram chacinados em Paris, por ordem da Coroa francesa, às mãos de católicos fervorosos. Uma personagem trágica que, perseguida pelos remorsos, vai morrer louco um ano depois, a suar sangue, com apenas 23 anos.
Este episódio sangrento da História de França, ocorrido na noite de 23 para 24 de Agosto de 1572, dia de São Bartolomeu, inspirou diversas obras de ficção, começando pelo livro A Raínha Margot, de Alexandre Dumas, (é a Dumas que se deve a propagação da lenda de que o Rei Carlos IX teria morrido a suar sangue, informação não referida na autópsia) adaptado ao cinema num filme de Patrice Cheréau, com Isabelle Adjani, particialmente filmado em Portugal, no Convento de Mafra. Também George R. R. Martin foi buscar inspiração nesta tragédia real para a famosa cena do Casamento Vermelho, um dos momentos mais perturbadores da saga da Guerra dos Tronos. Mais recentemente, em 2011, o escritor francês Jean Teulé utilizou o mesmo ponto de partida para a biografia romanceada de Carlos IX, que esteve na base da BD de Richard Guérineau, que motiva este texto.
Nomeado para os últimos Prémios de Angoulême, Charly 9 acabou por não ganhar nada, o que me pareceu uma injustiça, pois trata-se de um excelente livro, dos melhores que li este ano, que explora de uma forma surpreendente as imensas potencialidades da linguagem da Banda Desenhada.
Tão mais surpreendente, pois os trabalhos anteriores de Guérineau não deixavam antever tamanha versatilidade e uma utilização tão criativa da herança clássica da BD franco-belga, que se adapta muito bem ao humor do texto original de Teulé, onde a comédia e a tragédia andam a par, bem evidente logo na cena inicial, em que a Raínha-mãe, Catarina de Médicis, e o resto da Corte manipulam o jovem Rei para ele dar a sua autorização para o massacre.
Nascido em 1969, Guérineau é conhecido sobretudo pelo seu trabalho como desenhador na série Le Chant des Stryges, escrita por Éric Corbeyran, tendo desenhado recentemente um álbum da série XIII Mystery, com argumento de Fabien Nury. Em ambos os casos, o seu trabalho mostrava um registo realista bastante clássico, que não deixava adivinhar tamanha versatilidade gráfica.
Mas,muito mais do que uma mera demonstração de virtuosismo vazia, Guérineau pretende, nas suas próprias palvras, "dar conta das mudanças de registo do texto de Teulé, através de rupturas gráficas, seguindo os capítulos, em tormo dos temas da morte, da loucura e do sangue".
E essas rupturas são bem evidentes, com o resgisto mais realista da cena inicial, em que o dramatismo é dado sobretudo pela cor e pela iluminação, a ser posteriormente substituído por cenas de alto contraste, quase monocromáticas, com um grau de estilização que não está longe do Sin City de Frank Miller, que transmitem bem a dimensão do massacre. Mas o mais curioso, são mesmo as homenagens inesperadas a Morris, o criador de Lucky Luke e, sobretudo a Peyo, com a descrição de uma caçada do Rei a ser mostrada como se se tratasse de uma história de Johan e Pirlouit.
Como referiu numa entrevista à revista Casemate: "Com Charly 9, tinha vontade de mudar de época, de registo gráfico. Mas também de formato, com menos quadrados por prancha e, de tempos a tempos, com desenhos de página inteira. Perante a rotina de uma série como Le Vent des Stryges, estas histórias completas tornaram-se uma necessidade."
Face aos resultados conseguidos com este Charly 9, esperemos que Guérineau continue a intervalar os álbum de Le Chant des Stryges, série que já vai em 15 volumes, com as histórias em álbum que lhe permitem mudar de registo.
Os leitores agradecem!
E para terminar, deixo-vos com o belo trailler feito pela Editora para divulgar este livro.
Charly 9, de Teulé e Guerineau, Delcourt, 2013. à venda na Livraria Dr. Kartoon
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Regresso a Angoulême
Começa na próxima quinta-feira, dia 30 de Janeiro, mais uma edição, a 41ª do Festival Internacional da BD de Angoulême, o maior Festival europeu do género. Fui a Angoulême pela primeira vez em 1991, já lá vão mais de vinte anos. Desde então tenho ido ao Festival de Angoulême com alguma regularidade, mas curiosamente, a última vez que estive em Angoulême, foi também a única fora do período do Festival. Aconteceu em Dezembro de 2010, por ocasião da exposição que o novo Museu da BD de Angoulême dedicou a José Carlos Fernandes, aquando da edição em França pela Cambourakis dos dois primeiros volumes da Pior Banda do Mundo.
Desde que comecei a dar aulas na ESAP - Guimarães, em 2011, têm-me sido impossível conciliar as aulas com as datas do Festival, até que este ano, consegui alterar o meu horário de maneira a poder finalmente regressar a Angoulême. E vou precisamente com dois meus antigos alunos de Mestrado em Guimarães.
Se o tempo e as redes Wireless ajudarem, conto ir dando aqui conta do que se passar no Festival. Se não, fica prometida uma reportagem para o meu regresso.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Lá Fora - Before Watchmen
Se houve um projecto editorial recente no mercado americano rodeado pela polémica mal foi anunciado, esse projecto foi Before Watchmen. Um conjunto de prequelas ao clássico Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, publicadas contra a vontade expressa de Moore. O mesmo Alan Moore que estava de relações cortadas com a editora há muitos anos, precisamente por causa dos direitos de Watchmen, que aquando da publicação original da míni-série, em 1986, tinha ficado acordado que reverteriam para os seus autores, quando a série deixasse de estar disponível nas livrarias. Mas o problema é que a série nunca deixou de estar disponível nas livrarias, sucedendo-se as reedições ao longo dos anos, que tornaram Watchmen a graphic novel mais vendida de todos os tempos. Um sucesso comercial que o filme de Zack Snider a partir da graphic novel, que muitos, incluindo o próprio Moore, consideravam impossível de adaptar ao cinema, só veio aumentar de forma exponencial.
Perante um sucesso comercial tão grande e tão dilatado no tempo, era só uma questão de tempo até que a editora DC decidisse explorar o universo de Watchmen em histórias originais. Tendo em conta que o final de Watchmen não deixava grande espaço para continuações, uma prequela era o caminho mais lógico e foi esse que a DC seguiu, envolvendo no projecto alguns dos maiores nomes dos Comics americanos.
Se Dave Gibbons deu a sua benção mais ou menos envergonhada ao projecto, já Moore fez questão de gritar bem alto a sua oposição, apelando ao boicote da série e a controvérsia não se fez esperar, pois se houve autores que apoiaram Moore, houve também quem lembrasse que Moore não tinha grande autoridade moral para criticar os autores que iam utilizar as suas personagens, quando ele próprio construiu grande parte da sua carreira a trabalhar com personagens que não foram criadas por si, e em casos como Lost Girls e The League of Extraordinary Gentlemen, utilizando-as de uma forma que certamente não agradaria muito aos criadores originais.
Mas este texto não é sobre a polémica, mas sim sobre os livros e, num momento em que falta apenas publicar o último número da míni-série Comedian e os volumes encadernados já estão anunciados para Junho, já se pode fazer um balanço deste projecto. Embora nenhuma das seis míni-séries principais atinja o nível do original (o que seria muito difícil, uma vez que estamos a falar de uma das melhores histórias de super-heróis de sempre), a verdade é que estamos perante livros sólidos, com alto nível de produção escritos e desenhados de forma no mínimo eficaz por grandes autores que encararam este projecto como uma forma de homenagear a série original.
Embora o trabalho gráfico seja do melhor que os diferentes desenhadores já fizeram, a verdade é que este é um projecto, acima de tudo, de argumentistas.
Darwyn Cooke além de escrever e desenhar a míni-série Minutemen, respeitando a planificação habitual de Dave Gibbons, de 3 tiras de 3 quadrados por página, assina também a míni-série Silk Spectre, maravilhosamente desenhada por Amanda Conner.Dois trabalhos com ambições diferentes, mas muito conseguidos.
Brian Azzarello escreveu as míni-séries dedicadas ao Comendian e a Rorschach, os dois personagens mais sombrios de Watchmen. Se Comedian, com desenhos de Gerard Jones, mostra a ligação do Comediante à família Kennedy, e a sua participação na morte de Marillyn Monroe, a mando de Jacqueline Kennedy, já Comedian, com desenhos espectaculares de Lee Bermejo, mostra o lado negro de Nova Iorque dos anos 70, em que Roschach se cruza com Travis Bickle, o Taxi Driver do filme de Martin Scorcese. Se Roscharch é uma história policial simples, que tem lugar antes dos acontecimentos
de Watchmen, já Comedian tem um âmbito mais vasto, fazendo a ligação entre a história pessoal do Comediante e a história da América, num percurso que vai do fim do sonho americano, com a morte de Kennedy (em que o Comediante não está envolvido, ao contrário do que insinua Moore na série original), até ao pesadelo da guerra do Vietnam.
J. M. Straczynski assina o argumento de outras duas mini-séries, Nite Owl e Dr. Manhattan. A primeira, ilustrada por Andy Kubert, com arte final do seu pai, Joe Kubert, que faleceu durante a publicação da série e teve que ser substituido por Bill Sienkiewicz, é talvez a menos interessante de todas as mini-séries, esperando-se mais dos nomes envolvidos. Já em Dr. Manhattam, Straczynski vai mais longe do que Alan Moore, jogando com as imensas possibilidades de uma personagem como o Dr. Manhattan, numa história inteligente, que joga com os paradoxos do espaço e do tempo, muito bem ilustrada por Adam Huges.
Por último, Len Wein, que tinha sido editor de Alan Moore na série Watchmen e na sua passagem pela série Swamp Thing, assina a mini-série dedicada a Ozymandias que, mais do que pela história, vale pela forma como Jae Lee trabalha as páginas, em composições magníficas. Também é de Wein o argumento da história Crimson Corsair, a história de piratas que os personagens de Watchmen liam nas revistas e que aqui corre paralela às várias mini-séries, em capítulos de 2 páginas em continuação. Como decidi esperar pelo volume encadernado para ler a história toda de seguida, apenas me posso referir ao desenho de John Higgins, que tinha sido o colorista original de Watchmen e que aqui se revela um desenhador bastante competente.
Face ao sucesso de vendas, já com as séries em publicação, foram anunciadas mais duas revistas. Moloch, uma mini-série em 2 números dedicada ao principal vilão de Watchmen, escrita por Straczynski para o traço inimitável de Eduardo Risso, o desenhador de Chicanos e 100 Bullets, e Dollar Bill, um one-shot dedicado ao malogrado super-herói, escrito por Len Wein, com desenhos cheios de elegância e de glamour de Steve Rude.
Se qualquer um dos argumentistas envolvidos já fez melhor do que mostra na sua participação neste projecto, já em termos de desenho não se pode dizer o mesmo, pois desenhadores como Amanda Conner, Jae Lee e Lee Bermejo assinam aqui dos seus melhores trabalhos, muito bem servidos por excelentes trabalhos de cor.
Em suma, mesmo que Before Watchmen não vá ficar na história como ficou a BD que lhe deu origem, este é um projecto que mostra um grande respeito pela BD original, esmiuçando de forma eficaz e coerente, o passado das personagens que Moore e Gibbons apenas tinham esboçado.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Jerry Robinson - 1922 - 2011
Jerry Robinson, o criador do Joker, o mais carismáticos dos inimigos de Batman, faleceu na passada quarta-feira, 6 de Dezembro, aos 89 anos de idade. Para além de, desaparecidos Jack Kirby, Bob Kane e Will Eisner, ser um dos últimos representantes ainda vivos da época de ouro dos comics americanos, Robinson foi um estudioso da Banda Desenhada, tendo publicado em 1971 o livro Comics, uma excelente história da Banda Desenhada americana, reeditada este ano pela Dark Horse, numa edição revista e actualizada, e organizado inúmeras exposições de, e sobre, Banda Desenhada, nos EUA e no resto do mundo, incluíndo em Portugal, onde foi, com João P. Boléo, comissário da Exposição dedicada aos Super-Heróis, patente na edição do Festival da Amadora de 2000.
Mas já antes disso, em 1996 e também em 1992, Robinson tinha passado pelo Festival da Amadora, com uma exposição individual sobre o seu trabalho na série "Batman". Foi nessa primeira ocasião que o entrevistei, com o João Ramalho Santos, para o programa Balada do Mar Salgado, da Rádio Universidade de Coimbra e recordo um indivíduo de grande simpatia e inteligência e excelente conversador.
Robinson, que foi também professor na School of Visual Arts, de Nova Iorque, tal como Will Eisner, foi dos primeiros criadores a ter noção da importância dos originais de Banda Desenhada, como documento histórico e objecto artístico, o que lhe permitiu salvar a maioria das pranchas e capas que desenhou, numa altura em que as gráficas destruiam os originais depois de imprimirem os livros, entre as quais a famosa a primeira capa da revista Detective Comics com a primeira aparição do Joker, leiloada o ano passado.
Presidente do sindicato dos cartoonistas americanos durante algum tempo, Robinson bateu-se sempre pelos direitos dos criadores, tendo sido um dos responsáveis pela pensão que a DC Comics atribuiu a Jerry Siegel e Joe Shuster, aquando da estreia do primeiro filme de Superman.
* Agradecimentos ao Pedro Mota, pelas correcções
Mas já antes disso, em 1996 e também em 1992, Robinson tinha passado pelo Festival da Amadora, com uma exposição individual sobre o seu trabalho na série "Batman". Foi nessa primeira ocasião que o entrevistei, com o João Ramalho Santos, para o programa Balada do Mar Salgado, da Rádio Universidade de Coimbra e recordo um indivíduo de grande simpatia e inteligência e excelente conversador.
Robinson, que foi também professor na School of Visual Arts, de Nova Iorque, tal como Will Eisner, foi dos primeiros criadores a ter noção da importância dos originais de Banda Desenhada, como documento histórico e objecto artístico, o que lhe permitiu salvar a maioria das pranchas e capas que desenhou, numa altura em que as gráficas destruiam os originais depois de imprimirem os livros, entre as quais a famosa a primeira capa da revista Detective Comics com a primeira aparição do Joker, leiloada o ano passado.
Presidente do sindicato dos cartoonistas americanos durante algum tempo, Robinson bateu-se sempre pelos direitos dos criadores, tendo sido um dos responsáveis pela pensão que a DC Comics atribuiu a Jerry Siegel e Joe Shuster, aquando da estreia do primeiro filme de Superman.
* Agradecimentos ao Pedro Mota, pelas correcções
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Frank Miller regressa com Holly Terror
Precisamente dez anos depois dos atentados ao World Trade Center de 11 de Setembro de 2001, chegou às livrarias americanas, "Holy Terror", uma novela gráfica de Frank Miller, em que o criador de "Sin City" aborda a problemática do terrorismo islâmico. Reacção visceral de um novaiorquino aos atentados que mutilaram a sua cidade, Holy Terror foi inicialmente pensada como uma história de Batman, mas que surge agora protagonizado por "The Fixer", um novo herói mascarado, cujas semelhanças com o Batman são mais do que mera coincidência...
Segundo declarou em várias entrevistas, Miller decidiu retirar Batman da história, pois a evolução da personagem levou-a a um tipo de comportamento de tal modo violento, que era difícil de encaixar na imagem de Batman, mas quanto a mim, a saída de Bob Schreck da DC Comics, também teve um papel importante e talvez até decisivo. Schreck, que foi editor de Frank Miller na Dark Horse, é um dos seus melhores amigos e foi ele, enquanto editor das revistas do Batman, o responsável pelo regresso de Miller às histórias de Batman, com os polémicos "Dark Knight Strikes Again" e "All Star Batman & Robin". O anúncio de que Holy Terror já não seria uma história de Batman, surgiu quando Bob Schreck já não estava na DC e, não por acaso, a história acaba por ser publicada, não pela Dark horse, editora habitual dos projectos mais autorais de Miller, mas sim pela Legendary Comics, que tem como editor-chefe, adivinharam, Bob Schreck. E "Holy Terror" é o título de estreia de uma nova editora, criada pela produtora cinematográfica que esteve ligada a vários filmes inspirados em BDs, como o "300" de Zack Snyder, a a partir da BD de Frank Miller, ou os Batmans de Cristopher Nolan.
Falando do livro, propriamente dito, Miller continua igual a si próprio e trata a questão do terrorismo islâmico com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas e aqueles que acharam que o Batman de "The Dark Knight Returns" era fascista, vão espumar com este "Holy Terror".
Graficamente, "Holy Terror" é um Batman em Sin City, publicado no mesmo formato italiano (na horizontal) de "300". Usando um preto e branco contrastado, com pequenos apontamentos de cor (as sapatilhas e os olhos de Cat Burgler, por exemplo) Miller alterna as páginas memoráveis, com outras mais "a despachar", mas não faltam imagens espectaculares e sequências muito bem conseguidas, como as cenas no meio da tempestade, ou as caras das vítimas dos atentados que vão gradualmente desaparecendo até dar lugar a páginas cheias de pequenos quadrados brancos.
Pensada como uma história de Batman (Cat Bulgral era obviamente a Catwoman, Dan Donegal era o Comissário Gordon, com cabelo preto e o Robinson Park faz parte da toponimia de Gotham City, aqui transformada em Empire City), parece-me que "Holy Terror" funcionaria melhor como uma história de Batman, do que como uma aventura deste novo herói que Miller nem se deu ao trabalho de desenvolver minmamente.
Embora "Holy Terror", com todos os seus defeitos, virtudes e desiquilibrios, não seja o regresso de Frank Miller aos seus tempos de glória, ainda assim não deixa de ser um prazer ver Miller fazer aquilo que faz melhor, escrever e desenhar Banda Desenhada. Sobretudo depois do verdadeiro desastre que foi a sua estreia a solo no cinema, como realizador de "The Spirit"...
Frank Miller's Holy Terror, Legendary Comics, 120 páginas a 2 cores, 29,95 €
Segundo declarou em várias entrevistas, Miller decidiu retirar Batman da história, pois a evolução da personagem levou-a a um tipo de comportamento de tal modo violento, que era difícil de encaixar na imagem de Batman, mas quanto a mim, a saída de Bob Schreck da DC Comics, também teve um papel importante e talvez até decisivo. Schreck, que foi editor de Frank Miller na Dark Horse, é um dos seus melhores amigos e foi ele, enquanto editor das revistas do Batman, o responsável pelo regresso de Miller às histórias de Batman, com os polémicos "Dark Knight Strikes Again" e "All Star Batman & Robin". O anúncio de que Holy Terror já não seria uma história de Batman, surgiu quando Bob Schreck já não estava na DC e, não por acaso, a história acaba por ser publicada, não pela Dark horse, editora habitual dos projectos mais autorais de Miller, mas sim pela Legendary Comics, que tem como editor-chefe, adivinharam, Bob Schreck. E "Holy Terror" é o título de estreia de uma nova editora, criada pela produtora cinematográfica que esteve ligada a vários filmes inspirados em BDs, como o "300" de Zack Snyder, a a partir da BD de Frank Miller, ou os Batmans de Cristopher Nolan.
Falando do livro, propriamente dito, Miller continua igual a si próprio e trata a questão do terrorismo islâmico com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas e aqueles que acharam que o Batman de "The Dark Knight Returns" era fascista, vão espumar com este "Holy Terror".
Graficamente, "Holy Terror" é um Batman em Sin City, publicado no mesmo formato italiano (na horizontal) de "300". Usando um preto e branco contrastado, com pequenos apontamentos de cor (as sapatilhas e os olhos de Cat Burgler, por exemplo) Miller alterna as páginas memoráveis, com outras mais "a despachar", mas não faltam imagens espectaculares e sequências muito bem conseguidas, como as cenas no meio da tempestade, ou as caras das vítimas dos atentados que vão gradualmente desaparecendo até dar lugar a páginas cheias de pequenos quadrados brancos.
Pensada como uma história de Batman (Cat Bulgral era obviamente a Catwoman, Dan Donegal era o Comissário Gordon, com cabelo preto e o Robinson Park faz parte da toponimia de Gotham City, aqui transformada em Empire City), parece-me que "Holy Terror" funcionaria melhor como uma história de Batman, do que como uma aventura deste novo herói que Miller nem se deu ao trabalho de desenvolver minmamente.
Embora "Holy Terror", com todos os seus defeitos, virtudes e desiquilibrios, não seja o regresso de Frank Miller aos seus tempos de glória, ainda assim não deixa de ser um prazer ver Miller fazer aquilo que faz melhor, escrever e desenhar Banda Desenhada. Sobretudo depois do verdadeiro desastre que foi a sua estreia a solo no cinema, como realizador de "The Spirit"...
Frank Miller's Holy Terror, Legendary Comics, 120 páginas a 2 cores, 29,95 €
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Relançamento do Universo DC
Este mês de Setembro, a maioria das revistas do Universo DC (mais exactamente 52) recomeçam a partir do nº 1, em muitos casos, com novas versões dos personagens clássicos e novas equipas criativas, com destaque para Jim Lee e Geof Johns na Justice League e Grant Morrison como argumentista da revista Action Comics. Além disso, alguns personagens da Vertigo, como o Swamp Thing e Animal Man são incorporados no Universo DC.
À partida, esta poderá ser uma boa maneira de conquistar novos leitores, que têm uma óptima oportunidade de acompanhar as séries desde o início, sem estarem presos a uma continuidade complexa e por vezes contraditória. Confesso que ainda não vi nenhuma das novas revistas, nem é coisa que me tire o sono, mas se quiserem poderão facilmente saber mais, acompanhando a cobertura que o Bongop tem dado à coisa no seu blog, Leituras de BD.
Por enquanto, o esforço que a DC tem feito na divulgação das novas séries, com grande cobertura mediática e traillers para divulgar os títulos menos conhecidos, parece estar a resultar, com várias das revistas a esgotarem no primeiro dia em que são postas à venda.
Mas confesso que o que me levou a falar disto aqui, foi este divertido vídeo não oficial:
À partida, esta poderá ser uma boa maneira de conquistar novos leitores, que têm uma óptima oportunidade de acompanhar as séries desde o início, sem estarem presos a uma continuidade complexa e por vezes contraditória. Confesso que ainda não vi nenhuma das novas revistas, nem é coisa que me tire o sono, mas se quiserem poderão facilmente saber mais, acompanhando a cobertura que o Bongop tem dado à coisa no seu blog, Leituras de BD.
Por enquanto, o esforço que a DC tem feito na divulgação das novas séries, com grande cobertura mediática e traillers para divulgar os títulos menos conhecidos, parece estar a resultar, com várias das revistas a esgotarem no primeiro dia em que são postas à venda.
Mas confesso que o que me levou a falar disto aqui, foi este divertido vídeo não oficial:
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Sambre VI
Oito anos depois de Maudit Soit le Fruit de vos Entrailles, Yslaire regressa finalmente à série Sambre como desenhador, com La Mer vue du Purgatoire, sexto álbum da série principal e segundo volume do ciclo dedicado à terceira geração da família Sambre, em que, morto Bernard Sambre na Comuna de Paris, seguimos o destino de Julie e de Bernard-Marie, o filho de ambos.
Obra maior de Yslaire, um dos mais elegantes desenhadores de expressão francesa, este drama hiper-romântico foi um notável sucesso em França, deixando um grande número de leitores completamente suspenso, durante anos a fio, dos amores contrariados de Bernard e Julie, dois amantes separados pela condição social, por ódios familiares e por uma série de trágicos incidentes. Uma história complexa, pensada em conjunto com Balac (nome que esconde o prolífico argumentista Yann, autor, por exemplo de Pin Up), mas que o próprio Yslaire se encarregou de contar sózinho a partir do 2º volume da série.
Nascido em Bruxelas em 1957, Bernard Hislaire estreou-se na BD no fanzine “Robidule”, enquanto frequentava a Escola de Saint-Luc em Bruxelas, por onde passaram outros grandes nomes da BD, como Schuiten, Berthet e Andreas. A sua afirmação como profissional de BD faz-se na revista Spirou, em 1978, com a série Bidouille e Violette, uma comédia romântica de que sairam 4 álbuns. Artista inquieto e irrequieto, Hislaire sentia-se, segundo as suas próprias palavras: “cansado da ditadura da linha clara que não permite qualquer tipo de sombra, nem em termos gráficos nem a nível do argumento. Cansado daquelas personagens cuja psicologia é de tal modo limpida, que são inexistentes. Eu precisava de contrastes da luz e da sombra, do dito e do não-dito. Há em todo o ser humano uma parte de mistério, de sombra e de morte, que não percebo porque é que a BD não tem em conta”.
A série Sambre, iniciada em 1985 traduz essa vontade de mudança, visível até na alteração da assinatura do autor, que passa a assinar Yslaire. Como ele próprio refere “queria contar uma história de amor, mas num registo diferente de “Bidouille e Violette”. Uma história sem humor, sem duplos sentidos e que seria tão romântica como trágica. Eu e Balac decidimos situar a acção no século XIX, porque é a grande época do romantismo e porque a juventude da época estava animada por grandes paixões; havia um forte empenhamento pela liberdade, as pessoas estavam dispostas a morrer nas barricadas pelos seus ideais”. E tirando o ambiente mais campestre da casa dos Sambre (inspirada na casa da família de uma antiga namorada de Yslaire) em que decorre o 1º volume, o resto da série vai ter precisamente como principal cenário o ambiente de revolução da Comuna de Paris, que pôs a capital de França a ferro e fogo em 1848.
Sambre é um grande fresco, épico, feito de dramas familiares, ódios ancestrais, amores loucos, passado numa época conturbada. Uma história maior do que a vida, de um romantismo desmesurado, em que o amor e a morte estão sempre presentes, como na cena fulcral do 1º álbum em que Bernard e Julie fazem amor no jazigo da família Sambre, sobre o túmulo de pai de Bernard. Uma saga que a paleta de Yslaire, limitada aqui aos vermelhos, cinzas e negros, trata como ninguém, acentuando precisamente esses jogos de sombras que faltavam à “linha clara”. E o trabalho de Yslaire é absolutamente deslumbrante em termos visuais, com o autor a libertar-se facilmente das características caricaturais ainda detectáveis no seu traço e a revelar um notável sentido cenográfico e de planificação, que irá melhorar de álbum para álbum.
Depois de ter desenhado os 4 primeiros volumes, Yslaire abandonou temporariamente Sambre para se dedicar às Memoires du XXeéme Ciel, uma revisitação da História do século XIX através dos e-mails trocados entre um anjo e uma psicanalista, mas acabou de voltar á série, com um quinto volume, publicado em 2003, que inicia um novo ciclo, passado dez anos depois, centrado em Julie e no seu filho, Bernard-Marie.
Se os 4 primeiros álbuns da série saíram em português, pela Witloof, o 5º álbum nunca teve edição nacional e muitos leitores portugueses pensaram que a série terminava com a morte de Bernard. Uma dúvida que assaltaria os leitores franceses após a publicação do 5º álbum, pois Yslaire trocou a série Sambre por outros projectos, como a reedição (com grandes alterações) de XXéme Ciel, o díptico Le Ciel au-dessus de Bruxelles e o projecto Le Ciel au-dessus du Louvre, um álbum encomendado pelo Museu do Louvre, em que Yslaire colabora com Jean-Claude Carriére, argumentista dos últimos filmes de Luis Buñuel, como Belle de Jour
O regresso a Sambre dá-se, não com a série principal, mas com La Guerre des Sambre, uma série paralela, constituída por vários ciclos de 3 álbuns, escrita e planificada por Yslaire, mas ilustrada por outros desenhadores, que desenvolve diferentes ramos da árvore genealógica da família Sambre. O primeiro ciclo, dedicado à paixão de Hugo Sambre, o pai de Bernard, por Iris, uma cantora de olhos vermelhos, magnificamente ilustrado por Bastide e Mèzil, dois jovens autores saídos da escola de Saint-Luc, foi publicado entre 2007 e 2009, tendo já saído o primeiro volume de um novo ciclo, Werner & Charlotte, ilustrado por Marc-Antoine Boidin, que ainda não tive ocasião de ler.
Mas o que interessa agora é o 6º volume da série principal, em que Julie dividida entre a memória de Bernard, que a persegue, e a vontade de viver, vê naufragar o barco que a levava desterrada para a Guiana, sendo salva por um faroleiro, que tambem ele tenta esquecer um amor infeliz.
Se em termos de história, tudo se mantém dentro do habitual, numa história trágica, carregada de simbolismo e de citações (e por falar nisso, dou um doce a quem identificar o quadro que Yslaire homenageia nesta imagem aqui ao lado), em termos gráficos, são claras as melhorias em relação ao tomo 5, em que o traço de Yslaire parecia apressado e longe do extraordinário virtuosismo que se lhe reconhece. Aliás, este é bem capaz de ser o álbum mais bem desenhado da série, com imagens belíssimas e páginas magníficas, em que Yslaire, que agora desenha directamente no computador, está ao seu melhor nível. E para apreciar devidamente a sua técnica de desenho, nada melhor do que este vídeo, em que Yslaire desenha ao vivo.
Sambre VI: La Mer vue du Purgatoire, de Yslaire, Glenat, 64 pags, 16,20 € na Livraria Dr. Kartoon
Obra maior de Yslaire, um dos mais elegantes desenhadores de expressão francesa, este drama hiper-romântico foi um notável sucesso em França, deixando um grande número de leitores completamente suspenso, durante anos a fio, dos amores contrariados de Bernard e Julie, dois amantes separados pela condição social, por ódios familiares e por uma série de trágicos incidentes. Uma história complexa, pensada em conjunto com Balac (nome que esconde o prolífico argumentista Yann, autor, por exemplo de Pin Up), mas que o próprio Yslaire se encarregou de contar sózinho a partir do 2º volume da série.
Nascido em Bruxelas em 1957, Bernard Hislaire estreou-se na BD no fanzine “Robidule”, enquanto frequentava a Escola de Saint-Luc em Bruxelas, por onde passaram outros grandes nomes da BD, como Schuiten, Berthet e Andreas. A sua afirmação como profissional de BD faz-se na revista Spirou, em 1978, com a série Bidouille e Violette, uma comédia romântica de que sairam 4 álbuns. Artista inquieto e irrequieto, Hislaire sentia-se, segundo as suas próprias palavras: “cansado da ditadura da linha clara que não permite qualquer tipo de sombra, nem em termos gráficos nem a nível do argumento. Cansado daquelas personagens cuja psicologia é de tal modo limpida, que são inexistentes. Eu precisava de contrastes da luz e da sombra, do dito e do não-dito. Há em todo o ser humano uma parte de mistério, de sombra e de morte, que não percebo porque é que a BD não tem em conta”.
A série Sambre, iniciada em 1985 traduz essa vontade de mudança, visível até na alteração da assinatura do autor, que passa a assinar Yslaire. Como ele próprio refere “queria contar uma história de amor, mas num registo diferente de “Bidouille e Violette”. Uma história sem humor, sem duplos sentidos e que seria tão romântica como trágica. Eu e Balac decidimos situar a acção no século XIX, porque é a grande época do romantismo e porque a juventude da época estava animada por grandes paixões; havia um forte empenhamento pela liberdade, as pessoas estavam dispostas a morrer nas barricadas pelos seus ideais”. E tirando o ambiente mais campestre da casa dos Sambre (inspirada na casa da família de uma antiga namorada de Yslaire) em que decorre o 1º volume, o resto da série vai ter precisamente como principal cenário o ambiente de revolução da Comuna de Paris, que pôs a capital de França a ferro e fogo em 1848.
Sambre é um grande fresco, épico, feito de dramas familiares, ódios ancestrais, amores loucos, passado numa época conturbada. Uma história maior do que a vida, de um romantismo desmesurado, em que o amor e a morte estão sempre presentes, como na cena fulcral do 1º álbum em que Bernard e Julie fazem amor no jazigo da família Sambre, sobre o túmulo de pai de Bernard. Uma saga que a paleta de Yslaire, limitada aqui aos vermelhos, cinzas e negros, trata como ninguém, acentuando precisamente esses jogos de sombras que faltavam à “linha clara”. E o trabalho de Yslaire é absolutamente deslumbrante em termos visuais, com o autor a libertar-se facilmente das características caricaturais ainda detectáveis no seu traço e a revelar um notável sentido cenográfico e de planificação, que irá melhorar de álbum para álbum.
Depois de ter desenhado os 4 primeiros volumes, Yslaire abandonou temporariamente Sambre para se dedicar às Memoires du XXeéme Ciel, uma revisitação da História do século XIX através dos e-mails trocados entre um anjo e uma psicanalista, mas acabou de voltar á série, com um quinto volume, publicado em 2003, que inicia um novo ciclo, passado dez anos depois, centrado em Julie e no seu filho, Bernard-Marie.
Se os 4 primeiros álbuns da série saíram em português, pela Witloof, o 5º álbum nunca teve edição nacional e muitos leitores portugueses pensaram que a série terminava com a morte de Bernard. Uma dúvida que assaltaria os leitores franceses após a publicação do 5º álbum, pois Yslaire trocou a série Sambre por outros projectos, como a reedição (com grandes alterações) de XXéme Ciel, o díptico Le Ciel au-dessus de Bruxelles e o projecto Le Ciel au-dessus du Louvre, um álbum encomendado pelo Museu do Louvre, em que Yslaire colabora com Jean-Claude Carriére, argumentista dos últimos filmes de Luis Buñuel, como Belle de Jour
O regresso a Sambre dá-se, não com a série principal, mas com La Guerre des Sambre, uma série paralela, constituída por vários ciclos de 3 álbuns, escrita e planificada por Yslaire, mas ilustrada por outros desenhadores, que desenvolve diferentes ramos da árvore genealógica da família Sambre. O primeiro ciclo, dedicado à paixão de Hugo Sambre, o pai de Bernard, por Iris, uma cantora de olhos vermelhos, magnificamente ilustrado por Bastide e Mèzil, dois jovens autores saídos da escola de Saint-Luc, foi publicado entre 2007 e 2009, tendo já saído o primeiro volume de um novo ciclo, Werner & Charlotte, ilustrado por Marc-Antoine Boidin, que ainda não tive ocasião de ler.
Mas o que interessa agora é o 6º volume da série principal, em que Julie dividida entre a memória de Bernard, que a persegue, e a vontade de viver, vê naufragar o barco que a levava desterrada para a Guiana, sendo salva por um faroleiro, que tambem ele tenta esquecer um amor infeliz.
Se em termos de história, tudo se mantém dentro do habitual, numa história trágica, carregada de simbolismo e de citações (e por falar nisso, dou um doce a quem identificar o quadro que Yslaire homenageia nesta imagem aqui ao lado), em termos gráficos, são claras as melhorias em relação ao tomo 5, em que o traço de Yslaire parecia apressado e longe do extraordinário virtuosismo que se lhe reconhece. Aliás, este é bem capaz de ser o álbum mais bem desenhado da série, com imagens belíssimas e páginas magníficas, em que Yslaire, que agora desenha directamente no computador, está ao seu melhor nível. E para apreciar devidamente a sua técnica de desenho, nada melhor do que este vídeo, em que Yslaire desenha ao vivo.
Sambre VI: La Mer vue du Purgatoire, de Yslaire, Glenat, 64 pags, 16,20 € na Livraria Dr. Kartoon
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Exposição de José Carlos Fernandes em Angoulême

Chegou ao fim este dia 2 de Janeiro a exposição dedicada ao autor português que desde 19 de Outubro ocupava o piso 1 do edificio Castro, o antigo Centre National de la Bande Dessinée et de l'Image, actualmente integrado no conjunto museológico da Cité Internationale de la Bande Dessinée. Se a Livraria e a exposição permanente estão no novo edifício do Musée de la Bande Dessinée, na outra margem do rio Charente, inaugurado durante a edição de 2010 do Festival de Angoulême, a Biblioteca e a galeria de exposições temporárias mantém-se no edifício antigo que durante muitos anos acolheu as principais exposições do Festival.

E foi ai que, pela primeira vez, um autor português teve direito a uma exposição individual em Angoulême. Em termos colectivos, houve mais presenças portuguesas, começando logo em 1998, ano em que Portugal foi país convidado, embora dessa vez a exposição tenha sido deslocada para um espaço mais periférico. Também a mostra principal do Festival de Angoulême de 2010, "Cent Pour Cent", contou com a presença dos portugueses Filipe Abranches, Luís Henriques e António Jorge Gonçalves, conforme podem ver aqui, mas integrando um colectivo de autores dos 4 cantos do mundo.
O caso de José Carlos Fernandes é diferente e só foi possível por a série "A Pior Banda do Mundo" estar editada em França pela Cambourakis, com óptimo acolhimento da crítica, tendo o 2º volume sido incluído na lista das 50 melhores BDs publicadas em França, divulgada pela ACBD (a Associação dos Críticos de BD franceses) no seu relatório anual, e resultados comerciais suficientemente interessantes para que a editora tenha lançado o segundo volume por ocasião da inauguração da exposição, tendo José Carlos Fernandes aproveitado a deslocação a França para a inauguração da exposição, para dar algumas sessões de autógrafos em livrarias de Paris. Aliás, 2 meses depois de ter sido editado, o livro encontra-se com facilidade nas livrarias francesas, o que, face à quantidade de novidades que saem todos os meses em França, não é pequena proeza. Além da excelente livraria do Museu da BD de Angoulême(obviamente), encontrei-o facilmente na secção de BD da FNAC do Fórum des Halles e, em maior destaque, na Livraria Super Herós, em Paris.

Mas falemos da exposição, que tive ocasião de visitar numas curtas férias em França, em Dezembro, e que tem por base a exposição "Intuições", organizada pelo CNBDI da Amadora (actualmente o único parceiro internacional credível em termos da BD nacional, face ao apagamento da Bedeteca de Lisboa). Actualizada e rebaptizada "Areias Movediças", a exposição, possível graças aos esforços conjuntos do Instituto Camões, do Museu de Angoulême e do CNBDI da Amadora, centra-se nos trabalhos de JCF publicados (ou a publicar) em álbum deste 1997, excluindo os trabalhos da fase inicial.Embora estivessem previstos entrar na exposição, os trabalhos institucionais incluídos num núcleo sintomaticamente intitulado "Como Pagar as Contas", acabaram por ficar de fora da mostra apresentada em Angoulême, tal como de fora ficaram os textos que José Carlos Fernandes escreveu para acompanhar cada núcleo e que não chegaram a tempo de serem traduzidos... Assim, além de um curto texto introdutório, a única informação era das legendas que acompanhavam cada prancha e que, tirando algum excesso de zelo, como traduzir o nome da editora Tinta da China, estavam correctas.

Com um natural peso maior na série "A Pior Banda do Mundo", a exposição tinha originais de "As Aventuras do Barão Wrangel", "O que está Escrito nas Estrelas", "A Última obra-prima de Aaron Slobodj", Cross Roads", "Pessoas que Usam Bonés com Hélice", "A Agência de Viagens Leming", "Black Box Stories e "Terra Incógnita". Estes 2 últimos títulos, com desenhos de Luís Henriques e Roberto Gomes (que desenhou o 2º volume das "Black Box Stories" que embora esteja pronto, nunca chegou a ser publicado por divergências entre JCF e a Devir).
Uma das razões que me levou a fazer a viagem entre Paris e Angoulême para ver a exposição, foi precisamente o núcleo dedicado a "Cross Roads", em que as imagens de José Carlos Fernandes aparecem associadas a textos meus e do João Ramalho Santos, tal como aconteceu com "A Revolução Interior", um trabalho institucional sobre o 25 de Abril em que o JCF ilustrou um argumento nosso e que estava no tal núcleo que ficou de fora. E confesso que me deu um certo prazer ver o meu nome nas legendas das ilustrações do "Cross Roads"...

Depois de Angoulême, há interesse em levar a exposição de José Carlos Fernandes a Paris,à Residência Maria Helena Vieira da Silva, mas ainda antes disso, JCF vai ter uma exposição dedicada à "Pior Banda do Mundo" no Centro Belga da BD em Bruxelas, que inaugura a 18 de Janeiro.
Se nos lembrarmos que José Carlos Fernandes é também um dos autores representados na mostra colectiva de BD portuguesa que inaugura já no próximo dia 10 de Janeiro, no Museu Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, não há dúvida que José Carlos Fernandes está em alta. Não deixa é de ser irónico que isso aconteça numa altura em que o criador da Pior Banda do Mundo está praticamente afastado da BD...
E, para terminar deixo-vos algumas imagens do novo Museu da BD de Angoulême e da exposição de José Carlos Fernandes.

Estátua de Corto Maltese na ponte sobre o rio Charente que liga o velho ao novo Museu da BD

o novo Museu da BD de Angoulême

Pormenor da exposição permanente

Vista geral da exposição de José Carlos Fernandes

Originais de "A Pior Banda do Mundo"

Vista geral da mezzanine onde estava a segunda parte da exposição

Originais da "Agência de Viagens Leming"

Originais de Luís Henriques

Originais de Roberto Gomes
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Dark Horse publica Dog Mendonça

Enquanto não estão ocupados a salvar o mundo, Dog Mendonça e Pizzaboy preparam-se para conquistar o mercado americano, graças à Dark Horse, a editora de Hellboy, Sin City e Star Wars, que vai abrir as páginas da 2ª série da revista “Dark Horse Presents” ao detective do oculto português.
Para celebrar o 25º aniversário da editora, será lançada uma nova antologia intitulada Dark Horse Presents. Este foi o título da série que inaugurou a Dark Horse em 1986 e foi aqui que Sin City viu a sua primeira edição. Vinte e cinco anos depois, a editora promete uma nova versão da linha, com 25 números. Entre outros autores, terá participações de Frank Miller (que aqui iniciará a prequela de 300 intitulada "Xerxes"), Mike Mignola (Hellboy) e Dave Gibbons (Watchmen).

É para esta revista que Filipe Melo e Juan Cavia contribuirão com uma história de 24 páginas dividida em três capítulos de 8 páginas, que tem como objectivo apresentar Dog Mendonça e os restantes personagens ao público americano, preparando o terreno para a posterior publicação de “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” nos EUA.
Uma excelente oportunidade que se deveu à intervenção decisiva de John Landis. O realizador americano, que assinou o prefácio do álbum, gostou tanto do livro que fez chegar “Dog Mendonça” às mãos do seu amigo Mike Richardson, o editor da Dark Horse, que se mostrou interessado na série e viu na revista “Dark Horse Presents” o local ideal para uma primeira divulgação de Dog Mendonça junto dos leitores americanos.
Se a isso juntarmos a publicação do (muito divertido, a avaliar pelas páginas que pude ler) 2º álbum da série, intitulado “Apocalipse”, no próximo mês de Março, 2011 vai ser um ano em grande para Dog Mendonça e para os seus criadores! Até lá, fiquem com uma imagem e com a página que mostra o nascimento de João Vicente “Dog” Mendonça, em Tondela, terra de zombies e também de lobisomens…
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domingo, 22 de agosto de 2010
Lá Fora II - Theodore Poussin Integrale vol 1

O mais recente clássico a ser recuperado pela Editora Dupuis nas excelentes edições integrais a que editora belga já nos habituou, foi “Theodore Poussin” de Frank Le Gall, uma excelente série de aventuras marítimas de que saíram 12 episódios entre 1987 e 2005, dos quais, apenas o primeiro episódio chegou a ser publicado em português, pela Meribérica. Série herdeira da aventura romântica na tradição de Corto Maltese, embora o cenário e o registo gráfico seja outro, com o Pacífico a dar lugar ao Índico e ao Mar da China, esta belíssima saga, que tem Conrad e Baudelaire como principais referências, alia um grafismo caricatural, próximo da escola de Marcinele que caracteriza os autores da revista SPIROU, mas que evoluiu rapidamente para um registo mais realista, próximo da “linha clara”, a uma intriga bem elaborada e de um romantismo exacerbado, que celebra igualmente a aventura em cenários exóticos.

Theodore Poussin (o próprio apelido, que significa “pintainho”, indica que se trata de alguém sem experiência que só as duras vivências ajudarão a transformar num galo) é o mais improvável dos heróis. Modesto escriturário de uma grande companhia de navegação, míope, franzino e quase careca, apesar de viver num porto como Dunquerque e da tradição marítima da sua família, sonha com lugares distantes e paragens exóticas que apenas conhece através da leitura dos romances. Ao aceitar a oportunidade que lhe é oferecida de embarcar para os Mares da China, Theodore não imagina as partidas que o destino, protagonizado pelo enigmático Monsieur Novembre lhe pregará, dando razão aos versos de Baudelaire que sintetizam o doloroso processo de crescimento e descoberta que o jovem Pintainho viverá ao longo das suas aventuras: “amargo saber, o que se colhe nas viagens”.

Ao longo dos seis álbuns que constituem o primeiro ciclo da série, Poussin vagueia da Indochina ao Ceilão, sem nunca encontrar aquilo que procura, seja o misterioso Capitão Steene que, apesar de apenas aparecer de forma extremamente fugaz no primeiro álbum, é uma sombra omnipresente ao longo de todo o ciclo, seja o tesouro de Laurence Brooke, o Rajá Branco, ou até Marie Verité. Personagem que dá nome ao terceiro álbum da série, escrito em parceria com Yann (argumentista do primeiro volume da série Sambre, de Yslaire, a mais romântica BD franco-belga das últimas décadas), Marie Verité (que também é nome de barco) vem comprovar o simbolismo dos nomes que frequentemente encontramos nesta série. Das duas Marie Verité que Theodore encontra, nenhuma é a genuína, o que vem provar que não há uma, mas várias verdades, o que já tinhamos percebido através dos vários retratos que do Capitão Steene traçavam os vários personagens que o tinham conhecido.

Depois de arriscar a vida nas mais remotas paragens, conhecendo personagens fascinantes, capazes dos mais heróicos actos e das mais baixas traições, muitas vezes em simultâneo — como Georges Town, o sanguinário pirata de “Le Mangeur D’Archipels”, que faz de Theodore o seu biografo oficial, procurando no registo e publicação das suas memórias a explicação e o branqueamento de uma vida de crimes —, só ao regressar a casa Theodore Poussin encontrará aquilo que procurou. Tal como em “Le Trésor de Rackam Le Rouge”, de Hergé, o tesouro que Tintin e Haddock procuraram numa ilha distante estava à sua espera em Moulinsart, também Theodore vai finalmente encontrar o Capitão Steene em Dunquerque, numa casa perto das dunas onde brincava em criança; Capitão Steene que, na realidade, é o verdadeiro pai do herói, que, tal como o Monge, da “Balada do Mar Salgado”, se dedicara à pirataria em paragens distantes como forma de expiar um amor trágico e contrariado.

Coincidências que estão longe de ser inocentes, pois são várias as homenagens de Le Gall a Pratt e, sobretudo, a Hergé (basta ver o título dos 4º e 5º volume da série, que constituem uma história única, “Secrets” e “Le Tresor du Rajá Blanc”, que remetem naturalmente para o díptico das aventuras de Tintin: “Le Secret de La Licorne” e “Le Tresor de Rackham Le Rouge”…) ao longo da série, sem que isso interfira com o normal fluir da intriga, o que só prova o talento do jovem autor belga, cujo grafismo vai evoluindo e ganhando um cunho mais realista ao longo da série, amadurecendo ao mesmo tempo que o herói.
A excelente edição da Dupuis, enriquecida por um dossier de 36 páginas, recolhe apenas os 4 primeiros volumes, pelo que será preciso esperar pelo 2º volume da edição integral para o leitor ter resposta a muitas das perguntas levantadas nestes álbuns. Mas a espera vai valer a pena, pela grande qualidade da série e pela forma como o traço de Le Gall, que evoluiu brutalmente em apenas três álbuns, atinge a maturidade plena.
Theodore Poussin L'Intégrale 1, de Frank Le Gall, Dupuis, 240 pags, 28,80 € na Livraria Dr Kartoon
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Lá Fora I - Scalped

Desde o início que optei por publicar na minha coluna no Diário As Beiras textos apenas sobre edições nacionais e/ou de autores portugueses. Aqui no blog, não tendo essas limitações irei escrever sobre algumas das edições estrangeiras que for lendo. Da BD franco-belga ao mangá, passando pelos comics americanos, a ideia é falar dos livros cuja leitura me motivar uma reflexão.
E para começar temos este Scalped, série criada por Jason Aaron e R. M. Guéra, que, para mim, é actualmente a melhor série editada pela Vertigo e uma das melhores revisitações do género policial feita em Banda Desenhada.
Se, durante muitos anos a Vertigo, o ramo adulto da editora DC Comics foi associada às séries de fantasia, muito por via do sucesso de Sandman, gradualmente aquela “imprint” foi alargando os seus horizontes temáticos, através de séries como 100 Bullets, Y, the Last Man, ou DMZ. Catalogado por alguns como Neo Western Noir, Scalped está mais próximo do policial negro do que uma série como Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon, essa sim uma homenagem óbvia à mitologia do velho Oeste e, se dúvidas houvesse sobre a filiação de Scalped no policial negro, basta reparar no primeiro nome do herói, que é o mesmo do escritor Dashiel Hammet, criador do detective Sam Spade.

Scalped, cujo 1º nº foi publicado em Janeiro de 2007, tem como cenário Prairie Rose, uma reserva índia fictícia no Dakota Sul, controlada pelo Chefe Lincoln Red Crow, um antigo militante radical pela causa índia que se transformou gradualmente num político corrupto e num mafioso, que controla a polícia local e se prepara para abrir um casino.
É a essa terra degradada, no limiar da pobreza, cuja população procura esquecer no alcool e na droga um futuro sem esperança, que regressa Dashiell Bad Horse, o (anti)herói desta série, como agente inflitrado do FBI junto de Red Crow. Filho de Gina Bad Horse, antiga companheira de armas e ex-amante de Red Crow, Dash foi encarregue desta arriscada missão pelo agente Nitz, do FBI, que pretende destruir a qualquer preço Red Crow, que considera responsável directo pela morte de dois dos seus colegas, abatidos pelos radicais do grupo de Red Crow e Bad Horse na década de 70. Se as estas personagens juntarmos Diesel Engine Fillenworth, um branco com 1/16 avos de sangue índio, que nunca conseguiu ser aceite pelos índios, Catcher, um ex-professor universitário e ex-radical em contacto com os espíritos, Carol, a filha de Red Crow, viciada em sexo e heroina, e os Hmongs, um gang de criminosos de origem asiática, com quem Red Crow vai ser obrigado a entrar em guerra, temos um cocktail verdadeiramente explosivo, cujos ingredientes Jason Aaron tem sabido manejar com grande mestria.

Optando por uma narrativa nada linear, em que sucessivos saltos temporais nos ajudam a perceber o que se está a passar e a motivação das personagens, Aaron cria uma intriga cativante, repleta de personagens com as quais acabamos por criar alguma empatia, apesar dos seus muitos, e mais do que óbvios, defeitos.
Há quem tenha comparado Scalped à série televisiva Os Sopranos e, se virmos que Red Crow, tal como Toni Soprano é alguém com quem o público se identifica apesar de ser um assassino e um criminoso, essa comparação não é nada descabida, mesmo que Scalped tenha bastante mais acção e violência do que a habitual num episódio dos Sopranos.
Ao longo dos 33 nºs já publicados, o principal desenhador da série tem sido R. M. Guéra, um artista nascido na ex-Jugoslávia e a viver em Espanha, com alguns trabalhos já publicados no mercado franco-belga,onde desenhou os últimos álbuns da série Le Lievre de Mars e criou a série Howard Blake, ambas editadas pela Glenat.
Com um estilo realista que lembra Giraud e o Herman dos anos 60 e 70, Guéra faz um excelente trabalho, graças a um traço pormenorizado, extremamente eficaz nas cenas de acção, bem servido pelas cores sombrias de Giulia Brusco, que ajudam a criar o ambiente pretendido, mesmo que por vezes seja difícil apreciar os detalhes do desenho de Guéra, no meio de tantas sombras. A partir do nº 12, alguns números são ilustrados por outros desenhadores, como John Paul Leon, Davide Furnò e Francesco Francavilla, pois era praticamente impossível manter o ritmo de publicação mensal, com Guéra como único desenhador, mas a verdade é que nenhum dos artistas convidados faz esquecer Guéra…
Apesar das fracas vendas da revista mensal, as 5 recolhas já editadas até ao momento têm vendido bastante bem e as vendas vão em crescendo, muito por efeito do “passa a palavra”. O sucesso de Scalped levou ainda a que Aaron fosse convidado pela Marvel para escrever histórias de Wolverine, Ghost Rider e Punisher, enquanto Guéra ilustrou uma história escrita por Quentin Tarantino como complemento ao filme Inglorious Basterds, que saiu na revista Playboy americana, aquando do lançamento do filme.
E fala-se já em transformar Scalped numa série de televisão e, caso esse rumor se concretize, estações como a HBO ou a Showtime seriam as ideais, até porque não tenho grandes dúvidas que os fãs de séries como The Wire, ou Os Sopranos não iriam ficar indiferentes a Scalped.
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