segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Apresentação colecção Watchmen/ Doomsday Clock

Como os visitantes mais regulares devem ter notado este blogue tem estado parado desde Outubro do ano passado. Regressa agora com a apresentação do nova colecção Público/Levoir dedicada ao Watchmen e a Doomsday Clock, história que integra as personagens criadas por Alan Moore e Dave Gibbons no universo dos super-heróis da DC. 
Aqui vos deixo o destacável que escrevi para o Público, na sua versão integral, pois o texto sobre as adaptações ao cinema e à televisão acabou por não entrar no destacável por falta de espaço.

DE WATCHMEN A DOOMSDAY CLOCK

Há obras que marcam profundamente um género, tornando-se um marco incontornável da sua história. É indiscutivelmente o caso de Watchmen, a obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons, não por acaso, a única BD incluída pela revista Time na sua lista dos 100 Melhores Livros de Todos os Tempos. Watchmen, que está no centro desta nova colecção do Público e da Levoir. Uma colecção que inclui ainda Renascer e Doomsday Clock, de Geoff Johns e Gary Frank, saga que revisita o mundo de Watchmen integrando-o no resto do universo DC.
Nascido em Northampton em 1953, Alan Moore é uma lenda viva da BD, até pela excentricidade da imagem que cultiva e pelo afastamento total das grandes manifestações públicas, como os Festivais e as Convenções de BD, trocados pelo exílio voluntário da sua casa de Northampton, uma pequena cidade do interior de Inglaterra. A sua longa carreira, recheada de prémios e sucessos comerciais, iniciou-se em Inglaterra, nas páginas das revistas 2000 AD e Warrior (onde começou a ser publicado o notável V de Vingança) mas seria em 1984, ao passar a trabalhar para o mercado americano, que o mundo pode finalmente apreciar todo o talento de Moore e a sua capacidade de insuflar uma nova vida a personagens cansados, provando que a BD também pode ser literatura. Como refere Barbara Kessel, editora da DC na altura em que Watchmen foi publicado, “Alan mudou o papel do argumentista nos comics. Os seus argumentos contêm mais do que uma história completa. Podes ler um argumento dele e ter o mesmo impacto de um comic completo. Com a maioria dos escritores, o argumento é uma mera descrição para o desenhador. No caso de Alan Moore ele descreve cada porção da cena com um detalhe tal, que tu acabas por visualizá-la de uma forma tão completa que ler o comic é como ver Shakespeare outra vez”.
A dar vida aos argumentos incrivelmente densos e detalhados de Moore, está Dave Gibbons. Desenhador inglês nascido em 1949 com uma carreira iniciada em Inglaterra na série Dan Dare e na revista 2000 AD, Gibbons estreou-se nos EUA trablhando nas revistas Green Lantern e Flash e, além de Moore, colaboraria ainda com Frank Miller na série Martha Washington e com Mark Millar em Kingsman, para além de escrever argumentos para Mike Mignola, Steve Rude (Batman e Super-Homem: Os Melhores do Mundo, já editado pelo Público e Levoir) e Adam e Andy Kubert, entre outros.
Pegando num grupo original de super-heróis inspirados em personagens da editora Charlton, cujos direitos a DC tinha adquirido, Moore constrói uma obra complexa, que além de fazer a autópsia do universo de super-heróis, explora de uma forma nunca antes vista as extraordinárias potencialidades narrativas da linguagem da BD. Como o próprio refere: “É muito fácil deduzir as nossas intenções, quando nos sentámos para produzir o primeiro número de Watchmen: queríamos fazer uma banda desenhada de super-heróis nova e inusitada, que nos desse a oportunidade de experimentar algumas ideias narrativas novas pelo caminho. Mas acabámos por obter algo substancialmente maior do que isso.
Nalgum ponto ao longo desse caminho, entre o material com o qual estávamos a trabalhar e as novas técnicas narrativas que estávamos a experimentar, começou a acontecer uma coisa que não tínhamos antecipado. Quanto mais olhávamos para a história, mais profundidade ela mostrava ter. Quanto maior a nossa compreensão dos detalhes subliminares que serviam de pano de fundo que estávamos a usar, mais esses detalhes se tornavam parte integrante da linha da história, agindo como uma espécie de meta continuidade que acabou por igualar-se ao guião em termos de importância para a obra acabada.”
Tentar dar continuidade a uma obra com esta complexidade e importância é algo a que poucos se atreveriam, mas Geoff Johns, um dos principais arquitectos do actual Universo DC, cujo trabalho os leitores portugueses têm podido apreciar nas colecções que o Público dedicou à editora do Batman e Super-Homem, saiu-se com distinção de tão espinhosa missão, muito bem secundado pelo belíssimo traço de Gary Frank. Pegando em muitos dos elementos narrativos de Watchmen, desde a grelha de nove quadrados por página, a narração em voz off e os dossiers no final do capítulo; Johns cria uma história excitante e original, que homenageia a obra de Mooore e Gibbons e a história da DC, sem se sentir aprisionada por elas.


QUEM SÃO OS WATCHMEN?

HOMENS-MINUTO – Primeiro grupo de super-heróis, activo entre 1939 e 1949, os Homens-minuto eram constituídos por Silhueta, Espectral, Comediante, Justiça Encapuçada, Capitão Metrópole, Coruja, Traça e Dólar. Embora a acção principal de Watchmen se passe na década de 80, a história dos Homens-Minuto é-nos contada através de flash-backs e principalmente do livro Sob o Capuz, escrito por Hollis Manson, o primeiro Coruja.

COMEDIANTE – Inspirado no Pacificador, um dos heróis da Charlton cujos direitos foram comprados pela DC, com elementos de Nick Fury, Edward Blake é um psicopata cínico e violento, ao serviço do governo americano. Um homem que reconhece o horror presente nas relações humanas e se refugia no humor. A sua morte espoleta a trama de Watchmen.

RORSCHACH - Baseado nos personagens Questão e Mr. A, da Charlton Comics, Walter Kovacs, o Rorschach, é um sociopata, considerado o terror do submundo e um fugitivo da justiça. É ele quem move o enredo e todos os personagens desde o começo da saga, ao tentar descobrir quem matou o Comediante. Em Doomsday Clock, já não é Walter Kovacs, mas sim um seu seguidor, quem faz da máscara de Rorschach o seu verdadeiro rosto.

DR. MANHATTAN – Jonathan Osterman era um cientista nuclear, acidentalmente desintegrado numa experiência. Aos poucos, a sua força de vontade faz com que os seus átomos se unam novamente e volta à vida, mas como um ser capaz de manipular a matéria, viajar no espaço, estar em vários lugares ao mesmo tempo e ver o seu, mas apenas o seu, passado e futuro simultaneamente. Inspirado no Capitão Átomo, o Dr. Manhattan é um homem-Deus, que vê a vida como apenas mais um fenómeno do cosmos, e o único herói dotado de superpoderes. Na história torna-se o grande trunfo dos Estados Unidos na área militar e tecnológica.

ESPECTRAL - Laurie Jupiter, é uma mulher forçada a viver à sombra do pragmatismo da sua mãe, Sally Jupiter, a primeira Espectral, que foi a primeira vigilante a explorar comercialmente a sua actividade. É ex-mulher do Dr. Manhattan e mantém com ele uma certa cumplicidade. Adaptada da Sombra da Noite, com elementos de Lady Fantasma e Canário Negro.

CORUJA – Inspirado no primeiro Besouro Azul (Dan Garret) o primeiro Coruja foi Hollis Mason, um polícia que se tornou um vigilante, inspirado na BD e na literatura pulp. As suas memórias estão reunidas no livro Sob o Capuz. O segundo Coruja é Dan Dreiberg, um intelectual rico, solitário e retraído. Adaptado do segundo Besouro Azul (Ted Kord) com elementos do Batman, o novo Coruja é um especialista em tecnologia avançada, muito bem equipado para combater o crime.

OZYMANDIAS - Adrian Veidt é um milionário excêntrico, considerado o homem mais inteligente do mundo. Exímio atleta e lutador, cientista genial e homem de negócios extraordinário, Veidt reformou-se três anos antes da lei Kenee que proibiu os vigilantes, dedicando-se à gestão das suas empresas.

TRAÇA – Um dos homens-Minuto originais cuja carreira de combatente do crime terminou devido a problemas mentais e ao alcoolismo, Byron Lewis tem uma participação apenas episódica em Watchmen, mas em Doomsday Clock, Geoff Johns dá-lhe um maior destaque.


MÍMICO E MARIONETA – Únicos personagens criados de raiz por Johns e Frank para Doomsday Clock, Marcos Maez e Erika Manson são um casal de super-vilões capturados pelo Dr. Manhattan, que se vão revelar centrais no plano de Adrian Veldt para voltar a impedir o apocalipse nuclear.


O RELÓGIO DO APOCALIPSE, OU 
COMO CONTINUAMOS A VIVER SOBRE A AMEAÇA DA BOMBA

Publicado originalmente em 1986, num momento em que as tensões entre os EUA e a União Soviética estavam no seu ponto mais crítico, Watchmen reflecte o zeitgeist da época, em que a ameaça de um conflito nuclear entre as duas superpotências era um perigo bem real.
Naturalmente, essa situação acaba por se reflectir também na ficção da época, tanto na Banda Desenhada, como no cinema. Veja-se O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, também de 1986, em que os EUA e a URRS quase entram em guerra pelo domínio da Ilha de Corto Maltese (uma óbvia homenagem de Miller a Hugo Pratt), ou em séries europeias como Simon du Fleuve, de Auclair, Jeremiah de Hermann, Armalite 15, de Michel Crespin, ou Hombre de Segura e Ortiz, todas ambientadas num futuro pós-apocalíptico. No cinema, basta pensar na saga Mad Max, ou em filmes como O Planeta dos Macacos, cuja imagem final, poderosíssima, inspirou a série Kamandi, de Jack Kirby.
Um elemento que traduz bem o peso dessa ameaça de um conflito nuclear em Watchmen, é a presença do Relógio do Apocalipse, cujo avançar dos ponteiros em direcção à meia-noite, avisa para o momento que corresponderia à destruição da humanidade. Em Watchmen o que leva o Relógio do Apocalipse a aproximar-se perigosamente da meia-noite é a forma como a presença do Dr. Manhattan, que tinha permitido aos americanos vencer a guerra do Vietname, vem perturbar o equilíbrio estratégico entre as duas superpotências, levando o bloco de Leste a uma reacção desesperada, invadindo o Afeganistão (algo que aconteceria anos depois no mundo real) e o Paquistão. É precisamente para evitar que o relógio chegasse à meia-noite, que Adrian Veldt, o Ozymandias, criou um elaborado plano.
É esse mesmo Relógio do Apocalipse que dá título a Doomsday Clock (um título cujas iniciais são as mesmas da editora DC, numa aliteração óbvia que inevitavelmente se perderia na tradução) e que, no passado dia 23 de Janeiro foi acertado para os 100 minutos para a meia-noite, assinalando o momento em que a humanidade se aproximou mais da destruição total, desde que o Relógio foi criado, em 1947. Um avançar para o abismo ditado pelas alterações climáticas e pelo risco de um conflito nuclear.
Em Doomsday Clock tanto a dimensão onde estão os Watchmen, como a Terra onde vivem o Batman e os outros super-heróis da DC estão à beira de um conflito nuclear. E se em Doomsday Clock, o plano de Ozymandias e as contribuições do Dr. Manhattan e do Super-Homem chegaram para evitar o Apocalipse, no nosso mundo pode ser bem mais complicado.


SABIA QUE?

A primeira presença dos personagens de Watchmen no Universo DC não aconteceu apenas com o especial de DC Rebirth, incluído nesta Colecção. Muito antes, em 1988, Rorschach faz uma participação espacial no nº 17 da revista Question, numa história intitulada A Dream of Rorschach, em que o herói adormece a ler o Watchmen num avião e sonha com o Rorschach. Uma homenagem, feita com o conhecimento e aprovação de Moore e Gibbons, que têm direito a um agradecimento especial na ficha técnica e que tem uma dimensão simbólica, pois Alan Moore inspirou-se precisamente no Questão para criar Rorschach.

Todas as pranchas originais de Watchmen foram vendidas ainda antes de serem publicadas. O desenhador Dave Gibbons tinha à época, um acordo com uma livraria especializada inglesa, que lhe deu um adiantamento pelas pranchas originais, em troca de ficar com todas as páginas dos doze números para venda à medida que o desenhador as fosse desenhando. Um acordo que, face à popularidade que a série acabou por adquirir, se revelou muito mais vantajoso para o comprador do que para o autor.

Entre o inúmero merchandising a que Watchmen deu origem, está uma torradeira que faz torradas com as manchas de Rorschach. Esse processo passa por uma placa de metal com as manchas de Rorschach recortadas colocada entre a resistência e o espaço onde entram as fatias de pão, de modo a que o calor passe pelos espaços recortados, deixando a marca nas torradas.

Os autores tinham um acordo com a DC que lhes permitia recuperar para si todos os direitos de Watchmen um ano depois da série estar esgotada. Algo que a DC contornou facilmente, reimprimindo Watchmen de cada vez que estava perto de esgotar, mantendo-a sempre disponível no mercado. Essa impossibilidade de conseguir os direitos da série que tinha criado, foi um dos motivos que levou Alan Moore a cortar relações com a DC e a exigir que o seu nome não aparecesse nas adaptações cinematográficas das obras que escreveu para a editora americana.

Alan Moore teve uma participação especial na série de animação The Simpsons. No sétimo episódio da temporada 19, Husbands and Knives, Moore, que dá voz à sua própria personagem, participa numa sessão de autógrafos em Coolsville, a nova livraria de BD de Springfield juntamente com Art Spiegelman e Daniel Clowes, em que Millhouse lhe pede para autografar um livro dos Watchmen Babies, chamado V for Vacation, numa paródia aos dois mais populares títulos que Moore fez para a DC, Watchmen e V de Vingança.

TEXTO INÉDITO - DA BD PARA O CINEMA… E TELEVISÃO


A vontade de adaptar Watchmen ao cinema vem de longe. Logo a seguir à publicação da mini-série original, em 1986, os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver compraram os direitos da novela gráfica para a 20th Century Fox, encarregando Sam Hamm (argumentista do primeiro Batman de Tim Burton) da adaptação, depois de Moore ter recusado adaptar o livro que tinha escrito. Em 1991 a Fox deixou cair o projecto que passou para a Warner Bros (proprietária da DC) que escolheu o cineasta Terry Gilliam, um dos Monty Python e o director do filme Brazil para levar em frente o projecto. Um dos primeiros passos de Gilliam foi perguntar a Alan Moore como se adaptava Watchmen ao cinema. A resposta de Mooore foi simples: “não se adapta.” E Gilliam viu-se obrigado a concordar, acabando por se afastar do projecto, por considerar que Watchmen “não era filmável.”
O projecto passou depois por diversas mãos, como David Hayter, Paul Greengrass, Michael Bay e Darren Aronofsky, até que Warner, impressionada com o trabalho de Zack Snyder em 300, outra adaptação de uma BD, neste caso de Frank Miller, o escolheu para levar Watchmen ao grande ecrã, num filme que chegou às salas de cinema em 2009.  
Snyder disse que já ficaria contente se o seu filme funcionasse como um trailler de 2h30m que levasse as pessoas a comprar o livro de Moore e Gibbons. E, se esse objectivo foi amplamente cumprido, com as vendas do livro a dispararem, não foi o único. Apesar das mudanças no final, o filme demonstra grande respeito e admiração pela obra original e é um bom filme de acção, com cenas espectaculares e um genérico notável.   
Mesmo que o Director’s Cut lançado apenas em DVD e BluRay, com mais meia hora de filme, a animação de Contos do Cargueiro Negro, (a história de piratas que um dos personagens lê no livro e que funciona como contraponto e comentário à acção principal) e o documentário Sob o Capuz, que conta a origem dos Minutemen, permita uma experiência imersiva ainda mais próxima da BD original, tal como chegou às salas de cinema, o Watchmen de Zack Snyder não desiludiu os fãs da novela gráfica
Em 2019, a HBO lançou uma série televisiva, dirigida por Damon Lindelof que prossegue a história de Watchmen de uma forma tão surpreendente como conseguida. Fiel ao original, mas sem medo de ir mais além, Watchmen, a série de TV, viu o seu último episódio ir para o ar na mesma semana em que chegou às lojas o último capítulo de Doomsday Clock. Uma simples coincidência, mas que une duas excelentes histórias que mostram que Watchmen, sendo uma obra notável, não é intocável.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 13/02/2019

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Novela Gráfica V 13 - Café Budapeste

Um pouco mais tarde do que o habitual, devido à minha ida ao Festival de Lodz (de que está prometido para aqui um punhado de imagens do evento e sobretudo, da magnífica exposição dedicada à DC Comics) aqui fica o último texto desta quinta série da colecção Novela Gráfica. só foi pena que, nos últimos dois números, o espaço disponibilizado pelo Público tenha sido tão reduzido, pois são dois livros, pois são dois livros que justificavam uma análise mais aprofundada.

BUDAPESTE EM JERUSALÉM 

Novela Gráfica IV – Vol. 13
Café Budapeste
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Quinta-feira, 26 de Setembro
Por + 10,90€
Na próxima quinta-feira chega ao fim a quinta série da colecção Novela Gráfica, com Café Budapeste, de Alfonso Zapico. Um fecho em beleza, com o regresso do autor de Gente de Dublin que, depois da biografia em BD do escritor James Joyce, retorna a esta colecção com uma história de ficção ancorada na criação do estado de Israel e nas raízes do conflito israelo-palestiniano.
Primeiro trabalho de Zapico publicado directamente no mercado espanhol, Café Budapeste acompanha o destino de Yechezkel Damjanich, um jovem violinista judeu que, juntamente com a sua mãe, uma sobrevivente do Holocausto, abandona uma Budapeste devastada pela II Guerra Mundial para ir viver para Jerusalém, onde vive o seu tio Yossef. Fugindo da miséria, ambos chegam à Palestina num momento político convulsivo, pouco antes de os ingleses deixarem a região. O tio Yosef dirige o Café Budapeste, um lugar pitoresco perto da Cidade Velha, onde judeus, árabes e ocidentais coexistem ... Um oásis efémero de harmonia onde as notas do violino de Yechezkel vão dar lugar ao estrondo dos obuses de Davidka, bombas árabes, ódio e destruição.
Neste ambiente de intolerância e violência, a paixão de Yechezkel por Yaiza, um jovem de origem árabe, enfrenta ainda maiores desafios. Mas isso não os impedirá de procurarem a felicidade, numa cidade em guerra, onde o Café Budapeste é um dos últimos espaços de paz e tolerância.
Alternando de forma hábil a realidade histórica - e as questões políticas e geoestratégicas inerentes à um dos momentos mais importantes da história do Século XX, a formação do estado de Israel, cujas consequências ainda hoje se fazem sentir na região - com os dramas pessoais de Yechezkel e da sua família, Zapico constrói uma história cativante, que é um hino à tolerância e à paz entre os homens, independentemente da etnia ou credo.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/09/2019

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Com o Lisbon Studio, no Festival de Lodz


Casa de muitos autores portugueses que conseguiram dar uma dimensão internacional ao seu trabalho, o The Lisbon Studio (TLS) celebra essa vocação global com uma exposição inserida na  edição de 2019 do Festival de BD de Lodz, que decorre de 27 a 29 de Setembro, na Polónia.

Uma mostra com produção de José de Freitas, curadoria de Bruno Caetano e textos da minha autoria, que celebra o presente, mas também o passado do TLS, centrada nos originais dos quatro artistas que estarão presentes em Lodz, Marta Teives, Ricardo Cabral, João Tércio e Nuno Saraiva, mas que inclui também arte de outros doze ilustradores portugueses que, nos últimos 10 anos passaram pelo  The Lisbon Studio: Filipe Andrade, Jorge Coelho, Nuno Plati, Ricardo Tércio, Ricardo Venâncio, Joana Afonso, Bárbara Lopes, Dileydi Florez, Patrícia Furtado, Pedro Potier, Pedro Brito e Nuno Lourenço Rodrigues.
Um total de dezasseis ilustradores para representar um país através de uma exposição que será acompanhada pela edição, por parte da editora Timoft, de uma antologia concebida especialmente para o mercado polaco, que recolhe histórias publicadas originalmente na colecção TLS Series, que a Comic Heart e G Floy têm vindo a publicar.
Criado em 1991, o Festival de Lodz é o mais importante Festival de Banda Desenhada da Polónia e do Leste europeu. Um Festival com uma grande ligação a Portugal e à BD portuguesa, traduzida na presença regular de artistas portugueses, como foi o caso de André Lima Araújo em 2018, e em projectos como o City Stories - Lodz. Uma parceria entre a AmadoraBD e o Festival de Lodz, que passou pela colaboração entre artistas portugueses e polacos na realização de histórias inéditas, de que resultou um livro e uma exposição na edição de 2010, onde estiveram presentes os criadores portugueses Ricardo Cabral, Rui Lacas, Filipe Andrade e Filipe Pina que, não por acaso, passaram todos pelo TLS.
Eu estarei por lá, acompanhando os autores do TLS e para apresentar uma comunicação sobre a BD portuguesa e conto  trazer-vos aqui um punhado de imagens desta viagem ao Festival de Lodz.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Novela Gráfica V 12 - Neve nos Bolsos

UM ESPANHOL NA ALEMANHA

Novela Gráfica V – Vol. 12
Neve nos Bolsos
Argumento e Desenho – Kim
Quinta-feira, 19 de Setembro
Por + 10,90€
Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Rasgada, duas magníficas novelas gráficas escritas por António Altarriba, regressa à colecção Novela Gráfica como autor completo com Neve nos Bolsos, um relato autobiográfico da sua ida para a Alemanha e das vivências de outros espanhóis que emigraram com o mesmo objectivo, ganhar a vida.
Foi em outubro de 1963 que o jovem Joaquim Aubert Puigarnau, ainda não conhecido como Kim, deixa seus estudos em Belas Artes e aproveita o ano que tem até começar o serviço militar, para ganhar a vida na Alemanha, como tantos outros espanhóis que atravessaram a Europa à procura de trabalho. Através dos seus olhos e das suas memórias, vamos descobrir a vida desses expatriados da Espanha franquista.
 Como o próprio Kim referiu numa entrevista: Esta novela gráfica surgiu devido a uma série de coincidências. Primeiro, porque tinha menos trabalho na revista El Jueves e muitas horas livres enquanto esperava que o Antonio Altarriba acabasse o argumento de A Asa Quebrada
Segundo, porque numa visita a Angoulême conversei com um rapaz alemão e contei-lhe essa viagem, que praticamente não tinha contado a ninguém. Tinha-a encerrada na memória e nem os meus melhores amigos. Quando ele me disse que na Alemanha já quase ninguém se recorda desses milhares de espanhóis que imigraram, percebi que tinha de contar essa história.”
Um processo quase catártico, que lhe permitiu recuperar um período importante, mas não particularmente feliz da vida de Kim e da história de Espanha: “Recordar esse ano que estive na Alemanha foi uma espécie de terapia para mim. Comecei a escrever a história na segunda pessoa, como se não fosse eu o protagonista. Mas quando mostrei umas quantas páginas a Altarriba e ele me disse que se notava que o protagonista era eu e me perguntou porque não escrevia na primeira pessoa, decidi fazê-lo”.
 “Não tenho uma memória alegre. Foi um ano bastante duro, como se pode ver no livro. Ainda assim, tive a sorte de privar com um grupo de gente jovem que tentava aproveitar a vida: ríamos, fazíamos festas... Mas a gente mais velha não saia nunca, passavam o dia a trabalhar e a pensar em Espanha. Escutavam constantemente a rádio espanhola e sonhavam com poder poupar dinheiro suficiente para poderem regressar. “
Publicado originalmente no jornal Público de 21/09/2019

domingo, 22 de setembro de 2019

Balada para Sophie - Novo livro de Melo e Cavia em 2020

Quem acompanha este Blog, sabe que não costumo fazer divulgação. Mas neste caso decidi abrir uma excepção para divulgar a primeira imagem/teaser de Balada para Sophie, o próximo livro de Filipe Melo e Juan Cavia. Um livro que tem tudo para ser o melhor livro de autores portugueses (não é erro, pois apesar de ser Argentino, o Juan Cavia adquiriu recentemente nacionalidade portuguesa) publicado em 2020.
O mais ambicioso trabalho da dupla, com quase 300 páginas (a última versão que li tinha 277 e o Filipe é conhecido por ir acrescentando coisas à história) deverá estar pronto em meados do próximo ano e a versão que li, com a planificação e diálogos terminados e bem mais de 100 páginas completamente desenhadas e uma meia centena já com as cores planas, não me deixa dúvidas de que estamos perante o melhor trabalho de Filipe Melo e Juan Cavia, o que tendo em conta o alto nível de Os Vampiros e de Comer/Beber, não é coisa pouca!
Centrada na rivalidade entre dois pianistas, Balada para Sophie é uma história simultaneamente épica e intimista. Uma grande história sobre música, escolhas e o mais que os leitores verão em 2020.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Novela Gráfica V 11 - O número 73304-23-4153-6-96-8

AS SOMBRAS DE THOMAS OTT

Novela Gráfica V – Vol. 11
O Número 73304-23-4153-6-96-8
Argumento e Desenhos –– Thomas Ott
Quinta-feira, 12 de Setembro
Por + 10,90€
Em 1833, o suíço Rodolphe Topfer, um dos pioneiros da Banda Desenhada, definiu assim, numa carta ao seu amigo Goethe, a originalidade do trabalho que acabava de criar: “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”. É justamente nessa articulação e diálogo entre o texto e o desenho que reside a força e a originalidade da linguagem da BD.
Mais de 150 anos depois, Thomas Ott, um compatriota de Topfer, que além de autor de BD e ilustrador é também vocalista de uma banda rock e cineasta, demonstra que é possível contar histórias em BD recorrendo apenas ao desenho. O Número 73304-23-4153-6-96-8, décimo primeiro volume da colheita de 2019 da colecção Novela Gráfica, utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente estimulante, contada apenas pelo recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo.
Não que Ott tenha inventado a “BD muda” (chamemos-lhe assim por uma questão de comodidade),  género com uma importante tradição que vai desde The City de Franz Masereel, até ao Arzach de Moebius, passando por títulos como Gon de Masashi Tanaka, ou a série Love, de Frédéric Brrémaud e Federico Bertolucci, entre (muitos) outros, mas usa-a com uma eficácia e elegância pouco habituais, muito por via da técnica do scratchboard, ou grattage, em que o desenho é raspado a branco numa folha previamente coberta de tinta-da-china, criando assim uma imagem em negativo, em que a luz rasga as sombras.
Nascido em 1996, em Berna, na Suiça, Ott estudou no Kunstgewerbeschule em Zurique, antes de começar a publicar em revistas independentes na segunda metade da década de 1980. Desde as suas primeiras histórias curtas, que o imaginário e a técnica que encontramos neste O Número 73304-23-4153-6-96-8, estão presentes. Como o próprio refere numa entrevista: “Desde criança, tenho pensamentos sombrios. No meu trabalho, preocupo-me com coisas que me deixam doente, que são muito sombrias. Quando vejo esboços que fiz aos dez anos, vejo as mesmas coisas: fantasmas e monstros. A temática do meu trabalho não mudou, apenas ficou mais específica.”
O mesmo pode ser dito em relação à técnica da grattage que se tornou a sua imagem de marca e que o próprio define “como estar num quarto preto e ir deixando lentamente entrar a luz”. Dando mais uma vez a palavra a Ott: “experimentei a técnica pela primeira vez quando era estudante de arte na Escola de Design de Zurique. Pensei em fazer apenas uma história usando essa técnica, mas a verdade é que a continuo a usar.”
O resultado desta obsessão são dezenas histórias sombrias, pequenos contos de crime e castigo, entre o terror e o policial, na linha da produção da mítica editora americana EC Comics, ambientados em cenários americanos típicos do filme noir. Pequenas pérolas de narrativa visual, publicadas em diversas revistas europeias e recolhidas posteriormente em livro. Livros como Tales of Error, Hellville, Tales from the Edge, ou Cinema Panopticum, publicados em editoras com o prestígio da L’Association, em França e da Fantagraphics nos Estados Unidos.
Primeira história de fôlego feita por Thomas Ott, O Número 73304-23-4153-6-96-8 é uma perturbadora narrativa circular que conta a história de um guarda da prisão que encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números, ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam a sua curiosidade. Mas, tratando-se de uma história de Thomas Ott, esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma verdadeira maldição, conforme o leitor poderá ver/ler.
Publicado originalmente no jornal Público de 07/09/2019

domingo, 8 de setembro de 2019

Novela Gráfica V 10 - As serpentes Cegas




EXILADOS EM NOVA IORQUE

Novela Gráfica IV – Vol. 10
As Serpentes Cegas
Argumento – Felipe Hernández Cava
Desenhos – Bartolomé Segui
Quinta-feira, 29 de Agosto
Por + 10,90€
Mais   de 70 anos volvidos sobre o seu início, a Guerra Civil de Espanha deixou feridas ainda não completamente cicatrizadas. Se para muitos estrangeiros, de Hemingway a Hugo Pratt, aquela foi a “última guerra romântica”, para os espanhóis foi um momento de horror difícil de esquecer, até porque arrastaria consigo a longa ditadura franquista. Não admira, por isso, que seja um tema em destaque na Novela Gráfica espanhola contemporânea, como o provam títulos como Os Trilhos do Acaso e este As Serpentes Cegas. Vencedor do Prémio Nacional del Cómic em 2009, As Serpentes Cegas reúne o desenhador Bartolomé Segui - que os leitores do Público conhecem de Histórias do Bairro e da adaptação do romance Tatuagem, de Manuel Vazqués Montalbán, publicados em colecções anteriores - ao escritor Filipe Hernández Cava.

Formado em História de Arte e tendo trabalhado como guionista para televisão e como curador de exposições, Cava é um dos nomes principais da ascensão da BD de autor em Espanha após a morte de Franco, graças à sua participação no colectivo El Cubri, e ao seu trabalho como director editorial de dois títulos míticos da movida madrilena, as revistas Madriz e Médios Revueltos. Como argumentista, foi responsável por obras como a trilogia dedicada a Lope de Aguirre, desenhada por Enrique Breccia, Federico del Barrio e Ricard Castells, Las Memórias de Amorós, e O Artefacto Perverso, que era o único título seu editado em Portugal até agora.
Desenhado por Federico del Barrio, O Artefacto Perverso arrebatou os prémios de melhor álbum espanhol e de melhor argumento no Salão de Barcelona de 97 e foi a primeira reflexão importante de Cava sobre a Guerra Civil espanhola, embora a acção da história decorra no período imediatamente a seguir, no auge do Franquismo. Homenagem aos desenhadores da época de ouro do tebeo espanhol, e em especial a Vanó, o autor da série Roberto Alcazar yY Pedrín, O Artefacto Perverso era também uma interessante reflexão sobre a memória e uma arrojada experiência sobre o uso da BD como meta-linguagem, com o   traço versátil de del Barrio a adaptar-se de forma espantosa aos diferentes níveis da história, de um autor de BD que cala aquilo que vê e esconde aquilo que sente.
Menos experimental em termos estéticos, com um tratamento gráfico e um formato que remetem para a Banda Desenhada franco-belga clássica e um tratamento narrativo próximo do policial negro americano, com o uso da clássica narração na primeira pessoa, As Serpentes Cegas é o culminar das reflexões de Cava sobre a Guerra Civil espanhola, e aquele livro em que, continuando a ter a memória como tema dominante, a guerra está presente de forma mais directa. Obra que critica de forma dura os excessos cometidos em nome das ideologias, As Serpentes Cegas, reflecte a própria evolução de pensamento do seu autor, que afirmou numa entrevista : “antes acreditava que a verdade era sempre revolucionária, mas agora vejo que a verdade tem muitas zonas de sombra e eu gosto de me mover nessas zonas de sombra onde muito pouca gente se atreve a transitar.“Antes, acreditava que a verdade era sempre revolucionária, mas agora vejo que a verdade tem muitas zonas cinzentas, e a mim, dá-me gozo mover-me nessas zonas de sombra, pelas quais são poucos os que se atrevem a passar.”
História de vingança entre sobreviventes espanhóis da Guerra Civil, exilados em Nova Iorque, As Serpentes Cegas confirma Cava como um dos maiores argumentistas da No-vela Gráfica espanhola, mas também a importância de Bartolomé Segui como um dos grandes desenhadores da sua geração. O desenhador maiorquino declarou na entrevista para o catálogo da Exposição dedicada aos 10 anos do Prémio Nacional del Cómic que: “a nossa intenção não era fazer uma Banda Desenhada da Guerra Civil, mas sim aproveitar uma situação histórica concreta para fazer um comic que nos servia para falar de outras coisas: o fracasso das utopias, os “esquecidos” da História, etc...”.
Um objectivo cumprido com distinção, também muito por força da excelência do trabalho gráfico de Segui.
Publicado originalmente no jornal Público de 31/08/2019

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Novela Gráfica V 9 - Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro

O ESTRANHO MUNDO DE DANIEL CLOWES

Novela Gráfica V – Vol. 9
Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro
Argumento e Desenhos – Daniel Clowes
Quinta-feira, 29 de Agosto
Por + 10,90€
Depois de Marjane Satrapi e Schuiten e Peeters, eis mais um grande nome da BD mundial que regressa ao mercado editorial nacional através da colecção Novela Gráfica. Desta vez, o nome que confirma a excepcional qualidade desta colheita de 2019 é o norte-americano Daniel Clowes.
Nascido em Cicago em 1961, Clowes cresceu no meio de uma família ecléctica, que incluía um avô professor de História Medieval; um pai carpinteiro e construtor de móveis; um irmão hippie; um padrasto, dono de uma oficina de automóveis e corredor de stock cars, que morreu num acidente de carros quando Clowes tinha apenas cinco anos; e uma mãe, dona de casa, que se viu obrigada a tomar conta da oficina, após a morte do seu segundo marido.
Leitor de comics desde a infância, com gosto e jeito para o desenho, o jovem Daniel decidiu seguir uma carreira artística, tendo-se matriculado no Pratt Institute em Brooklyn, Nova Iorque, quando acabou o liceu em 1979. Foi no Pratt que econheceu e se fez amigo do desenhador Rick Altergott, com quem criou a pequena editora independente Look Mood Comics. É aí que Clowes se vai estrear como autor de BD, no nº 1 da revista Psycho Comics, em 1981. Os seus primeiros trabalhos profissionais para a revista Cracked ajudaram-no a ganhar experiência e a tornar-se conhecido, abrindo-lhe caminho para a editoras com outro peso, como a Fantagraphics, de Garry Groth e Kim Thompson, que se tornaria a editora de Clowes, depois deste enviar a Groth a primeira história que fez com o personagem Lloyd Llewellyn. Após a estreia no nº 13 da revista Love and Rockets, dos irmãos Hernandez, a Fantagraphics publicou entre 1986 e 1987 os seis números da revista Lloyd Llewellyn, a que se seguiu em 1988 The All-New Lloyd Llewellyn, a revista que encerra a história do personagem.
É no ano seguinte que a Fantagraphics começa a publicar o título fundamental da carreira de Clowes, a revista Eightball, que com diferente formatos e periodicidades, entre 1989 e 2004, serviu para pré-publicar em capítulos alguns dos mais importantes trabalhos do autor de Chicago, como Ghost World/Mundo Fantasma, a sua obra de estreia em Portugal, adaptada ao cinema em 2001 por Terry Zwigoff, e que lançou a carreira de uma Scarlett Johansson adolescente e este Como uma Luva... cujos dez capítulos saíram nos primeiros 10 números da Eightball, tendo sido posteriormente recolhidos em livro em 1993.
Se os títulos de Clowes têm sido frequentemente adaptados ao cinema, com o aconteceu com Ghost World, Art School Confidential e Wilson e deverá acontecer com Patience, a sua mais recente novela gráfica, isso não sucedeu com Como uma Luva de Veludo moldada em Ferro, cujo universo está bastante próximo do de cineastas como David Lynch e David Cronemberg. Mas, se isso não aconteceu até agora, é pouco provável que numa Hollywood cada vez mais infantilizada e refém do politicamente correcto, haja espaço para uma história tão perturbadora e surreal como a que Clowes criou. Uma história com personagens tão estranhos, como um bruxo que dá consultas na casa-de-banho de um cinema de filmes pornográficos; um homem com crustáceos enfiados nos globos oculares para limpar uma infecção; um culto religioso liderado por um aspirante a Charles Manson; um peludo cão (ou será cadela) sem quaisquer orifícios, que se alimenta de injecções de água; uma adolescente que fuma cachimbo; ou uma rapariga sem braços e pernas, fruto de uma noite de amor entre a mãe e uma criatura aquática de forma humana. Personagens surreais e delirantes, que Clay Loudermilk, o protagonista de Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro encontra na sua viagem em busca dos produtores de um filme pornográfico, em que lhe pareceu reconhecer a sua esposa, desaparecida alguns anos antes.
Com esta simples premissa como ponto de partida, Daniel Clowes pegou em dois ou três sonhos seus e da ex-mulher, para construir um road movie cerebral, que elimina qualquer fronteira entre o pesadelo e a realidade. Estranho, divertido e inquietante, Como uma Luva de Veludo moldada em Ferro é um dos mais importantes e perturbadores livros de um dos maiores nomes dos comics alternativos americanos.
Publicado originalmente no jornal Público de 24/08/2019

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

NovelaGráfica V 7 - Flex Mentallo


OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA DUPLA GENIAL

Novela Gráfica V – Vol. 7 
Flex Mentallo
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Quinta-feira, 15 de Agosto
Por + 10,90€
Bem conhecidos dos leitores portugueses, graças a títulos como WE3 e All Star Superman, Grant Morrison e Frank Quitely estreiam-se na colecção Novela Gráfica, na próxima quinta-feira, 15 de Agosto, com aquela que foi a sua primeira colaboração, Flex Mentallo, um clássico da Vertigo.
Publicado originalmente como uma mini-série em quatro volumes em 1996 e republicado numa edição de luxo definitiva, recolorida por Peter Doherty, em 2012, que serve de base à versão portuguesa, Flex Mentallo é muito mais do que a primeira colaboração entre Morrison e Quitely. É um exemplo de metaficção e uma reflexão sobre a história e mitologia dos comics de super-heróis e a sua importância para o mundo real. Ou como o próprio criador de Flex Mentallo, que é uma das personagens da história (e um alter ego óbvio do autor) explica aos leitores na página 101: “Criámos os comics porque sabíamos, de alguma forma, sabíamos, que faltava algo e tentámos preencher esse vazio, com histórias acerca de deuses e de super-heróis.”
Flex Mentallo nasceu durante a passagem de Morrison pela série Doom Patrol, um título clássico, criado um 1963 (o mesmo ano em que a Marvel lançou os Fantastic Four) e relançado em 1987, com o subtítulo “Os Mais Estranhos Super-Heróis do Mundo”, o que convinha perfeitamente a Morrison, que tomou conta da série em 1989, no número 19 e criou a sua versão da Doom Patrol. Uma versão incontornável e definitiva, que está na base da actual série televisiva, exibida em Portugal no canal por cabo da HBO, onde Flex Mentallo marca presença, interpretado pelo actor Devan Chandler Long.

Mas se o “quebrar da quarta parede”, colocando os personagens em confronto com o seu criador, é algo que Morrison já tinha feito antes na série Animal Man, aqui vai mais longe, traçando uma verdadeira história dos comics de super-heróis, iniciando uma reflexão sobre o género que irá culminar no seu livro Supergods. Isso é bem visível nas capas originais da mini-série, com cada uma a evocar umas das quatro idades dos Comics. A Idade do Ouro, a Idade da Prata, a Idade Sombria - que resultou do sucesso de Watchmen e de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, cuja capa é evocada no nº 3 da mini-série – e a Idade actual, que revisita de forma crítica e nostálgica as origens do género, reinventando-o para os leitores do século XXI.
E falta falar do excelente trabalho de Quitely, que se estreou aqui no mercado americano. Mas deixemos que seja o seu conterrâneo Grant Morrison a fazê-lo: “Graças às suas fantásticas habilidades de desenho, ele é capaz de criar coisas que antes só viviam nos meus sonhos, o que eu acho fascinante. Ele consegue captar no papel a sensação exacta dos meus sonhos. Ele abordou os personagens de uma forma que os fez parecerem bastante bizarros e bastante irrealistas, e acho que isso realmente se adequou ao livro.”
Publicado originalmente no jornal Público de 10/07/2019

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Novela Gráfica V 6 - Gorazde: Zona de Segurança

CERCADOS EM GORAZDE

Novela Gráfica V – Vol. 6 
Gorazde: Zona de Segurança
Argumento e Desenhos – Joe Sacco
Quinta-feira, 08 de Agosto
Por + 10,90€
O próximo volume da colecção Novela Gráfica assinala o regresso de Joe Sacco, um dos nomes maiores da reportagem de guerra em Banda Desenhada, género que praticamente inventou com Palestina, a sua novela gráfica de estreia, publicada em Portugal no início deste século XXI.
Nascido na Ilha de Malta, mas residente em Nova Iorque, Sacco é acima de tudo um repórter que escolheu a linguagem da BD para transmitir aquilo que viu. A meio caminho entre a novela (autobio)gráfica e a reportagem pura e dura, as suas obras têm como fio condutor o próprio Joe Sacco. Ele é o narrador participante, por vezes irónico, por vezes distante, mas cuja presença se apaga gradualmente face à força dramática dos testemunhos que relata. Sacco não chega a grandes conclusões, nem apresenta soluções, limita-se a relatar o que viu. E o que viu não é nada bonito. Um retrato sem concessões, mas cheio de humanidade, dos horrores da guerra e das vidas das gentes que procuram sobreviver e encontrar alguma aparência de normalidade no meio do caos.
No cerne deste livro estão as quatro viagens que o autor fez a Gorazde, entre o final de 1995 e o início de 1996. Um pequeno enclave muçulmano em território sérvio, Gorazde foi designada pela ONU como área segura durante a Guerra da Bósnia. Uma designação optimista, pois a cidade, cercada pelas forças sérvias da Bósnia, esteve à beira da destruição por três anos e meio, com o povo de Gorazde a sofrer severas privações para manter sua cidade, enquanto o restante do leste da Bósnia era brutalmente "purificado" de sua população não-sérvia pelas tropas de Slobodan Milosevic.
Se o conflito na ex-Jugoslávia que se seguiu à morte do Marechal Tito - cuja mão de ferro conseguiu manter artificialmente unida durante quase três décadas, a então República Federal Socialista da Jugoslávia, que acabaria por se dividir numa série de pequenas repúblicas, correspondentes às diferentes comunidades étnicas e religiosas, de croatas, sérvios e muçulmanos - tem sido bastante tratado na BD, esses relatos centraram-se sempre na cidade de Sarajevo. Basta pensar em Fax de Sarajevo, de Joe Kubert, publicado na colecção de 2016, ou em Sarajevo-Tango, de Hermann, ainda inédito em português. Um aspecto que vem tornar ainda mais pertinente o esforço de Sacco, que permitiu alertar o grande público para o drama vivido em Goradze.
Para além da força dos relatos e da profunda humanidade com que Sacco os transmite, o livro vive também do traço detalhado e expressionista do desenhador. Um estilo a meio caminho entre o realista e o caricatural, feito de milhares de pequenos traços, numa técnica que se aproxima da gravura e que se revela extremamente eficaz nas cenas de conjunto. Mas além de um traço muito trabalhado, Sacco é também senhor de uma boa técnica narrativa, patente na forma dinâmica como o texto se espalha pelas páginas, ou como a planificação se vai alterando de acordo com as necessidades de cada capítulo.
Desde que foi publicado pela primeira vez em 2000, Gorazde: Zona de Segurança ganhou o Eisner de Melhor Novela Gráfica em 2001 e foi reconhecido como um dos clássicos absolutos da novela gráfica de reportagem. Um clássico que, quase vinte anos depois, chega finalmente a Portugal.
Publicado originalmente no jornal Público de 03/08/2019

sábado, 3 de agosto de 2019

Novela Gráfica V 5 - Monika

MONIKA E O DESEJO

Novela Gráfica V - Vol. 5 
Monika
Argumento – Thilde Barboni 
Desenho – Guillem March
Quarta-feira, 04 de Julho
Por + 10,90€
Monika, o quinto volume da colecção Novela Gráfica, é um triller tão movimentado como sensual. Uma história de violência e desejo, com dramas familiares, máscaras, sociedades secretas, festas sadomaso, grupos terroristas, um andróide apaixonado e uma grande carga erótica, saída da imaginação da escritora belga Thilde Barboni e magnificamente ilustrada pelo espanhol Guillem March. 
Nascido em Maiorca, em 1979, Guillem March construiu recentemente uma extensa carreira no mercado americano como ilustrador da DC Comics, a editora de Batman e Superman, onde se estreou com uma história da Hera Venenosa que os leitores portugueses puderam já ler no volume Asilo do Joker, (publicado na colecção No Coração das Trevas DC). Ligado às séries da linha do Batman, para onde tem desenhado vários títulos, com destaque para a revista da Catwoman, March tornou-se principalmente conhecido pelas centenas de belíssimas capas que ilustrou, pondo normalmente em destaque a beleza e a sensualidade das personagens femininas do universo DC.
Até pelo título (um simples nome de mulher) este Monika faz a ponte entre as duas grandes etapas do trabalho de March: a europeia e a americana. Antes de entrar no mercado americano, o desenhador maiorquino tinha trabalho publicado como autor completo em Espanha, com obras como a trilogia Sofia, Ana y Victoria, pré-publicada entre 2001 e 2004 no suplemento dominical do Jornal de Mallorca, e Laura, livro de 2006 que encerra esse ciclo feminino e que foi realizado entre a publicação do primeiro e do segundo volume de Monika. E este Monika combina perfeitamente a sensualidade e a dimensão humana dos álbuns maiorquinos (a acção de Sofia, Ana y Victoria passa-se em Maiorca, onde March nasceu e ainda vive), com a acção e espectacularidade dos comics de super-heróis, de que March se tornou um nome incontornável.
Publicado originalmente no jornal Público de 27/07/2019 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Novela Gráfica V 4 - No Rasto de Garcia Lorca

RECORDANDO GARCÍA LORCA

Novela Gráfica V - Vol. 4 
O Rasto de García Lorca
Argumento – Carlos Hernández e El Torres 
Desenhos – Carlos Hernández
Quinta-feira, 25 de Julho
Por + 10,90€
Nome maior da poesia e do teatro espanhol e figura incontornável da cultura mundial, a quem a morte trágica deu uma dimensão mítica, Federico García Lorca é o protagonista do quarto volume da colecção Novela Gráfica, que chega aos quiosques de todo o país no dia 25 de Julho, mas que dois dias antes será objecto de uma apresentação e lançamento na Fundação José Saramago, com a presença de Pilar del Rio, uma das autoras do prefácio.
Se as biografias de escritores, ou poetas são um tema bastante presente na novela gráfica espanhola contemporânea – basta pensar em Gente de Dublin, a biografia que Alfonso Zapico fez de James Joyce, publicada na colecção de 2018 – este O Rasto de García Lorca, para além de ser o primeiro, é diferente. Uma diferença que passa por traçar o retrato do poeta através da marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram - desde figuras célebres como Buñuel e Dalí, que não sai nada bem visto, até personagens bem mais anónimas, como Eládio, o criado anão do Hotel em Havana, onde Lorca se hospedou - nos locais por onde passou: pessoas que partilharam a vida e a morte do poeta, em cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque.
O ilustrador Carlos Hernández, que tem aqui o seu primeiro trabalho de grande fôlego, aliou-se a El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, para traçar doze momentos da vida de Garcia Lorca. Doze peças de um puzzle que, uma vez juntas, apresentam ao leitor um retrato bastante nítido do fundador da Barraca.
Embora o nome dos dois autores apareça em pé de igualdade na capa, a verdade é como refere modestamente El Torres, foi Carlos “quem comandou o barco” enquanto ele, como vem na ficha técnica se limitou a “limpar e dar brilho e esplendor” às suas ideias. Algo natural, pois Carlos Hernández é natural de Granada e, como refere numa entrevista: “como granadino, Federico García Lorca está no meu subconsciente e tem sido, desde que me lembro, o referente cultural da minha cidade, apesar das cinzas do passado e de um controverso silêncio de que a cidade ainda não se conseguiu de todo libertar. Lorca significa muito para qualquer um que tenha sensibilidade para sentir os seus passos naqueles recantos da cidade que ainda conservam o seu rasto.” Por isso, a história abre e fecha com as memórias de Alfonsito, um vizinho de Lorca, personagem inspirada no pai do próprio Carlos Hernández, que foi contemporâneo do poeta.
Dando mais uma vez a palavra a Carlos Hernández: “A premissa inicial foi de não contar a sua vida como mais uma biografia, mas antes construir diferentes relatos biográficos com uma certa independência, de que Lorca é o protagonista elíptico, muitas vezes ausente e outras não, mas sempre reflectindo, através do olhar dos seus amigos ou conhecidos, esse magnetismo, vitalidade e carismática presença que encontramos nas descrições de todos aqueles que o conheceram em vida. Por isso, escolhemos os temas em função de diversas prioridades. Por exemplo, contar algo da sua viagem a Nova Iorque, a sua estadia em La Habana, falar de sua relação com Dalí e Buñuel, a Residência de estudantes, relatar o seu dia-a-dia com a Barraca, e também mostrar a face sinistra de Granada, através do antigo soldado que se gabava de ter morto Lorca, uma história autêntica que as pessoas mais velhas da minha cidade ainda recordam.”
Graficamente, Hernández, que fez um sólido trabalho de pesquisa que dá grande veracidade à sua reconstituição de época, optou por um registo a sépia, que nos remete para as fotografias antigas, com resultados extremamente evocativos e poéticos. Mas onde o seu trabalho brilha mais é em termos narrativos, em momentos como a (surreal, mas verídica) entrevista a Salvador Dalí, ou as memórias de Luís Buñuel, em 1928, em que as palavras dos dois são acompanhadas por imagens que remetem para o filme Un Chien Andalou, que Dalí e Buñuel realizaram.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/07/2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Novela Gráfica V 3 - A Febre de Urbicanda


Como acontece nos casos em que sou o autor do prefácio do livro, em vez de transcrever o texto do Público ( que podem sempre ler, carregando na imagem abaixo) aqui vos deixo o prefácio. É sempre um prazer escrever sobre As Cidades Obscuras e ainda mais sobre este livro, que foi o primeiro da série que comprei, em 1986, na FNAC de Les Halles, em Paris. Também por essas memórias, e pelo muito que me liga a essa série e aos seus autores, é sempre bom regressar a Urbicanda, ou a qualquer outra Cidade Obscura.

REGRESSO A URBICANDA


No mesmo ano em que nos países francófonos se conclui a edição integral em quatro volumes da série As Cidades Obscuras, eis que finalmente é reeditado em Portugal um dos títulos fundadores do universo criado por François Schuiten e Benoit Peeters, A Febre de Urbicanda. Objecto de uma primeira edição nacional, no final da década de 80 do século XX, o clássico de Schuiten e Peeters regressa agora numa edição definitiva que, para além de um dossier final sobre a lenda da Estrutura, inclui também a história A Última Visão de Eugen Robick, feita em 1997 para o número final da revista (A Suivre) onde a série nasceu.
Efectivamente, tudo começou em 1983, nas páginas da revista (A Suivre) com Samaris, a primeira das Cidades Obscuras dada a conhecer por Schuiten e Peeters. na história Les Murailles de Samaris.  O que era inicialmente para ser uma aventura independente, de homenagem à Arte Nova e à arquitectura em trompe l’oeil, viria a dar origem a uma série de histórias autónomas, passadas num mesmo universo que os próprios autores definem como sendo um reflexo deslocado da Terra, mas num tempo indefinido, parado algures na transição do século XIX para o XX.
Não sendo a primeira, A Febre de Urbicanda é, efectivamente a história que melhor abarca o conceito de “Roman BD” – termo associado à revista (A Suivre) que em França designou inicialmente a Novela Gráfica – com histórias preto e branco de longo fôlego, estruturadas em capítulos e marcadas pela ausência de um limite de páginas pré-estabelecido, e que, de facto, fundou o universo da série “a posteriori”. Aspecto que fica bem patente logo nas páginas iniciais de BD, ambientadas no gabinete de Robick, cujas paredes estão decoradas com um grande mapa do Continente Obscuro, onde são visíveis nomes de cidades como Alaxis, Xhystos e Samaris. Do mesmo modo, aquando da posterior reedição em livro de As Muralhas de Samaris, os autores acrescentaram algumas páginas no final, em que aparece um jovem Eugen Robick, então a viver em Xhystos, criando assim uma ligação entre os dois livros, cuja acção, percebe-se então, tem lugar no mesmo universo: o universo das Cidades Obscuras (designação inventada por Jean Paul Mougin, director da (A Suivre). Um universo que é constituído por uma série de cidades fantásticas, verdadeiros protagonistas de histórias fascinantes, que têm como pano de fundo as relações entre a arquitectura, as emoções e o poder. Histórias que procuram responder a uma questão fundamental: até que ponto as características de uma cidade podem moldar o comportamento dos seus habitantes e a evolução da própria narrativa?
Conforme refere Benoit Peeters: “o cenário, para nós não é um elemento secundário: é a partir dele que o conjunto da narrativa se organiza. Na maior parte das bandas desenhadas, o motor e o centro da narrativa é uma personagem que se reencontra, álbum após álbum. Completamente diferente é o projecto das Cidades Obscuras, em que é uma cidade que dá a cada história a sua unidade; não uma cidade real que trabalhos de localização permitissem alcançar, mas uma cidade inteiramente fictícia, fragmento de um universo paralelo cuja imagem global se desenha pouco a pouco”.
Neste caso, a cidade é Urbicanda, uma utopia arquitectónica baseada no rigor do planeamento e na simetria, em que o crescimento geométrico de um misterioso cubo feito de uma matéria desconhecida, vem perturbar e transformar a vida dos seus habitantes e a imagem da própria cidade. Embora o nome de Robick, o urbitecto responsável pela imagem uniforme da cidade, remeta para o cubo de Rubik, brinquedo quebra-cabeças muito em voga nos anos 80, e a história tenha precisamente seis capítulos – tantos quanto as faces de um cubo - a principal fonte de inspiração para o urbitecto foi o próprio pai de Schuiten, Robert Schuiten, arquitecto de profissão, tal como as cidades construídas de raiz, como Brasília -  que os autores só visitaram em 1997, ano da morte do pai de Schuiten – serviram de inspiração para Urbicanda. A mesma Brasília, traçada por Óscar Neimeyer,  onde reencontraremos Robick, na história curta para o último número da revista (A Suivre) que encerra este volume.

Para além da arquitectura fascista e dos projectos utópicos de Boulée e Ledoux,  expressamente citados na carta de Robick à Comissão das Altas Instâncias, que abre o livro, o universo imponente de Urbicanda é particularmente inspirado em trabalhos realizados por estudantes de arquitectura das Belas-Artes de Paris na década de 30. O que nos remete para outra das características marcantes da série, o recurso a uma ficção-científica “retro”, extrapolada a partir das utopias e dos projectos futuristas do princípio do século e de finais do século XIX.
Ao contrário de um Edgar P. Jacobs – de quem François Schuiten é um profundo admirador, como o demonstrar o recente Blake e Mortimer que desenhou - que, quando se propôs descrever o futuro em A Armadilha Diabólica, acaba, em vez disso, por retratar, com poucas extrapolações, a tecnologia de 1958, a tecnologia da Exposição Universal que vira dois anos antes em Bruxelas, o universo das Cidades Obscuras está mais fora do tempo. Nas palavras de Peeters, “o universo que descrevemos é um universo ligeiramente deslocado, mas cheio de elementos tirados do nosso universo. Evoca, de facto, aquilo que teria acontecido se tivesse havido uma espécie de falha temporal, se em lugar de evoluir no sentido que nós conhecemos, a arquitectura e as técnicas tivessem ligeiramente bifurcado a partir de um certo estádio, para seguir até ao fim uma direcção que, na realidade, foi muito depressa abandonada”.
Série maior da BD franco-belga, que cedo ultrapassou os limites da própria Banda Desenhada, para dar origem a livros ilustrados, documentários, um guia de viagens, exposições, intervenções cenográficas, um congresso que teve lugar em Coimbra em 1998 – cujas actas foram recolhidas no livro As Cidades Visíveis - e até a Estações de Metro, em Paris e Bruxelas, as Cidades Obscuras são um marco incontornável na história da Banda Desenhada e A Febre de Urbicanda é um das melhores portas de entrada nesse universo fascinante.
Publicado originalmente como prefácio do livro A Febre de Urbicanda, terceiro volume da colecção Novela Gráfica de 2019