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quarta-feira, 25 de setembro de 2019
Com o Lisbon Studio, no Festival de Lodz
Casa de muitos autores portugueses que conseguiram dar uma dimensão internacional ao seu trabalho, o The Lisbon Studio (TLS) celebra essa vocação global com uma exposição inserida na edição de 2019 do Festival de BD de Lodz, que decorre de 27 a 29 de Setembro, na Polónia.
Uma mostra com produção de José de Freitas, curadoria de Bruno Caetano e textos da minha autoria, que celebra o presente, mas também o passado do TLS, centrada nos originais dos quatro artistas que estarão presentes em Lodz, Marta Teives, Ricardo Cabral, João Tércio e Nuno Saraiva, mas que inclui também arte de outros doze ilustradores portugueses que, nos últimos 10 anos passaram pelo The Lisbon Studio: Filipe Andrade, Jorge Coelho, Nuno Plati, Ricardo Tércio, Ricardo Venâncio, Joana Afonso, Bárbara Lopes, Dileydi Florez, Patrícia Furtado, Pedro Potier, Pedro Brito e Nuno Lourenço Rodrigues.
Um total de dezasseis ilustradores para representar um país através de uma exposição que será acompanhada pela edição, por parte da editora Timoft, de uma antologia concebida especialmente para o mercado polaco, que recolhe histórias publicadas originalmente na colecção TLS Series, que a Comic Heart e G Floy têm vindo a publicar.
Criado em 1991, o Festival de Lodz é o mais importante Festival de Banda Desenhada da Polónia e do Leste europeu. Um Festival com uma grande ligação a Portugal e à BD portuguesa, traduzida na presença regular de artistas portugueses, como foi o caso de André Lima Araújo em 2018, e em projectos como o City Stories - Lodz. Uma parceria entre a AmadoraBD e o Festival de Lodz, que passou pela colaboração entre artistas portugueses e polacos na realização de histórias inéditas, de que resultou um livro e uma exposição na edição de 2010, onde estiveram presentes os criadores portugueses Ricardo Cabral, Rui Lacas, Filipe Andrade e Filipe Pina que, não por acaso, passaram todos pelo TLS.
Eu estarei por lá, acompanhando os autores do TLS e para apresentar uma comunicação sobre a BD portuguesa e conto trazer-vos aqui um punhado de imagens desta viagem ao Festival de Lodz.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
LISBON CALLING: Os ícones da América visto pelos ilustradores portugueses
O último texto deste blog em 2015, tem uma particularidade especial. Apesar de ter sido escrito para uma publicação específica (o Catálogo do último AmadoraBD) mantinha-se inédito, em virtude do dito catálogo, que este ano, pela primeira vez, não teria direito a uma versão impressa, não ter saído ainda sequer em formato digítal, mais de dois meses após o final do Festival.
Por isso, aqui o deixo, tal como foi escrito e fazendo referência apenas às peças que tinham sido entregues na altura em que redigi o texto.
Resta-me desejar um bom ano aos leitores deste blog, onde prometo regressar, logo no início de 2015, com a habitual lista das 10 Melhores BDs que li no ano que findou.
LISBON CALLING: UM CONVITE DA EMBAIXADA AMERICANA AOS ARTISTAS PORTUGUESES
Entre as dezenas de milhares de visitantes que se deslocaram ao Fórum Luís de Camões durante os dezassete dias que durou o último AmadoraBD, houve um visitante muito especial. Robert Sherman, o Embaixador norte-americano em Portugal que, tendo-se deslocado à Amadora expressamente para visitar a exposição dedicada aos 75 Anos do Batman, acabaria por visitar as restantes exposições que compunham o núcleo central do Festival.
Tendo colaborado directamente com Lawrence Klein no comissariado das exposições dedicadas aos 75 Anos do Batman e ao Surfista Prateado, outra personagem icónica dos Comics, tive o privilégio de fazer a visita guiada ao Embaixador. Umas das coisas que mais fascinou Robert Sherman na mostra dedicada ao septuagésimo quinto aniversário do Cavaleiro das Trevas, foi a recriação, feita por autores portugueses (e pelos argentinos Juan Cavia e Santiago Villa) de algumas das capas mais importantes da série, cujos originais não foi possível localizar.
Logo ali, o embaixador sugeriu organizar para a edição seguinte do Festival, uma exposição, com o alto patrocínio da Embaixada, para divulgar o trabalho desses artistas nacionais, muitos deles a trabalhar directamente para o mercado americano. Mostrando que nem todos os políticos são iguais, Robert Sherman cumpriu a sua promessa e a mostra Lisbon Calling, organizada em conjunto pela Embaixada americana e pelo AmadoraBD, aqui está para o provar.
O convite, que era também um desafio, que o embaixador Sherman dirigiu aos desenhadores portugueses, através de Lawrence Klein, que comissariou a exposição a partir dos Estados Unidos, foi para que criassem, em total liberdade, imagens com personagens da cultura Pop americana em cenários portugueses, ou versões portuguesas de heróis americanos da BD ou do cinema. Ou seja, imagens que reflectissem o diálogo entre as duas culturas, recriando, deste lado do Atlântico, os ícones da cultura americana, que os comics e o cinema tornaram globais.
Curiosamente, quem melhor captou a essência do desafio, através de uma composição espectacular, tanto em termos cenográficos, como de detalhe e composição, foi Penim Loureiro, que nem é membro do Lisbon Studio. O arquitecto e autor de Banda Desenhada, que já no ano passado tinha participado na exposição do Surfista Prateado, recriando uma página emblemática de Moebius, pega agora num dos mais famosos monumentos de Lisboa, o Padrão dos Descobrimentos, criado para a Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, substituindo os navegadores por personagens dos comics, com o Batman, no lugar do Infante Dom Henrique, secundado por heróis como o Superman, Robin, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde, Demolidor, Rocketeer, Príncipe Valente, Wolverine, Homem de Ferro, Hellboy, Lanterna Verde, Lobo e Deadpool, com o Doutor Destino e o Marv de Sin City a erguerem um padrão, numa réplica perfeita das poses das figuras do lado este do monumento desenhado por Cotinelli Telmo e esculpido por Leopoldo de Almeida.
Como refere Penim Loureiro: “Quando o Lawrence Klein me convidou a fazer uma ilustração da fusão entre a cultura comics dos EUA e a de Portugal, pensei mais na contaminação cultural.
Seleccionei um marco na paisagem, com algum carácter maniqueísta, apelo ao imaginário português tão simplificado como a cultura americana. O Padrão dos Descobrimentos - mais propaganda e posse de "peito tufado" que humanidade - pareceu-me o momento (monumento que subverte a temporalidade) mais indicado. Este entrosamento de imagética exibicionista e fruição facilmente se transformou num grupo de super-heróis norte americanos em clássica posse escultórica. O resultado parece natural, no fim de contas as personagens modeladas por Leopoldo de Almeida, em 1939, não eram de carne e osso; eram mitos. Heróis que nos fazem esquecer da nossa fragilidade.”
Entre os heróis que repetem a sua presença na exposição, temos o Wolverine, o mais popular integrante dos X-Men, que, para além do Padrão dos Descobrimentos, surge a recorrer aos serviços de um amolador de tesouras para afiar as garras, numa ilustração de Joana Afonso e numa versão feminina, como Wolvarina, personagem fruto da ligação de Wolverine com uma varina de Lisboa, nascida da imaginação de Ricardo Cabral.
Outro herói também presente na composição do Padrão dos Descobrimentos, que vai ser aproveitado por outro autor, é o Superman. O Homem de Aço que Osvaldo Medina, coloca a cantar o fado, numa casa de fados. O mesmo sucede com o Batman, que Pedro Ribeiro Ferreira coloca multiplicado de fato e gravata, nas escadarias da Assembleia da República, numa evocação do escândalo das “viagens fantasma”, protagonizado por um deputado que ficou com a alcunha precisamente de “Batman”. Também os Peanuts, de Charles Schulz, estão presentes em duas imagens, através de Charlie Brown. Pepe Del Rei mete-o, e ao Snoopy, numa cena do filme Pátio das Cantigas (o original, com António Silva, naturalmente) a provocar o Evaristo, enquanto Marta Teives o põe agarrado à traseira de um eléctrico (possivelmente o 28) para subir uma das sete colinas de Lisboa.
Os Vingadores, ou Avengers, que o cinema transformou no mais popular gupo de super-heróis da actualidade, estão numa divertida recriação de João Tércio, através de quatro falsas capas de revistas, que os reúne (como The Agenders) para uma sardinhada, para além de dar um toque bem português aos seus principais membros, transformando o Homem-Aranha em Spider-Mané, um típico “pintas” lisboeta, com bigode, barriga de cerveja e o cigarro ao canto da boca; o Capitão América em Sardine America (o que vem tornar algo estranha a sua presença numa sardinhada, com os restantes Agenders…), enquanto o Homem de Ferro se transforma no Iron Soccer, um cruzamento entre o Cristiano Ronaldo e o Homem de Ferro, da Marvel.
Outro membro dos Vingadores em destaque, é o Poderoso Thor, que Filipe Andrade desenha a sair do bar Viking, local emblemático da “noite” do Cais do Sodré. Mas as referências escolhidas pelos ilustradores portugueses não se ficam pela BD. Também o cinema está presente, seja na homenagem de Dileydi Florez ao filme de The Nightmare Before Christmas, de Tim Burton, cujas personagens são transpostas para Alfama durante os Santos populares, seja no encontro entre Marilyn Monroe e o Zé Povinho, encenado por Pedro Ribeiro Ferreira.
O mesmo podemos dizer em relação às personagens da televisão, pois o “nosso” Zé Gato (o primeiro detective da TV portuguesa) surge ao lado de Jessica Rabitt, numa ilustração de Pep Del Rei, enquanto Marta Teives coloca o Scooby Doo e os seus amigos, a fugirem de um Olharapo. Abordagem diferente é a seguida por Nuno Duarte (que assina “o outro Nuno” para não ser confundido com o argumentista seu homónimo) que recria duas imagens icónicas, introduzindo-lhes elementos tipicamente portugueses. Assim, na capa da revista Mad, que se transforma em Toma!, em vez Alfred E. Neuman - a mascote da revista, cuja cara está sempre em destaque nas capas, substituindo a personalidade, ou personagem, que é alvo de paródia - temos o “nosso” Zé Povinho, a fazer o típico “manguito”. O mesmo sucede na outra imagem que criou para esta exposição, que parte do célebre cartaz do Buffalo Bill’s Wild West Circus, substituindo o mais famoso dos cowboys, por um campino chamado JoaQuim Touro, enquanto que o Circo do Velho Oeste dá lugar ao Grupo de Forcados Amadores.
Finalmente, Pedro Ribeiro Ferreira cria uma daquelas sardinhas ilustradas que se tornaram um dos símbolos das Festas de Lisboa e da criatividade da ilustração nacional, enchendo-a de símbolos imediatamente reconhecíveis da América, do Tio Sam a Hommer Simpson, passando pelo Calvin, ou Rato Mickey. Ingredientes semelhantes, tem a salada criada por Nuno Lourenço Ferreira, onde caretos e galos de Barcelos se misturam com o Hulk, Homem-Aranha e Tartarugas Ninjas, num prato de aspecto apetitoso, temperado com as cores da bandeira portuguesa.
Toda esta diversidade e criatividade poderão ser vistas durante o período em que decorre o Festival. Mais tarde, as peças viajarão naturalmente para os E.U.A, e em 2016 está também prevista a sua exibição no Festival de Lodz, na Polónia, dando assim outra visibilidade a este saboroso desafio intercontinental a que os artistas portugueses tão bem souberam responder.
Texto escrito originalmente para o Catálogo do 26º Amadora BD, ainda a aguardar publicação digital.
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domingo, 27 de novembro de 2011
As Cidades de Ricardo Cabral
Depois de “Israel Sketchbook” e “Newborn: Dez Dias no Kosovo” o desenhador viajante Ricardo Cabral regressa às suas histórias de viagens, desta vez com uma recolha de cinco histórias curtas, desenhadas entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2011, tendo diversas cidades como cenário e protagonistas.
São cinco histórias soltas, duas inéditas e três outras feitas originalmente para diferentes locais, mas que resultam num todo orgânico e coerente, que funciona como uma evolução natural dos anteriores livros de viagens de Ricardo Cabral. Ou seja, o método de recolha de imagens e de trabalho é o mesmo, com o autor a fazer o desenho inicial no local, complementado com fotografia, que permite captar pormenores, como as cores, que o esboço inicial não regista e que servem de base ao posterior trabalho de cor digital.
Nesse aspecto, histórias como “5 Jours” e “Barcelona, Kosovo, Barcelona” funcionam como um pouco como making off dos anteriores livros de Ricardo Cabral, que tal como já tinha feito em “Newborn” decompõe as várias fases do seu método de trabalho, com imagens em que o desenho se mistura ostensivamente com a fotografia, ou outras em que apenas as personagens têm cor, deixando os cenários tal com os esboçou na altura no seu caderno Moleskin. Um caderno muito provavelmente semelhante aos acabados de lançar com um desenho seu do Porto de Barcelona, cuja imagem aparece reproduzida na página 74 do livro, e aqui reproduzo, numa óbvia auto-citação.
Num livro essencialmente realista, com uma forte carga autobiográfica, todo ele construído num registo de câmara subjectiva (o rosto do autor nunca aparece nos desenhos e o leitor vê apenas aquilo que o desenhador está ver e a desenhar), não deixa de ser curioso o toque fantástico dado pelas criaturas coloridas que parecem saídas de um filme de Miyazaki, como o elefante côr de rosa de Lodz, ou os deliciosos monstrinhos que invadem o Lisbon Studio durante a noite.
Para além de um livro muito bonito, que tem o mérito de reunir no mesmo sítio a produção dispersa de Ricardo Cabral, "Pontas Soltas – Cidades” é mais um importante passo no trajecto de um autor que, entre a Banda Desenhada e os cadernos de viagens, tem sabido construir uma obra singular e de grande qualidade.
(“Pontas Soltas – Cidades”, de Ricardo Cabral, Edições Asa, 92 pags, 17,95 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 26/11/2011
São cinco histórias soltas, duas inéditas e três outras feitas originalmente para diferentes locais, mas que resultam num todo orgânico e coerente, que funciona como uma evolução natural dos anteriores livros de viagens de Ricardo Cabral. Ou seja, o método de recolha de imagens e de trabalho é o mesmo, com o autor a fazer o desenho inicial no local, complementado com fotografia, que permite captar pormenores, como as cores, que o esboço inicial não regista e que servem de base ao posterior trabalho de cor digital.
Nesse aspecto, histórias como “5 Jours” e “Barcelona, Kosovo, Barcelona” funcionam como um pouco como making off dos anteriores livros de Ricardo Cabral, que tal como já tinha feito em “Newborn” decompõe as várias fases do seu método de trabalho, com imagens em que o desenho se mistura ostensivamente com a fotografia, ou outras em que apenas as personagens têm cor, deixando os cenários tal com os esboçou na altura no seu caderno Moleskin. Um caderno muito provavelmente semelhante aos acabados de lançar com um desenho seu do Porto de Barcelona, cuja imagem aparece reproduzida na página 74 do livro, e aqui reproduzo, numa óbvia auto-citação.
Num livro essencialmente realista, com uma forte carga autobiográfica, todo ele construído num registo de câmara subjectiva (o rosto do autor nunca aparece nos desenhos e o leitor vê apenas aquilo que o desenhador está ver e a desenhar), não deixa de ser curioso o toque fantástico dado pelas criaturas coloridas que parecem saídas de um filme de Miyazaki, como o elefante côr de rosa de Lodz, ou os deliciosos monstrinhos que invadem o Lisbon Studio durante a noite.
Para além de um livro muito bonito, que tem o mérito de reunir no mesmo sítio a produção dispersa de Ricardo Cabral, "Pontas Soltas – Cidades” é mais um importante passo no trajecto de um autor que, entre a Banda Desenhada e os cadernos de viagens, tem sabido construir uma obra singular e de grande qualidade.
(“Pontas Soltas – Cidades”, de Ricardo Cabral, Edições Asa, 92 pags, 17,95 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 26/11/2011
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
Newborn: 10 Dias no Kosovo
Um ano depois da publicação de “Israel Sketchbook”, Ricardo Cabral regressa às livrarias com um novo caderno de viagem, desta vez dedicado ao Kosovo. “Newborn: 10 Dias no Kosovo” nasceu de um projecto de Banda Desenhada para a editora francesa Soleil, que acabou por não se concretizar. Gorado esse projecto, a viagem de recolha de elementos gráficos para uma BD ambientada no Kosovo do pós-guerra, que Ricardo ia desenhar a partir do argumento de um autor nascido no Kosovo, serviu-lhe para conhecer por dentro a realidade do Kosovo actual, realidade essa que Ricardo nos transmite de forma despretensiosa neste caderno de viagem.
Mais uma vez, a visão de Ricardo Cabral não é a do vulgar turista, mas sim de alguém que, durante 10 dias, partilhou a vida daqueles cuja terra visita. Um país bonito e que lentamente vai curando as cicatrizes de uma guerra sem quartel, que não poupou albaneses nem sérvios. Conforme o próprio Ricardo refere: “pensei encontrar um país martirizado pela guerra. Das notícias das valas comuns, das deportações forçadas, dos milhares de refugiados e desaparecidos, era de esperar um país cinzento e triste, mas a vida decorre normalmente… e as raparigas aqui são realmente muito bonitas.”
Tal como acontecia em “Israel Sketchbook”, embora a memória da guerra paire em alguns momentos do livro, o que fica é um bonito país e, sobretudo, a sua gente, gente bonita e que procura ser feliz.
E, embora se mantenha o mesmo método de trabalho, com os esboços feitos no local a serem posteriormente coloridos por computador, com auxílio de fotografias, a principal diferença em relação ao livro anterior é uma maior diversificação de
registos visuais, com imagens apenas esboçadas, publicadas tal como foram desenhadas na altura, diferentes desenhos sobrepostos na mesma imagem, ou sequências em que se misturam de forma explícita o desenho e a fotografia, num processo que de alguma forma evoca o magnífico trabalho de Emanuel Guibert a partir das fotografias de Didier Lefevre em “Le Photographe”.
A publicação deste segundo caderno de viagem pela Asa, mostra que há um público para este tipo de livros, talvez até mais vasto do que o da BD. Esperemos, é que o sucesso do Ricardo Cabral viajante, não nos prive do trabalho do autor de BD…
(“New Born: 10 Dias no Kosovo”, de Ricardo Cabral, Edições Asa, 144 pags, 19,20 €)
Texto publicado no Diário As Beiras de 24/12/2010
Mais uma vez, a visão de Ricardo Cabral não é a do vulgar turista, mas sim de alguém que, durante 10 dias, partilhou a vida daqueles cuja terra visita. Um país bonito e que lentamente vai curando as cicatrizes de uma guerra sem quartel, que não poupou albaneses nem sérvios. Conforme o próprio Ricardo refere: “pensei encontrar um país martirizado pela guerra. Das notícias das valas comuns, das deportações forçadas, dos milhares de refugiados e desaparecidos, era de esperar um país cinzento e triste, mas a vida decorre normalmente… e as raparigas aqui são realmente muito bonitas.”
Tal como acontecia em “Israel Sketchbook”, embora a memória da guerra paire em alguns momentos do livro, o que fica é um bonito país e, sobretudo, a sua gente, gente bonita e que procura ser feliz.
E, embora se mantenha o mesmo método de trabalho, com os esboços feitos no local a serem posteriormente coloridos por computador, com auxílio de fotografias, a principal diferença em relação ao livro anterior é uma maior diversificação de
registos visuais, com imagens apenas esboçadas, publicadas tal como foram desenhadas na altura, diferentes desenhos sobrepostos na mesma imagem, ou sequências em que se misturam de forma explícita o desenho e a fotografia, num processo que de alguma forma evoca o magnífico trabalho de Emanuel Guibert a partir das fotografias de Didier Lefevre em “Le Photographe”.
A publicação deste segundo caderno de viagem pela Asa, mostra que há um público para este tipo de livros, talvez até mais vasto do que o da BD. Esperemos, é que o sucesso do Ricardo Cabral viajante, não nos prive do trabalho do autor de BD…
(“New Born: 10 Dias no Kosovo”, de Ricardo Cabral, Edições Asa, 144 pags, 19,20 €)
Texto publicado no Diário As Beiras de 24/12/2010
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Victor Mesquita e Ricardo Cabral na Livraria Dr Kartoon

Como já vem sendo hábito, no último sábado antes do Natal, a Dr. Kartoon promove mais um encontro de autores com os seus leitores. Desta vez os convidados para a sessão de autógrafos, são Victor Mesquita (Eternus 9) e Ricardo Cabral (Israel Sketchbook), que estarão na Livraria pela primeira vez.

Os autores estarão presentes no sábado, 18 de Dezembro, a partir das 16h para apresentação das novidades "Eternus 9: A Cidade dos Espelhos", que assinala o regresso do mítico "Eternus 9" 35 anos depois do primeiro álbum, e "Newborn: 10 Dias no Kosovo", o novo diário de viagem de Ricardo Cabral, depois de "Israel Sketchbook" e para uma sessão de autógrafos.
Além do convívio com os autores, poderão sair com magníficos desenhos, como este, que o Ricardo me fez no último Festival da Amadora. No caso de Victor Mesquita, além de um autógrafo, poderão também sair com uma prancha original, pois o autor trará também pranchas originais do seu último álbum para vender aos eventuais interessados.
Cá vos esperamos no sábado, 18 de Dezembro, a partir das 16h, na vossa Livraria de BD favorita!
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
ISRAEL SKETCHBOOK

Embora em Portugal só recentemente se tenha começado a dar mais atenção a eles, por via do livro “Diários de Viagem” de Eduardo Salavisa, ou de experiências como o Workshop “A Riscar Lisboa”, promovido por Richard Câmara e João Catarino, a tradição dos cadernos de viagem ou diários gráficos, sempre teve bastantes seguidores entre os autores de Banda Desenhada.
Basta pensar nas magníficas aguarelas com que Hugo Pratt registava in” loco” impressões das suas inúmeras viagens, nos estudos também em aguarela de Lepage resultantes das suas viagens ao Brasil e à América Latina, no “Carnet de Voyage” em que o americano Craig Thompson descreve as suas viagens à Europa e ao norte de África, nos dois livros de Miguelanxo Prado sobre Lisboa e Belo Horizonte, ou nos desenhos feitos no Metro por autores como António Jorge Gonçalves ou Jorge Colombo, ou ainda no livro “Lisboa Cadernos”, realizado pela dupla Dupuy e Berberian aquando da sua passagem por Lisboa em 2000, a convite da Bedeteca de Lisboa, entre (muitos) outros exemplos.
A essa ilustre linhagem vem juntar-se agora Ricardo Cabral, com este “Israel Sketchbook” que a Asa lançou durante o último Festival de BD da Amadora. Embora Cabral prefira chamar-lhe “sketchbook”, o termo é enganador, pois o que nos é apresentado neste belíssimo livro, não são os esboços em estado puro, tal como foram feitos no local, mas sim uma versão posteriormente trabalhada, em que é visível o recurso ao computador e à fotografia, para além de que, pelo seu conteúdo, estamos perante um Diário de uma viagem a Israel, que na verdade foram três, conforme o autor explica na nota de abertura do livro.
Através dos mapas que funcionam como separadores de capítulos e que se vão gradualmente enchendo de informação, o leitor vai acompanhando o percurso de Ricardo Cabral e descobrindo com ele diferentes locais de Israel, de Telavive até à Faixa de Gaza, passando por Jerusalém. Trata-se, naturalmente, da visão exterior de um estrangeiro que vai descobrindo um país e as suas gentes, um retrato impressionista feito de momentos do quotidiano, que raramente resvala para o postal turístico, mesmo que alguns momentos em Jerusalém se aproximem perigosamente desse registo…
Trabalho muito mais pessoal do que o álbum “Evereste”, com que Ricardo Cabral se estreou nas livrarias em 2007, este “Israel Sketchbook”, não sendo obviamente Banda Desenhada, demonstra uma preocupação narrativa e uma articulação entre texto e imagens (algumas delas formando claramente sequências) que o aproxima da BD, o que não admira, pois Cabral, apesar da sua ainda curta obra, já demonstrou dominar perfeitamente a linguagem da Banda Desenhada.
Mas, bem mais importante do que encaixar este livro numa categoria (literatura de viagens, Banda Desenhada, ilustração) é apreciar a realidade de um país que não se limita às guerras e aos atentados, que levam a que se fale dele nas notícias.

Embora a sombra da guerra paire em alguns momentos do livro, o que fica é um bonito país e, sobretudo, a sua gente, que tão bem acolheu Ricardo Cabral e que ele tão bem retrata na imagem que escolhi para ilustrar este artigo. Como ele próprio refere: “já não é a rua que me interessa. São as pessoas que passam, os pais com os filhos, as pessoas velhas, as novas, os que vão ao telemóvel, em bicicletas, que passam de carro, os conhecidos que se cumprimentam, um tipo que levou uma multa de estacionamento… A vida que aqui há.” Vida que Cabral soube captar como poucos neste “Israel Sketchbook”.
(Israel Sketchbook, de Ricardo Cabral, Edições Asa, 214 pags,19,20 €)
Texto publicado originalmente no Diário As Beiras de 21/11/2009
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