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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Universo Marvel 20 - Vingadores vs X-Men Vol. 2: E então restou Um


No dia em que começa a sair com o jornal Público a nova colecção de Banda Desenhada dedicada à série XIII, de Jean Van Hamme e William Vance e é anunciada pela Levoir uma colecção de 10 volumes comemorativa dos 75 Anos do Batman, a iniciar em Janeiro, pareceu-me mais do que altura de recuperar o último texto de divulgação da colecção Universo Marvel que escrevi para o Público. Como a colecção do Batman vai ser distribuída com o jornal Sol, não contará com textos de apoio no jornal, mas não faltarão os editoriais assinados por mim, que aqui publicarei.
Antes disso e passada a Comic Con, onde estarei com a Dr Kartoon, espero começar a pôr as críticas de livros em dia, em textos escritos expressamente para este blog, que nos últimos tempos tem servido quase só para recuperar textos feitos originalmente para outros locais. 


O COMBATE FINAL ENTRE VINGADORES E X-MEN  FECHA A COLECÇÃO UNIVERSO MARVEL

UNIVERSO MARVEL VOL 20
Vingadores Vs X-Men  Vol 2 – O Dia da Fénix
Argumento – Brian Michael Bendis, Jason Aaron, Ed Brubaker, Jonathan Hickman e Matt Fraction
Desenhos – John Romita Jr., Olivier Copiel e Andy Kubert

É já na próxima quinta-feira que chega ao fim esta fascinante viagem de vinte semanas pelo Universo Marvel, com o confronto final entre os maiores grupos de heróis da Casa das Ideias: os Vingadores e os X-Men.
Divididos sobre a destino a dar a Hope Summers, a primeira mutante a nascer após os acontecimentos dramáticos de Dinastia de M, que hospeda em si o poder destruidor da Força Fénix, capaz de reduzir a cinzas mundos inteiros, os maiores heróis do Universo Marvel vão degladiar-se numa luta sem quartel, que não deixará nada como antes.
Com Scott Summers, o ciclope, a deixar-se dominar pelo seu lado mais sombrio da força, o combate vai escalar em violência e espectacularidade e mais heróis e vilões se juntam à contenda. E se no final, a Terra acaba por conseguir resistir ao poder destruidor da Força Fénix, que já tinha destruído Jean Grey na mais mítica das aventuras dos X-Men, A Saga da Fenix Negra, já publicada numa anterior colecção, também desta vez nem todos os heróis sobreviverão e um dos mais importantes personagens do Universo Marvel vai tombar às mãos de um herói que ajudou a formar.
Um final épico, à altura de uma colecção feita de grandes sagas e que neste capítulo final reúne numa mesma história cinco dos maiores argumentistas da actualidade, como o são Brian Michael Bendis, Jason Aaron, Ed Brubaker, Jonathan Hickman e Matt Fraction, colaborando de forma harmoniosa numa história inesquecível, que fecha com chave de ouro um importante capítulo da história do Universo Marvel e abre as portas para a nova fase, conhecida por Marvel Now!
Texto publicado originalmente no jornal Público de 14/11/2014

E assim me despeço (por agora) do Universo Marvel, mas o regresso dos (super)heróis começa já em Janeiro com o Batman, numa colecção a não perder!



sábado, 22 de novembro de 2014

Universo Marvel 19 - Vingadores Vs X-Men Vol1: O dia da Fénix


VINGADORES E X-MEN NUM CONFRONTO 
QUE VAI MUDAR A FACE DO UNIVERSO MARVEL


UNIVERSO MARVEL VOL 19
Vingadores Vs X-Men  Vol 1 – O Dia da Fénix
Argumento – Brian Michael Bendis, Jason Aaron, Ed Brubaker, Jonathan Hickman e Matt Fraction
Desenhos – John Romita Jr., Olivier Copiel e Andy Kubert

 A colecção Universo Marvel aproxima-se do fim com a publicação da primeira parte da saga que concretiza o sonho de milhares de fãs da Marvel que sempre imaginaram como seria um confronto entre os Vingadores e os X-Men, os dois maiores grupos de heróis da Casa das Ideias.
 Este confronto, muitas vezes imaginado mas só agora concretizado é a consequência lógica dos acontecimentos que os leitores do Público poderam acompanhar em sagas como Dinastia de M, que reduziu drasticamente a população de mutantes, ou Vingadores, o fim de uma Era. Sagas inesquecíveis que alteraram profundamente o equilíbrio de forças do Universo Marvel, levando a uma profunda reorganização de que o Argumentista Brian Michael Bendis foi o principal arquitecto e que se concretiza finalmente nesta história, em que o regresso da Força Fénix, que levou à morte de Jean Grey na sequência do clássico A Saga da Fénix Negra, publicada numa anterior colecção dedicada à Marvel, vai levar ao confronto entre os X-Men, liderados por Scott Summers, o Ciclope e por Emma Frost, após a morte do Professor Xavier e os Vingadores, em cujas fileiras está Wolverine que durante décadas foi o mais popular dos X-Men e que agora se vê forçado a defrontar os seus antigos companheiros
E se esta saga, cuja primeira parte poderemos ler na próxima quinta-feira, reúne os maiores heróis da Marvel, em termos de talento criativo a situação não é muito diferente, pois é difícil reunir numa mesma história argumentistas do calibre de Jason Aaron, Ed Brubaker, Jonathan Hickman e Matt Fraction. Nomes que estão indiscutivelmente entre os maiores escritores a trabalhar no mercado americano de BD, com um trabalho de altíssima qualidade que não se restringe às histórias de super-heróis.
Em termos gráficos, o talento também está à altura da importância do acontecimento, como o atesta a presença de um dos maiores Ilustradores da Marvel das últimas décadas: John Romita Jr., desenhador que ao longo de uma carreira de mais de 40 anos já passou pelas principais séries da Marvel e que aqui tem mais uma oportunidade de voltar a desenhar os principais heróis da Casa das Ideias, reunidos numa história épica. Mas Romita Jr. não é o único desenhador a ilustrar este confronto entre os Vingadores e os X-Men, contando com a companhia inspirada de Olivier Coipel, nome bem conhecido dos leitores destas colecções graças ao seu trabalho em Dinastia de M, Thor renascido e Cerco, e ainda de Adam Kubert, filho do lendário Joe Kubert, que mais uma vez prova estar à altura do legado do pai.
Em suma, um elenco de luxo para uma história à altura, que encerra com chave de ouro esta movimentada viagem pelo Universo Marvel.
Texto publicado no jornal Público de 07/11/2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Universo Marvel 18 - Wolverine: Evolução


UNIVERSO MARVEL VOL 17
Wolverine: Evolução
Argumento - Jeph Loeb
Desenhos - Simone Bianchi

Este foi o último editorial que escrevi para a colecção Universo Marvel. Um texto que surge no blog mais tarde do que o costume, porque o Amadora BD não me deixou grande tempo para actualizações. Mas passada esta fase mais complicada, que se prolonga por este fim-de-semana graças ao Fórum Fantástico, prometo actualizar o blog com maior frequência.



DA ORIGEM DAS ESPÉCIES

Jeph Loeb, um dos criadores mais presentes nas diversas colecções que a Levoir tem dedicado aos super-heróis americanos regressa neste volume com uma história que explora mais a fundo a relação entre Wolverine e Dentes de Sabre, que têm aqui um violento e espectacular confronto final, numa história que procura ainda fazer alguma luz sobre as origens misteriosas dos dois personagens, cujos destinos parecem estar entrelaçados.
Quando Wolverine surgiu pela primeira vez na revista americana The Incredible Hulk 180, no ano de 1974, ninguém sabia o que o destino reservava a esta personagem.
Nessa história, em que Wolverine se alia ao Hulk para derrotar Wendigo, o misterioso herói já se gabava constantemente das suas habilidades, em especial das suas garras letais cobertas por adamantium, ficando célebre a frase: “ sou o melhor naquilo que faço”. A palavra mutante ainda não tinha entrado do vocabulário dos leitores e esta primeira aparição com o seu uniforme azul e amarelo não foi o suficiente para o classificar com sendo herói ou vilão. Mas foi a sua inclusão nos X-Men, pela mão de Len Wein em Giant Size X-Men # 1, e o posterior destaque que Chris Claremont lhe dá, aquando da remodelação do grupo de mutantes que o deu verdadeiramente a conhecer aos leitores. A partir desse momento, Logan, o homem misterioso que nada sabia do seu passado, rapidamente conquistou os leitores, tornando-se rapidamente o mais popular dos X-Men, estatuto que Eu, Wolverine, a mini-série de Claremont e Frank Miller ajudou a consolidar.
Já Dentes de Sabre surge pela primeira vez no nº 14 da revista Iron Fist, criado por Claremont e John Byrne, surgindo como adversário recorrente de Danny Rand, o Punho de Ferro. Só quando Claremont aproveitou a personagem como inimigo dos X-Men, na saga Massacre Mutante, de 1986, e declarou retroativamente que o Dentes de Sabre que Danny Rand enfrentou em Iron Fist # 14 era um mero clone, com capacidades inferiores ao original, é que Dentes de Sabre surge como Némesis de Wolverine. Uma relação de dois mutantes com capacidade regenerativa e com uma acentuada dimensão animal e selvagem, que Wolverine procura sublimar e controlar e que Dentes de Sabre assume sem quaisquer restrições. A forma como os dois mutantes funcionam como negativo um do outro, é acentuada numa entrevista em Claremont declara que a relação entre eles é uma relação de “pai e filho. É por isso que Dentes de Sabre sempre considerou Logan como uma fraca cópia em relação ao seu original. O outro elemento fulcral da minha abordagem da relação entre eles, foi que, em toda a vida deles, Logan nunca conseguiu derrubar Dentes de Sabre num combate sem regras”.
Esta saga explora o capítulo final do confronto entre os dois mutantes, que descobrimos ser resultado de uma guerra eterna entre diferentes ramos da evolução humana, após a descoberta de vestígios arqueológicos que provam a existência de um ramo lupino, de que Wolverine e Dentes de Sabre são descendentes e que através do misterioso Romulus pretende recuperar a posição perdida na cadeia evolutiva.
Mas o grande destaque deste volume vai para o trabalho do desenhador italiano Simone Bianchi. Nascido em 1972 na Itália, em Lucca, cidade que alberga desde 1966 o mais antigo Festival de Banda Desenhada europeu. Grande fã dos super-heróis americanos, que já desenhava ainda antes de saber ler ou escrever, Bianchi publicou a sua primeira tira cómica aos 15 anos, no jornal Il Tirreno, iniciando uma colaboração regular com a imprensa, publicando cartoons e ilustrações. Decisivo para a sua carreira na BD foi o encontro em 1994, com Claudio Castellini - famoso desenhador italiano, que para além do seu trabalho para a editora Bonelli, onde era um dos desenhadores regulares de Dylan Dog, desenhou também Conan e o Surfista Prateado para a Marvel - que se tornou seu professor e mentor, ajudando-o a arranjar trabalho na indústria em editoras como a Phoenix, Comic Art e a Bonelli. Uma estreia promissora que lhe permitiu ver o seu trabalho exposto pela primeira vez no Festival de Lucca de 1998 e desenhar uma aventura do bárbaro Conan para a Marvel Italia no ano seguinte.
Para além da BD e de uma série de ilustrações para capas de discos e de revistas e de trabalhos como consultor visual para empresas de publicidade, estúdios de animação em 3D e companhias produtoras de role play como a Fantasy Flight Games para quem trabalhou na concepção do jogo Dragonstar, Bianchi inicia também uma interessante carreira como professor, primeiro como assistente de Ivo Milazzo (o criador de Ken Parker) numa cadeira de Banda Desenhada na Academia de Belas-Artes de Carrara e mais tarde, como professor a tempo inteiro da disciplina de Anatomia na Banda Desenhada, da Scuola Internazionale di Comics de Florença.
2004 revelou ser um ano decisivo para Bianchi, pois a sua estreia em álbum dá-se em Janeiro desse ano com Ego Sum, título editado em Portugal pela Vitamina BD, que lhe valeu o prémio de melhor desenhador em Lucca e uma presença no Festival de Angoulême do mesmo ano para promover a edição francesa do seu livro, onde conheceu Sal Abbinanti, o agente de Alex Ross, que se torna também seu agente. Nesse mesmo Verão vai viver para Nova Iorque, onde conhece o desenhador Mike Bair, que o apresenta ao editor Peter Tomasi, que lhe propõe trabalhar com Grant Morrison, na mini-série Shining Knight, integrada no ambicioso projecto Seven Soldiers of Victory, em que Bianchi trabalha lado-a-lado com ilustradores como J. H. Williams III, Cameron Stewart e Frazer Irving.

Embora tenha ilustrado antes algumas capas da revista X-Men Unlimited, a sua estreia como desenhador de uma série regular da Marvel, dá-se em 2007, com a história que têm nas mãos, uma saga em seis capítulos escrita por Jeph Loeb, estreada no nº 50 da revista do Wolverine. E o próprio Leb é o primeiro a não poupar nos elogios a Bianchi, dizendo: “como fã de BD estou sempre à espera do próximo grande artista. Quando Bianchi apareceu, o seu trabalho era tão dinâmico e imaginativo. Já vi algumas páginas de Simone para o Wolverine e posso garantir que ninguém está preparado para aquilo. Vai deixar toda a gente de boca aberta. É óptimo para mim poder contribuir para o início da carreira de um artista que vai ser uma superestrela.”
Uma opinião certamente partilhada pela editora que não hesitou em lançar os números de Wolverine desenhados por Bianchi numa versão a preto e branco, que permitisse apreciar devidamente a fabulosa técnica de aguada do desenhador italiano, que revela igualmente um excelente sentido de composição, pensando a página e a dupla página com um a unidade estética autónoma, sem que com isso a narrativa perca legibilidade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Universo Marvel 17 - Hulk: Cinzento


UNIVERSO MARVEL VOL 17
Hulk: Cinzento
Argumento - Jeph Loeb
Desenhos - Tim Sale

TRÊS CORES: CINZENTO

Se dissessem a um cinéfilo mais tradicional, daqueles que lêem a revista Cahiers du Cinema, que há grandes pontos de contacto entre a trilogia das cores do cineasta polaco Krzysztof Kieslowski e os trabalhos de Jeph Loeb e Tim Sale para a Marvel, este teria certamente dificuldade em acreditar, mas a verdade é que, por mais improvável que pareça, há muita coisa que aproxima os filmes do cineasta polaco e as Banda Desenhadas dos dois americanos.
Se Azul, Branco e Vermelho, os três filmes que Kieslowski dedicou às cores da bandeira de França e aos ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) são histórias de amor, marcadas pelo peso da memória, o mesmo se pode dizer de Homem-Aranha: Azul, Demolidor: Amarelo e Hulk: Cinzento, a trilogia das cores que Loeb e Sale dedicaram aos principais heróis da Marvel e que, depois da edição pela Devir dos dois livros anteriores, está finalmente disponível na íntegra em Portugal.
Revisitações nostálgicas dos primeiros tempos de actividade dos heróis, os três livros seguem uma estrutura muito semelhante, marcada pelos flash-backs. Tanto em Homem-Aranha: Azul, como em Demolidor: Amarelo, as histórias são narradas como cartas de amor a pessoas que já morreram (Peter Parker a Gwen Stacy em Homem-Aranha: Azul e Matt Murdock a Karen Page em Demolidor: Amarelo), mecanismo que permite o desencadear das recordações de um tempo que já passou, e que Loeb e Sale recuperam com o talento que se lhes reconhece.
Em Hulk: Cinzento, o que desencadeia os flash-backs, são as sessões de terapia entre Bruce Banner e Leonard “Doc” Samson, mas no centro dessas recordações está igualmente uma história de amor trágico, o triângulo amoroso entre Bruce Banner, Betty Ross e o Incrível Hulk, com a história mais centrada na relação impossível entre Betty e o Hulk, de uma forma que nos recorda o fascínio de King Kong por Ann Darrow (personagem interpretada de forma memorável pela actriz Fay Wray no filme original de Merian C. Cooper) que acaba por levar à sua perdição. Uma história centrada numa etapa inicial menos conhecida do percurso de Hulk, em que o gigante esmeralda era cinzento e a sua transformação era não consequência do aumento do stress, mas do cair da noite.
Mesmo que os outros heróis da Marvel com a excepção do Homem de Ferro, que não sai muito bem tratado desta história, brilhem pela ausência, Loeb não esquece os criadores que antes dele escreveram as aventuras do Hulk e em especial Peter David, responsável pelo argumento da revista do Hulk durante doze anos e que recuperou a versão cinzenta do Hulk, para além de ter criado também uma versão vermelha (cá temos outra trilogia das cores: cinzento, verde e vermelho...) A homenagem de Loeb a David é evidente no diálogo entre Banner e Samson sobre a mudança de cor do Hulk, com Banner a concluir o tema com a frase “mas estou a divagar” (“but I digress”, no original), que é precisamente o título da coluna de comentário sobre Banda Desenhada que Peter David Assinou na revista Comics Buyers Guide, de 1990 até 2013, data em que a revista cessou a publicação.
Nascido em 1956 em Ithaca, Nova Iorque, Sale passou a infância e a adolescência em Seattle, de onde saiu durante dois anos para frequentar a School of Visual Arts, a célebre escola nova-iorquina criada por Burne Hogarth, onde Will Eisner foi professor, para além de ter feito um workshop em Banda Desenhada com John Buscema. Mesmo que tenha regressado a Seattle sem ter concluído a sua licenciatura na S.V.A., o contacto com tão bons mestres deixou marcas e não admira que tenha acaba por decidir fazer carreira na Banda Desenhada. Uma carreira que se iniciou em 1983, com a série Mith Adventures da Warp Graphics, mas que só arrancaria realmente dois anos mais tarde ao conhecer o autor Matt Wagner e a editora Diana Schutz na Comic Con de San Diego. Encontro que lhe valeu o convite para colaborar na série Grendel, de Wagner, como desenhador, e que acabou por levar ao encontro mais importante da sua vida, com o escritor Jeph Loeb, que lhe foi apresentado por Wagner e Schutz.
Vindo do mundo do cinema, onde foi responsável pelo argumento de filmes como Teen Wolf e Commando e trabalhou na primeira série de ficção da HBO, The Hichhiker, foi o seu trabalho para um filme do Flash que nunca chegou a ser feito, que lhe abriu as portas da DC Comics, que detém os direitos da personagem e lhe permitiu iniciar uma carreira na Banda Desenhada, que não se limitou às colaborações com Sale. Uma carreira prolífica e frutuosa como argumentista de BD ligado às maiores editoras americanas, que Loeb tem sabido conciliar com a sua actividade de argumentista e produtor para televisão e que faz dele o homem ideal para o cada vez maior número de projectos em que Hollywood vai beber ao mundo da Banda Desenhada.
A série Chalengers of the Unkwon, o primeiro argumento de comics escrito por Loeb em 1991, foi naturalmente ilustrado por Sale e desde então a dupla colaborou em inúmeros projectos, com destaque para as sagas The Long Halloween e Dark Victory, que exploram o destino do Batman imediatamente após os acontecimentos do Year One, de Frank Miller e David Mazzucchelli e para Superman For All Seasons, história muita na linha da trilogia das cores da Marvel, de que é precursora e que foi assumida pelos criadores da série televisiva Smallville, onde Loeb também trabalhou, como uma das principais fontes de inspiração da série.
Mas as colaborações da dupla não se resumem à DC. Basta relembrar as mini-séries Homem-Aranha: Azul e Demolidor: Amarelo, os volumes anteriores da trilogia das cores, publicadas em Portugal pela Devir e da participação de Sale na série televisiva Heroes, de que Loeb foi produtor e argumentista e onde Sale, para além de conselheiro artístico, foi o responsável pelas pinturas de Isaac Mendez, um dos personagens da série, cujos poderes divinatórios se revelavam nos quadros que pintava.
E se Loeb e Sale já tinham estado em destaque nas duas colecções que a Levoir dedicou à DC, em que Loeb assinou o argumento dos últimos volumes da primeira e segunda série, com histórias que reúnem o Super-Homem e o Batman (A Rapariga de Krypton e Poder Absoluto) e Tim Sale foi responsável pela arte de Contos do Batman, em que ilustrava três histórias do Cavaleiro das Trevas, escritas por outros argumentistas que não Loeb, esta é a primeira vez que a dupla surge junta numa colecção da Levoir, assinando um dos seus melhores trabalhos conjuntos.
Um trabalho em que o traço de Sale revela uma plena maturidade, que ainda lhe faltava em Contos do Batman, e um apurado sentido narrativo, usando com grande efeito dramático, os grandes planos, as imagens de página inteira e as duplas páginas. Mas onde Sale mais brilha é na expressividade que consegue transmitir ao rosto do Hulk, usando com grande eficácia as sombras e os grandes planos, focando pormenores como os olhos e os dentes do Hulk, que se destacam no meio da escuridão. Veja-se, por exemplo a sequência que nos mostra a sua breve amizade com um coelho, ou o modo como o monstro se “derrete” na presença de Betty Ross. Betty, a mulher cuja memória está no centro da história, tal como aconteceu nos outros volumes da “trilogia das cores”, mas que na realidade acaba por ser mais um catalisador duma reflexão de contornos psicanalíticos sobre a relação difícil entre pais e filhos.
Pais geralmente ausentes, como nos casos de Bruce Banner e Rick Jones, dois órfãos com infâncias traumáticas, que estabelecem nesta história uma relação de pai e filho, ou mesmo de Betty Ross, que órfã de mãe tem no General Ross um pai ausente, para quem a obsessão em capturar o Hulk se sobrepõe tudo o resto, evocando uma personagem trágica da literatura, o capitão Ahab e a sua relação com Moby Dick, a baleia branca, que está no centro do famoso romance de Herman Melville.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Universo Marvel 16 - X-Women: Mulheres da Marvel


Nesta série Universo Marvel, este foi o meu único texto que teve de ser alterado. Assim, na versão impressa desapareceram as referências ao filme Ilsa e os comentários ao argumento de Claremont tiveram que ser suavizados. Também a galeria de capas de Manara no final do livro sofreu alterações em relação ao previsto. Das 12 capas que falam no meu texto, apenas 11 aparecem. A ausente é (naturalmente) a famosa capa de Spider-Woman # 1 que tanta polémica provocou...

UNIVERSO MARVEL VOL 16
X-Women: Mulheres da Marvel
Argumento - Chris Claremont, Marjorie Liu, Stuart Moore e Kelly Sue DeConnick
Desenhos - Milo Manara, Filipe Andrade, Nuno Plati, Mark Brooks e Ryan Stegman


O HOMEM QUE GOSTAVA DE MULHERES

O cineasta François Trufaut dizia que “o cinema é arte de fazer coisas bonitas a mulheres bonitas”. Uma definição que assenta como uma luva ao trabalho em Banda Desenhada de Milo Manara. Um autor que apresenta grandes pontos de contacto com Bertrand Morane, o protagonista do filme de Truffaut O Homem Que Gostava de Mulheres, para quem “as pernas das mulheres são compassos que medem o globo terrestre em todas as direcções dando-lhe equilíbrio e harmonia”. Tal como Morane o fazia através da escrita, também Manara, graças ao seu traço sensual, fez do corpo feminino o centro do seu mundo poético.
Nascido em Luson, Itália, a 12 de Setembro de 1945, Manara depois do liceu, onde estudou arte, inscreveu-se na Faculdade de Arquitectura de Veneza, mas cedo abandonou os estudos para seguir a sua vocação artística, trocando Veneza por Verona, onde começou a trabalhar como ajudante do escultor espanhol Miguel Ortiz Berrocal. É então que descobre que a Banda Desenhada, à qual até então nunca dera muita atenção, se estava a tornar “um formidável meio de expressão total”.
Um meio em que se estreia em 1969, desenhando histórias eróticas, como as aventuras de Jolanda de Almaviva, para as Edições Erregi, ao mesmo tempo que colabora com Il Corriere dei Ragazzi desenhando La Parola Alla Giura (A palavra ao Júri), uma série escrita por Milo Milani que em Portugal foi publicada no Mundo de Aventuras. Seguiu-se entre 1976 a 1979, a participação na colecção A Descoberta do Mundo publicada pela prestigiada editora francesa Larousse, em que o seu desenho surge ao lado de outros grandes ilustradores franceses, espanhóis e italianos e do português Eduardo Teixeira Coelho.
Apesar do sucesso de Lo Scimmiotto, uma adaptação muito livre da mesma lenda chinesa que está na origem do Dragon Ball de Akira Toriyama, escrita por  Silvério Pisu, o grande ponto de viragem da obra (e da vida) de Manara dá-se quando conhece Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese, que além de seu mestre se torna seu grande amigo. Uma relação de respeito, amizade e cumplicidade, bem patente em H.P. e Giuseppe Bergman, a primeira aventura de Giuseppe Bergman, em que o próprio Pratt é um dos personagens, H. P., o mestre da aventura. Juntos, Pratt e Manara assinarão duas obras-primas, Verão Índio e El Gaúcho e construirão uma amizade que apenas a morte de Pratt veio interromper.

Mas os trabalhos que assinou com Hugo Pratt não são o único exemplo de colaboração entre Manara e outros importantes criadores, pois o desenhador vai trabalhar estreitamente com Pedro Almodovar, Alejandro Jodorowsky e sobretudo Federico Fellini, com quem vai transpor para a BD Viagem a Tulum e Il Viaggio di G. Mastorna detto Fernet, dois projectos cinematográficos de Fellini, nunca realizados.
Para além destas colaborações prestigiantes e das aventuras de Giuseppe Bergman o seu alter-ego em BD, ou se quisermos voltar a Trufaut, o seu Antoine Doinel, a carreira de Manara fez-se sobretudo de títulos que exploram a fundo o erotismo do corpo feminino, de que a série Clic é o exemplo mais popular e o seu maior sucesso comercial. Um sucesso que Manara não renega e que assume sem complexos, quando refere: “Não, não tenho a hipocrisia de quem mostra cús na televisão a toda a hora, para vender iogurte ou cera para pavimentos. Vendo o que desenho: exactamente aquilo que o público espera de mim”.
Perante o prestígio do seu nome, a popularidade da sua obra e, sobretudo, a qualidade do seu traço único e sensual, era só uma questão de tempo até Manara entrar no mercado americano. Essa entrada dá-se em 2003, através de Neil Gaiman, que o escolhe (naturalmente) para ilustrar o episódio protagonizado por Desire no livro Endless Nights, que assinalou o regresso do escritor inglês à série Sandman.
  Mais tarde, em Março de 2006, a Marvel anunciava que Manara estava a trabalhar com Chris Claremont numa história dos X-Men, em que seria dado natural destaque às heroínas do grupo. Como Manara tinha que conciliar este projecto com a sua colaboração com Jodorowsky na série Borgia, seria preciso esperar até ao Outono de 2008, para ver o trabalho de Manara nos X-Men, graças á edição italiana da Panini, que primeiro lançou a obra numa edição a preto e branco e formato europeu, com o título X-Men: Ragazze in Fuga. Finalmente, em Julho de 2009, chega a edição americana, numa revista de 48 páginas, com o título X-Women, em que Dave Stewart (colorista habitual de Mike Mignola e um dos mais premiados coloristas da indústria dos Comics) dá cor ao traço de Manara, substituindo Tanino Liberatore, o desenhador de Ranxerox que, conforme Manara me confidenciou em 2008, numa entrevista, era o colorista inicialmente previsto.
A história, feita por medida por Claremont para o desenho de Manara, é movimentada, tem algumas ideias interessantes, como a tribo de "cargo cultists", os adoradores de aviões, mas peca um pouco pela redundância dos textos, o que não é propriamente uma novidade em Claremont... Mas esta história, em que os elementos femininos dos X-Men vêm as suas férias na Grécia interrompidas pelo rapto de Rachel, o que as leva até Madripoor, onde têm que enfrentar uma inimiga que parece saída de um filme da série Ilsa, a Loba dos SS, é acima de tudo um pretexto para Manara fazer aquilo que faz melhor do que ninguém, desenhar mulheres elegantes e sensuais em poses provocantes e (até por vezes) gratuitas.

Tratando-se de uma história dos X-Men, não há qualquer nudez, mas o que o traço de Manara sugere é muito mais erótico do que se mostrasse tudo. E convém não esquecer que, além de saber desenhar mulheres como ninguém, Manara tem um perfeito domínio da narrativa em BD, um excelente sentido de composição da página e não poupa nos pormenores quando se trata de desenhar cenários naturais ou arquitectónicos.
Mas nem só de Manara vive este volume dedicado às Mulheres da Marvel. Temos também os portugueses Filipe Andrade e Nuno Plati, que ilustram uma história de Marjorie Liu centrada em X-23, a jovem mutante, clone de Wolverine, treinada para ser uma máquina de matar, que apenas quer viver a sua vida. A história de Marjorie Liu aproveita muito bem o talento e as características bem distintas dos dois desenhadores portugueses, como Plati a tratar num registo expressionista as cenas no mundo dos sonhos, enquanto Andrade desenha a realidade das ruas de Nova Iorque.

Também a heroína Adaga (e o seu inseparável Manto) está presente, numa história de Stuart Moore, ilustrada por Mark Brooks e Walden Wong, que explora a relação instável desta dupla inseparável de heróis, tal como Lady Sif, a companheira de Thor que, numa história escrita por Kelly Sue DeConick e ilustrada por Ryan Stegman, em que Sif se refugia em Nova Iorque para lidar com as memórias do período em que Loki assumiu o controlo do seu corpo.
E este volume termina como começou. Com o traço único e sedutor de Milo Manara a dar vida às principais heroínas da Marvel, numa dúzia de ilustrações, realizadas como capas alternativas de diversas revistas, em que Manara traz as mulheres da Marvel para o seu universo estético com excelentes resultados. Uma dúzia de imagens tão espectaculares como inesquecíveis, que aqui são recolhidas em conjunto pela primeira vez.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Universo Marvel 15 - Homem-aranha e Vingadores: Contos de Fadas Marvel


De toda a colecção Universo Marvel, este é o volume que mais me diz e aquele porque mais me bati para fosse incluído nesta colecção, apesar das reticências iniciais da Panini, que o considerava com um volume "pouco comercial". Mas, como achamos que é importante publicar em Portugal o trabalho que os artistas portugueses fazem para a Marvel, o volume fez-se e numa edição enriquecida com um dossier final que nos mostra os bastidores do trabalho de João Lemos e Nuno Plati. 
E, para que fique esclarecido, a não inclusão do Ricardo Tércio neste dossier resultou da vontade do próprio, que perdeu todo o material que tinha da história do Capuchinho Vermelho e já não se identifica com o trabalho que fez na história do Feiticeiro de Oz, preferindo que o mesmo não seja mostrado. Uma decisão que, naturalmente, aceitámos. 

UNIVERSO MARVEL VOL 15
Homem-Aranha e Vingadores: Contos de Fadas Marvel
Argumento – C. B. Cebulski
Desenhos – João Lemos, Nick Dragotta, Niko Enrichon, Nuno Plati, Ricardo Tércio

ERA UMA VEZ…  NO UNIVERSO MARVEL

Era uma vez… um desenhador português, João Lemos, que em Janeiro de 2005, no Festival de Banda Desenhada de Angoulême encontra por acaso Joe Quesada, desenhador e editor-chefe da Marvel e lhe entrega o seu portfólio. Portfólio esse que, um pouco mais tarde, acabaria por chegar às mãos de C. B. Cebulski, editor, director, principal caça-talentos e argumentista da Marvel, que ficou absolutamente fascinado com o traço único de Lemos e o contactou imediatamente.
Mas deixemos que seja o próprio Cebulski a contar como tudo aconteceu: “O primeiro autor português que conheci pessoalmente foi o João Lemos. Todo o grupo de artistas foi a Angoulême um ano em que o Joe Quesada era convidado. O Joe trouxe vários portfólios e pediu-me para lhes dar uma vista de olhos. Havia muitos artistas diferentes mas o portefólio do João era um dos mais únicos que tinha visto na vida e pensei logo que o tinha de contactar. Então a primeiro coisa que fiz foi enviar-lhe um email a dizer “Hey daqui é o C.B. Cebulski da Marvel. Recebi o teu portefólio pelo Joe Quesada. Estás interessado em trabalhar nalgumas ideias?” O email foi enviado no dia 1 de Abril, o dia das mentiras, e o que aconteceu é que ele pensou que era o Ricardo [Tércio] ou o Nuno [Plati] a pregarem-lhe uma partida, mas era mesmo eu. Ele respondeu que adorava trabalhar em algo, mas como na altura não havia nada disponível na Marvel então começámos a desenvolver um projecto para a Image e posteriormente através dele conheci os outros dois e a relação começou a crescer a partir daí.”
A ideia de Cebuslki, que além do seu trabalho como editor e director da Marvel, desenvolve uma actividade paralela como argumentista, alternando entre os trabalhos por encomenda para a Marvel e os projectos mais autorais para a Image, em que detém os direitos sobre a história e as personagens, era criar diferentes histórias de raiz com cada um dos desenhadores portugueses. O mais falado desses projectos foi Shiki, uma mini-série concebida a meias com João Lemos, que se ocupou dos desenhos. Mas o seu trabalho para a Marvel e as constantes viagens a que o mesmo obriga não lhe deixam grande tempo livre para escrever, o que fez com que, das colaborações previstas com os desenhadores portugueses, apenas tenha sido publicada uma história curta ilustrada por Nuno Plati, na antologia 24/Seven, editada pela Image.
Assim, a colaboração entre o argumentista americano e os três desenhadores portugueses que então partilhavam atelier no Estúdio da Bica, haveria por se concretizar finalmente um pouco mais tarde, no âmbito do projecto Marvel Fairy Tales, em que C. B. Cebulski pegava em contos de fadas e lendas tradicionais de diferentes países, com destaque para o Japão, de que Cebulski é um apaixonado, adaptando essas histórias ao universo Marvel.
Primeiro saiu em 2006 a mini-série X-Men Fairy Tales, em que desenhadores tão diferentes como Bill Sienkiewicz, Kyle Baker e os japoneses Sana Takeda e Kei Kobayashi ilustravam lendas japonesas e africanas e contos dos irmãos Grimm, protagonizados por membros dos X-Men. Seguir-se-ia em 2007, a mini-série Spider-Man Fairy Tales, que abre logo com uma versão da história do Capuchinho Vermelho, ilustrada por Ricardo Tércio e que inclui contos de fadas tradicionais e lendas africanas e japonesas. Finalmente em 2008, surge a mini-série Avengers Fairy Tales, centrada na transposição de clássicos da literatura, como o Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Pinóquio e O Feiticeiro de Oz (que antes de ser um filme com Judy Garland, já era um livro de L. Frank Baum) para o Universo Marvel, em que apenas o japonês Takeshi Miyazawa, que ilustra uma versão da Alice…, de Lewis Carol, e a francesa Claire Wendling que assegura as capas, ameaçam a hegemonia artística nacional. O facto dos desenhadores japoneses e portugueses substituírem os americanos nesta série, mostra a forma como Cebulski não olha a fronteiras para encontrar o desenhador certo para cada história. Citando mais uma vez Cebulski: “Trabalhei primeiro com o Ricardo Tércio no Spider-Man Fairy Tales, mas quando os Avengers Fairy Tales aconteceram, sabia que o João era perfeito para o Peter Pan, o Nuno para o Pinóquio e o Ricardo, com quem tive uma óptima relação a trabalhar antes, para o Feiticeiro de Oz.”
Se X-Men Fairy Tales e Spider-Man Fairy Tales foram recolhidas em livro, após a publicação inicial em revista, já Avengers Fairy Tales, apesar da excelente recepção crítica não terá vendido tanto como as mini-séries anteriores - talvez por não ter nenhum desenhador conhecido do público americano e os Vingadores não terem então a popularidade dos X-Men, ou do Homem-Aranha –   e não teve a mesma sorte, sendo apenas recolhida numa colectânea mais genérica, chamada Marvel Fairy Tales, que além das quatro histórias de Avengers Fairy Tales, recolhia também uma história de cada uma das mini-séries anteriores. Uma edição modesta, em formato digest (um formato de bolso, mais pequeno do que o formato americano tradicional) impressa num papel demasiado poroso, que não fazia justiça ao trabalho dos desenhadores, que apenas no volume que têm nas mãos vêm o seu trabalho reproduzido com a qualidade que a excelência do seu traço merece.
Um volume que recolhe pela primeira vez no seu formato original, uma selecção das melhores histórias das mini-séries Spider-Man Fairy Tales e Avengers Fairy Tales, dando natural destaque às histórias ilustradas pelos desenhadores portugueses. Assim, para além das histórias ilustradas pelos desenhadores portugueses, que analisaremos mais a seguir, temos Niko Henrichon, que os leitores portugueses conhecem de Fábula de Bagdad, uma história de Brian K. Vaughn sobre um bando de leões fugidos do jardim zoológico de Bagdad durante a guerra do Golfo, em que demonstra todo o seu talento para desenhar animais, a ilustrar uma lenda africana sobre Kwaku Anansi, o Deus Aranha e Nick Dragotta, contando com o apoio do traço inconfundível de Mike Allred na arte-final, ilustra uma variação da história da Cinderella, com uma curiosa inversão de género em que temos Gwen Stacy como a princesa e Peter Parker como Cinderello…
O primeiro ilustrador português a participar neste projecto, Ricardo Tércio, foi também o único a ilustrar duas histórias baseadas nos contos de fadas. Uma versão da história do Capuchinho Vermelho com Mary Jane no papel do Capuchinho e Venom como o lobo mau, ilustrada toda digitalmente por Tércio, que é também autor da ilustração da capa, num estilo próximo do cinema de animação. Um registo que Tércio altera na versão do Feiticeiro de Oz que ilustrou para Avengers Fairy Tales, em que desenho assistido por computador dá lugar ao mais tradicional desenho a tinta-da-china sobre papel, colorido com ecolines, mas com que o autor ficou bastante menos satisfeito do que os leitores, razão porque optou por voltar ao desenho digital nos seus trabalhos seguintes.
A menos óbvia das adaptações e, quanto a mim a mais conseguida, é a adaptação de Peter Pan de James Barrie com o Capitão América como Peter Pan e os restantes Vingadores como os Meninos Perdidos, em que o notável trabalho de pesquisa de João Lemos, que podemos apreciar mais em pormenor no dossier final, ajudou a dar maior solidez a uma belíssima história, tornada mágica pelo traço etéreo e estilizado de Lemos, muito bem servido pelas cores suaves de Christina Strain. Finalmente, Nuno Plati ilustra com grande elegância uma versão do Pinóquio de Carlo Collodi, como o Visão no papel do boneco que queria ser um menino de carne e osso.
Tem aqui o leitor seis histórias mágicas, unidas pelo argumento de Cebulski que fundem os contos de fadas, as lendas tradicionais e aos clássicos da literatura com a mitologia do Universo Marvel, dando origem a um novo género de contos de fadas. Contos pensados para os leitores do século XXI, para quem o Homem-Aranha e o Capitão América são tão ou mais familiares que o Pinóquio, ou o Peter Pan.

MAKING OF CONTOS DE FADAS MARVEL

Nas páginas que se seguem, podemos acompanhar a forma diferente, até no suporte (com o trabalho de Plati a ser inteiramente digital) como dois dos desenhadores portugueses deste volume abordaram a sua participação no projecto dos Contos de Fadas Marvel, através de exemplos do trabalho preparatório, que normalmente não chega ao leitor, que apenas tem acesso ao produto final. 

JOÃO LEMOS
  
Se, como já vimos no editorial que abre este volume, foi graças a João Lemos que Cebulski descobriu o talento e a versatilidade dos ilustradores portugueses, o desenhador luso nascido em 1977 ficará na história como o primeiro português a escrever uma história para a Marvel, pois Lemos foi o argumentista de Wolverine: The Dust from Above, uma história do mais popular mutante da Marvel, desenhada pela italiana Francesca Ciregia, para em seguida voltar a Wolverine como desenhador com The Adamantium Diaries, uma história curta, escrita por Sarah Cross para a revista Wolverine 1000. 
E o trabalho de Lemos para o mercado americano não se limitou à Marvel, pois ele foi um dos autores convidados por David Petersen para colaborar na série Tales of the Mouse Guard, editada pela Archaia Press, assinando como autor completo (argumento, desenhos cor e legendagem) a história que funciona como epílogo à edição encadernada, para além de ter trabalhado na série televisiva Once Upon a Time, da ABC, onde foi responsável pelas ilustrações do livro de contos de fadas que aparece no episódio piloto e tem um papel fundamental na série.

A grande cumplicidade existente entre Cebulski e João Lemos reflecte-se na forma quase orgânica como a história que transpõe o Peter Pan de J. M. Barrie para o Universo Marvel foi sendo construída. Nas palavras de Lemos: “O C.B. fez um guião/sinopse de guião que, como me coube a mim a pesquisa em relação à Terra do Nunca, foi sendo ampliado e remendado pelos dois ao longo do processo. Foram também feitos alguns ajustes em relação a que personagens Marvel equivaleriam a personagens da Neverland à medida que se avançava. A história foi trabalhada de um modo bastante orgânico, numa relação de ping-pong que preveniu grande parte das eventuais correcções, pois todas as partes estavam, mais do que a par dos avanços dos outros, envolvidas nos mesmos desde o início.”
Mas, para além da sintonia entre os dois criadores, outro aspecto importante deste trabalho é a pesquisa exaustiva que o desenhador efectuou e que lhe permitiu encher a história de referências à obra original J. M. Barrie, muitas delas só detectáveis pelos especialistas. Um trabalho exaustivo e por isso moroso, mas que deu grande prazer a Lemos como o próprio refere: “O ponto alto da pesquisa/imersão foi ter conseguido estabelecer contacto directo com Andrew Birkin, uma das maiores autoridades mundiais em tudo o que diz respeito a Peter Pan ou J.M. Barrie. Através da sua tremenda generosidade, tive acesso a recursos tais como scans das plantas de palco do quarto das crianças (do arquivo do Great Ormond St. Children's Hospital, que detém em perpetuidade os direitos de autor da obra). O quarto dos miúdos, nas primeiras páginas, é desenhado a partir da planta dos cenários da peça de teatro original, que o próprio J.M. Barrie traçou.  É apenas um dos vários easter eggs que couberam neste comic.”
A CONSTRUÇÃO DO JOLLY ROGER 
(OU COMO UMA MAQUETA TRIDIMENSIONAL AJUDA A CONTAR UMA HISTÓRIA EM BD)
Se a maqueta que Lemos construiu do quarto de Wendy com base nos cenários da primeira representação teatral de Peter Pan, sofreu um acidente fatal e está hoje reduzida a escombros, os leitores podem ver nesta página a outra maqueta que João Lemos usou para a sua participação no projecto Avengers Fairy Tales. A maqueta do Jolly Roger, o navio-pirata do Capitão Gancho, ou neste caso, do seu equivalente nos Contos de Fadas da Marvel, o Garra Sónica. A construção deste modelo tridimensional permitiu a Lemos estabelecer de forma mais rigorosa a diferente colocação das personagens no navio ao longo da história e ter uma noção mais exacta da coreografia a estabelecer para essas personagens.  

NUNO PLATI

De entre os três artistas lusos presentes neste livro, Nuno Plati, é indiscutivelmente o que mais histórias tem publicadas na Marvel. Nascido em Lisboa em 1975, Plati tem formação em Design Gráfico na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e como ilustrador freelancer trabalhou para os principais jornais e revistas nacionais e para empresas de dimensão global como a Marvel, a EA Games ou a Axis Animation, no design de personagens, storyboards, e livros de Banda Desenhada.
Para além da história que tivemos ocasião de ler neste livro, o trabalho de Plati para a “Casa das Ideias” disponível no nosso país inclui uma história curta para a revista Iron Man: Titanium (já publicada numa anterior colecção que a Levoir dedicou à Marvel) e um one-shot da X-23 - desenhada a meias com outro português, Filipe Andrade - que poderão ler no próximo volume desta colecção, dedicado às mais sensuais mulheres da Marvel. Ainda para a Marvel, Plati foi também responsável pelo desenho completo e cor dos comics Shanna, the She Devil e Marvel Girl, a que se seguiu mais uma história curta para a revista Amazing Spider-Man # 657, que assinala a entrada do Homem-Aranha para o Quarteto Fantástico, na sequência da morte de Johnny Storm, o Tocha Humana, pela mini-série Marvel Universe: Ultimate Spider-man e pelos números 10 e 11 da revista Superior Foes of Spider-man. Mais recentemente, desenhou a mini-série Alpha: Big Time, com argumento de Joshua Hale Fialkov e participou, com outros desenhadores no número final da revista Wolverine and the X-Men, escrita por Jason Aaron. 
Plati, que já tinha trabalhado com C. B. Cebulski numa história curta para a antologia 24/Seven, publicada pela Image, teve uma abordagem bastante mais descontraída do que João Lemos à fase da pesquisa, até porque a escolha do andróide Visão como o equivalente da Marvel do Pinóquio, era bastante evidente. 
Para além do filme da Disney, que apresenta uma versão mais asséptica e ligeira da história original de Carlo Collodi, a pesquisa de Plati incidiu mais no livro de Collodi e no trabalho dos diferentes ilustradores que ilustraram este clássico, de modo a entrar melhor no ambiente da história.
A partir daqui, a história foi crescendo de forma orgânica, através do diálogo constante com C. B. Cebulski e, com excepção de uma versão da Feiticeira Escarlate em criança, que acabaria por não entrar na história e de uma versão do Visão/Pinóquio com um colete, que acabaria por não ser usada, os estudos de personagens que podem ver nestas páginas foram aceites sem qualquer outra alteração – algo de invulgar no sistema de funcionamento habitual da indústria americana dos comics, em que o “editor” (termo que nos EUA designa não o dono da editora – o Publisher – mas sim quem faz o editing da história, sugerindo as alterações que considera necessárias aos autores) assegura a ligação entre a editora e as várias pessoas envolvidas no projecto, que não necessitam de estar fisicamente próximas e que, muitas vezes, nem sequer se conhecem pessoalmente. Neste caso, e tal como aconteceu com Lemos, deu lugar a um diálogo frutuoso entre amigos - o argumentista americano e os desenhadores portugueses - com Molly Lazer, a editora da série, a ter uma intervenção bastante menor do que é habitual.
Depois desta estreia fulgurante, com excepção do próprio Plati, que tem trabalhado com regularidade para a Marvel, os restantes artistas que se estrearam na com este projecto, acabaram por não ter as oportunidades que provavelmente esperavam de trabalhar com maior frequência para a “Casa das Ideias”, sendo o mais flagrante o caso de Tércio, que depois disso apenas coloriu a mini-série Onslaught Unleashed, desenhada pelo português Filipe Andrade. Na realidade, as características únicas e distintas do estilo personalizado dos desenhadores nacionais, que foi o que levou Cebulski a apostar neles, tornou-os difíceis de encaixar nas histórias de super-heróis mais tradicionais. João Lemos, por exemplo, teve editores que lhe disseram que o estilo dele era “demasiado mágico” para as histórias de super-heróis…
Por isso, Nuno Plati interroga-se se não teria sido melhor para as suas carreiras se os projectos para a Image se tivessem concretizado e a estreia no mercado americano não se tivesse feito através da Marvel. Sendo impossível de saber se assim seria, o que é uma verdade incontornável é que foi com os Contos de Fadas da Marvel que tudo começou. E é esse momento fundamental na carreira internacional dos três ilustradores portugueses, que está finalmente disponível em português no país que os viu nascer, numa edição que faz justiça à importância do acontecimento.   

domingo, 12 de outubro de 2014

Universo Marvel 14 - Thor e Capitão América: A Essência do Medo


THOR E OS VINGADORES CONFRONTAM OS SEUS MAIORES MEDOS

UNIVERSO MARVEL VOL 14
Universo Marvel: A Essência do Medo
Argumento – Matt Fraction
Desenhos – Stuart Immonen e Wade von Grawbadger
Quinta, 09 de Outubro + 8,90€
As consequências do cerco a Asgard que pudemos acompanhar no volume anterior, concretizam-se de forma tão trágica como espectacular neste A Essência do Medo, em que os esforços de Odin para evitar a concretização de uma antiga profecia que previa a morte do seu filho, Thor, e esconder erros passados, vão ter consequências de tal maneira graves, que podem até implicar a destruição da raça humana.
Thor, o Capitão América e os Vingadores vão ter que se opor aos desígnios de Odin, que se prepara para incendiar a Terra para salvar Asgard, mas esse está longe de ser o maior dos seus problemas, pois uma nova ameaça perfila-se no horizonte: Jormungand, a Serpente de Midgard, cuja morte às mãos de Thor, que também não sobreviverá ao combate, segundo as profecias, anunciará a chegada do Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses.
À medida que os imensos poderes mágicos da Serpente devastam o planeta, que aliados e inimigos são transformados em forças de destruição, Thor e os outros heróis terão que enfrentar e vencer os seus medos mais profundos, mesmo que no caso de Thor, cujo destino foi traçado pelos erros de Odin, este saiba que a vitória só é possível através do sacrifício derradeiro.
Assim, o medo, sob as mais diversas formas está no centro desta história épica e sombria. Medo de Odin, Deus e pai, pela vida do seu filho, Thor. O medo de uma filha, Pecado, que teme não estar à altura das ambições do pai, o Caveira Vermelha. O medo do Capitão América pelo caminho que o país de que é símbolo está a tomar. O medo de um cientista, Tony Stark, o Homem de Ferro, que se vê obrigado a recorrer à magia, quando a ciência se mostra incapaz de deter os poderes mágicos da Serpente e dos seus aliados involuntários e o medo de Peter Parker, o Homem-Aranha, de perder aqueles que lhe são queridos, que o leva a abandonar o campo de batalha e percorrer as ruas de Nova Iorque à procura da sua tia May.
É esse medo, que aproxima Deuses e mortais, heróis e vilões, que está no cerne de uma história cujo título é inspirado no famoso discurso de Franklin D. Roosevelt em 1929, em que avisou o povo americano, que “a única coisa que devemos temer é o próprio medo”. Uma escolha que não é inocente, pois Matt Fraction, o autor desta história, que é um dos mais populares e premiados argumentistas do momento, graças ao seu trabalho nas séries Hawkeye e Sex Criminals, faz um paralelo com a América da Grande Depressão, utilizando Deuses e Super-Heróis numa reflexão sobre os medos bem reais que marcam o Zeitgeist da América do século XXI, atormentada pelos traumas dos atentados de 11 de Setembro e pela crise económica iniciada em 2008 e que não dá mostras de ser superada.
A dar corpo a este relato tão certeiro como perturbador, Fraction conta com o traço de Stuart Immonen, desenhador que começou a dar nas vistas na rival DC Comics, onde ilustrou as aventuras do Super-homem e da Legião dos Super-Heróis, cujo traço dinâmico e detalhado se mostra igualmente adequado às cenas épicas de combates, como aos momentos mais intimistas.
Texto publicado no jornal Público de 03/10/2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Universo Marvel 13 - Vingadores: Cerco


OS VINGADORES ENFRENTAM O CERCO A ASGARD

UNIVERSO MARVEL VOL 13
Vingadores: Cerco
Argumento – Brian Michael Bendis
Desenhos – Olivier Coipel
Quinta, 02 de Outubro + 8,90€
Cerco, a saga do Universo Marvel que chega aos quiosques na próxima quinta-feira, serve de conclusão a quase dez anos de histórias, concebidas com uma precisão de relojoeiro por Brian Michael Bendis, que pudemos acompanhar nesta e em anteriores colecções que o Público e a Levoir dedicaram à Marvel. Uma vasta saga iniciada com a Guerra Civil, já publicada numa anterior colecção e que tem neste Cerco o seu capítulo final, que vem alterar profundamente o status quo do Universo Marvel.
O Cerco que dá nome a esta saga, é o cerco a Asgard, a mítica terra dos Deuses Nórdicos, transportada para os céus da América profunda, como vimos no 5º volume dedicado ao Poderoso Thor, que é atacada pela H.A.M.M.E.R., a mais poderosa força de segurança do mundo, comandada por Norman Osborn, que substituiu a S.H.I.E.L.D., depois desta ter sido dissolvida na sequência dos acontecimentos da Invasão secreta. Uma história épica, que opõe os heróis da Terra aos Deuses de Asgard, com os Vingadores a juntarem-se a Thor na defesa do reino de Asgard, contra as tropas de Norman Osborn, que além da H.A.M.M.E.R., incluem os Vingadores Negros, super-vilões contratados para se fazerem passar pelos Vingadores originais e a Cabala, uma organização secreta criada por Osborn para concretizar o seu objectivo da dominação mundial.
Para além de pôr um fim definitivo à meticulosamente orquestrada tentativa de conquista do Universo Marvel por Norman Osborn, este volume assinala o regresso em grande forma da trindade fundadora dos Vingadores, Homem de Ferro, Capitão América e Thor, que a Guerra Civil tinha colocado de lados diferentes da barricada.
A ilustrar esta saga épica, está o nosso bem conhecido Olivier Copiel que, depois de Dinastia de M e Thor: Renascido, dá aqui mais uma prova do seu imenso talento visual.
Texto publicado no Jornal Público de 26/09/2014

domingo, 28 de setembro de 2014

Universo Marvel 12 - Dr. Estranho e Dr. Destino: Triunfo e Tormento


Como no caso deste volume o editorial é da minha autoria, mais uma vez opto por deixar aqui esse editorial em vez do texto que saiu no jornal Público, que por questões óbvias de espaço é bastante menos  desenvolvido.

O HOMEM POR TRÁS DA MÁSCARA DE FERRO

UNIVERSO MARVEL VOL 12
Dr. Estranho e Dr. Destino: Triunfo e Tormento
Argumento –  Roger Stern, Gerry Conway e Bill Matlo
Desenhos – Mike Mignola, Gene Colan e Kevin Nowlan

Criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1962, o Doutor Destino é não só dos mais antigos vilões do Universo Marvel, mas também dos mais importantes. Uma importância bem evidente na história escrita por Roger Stern que dá nome a este volume, em que mais do que dividir o protagonismo com o Doutor Estranho, o Doutor Destino rouba esse mesmo protagonismo.
Tendo feito a sua primeira aparição no nº 5 da revista Fantastic Four, de Julho de 1962, a sua origem só seria contada quase dois anos depois, no Fantastic Four Annual nº 2. É ai que descobrimos o seu verdadeiro nome, Victor Von Doom, a sua infância no principado da Latveria, a sua origem cigana e o destino trágico da sua mãe, Cynthia Von Doom, uma feiticeira cigana, morta e condenada ao eterno sofrimento pelo demónio Mefisto, e também do seu pai, Werner, um médico prestigiado, que vai sacrificar a vida para salvar a de Victor. Tendo descoberto as actividades necromânticas da sua mãe após a morte desta, Victor vai alargar o seu ramo de estudos para o campo do oculto, buscando no sobrenatural uma maneira de se vingar do Barão, que reinava sobre a Latveria com mão de ferro e que foi responsável pela morte do seu pai e pela perdição da alma da sua mãe. A sua atracção pelo sobrenatural não o impediu de se revelar um aluno brilhante e inventivo nas disciplinas mais tradicionais, com resultados impressionantes que atraíram a atenção do Reitor da Empire State University, prestigiada Universidade americana, onde teve como colega outro aluno brilhante, Reed Richards, o futuro Sr. Fantástico, líder do Quarteto Fantástico.
Mais do que pela amizade e posterior rivalidade com Reed Richards, é através do equilíbrio instável entre os dois polos da sua herança familiar, a magia e a ciência, que o percurso do Doutor Destino vai ser traçado e, se na maior parte das histórias em que enfrenta o Quarteto Fantástico, o ênfase vai para o seu génio científico, no caso de Triunfo e Tormento, são as capacidades do Doutor Destino enquanto feiticeiro que ganham relevo.
Publicada originalmente como uma novela gráfica em 1989, Triunfo e Tormento centra-se na descida aos infernos do Doutor Destino para libertar a alma da sua mãe do Inferno, num combate com Mefisto anualmente repetido de forma inglória, em cada noite de solstício de Verão. Uma premissa que nos remete para as lendas da Antiguidade Clássica, como os Doze Trabalhos de Hércules e, sobretudo, a ida do poeta Orfeu ao Hades para tentar salvar a sua amada Eurídice. Mas já Gerry Conway, que por diversas vezes tinha ido beber inspiração à mitologia clássica, tinha utilizado essa premissa numa história ilustrada pelo grande Gene Colan, publicada em 1970 no nº 8 da revista Astonishing Tales e que Roger Stern soube aproveitar, criando uma continuação dessa história que nenhum autor posterior tinha explorado devidamente, em Triunfo e Tormento. Mas além de continuar a história, Stern introduz um novo elemento na equação, Doutor Estranho, o Feiticeiro supremo. E esta presença do Doutor Estranho revela-se perfeitamente lógica, pois como refere Roger Stern, o Doutor Destino “é um génio da ciência, mas claro que não é o maior feiticeiro do mundo, pois esse título pertence ao Doutor Estranho. Por isso, se ele tem descer aos Infernos, gostaria de ter o maior de todos os feiticeiros do seu lado. Mas como Destino é demasiado orgulhoso para pedir a ajuda do Doutor Estranho, vai ter que o manipular, de modo a conseguir a sua ajuda.”
Apesar da armadura e máscara que lhe dão um aspecto mecânico, quase robótico, o Dr. Destino é uma personagem tremendamente humana, com uma dimensão trágica que Roger Stern realça de forma eficaz, mostrando que por trás da máscara de ferro está um homem, um filho que não esquece a mãe e que, apesar da presença do Dr. Estranho, assume aqui o principal protagonismo. O próprio Roger Stern reconhece isso, ao dizer que “a história começou como uma novela gráfica do Doutor Estranho, mas à medida que ia escrevendo, quase que se tornou uma novela gráfica do Doutor Destino, porque a personalidade de Destino era tão forte que começou a tomar conta do livro”
Entre a ideia inicial de Roger Stern e a publicação da história, passaram-se quase sete anos. Um atraso motivado por outros afazeres de Stern, que escrevia em média duas a três revistas por mês, mas sobretudo por razões editoriais, pois nessa altura John Byrne estava a escrever e desenhar uma longa saga na revista Fantastic Four em que o Doutor Destino estava ausente, presumivelmente morto. Um atraso inesperado, mas que permitiu ter Mike Mignola, o futuro criador de Hellboy, como desenhador de uma história feita à medida do seu universo estético e criativo, então ainda em embrião.
Nascido em 1960, Mignola estudou ilustração no California College of the Arts e iniciou-se profissionalmente na BD na Marvel em 1983, um ano depois de ter concluído o curso, colaborando em títulos como The Incredible Hulk, a mini-série dedicada a Rocket Raccon, personagem que os leitores conhecem do volume dedicado aos Guardiões da Galáxia, e a antologia Marvel Fanfare. Mas o seu estilo peculiar, em que as sombras são usadas para criar ambientes, que se afirmou definitivamente durante a década seguinte, graças a Gotham, Sangue e Sombra, uma história alternativa do Batman, publicada em Portugal na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC, e à adaptação à BD do filme Dracula, de Francis Ford Coppola, está já presente neste Triunfo e Tormento, que assinala a primeira descida aos Infernos de um personagem desenhado pelo criador de Hellboy. Neste caso, grande parte do mérito não pode deixar de ir para Mark Badger que assegura a arte-final e as cores de Triunfo e Tormento de uma forma perfeita que realça devidamente as características identificativas da arte de Mignola, em que os elementos arquitectónicos em ruínas, envoltos nas sombras, contribuem para a criação de um ambiente único.
Apesar da presença de artistas do calibre de Gene Colan, ou Kevin Nowlan, Mignola é o autor mais em destaque e o principal elemento unificador deste volume, que recolhe também duas histórias protagonizadas por Namor, o Príncipe Submarino, desenhadas também por si e publicadas nos inícios da década de 1980 na revista Marvel Fanfare. Histórias em que Mignola troca as profundezas do Hades pelo fundo do mar onde reina Namor, e que permitem ao leitor acompanhar a evolução do desenhador em direcção ao traço mais estilizado que lhe conhecemos e que já começa a ser bem visível nas ilustrações que fecham este volume.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Universo Marvel 11 - Vingadores para Sempre (Parte 2)


O COMBATE FINAL ENTRE OS VINGADORES 
E OS GUARDIÕES DO TEMPO

UNIVERSO MARVEL VOL 11
Vingadores para Sempre! (Parte 2)
Argumento - Kurt Busiek 
Desenho - Carlos Pacheco e Jesus Merino
Quinta, 18 de Setembro + 8,90€

Com a publicação na próxima quinta-feira, da segunda parte da saga Vingadores para Sempre! esta aventura épica chega ao fim, com o combate final entre os Vingadores ajudados por Kang, que tem de combater o seu futuro “eu”, Immortus, e os Guardiões do Tempo. Uma história que, para além de confirmar como Kurt Busiek consegue utilizar o seu conhecimento enciclopédico da história da Marvel ao seu serviço de uma intriga tão complexa como coerente, que recupera os heróis clássicos dos Westerns da “Casa da Ideias”, como o Rawhide Kid, Kid Colt, Two-Gun Kid e os Gunhawks, tem ainda o mérito adicional de fazer brilhar devidamente o imenso talento do desenhador Carlos Pacheco. 
Um dos mais importantes e populares autores latinos a trabalhar nos comics de super-heróis, o espanhol Carlos Pacheco soube rapidamente construir uma carreira ímpar, em que deu o seu cunho pessoal aos principais heróis da Marvel e da DC, para além de abrir o caminho para a invasão do mercado americano de super-heróis por uma série de desenhadores de origem espanhola, como Salvador Larroca, Rafa Fonteriz, Guillem March, Javier Pulido, Oscar Jimenez e Jesus Merino, seu colaborador habitual, que aqui assina a arte-final.
Profundamente influenciado pelos comics de super-heróis, Pacheco iniciou-se na BD em Espanha através dos concursos de descobertas de novos talentos promovidos pelo editor Josep Toutain, mas começou a dar nas vistas entre 1978 e 1982 como ilustrador das capas da Colecção “Clássicos Marvel”, da editorial Forúm, onde teve a possibilidade de desenhar pela primeira vez muitos dos heróis com que viria a trabalhar anos mais tarde, como desenhador regular.
Leitor ávido e profundo conhecedor das histórias de super-heróis, a ponto de ter criado, com Rafael Marin e Rafa Fonteriz, a série Iberia Inc., protagonizada por um grupo de super-heróis espanhóis, a entrada de Carlos Pacheco no mundo dos comics de super-heróis era uma questão de tempo. Essa entrada vai ter lugar em Dezembro de 1992, pela porta dos fundos, através da Marvel UK, ao fim de 10 anos a mandar submissões às grandes editoras americanas.
O seu trabalho como desenhador na série Dark Guard desperta a atenção dos editores e, quase em simultâneo, Pacheco recebe convites para trabalhar para as duas grandes editoras americanas. Na anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à editora de Batman e Superman, pudemos apreciar o seu trabalho para a DC. Agora, nestes dois volumes temos oportunidade de ver Carlos Pacheco a desenhar os maiores heróis da Marvel, com resultados tão espectaculares como conclusivos, que o colocam a par dos maiores desenhadores que já passaram pelas revistas dos Vingadores, como Neal Adams, ou George Pérez. 
Publicado originalmente no jornal Público de 12/09/2014. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Universo Marvel 10 - Vingadores para Sempre! (Parte 1)


OS VINGADORES LUTAM (LITERALMENTE) CONTRA O TEMPO 
NA PRIMEIRA PARTE DA MAIS ÉPICA DAS SAGAS DO UNIVERSO MARVEL

UNIVERSO MARVEL VOL 10
Vingadores: para Sempre! (Parte 1)
Argumento - Kurt Busiek 
Desenho - Carlos Pacheco e Jesus Merino
Quinta, 11de Setembro + 8,90€

Depois de estarem em destaque no volume anterior, graças ao clássico Dias de um Futuro Esquecido, as viagens no tempo e os paradoxos espaço-temporais estão também no fulcro de Vingadores para Sempre, a história de Kurt Busiek e Carlos Pacheco, que reúne as diferentes gerações de Vingadores ( do passado, do presente e do futuro) numa aventura épica, cuja primeira parte se publica na próxima quinta-feira.
Publicado originalmente como uma série de 12 números, entre Dezembro de 1998 e Fevereiro  de 2000, Avengers Forever vem demonstrar o conhecimento verdadeiramente enciclopédico de Kurt Busiek sobre o Universo Marvel, colocado ao serviço de uma história tão complexa como ambiciosa.
Busiek, que os leitores bem conhecem do incontornável Marvels, já publicado nesta mesma colecção, leva aqui ainda mais longe a sua erudição quase obsessiva sobre a história do universo Marvel, para construir uma história épica, que se espalha por séculos e universos diferentes, envolvendo dezenas de personagens de diferentes realidades temporais que, em muitos casos, nunca se tinham encontrado antes.
Contando com o virtuosismo do espanhol Carlos Pacheco no desenho, auxiliado pelo seu compatriota Jesus Merino, na arte-final, Busiek constrói uma história empolgante e visualmente espectacular que deixará loucos os leitores mais fanáticos, mas que está suficientemente bem estruturada para ser lida sem grandes dificuldades pelo leitor ocasional.
O ponto de partida da história é a vontade de Immortus, o Mestre do Tempo, de matar o jovem Rick Jones (personagem directamente ligado à origem do Hulk) para impedir que este mais tarde seja responsável pela destruição do multiverso. Mas Rick Jones conta com aliados de peso que o ajudarão a manter-se vivo. São eles os Vingadores e Kang, o Conquistador, identidade assumida por Immortus quando viajou no tempo até ao Egipto dos Faraós, que assim vai confrontar-se com uma outra versão de si próprio. Algo que pode parecer confuso ao leitor, mas que faz todo o sentido numa história em que as alterações feitas ao passado, vão inevitavelmente dar origem a um futuro alternativo.
Depois de uma série de peripécias e de espectaculares cenas de acção, este primeiro volume termina com os Vingadores a prepararem-se para atacar a fortaleza de Immortus, no Limbo, mas será preciso ler o próximo volume para saber a conclusão desta história épica, cuja acção decorre entre a pré-história e um futuro distante, passando pelo Velho Oeste, ou os anos 50 do século XX.
Publicado originalmente no jornal Público de 05/09/2014

sábado, 6 de setembro de 2014

Universo Marvel 9 - X-Men: Dias de um Futuro Esquecido


OS X-MEN REGRESSAM AO FUTURO, 
NA SAGA QUE INSPIROU O SEU ÚLTIMO FILME

Universo Marvel – Vol. 9
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido
Argumento – Chris Claremont
Desenhos – John Byrne e Terry Austin
Quinta, 04 de Setembro, Por + 8,90 €

O próximo volume da colecção Universo Marvel recupera, pela primeira vez em Portugal no seu formato original, o clássico dos X-Men que serviu de base ao mais recente filme da franquia, realizado por Bryan Singer e que passou (com grande sucesso) pelas salas de cinema nacionais há um par de meses.
Esse clássico é o mítico Days of the Future Past, de Chris Claremont e John Byrne, história publicada originalmente em 1981, nos nºs 141 e 142 da revista The Uncanny X-Men e que saiu em Portugal em 2003, em formato reduzido, incluída num volume antológico dedicado aos X-Men, da colecção Clássicos da Banda Desenhada. Apesar de durar apenas dois números, está é uma das histórias mais importantes da incontornável passagem de Claremont e Byrne pelos mutantes da Marvel, tendo tido diversas continuações e uma influência visível noutras áreas, incluindo no cinema, onde são mais do que evidentes os diversos pontos de contacto entre Dias de um Futuro Esquecido e o o filme Exterminador Implacável, de James Cameron.
Uma história que tem como cenário um futuro distópico, com Nova Iorque destruída e o mundo à beira de um ataque nuclear, em que os mutantes são perseguidos pelos Sentinelas, robôs gigantes criados para detectar e eliminar mutantes, e abatidos, ou encerrados em campos de concentração. É esse futuro, passado no então distante ano de 2013, que os raros sobreviventes dos X-Men tentam evitar, enviando Kitty Pryde para os anos 80, de modo a impedir o assassinato do Senador Robert Kelly por um mutante. O acontecimento fulcral, que a concretizar-se, iria desencadear esse futuro negro, em que os mutante deixam apenas de ser olhados com desconfiança, para passarem a ser caçados e abatidos como cães raivosos.
Sendo indiscutivelmente o principal, Dias de um Futuro Esquecido não é o único motivo de interesse de um volume que recolhe na totalidade a fase final da harmoniosa colaboração entre Chris Claremont e John Byrne na revista dos X-Men, antes do desenhador canadiano, que nos X-Men participava na criação das histórias, não se limitando “apenas” a desenhar, decidir assumir individualmente os destinos da revista dos Fantastic Four.
Fazendo a ponte com a Saga da Fénix Negra, publicada na série II da colecção Heróis Marvel, este volume abre precisamente com a história seguinte, dedicada ao funeral de Jean Grey, seguindo-se uma aventura com a Tropa Alfa (o equivalente canadiano dos X-men, de que Wolverine foi membro), um episódio protagonizado pelo mutante Nocturno, em que John Byrne e Terry Austin são temporariamente substituídos por John Romita Jr. e Bob McLeod, os dois capítulos de Dias de um Futuro Esquecido, para terminar com a primeira história a solo de Kitty Pryde, a jovem mutante que já tinha estado em destaque na história anterior. Ou seja, um punhado de verdadeiros clássicos, assinados pela mais importante dupla de autores que passou pelos X-Men, finalmente disponíveis em edição nacional.
Publicado originalmente no jornal Público de 29/08/2014

domingo, 31 de agosto de 2014

Universo Marvel 8 - Thor: Renascido

THOR REGRESSA AO UNIVERSO MARVEL

Universo Marvel – Vol. 8
Thor: Renascido
Argumento – J. M. Straczynski
Desenho – Olivier Coipel
Quinta, 28 de Agosto, Por + 8,90 €

Thor, o poderoso Deus do trovão da Marvel tem sido notícia nos últimos tempos, graças à decisão da editora de o transformar numa mulher a partir do próximo mês de Outubro. Mas enquanto esse momento não chega, os leitores podem descobrir o bom e velho Thor que sempre conheceram, na inspirada versão de J. M. Straczynski, que vai estar em destaque no próximo volume da colecção Universo Marvel.

Criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1962, no nº 83 da revista Journey into Mystery, Thor vai beber inspiração directa à mitologia nórdica, misturando-a com intrigas e diálogos shakespereanos, numa mistura improvável, mas bem-sucedida, que revela o talento de Lee e Kirby. Armado com o seu martelo Mjolnir, Thor é o Deus do Trovão da mitologia nórdica que, por castigo do seu pai, o todo-poderoso Odin, é aprisionado no corpo frágil de um mortal, o Dr. Donald Blake. E é precisamente nessa oposição entre o divino e o humano, entre Asgard, o lar dos Deuses Nórdicos e Midgard, o planeta Terra, que oscila a dinâmica da série.
Na anterior presença de Thor numa colecção dedicada à Marvel, o volume As Idades do Trovão, da primeira série dos Heróis Marvel inteiramente passado em Asgard, a dimensão épica da saga dos deuses nórdicos estava em natural destaque. Nesta nova etapa da personagem, da responsabilidade de Straczynski, é a articulação dos Deuses nórdicos com os humanos que está no centro da acção, pois na sequência do Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses, Odin morreu, Asgard deixou de existir do outro lado da Ponte do Arco-íris e o Poderoso Thor viu-se obrigado a reconstruir o lar dos Deuses nórdicos. Nasceu assim uma nova Asgard flutuante, pairando sobre o Estado de Oklahoma, cuja existência irá ter consequências profundas no equilíbrio do Universo Marvel, que serão abordadas em Cerco, um dos próximos volumes desta colecção.
Escritor de cinema, televisão e Banda Desenhada, Straczynski estreou-se como argumentista na série de animação He-Man, no início da década de 80, dando assim início a uma carreira bem-sucedida como escritor para televisão, que tem o seu ponto mais alto em 1994, com a série de ficção científica Babilon 5, que Straczynskyi criou, escreveu, produziu e realizou durante 5 temporadas. Terminada essa primeira etapa, o autor conciliou a sua actividade no cinema e na TV com o seu amor de infância, os comics, criando para a Top Cow as séries Rising Stars e Midnight Nation. A qualidade do trabalho de Straczynski chamou a atenção de Joe Quesada, editor-chefe da Marvel que o convidou para escrever as aventuras do Homem-Aranha, oferecendo-lhe um contrato de exclusividade. O trabalho de Straczynski com o Homem-Aranha ao longo de seis anos, em que colaborou sobretudo com o desenhador John Romita Jr., valeu-lhe inúmeras distinções e teve edição nacional pela Devir, tanto em revista, como em livro.
Seguiu-se a nova série do Poderoso Thor, cujo primeiro capítulo podem ler no volume que chega na próxima quinta-feira às bancas, em que contou com a colaboração do desenhador francês Olivier Coipel, que os leitores já conhecem do volume Dinastia de M, publicado na segunda série que a o Público e a Levoir dedicaram à “Casa das Ideias”. Um dos ilustradores mais em destaque na Marvel nos últimos anos, Coipel confirma a qualidade do traço que já era evidente em Dinastia de M, articulando a dimensão épica dos Deuses nórdicos com um registo mais intimista da América profunda, cuja tranquilidade a presença dos Deuses de Asgard veio perturbar.
Publicado originalmente no jornal Público de 22/08/2014