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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Universo Marvel 15 - Homem-aranha e Vingadores: Contos de Fadas Marvel


De toda a colecção Universo Marvel, este é o volume que mais me diz e aquele porque mais me bati para fosse incluído nesta colecção, apesar das reticências iniciais da Panini, que o considerava com um volume "pouco comercial". Mas, como achamos que é importante publicar em Portugal o trabalho que os artistas portugueses fazem para a Marvel, o volume fez-se e numa edição enriquecida com um dossier final que nos mostra os bastidores do trabalho de João Lemos e Nuno Plati. 
E, para que fique esclarecido, a não inclusão do Ricardo Tércio neste dossier resultou da vontade do próprio, que perdeu todo o material que tinha da história do Capuchinho Vermelho e já não se identifica com o trabalho que fez na história do Feiticeiro de Oz, preferindo que o mesmo não seja mostrado. Uma decisão que, naturalmente, aceitámos. 

UNIVERSO MARVEL VOL 15
Homem-Aranha e Vingadores: Contos de Fadas Marvel
Argumento – C. B. Cebulski
Desenhos – João Lemos, Nick Dragotta, Niko Enrichon, Nuno Plati, Ricardo Tércio

ERA UMA VEZ…  NO UNIVERSO MARVEL

Era uma vez… um desenhador português, João Lemos, que em Janeiro de 2005, no Festival de Banda Desenhada de Angoulême encontra por acaso Joe Quesada, desenhador e editor-chefe da Marvel e lhe entrega o seu portfólio. Portfólio esse que, um pouco mais tarde, acabaria por chegar às mãos de C. B. Cebulski, editor, director, principal caça-talentos e argumentista da Marvel, que ficou absolutamente fascinado com o traço único de Lemos e o contactou imediatamente.
Mas deixemos que seja o próprio Cebulski a contar como tudo aconteceu: “O primeiro autor português que conheci pessoalmente foi o João Lemos. Todo o grupo de artistas foi a Angoulême um ano em que o Joe Quesada era convidado. O Joe trouxe vários portfólios e pediu-me para lhes dar uma vista de olhos. Havia muitos artistas diferentes mas o portefólio do João era um dos mais únicos que tinha visto na vida e pensei logo que o tinha de contactar. Então a primeiro coisa que fiz foi enviar-lhe um email a dizer “Hey daqui é o C.B. Cebulski da Marvel. Recebi o teu portefólio pelo Joe Quesada. Estás interessado em trabalhar nalgumas ideias?” O email foi enviado no dia 1 de Abril, o dia das mentiras, e o que aconteceu é que ele pensou que era o Ricardo [Tércio] ou o Nuno [Plati] a pregarem-lhe uma partida, mas era mesmo eu. Ele respondeu que adorava trabalhar em algo, mas como na altura não havia nada disponível na Marvel então começámos a desenvolver um projecto para a Image e posteriormente através dele conheci os outros dois e a relação começou a crescer a partir daí.”
A ideia de Cebuslki, que além do seu trabalho como editor e director da Marvel, desenvolve uma actividade paralela como argumentista, alternando entre os trabalhos por encomenda para a Marvel e os projectos mais autorais para a Image, em que detém os direitos sobre a história e as personagens, era criar diferentes histórias de raiz com cada um dos desenhadores portugueses. O mais falado desses projectos foi Shiki, uma mini-série concebida a meias com João Lemos, que se ocupou dos desenhos. Mas o seu trabalho para a Marvel e as constantes viagens a que o mesmo obriga não lhe deixam grande tempo livre para escrever, o que fez com que, das colaborações previstas com os desenhadores portugueses, apenas tenha sido publicada uma história curta ilustrada por Nuno Plati, na antologia 24/Seven, editada pela Image.
Assim, a colaboração entre o argumentista americano e os três desenhadores portugueses que então partilhavam atelier no Estúdio da Bica, haveria por se concretizar finalmente um pouco mais tarde, no âmbito do projecto Marvel Fairy Tales, em que C. B. Cebulski pegava em contos de fadas e lendas tradicionais de diferentes países, com destaque para o Japão, de que Cebulski é um apaixonado, adaptando essas histórias ao universo Marvel.
Primeiro saiu em 2006 a mini-série X-Men Fairy Tales, em que desenhadores tão diferentes como Bill Sienkiewicz, Kyle Baker e os japoneses Sana Takeda e Kei Kobayashi ilustravam lendas japonesas e africanas e contos dos irmãos Grimm, protagonizados por membros dos X-Men. Seguir-se-ia em 2007, a mini-série Spider-Man Fairy Tales, que abre logo com uma versão da história do Capuchinho Vermelho, ilustrada por Ricardo Tércio e que inclui contos de fadas tradicionais e lendas africanas e japonesas. Finalmente em 2008, surge a mini-série Avengers Fairy Tales, centrada na transposição de clássicos da literatura, como o Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Pinóquio e O Feiticeiro de Oz (que antes de ser um filme com Judy Garland, já era um livro de L. Frank Baum) para o Universo Marvel, em que apenas o japonês Takeshi Miyazawa, que ilustra uma versão da Alice…, de Lewis Carol, e a francesa Claire Wendling que assegura as capas, ameaçam a hegemonia artística nacional. O facto dos desenhadores japoneses e portugueses substituírem os americanos nesta série, mostra a forma como Cebulski não olha a fronteiras para encontrar o desenhador certo para cada história. Citando mais uma vez Cebulski: “Trabalhei primeiro com o Ricardo Tércio no Spider-Man Fairy Tales, mas quando os Avengers Fairy Tales aconteceram, sabia que o João era perfeito para o Peter Pan, o Nuno para o Pinóquio e o Ricardo, com quem tive uma óptima relação a trabalhar antes, para o Feiticeiro de Oz.”
Se X-Men Fairy Tales e Spider-Man Fairy Tales foram recolhidas em livro, após a publicação inicial em revista, já Avengers Fairy Tales, apesar da excelente recepção crítica não terá vendido tanto como as mini-séries anteriores - talvez por não ter nenhum desenhador conhecido do público americano e os Vingadores não terem então a popularidade dos X-Men, ou do Homem-Aranha –   e não teve a mesma sorte, sendo apenas recolhida numa colectânea mais genérica, chamada Marvel Fairy Tales, que além das quatro histórias de Avengers Fairy Tales, recolhia também uma história de cada uma das mini-séries anteriores. Uma edição modesta, em formato digest (um formato de bolso, mais pequeno do que o formato americano tradicional) impressa num papel demasiado poroso, que não fazia justiça ao trabalho dos desenhadores, que apenas no volume que têm nas mãos vêm o seu trabalho reproduzido com a qualidade que a excelência do seu traço merece.
Um volume que recolhe pela primeira vez no seu formato original, uma selecção das melhores histórias das mini-séries Spider-Man Fairy Tales e Avengers Fairy Tales, dando natural destaque às histórias ilustradas pelos desenhadores portugueses. Assim, para além das histórias ilustradas pelos desenhadores portugueses, que analisaremos mais a seguir, temos Niko Henrichon, que os leitores portugueses conhecem de Fábula de Bagdad, uma história de Brian K. Vaughn sobre um bando de leões fugidos do jardim zoológico de Bagdad durante a guerra do Golfo, em que demonstra todo o seu talento para desenhar animais, a ilustrar uma lenda africana sobre Kwaku Anansi, o Deus Aranha e Nick Dragotta, contando com o apoio do traço inconfundível de Mike Allred na arte-final, ilustra uma variação da história da Cinderella, com uma curiosa inversão de género em que temos Gwen Stacy como a princesa e Peter Parker como Cinderello…
O primeiro ilustrador português a participar neste projecto, Ricardo Tércio, foi também o único a ilustrar duas histórias baseadas nos contos de fadas. Uma versão da história do Capuchinho Vermelho com Mary Jane no papel do Capuchinho e Venom como o lobo mau, ilustrada toda digitalmente por Tércio, que é também autor da ilustração da capa, num estilo próximo do cinema de animação. Um registo que Tércio altera na versão do Feiticeiro de Oz que ilustrou para Avengers Fairy Tales, em que desenho assistido por computador dá lugar ao mais tradicional desenho a tinta-da-china sobre papel, colorido com ecolines, mas com que o autor ficou bastante menos satisfeito do que os leitores, razão porque optou por voltar ao desenho digital nos seus trabalhos seguintes.
A menos óbvia das adaptações e, quanto a mim a mais conseguida, é a adaptação de Peter Pan de James Barrie com o Capitão América como Peter Pan e os restantes Vingadores como os Meninos Perdidos, em que o notável trabalho de pesquisa de João Lemos, que podemos apreciar mais em pormenor no dossier final, ajudou a dar maior solidez a uma belíssima história, tornada mágica pelo traço etéreo e estilizado de Lemos, muito bem servido pelas cores suaves de Christina Strain. Finalmente, Nuno Plati ilustra com grande elegância uma versão do Pinóquio de Carlo Collodi, como o Visão no papel do boneco que queria ser um menino de carne e osso.
Tem aqui o leitor seis histórias mágicas, unidas pelo argumento de Cebulski que fundem os contos de fadas, as lendas tradicionais e aos clássicos da literatura com a mitologia do Universo Marvel, dando origem a um novo género de contos de fadas. Contos pensados para os leitores do século XXI, para quem o Homem-Aranha e o Capitão América são tão ou mais familiares que o Pinóquio, ou o Peter Pan.

MAKING OF CONTOS DE FADAS MARVEL

Nas páginas que se seguem, podemos acompanhar a forma diferente, até no suporte (com o trabalho de Plati a ser inteiramente digital) como dois dos desenhadores portugueses deste volume abordaram a sua participação no projecto dos Contos de Fadas Marvel, através de exemplos do trabalho preparatório, que normalmente não chega ao leitor, que apenas tem acesso ao produto final. 

JOÃO LEMOS
  
Se, como já vimos no editorial que abre este volume, foi graças a João Lemos que Cebulski descobriu o talento e a versatilidade dos ilustradores portugueses, o desenhador luso nascido em 1977 ficará na história como o primeiro português a escrever uma história para a Marvel, pois Lemos foi o argumentista de Wolverine: The Dust from Above, uma história do mais popular mutante da Marvel, desenhada pela italiana Francesca Ciregia, para em seguida voltar a Wolverine como desenhador com The Adamantium Diaries, uma história curta, escrita por Sarah Cross para a revista Wolverine 1000. 
E o trabalho de Lemos para o mercado americano não se limitou à Marvel, pois ele foi um dos autores convidados por David Petersen para colaborar na série Tales of the Mouse Guard, editada pela Archaia Press, assinando como autor completo (argumento, desenhos cor e legendagem) a história que funciona como epílogo à edição encadernada, para além de ter trabalhado na série televisiva Once Upon a Time, da ABC, onde foi responsável pelas ilustrações do livro de contos de fadas que aparece no episódio piloto e tem um papel fundamental na série.

A grande cumplicidade existente entre Cebulski e João Lemos reflecte-se na forma quase orgânica como a história que transpõe o Peter Pan de J. M. Barrie para o Universo Marvel foi sendo construída. Nas palavras de Lemos: “O C.B. fez um guião/sinopse de guião que, como me coube a mim a pesquisa em relação à Terra do Nunca, foi sendo ampliado e remendado pelos dois ao longo do processo. Foram também feitos alguns ajustes em relação a que personagens Marvel equivaleriam a personagens da Neverland à medida que se avançava. A história foi trabalhada de um modo bastante orgânico, numa relação de ping-pong que preveniu grande parte das eventuais correcções, pois todas as partes estavam, mais do que a par dos avanços dos outros, envolvidas nos mesmos desde o início.”
Mas, para além da sintonia entre os dois criadores, outro aspecto importante deste trabalho é a pesquisa exaustiva que o desenhador efectuou e que lhe permitiu encher a história de referências à obra original J. M. Barrie, muitas delas só detectáveis pelos especialistas. Um trabalho exaustivo e por isso moroso, mas que deu grande prazer a Lemos como o próprio refere: “O ponto alto da pesquisa/imersão foi ter conseguido estabelecer contacto directo com Andrew Birkin, uma das maiores autoridades mundiais em tudo o que diz respeito a Peter Pan ou J.M. Barrie. Através da sua tremenda generosidade, tive acesso a recursos tais como scans das plantas de palco do quarto das crianças (do arquivo do Great Ormond St. Children's Hospital, que detém em perpetuidade os direitos de autor da obra). O quarto dos miúdos, nas primeiras páginas, é desenhado a partir da planta dos cenários da peça de teatro original, que o próprio J.M. Barrie traçou.  É apenas um dos vários easter eggs que couberam neste comic.”
A CONSTRUÇÃO DO JOLLY ROGER 
(OU COMO UMA MAQUETA TRIDIMENSIONAL AJUDA A CONTAR UMA HISTÓRIA EM BD)
Se a maqueta que Lemos construiu do quarto de Wendy com base nos cenários da primeira representação teatral de Peter Pan, sofreu um acidente fatal e está hoje reduzida a escombros, os leitores podem ver nesta página a outra maqueta que João Lemos usou para a sua participação no projecto Avengers Fairy Tales. A maqueta do Jolly Roger, o navio-pirata do Capitão Gancho, ou neste caso, do seu equivalente nos Contos de Fadas da Marvel, o Garra Sónica. A construção deste modelo tridimensional permitiu a Lemos estabelecer de forma mais rigorosa a diferente colocação das personagens no navio ao longo da história e ter uma noção mais exacta da coreografia a estabelecer para essas personagens.  

NUNO PLATI

De entre os três artistas lusos presentes neste livro, Nuno Plati, é indiscutivelmente o que mais histórias tem publicadas na Marvel. Nascido em Lisboa em 1975, Plati tem formação em Design Gráfico na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e como ilustrador freelancer trabalhou para os principais jornais e revistas nacionais e para empresas de dimensão global como a Marvel, a EA Games ou a Axis Animation, no design de personagens, storyboards, e livros de Banda Desenhada.
Para além da história que tivemos ocasião de ler neste livro, o trabalho de Plati para a “Casa das Ideias” disponível no nosso país inclui uma história curta para a revista Iron Man: Titanium (já publicada numa anterior colecção que a Levoir dedicou à Marvel) e um one-shot da X-23 - desenhada a meias com outro português, Filipe Andrade - que poderão ler no próximo volume desta colecção, dedicado às mais sensuais mulheres da Marvel. Ainda para a Marvel, Plati foi também responsável pelo desenho completo e cor dos comics Shanna, the She Devil e Marvel Girl, a que se seguiu mais uma história curta para a revista Amazing Spider-Man # 657, que assinala a entrada do Homem-Aranha para o Quarteto Fantástico, na sequência da morte de Johnny Storm, o Tocha Humana, pela mini-série Marvel Universe: Ultimate Spider-man e pelos números 10 e 11 da revista Superior Foes of Spider-man. Mais recentemente, desenhou a mini-série Alpha: Big Time, com argumento de Joshua Hale Fialkov e participou, com outros desenhadores no número final da revista Wolverine and the X-Men, escrita por Jason Aaron. 
Plati, que já tinha trabalhado com C. B. Cebulski numa história curta para a antologia 24/Seven, publicada pela Image, teve uma abordagem bastante mais descontraída do que João Lemos à fase da pesquisa, até porque a escolha do andróide Visão como o equivalente da Marvel do Pinóquio, era bastante evidente. 
Para além do filme da Disney, que apresenta uma versão mais asséptica e ligeira da história original de Carlo Collodi, a pesquisa de Plati incidiu mais no livro de Collodi e no trabalho dos diferentes ilustradores que ilustraram este clássico, de modo a entrar melhor no ambiente da história.
A partir daqui, a história foi crescendo de forma orgânica, através do diálogo constante com C. B. Cebulski e, com excepção de uma versão da Feiticeira Escarlate em criança, que acabaria por não entrar na história e de uma versão do Visão/Pinóquio com um colete, que acabaria por não ser usada, os estudos de personagens que podem ver nestas páginas foram aceites sem qualquer outra alteração – algo de invulgar no sistema de funcionamento habitual da indústria americana dos comics, em que o “editor” (termo que nos EUA designa não o dono da editora – o Publisher – mas sim quem faz o editing da história, sugerindo as alterações que considera necessárias aos autores) assegura a ligação entre a editora e as várias pessoas envolvidas no projecto, que não necessitam de estar fisicamente próximas e que, muitas vezes, nem sequer se conhecem pessoalmente. Neste caso, e tal como aconteceu com Lemos, deu lugar a um diálogo frutuoso entre amigos - o argumentista americano e os desenhadores portugueses - com Molly Lazer, a editora da série, a ter uma intervenção bastante menor do que é habitual.
Depois desta estreia fulgurante, com excepção do próprio Plati, que tem trabalhado com regularidade para a Marvel, os restantes artistas que se estrearam na com este projecto, acabaram por não ter as oportunidades que provavelmente esperavam de trabalhar com maior frequência para a “Casa das Ideias”, sendo o mais flagrante o caso de Tércio, que depois disso apenas coloriu a mini-série Onslaught Unleashed, desenhada pelo português Filipe Andrade. Na realidade, as características únicas e distintas do estilo personalizado dos desenhadores nacionais, que foi o que levou Cebulski a apostar neles, tornou-os difíceis de encaixar nas histórias de super-heróis mais tradicionais. João Lemos, por exemplo, teve editores que lhe disseram que o estilo dele era “demasiado mágico” para as histórias de super-heróis…
Por isso, Nuno Plati interroga-se se não teria sido melhor para as suas carreiras se os projectos para a Image se tivessem concretizado e a estreia no mercado americano não se tivesse feito através da Marvel. Sendo impossível de saber se assim seria, o que é uma verdade incontornável é que foi com os Contos de Fadas da Marvel que tudo começou. E é esse momento fundamental na carreira internacional dos três ilustradores portugueses, que está finalmente disponível em português no país que os viu nascer, numa edição que faz justiça à importância do acontecimento.   

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Amadora BD 2014 - Finalmente toda a informação!

Quando faltam exactamente 22 dias para a abertura do Festival, eis que é finalmente revelado o programa do 25º Festival de BD da Amadora, ultimamente rebaptizado como Amadora BD.
Assim, temos como exposição central uma mostra colectiva, comissariada por Luís Salvado e Sara Figueiredo Costa, que tinha como nome "O estado da Arte", nome que aparentemente caiu, pois não vem mencionado no dossier de imprensa... mas o que interessa é que a exposição pretende fazer uma reflexão sobre a actualidade da universo da BD.
De resto, a autora em destaque é Joana Afonso, que desenhou o belo cartaz e vai ter direito a uma exposição a propósito do livro O Baile, escrito por Nuno Duarte, que o ano passado arrebatou todos os prémios. Haverá também exposições para os restantes títulos premiados, com excepção de Fun Home, de Alison Bechdel, que não estará presente, nem terá exposição, tal como aconteceu no ano anterior com Craig Thompson e o seu Blankets...Quanto a exposições comemorativas, teremos os 50 anos da Mafalda e os 75 anos do Batman devidamente assinalados e haverá ainda uma exposição dedicada ao livro Jim Curioso, de Mathias Picard, a lançar pela Polvo durante o Festival, aproveitando a presença do autor na Amadora.
Quanto a convidados estrangeiros, estão anunciados Eric Shanower (autor do excelente Age of Bronze), Rafael Coutinho (filho de Laerte e um dos grandes nomes da nova BD brasileira), Ken Nimura (autor de Matei Gigantes, que a Kingpin acaba de editar) e os americanos Joe Stanton e Thomas Grindberg, que trabalharam tanto com o Batman, como com o Silver Surfer, podendo entretanto haver outras confirmações... ou desistências.
Sobre as exposições dos 75 anos do Batman e do livro do Surfista Prateado editado pela Levoir com o Público, que ganhou o preémio dos Clássicos da 9ª Arte o ano passado, posso falar um pouco mais em pormenor, pois sou co-comissário de ambas, em conjunto com o americano Lawrence Klein.
E nos dois casos conseguimos reunir um conjunto bastante interessante de pranchas originais, de autores do calibre de Frank Miller, Tim Sale, Jim Lee, Moebius, Bernie Wrightson, Alex Ross, John Byrne, David Mazzucchelli, John Buscema, Joe Stanton, Neal Adams, Walt Simonson, Gene Colan entre muitos outros. A integrar a exposição do Batman haverá uma série de homenagens de artistas nacionais (com o Lisbon Studio em peso) e estrangeiros, que recriam capas icónicas, o mesmo acontecendo na exposição do Silver Surfer, em que Penim Loureiro e Pedro Morais reinterpretam momentos-chave do Surfista Prateado de Moebius. É precisamente destes dois projectos que escolhi as imagens que ilustram este post: um Batman de Ricardo Cabral no Chiado e uma bela homenagem de Penim Loureiro ao Surfista Prateado de Moebius e Stan Lee.
Para terminar, quero falar de uma exposição que não vai haver. A dedicada ao livro Contos de Fadas da Marvel, que a Levoir e o Público vão lançar na semana anterior ao começo do Festival, e que recolhe os trabalhos de estreia na Marvel dos portugueses João Lemos, Ricardo Tércio e Nuno Plati.
A exposição foi proposta em inícios de Maio e na altura foi-me dito que "em princípio, sim", se faria a exposição, tendo ficado a organização de me dar uma resposta na semana seguinte. Ao fim de quatro meses sem qualquer resposta, foi-me finalmente confirmado que o "em princípio, sim", se tinha transformado num "afinal, não". Acho que foi pena para o público e sobretudo para os autores, mas mesmo sem exposição, os seus trabalhos estarão finalmente disponíveis em português, a partir do dia 16 de Outubro dia em que o volume da colecção Universo Marvel que recolhe os seus trabalhos, chegará às bancas.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O Sonho Americano desenha-se em Português

Como bem saberão os que o tentaram, para um autor que viva e publique em Portugal, é praticamente impossível conseguir viver exclusivamente da Banda Desenhada. A insipiência da indústria dos quadradinhos nacional, a dificuldade de encontrar jornais ou revistas onde publicar o seu trabalho (e que paguem aos colaboradores), obrigaram vários dos nossos melhores desenhadores, de E. T. Coelho a Victor Péon, passando por Carlos Roque, a imigrarem para poderem (sobre)viver da Banda Desenhada.
Actualmente, o grande sonho da maior parte dos jovens autores portugueses, que pretendem embarcar na arriscada aventura de (tentar) viver da Banda Desenhada, é conseguir fazer carreira no atraente e competitivo mercado norte-americano. E, embora tal não seja fácil, por vezes esse sonho transforma-se mesmo numa realidade, mais ou menos duradoura. Depois de uma primeira geração, composta por Eliseu Gouveia, Miguel Montenegro e Ana Freitas, que conseguiu publicar alguns trabalhos no mercado americano, em inícios da década de 2000, mas sem grande continuidade, surge agora uma nova geração de desenhadores, composta por nomes como João Lemos, Nuno Plati, Ricardo Tércio, Filipe Andrade e Jorge Coelho, com histórias publicadas regularmente em editoras como a Marvel, ou a Image.
Ao contrário dos autores das gerações anteriores, que tiveram que emigrar para conseguirem trabalho fora de Portugal, os autores referidos neste texto trabalham para o mercado americano a partir das suas casas em Portugal, beneficiando das actuais facilidades de comunicação proporcionadas pela Internet e do próprio sistema de funcionamento da indústria americana dos comics, em que o “editor” (termo que nos EUA tem um significado diferente do que lhe dado em Portugal, designando não o dono da editora – o Publisher – mas sim quem faz o editing da história, sugerindo as alterações que considera necessárias aos autores) assegura a ligação entre a Editora e as várias pessoas envolvidas no projecto, que não necessitam de estar fisicamente próximas e que, muitas vezes, nem sequer se conhecem pessoalmente.
Se alguns destes autores desenham a lápis, passam a tinta e dão cor aos trabalhos que publicam, não é assim que as coisas geralmente funcionam no mercado americano. Por via do sistema de publicação mensal e dos prazos rigorosos que isso implica em termos de produção, a indústria dos comics aposta na especialização e numa separação de tarefas em que o argumento, o desenho a lápis, a passagem a tinta (ou arte-final) e a coloração são geralmente realizados por pessoas diferentes, com o editor a servir de elo de ligação entre todas elas.
Um editor com um papel muito importante no facto de haver tantos desenhadores portugueses com trabalhos publicados na Marvel, foi C. B. Cebulski, actual vice-presidente da Marvel, argumentista e grande descobridor de talentos que depois de ter tido acesso ao port-folio de João Lemos, que este tinha entregue ao Presidente da Marvel, Joe Quesada, não hesitou em contactar Lemos, para trabalhar com ele num projecto chamado Shiki. Embora essa série, inicialmente anunciada para sair em 2007, continue a aguardar publicação, a verdade é que Cebulski ficou tão impressionado com o trabalho de Lemos, que disse numa entrevista que o desenhador português: “é um artista com um estilo nunca visto. Ele vai ser uma grande estrela dos comics e a sua arte vai ter um valor incalculável na indústria, deixando um impacto estilístico muito ao género de Mike Mignola e de Bruce Timm.”,
Tendo tomado contacto com o trabalho de outros desenhadores portugueses, via João Lemos, Cebulski usou a série Marvel Fairy Tales para os lançar. Primeiro foi Ricardo Tércio a desenhar a história de Cebulski que adapta a lenda do Capuchinho Vermelho ao Universo Marvel, seguindo-se na série Avengers Fairy Tales, os trabalhos de João Lemos, Nuno Plati e novamente Ricardo Tércio. Um conjunto de trabalhos posteriormente recolhidos no livro Marvel Fairy Tales que, nas suas 144 páginas, tem nada mais de 94 páginas feitas por desenhadores portugueses, em estilos completamente diferentes e personalizados, que vão do traço etéreo e estilizado de Lemos, ao desenho mais “cartoony” de Tércio, passando pela elegância mais europeia de Plati.
Se na versão desenhada por João Lemos da história de Peter Pan, a cor é da responsabilidade de Christina Strain, Nuno Plati na sua versão de Pinóquio, assegura também as cores e a capa, tal como Ricardo Tércio, na sua versão do Feiticeiro de Oz, embora neste último caso, a capa seja da responsabilidade da francesa Claire Wendling.
De todos estes autores, Nuno Plati é o que mais histórias tem publicado na Marvel, com uma história curta para as revista Iron Man: Titanium (tal como outro português, Filipe Andrade, que também desenha uma história curta em Iron Man Titanium e divide o desenho de X-23 com Plati) e o desenho completo dos comics Shanna, the She Devil e Marvel Girl, a que se seguiu mais uma história curta para a revista Amazing Spider-Man 657, que assinala a entrada do Homem-Aranha para o Quarteto Fantástico, na sequência da morte de Johnny Storm, o Tocha Humana.
Mas se Nuno Plati, é o português cujo nome já apareceu em mais revistas da Marvel, o português que mais páginas desenhou para a “Casa das Ideias” é, indiscutivelmente Filipe Andrade, que os leitores portugueses bem conhecem da série BRK.
Andrade, além das histórias já referidas para as revistas X-23 e Iron Man: Titanium, assinou também os desenhos de Wellcome Home e Underneath the Skin, duas aventuras de Nomad, publicadas em complemento da história principal, nos nºs 608 a 614 da revista Captain America, antes de assegurar a arte dos quatro números da mini-série Onslaught Unleashed, actualmente em publicação e que ficará na história como a primeira mini-série da Marvel desenhada e colorida por portugueses, pois além dos desenhos de Andrade, as cores são da responsabilidade de Ricardo Tércio. E já em Setembro começa a sair nos EUA a mini-série John Carter, the Princess of Mars, em que Filipe Andrade assegura o desenho e as capas alternativas da nova versão do personagem de Edgar Rice Burroughs, prestes a chegar ao cinema num filme da Disney.
Também João Lemos ficará na história, mas como o primeiro português a escrever uma história para a Marvel, pois o desenhador português foi o argumentista de Wolverine: the Dust from Above, uma história do mais popular mutante da Marvel, desenhada pela italiana Francesca Ciregia. Lemos, que voltou a Wolverine como desenhador com The Adamantium Diaries, uma história curta, escrita por Sarah Cross para a revista Wolverine 1000. E o trabalho de Lemos não se limita à Marvel, pois ele foi um dos autores convidados por David Peterson para colaborar na série Legends of the Mouse Guard, editada pela Archaia Press, assinando como autor completo (argumento, desenhos cor e legendagem) a história que funciona como epílogo à edição encadernada.
Referência ainda um novo projecto independente, ainda em fase de desenvolvimento, chamado Mia, Tales from the Lost Islands, que vai juntar Nuno Plati e João Lemos, de que esperamos voltar a ouvir falar e que, depois das colaborações entre Nuno Plati e Ricardo Tércio, confirma a tendência dos autores portugueses para trabalharem juntos.
Outro autor português que também tem publicado nos Estados Unidos, mas sem ser na Marvel, é Jorge Coelho, de quem a Image publicou Forgetless, uma mini-série escrita por Nick Spencer, em que Coelho divide os desenhos com W. Scott Forbes e Marley Zarcone. Coelho que se estreou no mercado americano como desenhador de Below the Fold, uma história curta, escrita e colorida por Eric Skillman, publicada na antologia de histórias policiais EGG, auto-editada por Skillman.
O mais recente trabalho de Coelho para a Image, The Weel Turns, uma história curta de D. K. Stockton, publicada no 2º volume de Outlaw Territory, uma antologia de histórias do Oeste, conta mais uma vez com cor de Skillman, numa parceria que se irá prolongar na novela gráfica Submerged Mary, escrita por Eric Skillman e ainda à procura de editor.
Mas estes não são os únicos portugueses a publicar BD nos EUA. Também Filipe Melo conseguiu levar o seu Dog Mendonça às páginas da revista Dark Horse Presents. Um título prestigiado, que inaugurou a actividade editorial da Dark Horse em 1986 e onde o Sin City de Frank Miller foi publicado pela primeira vez. Vinte e cinco anos depois, a editora lançou uma nova versão da revista, com 25 números previstos. Essa nova antologia, cujo primeiro número saiu em Maio nos EUA, terá participações, entre outros autores, de Frank Miller (com uma entrevista e uma preview da prequela de 300 intitulada Xerxes), Mike Mignola (Hellboy), Neal Adams, Richard Corben e Dave Gibbons (Watchmen), entre muitos outros.
É para esta revista que Filipe Melo e Juan Cavia contribuíram com uma história de 24 páginas, dividida em três capítulos de 8 páginas, que vai ser publicada nos nº 4, 5 e 6 e tem como objectivo apresentar Dog Mendonça e os restantes personagens ao público americano, preparando o terreno para a posterior publicação pela Dark Horse de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy nos EUA.
Uma excelente oportunidade que se deveu à intervenção decisiva de John Landis. O realizador americano, que assinou o prefácio do álbum, gostou tanto do livro que fez chegar Dog Mendonça às mãos do seu amigo Mike Richardson, o editor da Dark Horse, que se mostrou interessado na série e viu na revista Dark Horse Presents o local ideal para uma primeira divulgação das personagens junto dos leitores americanos.
Se a tudo isto acrescentarmos a biografia em BD de Angelina Jolie, editada em Janeiro de 2011 pela Editora americana Blue Water, especializada em biografias em Bd de personalidades célebres, de Obama a Oprah, que tem desenhos de Nuno Nobre, um arquitecto, designer e ilustrador português, a viver e trabalhar entre Madrid, Lisboa e Nova Iorque e que assim se estreia na BD, não há dúvidas que o sonho americano dos autores de BD se desenha cada vez mais em português.
Versão actualizada do texto publicado no nº 10 da revista Bang!, em Maio de 2011

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Marvel Fairy Tales


Embora o objectivo dos meus textos no Diário As Beiras, seja falar de Banda Desenhada publicada em Portugal, no caso de “Marvel Fairy Tales” impunha-se abrir uma excepção, bem justificada pela presença de João Lemos, Nuno Plati e Ricardo Tércio, três desenhadores portugueses que partilham o atelier no Lisbon Studio, na ficha técnica de uma edição da Marvel, a maior editora americana, casa de super-heróis como o Homem-Aranha, ou o Wolverine.
O grande responsável pela entrada do trio de desenhadores lusos pela porta principal no mundo dos comics americanos, é o editor e argumentista C. B. Cebulsky, cujo “olho” para descobrir novos talentos é bem conhecido. Cebulsky tem-se especializado em trazer para a editora Marvel talentos de outras latitudes, tanto europeus como japoneses e projectos como as mini-séries da linha “Marvel Fairy Tales”, têm servido para lançar esses talentos.
No caso do volume que motiva este texto, para além de uma história de “Spiderman Fairy Tales” (desenhada por Ricardo Tércio) e de outra de “X-Men Fairy Tales” (ilustrada por Kyle Baker), estão as 4 histórias da mini-série “Avengers Fairy Tales”, 3 delas desenhadas por autores portugueses, enquanto a restante tem arte do japonês Takeshi Miyazawa.
O conceito de “Marvel Fairy Tales” é tão simples, como eficaz. Consiste em adaptar conhecidas lendas e contos de fadas, ao universo da Marvel. Este conceito já deu origem a três mini-séries: “X-Men Fairy Tales”, “Spiderman Fairy Tales” e “Avengers Fairy Tales”, as duas primeiras previamente recolhidas em edições encadernadas, enquanto que as histórias de “Avengers Fairy Tales”, só agora surgem neste “Marvel Fairy Tales”, apresentadas num formato menor do que o usado nas anteriores edições. As histórias escolhidas para este “Marvel Fairy Tales, são o “Peter Pan”, de J M Barrie, ilustrado por João Lemos; o “Pinóquio” de Carlo Colodi, com desenhos de Nuno Plati; “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carol, desenhado pelo japonês Takeshi Miyazawa; “O Feiticeiro de Oz”, de L. Frank Baum, com arte de Ricardo Tércio, que ilustra também a história do Capuchinho Vermelho; e uma lenda tradicional africana, sobre a amizade entre uma tartaruga e uma águia, muito vagamente adaptada por Kyle Baker ao universo dos X-Men.
Do traço etéreo e estilizado de João Lemos, ao virtuosismo de Ricardo Tércio, de quem podemos ver o estudo de Mary Jane, a namorada do Homem-Aranha, até ao desenho mais caricatural de Nuno Plati, que faz uma interessante fusão de influências europeias com uma estética de animação, os desenhadores portugueses fazem aqui um excelente trabalho. Só é pena que o formato e, sobretudo, o papel, em que foi impresso este livro, não permita apreciar totalmente a sua arte…
Seria bom que alguma editora nacional editasse estas histórias com outra dignidade e com algum enquadramento, pois não seria difícil arranjar esboços e estudos preparatórios dos desenhadores “tugas” do Lisbon Studio.
(“Marvel Fairy Tales”, Vários autores, Marvel, 144 pags, 14,99 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 13/02/2010