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quinta-feira, 18 de abril de 2019
Dylan Dog regressa a Portugal em dose dupla
Depois do lançamento no Coimbra BD, na presença do autor Fábio Celoni, chegou finalmente esta quarta-feira às bancas O Velho que Lê, primeiro volume de uma Colecção regular dedicada a Dylan Dog, o herói de culto criado por Tiziano Sclavi. Infelizmente, ao contrário do que estava previsto, na quarta-feira anterior já tinha sido distribuído Até que a Morte vos Separe, o segundo volume desta colecção, cujo lançamento oficial vai ter lugar apenas no último fim-de-semana de Abril, nas Jornadas do Clube Tex Portugal, na presença do desenhador Bruno Brindisi e cuja distribuição em bancas estava prevista apenas para a segunda semana de Maio.
Ou seja, os nossos planos originais de distribuir O Velho que Lê na segunda semana de Março, logo após ao seu lançamento no Coimbra BD e Até que A Morte vos Separe dois meses depois, foram irremediavelmente alterados, primeiro por um atraso na gráfica, que só conseguiu entregar menos de 100 exemplares de cada volume a tempo do Coimbra BD e depois por um erro da VASP que distribuiu o volume 2 antes do volume 1...
A razão porque vos estou a contar estes pormenores, é porque, mesmo tendo traduzido e prefaciado a maioria das anteriores edições nacionais do detective do pesadelo, publicada pela Levoir, estas edições da G Floy que inauguram a nova Colecção Aleph, dedicada à BD europeia, têm para mim um significado especial, pois é um projecto em que, tanto eu, como o José de Freitas e o Mário João Marques, que traduziu O Velho que Lê, investimos pessoalmente a vários níveis.
A escolha de uma história do Fábio Celoni para abrir a Colecção prendeu-se com a possibilidade de o podermos ter presente para o lançamento, o que é sempre útil em termos de divulgação e de vendas, mas a qualidade do trabalho de Celoni, um dos raros desenhadores de Dylan Dog que escreve as histórias que desenha, faziam com que ele estivesse na short-list dos autores a publicar. Uma lista onde estão também obviamente Corrado Roi, Giampiero Casertano, Angelo Stano e Giovanni Freghieri.
Tivemos a sorte de, além de um grande autor, o Fábio Celoni ser também uma pessoa adorável, de quem podemos dizer que ficámos amigos. Com um traço barroco, em que são visíveis as influências de Alberto Breccia (vejam-se as semelhanças fisionómicas entre Ozra, o velho que dá nome ao livro e Ezra Wiston, o narrador de Mort Cinder de Breccia e Oesterheld) Celoni constrói uma belíssima história sobre o amor à literatura e o drama da solidão na terceira idade, onde não faltam referências a clássicos literários como Moby Dick, O Feiticeiro de Oz, ou Alice no País das Maravilhas, na melhor tradição do próprio Tiziano Sclavi, que nunca se coibiu de encher as suas histórias de referências, sejam literárias ou cinematográficas.
O mesmo Sclavi que assina a par com o desenhador Angelo Stano, a história que completa este volume, A Pequena Biblioteca de Babel, um pequeno divertimento borgesiano de apenas 16 páginas, tão simples quanto genial, sobre os estranhos acontecimentos que afectam uma pequena aldeia na Cornualha, onde Dylan Dog se encontrava de férias com uma amiga.
Se O Velho que Lê é uma historia em que o fantástico está presente, já Até que a Morte vos Separe é uma história em que os elementos fantásticos estão praticamente ausentes, podendo os poucos que existem ter uma explicação científica, ou não passarem de um sonho de Dylan. Uma característica comum a outra grande história de Dylan Dog, Johnny Freak, assinada pelos mesmos autores - Mauro Marcheselli na ideia original e Tiziano Sclavi no desenvolvimento - que assinaram também outra das minhas histórias preferidas do investigador do pesadelo, Un Lungo Addio, que espero ter oportunidade de publicar em Portugal.
Episódio especial, publicado por ocasião do décimo aniversário da série, Até que a Morte vos Separe é uma história de amor trágico (como são as melhores histórias de amor) que nos desvenda um pouco do passado de Dylan Dog, enquanto era agente da Scotland Yard, ilustrada por Bruno Brindisi, no seu estilo extraordinariamente legível e eficaz, de uma elegância insuperável. Publicada originalmente a cores, optámos por publicá-la a preto e branco, não só por razões económicas, mas também por acharmos que o preto e branco permite apreciar melhor o traço de Brindisi.
Dois livros com características bem diferentes, mas de grande qualidade, que dão bem ideia da diversidade da série Dylan Dog, um clássico de culto italiano, que, aos poucos, começa ter a devida divulgação em Portugal.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Um Punhado de Imagens do lançamento e inauguração de O Segredo de Coimbra
Faz hoje precisamente uma semana que inaugurou a exposição O Segredo de Coimbra, coincidindo com o lançamento oficial da terceira edição do livro de Etienne Schréder. Esta nova edição que inclui ainda dois textos introdutórios e a história Metamorfoses, escrita por João Ramalho Santos e por este vosso criado, foi produzida pela G Floy para a Universidade de Coimbra, desta vez também com edições em francês e inglês, além do português, de modo a chegar mais facilmente ao público internacional que diariamente visita a Universidade de Coimbra.
O lançamento do livro decorreu no Auditório do Museu da Ciência, enquanto que a Exposição, em que as peças do Gabinete de Física que aparecem no livro, estão em diálogo com as pranchas originais do mesmo, teve lugar no átrio que dá acesso ao Gabinete de Física, no edifício exactamente em frente do do Museu da Ciência.
Embora a cenografia fosse bastante espartana, comparada com a exposição de 2003, no âmbito da Capital da Cultura, permitia ainda assim apreciar em pormenor os originais e esboços de Schréder, que já não eram exposto há mais de 10 anos. Depois da exposição, seguiu-se uma sessão de autógrafos, que nem o começo do jogo Portugal-Hungria interrompeu.
Para um grupo (muito) mais restrito, o dia terminou em minha casa, onde o Schréder veio jantar e, depois de um excelente caril feito pelo José Hartvig de Freitas, que consegue ser ainda melhor cozinheiro do que editor e de uma interessante conversa ( em que ficámos a conhecer um pouco dos bastidores da série Blake e Mortimer, em que Etienne Schréder participa activamente desde o álbum O Estranho Encontro, em que auxiliou Ted Benoit) a sessão de autógrafos continuou.
Deixo-vos com o texto/entrevista de Lídia Pereira, publicado no Diário As Beiras, no dia do lançamento, com o vídeo da televisão da UC sobre a exposição e com um punhado de imagens do dia que, com excepção das duas últimas, foram "roubadas" do Facebook do Museu da Ciência.
O Reitor, João Gabriel Silva durante o lançamento
Etienne Schréder a contar como nasceu o Segredo de Coimbra
Eu, certamente a dizer coisas interessantes...
Schréder e o Reitor a saírem pela porta secreta do Gabinete de Física
A exposição
Outro pormenor da Exposição
Schréder em plena sessão de autógrafos
Sessão de autógrafos
Mesmo depois do jantar, os autógrafos continuaram...
O Akira também não resistiu ao caril do José de Freitas
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terça-feira, 21 de junho de 2016
O Segredo de Coimbra em livro e exposição a partir de amanhã
Uma das Bandas Desenhadas que me é mais cara, por várias razões, volta a estar disponível em Portugal, numa reedição da G Floy para a Universidade de Coimbra. Falo do Segredo de Coimbra, de Etienne Schréder, que será lançado amanhã, no Museu da Ciência, em Coimbra, onde está também uma exposição com os originais do livro, que se manterá até 12 de Outubro.
Deixo-vos com as informações sobre a exposição e com o texto que escrevi com o João Ramalho para a nova edição do Segredo... que inclui Metamorfoses, uma história curta que escrevemos para os desenhos de Schréder e que nunca tinha sido previamente publicada em álbum.
Sessão de apresentação do livro no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
22 de Junho, às 15h00, por João Ramalho Santos João Miguel Lameiras e José de Freitas (editor) com a presença do autor Étienne Schréder.
Inauguração da exposição O Segredo de Coimbra, às 16h00
Museu da Ciência
Largo Marquês de Pombal
3000-272 Coimbra
DAS ANAMORFOSES ÀS METAMORFOSES
Era uma vez uma coleção rara, preciosa e fascinante de belíssimos objetos científicos, tesouro inestimável escondido nos labirintos de uma das mais antigas universidades europeias...
Era uma vez um Gabinete de instrumentos do século XVIII, cheio de anamorfoses... Era uma vez um belga, Étienne Schréder, que juntou todos estes ingredientes em O Segredo de Coimbra, uma história de banda desenhada que, para além de uma bela homenagem ao espólio do Gabinete de Física (hoje integrado no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra), é o mais verdadeiro retrato, não só de Coimbra, como da Universidade em geral, e da própria condição portuguesa; feita de grandiosidade, potencial e ilusões.
Mas, de início, nada indicava que iria ser assim, e esta é (também) uma história de acasos e coincidências. Que começa com Laurent Busine, comissário da exposição Os Mecanismos do Génio realizada em Charleroi (Bélgica) no âmbito da Europália, dedicada a Portugal em 1991; uma mostra que colocaria em primeiro plano a coleção de instrumentos do Gabinete de Física da Universidade
de Coimbra. Preocupado com a necessidade de as legendas que acompanhariam cada instrumento terem de vir em três línguas (francês, flamengo e inglês), Busine decidiu eliminar de todo o uso de textos explicativos, propondo, ao invés, pequenas bandas desenhadas que “explicariam” o funcionamento de cada instrumento, recorrendo a imagens. Assim, a exposição apenas utilizou a linguagem universal da BD, com os textos a surgirem só no catálogo.
Para realizar os desenhos, por indicação do consagrado autor belga François Schuiten, foi escolhido Étienne Schréder, que, sem nada conhecer de Coimbra (ou de Portugal), se deslocou ao Museu para recolher documentação. E a riqueza do espólio rapidamente se impôs. Dezenas de instrumentos, centenas de esboços que inspiraram Schréder a realizar aquela que seria a sua primeira obra de grande fôlego em banda desenhada. Editado na Bélgica para acompanhar a exposição - e considerado por muitos visitantes como um relato histórico, e não ficção...
O Segredo de Coimbra conheceu finalmente edição portuguesa em 1997, por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian. A história, à superfície simples, tem, no entanto, conotações muito profundas sobre o modo como a ilusão de progresso nos pode aprisionar, e como a ciência tem um potencial simultaneamente libertador e ilusionista, neste caso na vida do jovem Príncipe Dom Rafael, e do domínio que tem (ou pensa ter) sobre o seu reino. De resto, o fulcro da história surge, simbolicamente, nas anamorfoses que encantaram Schréder na sua primeira visita a Coimbra, e que se tornaram num elemento fundamental no livro, mostrando como a perceção que temos de uma realidade se pode modificar, neste caso quando um desenho aparentemente desconexo se revela após reflexão numa superfície espelhada curva.
Anos mais tarde, a exposição Coimbra na Banda Desenhada, organizada pela Associação Projetos Sequenciais, e comissariada por João Paiva Boléo e pelos signatários, no âmbito de Coimbra 2003, Capital Nacional da Cultura, trouxe Étienne Schréder de volta a Coimbra, e aos instrumentos que tinha incluído na sua história. Tratando-se da mais importante obra de BD tendo como cenário e personagem a cidade de Coimbra, o livro de Étienne Schréder (entretanto reeditado) teve natural e merecido destaque, com os seus desenhos e pranchas originais colocados em diálogo com os locais e os objetos que motivaram a fábula que o Segredo de Coimbra conta. Mas o retorno de Schréder a Coimbra em 2003 para a inauguração da exposição e para a reedição do livro não significou o fim da história. Conforme o autor refere, na entrevista que lhe fizemos para o catálogo da Exposição de Coimbra 2003: “Se há algo que lamento, é que O segredo de Coimbra tenha sido o meu primeiro álbum. Gostaria de poder voltar a fazê-lo hoje, e, na verdade, penso muitas vezes num álbum que se poderia intitular Regresso a Coimbra...”
Embora esse álbum nunca se tenha concretizado enquanto tal, Schréder voltaria ainda assim a desenhar a nossa cidade e a sua Universidade, com base numa ideia e texto nossos.
Metamorfoses, a história que encerra este livro, consolida esse regresso a Coimbra, aos seus segredos e anamorfoses. Uma história pensada para fazer parte de um projeto mais ambicioso, uma História de Coimbra em Banda Desenhada, que revisitaria diferentes momentos-chave na vida da cidade, projeto que acabou por não se concretizar. Mas Metamorfoses já tinha sido iniciada, e, devido a mais uma série de estranhas coincidências, acabaria por ser publicada em Abril de 2004, no nº 4 da revista Rua Larga, editada pela Universidade de Coimbra, e de cujo conselho editorial um de nós fazia parte na altura.
Inicialmente, a história foi pensada enquanto reflexão sobre a Universidade em fluxo e sobre os permanentes diálogos passado-presente e tradição-modernidade, essenciais para entender Coimbra. O pretexto seria a destruição da Alta, com a substituição de antigos colégios universitários por estruturas modernas, mas assépticas, levada a cabo pelo regime de Salazar ao longo das décadas de 1940-1960.
No entanto, Metamorfoses acabou por se transformar no efetivo (e afetivo) regresso de Schréder a Coimbra, enquanto cidade de papel e personagem de ficção. Um porto de abrigo para onde convergem personagens de outras histórias, como o Príncipe Dom Rafael, que (re)encontramos no interior da Biblioteca Joanina. Um marco da cidade que, por falta de tempo, Schréder não tinha podido visitar da primeira vez (substituíra-a, iconograficamente, pela biblioteca do castelo de Kromeriz, na República Checa). Igualmente presente está a Ponte Rainha Santa Isabel (na altura designada Ponte Europa, e cuja construção se encontrava parada), que, com os seus tabuleiros desalinhados, era então a verdadeira materialização da ponte-enquanto-ilusão imaginada por Schréder mais de uma década antes, nas páginas do Segredo de Coimbra.
Fazia, pois, todo o sentido que as duas histórias que Étienne Schréder desenhou sobre a nossa cidade se encontrassem finalmente nas páginas desta nova edição do Segredo de Coimbra. Um livro que vai possibilitar às centenas de milhares de visitantes que todos os anos descobrem o Património Mundial desta cidade e da sua Universidade, vislumbrar o segredo desta outra Coimbra. Uma cidade (também) de papel, a que o desenho de Étienne Schréder deu, e continua a dar, vida.
João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos
Deixo-vos com as informações sobre a exposição e com o texto que escrevi com o João Ramalho para a nova edição do Segredo... que inclui Metamorfoses, uma história curta que escrevemos para os desenhos de Schréder e que nunca tinha sido previamente publicada em álbum.
Sessão de apresentação do livro no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
22 de Junho, às 15h00, por João Ramalho Santos João Miguel Lameiras e José de Freitas (editor) com a presença do autor Étienne Schréder.
Inauguração da exposição O Segredo de Coimbra, às 16h00
Museu da Ciência
Largo Marquês de Pombal
3000-272 Coimbra
DAS ANAMORFOSES ÀS METAMORFOSES
Era uma vez uma coleção rara, preciosa e fascinante de belíssimos objetos científicos, tesouro inestimável escondido nos labirintos de uma das mais antigas universidades europeias...
Era uma vez um Gabinete de instrumentos do século XVIII, cheio de anamorfoses... Era uma vez um belga, Étienne Schréder, que juntou todos estes ingredientes em O Segredo de Coimbra, uma história de banda desenhada que, para além de uma bela homenagem ao espólio do Gabinete de Física (hoje integrado no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra), é o mais verdadeiro retrato, não só de Coimbra, como da Universidade em geral, e da própria condição portuguesa; feita de grandiosidade, potencial e ilusões.
Mas, de início, nada indicava que iria ser assim, e esta é (também) uma história de acasos e coincidências. Que começa com Laurent Busine, comissário da exposição Os Mecanismos do Génio realizada em Charleroi (Bélgica) no âmbito da Europália, dedicada a Portugal em 1991; uma mostra que colocaria em primeiro plano a coleção de instrumentos do Gabinete de Física da Universidade
de Coimbra. Preocupado com a necessidade de as legendas que acompanhariam cada instrumento terem de vir em três línguas (francês, flamengo e inglês), Busine decidiu eliminar de todo o uso de textos explicativos, propondo, ao invés, pequenas bandas desenhadas que “explicariam” o funcionamento de cada instrumento, recorrendo a imagens. Assim, a exposição apenas utilizou a linguagem universal da BD, com os textos a surgirem só no catálogo.
Para realizar os desenhos, por indicação do consagrado autor belga François Schuiten, foi escolhido Étienne Schréder, que, sem nada conhecer de Coimbra (ou de Portugal), se deslocou ao Museu para recolher documentação. E a riqueza do espólio rapidamente se impôs. Dezenas de instrumentos, centenas de esboços que inspiraram Schréder a realizar aquela que seria a sua primeira obra de grande fôlego em banda desenhada. Editado na Bélgica para acompanhar a exposição - e considerado por muitos visitantes como um relato histórico, e não ficção...
O Segredo de Coimbra conheceu finalmente edição portuguesa em 1997, por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian. A história, à superfície simples, tem, no entanto, conotações muito profundas sobre o modo como a ilusão de progresso nos pode aprisionar, e como a ciência tem um potencial simultaneamente libertador e ilusionista, neste caso na vida do jovem Príncipe Dom Rafael, e do domínio que tem (ou pensa ter) sobre o seu reino. De resto, o fulcro da história surge, simbolicamente, nas anamorfoses que encantaram Schréder na sua primeira visita a Coimbra, e que se tornaram num elemento fundamental no livro, mostrando como a perceção que temos de uma realidade se pode modificar, neste caso quando um desenho aparentemente desconexo se revela após reflexão numa superfície espelhada curva.
Anos mais tarde, a exposição Coimbra na Banda Desenhada, organizada pela Associação Projetos Sequenciais, e comissariada por João Paiva Boléo e pelos signatários, no âmbito de Coimbra 2003, Capital Nacional da Cultura, trouxe Étienne Schréder de volta a Coimbra, e aos instrumentos que tinha incluído na sua história. Tratando-se da mais importante obra de BD tendo como cenário e personagem a cidade de Coimbra, o livro de Étienne Schréder (entretanto reeditado) teve natural e merecido destaque, com os seus desenhos e pranchas originais colocados em diálogo com os locais e os objetos que motivaram a fábula que o Segredo de Coimbra conta. Mas o retorno de Schréder a Coimbra em 2003 para a inauguração da exposição e para a reedição do livro não significou o fim da história. Conforme o autor refere, na entrevista que lhe fizemos para o catálogo da Exposição de Coimbra 2003: “Se há algo que lamento, é que O segredo de Coimbra tenha sido o meu primeiro álbum. Gostaria de poder voltar a fazê-lo hoje, e, na verdade, penso muitas vezes num álbum que se poderia intitular Regresso a Coimbra...”
Embora esse álbum nunca se tenha concretizado enquanto tal, Schréder voltaria ainda assim a desenhar a nossa cidade e a sua Universidade, com base numa ideia e texto nossos.
Metamorfoses, a história que encerra este livro, consolida esse regresso a Coimbra, aos seus segredos e anamorfoses. Uma história pensada para fazer parte de um projeto mais ambicioso, uma História de Coimbra em Banda Desenhada, que revisitaria diferentes momentos-chave na vida da cidade, projeto que acabou por não se concretizar. Mas Metamorfoses já tinha sido iniciada, e, devido a mais uma série de estranhas coincidências, acabaria por ser publicada em Abril de 2004, no nº 4 da revista Rua Larga, editada pela Universidade de Coimbra, e de cujo conselho editorial um de nós fazia parte na altura.
No entanto, Metamorfoses acabou por se transformar no efetivo (e afetivo) regresso de Schréder a Coimbra, enquanto cidade de papel e personagem de ficção. Um porto de abrigo para onde convergem personagens de outras histórias, como o Príncipe Dom Rafael, que (re)encontramos no interior da Biblioteca Joanina. Um marco da cidade que, por falta de tempo, Schréder não tinha podido visitar da primeira vez (substituíra-a, iconograficamente, pela biblioteca do castelo de Kromeriz, na República Checa). Igualmente presente está a Ponte Rainha Santa Isabel (na altura designada Ponte Europa, e cuja construção se encontrava parada), que, com os seus tabuleiros desalinhados, era então a verdadeira materialização da ponte-enquanto-ilusão imaginada por Schréder mais de uma década antes, nas páginas do Segredo de Coimbra.
Fazia, pois, todo o sentido que as duas histórias que Étienne Schréder desenhou sobre a nossa cidade se encontrassem finalmente nas páginas desta nova edição do Segredo de Coimbra. Um livro que vai possibilitar às centenas de milhares de visitantes que todos os anos descobrem o Património Mundial desta cidade e da sua Universidade, vislumbrar o segredo desta outra Coimbra. Uma cidade (também) de papel, a que o desenho de Étienne Schréder deu, e continua a dar, vida.
João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos
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quinta-feira, 3 de março de 2016
Um Punhado de Imagens do Coimbra BD
Começou hoje o 1º Coimbra BD, uma mostra de Banda Desenhada que, se correr bem, poderá um dia dar origem a um Festival de Banda Desenhada com outra ambição. Para já, a adesão do público foi bastante interessante para uma tarde de semana e as coisas prometem animar ainda mais durante o fim-de-semana.
Eu estarei por lá até domingo, nas mesas da Dr. Kartoon e, durante o fim-de-semana terei a companhia de autores como o André Caetano, João Mascarenhas, Pedro Morais, Marco Mendes, Osvaldo Medina, Ricardo Venâncio, Diogo Carvalho, Paulo Monteiro e o brasileiro André Diniz, que dará um toque internacional a uma iniciativa centrada nos autores portugueses.
No final, aqui farei o balanço da iniciativa, mas para já, deixo-vos com um punhado de imagens do primeiro dia do Coimbra BD, começando pela área comercial e continuando pelas exposições.
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segunda-feira, 6 de abril de 2015
Saga, o épico familiar de Brian k. Vaughan e Fiona Staples
Imaginem a história de Romeu e Julieta, mas com os dois amantes de Verona a trocarem uma morte romântica por uma vida em conjunto, com a filha que nasceu deste amor proibido. Em seguida troquem a Verona do século XVI pelo espaço sideral, juntem uma pitada de humor à história e dêem à Julieta uma personalidade forte e o resultado é a série Saga, um dos maiores sucessos dos Comics americanos dos últimos anos que, por uma vez, também está disponível em Portugal, numa bela edição em capa dura da G Floy.
Criada pelo Argumentista Brian K. Vaughan e pela Ilustradora Fiona Staples, Saga é um dos melhores exemplos dos novos caminhos que a Editora Image tem percorrido e que fazem dela a mais interessante editora de Comics do mercado americano actual e uma das de maior sucesso. Embora a série tenha começado a ser publicada nos EUA em Março de 2012, a verdade é que o conceito inicial é muito anterior, remontando à infância de Vaughan que refere "foi um universo ficcional que criei quando estava aborrecido nas aulas de matemática e que, a partir daí foi crescendo". Mas o click definitivo só aconteceria quando o escritor foi pai de uma menina. Nas palavras de Vaughan, "queria escrever sobre a experiência de ser pai, mas queria arranjar uma espécie de Cavalo de Tróia que me permitisse encaixar esse tema numa história interessante que desse para explorar os pontos de contacto entre a criação artística e a responsabilidade de criar um filho. "
E o escritor concretiza: "apercebi-me que fazer Comics e fazer filhos são coisas muito parecidas e que podia combinar as duas coisas numa mesma história e essa história seria muito menos chata se a ambientasse num universo alucinado que misturasse ficção científica e fantasia, em vez de me limitar a contar anedotas sobre mudar fraldas.(...) Não queria contar uma aventura tipo Star Wars, com todos esses nobres heróis a combater um Império. Interessava-me mais contar a história das personagens secundárias, que só querem escapar a uma guerra sem fim".
Quando o projecto foi divulgado pela primeira vez na San Diego Comic Con de 2011, o departamento de comunicação da Image apresentou Saga como "Star Wars encontra Game of Thrones", uma descrição apelativa, mas que não faz inteira justiça ao conceito por trás da série de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, pois se Saga se aproxima da saga épica de George R. R. Martin na presença da magia e no acompanhar de diferentes personagens que procuram sobreviver num mundo em guerra, essa guerra não é o centro da história. No centro da história estão as pessoas. Ou, para usar uma comparação feliz de Vaughn: “sempre achei que a guerra era tão importante para a nossa história, como era para a do filme Casablanca. Ou seja, era muito importante, mas não tão importante como as vidas das pessoas cuja história o filme conta”.
Por isso, o tom da BD de Vaughan e Staples acaba por estar mais próximo de comédias românticas como Modern Family, o que só demonstra a capacidade do autor de chegar a diferentes públicos, algo que esteve sempre presente na obra de Brian K. Vaughan. Por isso, para além da aventura, da magia, dos combates, temos um jovem casal com um filho recém-nascido, que tem de aprender a viver com essa nova realidade e que, num cenário fantástico e delirante, se debate com problemas iguais aos de qualquer jovem casal, desde a chegada dos sogros, que fecha o primeiro volume, ao reaparecimento de uma antiga namorada de Marko. Mas a pressão da vida familiar não afecta apenas os heróis da história, pois também o seu principal adversário, o Príncipe Robot IV, preferia estar em casa a acompanhar a gravidez da sua mulher e o nascimento do seu primeiro filho, em vez de ter que percorrer o cosmos em perseguição dos amantes fugitivos.
Com uma carreira dividida entre a Banda Desenhada e a televisão (foi um dos argumentista de Lost e é produtor de Under the Dome, a série televisiva baseada no romance de Stephen King com o mesmo nome) Vaughan foi responsável por duas das mais interessantes séries de comics deste século, que partem de cenários típicos de ficção científica, para uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. Foi o caso de Ex-Machina, série publicada pela Wild Storm, sobre um antigo super-herói que se torna Presidente da Câmara de Nova Iorque e que acaba por perceber que a política implica concessões e escolhas morais pouco consentâneas com os ideais defendidos por um super-herói.
Mas o seu trabalho mais conhecido, é Y, the Last Man, série da Vertigo, ilustrada por Pia Guera, que explora a vida de um homem num mundo em que toda a população masculina foi dizimada por um vírus e apenas as mulheres sobreviveram. Uma premissa típica de um episódio da série televisiva Twilight Zone, mas que Vaughn desenvolve de forma bastante interessante e inesperada.
Em Portugal, até à publicação de Saga pela G Floy, apenas tinham sido editados O Juramento, uma aventura do Dr. Strange, ilustrada pelo espanhol Marcos Martin, publicada na primeira colecção que a Levoir e o jornal Público dedicaram à Marvel e o excelente Fábula de Bagdad, baseado na história verídica de um bando de leões que escapou do zoo de Bagdad durante a Guerra do Golfo, magnificamente ilustrada pelo canadiano Niko Henrichon, que a BD Mania editou em Portugal na década de 2000.
Mas voltemos a Saga, para vermos mais em pormenor os principais protagonistas desta aventura cósmica, sobre as dificuldades de se criar uma filha, ainda para mais quando se pertence a espécies diferentes, que se guerreiam até à morte e se está no centro de uma guerra espacial.
Para além de Marko e Alana, o casal multirracial cuja história de amor está no centro da intriga, temos também Hazel, a filha do casal, a cujo nascimento assistimos nas primeiras páginas do livro e que narra a história. Um dispositivo narrativo, a “voz of”, que Vaughn utiliza aqui pela primeira vez numa BD, com excelentes resultados. Mas como na maioria das boas histórias, os personagens secundários são também importantes e carismáticos. Veja-se o mercenário A Vontade, uma mistura de Han Solo e Boba Fett, para voltarmos à comparação entre Saga e Star Wars, que tem uma grande vantagem sobre Han Solo, ao contar com um companheiro muito mais carismático do que o peludo Chewbaca, que é a fabulosa Gata Mentirosa. Um animal que entra de caras para a lista dos mais inesquecíveis animais da história da Banda Desenhada, muito por força do excelente trabalho gráfico de Fiona Staples, que lhe dá uma extraordinária expressividade.
Com um estilo que está longe de ser imediatamente consensual, o que faz com que o famoso slogan de Fernando Pessoas para a Coca-Cola, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, assente com uma luva ao seu grafismo singular. Senhora de um traço estilizado, tão simples como elegante, a que a cor digital dá profundidade, Staples foi escolhida por Vaughan, seguindo uma sugestão do escritor Steve Niles, que tinha trabalhado com a ilustradora canadiana na série Mystery Society. E Vaughan não podia nos elogios à sua companheira nesta aventura, afirmando: “a arte dela é incrível. Não se parece com nada. É completamente única”.
Conquistando seis prémios Eisner e seis Prémios Harveys, os principais galardões da indústria dos comics e um Hugo, prémio máximo da ficção científica, em apenas dois canos, Saga tem aliado o reconhecimento crítico ao sucesso comercial. Um sucesso que se está a concretizar também em Portugal, em que o segundo volume de Saga já deverá já estar nas livrarias nacionais quando este número da revista Bang! chegar à FNAC.
ACTUALIZAÇÃO - O 2º volume da série Saga vai ser distribuído na 2ª quinzena deste mês de Abril, juntamente com o 2º volume da série Fatale, de Ed Brubaker e Sean Phillips, que a G Floy também está a publicar em Portugal.
Texto originalmente publicado no nº 17 da revista Bang!, em Março de 2015.
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domingo, 11 de dezembro de 2011
G Floy: uma editora dinamarquesa em Portugal
Para além de prosseguir com a edição nacional do Hellboy, de Mike Mignola, iniciada pela Devir, a editora dinamarquesa G Floy acaba de lançar nas livrarias portuguesas outra novidade assinada por nomes de prestigio dos comics americanos: a novela gráfica "Fel: Cidade Selvagem", que reúne o argumentista Warren Ellis com o desenhador Ben Templesmith, que os leitores portugueses conhecem da série "30 Dias de Noite".
Duas interessantes novidades que este espaço não podia deixar de assinalar, começando por "Fell", regresso do argumentista britânico ao drama com um toque de fantástico e de horror, depois da sua passagem pela série “Hellblazer”, da Vertigo. E se o detective Richard Fell tem alguns parecenças (até físicas) com John Constantine, o protagonista de “Hellblazer”, o horror nesta série nasce mais da exploração do lado sombrio da alma humana, numa cidade em total desagregação, do que dos elementos sobrenaturais. Quanto à arte do australiano Ben Templesmith, continua extremamente eficaz, graças a um trabalho de cor bastante conseguido, que disfarça bem as debilidades do seu desenho que, longe de ser o de um virtuoso, se adequa perfeitamente às necessidades de uma história cruel e sombria.
A edição da G Floy recolhe os 8 primeiros números da série “Fell”, publicados de forma algo irregular pela Image, entre 2005 e 2007, no que foi uma tentativa de produzir uma revista mais barata, por ter menos páginas de história do que o habitual (16 em vez das tradicionais 22), mas a agenda muito ocupada de Ellis e Templesmith fez com que a série entrasse num hiato, depois da publicação do nº 9, em 2008, embora Ellis tenha anunciado no seu blog, em Janeiro de 2011, que o nº 10 já estava escrito e entregue a Bem Templesmith. Esperemos que o regresso de “Fell” se concretize, pois esta é uma série muito bem feita, que vale a pena seguir.
O mesmo se pode dizer da série “Hellboy”, de que este “A Bruxa Troll…” é o sétimo volume editado em Portugal.
Recolhendo uma série de histórias curtas do demónio criado por Mike Mignola, este volume tem a particularidade de contar com Richard Corben e P. Craig Russel como desenhadores convidados. Se o traço estilizado de Mignola, com o seu peculiar uso das sombras como uma forma de criar ambiente, continua inimitável, os ilustradores convidados não se saem nada mal ao criarem a sua versão de Hellboy. Entre a corporalidade do Hellboy de Corben, numa história passada em África, à elegância do traço delicado de P. Craig Russel, num conto inédito que revisita as lendas de Praga, cabe ao leitor escolher a sua versão favorita.
O que é sempre de realçar é a presença de três desenhadores deste calibre no mesmo livro, algo que só a popularidade e carisma da personagem criada por Mignola, possibilitou.
(“Fell: Cidade Selvagem”, de Warren Ellis e Bentemplesmith, G Floy Studio, 150 pags, 15,99 €
"Hellboy: A Bruxa Troll e outros contos", de Mignola, Corben e Russel. G Floy Studio, 136 pags, 15,99 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 10/12/2011
Duas interessantes novidades que este espaço não podia deixar de assinalar, começando por "Fell", regresso do argumentista britânico ao drama com um toque de fantástico e de horror, depois da sua passagem pela série “Hellblazer”, da Vertigo. E se o detective Richard Fell tem alguns parecenças (até físicas) com John Constantine, o protagonista de “Hellblazer”, o horror nesta série nasce mais da exploração do lado sombrio da alma humana, numa cidade em total desagregação, do que dos elementos sobrenaturais. Quanto à arte do australiano Ben Templesmith, continua extremamente eficaz, graças a um trabalho de cor bastante conseguido, que disfarça bem as debilidades do seu desenho que, longe de ser o de um virtuoso, se adequa perfeitamente às necessidades de uma história cruel e sombria.
A edição da G Floy recolhe os 8 primeiros números da série “Fell”, publicados de forma algo irregular pela Image, entre 2005 e 2007, no que foi uma tentativa de produzir uma revista mais barata, por ter menos páginas de história do que o habitual (16 em vez das tradicionais 22), mas a agenda muito ocupada de Ellis e Templesmith fez com que a série entrasse num hiato, depois da publicação do nº 9, em 2008, embora Ellis tenha anunciado no seu blog, em Janeiro de 2011, que o nº 10 já estava escrito e entregue a Bem Templesmith. Esperemos que o regresso de “Fell” se concretize, pois esta é uma série muito bem feita, que vale a pena seguir.
O mesmo se pode dizer da série “Hellboy”, de que este “A Bruxa Troll…” é o sétimo volume editado em Portugal.
Recolhendo uma série de histórias curtas do demónio criado por Mike Mignola, este volume tem a particularidade de contar com Richard Corben e P. Craig Russel como desenhadores convidados. Se o traço estilizado de Mignola, com o seu peculiar uso das sombras como uma forma de criar ambiente, continua inimitável, os ilustradores convidados não se saem nada mal ao criarem a sua versão de Hellboy. Entre a corporalidade do Hellboy de Corben, numa história passada em África, à elegância do traço delicado de P. Craig Russel, num conto inédito que revisita as lendas de Praga, cabe ao leitor escolher a sua versão favorita.
O que é sempre de realçar é a presença de três desenhadores deste calibre no mesmo livro, algo que só a popularidade e carisma da personagem criada por Mignola, possibilitou.
(“Fell: Cidade Selvagem”, de Warren Ellis e Bentemplesmith, G Floy Studio, 150 pags, 15,99 €
"Hellboy: A Bruxa Troll e outros contos", de Mignola, Corben e Russel. G Floy Studio, 136 pags, 15,99 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 10/12/2011
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