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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dylan Dog regressa a Portugal em dose dupla


Depois do lançamento no Coimbra BD, na presença do autor Fábio Celoni, chegou finalmente esta quarta-feira às bancas O Velho que Lê, primeiro volume de uma Colecção regular dedicada a Dylan Dog, o herói de culto criado por Tiziano Sclavi. Infelizmente, ao contrário do que estava previsto, na quarta-feira anterior já tinha sido distribuído Até que a Morte vos Separe, o segundo volume desta colecção, cujo lançamento oficial vai ter lugar apenas no último fim-de-semana de Abril, nas Jornadas do Clube Tex Portugal, na presença do desenhador Bruno Brindisi e cuja distribuição em bancas estava prevista apenas para a segunda semana de Maio.
Ou seja, os nossos planos originais de distribuir O Velho que Lê na segunda semana de Março, logo após ao seu lançamento no Coimbra BD e Até que A Morte vos Separe dois meses depois, foram irremediavelmente alterados, primeiro por um atraso na gráfica, que só conseguiu entregar menos de 100 exemplares de cada volume a tempo do Coimbra BD e depois por um erro da VASP que distribuiu o volume 2 antes do volume 1...
A razão porque vos estou a contar estes pormenores, é porque, mesmo tendo traduzido e prefaciado a maioria das anteriores edições nacionais do detective do pesadelo, publicada pela Levoir, estas edições da G Floy que inauguram a nova Colecção Aleph, dedicada à BD europeia, têm para mim um significado especial, pois é um projecto em que, tanto eu, como o José de Freitas e o Mário João Marques, que traduziu O Velho que Lê, investimos pessoalmente a vários níveis.
A escolha de uma história do Fábio Celoni para abrir a Colecção prendeu-se com a possibilidade de o podermos ter presente para o lançamento, o que é sempre útil em termos de divulgação e de vendas, mas a qualidade do trabalho de Celoni, um dos raros desenhadores de Dylan Dog que escreve as histórias que desenha, faziam com que ele estivesse na short-list dos autores a publicar. Uma lista onde estão também obviamente Corrado Roi, Giampiero Casertano, Angelo Stano e Giovanni Freghieri.
Tivemos a sorte de, além de um grande autor, o Fábio Celoni ser também uma pessoa adorável, de quem podemos dizer que ficámos amigos. Com um traço barroco, em que são visíveis as influências de Alberto Breccia (vejam-se as semelhanças fisionómicas entre  Ozra, o velho que dá nome ao livro e Ezra Wiston, o narrador de Mort Cinder de Breccia e Oesterheld) Celoni constrói uma belíssima  história sobre o amor à literatura e o drama da solidão na terceira idade, onde não faltam referências a clássicos literários como Moby Dick, O Feiticeiro de Oz, ou  Alice no País das Maravilhas, na melhor tradição do próprio Tiziano Sclavi, que nunca se coibiu de encher as suas histórias de referências, sejam literárias ou cinematográficas.
O mesmo Sclavi que assina a par com o desenhador Angelo Stano, a  história que completa este volume, A Pequena Biblioteca de Babel, um pequeno divertimento borgesiano de apenas 16 páginas, tão simples quanto genial, sobre os estranhos acontecimentos que afectam uma pequena aldeia na Cornualha, onde Dylan Dog se encontrava de férias com uma amiga.
Se O Velho que Lê é uma historia em que o fantástico está presente, já Até que a Morte vos Separe é uma história em que os elementos fantásticos estão praticamente ausentes, podendo os poucos que existem ter uma explicação científica, ou não passarem de um sonho de Dylan. Uma característica comum a outra grande história de Dylan Dog, Johnny Freak, assinada pelos mesmos autores - Mauro Marcheselli na ideia original e Tiziano Sclavi no desenvolvimento - que assinaram também outra das minhas histórias preferidas do investigador do pesadelo, Un Lungo Addio, que espero ter oportunidade de publicar em Portugal.
Episódio especial, publicado por ocasião do décimo aniversário da série, Até que a Morte vos Separe é uma história de amor trágico (como são as melhores histórias de amor) que nos desvenda um pouco do passado de Dylan Dog, enquanto era agente da Scotland Yard, ilustrada por Bruno Brindisi, no seu estilo extraordinariamente legível e eficaz, de uma elegância insuperável. Publicada originalmente a cores, optámos por publicá-la a preto e branco, não só por razões económicas, mas também por acharmos que o preto e branco permite apreciar melhor o traço de Brindisi.
Dois livros com características bem diferentes, mas de grande qualidade, que dão bem ideia da diversidade da série Dylan Dog, um clássico de culto italiano, que, aos poucos, começa ter a devida divulgação em Portugal.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

As Melhores BDs que li em 2018 - Parte 1


Para compensar a pouca actividade deste blogue nos últimos tempos, a tradicional listagem das minhas melhores leituras de BD de 2018, desta vez sai logo no início de Janeiro. Como sempre, a lista refere-se aos livros que li pela primeira vez durante o ano que passou, independentemente da sua data de publicação original, estando ordenada por ordem alfabética. Aqui ficam os cinco primeiros, de uma lista que podia perfeitamente ser diferente, pois, felizmente, 2018 foi um ano em que li muita coisa interessante. Deixo-vos com a primeira parte da lista. A segunda parte será divulgada durante a próxima semana. 

1 - Afirma Pereira, de Pierre-Henry Gomont (a partir do romance de Antonio Tabucchi), G Floy
Um excelente exemplo do que deve ser uma adaptação à BD de uma obra literária. Uma adaptação que tem em conta as especificidades de cada linguagem, respeitando o espírito da obra de Tabucchi, sem abdicar da sua individualidade. Também visualmente, Gomont consegue transmitir o contraste entre a luz única de Lisboa e o cinzentismo de um país sufocado por uma ditadura, através de um excelente trabalho de cor, utilizando a técnica da serigrafia, que se revela bastante eficaz, tal como o seu traço dinâmico e sintético, em que um registo mais impressionista no tratamento das personagens, contrasta com o rigor com que é retratada a arquitectura de Lisboa.
2 - Angola Janga, de Marcelo D'Salete, Polvo
Obra monumental sobre o célebre Quilombo de Palmares, Angola Janga relata a história deste reino africano na América do Sul construído por escravos negros fugidos dos engenhos durante o século XVII e da luta do seu principal líder, Zumbi, contra as tropas coloniais portuguesas. Projecto ambicioso e muito bem documentado, Angola Janga é claramente o trabalho da vida de Marcelo D'Salete, cujo traço peculiar, não isento de alguma rigidez em termos de movimento, serve perfeitamente as necessidades da história. Uma história muito bem contada, graças a uma planificação eficaz e ao uso de algumas soluções narrativas bem interessantes.
3 - Dampyr 222: Il Suicidio di Aleister Crowley, de Mauro Boselli e Michele Cropera, Bonelli
Juntar numa mesma história Aleister Crowley, Fernando Pessoa, H.P Lovecraft e o terramoto de 1755 parecem demasiados ingredientes para conseguir um bom resultado, mas com todos estes ingredientes Boselli constrói uma excelente história que integra com brilhantismo elementos históricos reais, como o terramoto de 1755 e o suicídio simulado de Aleister Crowley, no universo fantástico da série Dampyr, título que parece ter uma atracção especial por Portugal.
Graficamente, Michele Cropera, cujo estilo lembra Eddie Campbell, o desenhador de From Hell, mas com um traço menos rígido e com outro domínio da anatomia, faz um excelente trabalho, revelando-se rigoroso na reconstituição da Lisboa dos anos 30 e espectacular nas cenas fantásticas. Uma bela homenagem a Pessoa e a Lovecraft, que confirma a excelente qualidade média das edições da editora Bonelli.   

4 - Dylan Dog: Il Nero della Paura 12: Il Vicino di Casa e alçtri raconti, de Ruju, Ribooldi e Romeo, Bonelli
No ano de 2018, por motivos que em breve serão tornados públicos, li mais de uma centena de histórias de Dylan Dog. Histórias de tamanhos variados, que vão desde as 235 páginas de Il Peccatori di Hellborn, um dos melhores trabalhos da dupla Faraci/Roi, até às 8 páginas de algumas histórias curtas, passando pelas 96 páginas das maiorias das histórias da revista mensal. Curiosamente, duas das histórias que mais gostei, são duas histórias curtas, uma de 16 e outra de 24 páginas, publicadas as duas no mesmo número da revista Il Nero della Paura: Il Vicino di Casa e La Vicina di Casa. Duas histórias escritas por Pasquale Ruju e ilustradas respectivamente por Enea Riboldi e por Valentina Romeo, que me recordaram algumas das melhores histórias de Will Eisner, como The Story of Gerhard Shnobble, em que o Spirit é um mero figurante, completamente alheio do que se passa em seu redor. É o que se passa com Dylan Dog nestas duas histórias que se completam, protagonizadas por dois habitantes de Craven Road, que têm o azar de ser vizinhos do investigador do pesadelo. Duas pequenas pérolas, que confirmam a profunda humanidade desta série fantástica.

5 - Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith, Soleil 
Já vai sendo tradição a presença de Zidrou nesta lista de melhores leituras do ano, mas torna-se inevitável face à qualidade do trabalho daquele que é para mim o mais interessante argumentista de língua francesa da actualidade. Neste caso, Zidrou conta-nos a demanda de uma jovem inglesa pelo marido desaparecido numa expedição ao Árctico, muito bem ilustrada por Edith, uma desenhadora de grande elegância, já habituada a desenhar a Inglaterra vitoriana, graças à série Basil et Victoria. Um belo livro, servido por uma belíssima edição, cheia de pequenos requintes, que fazem de Emma G. Wildford um belo livro/objecto.
CONTINUA...

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Colecção Bonelli 10 - Dylan Dog: Os Inquilinos Arcanos

No caso deste último volume da colecção Bonelli, o texto que saiu no jornal Público é apenas uma versão reduzida, a menos de metade, do texto que tinha escrito originalmente. Como felizmente na Net não existem problemas de espaço, deixo-vos com a versão integral do último texto da colecção da Levoir que me deu mais gozo co-coordenar. Uma colecção que dificilmente teria sido possível sem o apoio do José Carlos Francisco, Mário João Marques e (em menor escala) do Pedro Bouça e Pedro Cleto, a quem agradeço.


DYLAN DOG ENCERRA COLECÇÃO BONELLI

Colecção Bonelli - Vol 10 
Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Quinta-feira, 14 de Junho
Por + 10,90€
Depois de ter protagonizado o terceiro volume, com o clássico Johnny Freak, Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção dedicada à editora Bonelli, num volume com prefácio do argumentista/pianista/compositor/realizador Filipe Melo - cuja série de culto, Dog Mendonça é uma assumida homenagem a Dylan Dog - que recolhe três histórias curtas a cores. A primeira, Os Inquilinos Arcanos, é uma história em três capítulos autónomos, mas que se completam, publicada originalmente na revista Comic Art, entre 1990 e 1991. Assinada por Tiziano Sclavi, o seu criador e por Corrado Roi, um dos melhores desenhadores da série Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos centra-se nos estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres, o condomínio Castevet, e que Dylan Dog vai investigar.
Apesar do número reduzido de páginas - para os padrões da Bonelli, em que as histórias têm normalmente 96 páginas - de cada capítulo, todos os elementos que caracterizam o trabalho de Sclavi estão presentes de forma concentrada, começando pelo humor negro, o toque surreal e as homenagens e citações. Na primeira história, O Fantasma do Terceiro Andar, cujo clima de paranóia vai beber muito ao filme O Apartamento, de Roman Polanski, as referências ao realizador são evidentes, começando na citação de Polanski que abre a história e terminando no nome, Trelkovski - que é o apelido do personagem interpretado pelo próprio Polanski em O Apartamento - que o porteiro dá a um inquilino que se chama… Kowalski, O mesmo sucede em O Apartamento nº 13, onde Sclavi homenageia simultaneamente o escritor Cornell Woolrich e o cineasta Frank Capra, cujo filme, Do Céu Caiu uma Estrela, os personagens vão ver ao cinema, numa história sobre um homem que descobre que não existe.  Comic Art, que lhe permite encaixar quatro tiras por prancha, em vez das três habituais nas revistas da editora italiana.
Ilustrada por Corrado Roi, que assegura também as belas e inesperadas cores, esta história em três partes tem também a singularidade de ser umas das raras aventuras de Dylan Dog em que este troca a habitual camisa vermelha, que se tornou a sua imagem de marca, por uma simples camisa branca. Em termos gráficos, o trabalho de Roi é fabuloso, perfeito na criação do ambiente opressivo das histórias e aproveitando muito bem o formato maior (do que o habitual formato Bonelli) da revista
As outras duas histórias que completam esta edição, foram publicadas na revista Dylan Dog Color Fest, um título mais experimental, que possibilita a autores que normalmente não colaboram com a Bonelli, a oportunidade de assinar histórias de Dylan Dog.
È o que acontece em O Grande Nevão, história que assinala a estreia do argentino Enrique Breccia (A Vida do Che, Tex: Capitan Jack) na Bonelli, aproveitada pelo argumentista Luigi Mignaco para fazer uma bela homenagem à mais importante BD argentina, El Eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, a história de um ataque extraterrestre a Buenos Aires, que começa precisamente com um nevão que mata todos aqueles que são tocados pelos flocos de neve.
Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi. Uma história com uma sensibilidade bem feminina, escrita por uma leitura e fã de Dylan Dog que, tal como aconteceu com Paola Barbato, se tornou uma das principais argumentistas da série e ilustrada com uma delicadeza também feminina, mas que não esconde as claras influências do irmão, por Nives Manara, a irmã mais nova do mestre do erotismo, Milo Manara.
Três abordagens bem diferentes, que demonstram as infinitas possibilidades que uma personagem com Dylan Dog permite, tal como aconteceu com Tex no volume que abriu esta colecção. Uma bela colecção, que nos deu a conhecer um pouco melhor, a melhor editora italiana.
Versão integral do texto publicado no jornal Público de 09/06/2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Colecção Bonelli 3 - Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak

Tal como no volume anterior, o prefácio deste primeiro volume dedicado a Dylan Dog também é meu. Depois de Mater Morbi, é sempre um prazer voltar a escrever com espaço sobre um dos meus personagens de BD favoritos. Aqui vos deixo com o prefácio e com o texto que escrevi para o Público sobre este volume e que poderão ler clicando na imagem.

UM FREAK CHAMADO JOHNNY

Qualquer História da Banda Desenhada que o leitor consulte, assinala o ano de 1986 como um ano-charneira em termos da evolução da arte sequencial. Basta lembrar que foi nesse mesmo ano que foram publicadas obras absolutamente seminais como Maus, de Art Spiegelman, Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons e O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller
Mas não foi só nos EUA que 1986 foi um ano marcante no que à BD diz respeito. Também em Itália as coisas estavam a mudar, com a publicação, em Setembro de 1986, de uma nova série da editora Bonelli. Uma série escrita por um escritor ainda à procura do seu primeiro sucesso, Tiziano Sclavi, e protagonizada por um detective vegetariano, com um passado de alcoolismo, que sofre de claustrofobia e vertigens e investiga casos sobrenaturais, Dylan Dog. Conforme escreveu o próprio Sclavi trinta anos depois, o primeiro número de Dylan Dog foi recebido com uma “enorme explosão de total indiferença”, ficando, em termos de vendas, no limite do cancelamento. Mas pouco a pouco, a série soube conquistar um público cada vez mais vasto, até se tornar um verdadeiro fenómeno, não só de vendas, mas também cultural. O grande trunfo de Dylan Dog foi conseguir chegar a um público bem mais abrangente do que os tradicionais fãs de BD (ou no caso italiano, dos fumetti) e conquistar leitores junto dos cinéfilos, dos intelectuais como Umberto Eco, dos cultores da literatura e do cinema de terror e, sobretudo, junto do público feminino, conquistando milhares de jovens leitoras - que não conseguiram resistir ao charme e às fragilidades, que aumentam esse charme, de Dylan Dog - algumas das quais, como Paola Barbato, Barbara Baraldi, Rita Porretto e Silvia Mericone, iriam passar décadas depois, de leitoras a escritoras das aventuras do detective do oculto. 
Em Portugal, Dylan Dog fez a sua estreia só em 2017, na terceira série da colecção Novela Gráfica, com Mater Morbi, uma história assinada por Roberto Recchioni, o actual responsável editorial da série, bem representativa dos diferentes caminhos trilhados recentemente pela personagem. Para a estreia de Dylan Dog nesta colecção dedicada à editora Bonelli, que vai também encerrar, a opção recaiu em Johnny Freak, uma história mais clássica, onde não falta o dedo do seu criador, Tiziano Sclavi.
Invariavelmente presente na lista das melhores histórias de Dylan Dog de todos os tempos, Johnny Freak foi publicado originalmente em 1993, no número 81 da revista mensal do detective do pesadelo. Contrariamente ao que era habitual nesta época, em que normalmente Tiziano Sclavi lançava a ideia-base para a história, que depois era desenvolvida por outros escritores, no caso de Johnny Freak, o processo foi o inverso. A ideia da história partiu do editor Mauro Marcheselli e coube a Sclavi desenvolver o argumento e os diálogos. Mas essa não é a única particularidade desta história, onde, por uma vez, os horrores sobrenaturais dão lugar a um horror bem real, de uma criança muda a quem são removidas cirurgicamente as pernas, um rim e um pulmão. Inspirada por um artigo sobre tráfico de órgão humanos no Brasil, que Marcheselli tinha lido numa revista, esta história de ficção teria confirmação na realidade mais de uma década depois, em 2005, com o célebre caso de James Whitaker, que foi gerado e nasceu expressamente com o objectivo de ser dador de medula para o seu irmão Charlie, afectado por uma doença degenerativa mortal.
Numa das raras entrevistas que deu, Sclavi, quando lhe perguntaram se se identificava com Dylan Dog, respondeu: “Nem com Dylan, nem com Groucho. Eu sou os monstros.” E essa identificação é bem evidente nesta história, em que o verdadeiro mal se esconde nas pessoas de boa aparência e o corpo deformado de Johnny esconde uma alma de artista e um coração de ouro.  Tal como os leitores, que não conseguiram resistir à fragilidade e à ternura de Johnny, o próprio Sclavi também não resistiu a alterar o final mais duro imaginado por Marcheselli, criando um novo final que, segundo o próprio, “foi escrito enquanto as lágrimas caiam sobre o teclado do computador”.
Essa emoção que Sclavi conseguiu transmitir à história, ajudou a que esta se tornasse um dos episódios mais inesquecíveis da série, mas seria injusto não referir o contributo decisivo do desenhador Andrea Venturi, cujo traço elegante e realista, a fazer lembrar Neal Adams, serve de forma admirável as diferentes nuances da narrativa.
Alternando um realismo dinâmico, com um traço mais onírico e expressionista quando reproduz os desenhos de Johnny, Venturi revela-se perfeito, tanto em termos gráficos como narrativos, para uma história com esta importância. Tratando-se de uma história escrita por Sclavi, não podiam falar as referências cinematográficas, sendo a mais óbvia, até pela alcunha que a imprensa dá a Johnny, ao filme Freaks, de Todd Browning, um clássico de 1932 cuja cassete vídeo o escritor emprestou a Andrea Venturi para que este o visse com atenção antes de começar a desenhar a história.
Se o sucesso de Johnny Freak tornava a sua continuação uma opção óbvia em termos comerciais, a forma como a história acabava, não deixava propriamente grande espaço para continuações… Daí que o trabalho de Marcheselli e Sclavi não fosse nada óbvio, nem fácil, o que só vem confirmar a grande capacidade, narrativa e criativa, destes dois grandes profissionais da escrita. Publicada originalmente em 1997, no número 127 da revista mensal, O Coração de Johnny reúne a mesma equipa de Johnny Freak, com a excepção do desenhador, pois Andrea Venturi tinha passado a desenhar a série Tex. Para o substituir, Sclavi escolheu um dos seus desenhadores favoritos; Giampiero Casertano, cuja cumplicidade com Sclavi é bem evidente na carta do escritor que reproduzimos no fim deste volume e que, não por acaso, seria também escolhido para desenhar Doppo un Lungo Silenzio, o regresso do escritor aos argumentos da série em 2016, por ocasião do trigésimo aniversário de Dylan Dog.
Senhor de um traço mais sombrio e caricatural do que Venturi, Casertano tinha um duplo desafio pela frente, pois tinha de se aproximar graficamente do desenho de Venturi nas várias cenas de flash-back que enchem a história, sem abdicar do seu estilo próprio e inconfundível, marcado por um muito conseguido jogo de sombras. A verdade é que o artista milanês, que para os desenhos de Johnny vai beber inspiração em Picasso e Bosch, conseguiu superar com distinção os dois desafios, conseguindo que, pelo menos em termos gráficos, esta continuação esteja perfeitamente à altura do original.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Apresentação da colecção Bonelli

Aproveitando a comemoração em 2018 dos setenta anos da criação de Tex, a sua personagem mais emblemática, o Público e a Levoir dão a descobrir aos leitores portugueses o melhor da Bonelli, a mais popular editora italiana de BD. Exemplo máximo da riqueza e da diversidade dos fumetti (a BD italiana) a Bonelli não se resume a Tex e a Dylan Dog, os seus heróis mais famosos, já editados em Portugal. São esses e outros personagens, como Dampyr, Martin Mystère, Julia, Mister No, ou Dragonero, ou projectos como a série Le Storie, que chegam finalmente a Portugal numa colecção de 10 volumes, totalmente inéditos. A partir de 12 de Abril, as quintas-feiras são o dia dos fumetti da Bonelli.
OS FUMETTI DA EDITORA BONELLI

Depois da presença de Mater Morbi, uma história de Dylan Dog na série de 2017 das Novelas Gráficas, que provou (se preciso fosse) que uma produção dirigida ao grande público também pode ter qualidade literária, chegou a vez de o Público dar a descobrir aos leitores portugueses o melhor da editora Bonelli, através de algumas das seus personagens mais emblemáticas, em histórias assinadas por alguns dos maiores nomes da BD italiana e mundial.
Mas para que o leitor perceba do que falamos quando falamos dos fumetti (nome dado à BD em Itália) da Bonelli, convém traçar de forma breve a história da editora. Embora só tenha adoptado o nome de Sergio Bonelli em 1988, a história da Editora Bonelli começa bastante antes. Mais precisamente em 1940, quando Giovanni Luigi Bonelli, pai de Sergio Bonelli, cria com a mulher, Tea Bertasi, uma pequena editora de BD chamada Redazione Audace. No final da guerra, quando o casal se decide separar, Bonelli passa à mulher a sua parte da editora, que mudou de nome para Editrice Audace, mantendo-se como colaborador free-lancer. Embora, como revela o seu filho Sergio, Tea nunca tenha lido uma BD antes de tomar conta da editora, revelou-se uma sagaz mulher de negócios e a editora foi prosperando. Entre as novas publicações que foram surgindo, estava uma revistinha de formato horizontal (não por acaso, também conhecido por formato italiano), inspirada no formato das tiras de jornal americanas, protagonizada por um ranger do Texas chamado Tex Willer, cujo imediato sucesso surpreendeu até os próprios autores.
Mantendo-se durante décadas nas mãos dos seus criadores originais (Giovanni Luigi Bonelli só deixou de escrever os argumentos de Tex na década de 80 enquanto Galleppini – ou Galep, como costumava assinar – continuou como desenhador do Tex até à sua morte, em 1994) Tex soube cativar ao longo dos anos um número cada vez maior de leitores, traduzindo-se num caso de sucesso crescente, que atravessou gerações e países.
Mas a editora que em 1957 Tea passou para o seu filho Sergio (e que mudou de nome para Edizioni Araldo) não se limitava a publicar Tex, tal como Sergio Bonelli não se limitava ao seu trabalho de editor, escrevendo também argumentos sob o pseudónimo de Guido Nolitta. Uma carreira que Sergio sempre manteve a par com a de editor e que, tendo começado com a série Un ragazzo nel Far West, ficaria marcada pela criação de personagens ainda hoje em publicação, como Zagor (criado em 1961) e Mister No (criado em 1975 e publicado de forma ininterrupta até 2006).
Uma das razões do sucesso das edições da Bonelli (que se chamariam ainda Araldo e Cepim, antes de adoptar o nome de Sergio Bonelli Editore), para além da qualidade das histórias e dos desenhos, passa pelo abandono do formato de tiras e a criação de um formato próprio de 15 x 21 cm (o chamado formato Bonelli), que vinha de encontro às necessidades do mercado, permitindo fornecer aos leitores edições baratas com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD italiano. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Sergio Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, que abarcam os mais variados cambiantes da aventura, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de “literatura de gare desenhada” foi entusiástica. Potenciada pelo grande desenvolvimento dos caminhos-de-ferro em Itália, que criou um público heterogéneo que queria ter algo para ler durante as viagens, algumas revistas de Bonelli chegaram a atingir tiragens próximas do meio milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos, o que levou à impressionante média de 25 milhões de exemplares vendidos por ano, algo que só é possível graças a um público heterogéneo, que não se restringe aos adolescentes habituais e que engloba também quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco.
Para além das personagens clássicas, como Tex, Zagor e Mister No, a que se juntaram outras como Martin Mystère, Dylan Dog, Dampyr, Júlia e Magico Vento, a editora tem sabido renovar-se apostando em novos tipos de séries, de que Dragonero e Le Storie são exemplos.
Mesmo a morte de Sergio Bonelli em 2011 foi superada, graças à dinâmica introduzida pelo filho Davide e a sua equipa, que soube apostar em novos formatos - como os álbuns a cores em formato franco-belga do Tex - e incrementou de forma decisiva a presença das edições da Bonelli nas livrarias.
Por isso, mesmo no século XXI, em que a concorrência dos smartphones leva a que se veja cada vez menos gente a ler livros nos transportes públicos, é facílimo encontrar os títulos da Bonelli em qualquer quiosque de estação, o que justificava que, apesar da queda geral das vendas nos quiosques, as revistas da Bonelli ainda vendiam em 2014 mais de 500.000 exemplares dos títulos mensais regulares mensais, com Tex e Dylan Dog bem destacados, ao mesmo tempo que as edições para livraria permitiam valorizar o vastíssimo catálogo da editora junto de um público mais sofisticado.
Embora seja um fenómeno marcadamente italiano, as séries de Bonelli também têm procurado o sucesso internacional, estando presentes de forma mais ou menos regular nas livrarias e quiosques do Brasil, Sérvia, Croácia, Turquia, Espanha, França e Estados Unidos. Finalmente chegou a vez também de Portugal e agora, caberá ao leitor português decidir se chegou para ficar.

AS PERSONAGENS

TEX
Criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galeppini, Tex Willer é, depois do Lucky Luke de Morris, o mais antigo cowboy da BD europeia ainda em publicação. Ranger do Texas, Tex tem também uma profunda ligação aos índios americanos, tendo tido um filho, Kit com Lilith, a filha de um chefe Navajo e sendo ele um próprio chefe de uma tribo de Navajos, que lhe deram o nome índio de Águia da Noite. Só, ou acompanhado pelos seus amigos Kit Carson e Jack Tigre e pelo seu filho Kit, Tex impõe a lei no velho Oeste de forma implacável.

DAMPYR
Criado em 2000 por Mauro Boselli e Maurizio Colombo, Harlan Draka é um Dampyr, o fruto da união de um vampiro com uma mulher mortal, alguém que está entre dois mundos e cujo sangue pode destruir os vampiros. Acompanhado por Kurjak, um militar sérvio, e por Tesla, uma vampira que se quer libertar da influência do seu mestre, o vampiro Gorka, Harlan Draka e os seus companheiros percorrem o globo à caça de vampiros e outras criaturas sobrenaturais. Uma missão que os leva a sítios tão diferentes como a antiga Jugoslávia, África, o Japão e, no caso desta colecção, a Portugal.

DYLAN DOG
Criado por Tiziano Sclavi em 1986, Dylan Dog é um detective particular, sediado em Londres e especializado em casos paranormais e fantásticos, visualmente inspirado no actor Rupert Everett, que rapidamente se tornou um verdadeiro fenómeno de culto, cuja popularidade extravasou rapidamente o público tradicional da BD. Ex-alcoólico e vegetariano, com uma irremediável tendência para se apaixonar pelas suas clientes, Dylan Dog é um detective pouco convencional, com um ajudante ainda menos convencional, que é um sósia, a todos os níveis de Grouxo Marx, com um sentido de humor delirante, que  serve de alívio cómico ao dramatismo das histórias. 

JULIA
Criada em 1998 por Giancarlo Berardi, com a colaboração de Luca Vannini na parte gráfica, Júlia Kendall é uma criminóloga e professora universitária, cuja imagem é inspirada na actriz Audrey Hepburn, e que tem uma empregada doméstica com as feições de outra actriz famosa, Whoopi Goldberg. Colaborando com a polícia de Garden City – a cidade fictícia onde vive, cujas ruas têm nomes de flores – Júlia Kendall utiliza os seus vastos conhecimentos teóricos para investigar os mais diversos casos de homicídio.

LE STORIE
Inspirada pela mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, uma das experiências editoriais mais prestigiadas da Bonelli, Le Storie, ao contrário da maioria dos títulos da editora, não tem um personagem fixo. Esta série, criada em 2012, acolhe verdadeiras histórias sem heróis, tendo geralmente como pano de fundo um acontecimento histórico concreto. No caso de Sangue e Gelo, esse acontecimento é a retirada das tropas de Napoleão da Rússia, em 1812, em que o “General Inverno” acaba por não ser o único inimigo que as desgastadas tropas do Capitão Lozère têm de enfrentar.

MARTIN MYSTÈRE
Criado em 1982 por Alfredo Castelli, Martin Mystère, o “detective do impossível”, é um verdadeiro “Homem do Renascimento”. Antropólogo, arqueólogo, especialista em História da Arte, Línguas e Cibernética, investigador, apresentador de programas de TV, escritor, aventureiro e iniciado nos cultos esotéricos, Martin Mystère utiliza a sua vastíssima cultura para desvendar os mais variados enigmas. Sediado em Nova Iorque, Mystère enfrenta o perigo com o apoio do seu fiel Java, um corpulento Homem de Neanderthal. 

DRAGONERO
Criada em 2007 por Luca Enoch e Stefano Vietti como uma história única para a série Romanzi a Fumetti Bonelli, Dragonero acabaria por se converter numa revista mensal em 2013. O protagonista desta série que introduz a Heroic Fantasy no catálogo da Editora Bonelli, é Ian Arànil, explorador do Império Erondariano e herdeiro da nobre e antiga casa dos Varliedàrto, os caçadores de dragões. Acompanhado por Gmor Burpen, um ogre com um invulgar gosto pela leitura e pela ninfa Sera, Ian vive as mais incríveis aventuras num mundo de fantasia, cuja complexidade e coerência estão à altura da herança de autores como Robert E. Howard, Tolkien e George R. R. Martin. 

MISTER NO
Criado por Guido Nolitta (pseudónimo que Sergio Bonelli usava para assinar os argumentos que escrevia) em 1975, Mister No é um aventureiro radicado na selva amazónica. Nascido Jerry Drake, Mister no é um antigo piloto de guerra americano que depois da Guerra da Coreia, incapaz de se readaptar à vida civil, decide deixar os Estados Unidos e ir viver para Manaus, no Brasil, onde ganha a vida como guia na selva amazónica, o que, por vezes, o leva a envolver em situações que o obrigam a fazer apelo à sua experiência militar.

João Miguel Lameiras*

* com agradecimentos a Mário João Marques pelas informações sobre a série Dragonero.


SERGIO BONELLI: UM HOMEM, MIL AVENTURAS

Nascido em Milão em 1932 e falecido em Monza em 2011, Sergio Bonelli foi não só um dos maiores editores europeus de Banda Desenhada, responsável pela criação de um império editorial cuja actividade prossegue pela mão do seu filho Davide mas também um prolífico argumentista e um incansável viajante.
Filho de Giovanni Luigi Bonelli, o criador di Tex, Sergio esteve ligado à edição desde muito novo, trabalhando na editora Audace, que o seu pai fundou e que, em 1946 passou para a sua mãe, Tea, quando os dois se separaram. Em 1957 sucede à mãe no comando da editora, ao mesmo tempo que concilia a parte administrativa com a actividade de argumentista, com o pseudónimo de Guido Nolitta, nome que encontrou numa lista telefónica e que usou para não ser confundido com o pai. A sua estreia como escritor de BD deu-se em 1958 com a série Un Ragazzo nel Far West, mas o seu primeiro grande sucesso chegou em 1961, com a criação de Zagor, personagem que, confessa, resultou da tentativa de “fazer algo especial para um público especial, misturando as mais variadas referências. A minha aposta foi fazer uma espécie de Frankenstein, pegando um bocado do Tarzan, outro bocado do Super-Homem, etc… E a coisa funcionou!” 
Outra criação sua foi Mister No, um aventureiro na Amazónia, que sempre foi a sua personagem favorita, mas além disso escreveu também diversas histórias de Tex, embora a sua prioridade fosse o trabalho de editor, marcado pelo respeito pelos autores, a quem dava grande liberdade para desenvolver os seus próprios projectos, como aconteceu com Tiziano Sclavi em Dylan Dog e com Alfredo Castelli em Martin Mystère.
Mas o contributo de Sergio Bonelli para a BD italiana, não se fica só pelas revistas mensais que editou, que mostram que a BD de qualidade não tem que ser necessariamente luxuosa e cara. Também apostou em outros formatos, a começar pelos famosos “Texones”, as edições anuais do Tex em formato grande, assinadas por grandes nomes da BD Mundial, como Buzelli, Alfonso Font, Magnus, Jordi Bernet, Joe Kubert, ou Enrique Breccia. E promoveu também projectos de grande importância como a mítica série Un Huomo, una Aventtura, por onde passaram os maiores nomes da BD italiana, como Hugo Pratt, Milo Manara, Guido Crepax; Dino Battaglia, Sergio Toppi e Guido Buzzelli. Isto para além de ter dado a grandes desenhadores espanhóis como Victor De La Fuente, Esteban Maroto, José Ortiz, Alfonso Font, ou Manfred Sommer, a possibilidade de prosseguirem uma carreira na BD de acção e aventura, quando terminou o boom das revistas de BD em Espanha.

A COLECÇÃO

1 – Tex – A Lenda de Tex
12 de Abril
Argumento – Manfredi, Buratini, Rauch e Ruju
Desenhos – Biglia, Rubini, Bocci e Tisselli
A honra de abrir esta colecção cabe naturalmente a Tex, que completa 70 anos de existência em 2018. Este volume recolhe quatro histórias a cores publicadas originalmente na revista Color Tex: O Último da Lista, escrita por Gianfranco Manfredi e desenhada por Stefano Biglia; O Mescalero sem Rosto, com argumento de Jacopo Rauch e arte de Alessandro Bocci; Chupa-Cabras!, com texto de Moreno Burattini e grafismo de Michele Rubini; e Desafio na Velha Missão, em que Sergio Tisselli ilustra magnificamente a aguarela uma trama concebida por Pasquale Ruju.

2 –Dampyr – Aventuras em Portugal
19 de Abril
Argumento – Mauro Boselli e Giovanni Eccher
Desenhos – Alessandro Bocci e Maurizio Dotti
Este volume recolhe duas aventuras de Dampyr que têm como cenário o nosso país. Em O Esposo da Vampira, Mauro Boselli e Alessandro Bocci levam o caçador de vampiros Harlan Draka e o seu amigo Kurjak, até Trás-os-Montes, para investigar a lenda do Castelo de Monforte da Estrela, que dizem estar assombrado por uma vampira. Já em Tributo de Sangue história de Giovanni Eccher e Maurizio Dotti, publicada em Itália em 2012 no Dampyr 147, é o Porto, Vila Nova de Gaia e a zona do Douro que servem de cenário a uma história que envolve um fantasma com um traje mirandense e uma tentativa de assassinato na ponte D. Luís I.

3 – Dylan Dog – A Saga de Johnny Freak
26 de Abril
Argumento – Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
Desenhos – Andrea Venturi e Giampiero Casertano
Este volume que assinala o regresso de Dylan Dog à edição nacional, recolhe duas histórias escritas por Tiziano Sclavi, o criador de Dylan Dog, a partir de uma ideia do editor Mauro Marcheselli, protagonizadas por Johnny Freak, um jovem mudo e gravemente mutilado. Publicada originalmente em 1993 no nº 81 da revista Dylan Dog, Johnny Freak é considerada como uma das melhores histórias de sempre de Dylan Dog. Este volume recolhe também O Coração de Johnny, uma continuação da história anterior, em que Andrea Venturi cede o lugar a Giampiero Casertano nos desenhos.

4 – Júlia – O Eterno Repouso
3 de Maio
Argumento – Giancarlo Berardi
Desenhos – Sergio Toppi
Em O Eterno Repouso, Júlia Kendall, a criminóloga criada por Giancarlo Berardi investiga um macabro assassinato num lar de idosos, onde um dos utentes aparece literalmente cortado em pedaços. No seu único trabalho para a série, o mestre Sergio Toppi dá mais uma demonstração de todo o seu virtuosismo  ao serviço de uma história com sequencias, como a do pesadelo, pensadas para tirar o maior partido do seu estilo único.

5 – Le Storie – Sangue e Gelo
10 de Maio
Argumento – Tito Faraci
Desenhos – Pascuale Frisenda
Ambientada em finais de 1812, na Rússia do Czar Alexandre I, Sangue e Gelo tem como ponto de partida a retirada do exército napoleónico, desgastado pela estratégia russa da “terra queimada”, deixando atrás de si centenas de milhar de homens à fome, que lutam pela sua mera sobrevivência num ambiente de gelo e horror. Contrários à ideia de se renderem a um destino aparentemente inelutável, os homens do capitão Lozère partem em busca de um pouco de pão e de um abrigo quente, na esperança de uma improvável salvação, acabando por ir ao encontro de um destino imprevisto.

6 – Tex – A pista dos Fora-da-Lei
17 de Maio
Argumento – Mauro Boselli e Claudio Nizzi
Desenhos – Carlos Gomez e Andrea Venturi
Este segundo volume protagonizado por Tex recolhe duas histórias longas a preto e branco. Na primeira, A Pista dos Fora-da-lei, escrita por Mauro Boselli, com desenhos espectaculares do argentino Carlos Gomez, Tex, Carson e Jack Tigre seguem a pista de um bando de assaltantes de bancos capitaneado por Ozzie Johnson. Na segunda história, O Assassino de Índios, um misterioso assassino aterroriza uma tribo de apaches Jicarilla, ao assassinar e escalpar mais de vinte indígenas. Uma ameaça que só Tex e Kit Carson serão capazes de deter. Publicada originalmente no Almanaque Tex de 1996, esta história escrita por Claudio Nizzi, assinala a estreia de Andrea Venturi (o desenhador de Johnny Freak)  na série Tex.

7 –  Martin Mystere – O Destino da Atlântida
24 de Maio
Argumento – Alfredo Castelli
Desenhos – Cardinale, Orlandi e Toppi
Na primeira das histórias deste volume, O Destino da Atlântida cuja acção se inicia nos Açores, Martin Mystère tem de se aliar ao seu inimigo Orloff para trazer de volta à nossa era o satélite militar que provocou a destruição da Atlântida e de Mu, 10 mil  anos antes. O volume termina com Questões de Família, uma história ilustrada por Sergio Toppi, em que a descoberta de uma gravação vídeo traz revelações sobre a presença de extraterrestres no nosso planeta.

8 – Dragonero – A Primeira Missão
31 de Maio
Argumento – Luca Enoch e Stefano Vietti
Desenhos – Manuel Morrone e Cristiano Cucina
Publicada originalmente em 2014, no Speciale Dragonero nº 1, A primeira Missão recorda um episódio do passado de Ian Arànil, o Dragonero, quando este decidiu abandonar o exército do Império e incorporar o corpo dos exploradores. Ian procura o seu amigo, o ogre Gmor, entretanto retirado num mosteiro, para o acompanhar, mas em breve, os dois terão de abandonar o corpo de exploradores e partir em auxílio de um grupo de monges que se encontra preso no interior de uma biblioteca antiga.

9 – Mister No – OVNIs na Amazónia
7 de Junho
Argumento – Tiziano Sclavi e Guido Nolitta
Desenhos – Fábio Civitelli e Roberto Diso 
Nesta edição, com uma capa inédita de Fabio Civitelli realizada em exclusivo para esta edição, a queda de um satélite russo em plena selva amazónica vai provocar a destruição do avião de Mister No e a hostilidade dos indígenas, que vêm no estranho fenómeno um sinal dos Deuses. Para além dessa história de Tiziano Sclavi (o criador de Dylan Dog), ilustrada por Civitelli, este volume traz também Garimpeiros, uma história curta escrita pelo próprio Sergio Bonelli (com o pseudónimo Guido Nolitta)  e desenhada por Roberto Diso.

10 – Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
14 de Junho
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção, num volume a cores, que recolhe três histórias curtas. Em Os Inquilinos Arcanos, história em três partes de Sclavi e Corrado Roi, publicada originalmente na revista Comic Art, Dylan Dog investiga os estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres.  
Em A Grande Nevada, o argentino Enrique Breccia ilustra uma bela homenagem ao Eternauta, de Oesterheld, escrita por Luigi Mignaco. Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara, a irmã do mestre do erotismo, Milo Manara, ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 10/04/2018

domingo, 24 de dezembro de 2017

FELIZ NATAL!

Mantendo a tradição, aqui vai o meu habitual Post de Natal, como sempre usando uma referência da BD. Desta vez, quem vos deseja as Boas Festas, é Dylan Dog, o popular personagem criado por Tiziano Sclavi que este ano se estreou finalmente em edição portuguesa, na colecção Novela Gráfica.
E, como este Blog não dispensa a informação útil, deixo-vos com um instrutivo diagrama, em que Dylan e Groucho explicam como se pode usar as decorações natalícias para combater um apocalipse zombie.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 7 - Dylan Dog: Mater Morbi

Tal como aconteceu com Ronin, também neste Mater Morbi, que assinala a estreia de Dylan Dog em edição nacional, tive o privilégio de fazer a tradução e o prefácio do volume, para além da coordenação editorial, o que teve um sabor especial, dado Dylan Dog ser uma das minhas séries de BD favoritas, como é fácil de perceber, pelos vários posts que já lhe dediquei. Por isso, deixo-vos com o texto de introdução que escrevi para o volume, em vez do habitual texto do Público, que pode à mesma ser lido, bastando para tal carregar na imagem.

COM MATER MORBI,
DYLAN DOG CHEGA FINALMENTE A PORTUGAL

Novela Gráfica III – Vol. 7 
Dylan Dog: Mater Morbi
Argumento – Roberto Recchioni
Desenhos – Massimo Carnevale
Sexta, 11 de Agosto
Por + 9,99€

NOSSA SENHORA DO SOFRIMENTO

A história que vão poder ler a seguir é muito importante por duas razões. Primeiro, por assinalar a estreia em edição nacional de Dylan Dog, o popular detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli em 1986 e que, mais de trinta anos depois da sua estreia, se mantém como um verdadeiro fenómeno de culto e uma das mais importantes e populares séries dos fumetti (nome dado à banda desenhada em Itália). Para além da importância histórica desta edição, Mater Morbi é também uma das melhores histórias de Dylan Dog da última década (o que, tendo em conta que se publicam perto de uma vintena de histórias do investigador do pesadelo todos os anos, não é coisa pouca…) e a mais publicada a nível internacional.
Mas antes de nos determos em Mater Morbi, convém traçar um quadro geral dos fumetti da Bonelli, de que a série Dylan Dog é um dos marcos. E o segredo do sucesso das publicações de Sergio Bonelli, alicerçado na popularidade do cowboy Tex, criado pelo seu pai, Gian Luigi Bonelli e pelo desenhador Aurelio Galleppini, consistiu precisamente em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com perto de uma centena de páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada na Itália nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli propôs aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, dedicadas aos mais diversos géneros, do Western, ao policial, passando pela ficção científica e pelo terror, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliados a um leque necessariamente bem mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos. Durante um curto período na década de 90, a série Dylan Dog chegou mesmo a ultrapassar o meio milhão de exemplares mensais, superando as vendas de Tex e de Topolino (a revista do rato Mickey) e afirmando-se como a BD mais vendida em Itália, algo só possível graças a um público fiel e heterogéneo. Um público, que não se restringe aos leitores habituais de BD e que engloba também muitas mulheres, fãs do cinema de terror, que Sclavi citava abundantemente, quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco, fã assumido de Dylan Dog.
Neste tipo de estrutura de produção, o papel do argumentista é bem mais importante do que o do desenhador, que vai variando, com vários desenhadores a trabalharem em simultâneo na série, de maneira a assegurarem a produção de quase cem páginas por mês, que podem levar perto de um ano a desenhar. Por isso, embora ele diga que se identifica mais com os monstros, Tiziano Sclavi, que durante a primeira década da série assegurou a escrita da maioria dos argumentos de Dylan Dog, supervisionando os restantes, tal como Gustave Flaubert, que dizia que a Madame Bovary era ele, é Dylan Dog. Daí que, com o gradual afastamento de Sclavi da escrita da série, motivado pela dificuldade cada vez maior em escrever novas aventuras para o (anti)herói que criou, a mesma tenha decaído em popularidade (e qualidade).
Coube ao editor Mauro Marcheselli a espinhosa tarefa de encontrar novos argumentistas capazes de preencher o vazio deixado por Sclavi. Um deles foi precisamente Roberto Reccchioni. Argumentista, desenhador, jornalista e escritor, Recchioni trabalhou para as principais editoras italianas, da Disney à Bdb Presse, onde se estreou, passando pela Panini, Eura Editoriale, Comic Art, Rizzoli, Magic Press e Bonelli, onde, para além da série Dylan Dog, escreveu argumentos para Tex, Gli Orfani e Le Storie. Antes de Mater Morbi, Recchioni tinha escrito apenas duas histórias de Dylan Dog: uma longa, ilustrada por Bruno Brindisi para a série mensal, e uma curta a cores, que Massimo Carnevale ilustrou para o número inaugural da nova revista Dylan Dog Color Fest.
Foi Marcheselli que era leitor assíduo do blogue de Recchioni onde ele descrevia os seus frequentes problemas de saúde, que o levaram por diversas vezes a uma cama de hospital, que se lembrou que ele, que estava sempre doente, seria a pessoa ideal para escrever uma aventura de Dylan Dog sobre doenças. Um tema que ia de encontro ao que o próprio Recchioni queria fazer na série pois, como refere numa entrevista: “creio que para se fazer algo de relevante com o personagem de Sclavi, é necessário que alguém sofra. Pode ser o argumentista, o desenhador, ou o personagem, mas pelo menos um dos três tem de passar realmente mal, expor-se, arriscar-se, sofrer. E essa história, que acabaria por ser Mater Morbi, proporcionava-me a oportunidade de passar realmente mal.”
Para dar vida aos temores mais íntimos de Recchioni, que usou a figura fantástica de Mater Morbi para tratar de forma metafórica temas bem reais como a solidão dos doentes e o encarniçamento terapêutico, estava o desenhador romano Massimo Carnevale que, para além da história curta para o Dylan Dog Color Fest #1, já tinha trabalhado com o argumentista em John Doe e Detective Dante, duas séries co-criadas por Recchioni. Apesar de uma agenda sobrecarregada pelas suas colaborações para o mercado americano, para onde realizou ilustrações para as capas de séries como Y the Last Man, Northlanders e Conan, the Barbarian, Carnevale não resistiu ao desafio de acompanhar o escritor nesta dura viagem ao coração da dor, onde reina Mater Morbi, a divindade sombria que se alimenta do sofrimento dos doentes, realizando um trabalho gráfico excepcional.
Resultado de um processo de colaboração quase orgânico entre o desenhador e o argumentista, apenas perturbado por divergências quanto à aparência de Mater Morbi, que Carnevale via mais como uma mistura entre “uma criatura de Giger e a Rainha dos Borg”, Mater Morbi veria a luz do dia em Dezembro de 2009, no #280 da série mensal Dylan Dog, com sucesso imediato.

O impacto de Mater Morbi não se restringiu ao mundo dos comics e a história esteve na origem de uma acesa polémica na comunicação social, quando a subsecretária da Saúde da altura, Eugenia Rocella, que não tinha lido o livro, veio acusar Mater Morbi de ser uma “ode à eutanásia e ao culto do super-herói”, acabando mais tarde por se retractar na primeira página do Corriere della Sera, admitindo que a história tocava temas de discussão muito importantes, sobretudo em termos da relação médico/paciente. Depois disso, Mater Morbi teve direito a uma edição de luxo da editora Bao (que serviu de base a esta edição da Levoir) e foi publicada em diversos países, incluindo nos E.U.A., onde arrebatou o Ghastly Award para Melhor Novela Gráfica de Terror publicada em 2016.
Mas para Recchioni, que é actualmente o editor responsável pela renovação da série Dylan Dog, o mais importante foi a reacção de Tiziano Sclavi, que disse que a história era verdadeiramente assustadora e quis conhecê-lo. Como Recchioni recorda no livro Dylan Dog Diary, publicado por ocasião do trigésimo aniversário da série: “A coisa que me deixou mais orgulhoso foi que, depois de ter lido a história, Tiziano Sclavi quis conhecer-me e deu-me os parabéns.
Mater Morbi, para mim, mudou tudo. E, de alguma maneira, tendo em conta o cargo que ocupo actualmente, mudou muita coisa também para Dylan Dog.”

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Apresentação da colecção Novela Gráfica III

AS DIFUSAS FRONTEIRAS DA NOVELA GRÁFICA

Na Banda Desenhada como no resto da vida, as categorias são úteis, pois permitem trazer uma certa ordem e arrumação a uma realidade complexa e mutável. Tal como as categorias taxonómicas de Lineu em relação à biologia, também na BD é possível delimitar grandes categorias em que se consegue, com maior ou menor dificuldade, encaixar a maioria das obras produzidas. Categorias, ou géneros, como as histórias autobiográficas, os comics de super-heróis, as séries de aventura, o mangá japonês (com todas as suas subcategorias), as adaptações literárias, a BD de temática histórica, a reportagem em BD, os relatos intimistas, entre muitas outras.
Mas se há uma coisa que esta terceira série da colecção Novela Gráfica vem demonstrar, é que estas fronteiras entre géneros são relativamente difusas e bastante permeáveis apesar de, à primeira vista, a maioria destes títulos se encaixar facilmente numa determinada categoria, com destaque para as narrativas autobiográficas, género onde é possível incluir Os Ignorantes, de Etienne Davodeau; Batman, Uma História Verdadeira, de Dini e Risso; K.O em Telavive, de Asaf Hanuka; Histórias do Bairro, de Beltran e Segui e Tempos Amargos, de Étienne Schréder.
Mas uma observação mais atenta permite perceber que não é exactamente assim. Veja-se o caso do título que abre esta terceira série: o Ronin de Frank Miller. Obra em que se misturam as influências do chambara manga, as séries japonesas de samurais, da BD europeia de ficção científica, popularizada por Moebius e pelos seus colegas da revista Metal Hurlant, criada por um autor que fez carreira no universo dos super-heróis, Ronin, para além de ser um verdadeiro tour de force em termos narrativos e visuais, é um título percursor em termos do próprio conceito de novela gráfica, e do reconhecimento dos direitos dos autores por parte das grandes editoras.
Também Traço de Giz, de Miguelanxo Prado, que regressa ao mercado português, quase 25 anos depois, numa luxuosa edição que faz inteira justiça à importância do livro, é um trabalho dificilmente classificável dentro da obra de Prado, marcada por uma crítica feroz (divertida, ou não) da realidade quotidiana, mas que aqui nos traz uma história ambígua de desencontros amorosos, marcada pelas referências ao realismo mágico sul-americano e que deixa ao leitor a responsabilidade de construir a sua versão do que terá realmente acontecido.
Outro exemplo de que as diferentes categorias não são necessariamente exclusivas é Batman, Uma História Verdadeira, de Paul Dini e Eduardo Risso, que é assumidamente uma história autobiográfica, que recorre ao universo dos super-heróis e em espacial ao do Batman, a que Dini está ligado como argumentista de BD e criador da série de animação Batman Adventures, para narrar de modo inovador, a forma como o assalto de que foi alvo e que lhe deixou marcas (físicas e mentais) profundas, transformou a vida de Dini.
Também Mater Morbi de Recchioni e Carnevale é mais do que uma simples história de terror protagonizada por Dylan Dog, o carismático detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi, que é um dos mais populares heróis dos fumetti em geral e da editora Bonelli em particular. Inspirada pelos problemas de saúde que o seu escritor enfrentou durante a adolescência, Mater Morbi é uma reflexão sombria sobre o sofrimento e a doença que, aquando da sua publicação original em Itália, motivou um aceso debate público sobre a eutanásia, que envolveu a própria Ministra da Saúde.
Já em Os Trilhos do Acaso, obra recente do nosso bem conhecido Paco Roca, que por razões editoriais, foi dividida em dois volumes, não é inteiramente claro se estamos perante um relato biográfico de um antigo combatente, que o autor recolhe para transmitir aos leitores através da BD, com o fez Art Spiegelman em Maus, ou Emmanuel Guibert em La Guerre d’Alan, ou se se trata de uma bem documentada história de ficção, inspirada em factos reais.
Também Tomeu Pinya, em Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, vai alterando o seu registo gráfico principal, ao longo desta bela história sobre a força das histórias, seja para dar mais realismo às brincadeiras das crianças, ou mais intensidade aos pesadelos dos adultos, seja para prestar uma belíssima homenagem a Sérgio Toppi, o criador de Sharaz-De, um dos mais belos títulos da primeira série das Novelas Gráficas.
Por último, O Idiota, de André Diniz, obra que estreia em exclusivo nesta colecção ainda antes de ser publicada no Brasil, enquadra-se num género com grande tradição na Novela Gráfica: a adaptação à BD de textos literários. Só que Diniz não tem medo em pegar nas palavras de um clássico da literatura mundial, como Dostoyevsky, transformando-as em imagens, conseguindo concretizar assim o desafio de reinventar este clássico da literatura, numa versão quase sem palavras, em que a força das imagens se revela suficiente para contar a história complexa e profunda idealizada pelo grande escritor russo.

REGRESSOS E ESTREIAS


A preocupação em dar a descobrir aos leitores portugueses obras recentes de novos autores, tem sido uma característica fundamental da colecção Novela Gráfica, mas isso não pode deixar esquecer que há toda uma série de clássicos que permanecem escandalosamente inéditos, ou indisponíveis há décadas no nosso país. É nesse equilíbrio ente clássicos e contemporâneos, autores consagrados e jovens promessas que têm sido construídas as colecções que o Público e a Levoir dedicam à Novela Gráfica.
É o que acontece mais uma vez nesta Série III, onde regressam criadores como Miguelanxo Prado, Eduardo Risso, ou Paco Roca, já presentes na Série II, a par de outros nomes, que sendo presenças regulares nas livrarias e até em edições da Levoir, se estreiam finalmente na colecção Novela Gráfica. É o caso do americano Frank Miller, criador de Sin City e 300, cujo trabalho incontornável com super-heróis, como o Batman, ou o Demolidor, foi recuperado pela Levoir, que abre esta colecção com o seu primeiro grande trabalho pessoal, Ronin, editado finalmente em Portugal, trinta anos após a principal edição original americana em livro.
Também o premiado escritor inglês Neil Gaiman tem o seu trabalho no campo da BD bastante divulgado em Portugal, através de editoras como a Devir, Vitamina BD e Levoir, que lançou no ano passado, numa colecção com o jornal Público, a sua obra-prima, a série Sandman e que se estreia agora na colecção Novela Gráfica com Livros de Magia, um clássico da linha Vertigo, passado no mesmo universo de Sandman e magnificamente ilustrado por John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson.
Embora não tão profusamente editados em Portugal, autores como Etienne Davodeau, Paul Dini, Max, Etienne Schréder e André Diniz não são exactamente desconhecidos para os leitores mais atentos. Davodeau e Max estiveram presentes, por mais do que uma vez, no Salão Internacional de BD do Porto e viram trabalhos seus editados no nosso país, em livro, ou na revista Quadrado, pela Associação responsável pela organização do referido Salão. Paul Dini é o criador de Harley Quinn, a carismática namorada do Joker e esteve em destaque na colecção Coração das Trevas DC dedicada os Vilões da editora de Batman e Super-Homem. Schréder, além de ser um dos desenhadores da série Blake e Mortimer, um dos maiores clássicos da BD franco-belga, estreou-se na Banda Desenhada com O Segredo de Coimbra, obra que já teve direito a três edições em português, a última das quais lançada em 2016. Finalmente, o brasileiro André Diniz também tem diversos trabalhos seus editados em Portugal, com destaque para O Morro da Favela, mas neste caso, vê O Idiota, a adaptação que fez do romance de Dostoyevsky sair em Portugal uns bons meses antes de ser publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
Quanto às estreias em português, temos o israelita Asaf Hanuka, com K.O. em Telavive, uma recolha de cartoons autobiográficos, bem reveladores do sentido de humor, talento gráfico e sentido narrativo do excelente autor israelita. Já Mater Morbi assinala uma dupla estreia no nosso país: a de Dylan Dog, um dos mais populares personagens dos fumetti, a BD italiana, e dos seus autores, o prolífico argumentista Roberto Recchioni, actual responsável editorial da série Dylan Dog, e o desenhador Massimo Carnevale que, para além da sua colaboração como ilustrador e desenhador para as maiores editoras italianas, assinou diversas capas das séries Y, the Last Man e Northlanders para a DC/Vertigo e das séries Orchid e Conan, para a Dark Horse.
Outra estreia é a de Bastien Vivès, jovem prodígio da BD francesa, tão talentoso como produtivo e versátil (aos 27 anos já tinha 11 livros publicados) que entra nesta colecção com Polina, uma novela gráfica de 2011 sobre uma jovem bailarina, recentemente adaptada ao cinema por Valérie Muller, num filme com Juliette Binoche, que chegará aos ecrãs nacionais ao mesmo tempo que a novela gráfica que lhe deu origem.
Os maiorquinos Gabi Beltran e Bartolomé Segui, dois autores veteranos com diversos trabalhos editados no mercado europeu e o jovem Tomeu Pinya, que conquistou o público e a crítica com este O Bar do Barbudo, são mais dois exemplos de autores que se estreiam nesta colecção, mas neste caso, o seu trabalho será analisado mais em pormenor no destaque seguinte.

AS VÁRIAS FACES DA NOVELA GRÁFICA ESPANHOLA

Numa colecção marcada pela diversidade geográfica e que inclui autores israelitas, brasileiros, argentinos, ingleses, belgas, franceses, italianos e americanos, a nossa vizinha Espanha é, tal como já sucedeu na série II, a nação mais representada, com mais de um terço dos quinze volumes publicados nesta terceira série, a serem oriundos do país de “nuestros hermanos”.
Entre os autores desses volumes, naturais das mais diversas regiões de Espanha, estão nomes bem conhecidos dos leitores portugueses, como o galego Miguelanxo Prado, cujo último trabalho, Presas Fáceis, publicado na colecção anterior, arrecadou o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, no último AmadoraBD, que está de volta com o seu título mais premiado, Traço de Giz; o valenciano Paco Roca, que depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, regressa com Os Trilhos do Acaso, uma história de grande fôlego (tão grande que teve de ser dividida por dois volumes) sobre um grupo de combatentes republicanos espanhóis, que vão participar activamente na libertação de Paris pelas tropas Aliadas, nos finais da Segunda Guerra Mundial; e o catalão Francesc Capdevila Gisbert, mais conhecido por Max que, com Vapor, continua a explorar o mundo surrealista que criou em Bardin, onde se cruzam as influências do cineasta Luis Buñuel, da BD e da animação dos anos 30 e da pintura de Hieronimus Bosch.
Mas se os autores atrás referidos são nomes incontornáveis do panorama actual da Novela Gráfica espanhola, cuja obra tem sido mais (no caso de Prado e Roca) ou menos (no que se refere a Max) divulgada em Portugal, já Bartolomé Segui, Gabi Beltran e Tomeu Pinya, são autores espanhóis cujo trabalho chega finalmente a Portugal graças a esta colecção. Beltran é um autor e ilustrador natural de Palma de Maiorca, que, em Histórias do Bairro se associa ao desenhador Bartolomé Segui (também ela maiorquino), para narrar, com grande sensibilidade, mas sem tabus, uma adolescência de marginalidade passada no Bairro Chinês de Palma de Maiorca, mas que se poderia passar em Barcelona, ou Lisboa. Finalmente, Tomeu Pinya, autor nascido em Palma de Maiorca, mas residente na Catalunha, tem uma estreia fulgurante em Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, com um relato que lhe valeu o Prémio Revelação no Salon del Comic de Barcelona de 2010, que se pode definir como uma matrioska de histórias, sobre Rafa, o proprietário de um bar numa aldeia qualquer de uma ilha perdida no Mediterrâneo e sobre os seus clientes e as histórias que eles têm para partilhar.
Através das obras de um autor galego, um valenciano, um catalão (radicado em Palma de Maiorca) e três maiorquinos, é possível ver que a Novela Gráfica espanhola não se restringe à Catalunha, ou ao País Basco, onde estão instaladas as principais editoras de BD do país vizinho, mas que passa também por locais como a Galiza, ou Palma de Maiorca, cuja dinâmica cultural e incentivo à divulgação da produção local se reflecte também no conteúdo desta série III das Novelas Gráficas.

A COLECÇÃO

1 –Ronin 
30 de Junho
Argumento e Desenhos – Frank Miller
Um samurai desonrado do século XIII renasce numa Nova Iorque futurística e distópica, para tentar a sua última hipótese de redenção: encontrar, confrontar e derrotar o demónio Agat, responsável pela morte do seu mestre. Mas na Manhattan violenta do século XXI as coisas não são bem o que parecem e Ronin terá de se unir a Billy Chalas, um jovem com poderes telecinéticos, para conseguir destruir Agat.
Criador de Sin City, 300, Batman: O regresso do Cavaleiro das Trevas, Demolidor: Renascido e Elektra Assassina, entre muitos outros títulos que revolucionaram o mundo da BD, o escritor, desenhador e cineasta Frank Miller é uma lenda viva dos comics americanos e Ronin foi uma obra pioneira e uma das primeiras novelas gráficas lançadas no mercado americano.

2 – Traço de Giz
07 de Julho
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Um marinheiro chega a uma pequena ilha perdida no oceano, onde apenas existem dois habitantes, um farol que não funciona, uma pequena estalagem e alguns visitantes ocasionais. Uma narrativa aparentemente simples, com um toque de realismo mágico, sobre desencontros, incompreensões, sonho ou realidade.
Miguelanxo Prado é um dos mais premiados autores espanhóis. Traço de Giz foi um dos seus maiores sucessos críticos e comerciais e a sua obra mais premiada, entre os quais, com o prémio de Melhor Álbum no Salão do Comic de Barcelona e o de Melhor Álbum Estrangeiro em Angoulême. Esta nova edição inclui uma extensa galeria de extras e páginas de BD inéditas.

3 – Os Ignorantes
14 de Julho
Argumento e Desenhos – Étienne Davodeau
Davodeau é autor de banda desenhada e não sabe grande coisa de vinhos. Richard Leroy é viticultor e quase nunca leu BD. Mas ambos têm boa vontade e muita curiosidade. Porque é que uma pessoa decide dedicar-se a escrever e desenhar livros de BD, ou a cultivar vinho? Durante mais de um ano, irão ambos descobrir as respostas a essas e outras perguntas, abrindo muitas garrafas de vinho, e lendo imensos livros. Étienne trabalhou nas vinhas, e Richard mergulhou no universo da narrativa sequencial. O resultado é uma história de amizade e iniciações cruzadas e um momento único de felicidade.
Étienne Davodeau é um dos maiores autores da BD francesa actual, conhecido pelas suas obras firmemente ancoradas no real, tendo vencido por duas vezes o prémio France Info de BD de Reportagem.

4 –Batman: Uma História Verdadeira
21 de Julho
Argumento – Paul Dini 
Desenhos – Eduardo Risso
Batman vai ajudar um homem desencorajado a recuperar de um ataque brutal que o deixou incapaz de enfrentar o mundo.
Nos anos 90, o premiado escritor Paul Dini estava no auge da sua carreira com a popular série Batman: The Animated Series. Uma noite, a caminho de casa, foi assaltado e fortemente espancado, ficando às portas da morte. A recuperação foi lenta e complicada, e Dini imaginou que o Batman sempre esteve ao seu lado, mesmos nos momentos mais difíceis.
Uma história de Batman como nenhuma outra, ilustrada com a incrível arte do talentoso desenhador argentino Eduardo Risso (Batman Noir, Parque Chas)

5 – Polina
28 de Julho
Argumento e Desenho – Bastien Vivés
A história de uma jovem bailarina e a sua relação com o seu professor, contada com grande elegância e simplicidade por Bastien Vivés, um jovem prodígio da BD franco-belga, co-criador da popular série Last Man.
Polina é uma obra-prima de grande leveza e graciosidade e ainda assim densa em conteúdo, considerada como a melhor novela gráfica de Bastien Vivés, tendo vendido mais de 40.000 cópias em França e merecido uma adaptação ao cinema, que estreia em Portugal em Julho.

6 – K.O. em Telavive
04 de Agosto
Argumento e Desenho – Asaf Hanuka
Como é que se pode ser israelita? Como é que se pode viver num país sempre em guerra?
Tel Aviv é uma cidade vibrante, cheia de prazeres, e com uma das cenas artísticas mais vibrantes do mundo, um Sin City dentro de Jerusalém.
Invocando a sua condição de artista, pai, marido ou cidadão israelita, Asaf Hanuka retrata o dia-a-dia do seu país, mas não só. Apresenta-nos todos os ícones dos nossos dias, desde o cubo Rubik aos Transformers, do Iphone ao Facebook de uma forma que deixa os leitores… K.O.

7 – Dylan Dog: Mater Morbi
11 de Agosto
Argumento – Robertto Recchioni 
Desenho – Massimo Carnevale
Quando uma doença tão estranha como repentina atinge Dylan Dog, parece que nada será capaz de o curar. A sua única hipótese de salvação consiste em confrontar Mater Morbi, a entidade que se alimenta do seu sofrimento e acompanhá-la numa viagem ao coração das trevas e da dor.
Série de culto e verdadeiro fenómeno cultural, a série Dylan Dog, criada por Tiziano Sclavi em 1986 é um bom exemplo dos fumetti italianos. Actual responsável editorial pela série, Roberto Recchioni assina em Mater Morbi uma das melhores histórias de Dylan Dog das últimas décadas, muito graças ao notável trabalho gráfico de Massimo Carnevale.

8 –Vapor
18 de Agosto
Argumento e Desenhos – Max
Vapor, um eremita exilado num estranho deserto bastante frequentado, enfrenta a tentação sobre as mais diversas formas, numa história surrealista, entre o minimalismo e o género fantástico, marcada por um humor delirante.
Criador de Peter Punk, editor da revista Nosotros Somos los Mortos, um dos nomes maiores da revista El Vibora e colaborador frequente da revista New Yorker, o catalão Max, na sua fúria contra o mundo e no seu carinho pela arte dos comics, criou um heroísmo perfeito; tão absurdo que dói no nervo exacto onde a arte se deve sentir.

09 –  Os Livros de Magia
25 de Agosto
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos – John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson
Neil Gaiman, o premiado escritor que é presença habitual na lista de best-sellers do New York Times e criador do Sandman, traz-nos um conto fascinante sobre os perigos e oportunidades da juventude e suas infinitas possibilidades. Ilustrado por quatro dos artistas mais consagrados de língua inglesa, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson, Os Livros da Magia recolhe os quatro números da minisérie original publicada pela Vertigo, que introduziu o personagem de Timothy Hunter e preparou o palco para a sua revista mensal.

10 –  Histórias do Bairro
01 de Setembro
Argumento – Gabi Beltran 
Desenhos – Bartolomé Segui
Palma de Maiorca, anos 80. Cada esquina do bairro chinês tem uma história que contar.
Gabi, o ainda adolescente protagonista, anda pelas ruas do seu pequeno mundo com os seus amigos Benjamim, Arnaud, Falen e Ramos, tratando de entendê-lo. Assim experimenta drogas, descobre o sexo, refugia-se na literatura e no desenho. Mais unido aos amigos do que à família, descobre que as diferenças sociais são também fronteiras, e que estas por vezes são inultrapassáveis.
Um relato autobiográfico de Gabi Beltran a que Bartolomé Segui dá vida com os seus desenhos.

11 – Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Etienne Schréder
História autobiográfica sobre os problemas do autor com o alcoolismo, que o levaram a abandonar tudo e a viver como sem-abrigo. O alcoolismo é uma doença que afecta milhares de pessoas. Difícil de tratar, é um assunto cuja evocação roça o tabú. Porque há uma realidade que não se pode romantizar, Schréder oferece a experiência da sua jornada para o fim da vida.
Professor de BD e director da Maison Autrique, Étienne Schréder é um dos actuais desenhadores da série Blake & Mortimer e autor do álbum O Segredo de Coimbra.

12 – Os Trilhos do Acaso Vol 1 
15 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Através das recordações de Miguel Ruiz, republicano espanhol exilado em França, Paco Roca reconstrói a história de La Nueve, a companhia sob comando do Capitão Dronne integrada na segunda divisão do General Leclerc, e formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, contada com o talento e a eficácia habituais em Paco Roca (O Inverno do Desenhador, A Casa).

13 – Os Trilhos do Acaso Vol 1I
22 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
A história de Miguel Ruiz e dos outros membros da companhia La Nueve prossegue neste segundo volume, centrado no regresso da companhia à Europa e na sua participação activa na libertação de Paris pelas tropas aliadas.
Um dos mais recentes e premiados trabalhos de Paco Roca, galardoado com o Prémio Zona Cómic, Melhor Obra Nacional del Salón del Cómic de Barcelona e o Romics do Salão de Comic de Roma, em 2014

14 – Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo
 29 de Setembro
Argumento e Desenho – Tomeu Pynia
A insaciável curiosidade de um empregado de bar é a desculpa perfeita para nos introduzir numa série de histórias que tecem um tapete de relações humanas.
O Bar do Barbudo guia-nos através de uma aldeia e do seu bar, de que é o centro e a bandeira. Uma história de histórias salpicada de Mediterrâneo. Uma história de carácter intimista, ritmo calmo e com espaço para reflexão, nostalgia e humor.
Obra de afirmação do talento do catalão Tomeu Pynia, galardoada com o Prémio Popular Autor Revelação no Salón del Cómic de Barcelona, em 2010.

15 – O Idiota
06 de Outubro
Argumento – Dostoevsky e André Diniz
Desenhos – André Diniz
O Idiota é uma inesperada adaptação em BD do romance do escritor russo Fiódor Dostoyevsky, contada por imagens, usando a linguagem visual exclusiva da BD, num registo em que o texto está praticamente ausente. Um verdadeiro tour-de-force narrativo, assinado por um dos mais premiados autores brasileiros contemporâneos. André Diniz é argumentista e ilustrador de BD, estando a residir actualmente em Portugal, país onde O Idiota será lançado em rigorosa estreia mundial.
Textos publicados originalmente no destacável distribuído com o jornal Público de 29/06/2017