Mostrar mensagens com a etiqueta Tiziano Sclavi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tiziano Sclavi. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dylan Dog regressa a Portugal em dose dupla


Depois do lançamento no Coimbra BD, na presença do autor Fábio Celoni, chegou finalmente esta quarta-feira às bancas O Velho que Lê, primeiro volume de uma Colecção regular dedicada a Dylan Dog, o herói de culto criado por Tiziano Sclavi. Infelizmente, ao contrário do que estava previsto, na quarta-feira anterior já tinha sido distribuído Até que a Morte vos Separe, o segundo volume desta colecção, cujo lançamento oficial vai ter lugar apenas no último fim-de-semana de Abril, nas Jornadas do Clube Tex Portugal, na presença do desenhador Bruno Brindisi e cuja distribuição em bancas estava prevista apenas para a segunda semana de Maio.
Ou seja, os nossos planos originais de distribuir O Velho que Lê na segunda semana de Março, logo após ao seu lançamento no Coimbra BD e Até que A Morte vos Separe dois meses depois, foram irremediavelmente alterados, primeiro por um atraso na gráfica, que só conseguiu entregar menos de 100 exemplares de cada volume a tempo do Coimbra BD e depois por um erro da VASP que distribuiu o volume 2 antes do volume 1...
A razão porque vos estou a contar estes pormenores, é porque, mesmo tendo traduzido e prefaciado a maioria das anteriores edições nacionais do detective do pesadelo, publicada pela Levoir, estas edições da G Floy que inauguram a nova Colecção Aleph, dedicada à BD europeia, têm para mim um significado especial, pois é um projecto em que, tanto eu, como o José de Freitas e o Mário João Marques, que traduziu O Velho que Lê, investimos pessoalmente a vários níveis.
A escolha de uma história do Fábio Celoni para abrir a Colecção prendeu-se com a possibilidade de o podermos ter presente para o lançamento, o que é sempre útil em termos de divulgação e de vendas, mas a qualidade do trabalho de Celoni, um dos raros desenhadores de Dylan Dog que escreve as histórias que desenha, faziam com que ele estivesse na short-list dos autores a publicar. Uma lista onde estão também obviamente Corrado Roi, Giampiero Casertano, Angelo Stano e Giovanni Freghieri.
Tivemos a sorte de, além de um grande autor, o Fábio Celoni ser também uma pessoa adorável, de quem podemos dizer que ficámos amigos. Com um traço barroco, em que são visíveis as influências de Alberto Breccia (vejam-se as semelhanças fisionómicas entre  Ozra, o velho que dá nome ao livro e Ezra Wiston, o narrador de Mort Cinder de Breccia e Oesterheld) Celoni constrói uma belíssima  história sobre o amor à literatura e o drama da solidão na terceira idade, onde não faltam referências a clássicos literários como Moby Dick, O Feiticeiro de Oz, ou  Alice no País das Maravilhas, na melhor tradição do próprio Tiziano Sclavi, que nunca se coibiu de encher as suas histórias de referências, sejam literárias ou cinematográficas.
O mesmo Sclavi que assina a par com o desenhador Angelo Stano, a  história que completa este volume, A Pequena Biblioteca de Babel, um pequeno divertimento borgesiano de apenas 16 páginas, tão simples quanto genial, sobre os estranhos acontecimentos que afectam uma pequena aldeia na Cornualha, onde Dylan Dog se encontrava de férias com uma amiga.
Se O Velho que Lê é uma historia em que o fantástico está presente, já Até que a Morte vos Separe é uma história em que os elementos fantásticos estão praticamente ausentes, podendo os poucos que existem ter uma explicação científica, ou não passarem de um sonho de Dylan. Uma característica comum a outra grande história de Dylan Dog, Johnny Freak, assinada pelos mesmos autores - Mauro Marcheselli na ideia original e Tiziano Sclavi no desenvolvimento - que assinaram também outra das minhas histórias preferidas do investigador do pesadelo, Un Lungo Addio, que espero ter oportunidade de publicar em Portugal.
Episódio especial, publicado por ocasião do décimo aniversário da série, Até que a Morte vos Separe é uma história de amor trágico (como são as melhores histórias de amor) que nos desvenda um pouco do passado de Dylan Dog, enquanto era agente da Scotland Yard, ilustrada por Bruno Brindisi, no seu estilo extraordinariamente legível e eficaz, de uma elegância insuperável. Publicada originalmente a cores, optámos por publicá-la a preto e branco, não só por razões económicas, mas também por acharmos que o preto e branco permite apreciar melhor o traço de Brindisi.
Dois livros com características bem diferentes, mas de grande qualidade, que dão bem ideia da diversidade da série Dylan Dog, um clássico de culto italiano, que, aos poucos, começa ter a devida divulgação em Portugal.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Colecção Bonelli 10 - Dylan Dog: Os Inquilinos Arcanos

No caso deste último volume da colecção Bonelli, o texto que saiu no jornal Público é apenas uma versão reduzida, a menos de metade, do texto que tinha escrito originalmente. Como felizmente na Net não existem problemas de espaço, deixo-vos com a versão integral do último texto da colecção da Levoir que me deu mais gozo co-coordenar. Uma colecção que dificilmente teria sido possível sem o apoio do José Carlos Francisco, Mário João Marques e (em menor escala) do Pedro Bouça e Pedro Cleto, a quem agradeço.


DYLAN DOG ENCERRA COLECÇÃO BONELLI

Colecção Bonelli - Vol 10 
Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Quinta-feira, 14 de Junho
Por + 10,90€
Depois de ter protagonizado o terceiro volume, com o clássico Johnny Freak, Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção dedicada à editora Bonelli, num volume com prefácio do argumentista/pianista/compositor/realizador Filipe Melo - cuja série de culto, Dog Mendonça é uma assumida homenagem a Dylan Dog - que recolhe três histórias curtas a cores. A primeira, Os Inquilinos Arcanos, é uma história em três capítulos autónomos, mas que se completam, publicada originalmente na revista Comic Art, entre 1990 e 1991. Assinada por Tiziano Sclavi, o seu criador e por Corrado Roi, um dos melhores desenhadores da série Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos centra-se nos estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres, o condomínio Castevet, e que Dylan Dog vai investigar.
Apesar do número reduzido de páginas - para os padrões da Bonelli, em que as histórias têm normalmente 96 páginas - de cada capítulo, todos os elementos que caracterizam o trabalho de Sclavi estão presentes de forma concentrada, começando pelo humor negro, o toque surreal e as homenagens e citações. Na primeira história, O Fantasma do Terceiro Andar, cujo clima de paranóia vai beber muito ao filme O Apartamento, de Roman Polanski, as referências ao realizador são evidentes, começando na citação de Polanski que abre a história e terminando no nome, Trelkovski - que é o apelido do personagem interpretado pelo próprio Polanski em O Apartamento - que o porteiro dá a um inquilino que se chama… Kowalski, O mesmo sucede em O Apartamento nº 13, onde Sclavi homenageia simultaneamente o escritor Cornell Woolrich e o cineasta Frank Capra, cujo filme, Do Céu Caiu uma Estrela, os personagens vão ver ao cinema, numa história sobre um homem que descobre que não existe.  Comic Art, que lhe permite encaixar quatro tiras por prancha, em vez das três habituais nas revistas da editora italiana.
Ilustrada por Corrado Roi, que assegura também as belas e inesperadas cores, esta história em três partes tem também a singularidade de ser umas das raras aventuras de Dylan Dog em que este troca a habitual camisa vermelha, que se tornou a sua imagem de marca, por uma simples camisa branca. Em termos gráficos, o trabalho de Roi é fabuloso, perfeito na criação do ambiente opressivo das histórias e aproveitando muito bem o formato maior (do que o habitual formato Bonelli) da revista
As outras duas histórias que completam esta edição, foram publicadas na revista Dylan Dog Color Fest, um título mais experimental, que possibilita a autores que normalmente não colaboram com a Bonelli, a oportunidade de assinar histórias de Dylan Dog.
È o que acontece em O Grande Nevão, história que assinala a estreia do argentino Enrique Breccia (A Vida do Che, Tex: Capitan Jack) na Bonelli, aproveitada pelo argumentista Luigi Mignaco para fazer uma bela homenagem à mais importante BD argentina, El Eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, a história de um ataque extraterrestre a Buenos Aires, que começa precisamente com um nevão que mata todos aqueles que são tocados pelos flocos de neve.
Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi. Uma história com uma sensibilidade bem feminina, escrita por uma leitura e fã de Dylan Dog que, tal como aconteceu com Paola Barbato, se tornou uma das principais argumentistas da série e ilustrada com uma delicadeza também feminina, mas que não esconde as claras influências do irmão, por Nives Manara, a irmã mais nova do mestre do erotismo, Milo Manara.
Três abordagens bem diferentes, que demonstram as infinitas possibilidades que uma personagem com Dylan Dog permite, tal como aconteceu com Tex no volume que abriu esta colecção. Uma bela colecção, que nos deu a conhecer um pouco melhor, a melhor editora italiana.
Versão integral do texto publicado no jornal Público de 09/06/2018

sábado, 9 de junho de 2018

Colecção Bonelli 9 - Mister No: OVNIs na Amzónia


O EXPLORADOR E O ASTRONAUTA

Colecção Bonelli - Vol 9 
Mister No – OVNIs na Amazónia
Argumento – Tiziano Sclavi e Guido Nolitta
Desenhos – Fábio Civitelli e Roberto Diso
Quinta-feira, 7 de Junho
Por + 10,90€
O último herói da Bonelli a quem esta colecção possibilita a estreia em Portugal, já na próxima quinta-feira, foi também um dos primeiros: Mister No. Criado por Guido Nolitta (pseudónimo que Sergio Bonelli usava para assinar os argumentos que escrevia) em 1975, a partir de duas personagens reais que Sergio conheceu nas suas viagens pelo continente americano, Mister No é um aventureiro radicado na selva amazónica. Nascido Jerry Drake, Mister No - alcunha que nasceu devido à sua teimosia, que o leva a dizer facilmente “Não!” (No) aos seus clientes - é um antigo piloto de guerra americano que, depois da Guerra da Coreia, incapaz de se readaptar à vida civil, decide deixar os Estados Unidos e ir viver para Manaus, no Brasil, onde ganha a vida como guia na selva amazónica, o que, por vezes, o leva a envolver-se em situações que o obrigam a fazer apelo à sua experiência militar. O seu melhor amigo é outro estrangeiro, Otto Kruger, vulgo “Esse-Esse”, um alemão que, como Drake, é um veterano da Segunda Guerra Mundial. Não dos SS, como a alcunha pode levar a supor, mas do Afrika Korps, o célebre corpo expedicionário comandado pelo Marechal Rommel.
Com uma capa inédita de Fabio Civitelli realizada em exclusivo para esta edição, colorida pelo desenhador português Ricardo Venâncio, o livro que apresenta Mister No aos leitores portugueses, comporta duas histórias. A primeira, OVNI, escrita por Tiziano Sclavi (o criador de Dylan Dog) e ilustrada por Civitelli, e publicada originalmente em 1984 no nº 108 da revista mensal de Mister No, coloca o americano Mister No e um cosmonauta russo a terem de unir esforços em plena Guerra Fria, para conseguirem sobreviver a uma tribo de indígenas que os quer sacrificar aos seus Deuses. Um encontro inesperado, que ocorre na sequência da queda de um satélite russo em plena selva amazónica, provocando a destruição do avião de Mister No e motivando a hostilidade dos indígenas, que vêm no estranho fenómeno um sinal de desagrado divino. A história de uma amizade improvável que floresce, independentemente das bandeiras e das ideologias, como sucede com No e Arkady, o cosmonauta russo, escrita um ano antes de Gorbachov subir ao poder, é um tema grato a Sergio Bonelli, mas Sclavi não deixa de juntar o seu toque pessoal, introduzindo, de forma ambígua, alguns elementos fantásticos na narrativa. Uma história muitíssimo bem ilustrada pelo traço de grande detalhe e legibilidade de Fabio Civitelli, que se revela senhor de um apuradíssimo jogo de sombras, bem evidente nas cenas nocturnas e nos pesadelos de Mister No e de um óptimo sentido de mise-en-scène, de que a entrada em cena de Arkady, com o seu traje espacial, é um exemplo perfeito.
Para além desta história, em que Sclavi aborda pela primeira vez os OVNIs, tema a que regressará com alguma frequência em Dylan Dog, este volume traz também Garimpeiros, uma história curta escrita pelo próprio Sergio Bonelli e desenhada por Roberto Diso, que começou a desenhar Mister No logo na edição nº 5 e que, com o tempo, acabou por se tornar o mais importante desenhador da série, ocupando-se também das capas da revista a partir do nº 116. Bem representativa da colaboração da dupla, Garimpeiros coloca Mister No em confronto com diferentes aspectos da ganância humana, quando é obrigado a transportar os cunhados de um garimpeiro brasileiro, até ao local onde este supostamente encontrou a jazida que o tornou um homem rico.
Publicado originalmente no jornal Público de 02/06/2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Colecção Bonelli 7 - Martin Mystère: O Destino da Atlântida


MARTIN MYSTÈRE INVESTIGA O MISTÉRIO DA ATLÂNTIDA

Colecção Bonelli - Vol 7  
Martin Mystere – O Destino da Atlântida
Argumento – Alfredo Castelli
Desenhos – Cardinale, Orlandi e Toppi
Quinta-feira, 24 de Maio
Por + 10,90€
Depois de Tex, Dampyr, Dylan Dog e Julia, chega a vez de Martin Mystère se estrear nesta colecção dedicada à editora Bonelli. Criado em 1982 por Alfredo Castelli, Martin Mystère, o “detective do impossível”, é um verdadeiro “Homem do Renascimento”. Antropólogo, arqueólogo, especialista em História da Arte, Línguas e Cibernética, investigador, apresentador do programa de televisão Os Mistérios de Mystère, escritor, aventureiro e iniciado nos cultos esotéricos, Mystère utiliza a sua vastíssima cultura para desvendar os mais variados enigmas, apoiado pelo seu fiel Java, um corpulento Homem de Neanderthal.
Nascido em Milão em 1947, Castelli, o criador de Martin Mystère, é um prolífico escritor, investigador, argumentista e especialista em Banda Desenhada, que a essa actividade, junta também a escrita de guiões para séries televisivas da RAI e para desenhos animados. Para a revista  Il Corriere dei Ragazzi, criou inúmeras histórias e personagens, como Gli Aristocratici (onde colabora pela primeira vez com Tiziano Sclavi, o criador de Dylan Dog) e Allan Quatermain, em 1975, personagem que irá servir de modelo para a criação de Martin Mystère, em que já é bem evidente o gosto do escritor por histórias muito bem documentadas que misturam o género fantástico e as teorias da conspiração, com a aventura e a História. Allan Quatermain, vai servir de base a uma nova personagem, aprovada por Sergio Bonelli, já com o nome Martin Mystère, nome esse que é uma homenagem a Tiziano Sclavi que nos anos 70 escreveu uma série de contos com um detective francês chamado Jacques Mystère. Jacques, que ficou precisamente como o nome do meio de Martin Mystère, cujo nome completo é Martin Jacques Mystère.
Este volume traz duas histórias bem distintas de Martin Mystère. A primeira dessas histórias, O Destino da Atlântida cuja acção se inicia nos Açores, está bem integrada na continuidade da série, remetendo para episódios anteriores, especialmente para o primeiro volume da série, publicado em 1982, em que Mistère descobre nos mares dos Açores, vestígios arqueológicos que provam a existência da Atlântida. Desta vez Martin Mystère tem de se aliar ao seu eterno inimigo, Orloff para trazer de volta à nossa era o satélite militar que provocou a destruição da Atlântida e de Mu, 10 mil anos antes. Uma história complexa, em que os principais elementos da série estão presentes, ilustrada num estilo realista, em que é notório o uso de fotografias, por Roberto Cardinale e Alfredo Orlandi.
O volume termina com Assunto de Família, uma história curta de 22 páginas,  publicada originalmente no Almanaque Martin Mystére nº 16, de 1999, e posteriormente adaptada a um CD-Rom. Essa história, ilustrada por Sergio Toppi, em que a descoberta de uma gravação vídeo traz revelações sobre a presença de extraterrestres no nosso planeta, é mais um exemplo da colaboração de Toppi com a editora de Sérgio Bonelli, em que o desenhador adapta a narrativa e a planificação às características habituais das publicações da editora, sem abdicar do seu estilo mais pessoal e inconfundível, bem evidente nas máscaras africanas que ornamentam o escritório de Mystère.
Publicado originalmente no jornal Público de 19/05/2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Colecção Bonelli 3 - Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak

Tal como no volume anterior, o prefácio deste primeiro volume dedicado a Dylan Dog também é meu. Depois de Mater Morbi, é sempre um prazer voltar a escrever com espaço sobre um dos meus personagens de BD favoritos. Aqui vos deixo com o prefácio e com o texto que escrevi para o Público sobre este volume e que poderão ler clicando na imagem.

UM FREAK CHAMADO JOHNNY

Qualquer História da Banda Desenhada que o leitor consulte, assinala o ano de 1986 como um ano-charneira em termos da evolução da arte sequencial. Basta lembrar que foi nesse mesmo ano que foram publicadas obras absolutamente seminais como Maus, de Art Spiegelman, Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons e O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller
Mas não foi só nos EUA que 1986 foi um ano marcante no que à BD diz respeito. Também em Itália as coisas estavam a mudar, com a publicação, em Setembro de 1986, de uma nova série da editora Bonelli. Uma série escrita por um escritor ainda à procura do seu primeiro sucesso, Tiziano Sclavi, e protagonizada por um detective vegetariano, com um passado de alcoolismo, que sofre de claustrofobia e vertigens e investiga casos sobrenaturais, Dylan Dog. Conforme escreveu o próprio Sclavi trinta anos depois, o primeiro número de Dylan Dog foi recebido com uma “enorme explosão de total indiferença”, ficando, em termos de vendas, no limite do cancelamento. Mas pouco a pouco, a série soube conquistar um público cada vez mais vasto, até se tornar um verdadeiro fenómeno, não só de vendas, mas também cultural. O grande trunfo de Dylan Dog foi conseguir chegar a um público bem mais abrangente do que os tradicionais fãs de BD (ou no caso italiano, dos fumetti) e conquistar leitores junto dos cinéfilos, dos intelectuais como Umberto Eco, dos cultores da literatura e do cinema de terror e, sobretudo, junto do público feminino, conquistando milhares de jovens leitoras - que não conseguiram resistir ao charme e às fragilidades, que aumentam esse charme, de Dylan Dog - algumas das quais, como Paola Barbato, Barbara Baraldi, Rita Porretto e Silvia Mericone, iriam passar décadas depois, de leitoras a escritoras das aventuras do detective do oculto. 
Em Portugal, Dylan Dog fez a sua estreia só em 2017, na terceira série da colecção Novela Gráfica, com Mater Morbi, uma história assinada por Roberto Recchioni, o actual responsável editorial da série, bem representativa dos diferentes caminhos trilhados recentemente pela personagem. Para a estreia de Dylan Dog nesta colecção dedicada à editora Bonelli, que vai também encerrar, a opção recaiu em Johnny Freak, uma história mais clássica, onde não falta o dedo do seu criador, Tiziano Sclavi.
Invariavelmente presente na lista das melhores histórias de Dylan Dog de todos os tempos, Johnny Freak foi publicado originalmente em 1993, no número 81 da revista mensal do detective do pesadelo. Contrariamente ao que era habitual nesta época, em que normalmente Tiziano Sclavi lançava a ideia-base para a história, que depois era desenvolvida por outros escritores, no caso de Johnny Freak, o processo foi o inverso. A ideia da história partiu do editor Mauro Marcheselli e coube a Sclavi desenvolver o argumento e os diálogos. Mas essa não é a única particularidade desta história, onde, por uma vez, os horrores sobrenaturais dão lugar a um horror bem real, de uma criança muda a quem são removidas cirurgicamente as pernas, um rim e um pulmão. Inspirada por um artigo sobre tráfico de órgão humanos no Brasil, que Marcheselli tinha lido numa revista, esta história de ficção teria confirmação na realidade mais de uma década depois, em 2005, com o célebre caso de James Whitaker, que foi gerado e nasceu expressamente com o objectivo de ser dador de medula para o seu irmão Charlie, afectado por uma doença degenerativa mortal.
Numa das raras entrevistas que deu, Sclavi, quando lhe perguntaram se se identificava com Dylan Dog, respondeu: “Nem com Dylan, nem com Groucho. Eu sou os monstros.” E essa identificação é bem evidente nesta história, em que o verdadeiro mal se esconde nas pessoas de boa aparência e o corpo deformado de Johnny esconde uma alma de artista e um coração de ouro.  Tal como os leitores, que não conseguiram resistir à fragilidade e à ternura de Johnny, o próprio Sclavi também não resistiu a alterar o final mais duro imaginado por Marcheselli, criando um novo final que, segundo o próprio, “foi escrito enquanto as lágrimas caiam sobre o teclado do computador”.
Essa emoção que Sclavi conseguiu transmitir à história, ajudou a que esta se tornasse um dos episódios mais inesquecíveis da série, mas seria injusto não referir o contributo decisivo do desenhador Andrea Venturi, cujo traço elegante e realista, a fazer lembrar Neal Adams, serve de forma admirável as diferentes nuances da narrativa.
Alternando um realismo dinâmico, com um traço mais onírico e expressionista quando reproduz os desenhos de Johnny, Venturi revela-se perfeito, tanto em termos gráficos como narrativos, para uma história com esta importância. Tratando-se de uma história escrita por Sclavi, não podiam falar as referências cinematográficas, sendo a mais óbvia, até pela alcunha que a imprensa dá a Johnny, ao filme Freaks, de Todd Browning, um clássico de 1932 cuja cassete vídeo o escritor emprestou a Andrea Venturi para que este o visse com atenção antes de começar a desenhar a história.
Se o sucesso de Johnny Freak tornava a sua continuação uma opção óbvia em termos comerciais, a forma como a história acabava, não deixava propriamente grande espaço para continuações… Daí que o trabalho de Marcheselli e Sclavi não fosse nada óbvio, nem fácil, o que só vem confirmar a grande capacidade, narrativa e criativa, destes dois grandes profissionais da escrita. Publicada originalmente em 1997, no número 127 da revista mensal, O Coração de Johnny reúne a mesma equipa de Johnny Freak, com a excepção do desenhador, pois Andrea Venturi tinha passado a desenhar a série Tex. Para o substituir, Sclavi escolheu um dos seus desenhadores favoritos; Giampiero Casertano, cuja cumplicidade com Sclavi é bem evidente na carta do escritor que reproduzimos no fim deste volume e que, não por acaso, seria também escolhido para desenhar Doppo un Lungo Silenzio, o regresso do escritor aos argumentos da série em 2016, por ocasião do trigésimo aniversário de Dylan Dog.
Senhor de um traço mais sombrio e caricatural do que Venturi, Casertano tinha um duplo desafio pela frente, pois tinha de se aproximar graficamente do desenho de Venturi nas várias cenas de flash-back que enchem a história, sem abdicar do seu estilo próprio e inconfundível, marcado por um muito conseguido jogo de sombras. A verdade é que o artista milanês, que para os desenhos de Johnny vai beber inspiração em Picasso e Bosch, conseguiu superar com distinção os dois desafios, conseguindo que, pelo menos em termos gráficos, esta continuação esteja perfeitamente à altura do original.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Apresentação da colecção Bonelli

Aproveitando a comemoração em 2018 dos setenta anos da criação de Tex, a sua personagem mais emblemática, o Público e a Levoir dão a descobrir aos leitores portugueses o melhor da Bonelli, a mais popular editora italiana de BD. Exemplo máximo da riqueza e da diversidade dos fumetti (a BD italiana) a Bonelli não se resume a Tex e a Dylan Dog, os seus heróis mais famosos, já editados em Portugal. São esses e outros personagens, como Dampyr, Martin Mystère, Julia, Mister No, ou Dragonero, ou projectos como a série Le Storie, que chegam finalmente a Portugal numa colecção de 10 volumes, totalmente inéditos. A partir de 12 de Abril, as quintas-feiras são o dia dos fumetti da Bonelli.
OS FUMETTI DA EDITORA BONELLI

Depois da presença de Mater Morbi, uma história de Dylan Dog na série de 2017 das Novelas Gráficas, que provou (se preciso fosse) que uma produção dirigida ao grande público também pode ter qualidade literária, chegou a vez de o Público dar a descobrir aos leitores portugueses o melhor da editora Bonelli, através de algumas das seus personagens mais emblemáticas, em histórias assinadas por alguns dos maiores nomes da BD italiana e mundial.
Mas para que o leitor perceba do que falamos quando falamos dos fumetti (nome dado à BD em Itália) da Bonelli, convém traçar de forma breve a história da editora. Embora só tenha adoptado o nome de Sergio Bonelli em 1988, a história da Editora Bonelli começa bastante antes. Mais precisamente em 1940, quando Giovanni Luigi Bonelli, pai de Sergio Bonelli, cria com a mulher, Tea Bertasi, uma pequena editora de BD chamada Redazione Audace. No final da guerra, quando o casal se decide separar, Bonelli passa à mulher a sua parte da editora, que mudou de nome para Editrice Audace, mantendo-se como colaborador free-lancer. Embora, como revela o seu filho Sergio, Tea nunca tenha lido uma BD antes de tomar conta da editora, revelou-se uma sagaz mulher de negócios e a editora foi prosperando. Entre as novas publicações que foram surgindo, estava uma revistinha de formato horizontal (não por acaso, também conhecido por formato italiano), inspirada no formato das tiras de jornal americanas, protagonizada por um ranger do Texas chamado Tex Willer, cujo imediato sucesso surpreendeu até os próprios autores.
Mantendo-se durante décadas nas mãos dos seus criadores originais (Giovanni Luigi Bonelli só deixou de escrever os argumentos de Tex na década de 80 enquanto Galleppini – ou Galep, como costumava assinar – continuou como desenhador do Tex até à sua morte, em 1994) Tex soube cativar ao longo dos anos um número cada vez maior de leitores, traduzindo-se num caso de sucesso crescente, que atravessou gerações e países.
Mas a editora que em 1957 Tea passou para o seu filho Sergio (e que mudou de nome para Edizioni Araldo) não se limitava a publicar Tex, tal como Sergio Bonelli não se limitava ao seu trabalho de editor, escrevendo também argumentos sob o pseudónimo de Guido Nolitta. Uma carreira que Sergio sempre manteve a par com a de editor e que, tendo começado com a série Un ragazzo nel Far West, ficaria marcada pela criação de personagens ainda hoje em publicação, como Zagor (criado em 1961) e Mister No (criado em 1975 e publicado de forma ininterrupta até 2006).
Uma das razões do sucesso das edições da Bonelli (que se chamariam ainda Araldo e Cepim, antes de adoptar o nome de Sergio Bonelli Editore), para além da qualidade das histórias e dos desenhos, passa pelo abandono do formato de tiras e a criação de um formato próprio de 15 x 21 cm (o chamado formato Bonelli), que vinha de encontro às necessidades do mercado, permitindo fornecer aos leitores edições baratas com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD italiano. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Sergio Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, que abarcam os mais variados cambiantes da aventura, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de “literatura de gare desenhada” foi entusiástica. Potenciada pelo grande desenvolvimento dos caminhos-de-ferro em Itália, que criou um público heterogéneo que queria ter algo para ler durante as viagens, algumas revistas de Bonelli chegaram a atingir tiragens próximas do meio milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos, o que levou à impressionante média de 25 milhões de exemplares vendidos por ano, algo que só é possível graças a um público heterogéneo, que não se restringe aos adolescentes habituais e que engloba também quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco.
Para além das personagens clássicas, como Tex, Zagor e Mister No, a que se juntaram outras como Martin Mystère, Dylan Dog, Dampyr, Júlia e Magico Vento, a editora tem sabido renovar-se apostando em novos tipos de séries, de que Dragonero e Le Storie são exemplos.
Mesmo a morte de Sergio Bonelli em 2011 foi superada, graças à dinâmica introduzida pelo filho Davide e a sua equipa, que soube apostar em novos formatos - como os álbuns a cores em formato franco-belga do Tex - e incrementou de forma decisiva a presença das edições da Bonelli nas livrarias.
Por isso, mesmo no século XXI, em que a concorrência dos smartphones leva a que se veja cada vez menos gente a ler livros nos transportes públicos, é facílimo encontrar os títulos da Bonelli em qualquer quiosque de estação, o que justificava que, apesar da queda geral das vendas nos quiosques, as revistas da Bonelli ainda vendiam em 2014 mais de 500.000 exemplares dos títulos mensais regulares mensais, com Tex e Dylan Dog bem destacados, ao mesmo tempo que as edições para livraria permitiam valorizar o vastíssimo catálogo da editora junto de um público mais sofisticado.
Embora seja um fenómeno marcadamente italiano, as séries de Bonelli também têm procurado o sucesso internacional, estando presentes de forma mais ou menos regular nas livrarias e quiosques do Brasil, Sérvia, Croácia, Turquia, Espanha, França e Estados Unidos. Finalmente chegou a vez também de Portugal e agora, caberá ao leitor português decidir se chegou para ficar.

AS PERSONAGENS

TEX
Criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galeppini, Tex Willer é, depois do Lucky Luke de Morris, o mais antigo cowboy da BD europeia ainda em publicação. Ranger do Texas, Tex tem também uma profunda ligação aos índios americanos, tendo tido um filho, Kit com Lilith, a filha de um chefe Navajo e sendo ele um próprio chefe de uma tribo de Navajos, que lhe deram o nome índio de Águia da Noite. Só, ou acompanhado pelos seus amigos Kit Carson e Jack Tigre e pelo seu filho Kit, Tex impõe a lei no velho Oeste de forma implacável.

DAMPYR
Criado em 2000 por Mauro Boselli e Maurizio Colombo, Harlan Draka é um Dampyr, o fruto da união de um vampiro com uma mulher mortal, alguém que está entre dois mundos e cujo sangue pode destruir os vampiros. Acompanhado por Kurjak, um militar sérvio, e por Tesla, uma vampira que se quer libertar da influência do seu mestre, o vampiro Gorka, Harlan Draka e os seus companheiros percorrem o globo à caça de vampiros e outras criaturas sobrenaturais. Uma missão que os leva a sítios tão diferentes como a antiga Jugoslávia, África, o Japão e, no caso desta colecção, a Portugal.

DYLAN DOG
Criado por Tiziano Sclavi em 1986, Dylan Dog é um detective particular, sediado em Londres e especializado em casos paranormais e fantásticos, visualmente inspirado no actor Rupert Everett, que rapidamente se tornou um verdadeiro fenómeno de culto, cuja popularidade extravasou rapidamente o público tradicional da BD. Ex-alcoólico e vegetariano, com uma irremediável tendência para se apaixonar pelas suas clientes, Dylan Dog é um detective pouco convencional, com um ajudante ainda menos convencional, que é um sósia, a todos os níveis de Grouxo Marx, com um sentido de humor delirante, que  serve de alívio cómico ao dramatismo das histórias. 

JULIA
Criada em 1998 por Giancarlo Berardi, com a colaboração de Luca Vannini na parte gráfica, Júlia Kendall é uma criminóloga e professora universitária, cuja imagem é inspirada na actriz Audrey Hepburn, e que tem uma empregada doméstica com as feições de outra actriz famosa, Whoopi Goldberg. Colaborando com a polícia de Garden City – a cidade fictícia onde vive, cujas ruas têm nomes de flores – Júlia Kendall utiliza os seus vastos conhecimentos teóricos para investigar os mais diversos casos de homicídio.

LE STORIE
Inspirada pela mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, uma das experiências editoriais mais prestigiadas da Bonelli, Le Storie, ao contrário da maioria dos títulos da editora, não tem um personagem fixo. Esta série, criada em 2012, acolhe verdadeiras histórias sem heróis, tendo geralmente como pano de fundo um acontecimento histórico concreto. No caso de Sangue e Gelo, esse acontecimento é a retirada das tropas de Napoleão da Rússia, em 1812, em que o “General Inverno” acaba por não ser o único inimigo que as desgastadas tropas do Capitão Lozère têm de enfrentar.

MARTIN MYSTÈRE
Criado em 1982 por Alfredo Castelli, Martin Mystère, o “detective do impossível”, é um verdadeiro “Homem do Renascimento”. Antropólogo, arqueólogo, especialista em História da Arte, Línguas e Cibernética, investigador, apresentador de programas de TV, escritor, aventureiro e iniciado nos cultos esotéricos, Martin Mystère utiliza a sua vastíssima cultura para desvendar os mais variados enigmas. Sediado em Nova Iorque, Mystère enfrenta o perigo com o apoio do seu fiel Java, um corpulento Homem de Neanderthal. 

DRAGONERO
Criada em 2007 por Luca Enoch e Stefano Vietti como uma história única para a série Romanzi a Fumetti Bonelli, Dragonero acabaria por se converter numa revista mensal em 2013. O protagonista desta série que introduz a Heroic Fantasy no catálogo da Editora Bonelli, é Ian Arànil, explorador do Império Erondariano e herdeiro da nobre e antiga casa dos Varliedàrto, os caçadores de dragões. Acompanhado por Gmor Burpen, um ogre com um invulgar gosto pela leitura e pela ninfa Sera, Ian vive as mais incríveis aventuras num mundo de fantasia, cuja complexidade e coerência estão à altura da herança de autores como Robert E. Howard, Tolkien e George R. R. Martin. 

MISTER NO
Criado por Guido Nolitta (pseudónimo que Sergio Bonelli usava para assinar os argumentos que escrevia) em 1975, Mister No é um aventureiro radicado na selva amazónica. Nascido Jerry Drake, Mister no é um antigo piloto de guerra americano que depois da Guerra da Coreia, incapaz de se readaptar à vida civil, decide deixar os Estados Unidos e ir viver para Manaus, no Brasil, onde ganha a vida como guia na selva amazónica, o que, por vezes, o leva a envolver em situações que o obrigam a fazer apelo à sua experiência militar.

João Miguel Lameiras*

* com agradecimentos a Mário João Marques pelas informações sobre a série Dragonero.


SERGIO BONELLI: UM HOMEM, MIL AVENTURAS

Nascido em Milão em 1932 e falecido em Monza em 2011, Sergio Bonelli foi não só um dos maiores editores europeus de Banda Desenhada, responsável pela criação de um império editorial cuja actividade prossegue pela mão do seu filho Davide mas também um prolífico argumentista e um incansável viajante.
Filho de Giovanni Luigi Bonelli, o criador di Tex, Sergio esteve ligado à edição desde muito novo, trabalhando na editora Audace, que o seu pai fundou e que, em 1946 passou para a sua mãe, Tea, quando os dois se separaram. Em 1957 sucede à mãe no comando da editora, ao mesmo tempo que concilia a parte administrativa com a actividade de argumentista, com o pseudónimo de Guido Nolitta, nome que encontrou numa lista telefónica e que usou para não ser confundido com o pai. A sua estreia como escritor de BD deu-se em 1958 com a série Un Ragazzo nel Far West, mas o seu primeiro grande sucesso chegou em 1961, com a criação de Zagor, personagem que, confessa, resultou da tentativa de “fazer algo especial para um público especial, misturando as mais variadas referências. A minha aposta foi fazer uma espécie de Frankenstein, pegando um bocado do Tarzan, outro bocado do Super-Homem, etc… E a coisa funcionou!” 
Outra criação sua foi Mister No, um aventureiro na Amazónia, que sempre foi a sua personagem favorita, mas além disso escreveu também diversas histórias de Tex, embora a sua prioridade fosse o trabalho de editor, marcado pelo respeito pelos autores, a quem dava grande liberdade para desenvolver os seus próprios projectos, como aconteceu com Tiziano Sclavi em Dylan Dog e com Alfredo Castelli em Martin Mystère.
Mas o contributo de Sergio Bonelli para a BD italiana, não se fica só pelas revistas mensais que editou, que mostram que a BD de qualidade não tem que ser necessariamente luxuosa e cara. Também apostou em outros formatos, a começar pelos famosos “Texones”, as edições anuais do Tex em formato grande, assinadas por grandes nomes da BD Mundial, como Buzelli, Alfonso Font, Magnus, Jordi Bernet, Joe Kubert, ou Enrique Breccia. E promoveu também projectos de grande importância como a mítica série Un Huomo, una Aventtura, por onde passaram os maiores nomes da BD italiana, como Hugo Pratt, Milo Manara, Guido Crepax; Dino Battaglia, Sergio Toppi e Guido Buzzelli. Isto para além de ter dado a grandes desenhadores espanhóis como Victor De La Fuente, Esteban Maroto, José Ortiz, Alfonso Font, ou Manfred Sommer, a possibilidade de prosseguirem uma carreira na BD de acção e aventura, quando terminou o boom das revistas de BD em Espanha.

A COLECÇÃO

1 – Tex – A Lenda de Tex
12 de Abril
Argumento – Manfredi, Buratini, Rauch e Ruju
Desenhos – Biglia, Rubini, Bocci e Tisselli
A honra de abrir esta colecção cabe naturalmente a Tex, que completa 70 anos de existência em 2018. Este volume recolhe quatro histórias a cores publicadas originalmente na revista Color Tex: O Último da Lista, escrita por Gianfranco Manfredi e desenhada por Stefano Biglia; O Mescalero sem Rosto, com argumento de Jacopo Rauch e arte de Alessandro Bocci; Chupa-Cabras!, com texto de Moreno Burattini e grafismo de Michele Rubini; e Desafio na Velha Missão, em que Sergio Tisselli ilustra magnificamente a aguarela uma trama concebida por Pasquale Ruju.

2 –Dampyr – Aventuras em Portugal
19 de Abril
Argumento – Mauro Boselli e Giovanni Eccher
Desenhos – Alessandro Bocci e Maurizio Dotti
Este volume recolhe duas aventuras de Dampyr que têm como cenário o nosso país. Em O Esposo da Vampira, Mauro Boselli e Alessandro Bocci levam o caçador de vampiros Harlan Draka e o seu amigo Kurjak, até Trás-os-Montes, para investigar a lenda do Castelo de Monforte da Estrela, que dizem estar assombrado por uma vampira. Já em Tributo de Sangue história de Giovanni Eccher e Maurizio Dotti, publicada em Itália em 2012 no Dampyr 147, é o Porto, Vila Nova de Gaia e a zona do Douro que servem de cenário a uma história que envolve um fantasma com um traje mirandense e uma tentativa de assassinato na ponte D. Luís I.

3 – Dylan Dog – A Saga de Johnny Freak
26 de Abril
Argumento – Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
Desenhos – Andrea Venturi e Giampiero Casertano
Este volume que assinala o regresso de Dylan Dog à edição nacional, recolhe duas histórias escritas por Tiziano Sclavi, o criador de Dylan Dog, a partir de uma ideia do editor Mauro Marcheselli, protagonizadas por Johnny Freak, um jovem mudo e gravemente mutilado. Publicada originalmente em 1993 no nº 81 da revista Dylan Dog, Johnny Freak é considerada como uma das melhores histórias de sempre de Dylan Dog. Este volume recolhe também O Coração de Johnny, uma continuação da história anterior, em que Andrea Venturi cede o lugar a Giampiero Casertano nos desenhos.

4 – Júlia – O Eterno Repouso
3 de Maio
Argumento – Giancarlo Berardi
Desenhos – Sergio Toppi
Em O Eterno Repouso, Júlia Kendall, a criminóloga criada por Giancarlo Berardi investiga um macabro assassinato num lar de idosos, onde um dos utentes aparece literalmente cortado em pedaços. No seu único trabalho para a série, o mestre Sergio Toppi dá mais uma demonstração de todo o seu virtuosismo  ao serviço de uma história com sequencias, como a do pesadelo, pensadas para tirar o maior partido do seu estilo único.

5 – Le Storie – Sangue e Gelo
10 de Maio
Argumento – Tito Faraci
Desenhos – Pascuale Frisenda
Ambientada em finais de 1812, na Rússia do Czar Alexandre I, Sangue e Gelo tem como ponto de partida a retirada do exército napoleónico, desgastado pela estratégia russa da “terra queimada”, deixando atrás de si centenas de milhar de homens à fome, que lutam pela sua mera sobrevivência num ambiente de gelo e horror. Contrários à ideia de se renderem a um destino aparentemente inelutável, os homens do capitão Lozère partem em busca de um pouco de pão e de um abrigo quente, na esperança de uma improvável salvação, acabando por ir ao encontro de um destino imprevisto.

6 – Tex – A pista dos Fora-da-Lei
17 de Maio
Argumento – Mauro Boselli e Claudio Nizzi
Desenhos – Carlos Gomez e Andrea Venturi
Este segundo volume protagonizado por Tex recolhe duas histórias longas a preto e branco. Na primeira, A Pista dos Fora-da-lei, escrita por Mauro Boselli, com desenhos espectaculares do argentino Carlos Gomez, Tex, Carson e Jack Tigre seguem a pista de um bando de assaltantes de bancos capitaneado por Ozzie Johnson. Na segunda história, O Assassino de Índios, um misterioso assassino aterroriza uma tribo de apaches Jicarilla, ao assassinar e escalpar mais de vinte indígenas. Uma ameaça que só Tex e Kit Carson serão capazes de deter. Publicada originalmente no Almanaque Tex de 1996, esta história escrita por Claudio Nizzi, assinala a estreia de Andrea Venturi (o desenhador de Johnny Freak)  na série Tex.

7 –  Martin Mystere – O Destino da Atlântida
24 de Maio
Argumento – Alfredo Castelli
Desenhos – Cardinale, Orlandi e Toppi
Na primeira das histórias deste volume, O Destino da Atlântida cuja acção se inicia nos Açores, Martin Mystère tem de se aliar ao seu inimigo Orloff para trazer de volta à nossa era o satélite militar que provocou a destruição da Atlântida e de Mu, 10 mil  anos antes. O volume termina com Questões de Família, uma história ilustrada por Sergio Toppi, em que a descoberta de uma gravação vídeo traz revelações sobre a presença de extraterrestres no nosso planeta.

8 – Dragonero – A Primeira Missão
31 de Maio
Argumento – Luca Enoch e Stefano Vietti
Desenhos – Manuel Morrone e Cristiano Cucina
Publicada originalmente em 2014, no Speciale Dragonero nº 1, A primeira Missão recorda um episódio do passado de Ian Arànil, o Dragonero, quando este decidiu abandonar o exército do Império e incorporar o corpo dos exploradores. Ian procura o seu amigo, o ogre Gmor, entretanto retirado num mosteiro, para o acompanhar, mas em breve, os dois terão de abandonar o corpo de exploradores e partir em auxílio de um grupo de monges que se encontra preso no interior de uma biblioteca antiga.

9 – Mister No – OVNIs na Amazónia
7 de Junho
Argumento – Tiziano Sclavi e Guido Nolitta
Desenhos – Fábio Civitelli e Roberto Diso 
Nesta edição, com uma capa inédita de Fabio Civitelli realizada em exclusivo para esta edição, a queda de um satélite russo em plena selva amazónica vai provocar a destruição do avião de Mister No e a hostilidade dos indígenas, que vêm no estranho fenómeno um sinal dos Deuses. Para além dessa história de Tiziano Sclavi (o criador de Dylan Dog), ilustrada por Civitelli, este volume traz também Garimpeiros, uma história curta escrita pelo próprio Sergio Bonelli (com o pseudónimo Guido Nolitta)  e desenhada por Roberto Diso.

10 – Dylan Dog – Os Inquilinos Arcanos
14 de Junho
Argumento – Sclavi, Mignaco e Baraldi
Desenhos – Roi, Breccia e Manara
Dylan Dog regressa para encerrar esta colecção, num volume a cores, que recolhe três histórias curtas. Em Os Inquilinos Arcanos, história em três partes de Sclavi e Corrado Roi, publicada originalmente na revista Comic Art, Dylan Dog investiga os estranhos fenómenos que afectam um edifício em Londres.  
Em A Grande Nevada, o argentino Enrique Breccia ilustra uma bela homenagem ao Eternauta, de Oesterheld, escrita por Luigi Mignaco. Finalmente, em Bailando com um Desconhecido, Nives Manara, a irmã do mestre do erotismo, Milo Manara, ilustra uma história de fantasmas escrita por Barbara Baraldi.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 10/04/2018

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 7 - Dylan Dog: Mater Morbi

Tal como aconteceu com Ronin, também neste Mater Morbi, que assinala a estreia de Dylan Dog em edição nacional, tive o privilégio de fazer a tradução e o prefácio do volume, para além da coordenação editorial, o que teve um sabor especial, dado Dylan Dog ser uma das minhas séries de BD favoritas, como é fácil de perceber, pelos vários posts que já lhe dediquei. Por isso, deixo-vos com o texto de introdução que escrevi para o volume, em vez do habitual texto do Público, que pode à mesma ser lido, bastando para tal carregar na imagem.

COM MATER MORBI,
DYLAN DOG CHEGA FINALMENTE A PORTUGAL

Novela Gráfica III – Vol. 7 
Dylan Dog: Mater Morbi
Argumento – Roberto Recchioni
Desenhos – Massimo Carnevale
Sexta, 11 de Agosto
Por + 9,99€

NOSSA SENHORA DO SOFRIMENTO

A história que vão poder ler a seguir é muito importante por duas razões. Primeiro, por assinalar a estreia em edição nacional de Dylan Dog, o popular detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli em 1986 e que, mais de trinta anos depois da sua estreia, se mantém como um verdadeiro fenómeno de culto e uma das mais importantes e populares séries dos fumetti (nome dado à banda desenhada em Itália). Para além da importância histórica desta edição, Mater Morbi é também uma das melhores histórias de Dylan Dog da última década (o que, tendo em conta que se publicam perto de uma vintena de histórias do investigador do pesadelo todos os anos, não é coisa pouca…) e a mais publicada a nível internacional.
Mas antes de nos determos em Mater Morbi, convém traçar um quadro geral dos fumetti da Bonelli, de que a série Dylan Dog é um dos marcos. E o segredo do sucesso das publicações de Sergio Bonelli, alicerçado na popularidade do cowboy Tex, criado pelo seu pai, Gian Luigi Bonelli e pelo desenhador Aurelio Galleppini, consistiu precisamente em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com perto de uma centena de páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada na Itália nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli propôs aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, dedicadas aos mais diversos géneros, do Western, ao policial, passando pela ficção científica e pelo terror, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliados a um leque necessariamente bem mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos. Durante um curto período na década de 90, a série Dylan Dog chegou mesmo a ultrapassar o meio milhão de exemplares mensais, superando as vendas de Tex e de Topolino (a revista do rato Mickey) e afirmando-se como a BD mais vendida em Itália, algo só possível graças a um público fiel e heterogéneo. Um público, que não se restringe aos leitores habituais de BD e que engloba também muitas mulheres, fãs do cinema de terror, que Sclavi citava abundantemente, quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco, fã assumido de Dylan Dog.
Neste tipo de estrutura de produção, o papel do argumentista é bem mais importante do que o do desenhador, que vai variando, com vários desenhadores a trabalharem em simultâneo na série, de maneira a assegurarem a produção de quase cem páginas por mês, que podem levar perto de um ano a desenhar. Por isso, embora ele diga que se identifica mais com os monstros, Tiziano Sclavi, que durante a primeira década da série assegurou a escrita da maioria dos argumentos de Dylan Dog, supervisionando os restantes, tal como Gustave Flaubert, que dizia que a Madame Bovary era ele, é Dylan Dog. Daí que, com o gradual afastamento de Sclavi da escrita da série, motivado pela dificuldade cada vez maior em escrever novas aventuras para o (anti)herói que criou, a mesma tenha decaído em popularidade (e qualidade).
Coube ao editor Mauro Marcheselli a espinhosa tarefa de encontrar novos argumentistas capazes de preencher o vazio deixado por Sclavi. Um deles foi precisamente Roberto Reccchioni. Argumentista, desenhador, jornalista e escritor, Recchioni trabalhou para as principais editoras italianas, da Disney à Bdb Presse, onde se estreou, passando pela Panini, Eura Editoriale, Comic Art, Rizzoli, Magic Press e Bonelli, onde, para além da série Dylan Dog, escreveu argumentos para Tex, Gli Orfani e Le Storie. Antes de Mater Morbi, Recchioni tinha escrito apenas duas histórias de Dylan Dog: uma longa, ilustrada por Bruno Brindisi para a série mensal, e uma curta a cores, que Massimo Carnevale ilustrou para o número inaugural da nova revista Dylan Dog Color Fest.
Foi Marcheselli que era leitor assíduo do blogue de Recchioni onde ele descrevia os seus frequentes problemas de saúde, que o levaram por diversas vezes a uma cama de hospital, que se lembrou que ele, que estava sempre doente, seria a pessoa ideal para escrever uma aventura de Dylan Dog sobre doenças. Um tema que ia de encontro ao que o próprio Recchioni queria fazer na série pois, como refere numa entrevista: “creio que para se fazer algo de relevante com o personagem de Sclavi, é necessário que alguém sofra. Pode ser o argumentista, o desenhador, ou o personagem, mas pelo menos um dos três tem de passar realmente mal, expor-se, arriscar-se, sofrer. E essa história, que acabaria por ser Mater Morbi, proporcionava-me a oportunidade de passar realmente mal.”
Para dar vida aos temores mais íntimos de Recchioni, que usou a figura fantástica de Mater Morbi para tratar de forma metafórica temas bem reais como a solidão dos doentes e o encarniçamento terapêutico, estava o desenhador romano Massimo Carnevale que, para além da história curta para o Dylan Dog Color Fest #1, já tinha trabalhado com o argumentista em John Doe e Detective Dante, duas séries co-criadas por Recchioni. Apesar de uma agenda sobrecarregada pelas suas colaborações para o mercado americano, para onde realizou ilustrações para as capas de séries como Y the Last Man, Northlanders e Conan, the Barbarian, Carnevale não resistiu ao desafio de acompanhar o escritor nesta dura viagem ao coração da dor, onde reina Mater Morbi, a divindade sombria que se alimenta do sofrimento dos doentes, realizando um trabalho gráfico excepcional.
Resultado de um processo de colaboração quase orgânico entre o desenhador e o argumentista, apenas perturbado por divergências quanto à aparência de Mater Morbi, que Carnevale via mais como uma mistura entre “uma criatura de Giger e a Rainha dos Borg”, Mater Morbi veria a luz do dia em Dezembro de 2009, no #280 da série mensal Dylan Dog, com sucesso imediato.

O impacto de Mater Morbi não se restringiu ao mundo dos comics e a história esteve na origem de uma acesa polémica na comunicação social, quando a subsecretária da Saúde da altura, Eugenia Rocella, que não tinha lido o livro, veio acusar Mater Morbi de ser uma “ode à eutanásia e ao culto do super-herói”, acabando mais tarde por se retractar na primeira página do Corriere della Sera, admitindo que a história tocava temas de discussão muito importantes, sobretudo em termos da relação médico/paciente. Depois disso, Mater Morbi teve direito a uma edição de luxo da editora Bao (que serviu de base a esta edição da Levoir) e foi publicada em diversos países, incluindo nos E.U.A., onde arrebatou o Ghastly Award para Melhor Novela Gráfica de Terror publicada em 2016.
Mas para Recchioni, que é actualmente o editor responsável pela renovação da série Dylan Dog, o mais importante foi a reacção de Tiziano Sclavi, que disse que a história era verdadeiramente assustadora e quis conhecê-lo. Como Recchioni recorda no livro Dylan Dog Diary, publicado por ocasião do trigésimo aniversário da série: “A coisa que me deixou mais orgulhoso foi que, depois de ter lido a história, Tiziano Sclavi quis conhecer-me e deu-me os parabéns.
Mater Morbi, para mim, mudou tudo. E, de alguma maneira, tendo em conta o cargo que ocupo actualmente, mudou muita coisa também para Dylan Dog.”

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

As 10 Melhores BDs que li em 2016 - Parte 1


Cumprindo a tradição, aqui vos deixo, em duas partes, a lista das melhores Bandas Desenhadas que li pela primeira vez em 2016. Mais uma vez, a escolha não foi fácil e quase me deu vontade de criar uma categoria para as melhores BDs que reli em 2016, única maneira de incluir o Sandman de Neil Gaiman e o Miracleman, de Alan Moore (o "escritor original") nas minhas leituras de 2016.
Quanto às escolhas, apresentadas, como sempre, por ordem alfabética, deixam de fora uma obra-prima como o Le Rapport de Brodeck, de Larcenet, apenas porque o primeiro volume já tinha estado na minha lista de 2015.  Do mesmo modo, alguns dos argumentistas presentes nesta lista, (como Jason Aaron, El Torres, ou Tom King) poderiam estar representados por outros títulos, mas foi necessário escolher um título por autor.
Para a semana, fica prometida a segunda e última parte da lista.


1 - Black Dog: The Dreams of Paul Nash, Dave McKean, Dark Horse
Trabalho de encomenda no âmbito do projecto 14-18 Now, para comemorar o trabalho do pintor Paul Nash sobre a I Guerra Mundial, Black Dog é uma singular biografia do pintor, que parte das memórias e dos sonhos de Paul Nash para reconstituir a vida e a obra do artista. Fazendo juz ao seu imenso talento e versatilidade, McKean dá um verdadeiro show visual, fazendo uma muito conseguida síntese entre a arte de Nash e o seu próprio traço. Um regresso em grande forma de McKean à BD!




2 - Dylan Dog: Mater Morbi/ Dopo un Lungo Silenzio, Roberto Recchionni, Tiziano Sclavi, Massimo Carnevale, G. Casertano, Bonelli
No ano que passou tive ocasião de ler bastantes histórias de Dylan Dog e aí houve duas que sobressaíram, até pelas suas características bem distintas, razão porque neste caso optei por uma dupla nomeação. Mater Morbi, escrita por Roberto Recchionni, o actual responsável pela coordenação da série Dylan Dog é uma reflexão sombria sobre a doença e das melhores histórias do detective do pesadelo das últimas décadas, muito bem ilustrada por Massimo Carnevale. Já Dopo un Longo Silenzio assinala o regresso de Tiziano Sclavi à série que criou, numa história eivada de melancolia, em que os elementos fantásticos dão lugar à dura realidade do alcoolismo, quando Dylan Dog, um ex-alcoólico, volta a ceder ao vício.



3 - House of Penance, Peter Tomasi e Ian Bertram, Dark Horse

Uma das maiores surpresas de 2016, House of Penance parte de uma história real, já explorada por Alan Moore na série Swamp Thing: a casa Winchester, mandada construir por Sarah Winchester, a viúva de William Winchester, o milionário da indústria de armamento, criador das célebres espingardas Winchester. Uma mansão que se manteve em construção durante 38 anos, 24 horas por dia, até à morte de Sarah. Esta casa em perpétua ampliação, sem obedecer a um qualquer plano arquitectónico, que Sarah Winchester considerava como o meio de acalmar as almas de todas as pessoas mortas pelas espingardas Winchester, acaba por ser uma das personagens principais da história imaginada por Peter Tomasi e ilustrada num estilo extremamente original por Iam Beltram, num traço grandemente detalhado e caricatural, que faz lembrar um pouco o brasileiro Rafael Grampá, muitíssimo bem servido pelas cores de Dave Stewart.



4 - La Huela de Lorca, Carlos Hernandez e El Torres, Norma
Descobri o trabalho e a versatilidade de El Torres na última Comic Con, onde esteve presente com o livro Hoje Aconteceu-me uma Coisa Brutal, uma bem construída e eficaz história de super-heróis Made in Spain. depois disso li El Fantasma de Gaudi, uma belíssima homenagem à arquitectura de Gaudi, disfarçada de história policial clássica na melhor tradição franco-belga, mas o livro que me encheu as medidas foi este La Huela de Lorca, uma singular biografia do poeta espanhol contada através do olhar daqueles que o conheceram. Para além do excelente traço e de uma eficaz uilização da bicromia, Carlos Hernandez revela um excelente sentido de planificação, com algumas soluções narrativas muito bem conseguidas, especialmente nas sequências protagonizadas por Dali e Buñel.







5 - Le Retour de la Bondrée, Aimée De Jongh, Dargaud
Esta novela gráfica de estreia de Aimée De Jongh, uma jovem autora holandesa, foi uma belíssima surpresa, não tanto em termos gráficos, onde o trabalho de De Jongh é eficaz, sem grandes rasgos, mas sobretudo pela excelente história de um livreiro prestes a fechar uma etapa da sua vida, muitíssimo bem contada, com um final que se revela surpreendente, apesar das pistas estarem todas lá, ao alcance do leitor mais perspicaz. Uma bela estreia de uma autora a seguir com atenção.

sábado, 3 de dezembro de 2016

NOS TRINTA ANOS DE DYLAN DOG - Parte III: Uma Nova Era


Como prometido, aqui fica a parte final do artigo sobre o trigésimo aniversário da série Dylan Dog, que saiu inicialmente na revista Bang! numa versão bastante mais reduzida. A primeira parte do texto pode ser lida aqui e a segunda, aqui. Espero que gostem  do artigo e que em breve possamos ver Dylan Dog editado em Portugal. Afinal, os principais trabalhos de Alan More também só tiveram direito a edição nacional, trinta ou mais anos depois da sua publicação original...

Embora continuasse a ser a segunda mais popular série da Bonelli, logo a seguir ao cowboy Tex, a popularidade do detective do oculto foi caindo e a própria editora apercebeu-se de uma certa estagnação criativa, que levou a uma remodelação da série, coordenada por Roberto Recchioni. Recchioni que tinha sido o argumentista de Mater Morbi, história magnificamente ilustrada por Massimo Carnevale, que é considerada como uma das melhores aventuras de Dylan Dog da última década, contou com a bênção e supervisão do próprio Sclavi, no seu projecto de renovação da série.
Uma renovação de que os leitores italianos puderam ver os primeiros resultados em finais de Outubro de 2013, a partir do Dylan Dog nº 338, em que o inspector Bloch finalmente se reforma e vai viver para Wickedford, uma pequena e pacata cidade de província que, como seria de esperar nesta série, esconde terríveis segredos. A substituir Bloch na Scotland Yard temos o inspector Tyron Carpenter, que para além de ser contra a colaboração informal de Dog com a polícia, o que vem introduzir um elemento de tensão novo na série, conta com uma assistente paquistanesa e muçulmana, Rania Rakim que usa véu, dando um toque mais multicultural a uma série em que as novas tecnologias têm uma presença cada vez mais visível, sendo evidente a preocupação dos escritores em adaptarem o mais possível as aventuras de Dylan Dog à realidade do mundo contemporâneo. Assim não só o próprio Dylan, sempre avesso a essas tecnologias, passa a usar um smartphone, como ganha um novo Némesis em John Ghost, um milionário proprietário da Wolfconn, a empresa que domina o mercado dos smartphones, (ou seja, uma espécie de versão maléfica de Steve Jobs) que surge pela primeira vez no nº 341, onde há ainda espaço para uma curiosa homenagem a Alan Moore.
Também é visível uma evolução a nível dos argumentistas, com mais mulheres a juntarem-se a Paola Barbato, que se vai afirmando como a principal escritora da série. É o caso de Sílvia Mericone e Rita Poretto, duas fãs da série, que cresceram a ler Dylan Dog e que agora escrevem as suas aventuras.
Outra das características da série, é o multiplicar de títulos, que faz que todos os meses haja dois, ou mais títulos novos de Dylan Dog à venda nos quiosques italianos. Assim, além da série mensal e das suas reedições, os fãs da fase anterior à actual remodelação têm a revista Maxi Dylan Dog Old Boy, um título quadrimestral de quase 300 páginas, com histórias passadas na época em que Bloch ainda estava no activo. Outro título interessante é o trimestral Dylan Dog Color Fest, uma edição temática a cores, composta por histórias curtas, normalmente desenhadas por artistas pouco habituais na série, como o argentino Enrique Breccia, ou o italiano Giuseppe Camuncoli, que trabalha para a Marvel. Outro título que foi reformulado, foi o clássico Almanaque della Paura, uma publicação anual que foi substituída pelo Dylan Dog Magazine. Também um dos títulos mais antigos, o Dylan Dog Speciale, publicado anualmente, abrigou nos últimos dois anos a história Pianeta dei Morti, uma saga iniciada no Dylan Dog Color Fest, escrita por Alessandro Bilotta, cuja acção se passa vinte anos no futuro, num planeta ameaçada por uma grande invasão de zombies, de que Groucho, que Dylan Dog não teve coragem de matar, foi o paciente zero.
Trinta anos depois da sua primeira aventura, Dylan Dog, está presente em força nos quiosques e nas colecções dos jornais, ao mesmo tempo que ganha um espaço cada vez maior nas livrarias. Nos jornais, depois do relativo fiasco da Collezione Storica a Colori, lançada com os jornais La Reppublica e L’Espresso, que recolhia por ordem cronológica, em versões coloridas, as histórias da revista original (e que já tinham sido reeditadas por diversas vezes, em diferentes formatos, o que pode explicar a fraca aderência dos leitores), a parceria com La Gazzetta dello Sport, iniciada com a colecção I Colori della Paura, que recolhe as histórias de Dylan Dog Color Fest , correu bastante melhor, tendo terminado no nº 54, por já não haver mais histórias para publicar, de tal maneira que o maior jornal desportivo italiano voltou imediatamente a colaborar com a Bonelli numa nova colecção Il Nero della Paura, que começou a sair em Julho deste ano, no mesmo dia em que terminou a colecção anterior. Nas livrarias, onde as histórias de Dylan Dog já estavam presentes através das recolhas em capa dura da editora Mondadori e das luxuosas edições da Bao Publishing, juntam-se agora as edições da própria Bonelli de algumas obras seleccionadas, como Dopo un Lungo Silenzio, título que assinala o regresso do seu criador, Tiziano Sclavi à escrita da série.
E o regresso de Sclavi é uma das melhores notícias deste 30º aniversário, pois Dopo un Lungo Silenzio, ilustrada por Giampero Casertano e lançada em finais de Outubro durante o Festival de BD de Lucca, é uma belíssima e sombria reflexão sobre o alcoolismo, que revela um Sclavi em grande forma e bastante contido nas referências à cultura Pop. Uma história incontornável, que teve direito a três edições diferentes: a edição dos quiosques com uma capa completamente branca, uma edição de luxo para as livrarias, que inclui o argumento completo de Sclavi e uma terceira edição, exclusiva da cadeia de Livrarias da Mondadori. E a editora Bonelli não deixou de comemorar devidamente a ocasião, através de uma série de iniciativas, como Dylan Dog Presenta, um ciclo de cinema em articulação com a Universal Itália, que culmina com a exibição de 30 Anni di Incubi, um documentário sobre a série, na noite de Halloween, uma nova adaptação radiofónica das aventuras de Dylan Dog, que incluirá também a mais recente história escrita por Sclavi e uma Dylan Dog Experience, (uma experiência interactiva, aproveitando um palácio abandonado no centro de Lucca que vai ser transformado em Hotel) apresentada também em Lucca.
 Foi também em Lucca que foi revelada a alteração no responsável pelas capas da edição mensal, com Angelo Stano, que substituiu Claudio Villa a partir do nº 41, a dar lugar a Gigi Cavenago, ao fim de 26 anos e mais de 300 capas depois. Mas a grande novidade do Festival, foi o anúncio de que Tiziano Sclavi está a trabalhar numa nova série de Dylan Dog, chamada I Racontti di Domani, a lançar em 2017.
Ou seja, não restam dúvidas que trinta anos depois, Dylan Dog está mais vivo do que nunca e em muito boas mãos!