CINCO ANOS DA NOVELA GRÁFICA NO PÚBLICO
Tudo começou em 2015, com a publicação pelo Público, em colaboração com a Levoir, da primeira Colecção dedicada à Novela Gráfica. Uma aposta inovadora, num estilo de Banda Desenhada com um pendor mais literário, longe das características bem codificadas das anteriores colecções de BD franco-belga e Comics de super-heróis que o jornal Publico vinha editando desde 2003.
Iniciada, naturalmente, com Um Contrato com Deus, de Will Eisner, título que muitos consideram como o fundador do género, esta colecção podia ser perfeitamente definida por um único termo: liberdade. Liberdade temática, de registo gráfico, de formato, de número de páginas, numa utilização plena das imensas possibilidades da Banda Desenhada para fazer aquilo que os autores melhor sabem e querem fazer: contar histórias. Histórias que podiam ser autobiográficas, adaptações de obras literárias, biografias, de terror, de fantasia, de crítica social, de guerra, poéticas, ou profundamente humanas. Tudo dependia da vontade e do talento dos autores.
Autores vindos dos quatro cantos do Planeta, numa demonstração de diversidade, que ficou bem patente logo na primeira série, que incluía americanos como Eisner e Crumb, franceses como Moebius, Baudoin e Tardi, sul-americanos como Jodorowsky, Oesterheld, Breccia e Danilo Beiruth, espanhóis como Altarriba e Kim, para além do português Miguel Rocha, do suíço Cosey e do japonês Taniguchi, com estes dois últimos a repetirem presença em posteriores colecções, como de resto aconteceu também com Moebius, Tardi, Altarriba e Kim.
O sucesso junto dos leitores – que não se limitou aos coleccionadores habituais de BD, ajudando a criar um novo tipo mais alargado de público com interesses culturais mais abrangentes - e o reconhecimento traduzido pelos prémios atribuídos pelos principais eventos nacionais de BD, como o Festival da Amadora e a Comic Con, mostraram que esta era uma aposta certa e com futuro. Por isso, ao longo das colecções seguintes manteve-se a aposta na diversidade e na qualidade, recuperando clássicos como Mort Cinder, de Orsterheld e Breccia, V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd (que esteve em Lisboa para o lançamento do livro), Ronin, de Frank Miller, Aqui Mesmo, de Tardi e Forrest e O Último Recreio, de Altuna e Trillo, ao mesmo tempo que se mostrava aos leitores a extraordinária pujança da actual Novela Gráfica espanhola, bem representada em autores que se tornaram recorrentes nestas colecções, como Paco Roca, Kim, Miguelanxo Prado e Bartolomé Seguí.
Mas a aposta na Novela Gráfica não se ficou por estas colecções anuais. Está também patente em títulos pontuais, como A Casa, de Paco Roca, ou a biografia de Billie Holliday, de Munõz e Sampayo, entre outros. Além disso, inspirados pelo sucesso das colecções do Público e da Levoir, a maioria das editoras generalistas, incluindo aquelas com pouca ou nenhuma tradição na edição de BD, como a Porto Editora e a Relógio de Água, começaram também a publicar Novelas Gráficas, termo que já está perfeitamente enraizado no vocabulário dos leitores.
Na colecção de 2019, onde os autores em estreia são mais do que os que regressam, mantém-se a aposta na diversidade, bem patente no facto de albergar autores de sete nacionalidades diferentes, dois dos quais são mulheres. Uma presença feminina que acontece pela segunda vez, depois de Zeina Abirached na Colecção de 2016. E se em termos de género há uma evidente melhoria em relação às colecções anteriores, em termos de nacionalidades, para além de diversos autores espanhóis e americanos, temos uma iraniana e uma belga, um francês, um suíço, um belga e dois escoceses.
A abrir a Colecção, temos o regresso de um dos mais populares e prestigiados autores espanhóis da actualidade, que esta colecção ajudou a tornar conhecido dos leitores portugueses, Paco Roca, com o seu mais recente livro, O Tesouro do Cisne Negro, uma história inspirada no caso real da pilhagem dos destroços de um galeão espanhol afundado no século XVIII ao largo do Algarve. Mas Paco Roca não é o único regresso - num alinhamento onde não faltam as estreias, que serão objecto de análise num texto à parte. Também de volta está El Torres, o argumentista de O Fantasma de Gaudí, presente com O Rasto de Garcia Lorca, uma biografia do poeta, visto por aqueles que o conheceram e ilustrada por Carlos Hernandéz.
Outro regresso é o de Bartolomé Seguí, desenhador de Histórias do Bairro e Tatuagem, que agora, ao lado do escritor Felipe Hernandéz Cava assina As Serpentes Cegas, um policial negro passado em Nova Iorque, com a Guerra Civil espanhola como pano de fundo, que valeu à dupla o Prémio Nacional del Comic em 2009. Igualmente de retorno está Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Quebrada, mas que desta vez não conta com a presença de António Altarriba, seu cúmplice habitual, aventurando-se a solo com Neve nos Bolsos, um relato autobiográfico sobre a sua experiência com imigrante na Alemanha durante os anos 60.
Finalmente, Alfonzo Zapico, o autor de Gente de Dublin, a biografia de James Joyce que foi um dos grandes sucessos da colecção de 2018, está de volta com Café Budapeste, uma história tocante sobre a convivência entre árabes e judeus na cidade de Jerusalém, antes e depois do reconhecimento do Estado de Israel.
AUTORES EM ESTREIA NESTA QUINTA SÉRIE
Se, com a honrosa excepção de A Febre de Urbicanda todos os restantes títulos desta quinta colecção são inéditos em Portugal, isso não invalida que alguns dos seus autores sejam velhos conhecidos dos leitores portugueses, mesmo que só agora se estreiem na colecção Novela Gráfica.
É o caso da autora e realizadora Marjane Satrapi, bem conhecida por Persépolis, a sua autobiografia em BD e que chega ao catálogo da Levoir com Frango com Ameixas, obra baseada na história de um seu tio-avô e que, tal como Persépolis, também teve direito a uma adaptação cinematográfica, que contou com a portuguesa Maria de Medeiros como protagonista. O mesmo sucede com a dupla Schuiten e Peeters, cuja série As Cidades Obscuras teve a maioria dos seus títulos editados em Portugal, onde os seus autores já estiveram por diversas vezes, mas raros são os que se encontram ainda disponíveis. Não é o caso de A Febre de Urbicanda, um dos títulos mais emblemáticos da série, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa numa cuidada edição definitiva, com dezoito páginas inéditas.
Bem conhecidos dos leitores e com vasta presença no catálogo da Levoir, são Grant Morrison e Frank Quitely, autores de WE3 e All Star Superman, que se estreiam na colecção de 2019 com Flex Mentallo: Herói do Mistério, uma reflexão sobre os super-heróis com um toque meta narrativo, tão característico de Morrison.
Igualmente com obra publicada em Portugal, estão os americanos Daniel Clowes e Joe Sacco. O primeiro, autor do livro Mundo Fantasma – que deu origem a um filme protagonizado por Scarlett Johansson - apresenta-se nesta colecção com uma das suas obras mais emblemáticas, o surreal e “lynchiano” Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro história pré-publicada em capítulos na revista Eightball, que valeu a Clowes o Eisner de Melhor Escritor/Artista em 200 e 2002. Já o segundo, autor de Palestina, está presente com Goradze: Área de Segurança, mais uma das suas reportagens de guerra, género de que é claramente o nome mais representativo, desta vez sobre o conflito na ex-Jugoslávia.
Resta falar dos autores que têm a sua estreia absoluta em Portugal nesta colecção. Por ordem de entrada em cena na colecção, temos Guillem March, autor espanhol com trabalho publicado no mercado francês e americano, onde trabalhou em vários títulos do universo Batman, que se estreia com Monika, um sensual triller psicológico, escrito pela escritora belga Thilde Baroni, que assim entrou de forma fulgurante na BD.
Estreia absoluta – em todos os sentidos – é a do suíço Thomas Ott com O Número 73304-23-4153-6-96-8, primeiro título completamente sem diálogos nestes cinco anos de história da colecção Novela Gráfica (O Idiota, de André Diniz, esteve lá perto…) e que foi também a primeira novela gráfica de fôlego de um autor especializado em histórias curtas, que é também músico e cineasta e que, utilizando a técnica de grattage – em que o desenho é raspado sobre uma página coberta de tinta negra, criando uma imagem em negativo - cria páginas únicas e de grande impacto visual e narrativo.
Finalmente, Dias Sombrios assinala a estreia em Portugal de uma figura histórica da BD espanhola do século XX. O veterano Juan Escandell, autor com uma carreira de mais de cinquenta anos, pertencente à mítica escola da editora Bruguera – companhia que esteve em destaque no livro O Inverno do Desenhador, de Paco Roca- e que trabalhou com Victor Mora em Capitan Trueno e que aqui ilustra um romance do seu conterrâneo Lluís Ferrer Ferrer, baseado no caso real de um avião alemão abatido ao largo de Ibiza em 1944.
CINCO TEMAS EM DESTAQUE
Nesta quinta colecção de Novelas Gráficas, são também cinco os temas em que se podem encaixar os títulos que a compoem, mesmo que essas categorias, como veremos, não sejam exactamente estanques.
BIOGRAFIA – Nesta categoria enquadra-se, naturalmente, No rasto de García Lorca, de El Torres e Carlos Hernández, em que momentos-chave da vida do malogrado poeta, são narrados na perspectiva de quem os testemunhou, como peças de um puzzle que juntas, traçam a imagem de um homem singular. Também Frango com Ameixas, de Marjane Satrapi, para além da dimensão autobiográfica, não deixa de ser uma biografia do tio-avô da autora, o músico Nasser Ali, mesmo que se centre mais na sua morte, do que propriamente na sua vida.
CRIAR NOVOS MUNDOS – É o que fazem Grant Morrison e Frank Quitelly em Flex Mentallo, em que heróis e vilões desenhados por uma criança ganham vida num mundo distópico, mas com grandes semelhanças com o que conhecemos. Uma ligeira extrapolação também presente em Monika, de Tilde Barboni e Guillem March, em que problemas bem reais como o terrorismo religioso, convivem com elementos de ficção científica, como um androide que adquire consciência própria. Mas o exemplo mais óbvio dessa criação de novos mundos é A Febre de Urbicanda, de Benoit Peeters e François Schuiten, magnífica porta de entrada para o universo das Cidades Obscuras, mundo utópico com grandes semelhanças e pontos de passagem com o nosso, mas em versão steampunk e com uma série de cidades-estado em que a arquitectura condiciona a todos níveis, a própria cidade, o dia-a-dia dos seus habitantes e a evolução da própria história.
BASEADO EM FACTOS REAIS – O melhor exemplo possível de uma história baseada em factos reais, é O Tesouro do Cisne Negro, de Guillermo Corral e Paco Roca, que parte da pilhagem de um galeão espanhol, naufragado na costa portuguesa, por parte de uma empresa americana de caçadores de tesouros, para, mudando os nomes dos protagonistas e do próprio barco, contar uma história fascinante, em que, qualquer semelhança com a realidade é bem mais do que uma simples coincidência… Também Dias Sombrios, de Lluís Ferrer Ferrer e Juan Escandel parte de um facto histórico, o derrube de um avião alemão em frente a Portinatx, perto de Ibiza, nas Ilhas Baleares, para criar uma história de ficção que extrapola sobre o destino do seu piloto.
Obviamente também baseado em factos reais é Neve nos Bolsos o relato autobiográfico de Kim, sobre a sua experiência pessoal como imigrante na Alemanha, que nos conta não só a sua própria vivências, mas as experiências de muitos outros imigrantes com quem se cruzou.
REPORTAGEM DE GUERRA – Melhor exemplo possível de reportagem de guerra é Goradze: Área de Segurança, assinado por Joe Sacco, o maior nome a nível mundial neste registo. Embora se trate claramente de uma obra de ficção, Café Budapeste, de Alfonzo Zapico, pela forma rigorosa e bem documentada como descreve as tensões étnicas e religiosas que afectaram o dia-a-dia dos habitantes de Jerusalém, após o reconhecimento do estado de Israel, também se pode enquadrar nesta categoria, pois todos sabemos como esses ódios e tensões contribuíram para um estado de guerra que se mantém aceso até hoje, o mesmo sucedendo, de certo modo, com Dias Sombrios, que parte de um acontecimento real da II Guerra Mundial, para construir uma história de ficção..
REINVENÇÃO DE GÉNEROS CLÁSSICOS – Nesta colecção não faltam exemplos como um género perfeitamente codificado como o policial negro, pode ser reinventado das mais diversas maneiras. Veja-se As Serpentes Cegas, de Filipe Harnandéz Cava e Bartolomé Seguí, em que uma história de gangsters em Nova Iorque serve para falar da realidade da Guerra Civil espanhola. Também Como Uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, parte de uma estrutura vagamente policial, para uma perturbadora e surreal viagem ao lado mais sombrio do ser humano. Finalmente, também O Número 73304-23-4153-6-96-8, de Thomas Ott utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente inovadora.
A COLECÇÃO
1 – O Tesouro do Cisne Negro
04 de Julho
Argumento – Guillermo Corral Van Damme
Desenhos –Paco Roca
Maio de 2007. A principal empresa de caçadores de tesouros do mundo anuncia a descoberta, em águas do Atlântico, do maior tesouro submarino jamais encontrado. De acordo com a escassa informação difundida o tesouro provêm de um misterioso navio, o Cisne Negro.
No entanto, indícios apontam para que se trate na realidade de uma fragata espanhola afundada. Começa assim uma fascinante trama jurídica e política, cujas origens remontam a acontecimentos ocorridos há muitos séculos, na qual um pequeno grupo de funcionários estatais vai lutar na defesa da história e do património.
Inspirado em factos reais, presenciados pelo argumentista Gullermo Corral, o novo livro de Paco Roca é mais um exemplo do talento e versatilidade deste autor.
2 – Frango com Ameixas
11 de Julho
Argumento e Desenhos – Marjane Satapri
Nasser Ali Khan é um famoso músico que vive no Irão de 1958. Na sequência de uma discussão familiar, o seu tar, o instrumento de que é virtuoso e que é o seu bem mais precioso, é partido. Nenhum outro tar o irá satisfazer e Nasser vai perder o gosto pela música. Tomado de uma melancolia imensa, decide deixar-se morrer, levando-nos numa viagem às suas emoções, aos seus sonhos e à sua história pessoal, que se mistura com a do seu Irão natal num período conturbado da sua história.
Em Frango com Ameixas, livro vencedor do prémio de Melhor Álbum de Angoulême em 2005, Marjane Satrapi parte da história real do seu tio-avô para construir uma ficção fascinante..
3 – A Febre de Urbicanda
18 de Julho
Argumento – Benoit Peeters e François Schuiten
Desenhos – François Schuiten
Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes.
Reflexão fascinante sobre arquitectura e poder e um verdadeiro tratado sobre a narrativa sequencial, as Cidades Obscuras, de Schuiten e Peeters, são uma série incontornável da Banda Desenhada franco- belga, que tem na Febre de Urbicanda um dos seus títulos seminais, vencedor do prémio de Melhor Livro, No Festival de Angoulême de 1985.
4 – O Rasto de García Lorca
25 de Julho
Argumento – El Torres
Desenhos – Carlos Hernández
Através de histórias reais e testemunhos sobre o genial poeta, nesta novela gráfica descobrimos a marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram nos locais por onde passou: cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque. El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, alia-se ao ilustrador Carlos Hernández para reconstruir de forma tão subtil como marcante, a figura de Lorca através do olhar de quem partilhou a vida e a morte do poeta.
5 –Monika
01 de Agosto
Argumento – Thilde Barboni
Desenho – Guillem March
Monika, uma artista visual e performer, concorda em esconder Theo, um brilhante inventor prestes a construir um cobiçado andróide. Com a ajuda do seu amigo hacker, Monika investiga o desaparecimento da sua irmã. Ela é então arrastada para o submundo das "bailes mascarados", onde conhece e seduz Christian Epson, um carismático político que foi o último homem a ver Erika, a irmã desaparecida, cujo envolvimento com um grupo terrorista vai colocar em perigo a vida de Monika. Um triller movimentado e sensual, magnificamente ilustrado por Guillem March.
6 – Gorazde: Zona de Segurança
08 de Agosto
Argumento e Desenho – Joe Sacco
No final de 1995 e início de 1996, o repórter e autor de BD Joe Sacco viajou quatro vezes para Gorazde, uma área segura designada pela ONU durante a Guerra da Bósnia, que estava à beira da destruição por três anos e meio. Ainda cercados por forças sérvias da Bósnia, o povo maioritariamente muçulmano de Gorazde sofrera pesados ataques e severas privações para manter sua cidade, enquanto o restante do leste da Bósnia era brutalmente "purificado" de sua população não-sérvia. Desde que foi publicado pela primeira vez em 2000, Gorazde: Zona de Segurança foi reconhecido como um dos clássicos absolutos da novela gráfica de reportagem.
07 –Flex Mentallo: Herói do Mistério
15 de Agosto
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Frank Quitely
Antes ele era Herói da Praia ... e da Patrulha do Destino. Agora Flex Mentallo, o Homem do Mistério Muscular, regressa para investigar as relações sinistras de seu ex-companheiro, The Fact, e um misterioso astro do rock cuja conexão com Flex pode ser a chave para salvar os dois. Depois de reformular a Patrulha do Destino, na série da Vertigo que influenciou a actual série televisiva, Morrison junta-se ao seu habitual cúmplice Frank Quitelly, para explorar a história de um dos seus mais carismáticos elementos, Flex Mentallo.
08 – Dias Sombrios
22 de Agosto
Argumento – Lluís Ferrer Ferrer
Desenhos – Juan Escandel
Em 10 de janeiro de 1944, durante uma batalha aérea sobre a ilha de Ibiza, um avião britânico Bristol Beaufighter derrubou uma aeronave alemão Junkers Ju 88 que finalmente caiu na costa ao norte de Portinatx. Com base neste acontecimento real, o escritor Lluís Ferrer Ferrer construiu uma história de ficção, que anos mais tarde o veterano desenhador Juan Escandell, um dos nomes mais importantes da escola Bruguera, adaptou à Banda Desenhada nesta Novela Gráfica.
09 – Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro
29 de Agosto
Argumento e Desenhos – Daniel Clowes
Clay, o protagonista de Como uma Luva de Veludo moldada em Ferro parte em busca de produtores de um filme pornográfico em que pensou reconhecer a sua esposa, desaparecida alguns anos antes.
Com esta simples premissa como ponto de partida, Daniel Clowes constrói um road movie cerebral, que elimina qualquer fronteira entre o pesadelo e a realidade.
Nesse caos nocturno, Clowes leva o leitor a vislumbrar a sombra fugidia e arrepiante de um horror íntimo e universalmente compartilhado. Um dos mais importantes e perturbadores livros de um dos nomes maiores dos comics alternativos americanos.
10– As Serpentes Cegas
29 de Agosto
Argumento - Filipe Harnandéz Cava
Desenho – Bartolomé Segui
Nova Iorque, 1939. Um homem misterioso instala-se num pequeno hotel à procura de um certo Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita. Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto a destruir um túmulo com um martelo. Qual terá sido o motivo da fúria de Koch e onde se esconde ele? Duas perguntas para as quais o FBI também procura respostas...
Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de fundo, vencedora do Prémio Nacional del Comic em 2009.
11 – O Número 73304-23-4153-6-96-8
12 de Setembro
Argumento e Desenho – Thomas Ott
Ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado, um guarda da prisão encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números. No calor do momento, ele guarda-o no bolso. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam sua curiosidade.
Mas esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma maldição que o leva à loucura e à morte. Um triller surpreendente contado apenas pelo recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo, por um dos mais singulares criadores da BD europeia, o suíço Thomas Ott.
12 – Neve nos Bolsos
19 de Setembro
Argumento e Desenhos – Kim
Em outubro de 1963, o jovem Joaquim Aubert, ainda não conhecido como Kim, pede boleia numa estrada no sul de França. Ele deixou seus estudos em Belas Artes e tem um ano para começar o serviço militar, tempo que vai aproveitar para ganhar a vida na Alemanha. Joaquim chega a terras germânicas como tantos outros espanhóis que atravessaram a Europa à procura de trabalho. Através dos seus olhos e das suas memórias, vamos descobrir a vida desses expatriados da Espanha franquista.
Kim, o desenhador de A Arte de Voar e A Asa Rasgada, traça-nos este retrato autobiográfico da sua ida para a Alemanha e das vivências de outros espanhóis que emigraram com o mesmo objectivo, ganhar a vida.
13 – Café Budapeste
26 de Setembro
Argumento e Desenhos – Alfonso Zapico
Yechezkel Damjanich é um jovem violinista judeu que abandona uma Budapeste devastada pela II Guerra Mundial para ir viver para Jerusalém, onde vive o seu tio Yossef. Fugindo da miséria, ambos chegam à Palestina num momento político convulsivo, pouco antes de os ingleses deixarem a região. O Tio Yosef dirige o Café Budapeste, um lugar pitoresco perto da Cidade Velha, onde judeus, árabes, ocidentais coexistem... Um oásis efémero de harmonia onde as notas do violino de Yechezkel vão dar lugar ao estrondo dos obuses de Davidka, bombas árabes, ódio e destruição.
Publicado originalmente no jornal Público de 29/06/2019
terça-feira, 2 de julho de 2019
sexta-feira, 21 de junho de 2019
À Descoberta de Richard Corben
À DESCOBERTA DE RICHARD CORBEN
Vencedor do Grande Prémio de Angoulême, o mais importante Festival europeu de Banda Desenhada, em 2018, o americano Richard Vance Corben é um nome relativamente pouco conhecido em Portugal, lacuna que este artigo pretende ajudar a corrigir.
Nascido em Anderson, Missouri, em 1940, Corben fez a sua formação em Belas Artes no Kansas City Art Institute, onde se formou em 1965. Aí entrou em contacto com a cultura underground, e apesar de fazer BD desde a infância, foi na animação que começou a sua actividade profissional, depois de uma curta-metragem que realizou, ter chamado a atenção da agência de publicidade Calvin, que o contratou em 1965. Durante os nove anos que trabalhou na Calvin, assegurando diferentes aspectos da parte gráfica, desde ilustração de cartazes, storyboards e animações, Corben aproveitou o material da empresa para criar, durante os seus tempos livres, um filme chamado Neverwhere, misturando imagem real e animação, onde surge pela primeira vez Den, a sua personagem-fetiche, que irá recuperar para a BD. Este filme, que em 1968 lhe valeu um prémio da Japan Cultural Society, acabou por ser o seu último, pois nesta altura decidiu trocar a animação pela BD, fascinado com a liberdade permitida pelos Comics Underground, onde brilhavam nomes como Robert Crumb. Para além de publicar em diversos fanzines de outros editores, Corben decide auto-editar as suas próprias histórias na revista Fantagor, título que dará o nome à sua própria editora. Apesar da edição do Comic Underground ter entrado em crise em 1975, Corben foi ainda assim o desenhador Underground mais publicado, com cerca de 400 páginas produzidas entre 1970 e 1975, algumas delas assinadas com os pseudónimos Corbou e Gore, com destaque para títulos como Rowlf, ou The Beast of Wolfton, em que o seu fascínio por lobisomens e animais antropomorfizados, para além dos homens musculados e das mulheres com grandes mamas, é bem evidente.
É nessa altura que Corben publica aquela que foi uma das primeiras Novelas Gráficas de sempre. Bloodstar, uma adaptação de um romance de Robert E. Howard, o criador de Conan, publicada em 1976 pela editora Morning Star Press. Misturando de forma judiciosa o texto de Howard com as suas espectaculares imagens, Corben cria uma excelente adaptação, marcada pela tridimensionalidade e sensualidade das personagens e pela representação crua da violência. Infelizmente, por divergências com o editor, que lhe ficou com os originais, o que impede qualquer reedição, este é um trabalho quase desconhecido da maioria dos leitores, que foi editado pela última vez na Europa em meados dos anos 80.
Felizmente, o mesmo não sucedeu com os seus trabalhos para a editora Warren, editora especializada em revistas de terror, que prosseguiu a herança da EC comics, a mítica editora que formou leitores como Bernie Wrightson e o próprio Richard Corben. Entre 1970 e 1979, num espaço de pouco mais de oito anos, Corben ilustrou quarenta histórias para as revistas Eerie, Creepy, e Vampirella, da Warren Publishing, para além de mais de uma dezena de capas. Histórias de terror, escritas por escritores como Bruce Jones e Jan Strnad, com quem Corben colaborou desde os seus tempos dos comics underground, mas que incluem também adaptações de H. P. Lovecraft e sobretudo, de Edgar Alan Poe, autores a que, como veremos, Corben regressará por diversas vezes ao longo da sua carreira.
Para além da oportunidade de publicar ao lado de grandes desenhadores como Frank Frazetta, All Williamson, ou Bernie Wrightson, as revistas da Warren permitiram a Corben introduzir a cor no seu trabalho. Impressas num papel quase de jornal, estas publicações não possibilitavam uma boa reprodução da cor, mas Corben resolveu o problema criando o seu próprio sistema de coloração, em que fazia manualmente a separação das cores em quatro chapas, cuja sobreposição dava origem à cor final. Um sistema demorado e trabalhoso, mas com resultados tão espectaculares como surpreendentes, que conquistou imediatamente os leitores, mas sobretudo os outros desenhadores.
Entre esses desenhadores, estava o francês Jean Giraud, mais conhecido por Moebius, que não foi parco nos elogios, escrevendo: “lembro-me, eu e os meus companheiros da geração do Maio de 68, do choque que todos tivemos quando a primeira prancha de Richard Corben nos apareceu literalmente diante dos olhos… Richard “Mozart” Corben, pisou no meio de nós como um obelisco extraterrestre… ele reina desde há muito tempo sobre o campo movimentado e colorido da BD planetária como a estátua do conquistador, monólito estranho, visitante sublime, enigma solitário… Além disso, adoro as heroínas de BD dotadas de grandes mamas.”
Daí que, quando em 1975, Moebius, juntamente com Druillet, Jean-Pierre Dionet e Bernard Farkas criam a editora Humanoides Associés e a revista Metal Hurlant, Corben é o único autor estrangeiro a estar presente na revista desde o nº 1, primeiro com histórias do seu período Underground e, a partir do nº3, com Den, história que se tornará um dos marcos da Metal Hurlant, estando naturalmente presente no filme de animação Heavy Metal, que adapta algumas das histórias mais emblemáticas da revista, com Corben a colaborar com o animador Jack Stokes nessa sequência do filme.
Contando a história de um rapaz que vai parar a um mundo desconhecido, Neverwhere, onde se vê no corpo - que não era o dele - de um guerreiro musculado e careca, que deambula nu por um mundo desértico, povoado por estranhas e agressivas criaturas e mulheres voluptuosas, Den é o símbolo perfeito da obra de Corben, com um estilo único e um tratamento de cor que dão um tridimensionalidade às personagens, que parecem esculpidas, o que não anda longe da verdade, pois o desenhador realiza esculturas em plasticina das principais personagens, para as poder representar melhor de qualquer ângulo e com qualquer luz. Mas melhor do que eu, o crítico espanhol Manuel Garcia Quintana, define assim o estilo de Corben: ”as figuras de Corben parecem desproporcionadas, grotescas e até infantis. Mas examinando-as de forma atenta, vemos que não é assim, que há uma assombrosa proporção entre todos os elementos manejados por Corben, que a desenvoltura de que faz gala converte num dos desenhadores mais prestigiados de sempre. Para além de tudo isto, Corben tem uma imaginação transbordante para construir ambientes e situações.”
Para além das obras publicadas em França na Metal Hurlant, nos EUA pela Heavy Metal, em Espanha pela editora Toutain, e que o próprio Corben editou em livro nos E.U.A. na sua editora Fantagor, o estilo inconfundível de Corben começa a surgir em outros sítios, como na capa do disco Bat out of Hell, de Meat Loaf, ou no cartaz do filme Phantom of the Paradise, de Brian de Palma. E nesse tipo de imagem, tal como nas capas dos seus livros e nas ilustrações que fazia para revistas, é possível ver uma mistura de técnicas que vão desde a utilização da pintura a acrílico e a óleo e aerógrafo para os fundos, com resultados espectaculares.
Depois de um período de grande sucesso, evidente em livros como as continuações de Den, a versão das Mil e Uma Noites, com argumento de Jan Strnad, Jeremy Brood, e Mutant World, que dura toda a década de 80, as coisas começam a mudar nos anos 90 e em 1994 Corben é obrigado a fechar a sua editora Fantagor e vê-se numa situação financeira complicada, de que irá sair graças à venda das suas pranchas originais e através da colaboração com as grandes editoras como a DC e a Marvel. Tudo começa em 1996 com a série Batman Black & White, editada por Mark Chiarello, que contrata Corben e Strnad para escreverem uma história do Batman, que provavelmente quando este número da Bang! tiver chegado às lojas FNAC já terá saído em português pela Levoir na Colecção dedicada aos 80 anos do Batman.
Segue-se uma colaboração com Brian Azzarello na série Hellblazer, também já publicada em Portugal pela Levoir, continuada quando o editor Axel Alonso – que tinha juntado Corben e Azzarello em Hellblazer - troca a Vertigo pela Marvel, volta a juntar a dupla nas mini-séries Banner e Cage, ambas já publicadas em Portugal. Também para a Marvel, Corben ilustra Punisher: The End, com argumento de Garth Ennis, mas os seus grandes projectos para a “Casa das Ideias” foram os dois volumes da série Haunt of Horror, onde volta aos seus escritores de referência, Lovecraft e Poe.
No caso de Poe, Corben cria novas versões de contos que já tinha ilustrado anteriormente, como é o caso de The Raven, optando desta vez por uma adaptação menos literal. Como o próprio refere: “gostei de adaptar os contos de Poe para as revistas da Warren, mas tenho um lado demasiado esquizofrénico. Parte de mim quer fazer uma adaptação tão fiel quanto possível ao texto original. Outra parte de mim quer descolar do texto, partindo da ideia inicial para criar uma coisa mais pessoal.”
Outra vertente do trabalho mais recente de Corben, é a sua colaboração com Mike Mignola na série Hellboy, em que ilustra mais de uma dezena de histórias do herói criado por Mignola, a partir de argumentos deste. E, como podemos ver por um original do Hellboy de Corben, aqui reproduzido, os dois mundos fundem-se de forma harmoniosa. O jogo de sombras e a própria figura do Hellboy estão próximos do desenho de Mignola, enquanto que os cenários, os monstros e a vegetação, são puro Corben.
Para além de Hellboy, Corben tem publicado recentemente outros títulos na Dark Horse, como a mini-série Rat God, Spirits of the Dead, outra revisitação da obra de Poe, que inclui uma terceira versão de The Raven, com cores digitais do próximo Corben e da sua filha Beth Corben Reed, e Ragemoor, mantendo-se bastante activo apesar de estar cada vez mais perto dos 80 anos.
Indivíduo bastante reservado, que raramente dá entrevistas, nem se desloca a Festivais de BD, Richard Corben não tem tido a projecção que a sua obra justifica. Algo que esperemos que venha a mudar, graças ao Grande Prémio de Angoulême, atribuído por votação dos autores com livros publicados em França e à magnífica exposição que lhe foi dedicada, de que cujo catálogo saíram a maioria das ilustrações que acompanham este artigo.
Vencedor do Grande Prémio de Angoulême, o mais importante Festival europeu de Banda Desenhada, em 2018, o americano Richard Vance Corben é um nome relativamente pouco conhecido em Portugal, lacuna que este artigo pretende ajudar a corrigir.
Nascido em Anderson, Missouri, em 1940, Corben fez a sua formação em Belas Artes no Kansas City Art Institute, onde se formou em 1965. Aí entrou em contacto com a cultura underground, e apesar de fazer BD desde a infância, foi na animação que começou a sua actividade profissional, depois de uma curta-metragem que realizou, ter chamado a atenção da agência de publicidade Calvin, que o contratou em 1965. Durante os nove anos que trabalhou na Calvin, assegurando diferentes aspectos da parte gráfica, desde ilustração de cartazes, storyboards e animações, Corben aproveitou o material da empresa para criar, durante os seus tempos livres, um filme chamado Neverwhere, misturando imagem real e animação, onde surge pela primeira vez Den, a sua personagem-fetiche, que irá recuperar para a BD. Este filme, que em 1968 lhe valeu um prémio da Japan Cultural Society, acabou por ser o seu último, pois nesta altura decidiu trocar a animação pela BD, fascinado com a liberdade permitida pelos Comics Underground, onde brilhavam nomes como Robert Crumb. Para além de publicar em diversos fanzines de outros editores, Corben decide auto-editar as suas próprias histórias na revista Fantagor, título que dará o nome à sua própria editora. Apesar da edição do Comic Underground ter entrado em crise em 1975, Corben foi ainda assim o desenhador Underground mais publicado, com cerca de 400 páginas produzidas entre 1970 e 1975, algumas delas assinadas com os pseudónimos Corbou e Gore, com destaque para títulos como Rowlf, ou The Beast of Wolfton, em que o seu fascínio por lobisomens e animais antropomorfizados, para além dos homens musculados e das mulheres com grandes mamas, é bem evidente.
É nessa altura que Corben publica aquela que foi uma das primeiras Novelas Gráficas de sempre. Bloodstar, uma adaptação de um romance de Robert E. Howard, o criador de Conan, publicada em 1976 pela editora Morning Star Press. Misturando de forma judiciosa o texto de Howard com as suas espectaculares imagens, Corben cria uma excelente adaptação, marcada pela tridimensionalidade e sensualidade das personagens e pela representação crua da violência. Infelizmente, por divergências com o editor, que lhe ficou com os originais, o que impede qualquer reedição, este é um trabalho quase desconhecido da maioria dos leitores, que foi editado pela última vez na Europa em meados dos anos 80.
Felizmente, o mesmo não sucedeu com os seus trabalhos para a editora Warren, editora especializada em revistas de terror, que prosseguiu a herança da EC comics, a mítica editora que formou leitores como Bernie Wrightson e o próprio Richard Corben. Entre 1970 e 1979, num espaço de pouco mais de oito anos, Corben ilustrou quarenta histórias para as revistas Eerie, Creepy, e Vampirella, da Warren Publishing, para além de mais de uma dezena de capas. Histórias de terror, escritas por escritores como Bruce Jones e Jan Strnad, com quem Corben colaborou desde os seus tempos dos comics underground, mas que incluem também adaptações de H. P. Lovecraft e sobretudo, de Edgar Alan Poe, autores a que, como veremos, Corben regressará por diversas vezes ao longo da sua carreira.
Para além da oportunidade de publicar ao lado de grandes desenhadores como Frank Frazetta, All Williamson, ou Bernie Wrightson, as revistas da Warren permitiram a Corben introduzir a cor no seu trabalho. Impressas num papel quase de jornal, estas publicações não possibilitavam uma boa reprodução da cor, mas Corben resolveu o problema criando o seu próprio sistema de coloração, em que fazia manualmente a separação das cores em quatro chapas, cuja sobreposição dava origem à cor final. Um sistema demorado e trabalhoso, mas com resultados tão espectaculares como surpreendentes, que conquistou imediatamente os leitores, mas sobretudo os outros desenhadores.
Entre esses desenhadores, estava o francês Jean Giraud, mais conhecido por Moebius, que não foi parco nos elogios, escrevendo: “lembro-me, eu e os meus companheiros da geração do Maio de 68, do choque que todos tivemos quando a primeira prancha de Richard Corben nos apareceu literalmente diante dos olhos… Richard “Mozart” Corben, pisou no meio de nós como um obelisco extraterrestre… ele reina desde há muito tempo sobre o campo movimentado e colorido da BD planetária como a estátua do conquistador, monólito estranho, visitante sublime, enigma solitário… Além disso, adoro as heroínas de BD dotadas de grandes mamas.”
Daí que, quando em 1975, Moebius, juntamente com Druillet, Jean-Pierre Dionet e Bernard Farkas criam a editora Humanoides Associés e a revista Metal Hurlant, Corben é o único autor estrangeiro a estar presente na revista desde o nº 1, primeiro com histórias do seu período Underground e, a partir do nº3, com Den, história que se tornará um dos marcos da Metal Hurlant, estando naturalmente presente no filme de animação Heavy Metal, que adapta algumas das histórias mais emblemáticas da revista, com Corben a colaborar com o animador Jack Stokes nessa sequência do filme.
Contando a história de um rapaz que vai parar a um mundo desconhecido, Neverwhere, onde se vê no corpo - que não era o dele - de um guerreiro musculado e careca, que deambula nu por um mundo desértico, povoado por estranhas e agressivas criaturas e mulheres voluptuosas, Den é o símbolo perfeito da obra de Corben, com um estilo único e um tratamento de cor que dão um tridimensionalidade às personagens, que parecem esculpidas, o que não anda longe da verdade, pois o desenhador realiza esculturas em plasticina das principais personagens, para as poder representar melhor de qualquer ângulo e com qualquer luz. Mas melhor do que eu, o crítico espanhol Manuel Garcia Quintana, define assim o estilo de Corben: ”as figuras de Corben parecem desproporcionadas, grotescas e até infantis. Mas examinando-as de forma atenta, vemos que não é assim, que há uma assombrosa proporção entre todos os elementos manejados por Corben, que a desenvoltura de que faz gala converte num dos desenhadores mais prestigiados de sempre. Para além de tudo isto, Corben tem uma imaginação transbordante para construir ambientes e situações.”
Para além das obras publicadas em França na Metal Hurlant, nos EUA pela Heavy Metal, em Espanha pela editora Toutain, e que o próprio Corben editou em livro nos E.U.A. na sua editora Fantagor, o estilo inconfundível de Corben começa a surgir em outros sítios, como na capa do disco Bat out of Hell, de Meat Loaf, ou no cartaz do filme Phantom of the Paradise, de Brian de Palma. E nesse tipo de imagem, tal como nas capas dos seus livros e nas ilustrações que fazia para revistas, é possível ver uma mistura de técnicas que vão desde a utilização da pintura a acrílico e a óleo e aerógrafo para os fundos, com resultados espectaculares.
Depois de um período de grande sucesso, evidente em livros como as continuações de Den, a versão das Mil e Uma Noites, com argumento de Jan Strnad, Jeremy Brood, e Mutant World, que dura toda a década de 80, as coisas começam a mudar nos anos 90 e em 1994 Corben é obrigado a fechar a sua editora Fantagor e vê-se numa situação financeira complicada, de que irá sair graças à venda das suas pranchas originais e através da colaboração com as grandes editoras como a DC e a Marvel. Tudo começa em 1996 com a série Batman Black & White, editada por Mark Chiarello, que contrata Corben e Strnad para escreverem uma história do Batman, que provavelmente quando este número da Bang! tiver chegado às lojas FNAC já terá saído em português pela Levoir na Colecção dedicada aos 80 anos do Batman.
Segue-se uma colaboração com Brian Azzarello na série Hellblazer, também já publicada em Portugal pela Levoir, continuada quando o editor Axel Alonso – que tinha juntado Corben e Azzarello em Hellblazer - troca a Vertigo pela Marvel, volta a juntar a dupla nas mini-séries Banner e Cage, ambas já publicadas em Portugal. Também para a Marvel, Corben ilustra Punisher: The End, com argumento de Garth Ennis, mas os seus grandes projectos para a “Casa das Ideias” foram os dois volumes da série Haunt of Horror, onde volta aos seus escritores de referência, Lovecraft e Poe.
No caso de Poe, Corben cria novas versões de contos que já tinha ilustrado anteriormente, como é o caso de The Raven, optando desta vez por uma adaptação menos literal. Como o próprio refere: “gostei de adaptar os contos de Poe para as revistas da Warren, mas tenho um lado demasiado esquizofrénico. Parte de mim quer fazer uma adaptação tão fiel quanto possível ao texto original. Outra parte de mim quer descolar do texto, partindo da ideia inicial para criar uma coisa mais pessoal.”
Outra vertente do trabalho mais recente de Corben, é a sua colaboração com Mike Mignola na série Hellboy, em que ilustra mais de uma dezena de histórias do herói criado por Mignola, a partir de argumentos deste. E, como podemos ver por um original do Hellboy de Corben, aqui reproduzido, os dois mundos fundem-se de forma harmoniosa. O jogo de sombras e a própria figura do Hellboy estão próximos do desenho de Mignola, enquanto que os cenários, os monstros e a vegetação, são puro Corben.
Para além de Hellboy, Corben tem publicado recentemente outros títulos na Dark Horse, como a mini-série Rat God, Spirits of the Dead, outra revisitação da obra de Poe, que inclui uma terceira versão de The Raven, com cores digitais do próximo Corben e da sua filha Beth Corben Reed, e Ragemoor, mantendo-se bastante activo apesar de estar cada vez mais perto dos 80 anos.
Indivíduo bastante reservado, que raramente dá entrevistas, nem se desloca a Festivais de BD, Richard Corben não tem tido a projecção que a sua obra justifica. Algo que esperemos que venha a mudar, graças ao Grande Prémio de Angoulême, atribuído por votação dos autores com livros publicados em França e à magnífica exposição que lhe foi dedicada, de que cujo catálogo saíram a maioria das ilustrações que acompanham este artigo.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 26, em Maio de 2019
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segunda-feira, 17 de junho de 2019
Get Jiro 2: Sangue e Sushi
ANTHONY BOURDAIN EXPLORA O PASSADO DE JIRO
EM SANGUE E SUSHI
Get Jiro!: Sangue e Sushi
Argumento –Anthony Bourdain e Joel Rose
Desenho – Ale Garza
Sábado, 15 de Junho + 13,90 €
Depois do sucesso do primeiro Get Jiro! que chega precisamente hoje aos quiosques nacionais; Bourdain e Rose perceberam que ainda havia histórias para contar sobre o seu favorito Sushi Man. Foi por isso, que em 2015, decidiram lançar uma prequela, que chegará às bancas no próximo dia 15 de Junho: Get Jiro!: Sangue e Sushi.
Esta viagem ao passado de Jiro, que explica o motivo que o levou a instalar-se nos E.U.A e mostra a sua ligação à Yakuza, a Máfia japonesa, assinala o regresso de Bourdain a uma das suas paixões, a BD, agora num registo diferente.
"Eu até agora tenho tido a oportunidade de brincar com muitos brinquedos diferentes", diz Bourdain do seu trabalho em Get Jiro: Sangue e Sushi. "Ser capaz de voltar à minha adolescência e fazer uma revista de banda desenhada - especialmente uma realmente violenta, sexy e orientada para a comida - é o concretizar de um sonho inacabado."
Se no primeiro livro, Jiro era um herói misterioso, na linha do Homem Sem Nome, interpretado por Clint Eastwood que o inspirou, agora ficamos a conhecer melhor quem é Jiro. Além disso, graças a uma entrevista de Bourdain, ficamos a saber também qual a personagem real em que é baseado. Embora o nome o pareça indicar Jiro Ono, o protagonista do documentário Jiro Dream’s of Sushi, não foi a inspiração para a personagem de Jiro. Essa honra coube a Naomichi Yasuda - fundador do restaurante Sushi Yasuda em Nova Iorque e amigo de Bourdain - um homem habituado a lutar, com as mãos calejadas do Karaté, que depois de criar um dos melhores bares de sushi de Nova Iorque, decidiu regressar a Tóquio e começar tudo de novo.
Se o passado de violência aproxima Yasuda da personagem Jiro, mais uma vez a principal influência de Rose e Bourdain é o cinema. Mais concretamente o cinema de gangster japonês, os Yakuza, seja numa perspectiva ocidental, como no filme Tokio Rain, de Ridley Scott, ou na perspectiva japonesa, expressa em Battles Without Honor and Humanity, de Kinji Fukasaku (uma das principais influências de Quentin Tarantino para o filme Kill Bill) e na trilogia Kuroshakai, de Takashi Miike. Também em termos narrativos, a influência japonesa é evidente, com a narração a apostar muito mais na imagem do que nos diálogos, algo que fica bem patente nas doze páginas da sequência inicial, sem uma linha de diálogo.
Se Joel Rose continua a ajudar Bourdain a dar vida à sua história, no desenho, Langdon Foss dá agora lugar a Ale Garza, mantendo-se o espanhol José Villarubia, colaborador habitual de Alan Moore, nas cores. A mudança de desenhador foi propositada e tem a ver com o diferente tipo de história que o Bourdain queria agora contar. Como o próprio refere: “esta era mais uma história de género existente, por isso estávamos procura de um desenhador com um estilo de manga tradicional, que reflectisse a cultura pop japonesa, do que alguém capaz de criar um universo inteiro, que foi o que Langdon foi fundamental para fazer - todos os detalhes nesta LA distópica do futuro, na sua maioria eram dele. Mas esse não era o tipo de história que estávamos a fazer agora, queríamos um melodrama familiar protagonizado por jovens. Procurávamos um desenhador que pudesse encaixar perfeitamente num estilo particular de estética e de história.”
Esse desenhador é Ale Garza. Cujo estilo dinâmico e com claras influências do manga japonês, mostra facilmente porque o seu nome foi sugerido a Bourdain pelo editor Will Denis.
Última aventura de Jiro, Sangue e Sushi não seria a última incursão de Bourdain pela novela gráfica, pois o malogrado chef e o seu cúmplice Joel Rose assinaram ainda em 2018, Anthony Bourdain's Hungry Ghosts, uma adaptação de vários contos tradicionais japoneses, por um leque de artistas de peso. Mas essa é uma outra história, que esperemos que o sucesso de Get Jiro! permita também publicar em Portugal.
Publicado originalmente no jornal Público de 08/06/2019
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sábado, 8 de junho de 2019
Get Jiro! Vol 1: Todos Querem Apanhar o Jiro
ANTHONY BOURDAIN,
UM CHEF QUE TAMBÉM DAVA CARTAS NA BD
Get Jiro!: Todos Querem Apanhar o Jiro
Argumento –Anthony Bourdain e Joel Rose
Desenho – Langdon Foss
Sábado, 08 de Junho + 13,90 €
No momento em que se cumpre um ano sobre o seu falecimento, ocorrido a 8 de Junho de 2018, o Público e a Levoir evocam a memória de Anthony Bourdain, o famoso chef, viajante, escritor e realizador de programas televisivos de culinária, como No Reservations e Viagem ao Desconhecido, que o trouxeram mais de uma vez a Portugal, dando a descobrir uma faceta menos conhecida do seu talento multifacetado, a de criador de Banda Desenhada. Uma faceta que vem de longe, pois Bourdain conheceu Joel Rose, o co-argumentista deste livro, nos anos 80 quando o cozinheiro enviou uma BD a revista literária Between C and D, dirigida por Rose, história essa que foi rejeitada por Bourdain ser claramente melhor escritor do que desenhador…
E é precisamente essa faceta de Bourdain como escritor de novelas gráficas estará em destaque nos próximos dois sábados com a publicação das duas histórias protagonizadas por Jiro, o misterioso sushiman, Get Jiro!: Todos Querem Apanhar o Jiro e a sua prequela, Get Jiro!: Sangue e Sushi.
A história de Todos Querem Apanhar o Jiro, livro que assinalou a estreia de Bourdain na BD e logo no prestigioso catálogo da editora Vertigo, em mais um exemplo do sentido de oportunidade da editora Karen Berger, resume-se num simples parágrafo. Num futuro não muito distante, numa Los Angeles obcecada com a comida e em que chefs poderosos governam a cidade como se fossem senhores do crime e as pessoas são capazes de literalmente matar por um lugar no seu restaurante favorito, Jiro, um chef de sushi renegado e implacável, chega à cidade com ideias muito próprias.
E se esta história de um herói misterioso que oferece os seus serviços a dois chefes rivais para os colocar em guerra entre si, parecer estranhamente familiar ao leitor, é porque efectivamente o é. Trata-se de um ponto de partida com enormes semelhanças com o romance Red Harvest, escrito por Dashiell Hammett, que esteve na origem de duas obras-primas do cinema mundial, Yojimbo, do japonês Akira Kurosawa, que transpôs a história para o Japão do período feudal e Por um Punhado de Dólares, do italiano Sergio Leone, o mítico Western Spaguetti que inaugurou a trilogia do Homem Sem Nome, protagonizado por Clint Eastwood. Agora, Bourdain e Rose pegaram nesta história icónica e transpuseram-na para um futuro próximo, dando origem a uma novela gráfica que é uma crítica tão divertida quanto mordaz à cultura da comida e restauração e a uma sociedade obsessiva e que, se descontarmos o lado assumidamente exagerado, caricatural e hiperviolento, não estará assim tão longe do ambiente descrito por Bourdain em Kitchen Confidential, o seu livro de estreia.
Como o próprio declarou numa entrevista à revista Men’s Journal, a ideia para Get Jiro! nasceu quando Bourdain estava num restaurante de sushi de um amigo e dois idiotas ricos meteram um bocado grande de wasabi num prato de molho de soja e começaram a afogar ali as peças de sushi. Ao ver o ar desconfortável do seu amigo, Bourdain pensou: “Não era bom se lhes pudesse arrancar as cabeças à catanada? Não era bom se vivêssemos num mundo em que desrespeitar um bom sushi pudesse levar à tua morte e ninguém se ralasse com isso?”
Perguntas que têm resposta cabal e afirmativa neste livro, em que Bourdain e Rose contam com o traço caricatural e detalhado de Langdon Foss, cujo estilo evoca Geoff Darrow, colaborador habitual de Frank Miller e director de arte da trilogia Matrix.
O sucesso de Get Jiro!, que em 2012 entrou rapidamente para a lista de best sellers do New York Times, levou à criação de uma prequela, Get Jiro!: Sangue e Sushi, que nos mostra o passado de Jiro em Tóquio. Mas sobre isso, falaremos aqui no próximo sábado.
Publicado originalmente no jornal Público de 01/06/2019
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Batman 80 Anos 10 - Batman: 80 Anos de Aventuras
DE BOB KANE A TOM KING: 80 ANOS EM 8 HISTÓRIAS
80 Anos de Batman Vol 10
Batman: 80 Anos de Aventuras
Argumento – Vários Autores
Desenhos – Vários Autores
Quinta, 25 de Abril
Por + 11,90 €
A terminar com chave de ouro a colecção dedicada aos 80 anos de aventuras do Cavaleiro das Trevas, temos um volume antológico criado em exclusivo para esta colecção, que chega aos quiosques de todo o país no próximo dia 25 de Abril. Uma data simbólica para uma edição também simbólica, pelo modo como cobre o passado, presente e futuro do Homem-Morcego, em oito histórias representativas de diferentes fases da personagem.
Uma viagem no tempo, que começa com a origem do Batman pelos seus criadores originais, Bob Kane e Bill Finger, publicada em 1940 no nº 1 da revista Batman e prossegue pela fase de Sheldon Moldoff, através de Robin Morre ao Amanhecer, uma história escrita por Bill Finger, bem representativa do Batman dos anos 50 e 60, com intrigas mais próximas da ficção científica do que do policial e o alargar da Batfamília, aqui representada por Ace, o Batcão. A antologia continua com o regresso à dimensão mais sombria do Cavaleiro das Trevas nos anos 70, representada por duas histórias ilustradas por Neal Adams e Jim Aparo. A primeira, A Casa que Assombrou Batman, é escrita por Len Wein, o criador do Monstro do Pântano, apresentando um clima sobrenatural para uma intriga que tem uma explicação racional, mas que assenta como uma luva ao realismo heróico de Neal Adams, aqui contando com o veterano Dick Giordano na arte-final. Já O Cadáver que se Recusava a Morrer, traz-nos um dos melhores momentos da dupla Bob Haney/Jim Aparo na revista The Brave and the Bold, numa história em que um Batman em morte cerebral conta com a ajuda do Átomo para salvar uma mulher em perigo.
A Noite não tão Silenciosa da Harley Quinn é um pequeno divertimento de Natal escrito por Paul Dini, o criador da Harley Quinn e (muito bem) ilustrado por Neal Adams, que assim está presente nesta antologia com duas histórias separadas por mais de 40 anos.
Quem também repete a dose é Tom King, o actual escritor da principal revista do Cavaleiro das Trevas. Antes de se tornar um escritor premiado, com romances na lista de best-sellers do New York Times, Tom King trabalhou como agente da CIA, como oficial de operações de contra terrorismo, tendo estado destacado no Iraque após a queda de Saddam Hussein, experiência que lhe serviu de inspiração para o livro O Xerife da Babilónia, já publicado em Portugal pela Levoir. Tendo tido a ingrata missão de substituir Scott Snyder como escritor da revista principal do Batman, King tem-se saído com distinção desse desafio, conquistando tanto o público como a crítica, através de histórias plenas de humanidade, como as duas que fecham o último volume desta colecção. Alguns Desses Dias, em que King conta com a arte de Lee Weeks e Michael Lark, é uma belíssima história de amor. O amor entre Batman e a Catwoman, desde o seu primeiro até ao último beijo. Já em Força Verdadeira, uma pequena pérola de apenas três páginas, King conta com o basco Mikel Janin, um dos desenhadores habituais da série mensal, para explicar ao leitor o que realmente faz de Batman um herói.
80 Anos de Batman Vol 10
Batman: 80 Anos de Aventuras
Argumento – Vários Autores
Desenhos – Vários Autores
Quinta, 25 de Abril
Por + 11,90 €
A terminar com chave de ouro a colecção dedicada aos 80 anos de aventuras do Cavaleiro das Trevas, temos um volume antológico criado em exclusivo para esta colecção, que chega aos quiosques de todo o país no próximo dia 25 de Abril. Uma data simbólica para uma edição também simbólica, pelo modo como cobre o passado, presente e futuro do Homem-Morcego, em oito histórias representativas de diferentes fases da personagem.
Uma viagem no tempo, que começa com a origem do Batman pelos seus criadores originais, Bob Kane e Bill Finger, publicada em 1940 no nº 1 da revista Batman e prossegue pela fase de Sheldon Moldoff, através de Robin Morre ao Amanhecer, uma história escrita por Bill Finger, bem representativa do Batman dos anos 50 e 60, com intrigas mais próximas da ficção científica do que do policial e o alargar da Batfamília, aqui representada por Ace, o Batcão. A antologia continua com o regresso à dimensão mais sombria do Cavaleiro das Trevas nos anos 70, representada por duas histórias ilustradas por Neal Adams e Jim Aparo. A primeira, A Casa que Assombrou Batman, é escrita por Len Wein, o criador do Monstro do Pântano, apresentando um clima sobrenatural para uma intriga que tem uma explicação racional, mas que assenta como uma luva ao realismo heróico de Neal Adams, aqui contando com o veterano Dick Giordano na arte-final. Já O Cadáver que se Recusava a Morrer, traz-nos um dos melhores momentos da dupla Bob Haney/Jim Aparo na revista The Brave and the Bold, numa história em que um Batman em morte cerebral conta com a ajuda do Átomo para salvar uma mulher em perigo.
A Noite não tão Silenciosa da Harley Quinn é um pequeno divertimento de Natal escrito por Paul Dini, o criador da Harley Quinn e (muito bem) ilustrado por Neal Adams, que assim está presente nesta antologia com duas histórias separadas por mais de 40 anos.
Quem também repete a dose é Tom King, o actual escritor da principal revista do Cavaleiro das Trevas. Antes de se tornar um escritor premiado, com romances na lista de best-sellers do New York Times, Tom King trabalhou como agente da CIA, como oficial de operações de contra terrorismo, tendo estado destacado no Iraque após a queda de Saddam Hussein, experiência que lhe serviu de inspiração para o livro O Xerife da Babilónia, já publicado em Portugal pela Levoir. Tendo tido a ingrata missão de substituir Scott Snyder como escritor da revista principal do Batman, King tem-se saído com distinção desse desafio, conquistando tanto o público como a crítica, através de histórias plenas de humanidade, como as duas que fecham o último volume desta colecção. Alguns Desses Dias, em que King conta com a arte de Lee Weeks e Michael Lark, é uma belíssima história de amor. O amor entre Batman e a Catwoman, desde o seu primeiro até ao último beijo. Já em Força Verdadeira, uma pequena pérola de apenas três páginas, King conta com o basco Mikel Janin, um dos desenhadores habituais da série mensal, para explicar ao leitor o que realmente faz de Batman um herói.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/04/2019
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