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domingo, 29 de dezembro de 2013

Bem-vindo a Grandville!


Imaginem um mundo em que a França é a principal potência mundial, depois de ter ganhado as guerras napoleónicas e invadido a Inglaterra, mandando guilhotinar a Família Real Britânica. Nesse mundo, em que Paris é a maior capital do mundo e a Inglaterra está ligada ao continente por uma ponte ferroviária que atravessa o Canal da Mancha, não foi só a História que evoluiu de forma alternativa. Também a relação entre humanos e os animais se alterou, sendo este mundo governado por animais antropomorfizados e os raros humanos, tratados depreciativamente como "doughfaces" (caras de massa) a não terem quaisquer direitos cívicos e estando limitados a simples tarefas mecânicas, sendo apresentados por um dos personagens, como "uma raça sem pelo de chimpanzés que evoluíram na cidade de Angoulême", nome que, como veremos, não surge por acaso, pois Angoulême é a cidade francesa que alberga o maior Festival europeu de BD, e as piscadelas de olho à Banda Desenhada franco-belga são frequentes neste mundo.

Este é também um universo "steampunk", com tecnologia derivada das ilustrações do francês Albert Robida, um contemporâneo de Júlio Verne, que imaginou uma França futurística numa trilogia de livros dedicados ao século XX, escritos entre 1883 e 1890 (Le Vingtième Siècle, La Guerre au Vingtieme Siècle e La Vie Électrique). É neste futuro alternativo, concebido por Bryan Talbot, um autor inglês contemporâneo, como se tivesse sido imaginado por um escritor francês do Século XIX, que encontramos o herói da história, o Detective Inspector Archibald LeBrock, um musculado texugo de grande força física e impressionantes capacidades dedutivas. Lebrock, ajudado pelo inspector Roderick Ratzi vai resolver casos policiais que o obrigam a deslocar-se frequentemente a Grandville (cidade grande, em francês), alcunha pela qual é conhecida a cidade de Paris, que dá nome à série. Mas esta é uma referência com duplo sentido, pois Grandville era também o nome artístico do ilustrador e caricaturista francês Jean Ignace Isidore Gerard, que assinava muitas vezes os seus trabalhos como J. J. Grandville. Falecido em 1847, Grandville foi dos primeiros ilustradores a utilizar animais antropormofizados em obras como Les Metamorphoses du Jour, uma série de litografias editadas entre 1928 e 1929, protagonizadas por figuras humanas na pose e no vestuário, com cabeças dos mais diversos tipos de animais, incluindo insectos e peixes.

Bryan Talbot, o criador de Grandville, nasceu em Inglaterra em 1952, tendo trabalhado nos comics underground britânicos e na revista 2000 AD, para onde desenhou Nemesis, the Warlock e Judge Dredd, antes de seguir o caminho de diversos compatriotas seus, como Alan Moore, Brian Bolland, Neil Gaiman, Dave McKean e Garth Ennis e começar a trabalhar para a DC Comics, sobretudo na linha Vertigo, para onde ilustrou as séries Hellblazer, Fables e o Sandman de Neil Gaiman. Além de muito trabalho como desenhador para a DC, Talbot tem também bastantes trabalhos a solo. Obras mais antigas, onde já encontramos algumas das características que fazem de Grandville uma série única.

É o caso do gosto pela história alternativa e por universos “steampunk”, que estão presentes em The Adventures of Luther Arkwright, um projecto iniciado em 1978, a que voltará com regularidade, posteriormente recolhido em dois grossos volumes, editados nos EUA pela Dark Horse. Outro elemento bem presente nos seus livros e que é fulcral em Grandville, é a homenagem aos grandes nomes da ilustração infantil. The Tale of One Bad Rat, o seu trabalho mais premiado, concilia uma história comovente sobre uma jovem vítima de abusos sexuais na infância, com uma bela homenagem à vida e obra de Beatrix Potter, uma das mais importantes escritoras e ilustradoras infantis britânicas e Alice in Sunderland, parte da ligação de Lewis Carol, o criador de Alice in Wonderland à cidade de Sunderland, para uma alucinante viagem visual pela história da cidade e da literatura e da ilustração, cheia de pormenores deliciosos e com diversos níveis de leitura. Uma obra avassaladora, com um trabalho de pesquisa tão aturado, que lhe valeu um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Sunderland, em 2009, pelo seu "contributo notável para as Artes como escritor e artista gráfico".

Em Grandville, Talbot vai reunir todas essas influências e muitas outras (para além de Robida e Grandville, Talbot cita explicitamente Conan Doyle, Quentin Tarantino e... Rupert the Bear, mas podia citar também Walt Disney, Enid Blyton, Randolph Caldecott, Kenneth Grahame, entre outros) em movimentadas histórias de ficção policial, num universo de ficção científica "steampunk", que embora em termos de vestuários e decoração lembre a Europa de finais do século XIX e inícios do Século XX, decorre um século depois, 200 anos após as Guerras napoleónicas, que reforçaram a hegemonia mundial da França que as venceu.
Iniciada em 2009, com Grandville, a série dedicada às aventuras do Inspector LeBrock da Scotland Yard está prevista para cinco volumes autónomos, dos quais já saíram três, Grandville, Grandville, Mon Amour e Grandville, Bête Noire, estando o quarto volume, Grandville: Noel anunciado para 2014.

O primeiro episódio leva o Inspector Lebrock e o seu adjunto Ratzi a Paris, para investigar o assassinato de um diplomata inglês, Raymond Leigh-Otter e será em Paris, ou Grandville, que vai encontrar o amor com Sarah Blairow, uma dançarina, claramente inspirada na actriz Sarah Bernard, mas a sua felicidade vai durar pouco… A investigação vai fazer com que descubra uma conspiração destinada a reacender a guerra entre a França e a Inglaterra, que tem como ponto de partida um atentado terrorista que destruiu a Torre Robida, num claro paralelo com os atentados de 11 de Setembro que destruíram o World Trade Center E essa não é a única alusão à realidade política contemporânea, pois encontramos um político de extrema-direita, chamado Jean-Marie Lapin (que, naturalmente, é um coelho), claramente inspirado em Jean-Marie Le Pen.

Mas ainda mais frequentes do que as referências à realidade política contemporânea, são as referências à Banda Desenhada franco-belga, presentes em todos os volumes. É o caso de Milou, o cão de Tintin, que assim surge como um viciado em ópio, que no meio dos delírios provocados pela droga, recorda as aventuras que viveu com Tintin. Do Gaston Lagaffe, de Franquin, e do Lucien, de Margerin, que emprestam as feições a dois meliantes que tentam assaltar o inspector Ratzi, em Grandville, Mon Amour, o 2º volume da série. De Angus, o cientista humano, ou “cara de massa”, se preferirem, que é morto no início do 3º volume, Grandville, Bete Noire, e que não é senão o Professor Philip Angus Mortimer, o protagonista das aventuras de Blake e Mortimer, de Edgar P. Jacobs. E encontramos ainda alguns personagens da Disney, como figurantes, seja o Pato Donald numa cela, ou o Professor Pardal a desempenhar um papel semelhante ao do Q. dos filmes de James Bond. Filmes esses que inspiraram obviamente a personagem do Barão Krapaud, um sapo com a pose e os meios do típico vilão dos filmes de James Bond, megalómano e com sonhos de dominação mundial, que aqui surge a acariciar um sapo no colo, em vez do tradicional gato persa branco…

Para além de histórias bem conseguidas e melhor contadas, com um desenho agradável e tremendamente eficaz, que ganhariam com um tratamento de cor não tão ostensivamente digital, é esta catadupa de referências, que desafiam a cultura do leitor e convidam a sucessivas releituras, um pouco na linha do que acontece com a Liga de Cavalheiros Extraordinários de Alan Moore e Kevin O’Neill, que fazem de Grandville uma série única. Uma série que, como já se percebeu, é absolutamente aconselhável aos leitores da Bang!
Texto originalmente publicado no nº 15 da revista Bang! de Novembro de 2013

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Evocando Sergio Toppi


Se o ano de 2012 foi infelizmente fértil no desaparecimento de grandes nomes da Banda Desenhada mundial, como Jean Moebius Giraud, ou Joe Kubert, cujas mortes tiveram grande destaque mediático, já o falecimento do Mestre italiano Sérgio Toppi, em 21 de Agosto, perto de completar 80 anos, passou relativamente despercebido, pelo menos em Portugal.
Uma lacuna que tentaremos corrigir nesta Bang!, evocando aqui a vida e a obra de Sérgio Toppi, virtuoso desenhador italiano, cujo estilo único e arrojada planificação não deixa ninguém indiferente. Nascido em Milão em 1932, Toppi matriculou-se na Faculdade de Medicina em 1952, para rapidamente descobrir que essa não era de todo a sua vocação. Rapidamente abandonou os estudos para se dedicar à ilustração, campo em que se estreia em 1953, realizando uma série de ilustrações históricas para a reedição da L’Enciclopedia dei Ragazzi, promovida pela editora Mondadori. Enquanto realiza trabalhos para publicações como a revista Topolino, em 1957 arranja emprego no Estúdio de Animação Pagot, dirigido pelos irmãos Pagotto, responsáveis pela primeira longa-metragem italiana de animação, o que não o impede de continuar a trabalhar como ilustrador para a imprensa e para a publicidade e de se estrear na Banda Desenhada em 1960, ilustrando uma biografia em BD de Pietro Micca, uma personagem histórica italiana do século XVII, escrita por Milo Milani para o jornal Corriere dei Piccoli.

Um momento importante da sua carreira na BD, foi o encontro com Sergio Bonelli, personagem incontornável da BD italiana, editor de Tex e Dylan Dog, que contratou Toppi em 1974, para este acabar de desenhar um Western que a morte de Rino Albertarelli deixara incompleta. O ano de 1975, também foi importante para Toppi, pois além de ter ganho o Yellow Kid para o melhor desenhador no Festival de Lucca, começou a colaborar com a revista Sgt. Kirk nesse mesmo ano. Seguir-se-ia a participação na mítica coleção Un Uomo, un’Avventura, onde Bonelli conseguiu a proeza de juntar os mais prestigiados nomes dos fumetti italianos, de Hugo Pratt a Milo Manara, passando por Crepax, Buzzelli, Battaglia, e claro, Toppi, que entre 1976 e 1978 ilustrou os volumes, L’Uomo del Nilo, L’Uomo del Messico e L’Uomo del Paludi, o primeiro dos quais chegaria a Portugal através de uma edição brasileira.
E se os interesses de Toppi estavam algo afastados das grandes séries da Bonelli, a sua amizade com o editor fez com que colaborasse ocasionalmente com a editora da Via Buonarrotti, desenhando histórias para a Ken Parker Magazine, para dois números de Nick Rayder, em 1997 e 2001, para o nº 11 da revista Julia, ilustrando uma história de Giancarlo Berardi, que chegou a Portugal, através da edição brasileira da Mythos, que publicou a referida história no nº 11 da revista J. Kendall Aventuras de uma Criminóloga.
Toppi tem também o seu nome ligado a outros dois populares personagens da Bonelli, Martin Mystére, de quem ilustrou uma história de 22 páginas para o Almanaque Martin Mystére nº 16, de 1999, posteriormente adaptada a um CD-Rom, e Dylan Dog, que Toppi retratou na capa do Dylan Dog Color Fest nº 3, de 2009, no que seria a sua última colaboração com a editora Bonelli.

Entre a longa colaboração com Il Giornalino, iniciada em 1976, e diversas participações nas principais revistas italianas, como a Sgt. Kirk, Linus, Alter Alter e Corto Maltese, Toppi constrói o seu estilo próprio, em que a rígida divisão da página em tiras e quadrados, dá lugar a uma planificação mais dinâmica e artística, que considera a página como um todo. O aspecto pétreo do seu desenho, em que as personagens parecem cristalizadas numa natureza ameaçadora, também ela fossilizada, o fantástico que emerge das suas histórias, faz da obra de Toppi, algo único e inesquecível.
Infelizmente, essa obra, tão variada que inclui, além de largas dezenas de histórias curtas, coisas tão inesperadas como uma biografia em BD do Papa João Paulo II, nunca conseguiu cativar devidamente o grande público, talvez pela ausência de um herói icónico que o fidelizasse. A obra de Toppi é constituída maioritariamente por histórias curtas, tendo como único personagem recorrente Il Coleccionista, um peculiar colecionador e aventureiro, misto de dandy e de cowboy, que se estreou em 1982 na revista Orient Express. Um personagem de moral dúbia e passado misterioso, muito longe dos heróis tradicionais com que o leitor facilmente se identifica.

Com o declínio das revistas em Itália, que se acentuou no início do século XXI, Toppi começou a cair no esquecimento no seu país. Algo que não aconteceu em França, graças ao excelente trabalho da editora Mosquito, que a partir de 1997 tem vindo a editar de forma cuidada o seu trabalho (tal como o de outros grandes mestres italianos, como Battaglia e Micchelluzi). Uma parceria feliz, que deu origem a mais de 30 álbuns de BD, entre colectâneas de histórias curtas, até trabalhos feitos directamente para o mercado francês, como a segunda parte de Sharaz’de, ou a quinta aventura do Coleccionador.
Graças às edições da Mosquito, o trabalho de Toppi tem vindo a ser traduzido em diversos países, da Europa, aos Estados Unidos e à China, onde uma exposição das suas obras foi vista por dois milhões de pessoas em apenas cinco dias. Uma merecida consagração que Toppi, já debilitado pelo cancro que haveria de o levar, não pode testemunhar pessoalmente.
Apesar do seu trabalho só agora começar a ser publicado nos EUA, graças à Archaia Press, a sua influência em desenhadores como Walt Simonson, Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Ashley Wood, ou Dave McKean (sobretudo numa primeira fase que vai até ao Arkham Asylum) é evidente e assumida pelos próprios, que nunca esconderam a sua admiração pelo trabalho de Toppi.
Walt Simonson, que deu Toppi a descobrir a Frank Miller e Howard Chaykin, quando os três partilhavam um estúdio em Nova Iorque, foi o autor do prefácio à edição americana de Sharaz-De, em que refere que: “as imagens de Toppi são uma mescla evocativa de belos desenhos, texturas, formas, espaço negativo e design. Desenha com uma mistura de contornos, hachuras, manchas de preto cuidadosamente posicionadas e espaços em branco. Ele é um mestre dos espaços em branco. O resultado é um desenho extremamente vivo em cada página, independentemente do assunto”. Já Frank Miller, que dizia que “Toppi faz o impossível parecer fácil”, foi o responsável pela estreia do desenhador italiano no mercado americana, publicando uma ilustração que o Mestre fez de homenagem à série Sin City, no nº 4 da mini-série Sin City: The Big Fat Kill, infelizmente ausente da edição portuguesa da Devir. Mais tarde, será a Marvel a encomendar-lhe as capas da mini-série 1602: The New World, que retoma o conceito, criado por Neil Gaiman, do universo Marvel transposto para o século XVII, ficando-se por aqui a presença do desenhador americano na terra do Tio Sam, até a Archaia começar finalmente a publicar a sua obra em inglês, começando por Sharaz’de, numa bela edição que Toppi já não teve tempo de ver…

Em Portugal, onde a influência do seu traço é visível num autor como Pedro Massano, especialmente no álbum Mataram-no Duas Vezes,  as histórias de Toppi chegaram através de revistas como Jacto e o Jornal do Cuto, que publicaram algumas histórias curtas e da Coleção A Descoberta do Mundo, da Larrousse, que a Dom Quixote editou em Portugal e em que o nome de Toppi aparece ao lado de ilustres compatriotas seus, como Buzzelli, Manara, ou Battaglia, e do português Eduardo Teixeira Coelho. A última aparição de Toppi em português, deu-se em 1999, no nº 8 da 2ª série da revista Selecções BD, com a história Algarve 1460, protagonizada pelo Infante Dom Henrique, enquadrada por um belo texto de João P. Boléo, que abordava a relação de Toppi com Portugal, que tinha visitado um ano antes de desenhar essa história. Curiosamente, a mesma revista preparava-se para iniciar a publicação de Sharaz’de, a peculiar adaptação das Mil e Uma Noites, que é um dos melhores trabalhos de Toppi, no preciso momento em que falência da editora Meribérica levou ao seu desaparecimento.
Ficaram a perder os leitores portugueses. Os mesmos leitores que, nestas páginas têm finalmente direito a uma pequena amostra do imenso talento de Sergio Toppi, um desenhador, nas palavras de Dave McKean, “capaz de desenhar qualquer coisa e dar-lhe uma solidez e um sentido de movimento que a tornam ideal para contar histórias no formato da Banda Desenhada”.
Texto originalmente publicado no nº 14 da revista Bang! de Abril de 2013

sábado, 11 de maio de 2013

Toppi em destaque na revista Bang!



Já está disponível nas lojas FNAC de todo o país (pelo menos, esta manhã, já estava na FNAC de Guimarães...) o nº 14 da revista Bang!, a revista gratuita de informação sobre fantasia, terror e ficção científica editada pela Saída de Emergência. Uma revista que, tal como nos números anteriores, conta com um texto meu sobre Banda Desenhada. Neste número, o destaque vai para o fabuloso desenhador italiano Sergio Toppi, recentemente falecido. E, enquanto não coloco aqui o texto deste número (o que acontecerá nas próximas semanas), deixo-vos com um punhado de imagens demonstrativas do imenso talento de Toppi, que não couberam nas páginas da Bang!.





quinta-feira, 27 de setembro de 2012

SAGA DE XAM: de escândalo visual a livro mítico


Há livros assim. Obras muito citadas mas poucas vezes vistas. Títulos que pela sua importância e raridade adquiriram uma aura quase mítica. Saga de Xam, uma Banda Desenhada de Nicolas Devil editada por Eric Losfeld em 1967, nas suas Editions du Terrain Vague e nunca depois reeditada, é um desses livros míticos. Um livro que aqui se dá a descobrir aos leitores da Bang!
Responsável pela chegada às livrarias francesas de uma Banda Desenhada destinada a um público adulto, que misturava erotismo e ficção científica, Losfeld estreia-se na edição de BD em 1964 com a Barbarella de Jean-Claude Forrest, um jovem autor então praticamente desconhecido, que criou uma série de ficção científica protagonizada por uma mulher bela e sexualmente independente, muito diferente da maioria das mulheres da BD até então, que se limitavam a um papel passivo de namoradas dos heróis, à espera de serem salvas (basta pensar em Dale Arden, a companheira de Flash Gordon, de Alex Raymond, para continuarmos no campo da ficção científica). Essa opção de dar o protagonismo às mulheres está igualmente presente noutros títulos editados por Losfeld, como Jodelle e Pravda, de Guy Peellaert, Scarlet Dream de Lob e Gigi e Epoxy de Van Hamme e Paul Cuvelier, todos protagonizados por mulheres tão belas como independentes.

Apesar de se enquadrar perfeitamente na estratégia editorial de Losfeld, de misturar o erotismo e a ficção científica na BD, Saga de Xam é uma obra à parte, com características únicas e irrepetíveis, fruto de uma época e do encontro ocasional de um grupo de criadores que seguiram caminhos diferentes.
Para além do editor, Eric Losfeld, outro nome foi determinante para a concretização de Saga de Xam. O de Jean Rollin, cineasta de culto com uma grande atracção pelo fantástico e pelo erotismo, que escreveu o argumento de Saga de Xam e apresentou Devil a Losfeld. Rollin era amigo de Devil e frequentador habitual do seu apartamento, onde costumava parar também o desenhador Philippe Druillet, o criador de Lone Sloane (que também vai ser editado por Losfeld), que vai colaborar no desenho de Saga de Xam, participando num cadavre exquis no último capítulo. Tanto Nicolas Devil e a sua mulher, como Druillet vão participar como actores em alguns dos filmes de Rollin, como Le Viol du Vampire, cujo cartaz é da autoria de Druillet.

Mas deixemos que seja o próprio Losfeld, a contar na sua autobiografia , como decidiu publicar aquele que foi “um dos mais belos livros” que editou em toda a sua carreira: “[Jean Rollin] O futuro cineasta dos amores vampíricos disse-me: «vou apresentar-te um desenhador que me parece ter muito talento» - e apresentou-me o Nicolas Devil. Nicolas Devil, que na altura era muito jovem, uma vintena de anos, trouxe-me alguns desenhos e passou-me a sinopse do argumento escrito por Jean Rollin. Resta acrescentar que, ao longo da sua feitura, o livro evoluiu grandemente até se tornar uma espécie de patchwork delirante: um período egípcio, um período chinês, um período viking, um período psicadélico e, no final um levantar voo para fora deste mundo, que deu certamente origem ao mais espantoso poster que se podia imaginar a partir deste tipo de desenho.”

Considerado pelo crítico Jacques Marny como um verdadeiro “escândalo visual” , definição que traduz bem o impacto que o livro teve nos leitores da época, Saga de Xam começou como uma Banda Desenhada de ficção científica, que conta a viagem de Saga, a bela jovem de pele azul vinda do Planeta Xam para salvar um planeta Terra, que não merece ser salvo, mas foi evoluindo, de forma orgânica, para se transformar num manifesto coectivo, estético e político, que prenuncia o Maio de 68 e onde encontramos como figurantes no último capítulo Barbarella, Bob Dylan, Allan Gingsberg, Zappa Kalfon, Julian Beck, Lovecraft, Valérie Lagrange, John Lennon, Cassius Clay, os Hell's Angels e os Rolling Stones, entre muitos outros.
Para além de uma verdadeira viagem pela História de Arte Universal, do antigo Egipto à Pop Art, passando pela pintura flamenga tornada possível pelo talento e versatilidade do traço de Devil e dos seus colaboradores, Saga de Xam é um belo e luxuoso livro-objecto, encadernado a pano e impresso em papel de 300 gr, feito mais para ser visto do que para ser lido. Com efeito, apesar de impresso em grande formato (24x31cm) as pranchas estão ainda assim bastante reduzidas em relação aos originais de Devil, o que implica o uso de uma lupa (que era oferecida com o livro) para conseguir ler o texto de algumas páginas, para além de outras estarem escritas num código cuja chave estava no fim do livro, o que torna a sua leitura um exercício trabalhoso e até penoso…

Apesar de não ser de leitura fácil, ou talvez mesmo por isso, a crítica francesa recebeu Saga de Xam de forma entusiástica, como podemos ver por esta recensão ditirambica publicada à época no Magazine Litteraire, que, como podemos ver, não hesita em comparar Devil a Homero, não se ficando por aí… : "Saga é a heroína cujo nome significa História, mas uma História divinizada e legendária como a História da cólera de Aquiles, que se chama Ilíada. Saga, história e heroína, saltam de época em época: o reino do fanatismo religioso, o tempo dos faraós, a pré-história, o futuro absoluto, para converter-se num poema puro, descritivo e sumptuoso. Tenho a certeza que Saga de Xam assinala um marco, uma viragem na história da Banda Desenhada. Com Devil, a BD encontrou o seu Homero, e na Saga de Xam a sua Ilíada. O fantástico de Redon, a sumptuosidade de Velasquez, a graça e o ritmo dos corpos de Picasso, os horrores de Bosch e de Goya, são os pais poéticos do desenho de Devil...”

Embora de forma mais discreta, o impacto do livro também chegou a Portugal, onde a sua influência se fez sentir. Nelson Dias, o desenhador de Wanya – Escala em Orongo, a primeira Banda Desenhada moderna de Ficção Científica nacional, publicada em 1973, é o primeiro a reconhecer essa influência, numa entrevista a Vasco Granja, em que diz: “Saga de Xam, de Nicolas Devil representou muito para mim, estimulando-me bastante no sentido da criação gráfica” e essa influência é bem evidente em Wanya, uma heroína que caberia perfeitamente no catálogo de Losfeld. Apesar do sucesso do livro, que rapidamente esgotou a primeira e única edição, mesmo a um preço de 1000 francos por exemplar, os seus autores acabaram por seguir caminhos diferentes. Jean Rollin, falecido em finais de 2010, dedicou-se de corpo e alma ao seu principal interesse, o cinema, sem grande sucesso comercial, o que levou a alternar o cinema fantástico de “amores vampíricos” com a realização de filmes pornográficos, que lhe permitiam pagar as contas.

Druillet, ainda activo como ilustrador e autor de BD, desiludido com a abordagem elitista de Losfeld, que apostava em edições de luxo e baixas tiragens em vez de fazer chegar os livros a um público mais vasto, decidiu levar as suas criações para a revista Pilote, onde conhece Jean Moebius Giraud, com quem irá fundar, anos mais tarde, a editora Humanoides Associés, responsável pela publicação da mítica revista Metal Hurlant, título que irá revolucionar a Banda Desenhada de ficção científica.
Quanto a Nicolas Devil, depois de Saga de Xam, apenas publicou mais um livro com desenhos (de acordo com Losfeld, Devil mais do que desenhador, queria é ser escritor e terá mesmo publicado alguns livros com Andrè Bercoff, e Paule Salomon, como Tout, le Livre des Possibilités, de 1975 e Nu, le Livre des Possibilités, de 1977), Orejona - Saga Génération, de 1974. Mais do que propriamente BD, Orejona é um livro ilustrado e caligrafado, que recupera os slogans, logotipos e grafismos da contra-cultura europeia e norte-americana, dos textos do Black Power ao Manifesto Situacionista, ilustrado com desenhos de Devil e de desenhadores underground, como Richard Corben, Vaughn Bodé, Roman Cieslewicz e Robert Crumb.
Desaparecido da cena artística desde então, Devil recuperou o seu verdadeiro nome (Nicholas Deville) emigrou para o Canadá, onde tirou um Doutoramento em Filosofia e actualmente vive no Quebéc, onde é professor de Filosofia numa Universidade em Matane, uma pequena cidade na margem sul do rio São Lourenço, tendo, ao que parece, deixado completamente o desenho.
Verdadeiro objecto de colecionador, Saga de Xam continua a ser muito procurado, mais de 40 anos depois da sua publicação original, atingindo preços proibitivos nos leilões na Internet. Algo que se deve a decisão de Losfeld que, apesar do seu incontestável sucesso, optou por nunca reimprimir Saga de Xam, por achar “que é bom que, por vezes, alguns livros se tornem míticos”. No caso de Saga de Xam, não há dúvidas de que o conseguiu.

Texto originalmente publicado no nº da revista Bang!, de Agosto de 2012
NOTA- Este texto é dedicado ao Pedro Piedade Marques, que me desafiou a escrevê-lo e me emprestou a autobiografia do Eric Losfeld e ao André Caetano, que digitalizou as imagens de Nicolas Devil, demasiado grandiosas para a modéstia do meu pobre scanner.

sábado, 7 de abril de 2012

O Homem ilustrado: Ray Bradbury em Banda Desenhada

Um dos mais célebres escritores de ficção científica de sempre, o norte-americano Ray Bradbury é também um dos autores que mais tem visto os seus trabalhos transpostos para outros suportes, do cinema à Banda Desenhada. Quem não se lembra de Farnheit 451, o genial filme que François Truffaut realizou a partir do romance homónimo de Bradbury, exemplo maior de uma série de adaptações ao grande e ao pequeno ecrã. É verdade que a escrita eminentemente visual de Ray Bradbury, em que o terror e a ficção científica funcionam como eficazes metáforas da natureza humana, a isso se presta, mas acaba por ser também a consequência de um amor recíproco entre este autor e as histórias aos quadradinhos.
É o próprio Bradbury, que chegou a escrever o argumento para uma versão cinematográfica não concretizada do Little Nemo de Winsor McKay, a confessar o seu amor pelos comics nos seguintes termos: “Como posso negar a influência exercida sobre a minha vida pelos autores de comics e os seus trabalhos? É uma longa história de amor que começou tinha eu 3 anos de idade e nunca mais terminou, influenciando a minha vida, a minha imaginação e a minha escrita.
Sem Buck Rogers, descoberto quando tinha nove anos, nunca teria desejado voar para o futuro com tanta intensidade. Sem as tiras coloridas de Tarzan que eram publicadas todos os domingos, nunca teria lido com tal entusiasmo as obras de Edgar Rice Burroughs sobre a viagem de John Carter a Marte, que inspiraram, aos doze anos de idade, o meu primeiro romance.” (…) “Coleccionei o Prince Valiant durante mais de 30 anos e escrevi autênticas cartas de amor a Harold Foster, o seu criador, chamando-lhe o maior desenhador de comics que conheci em toda a minha vida. Como recompensa, Foster mandou-me dois gigantescos originais das páginas dominicais do Principe Valiant, que levarei comigo para o túmulo”.
Se Bradbury sempre foi um leitor assumido e entusiasta de BD, esta só começaria a utilizar os seus contos como fonte de inspiração, na década de 50, graças à editora EC Comics, célebre pelos seus comics de terror e de ficção científica, ilustrados pelos melhores desenhadores americanos da época, como Jack Davis, Bernard Krigsteen, Graham Ingels, Wallace Wood e Al Williamson. Um dos primeiros exemplos foi Home to Stay, uma história desenhada por Wally Wood e publicada no nº 13 da revista Weird Fantasy, adaptando Kaleidoscope e The Rocket Man, dois contos incluídos no livro de Bradbury, The Illustrated Man. E foi o próprio Ray Bradbury que telefonou a William Gaines, o editor da EC Comics para lhe dizer que a história da EC era melhor que os seus contos originais que lhe tinham servido de base, “embora não tão boa que não tivessemos que lhe pagar direitos de autor”, acrescenta Gaines.
A partir daí, com a benção do próprio Bradbury, sucedem-se as adaptações dos contos originais, desenhadas pelos melhores autores da EC, que assinam aqui alguns dos seus melhores trabalhos para a editora, como no caso de Wood, com Mars is Heaven. Infelizmente, o trabalho incontornável da EC Comics nunca teve a devida divulgação em Portugal e as adaptações que os seus desenhadores fizeram de Ray Bradbury não são excepção. Por isso, é ainda mais digno de atenção O Papa Defuntos, um álbum da Editora brasileira L& PM, distribuido em Portugal na década de 90, em que Jack Davis, Graham Ingels, Wally Wood, Bernie Krigstein e Jack Kamen adaptam contos de Bradbury.
Bem mais recentes, do início dos anos 90, são as Ray Bradbury Chronicles, uma série de adaptações publicadas nos EUA pela editora Topps e que resultam da iniciativa do editor Byron Preiss que conseguiu reunir um vasto leque de autores contemporâneos, dos dois lados do Atlântico, que nos dão a sua visão das histórias de Bradbury. Embora desigual, como todas as antologias, esta antologia reuniu a nata da BD americana (de Mike Mignola a P. Craig Russel, de Kent Williams a Richard Corben, de Timothy Truman a Dave Gibbons) a que se juntam os espanhois Vicente Segrelles, desenhador de O Mercenário, Toni Garcés e Daniel Torres, o criador de Roco Vargas, série de ficção científica “retro” parcialmente publicada em Portugal pela Meribérica.
Cinco dessas adaptações foram publicadas em Portugal, entre 1999 e 2001, na 2ª série da revista Selecções BD, coordenada por Jorge Magalhães. Nessas adaptações, assinadas por Vicente Segrelles, Dave Gibbons, Toni Garcês, Daniel Torres e Marc Chiarello, que os leitores portugueses puderam descobrir nas Selecções BD, há duas verdadeiras pérolas: Vem à minha Cave, um conto sobre uma discreta e silenciosa invasão extraterrestre, ilustrado por Dave Gibbons, o desenhador de Watchmen, que com o seu traço clássico e planificação cerrada, traduz de forma admirável o clima de grande “suspense” da história e Encontro Nocturno, o conto das Crónicas Marcianas adaptado por Daniel Torres. Uma bela história sobre dois personagens de diferentes eras, que ocasionalmente se cruzam numa estrada, que Bradbury considera como uma das suas histórias favoritas e que Daniel Torres trata com grande delicadeza e beleza, graças a um traço de grande elegância, valorizado por umas cores etéreas, perfeitamente adequadas a uma história em que espaço e tempo se confundem.
Mas, para além de todos os nomes que Byron Preiss conseguiu reunir neste projecto, outros desenhadores de nomeada tiveram oportunidade de dar uma correspondência visual às palavras de Ray Bradbury, como foi o caso de Moebius e de William Stout, com as suas ilustrações para a colectânea Dinosaur Tales, que reunia os melhores contos sobre dinossauros escritos pelo autor americano, incluindo o célebre A Sound of Thunder, já adaptado para a BD por All Williamson e por Richard Corben, em duas versões bem díspares, mas igualmente conseguidas, sobretudo quando comparadas com a patética adaptação cinematográfica realizada por Peter Hyams em 2005.
Também o português José Carlos Fernandes transpôs para a BD os contos de Ray Bradbury. Antes de se sentir com capacidades para escrever as suas próprias histórias, Fernandes “treinou a mão” adaptando contos de Gabriel Garcia Marquez e de Ray Bradbury. E se a adaptação de O Dragão, se revela bastante incipiente quando comparada com a versão de Segrelles, este tipo de trabalho revelou-se uma notável escola de aprendizagem, conforme o próprio Fernandes admite, e outras adaptações posteriores, como O Dia em que Choveu para Sempre, podem perfeitamente ombrear com os trabalhos recolhidos por Byron Preiss, em termos narrativos e de planificação.
Mas as adaptações dos textos de Bradbury à BD não param. Para além das ilustrações que Dave McKean, que já tinha desenhado uma das capas de Ray Bradbury Comics da Topps, fez para The Homecoming, também Fahrenheit 451 foi adaptado à BD por Tim Hamilton, numa muito conseguida adaptação, que não foi a única recente, pois em Julho de 2011, saíram mais duas adaptações, de Something Wicked this Way Comes, desenhada por Ron Winberly e de The Martian Chronicles, ilustrada por Dennis Calero.
Tal como o autor, que aos 91 anos de idade, mantém um invejável dinamismo, também a obra de Ray Bradbury se mantém bem viva. Nos contos e romances que escreveu, ou nas Bandas Desenhadas que os adaptam.
Texto originalmente publicado na revista Bang! nº 12, de Março de 2012

Este texto é dedicado ao Jorge Magalhães, que pela primeira vez me convidou a escrever sobre Ray Bradbury.
Martian Chronicles - Bradbury e Dennis Calero
The City - Bradbury e Mignola
Something Wicked... - Bradbury e Winberly
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domingo, 4 de dezembro de 2011

Os ratos Guerreiros: de Mouse Guard a Mice Templar

Dos patos da Disney às Tartarugas Ninja de Eastman e Laird, passando por um clássico como La Bête est Morte, de Calvo, que quase 50 anos antes do Maus, de Art Spiegelman, descreve os acontecimentos da II Guerra Mundial, usando animais antropomorfizados em vez de humanos, até Usagi Yojimbo, o coelho samurai de Stan Sakai e os romances e as BDs protagonizadas por Gerónimo Stilton, não faltam exemplos de histórias de Banda Desenhada protagonizadas por animais antropomorfizados, que em alguns casos, podiam sem grandes alterações ter personagens humanas como heróis. É o caso de The Mice Templar, de Bryan J. L. Glass e Michael Avon Oeming e de Mouse Guard, de David Petersen, duas séries recentes de fantasia medieval, que têm a particularidade de serem protagonizadas por pequenos ratos hábeis com a espada.
Apesar de as duas séries terem chegado às livrarias americanas quase ao mesmo tempo (Mouse Guard em 2006 e The Mice Templar em 2007), isso não passou de uma coincidência, pois Michael Avon Oeming publicou a primeira história dos ratos templários no seu blog em 1997, para só voltar ao projecto em 2003, já com Glass como co-argumentista, enquanto que Petersen começou a trabalhar a ideia durante o liceu, influenciado pelo filme Robin Hood da Disney e pelo universo do jogo Dungeons and Dragons, para voltar a pegar nela já nos seus tempos na universidade, desta vez numa perspectiva "mais próxima das fábulas de Esopo, em que os animais são mesmo animais”.
De qualquer modo nenhum dos autores acusa o outro de lhe ter roubado a ideia. Ideia essa que, como vimos, não é propriamente original e que Bill Willingham (o criador da série Fables, onde, curiosamente, há uma Mouse Police...) no prefácio ao 1º volume de The Mice Templar, remonta a Reepicheep, o ratinho espadachim das Crónicas de Nárnia, de C. S. Lewis. E a comprovar a boa relação de Oeming e Glass, com Petersen, está o projecto de uma cross-over entre Mouse Guard e The Mice Templar, em que participaria também a Mouse Police, de Willingham, numa história curta destinada a ser publicada em alguma iniciativa de apoio à indústria dos comics e aos direitos dos seus criadores.
Mas vejamos um pouco melhor estas duas histórias, tão semelhantes na sua premissa inicial, mas bem diferentes na forma como a desenvolvem, começando pela Mouse Guard, de David Petersen.
Projecto independente, escrito, desenhado e editado pelo próprio David Petersen e distribuído pela Editora Archaia, The Mouse Guard foi inicialmente publicado no formato de mini-séries, antes de cada história ser recolhida em livro. Optando por um pouco convencional formato quadrado, a série não teve dificuldade em sobressair no meio das centenas de comics publicados mensalmente, pois o seu formato diferente trouxe-lhe uma maior visibilidade. Como explica Petersen: “como a maioria das lojas especializadas têm prateleiras e divisórias com formatos fixos, onde a minha revista não cabia, acabaram por a colocar no balcão, ao lado da caixa registadora, ou em mostruários, e isso funcionou muito bem em termos comerciais.(…) “O primeiro número foi lançado a uma quarta-feira, dois dias antes da 1ª New York Comic Con (um dos maiores Festivais de BD americanos, a par com San Diego) e tive vários lojistas que foram ter comigo ao meu stand durante a convenção, para buscar mais comics, pois em dois dias tinham esgotado duzentos e cinquenta exemplares da minha revista. Foi aí que percebi que The Mouse Guard ia ser um sucesso!”
A série relata as aventuras da Mouse Guard, uma ordem militar criada para proteger os ratos durante as viagens entre as diversas cidades escondidas, quando têm que atravessar zonas onde ficam muito mais expostos ao predadores naturais, como corujas, cobras, ou doninhas.
Ou seja, apesar do contexto de fantasia medieval, com ratos guerreiros, cidades escondidas e templos subterrâneos, há uma grande preocupação naturalista na forma como os ratos e os seus inimigos são representados e se movimentam, com Petersen a desenhar a partir de fotografias de animais, ou utilizando animais mortos como referência, como na cena do primeiro livro em que os ratos são atacados por caranguejos à beira-mar, desenhada a partir dos caranguejos que Petersen comprou no mercado.
Depois das duas primeiras mini-séries, Fall 1152 e Winter 1152, a terceira série, The Black Axe, actualmente em publicação, é uma prequela que conta a história de Celanawe e de como ele descobriu o machado negro, uma arma mítica cujo poder os leitores descobriram na segunda série. Pelo meio, ainda houve espaço para Legends of the Guard, uma antologia em que diversos autores, entre os quais o português João Lemos (como já vimos na última Bang!) prestam a sua homenagem aos ratos de Petersen, escrevendo e desenhando uma história passada naquele universo. O ponto de partida de Legends of the Guard, é o mesmo dos Canterbury Tales, ou de World’s End, um arco de histórias do Sandman de Neil Gaiman, com uma série de personagens reunidas numa estalagem, que contam histórias para passar o tempo, encarregando-se Petersen das páginas de ligação entre as várias histórias desta antologia, premiada na última San Diego Comic Convention, com o Eisner (o mais prestigiado prémio da indústria dos comics, uma espécie de Óscar da BD) para a melhor antologia, elevando para três o número de Eisners ganhos pela série.
Mas o sucesso da Mouse Guard não se ficou só pela Banda Desenhada, pois a série deu origem a um premiado jogo de Role Play, criado por Petersen e pelo designer de jogos Luke Crane, que desenvolve o universo da série. Série essa que poderá chegar também ao cinema, pois não faltam estúdios e realizadores interessados nisso.
Se Mouse Guard deu a conhecer David Petersen aos leitores, já Michael Avon Oeming não precisou da série The Mice Templar para isso. Desenhador da popular série Powers, escrita por Brian Michael Bendis, Oeming não é estranho ao género da fantasia, pois foi o argumentista dos primeiros números da nova versão de Red Sonja, a guerreira criada por Robert E. Howard na série Conan. E o mundo em que se movem os ratos templários de Oeming está bem mais próximo do universo de Howard, ou de Tolkien, do que do de Petersen.
Se Mouse Guard é uma obra coral, com o protagonismo a ser dividido por meia dúzia de ratos guerreiros, The Mice Templar tem um herói bem definido, o jovem Karic, cujo percurso iniciático acompanhamos ao longo da série, desde que um exército de ratazanas ataca a sua aldeia, matando ou fazendo prisioneiros os seus familiares. O título do primeiro volume, The Prophecy deixa logo perceber que Karic, apesar da sua aparente fraqueza, é o escolhido pelo Deus Wotan para restaurar a antiga glória da Ordem dos Ratos Templários, que dissenções internas tinham levado à decadência.
Prevista para quatro volumes, a série viu no segundo volume Michael Avon Oeming ceder o lugar ao espanhol Victor Santos como desenhador principal, de modo a conseguir manter um ritmo de publicação regular, algo que não tinha sido conseguido na primeira série, devido aos muitos afazeres de Oeming. Conhecido nos EUA graças à sua colaboração com Brian Azzarello (100 Bullets) em Filthy Rich, uma novela gráfica que inaugurou a colecção Vertigo Crime, Santos não é estranho ao universo da fantasia, tendo criado uma série muito popular em Espanha, Los Reyes Elfos (cujo primeiro volume foi publicado em Portugal pela Polvo) que se move nas mesmas águas. Curiosamente, por estar ocupado a desenhar The Mice Templar, Santos viu-se obrigado a convidar outros desenhadores espanhóis, como Vicente Cinfuentes, para desenhar Los Reyes Elfos…
Passada num universo de fantasia, onde há deuses, demónios e até um gato zombie, The Mice Templar tem uma carga de fantástico que não existe em The Mouse Guard, do mesmo modo que os diálogos e a narração têm um peso muito maior na série de Oeming e Glass do que na de Petersen, em que os diálogos são bastante mais sucintos e não existe um narrador. Do mesmo modo, enquanto a condição de ratos é inerente ao comportamento das personagens da Mouse Guard, já a história de The Mice Templar podia perfeitamente ser contada com recurso a humanos, ou a outros animais, em vez dos ratos estilizados de grandes orelhas, criados por Oeming.
Entre a sangrenta fantasia clássica protagonizada por ratos, de Oeming, Glass e Santos, ou a fábula para todas as idades criada por Petersen, cabe ao leitor escolher qual a que prefere, sabendo que em ambas vai encontrar ratos guerreiros e uma leitura agradável.
Texto originalmente publicado no nº 11 da revista Bang!, de Outubro de 2011