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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Entrevista com Sérgio Godinho, Fernando Dordio e Osvaldo Medina, a propósito do lançamento de O Elixir da Eterna Juventude



Feita a 25 de Outubro, durante o lançamento do livro no auditório do jornal Público, a entrevista que fiz a Sérgio Godinho e os autores do livro que explora o seu universo, usando-o como personagem, acabou por sair, não no Ipsílon, como estava inicialmente previsto, mas no próprio jornal de sábado, no fim-de-semana em que o livro foi apresentado no AmadoraBD. Por questões de espaço, mais do que uma transcrição fiel da entrevista, tive de optar por fazer uma síntese do que foi dito na apresentação do livro e na conversa posterior com os intervenientes. Mesmo assim, penso que o essencial está cá.

MÚTUO CONSENTIMENTO

No passado dia 25 de Outubro, o auditório do Público foi palco do lançamento de O Elixir da Eterna Juventude, uma Banda Desenhada em que Sérgio Godinho é o protagonista, ao lado das personagens das suas canções. O pretexto ideal para uma conversa com o próprio Sérgio e com Fernando Dordio e Osvaldo Medina, o escritor e o ilustrador que o transformaram num herói de BD.

Querem contar-nos como é que nasceu este projecto?


Fernando Dordio - Este projecto começou há mais de três anos. Quando se ouvem as músicas do Sérgio, elas transmitem muitas ideias, e ideias visuais. Mesmo que ele não descreva fisicamente as personagens nas suas canções, nós imaginamo-las, pois conhecemos o seu comportamento emocional. Eu, como fã das músicas, fui construindo as imagens ao longo do tempo e depois o que faltava era um ponto de ligação entre essas imagens, um motor para a história e a música, o Elixir da Eterna Juventude acabou por ser esse motor.
Foi um processo gradual, que passou por ouvir as musicas e mergulhar no universo das personagens, até que um dia, depois de ter ido ver o espectáculo Liberdade, disse para mim mesmo "tenho de arranjar uma forma de traduzir estas ideias em BD.” Mesmo tendo o Sérgio Godinho como personagem, está é uma obra pessoal e, por isso, decidi colocar-me também na história.

Sérgio Godinho - O Fernando diz no livro que "este trabalho foi produzido em contacto e troca de ideias permanentes com o próprio Sérgio Godinho, de modo a que nada fosse feito à sua revelia". É verdade que nada foi feito à minha revelia e de facto o Fernando foi-me mandando o trabalho em progresso e sinopses parcelares, mas eu, muitas vezes, preferi ser surpreendido, em vez de ser o "controleiro" deste trabalho, pois não tenho essa função, nem vocação.
A minha intervenção principal foi na fase inicial, apontando ao Fernando que a história estava demasiado densa e tinha ideias a mais. O que até é bom, pois pode-se sempre desbastar. Já quando se tem ideias a menos, é uma chatice, pois a coisa torna-se mais complicada.
Há sempre coisas que estão a mais e é preciso tirar a chamada "palha". O Fernando acabou por fazer essa depuração, embora mantendo a sua veia exuberante. Mas foi tudo feito com “mútuo consentimento”, como na minha canção.

FD – Sim. Além de me ajudar a focar a história, o Sérgio influenciou a própria história. A primeira versão do argumento era mais baseada nas músicas antigas, foi o Sérgio que sugeriu que a história cobrisse a sua carreira toda.

SG - Embora eu seja o foco dela, está é uma história autónoma, e felizmente autónoma. Não há uma mera ilustração das minhas canções, mas uma história que vai para lugares improváveis, tendo como ponto de partida muitas das minhas canções e também a minha excelsa pessoa (risos) mas que toma liberdades narrativas enormes e nem podia ser de outra maneira.

As canções do Sérgio quase não têm descrições físicas das personagens. Isso ajudou ou complicou?

SG – Nem físicas, nem psicológicas. Mais do que o retrato psicológico das personagens, o que acontece às personagens é o que me interessa. Uma canção é forçosamente um exercício de síntese, por isso a caracterização das personagens acaba por ser feita através da acção

FD - As músicas do Sérgio têm ideias visuais que eu aproveitei na história. Por exemplo, na música O Rei do Zum Zum, ele aparece a contornar a rotunda a toda a velocidade e é precisamente assim que ele aparece na história.
São esses pequenos apontamentos visuais, que dão identidade às personagens.

Além do Sérgio Godinho, o Jorge Palma (dando a cara ao Jeremias, personagem de uma das suas canções) e o José Afonso também estão presentes. Porque não usaste apenas as personagens do Sérgio e o próprio Sérgio? 

FD - Como em Portugal não é fácil levar para a frente projectos de Banda Desenhada, quando percebi que este ia mesmo avançar, decidi, como dizia um treinador de futebol (Quinito) "colocar a carne toda no assador" e juntar na mesma história, as minhas principais referências musicais: José Afonso, Sérgio Godinho e Jorge Palma (que empresta as feições ao Jeremias). São universos musicais e poéticos que se tocam e que fazia sentido cruzar.
Estou muito curioso para ver a reacção do Jorge Palma, pois usei-o no livro sem falar com ele.

Osvaldo, como é que foi o processo de desenhar o livro?

Osvaldo Medina - Podia dizer agora que foram anos de pesquisa, mas não foi. Foi um processo rápido e intuitivo, de criar imagens que colem com aquilo que está descrito nas músicas e com o que as pessoas estão à espera de ver aqui. Não houve nenhuma busca incessante pelo personagem.
A BD é uma paixão e é algo que eu faço com paixão, mas além disso há o meu trabalho: eu dou aulas, trabalho em animação, faço ilustração. Ou seja, nunca me pude dedicar a este livro a tempo inteiro, até porque ao mesmo tempo estava a fazer outro livro (a biografia de Agostinho Neto em BD).
Por isso, o livro demorou cerca de um ano a ser desenhado. Quando nos encontrámos no Coimbra BD em Março do ano passado, eu tinha umas vinte páginas desenhadas, mas no último mês fiz mais de trinta páginas.

O que é que te custou mais desenhar?

OM- Os vampiros foi a parte mais fácil, o complicado mesmo foi desenhar o Zeca Afonso, pois tinha que ser uma imagem que as pessoas identificassem imediatamente com o José Afonso.

Os teus vampiros estão mais próximos das gárgulas, do que da imagem mais tradicional do vampiro. Qual a razão desta opção?

OM - O Fernando estava à espera de uma imagem diferente para os vampiros, uma coisa mais discreta mas eu decidi assumir completamente os vampiros. Temos de apontar o dedo aos vampiros, chamar os bois pelos nomes!

FD - o argumento ficou bastante melhor, a partir do momento em que o Osvaldo desenha os vampiros daquela maneira. O Osvaldo tem características de desenho muito específicas e eu, obviamente, queria tirar partido dessas características. O Final que eu tinha imaginado inicialmente, não tirava partido disso, mas quando o Osvaldo desenhou os vampiros da forma que desenhou então eu percebi finalmente como é que tinha de ser o final do livro.

Sérgio, que balanço fazes desta aventura?

SG - Foi uma experiência muito interessante e surpreendente ver tudo isto a aparecer e também perceber como o traço do Osvaldo dava vida à imaginação do Fernando.
Fiquei muito satisfeito e deu-me um certo orgulho ser assim retratado.
Entrevista publicada originalmente no jornal Público de 04/11/2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Elixir da Eterna Juventude: Uma Dança no Mundo de Sérgio Godinho

SÉRGIO GODINHO, 
DE ESCRITOR DE CANÇÕES A HERÓI DE BD

O Elixir da Eterna Juventude – Uma dança no mundo de Sérgio Godinho
Quarta-feira, 25 de Outubro
Argumento – Fernando Dordio
Desenhos – Osvaldo Medina
Por + 12,90€
A relação entre a música e a Banda Desenhada é longa e tem dado resultados bastante interessantes. Basta pensar nas biografias em BD de Johnny Cash e Nick Cave, feitas pelo alemão Reihnard Kleist, ou, no caso português, na colecção BD Pop Rock, em que diferentes desenhadores tentavam uma aproximação gráfica a alguns dos grandes nomes do rock português, com resultados desiguais, mas, em alguns casos, bastante estimulantes, ou nos livros que Nuno Saraiva tem dedicado ao fado.
O próprio Sérgio Godinho já tinha visto as suas canções reinventadas por quarenta ilustradores portugueses, no livro Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações, coordenado por Jorge Silva e João Paulo Cotrim, em que cada ilustrador criou uma imagem inspirada por uma canção do escritor de canções. Um processo levado um pouco mais longe por Nuno Saraiva, no livro Caríssimas Quarenta Canções, em que os desenhos de Saraiva entravam em diálogo com os textos de Sérgio Godinho sobre as canções da sua vida.
No caso deste Elixir da Eterna Juventude, a abordagem é diferente e Fernando Dordio e Osvaldo Medina constroem uma história de ficção inspirada nas canções de Sérgio Godinho, de que o próprio é protagonista involuntário, numa aposta inteligente da Kingpin Books numa obra que tem tudo para chegar a um público bem mais alargado do que o núcleo restrito dos leitores habituais de Banda Desenhada.
No centro da história a que Osvaldo Medina dá vida com o dinamismo e a eficácia que lhe conhecemos, está um livro, o Diário do Elixir da Eterna Juventude, do Professor Doutor Barnabé, um personagem que se já sabíamos que era diferente dos outros, aqui ficamos a saber que também tem uma carreira académica… Esse livro mágico, que outros cobiçam, funciona como um McGuffin na melhor tradição hitchcokiana, ou seja, um pretexto narrativo para justificar o percurso do herói ao longo da história. Percurso que, no caso de Sérgio Godinho, implica uma viagem por Portugal, de norte a sul, onde encontra algumas das personagens que criou… mas não só. É o caso do seu amigo Jeremias, o fora-da-lei, descendente por linhas travessas do famigerado Zé do Telhado, que tem as feições de Jorge Palma, o músico, amigo e companheiro de estrada de Sérgio Godinho e que vai ter uma importância crucial no evoluir da trama desta história fantástica, onde também há espaço para o sobrenatural.
História bem construída, cuja leitura proporcionará um prazer acrescido a quem conhecer bem as canções do Sérgio, o Elixir da Eterna Juventude é, claramente, o projecto mais ambicioso de Fernando Dordio, autor que já tinha demonstrado ser uma argumentista bastante eficaz na série Agentes do C.A.O.S, onde colaborou pela primeira vez com Osvaldo Medina. E eficácia é um termo que assenta que nem uma luva ao trabalho de Osvaldo Medina, “o homem que desenha mais rápido do que a própria sombra” e que aqui revela um apurado sentido narrativo e de composição, que ajudam a disfarçar algumas páginas mais apressadas, mas nem por isso menos legíveis, bem servidas pela cor de Joel de Souza.
Já se o Elixir da Eterna Juventude concede mesmo a eternidade a quem o bebe, ou se estava marado, ou mesmo falsificado, é algo que o leitor só irá descobrir ao ler este livro. Mas do que não restam grandes dúvidas de que, com as suas canções, Sérgio Godinho criou personagens que ficaram para a história e que, como se vê, dão uma boa história. Ao dar-lhes oportunidade de protagonizarem esta aventura ao lado do seu criador, Fernando Dordio faz uma bela homenagem a um dos vultos maiores da música portuguesa.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/10/2017

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

As 10 Melhores BDs que li em 2015 - Parte 1


Ao contrário do ano passado, em 2016 consegui que esta lista das melhores Bandas Desenhadas que li pela primeira vez em 2015, ficasse disponível logo no início de Janeiro.
Num ano tão recheado, tanto em quantidade como em qualidade, de grandes livros, não foi fácil escolher dez títulos. Acabei por optar por estes dez, mas quase podia ter escolhido outros tantos.
Aqui fica a primeira parte da lista, ordenada por ordem alfabética. Para a semana, fica prometida a segunda, e última, parte.

1 - Alias: A.K.A. Jessica Jones, Bendis e Gaydos, Marve/Max
Confesso que, na altura em que saiu, não senti grande interesse em ler esta série. Só este ano, graças à excelente série Jessica Jones, da Netflix, decidi corrigir o erro.O traço de Michael Gaydos, que me parecia demasiado estático e pouco atraente, funciona perfeitamente nesta série, articulando-se harmoniosamente com os diálogos de Brian Michael Bendis, aqui ao seu melhor nível.
Embora mantendo um nível geral muito alto, a série tem momentos geniais, como o episódio, inteiramente pintado por Gaydos, em que Jessica é contratada por J. Jonah Jameson para investigar o Homem-Aranha para o Daily Bugle, ou o último arco de histórias, que serviu de base à série da Netflix.
2 - DKIII: The Master Race, Miller, Azzarello, Kubert e Janson, DC Comics
Tendo em conta os últimos trabalhos de Frank Miller, havia fundados receios quanto a este terceiro Dark Knight. Mas Miller, que parece ter vencido a doença que o afectou nos últimos anos, regressou à BD cheio de energia e em grande forma. Rodeado de uma equipa de luxo, onde se destaca o argumentista Brian Azzarello, que assina a história ao lado de Miller, e o arte-finalista Klaus Janson, que volta a trabalhar com Miller 30 anos depois, DKIII mostra, por enquanto (apenas saíram 2 dos 8 capítulos da série) estar à altura da história original, criando uma continuação que não esquece o Dark Knight Strykes Again, actualizando o universo criado por Miller para o século XXI. Bem escrito, bem desenhado (por um Andy Kubert que faz uma síntese bem interessante entre o Miller do Dark Knight e o Miller do Sin City, sem abdicar do seu estilo próprio) melhor narrado e superiormente produzido, DKIII, não podendo ter o impacto da história original, não desmerece em nada em nada o recheado currículo dos autores envolvidos.
3 - Kong, the King, Osvaldo Medina, Kingpin Books
Osvaldo Medina já tinha mostrado ser um dos mais produtivos e versáteis desenhadores nacionais, mas neste Kong, the King afirma-se como autor completo, contando uma história de mais de cem páginas inteiramente sem palavras, recorrendo apenas ao desenho.
Variação sobre o filme King Kong, com o gorila gigante a ser substituído por um guerreiro selvagem, Kong é uma história tão simples como eficaz, com eventuais laivos autobiográficos, contada com a mestria narrativa ímpar, que revela um autor com um perfeito domínio da linguagem da Banda Desenhada.
4 - La Casa: Crónica de una Conquista, Daniel Torres, Norma Editorial
Fruto de seis anos de trabalho, entre a pesquisa, concepção e o desenho final, La Casa é um projecto tão ambicioso como conseguido, de tratar a evolução dos edifícios como espaço de vivência ao longo da história, recorrendo ao texto, à ilustração e à Banda Desenhada, que marca o regresso em grande de Daniel Torres às Livrarias.
Obra monumental, de quase 600 páginas, divididas por 26 capítulos, La Casa reúne uma série de relatos, em que o grafismo, a planificação e o ritmo narrativo se vão alterando conforme as épocas, tendo como protagonista a casa, enquanto um espaço interior habitado por personagens . Um espaço de memória que, nas palavras do autor, surge como "teatro da vida privada, cenário de paixões, marco de ruídos e silêncios e lugar de aprendizagem  e de recordação". O resultado é um livro extraordinário e inclassificável
5 - Le Rapport de Brodeck Vol 1, Manu Larcenet e P. Claudel, Dargaud
Depois de Blast!, Manu Larcenet volta a surpreender os leitores com esta adaptação de um romance de Philippe Claudel, vencedor do Prémio Goncourt em 2007.Escritor e cineasta, Claudel que recusou diversas propostas de adaptação cinematográfica do seu livro, não hesitou a dar luz verde a Larcenet, para adaptar o seu livro à BD. E o resultado é espectacular. Usando um preto e branco de alto contraste, Larcenet constrói uma história sombria, de grande tensão psicológica, revelando um extraordinário talento gráfico que o seu registo caricatural, em obras como Le Combat Ordinaire, ou Le Retour à la Terre não deixavam antever.Um livro tão belo como perturbador, que mostra um Larcenet cada vez melhor desenhador e um verdadeiro mestre do preto e branco.
Continua...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Fórmula da Felicidade 2


Pouco mais de um ano após a publicação do 1º Volume eis que chega finalmente às livrarias, a 2ª e última parte de “A Fórmula da Felicidade”, a fulgurante primeira colaboração entre Nuno Duarte e Osvaldo Medina e que este 2º volume vem confirmar como um dos mais interessantes títulos nacionais lançados nos últimos anos.
Embora se trate de uma história única de 88 páginas, razões editorais levaram a que “A Fórmula da Felicidade” fosse publicada em dois volumes, pois publicar a história toda num só álbum de mais páginas e preço mais elevado, implicava um investimento inicial maior e era comercialmente mais arriscado. Provavelmente, as mesmas razões editoriais terão levado a um aumento de preço do 1º para o 2º volume e, o que é mais grave, a uma clara diminuição da gramagem do papel, que não agarra tão bem as cores de Gisela Martins e companhia.
“A Fórmula da Felicidade” conta-nos a história de Victor, um génio da matemática enterrado numa aldeia do Baixo Alentejo, onde vive com a mãe, uma antiga hippy toxicodependente, e que um dia descobre a fórmula matemática da felicidade, para rapidamente se aperceber que é bem mais fácil transmitir felicidade aos outros, do que obtê-la para si… E se a associação com Abraão, um poderoso empresário sem escrúpulos, lhe traz fama e dinheiro para satisfazer todos os seus caprichos, afasta-o cada vez mais da sua própria felicidade. Victor terá (literalmente) que descer da sua torre de marfim até aos esgotos, para finalmente perceber que a felicidade só faz sentido quando partilhada com aqueles que dela mais necessitam e que a sua redenção só será possível através do sacrifício.
Apesar de algum simbolismo demasiado óbvio, de um fim algo previsível, mas perfeitamente coerente com o desenrolar da história, e do toque melodramático/telenovelesco da figura do pai, bem mais interessante quando era apenas uma figura ausente de quem nada sabíamos, para além de que gostava de Jimmy Hendrix, Nuno Duarte faz um excelente trabalho com a “Fórmula da Felicidade”, criando uma história interessante e (muito) bem contada, que Osvaldo Medina passa a imagens com o talento e eficácia que o confirma, já não como a revelação que foi quando saiu o 1º volume, mas como uma das maiores certezas da BD nacional.
Veja-se, por exemplo, o tratamento que dá à expressão dos animais, o dinamismo das cenas de acção e o magnífico plano/sequência da página 42, que aqui reproduzo. Igualmente eficaz, apesar do papel não ajudar, é o trabalho de cor, que marca claramente a diferença entre a corrupção da grande cidade e a pureza do campo, com as suas cores bem mais luminosas.
(“A Fórmula da Felicidade” Vol. 2, de Nuno Duarte e Osvaldo Medina, Kingpin Comics, 46 pags, 14,99 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 24/04/2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Terror à portuguesa


Género sem grande expressão em termos da Banda Desenhada nacional, o terror parece ter conhecido nos últimos tempos um súbito acréscimo de popularidade, junto dos leitores e autores portugueses. Se esse facto, de que os dois títulos que motivam este texto são a confirmação, reflecte uma tendência internacional, que se alarga à literatura e ao cinema, através de fenómenos como a saga “Twilight”, ou a série televisiva “True Blood”, ou o notório renascer do interesse nos filmes (e nos livros) de zombies, até há bem poucos anos a realidade era bem diferente.
Com a excepção do trabalho de divulgação do material da Editora Warren feito por Roussado Pinto, durante os anos 70, pouco ou nada se publicou de terror em Portugal nos últimos 30 anos, com a excepção recente do trabalho de David Soares (tanto em termos de Banda Desenhada, como de literatura) e de alguns títulos da Vertigo, traduzidos pela Devir e Vitamina BD. Daí, que se saúde com particular agrado estas duas edições.
Mas comecemos por “Mucha”, título que assinala o regresso à BD de David Soares, 6 anos depois de “A Última Grande Sala de Cinema”, trabalho que lhe valeu uma das últimas Bolsas de Criação Literária concedidas à Banda Desenhada. Escritor com uma voz muito própria, patente em romances como “A Conspiração dos Antepassados”, ou nos contos que constituem o livro “Os Ossos do Arco-Íris”, Soares regressa à BD apenas como argumentista, deixando o desenho nas mãos (mais do que) competentes de Osvaldo Medina, o desenhador do excelente “A Fórmula da Felicidade”, cuja versatilidade fica bem patente nesta mudança de registo gráfico.
Livremente inspirado num conto de Ionesco, “Mucha” inverte a premissa da “Metamorfose” de Kafka (desta vez, não é o protagonista que se transforma num insecto, mas sim todos os que o rodeiam) e transfere a acção para a Europa durante a ascensão do nazismo, colocando o terror sobrenatural num diálogo (sem legendas) com o terror real das atrocidades cometidas pelas tropas nazis. Embora contada com grande eficácia, a (curta) história de “Mucha” sabe a pouco e deixa o leitor na expectativa de outros trabalhos de maior fôlego, como foram as anteriores incursões de Soares pela BD. Por fim, há que salientar o trabalho do editor Mário Freitas (que aqui assegurou também a passagem a tinta, design e legendagem do livro), que aos poucos está a construir o catálogo bastante interessante na sua editora Kingpin Comics.

Quanto a “Zona Negra”, novo projecto de Fil, depois da revista “Zona Zero”, a primeira constatação é que a excelente capa de Eduardo Monteiro merecia abrigar um conteúdo com outra consistência… Se a distância que separa “Mucha” de “Zona Negra” é a mesma que separa um produto profissional de outro feito por um grupo de amadores bem intencionados, há, além disso, uma clara quebra de nível entre o conteúdo do primeiro “Zona Zero” e este “Zona Negra”, até mesmo em termos de impressão. Se há algumas experiências visuais curiosas, como a história “A.L.I.E.N., de Bruno Bispo e Victor Freundt e histórias relativamente interessantes, como a de Roberto Macedo Alves (que só teria a ganhar com um desenho melhor), o nível geral é bastante fraco, até para o que é habitual nos autores envolvidos, ao que não terá sido alheio o pouco tempo que tiveram para entregar as histórias…
E se a estes dois títulos juntarmos “As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy”, o projecto de Filipe Melo (o co-realizador de “I’ll See you in My Dreams”, o primeiro filme de zombies português) que deverá chegar às livrarias nos próximos meses, numa edição da Tinta da China, não há grandes duvidas que o terror à portuguesa está bem vivo!
(“Mucha”, de David Soares e Osvaldo Medina, Kingpin Comics, 36 pags, 8,95 €
“Zona Negra”, vários Autores, Zona BD, 52 pags, 4,50 €)

Texto originalmente publicado no Diário As Beiras de 16/01/2010