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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ensaio sobre a Loucura


Depois de “O pequeno Deus Cego”, David Soares regressa à Banda Desenhada com “Palmas para o Esquilo”, uma nova colaboração com Pedro Serpa, que nos leva numa perturbadora viagem onde se esbatem as fronteiras entre a imaginação e a loucura.
Uma das especificidades (e mais-valia) da Banda Desenhada é a forma como o texto e a imagem se articulam para formarem algo de novo que, quando os autores o conseguem, é mais do que a mera soma das partes. Neste caso, ao desenho simples e agradável de Pedro Serpa, servido por cores alegres e planas, que convida o leitor a entrar de forma despreocupada na história, contrapõe-se o texto profundo e complexo de David Soares, cheio de termos pouco usuais, que obrigam à consulta de um dicionário, com resultados francamente perturbadores. Atraídos pelo desenho de Serpa, os leitores passam para o outro lado do espelho, onde o esperam, para além das imagens e dos diálogos, um texto em off, com as reflexões de David Soares sobre a loucura, uma espécie de ensaio sobre a loucura que, embora possa ser lido de forma autónoma, dialoga com e ilumina a história, que os desenhos e os diálogos contam.
No “Manifesto Anti-Dantas”, Almada Negreiros dizia que todos os seus livros deviam “ser lido pelo menos duas vezes para os muito inteligentes e daí para baixo é sempre a dobrar” e, sem querer comparar David Soares a Almada, a verdade é que essa sugestão também se aplica a “Palmas para o Esquilo”, pois numa única leitura dificilmente apreenderemos toda a complexidade do texto de David Soares
O cenário da história, o traço “linha clara” e as cores planas de Serpa, cuja simplicidade se aproxima do desenho de Paco Roca, recordaram-me um excelente livro editado recentemente em Portugal, “Rugas”, de Paco Roca, mas essas semelhanças são apenas aparentes e “Palmas para o Esquilo” está bastante mais próximo dos romances de David Soares, do que da BD de Roca, ou até de anteriores trabalhos em BD de Soares.
Apesar do traço de Serpa, aqui propositadamente (?) menos pormenorizado do que em “O Pequeno Deus Cego” ser de leitura e adesão imediatas, “Palmas para o Esquilo” não é um livro fácil. David Soares provoca e inquieta o leitor, tirando-o da sua zona de conforto. Aqueles que estão dispostos a arriscar e investir na leitura de uma história que o exige, serão certamente recompensados. Agora, cabe ao leitor decidir se se sente à altura do desafio.
 (“Palmas para o Esquilo”, de David Soares e Pedro Serpa, Kingpin Books, 52 pags, 10,99€ )
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 28/09/2013

domingo, 13 de novembro de 2011

O Pequeno Deus Cego

Embora nos últimos anos se tenha dedicado mais à literatura do que à Banda Desenhada, David Soares viu ainda assim serem lançados no último Festival da Amadora, dois novos livros de BD escritos por si: “É de Noite que Faço as Perguntas” e o “Pequeno Deus Cego”. Se o primeiro já foi objecto de análise neste espaço, é chegada a altura de falar de “O pequeno Deus Cego”, mais um pequeno conto de terror de Soares, que a Kingpin edita, tal como fez com “Mucha”.
A ilustrar esta fábula de terror oriental, escrita por David Soares, está Pedro Serpa, um jovem desenhador que depois de uma participação no álbum colectivo “Sete Histórias em Busca de uma Alternativa”, assina aqui o seu primeiro trabalho de grande fôlego, ilustrando e colorindo uma história de 44 páginas, ambientada numa China mais mítica do que real. E, tal como tinha feito com Daniel Silvestre Silva em “É de Noite…” mais uma vez Soares dá a descobrir um novo desenhador cheio de potencial.
O traço “linha clara” e as cores planas de Serpa, adequam-se estranhamente a esta história cruel, mas o mais interessante é a forma como a história está planificada, com a divisão habitual da página em nove vinhetas, tão cara a David Soares, a dar por vezes lugar a vinhetas panorâmicas, que permitem um outro destaque ao traço de Serpa e a imagens de página inteira e até dupla página, que pontuam momentos importantes da acção, como a primeira vez que vemos o rosto da pequena Sem-Olhos, ou a espectacular imagem de Wang, o Castrador na sua caverna.
Embora o panda, a imagem do dragão e as mutilações dos pés, remetam para a cultura chinesa, o clima desta história cheia de elementos fantásticos, mas onde a verdadeira incarnação do mal é a mãe do protagonista, recorda mais o terror japonês, tanto da BD de Junji Ito, como do cinema de Takashi Miike.
Não sendo do melhor que David Soares já fez em BD, “O Pequeno Deus Cego” é um muito bem conseguido exercício de estilo, que revela em Pedro Serpa um novo desenhador a seguir com atenção.
(“O Pequeno Deus Cego”, de David Soares e Pedro Serpa, Kingpin Books, 84 pags, 10,95€ )
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 12/11/2011

sábado, 8 de outubro de 2011

A Republica revisitada

Em termos de exposições, um dos pontos altos da edição de 2010 do Festival de Banda Desenhada da Amadora, foi a mostra dedicada ao livro “É de noite que faço as Perguntas”, projecto inserido nas comemorações do Centenário da República, em que David Soares coordena um grupo de cinco desenhadores, numa viagem plena de simbolismo pelos anos da primeira república. Precisamente um ano depois do inicialmente previsto, eis que o livro chega finalmente às livrarias, numa aposta corajosa (depois da overdose de edições sobre a República em 2010 e inícios de 2011, será que ainda há espaço nas livrarias para mais um livro sobre a República…) da Saída de Emergência, editora que assim se estreia finalmente na BD.
Embora actualmente se dedique mais ao romance do que à Banda Desenhada, David Soares tem trabalho feito (e muito bem feito) na BD, como argumentista e como autor completo, pelo que o convite da Amadora para escrever este livro, fez todo o sentido. A história, cuja acção decorre em Lisboa, em meados do século XX, sob um regime autocrático indefinido, mas cujas semelhanças com o Estado Novo salazarista são mais do que pura coincidência, parte das memórias da primeira república que um pai lega ao filho, numa carta que nunca chegará a enviar.
Se as sequências, inicial e final, são ilustradas por Richard Câmara num estilo quase esboçado, em contrate com o estilo realista dos restantes desenhadores, os diferentes episódios narrados pelo pai, são ilustrados cada um por diferentes desenhadores.
Assim, Jorge Coelho ilustra o período antecedente à implantação da República, desde o ultimato inglês de 1890 até ao assassinato do Rei D. Carlos, João Maio Pinto fica com o período da República, André Coelho com a 1ª Guerra Mundial e Daniel da Silva com o episódio final, em que os ideais da república dão lugar à realidade sombria do regime salazarista.
Embora nem todas as referências sejam facilmente perceptíveis para quem não conheça bem a história do período em causa (nesse aspecto, uma cronologia e umas notas de enquadramento no final do livro seriam de grande utilidade), a história está muito bem construída e revela o rigor da pesquisa habitual em David Soares, que soube muito bem escolher os seus colaboradores. Há sequências especialmente bem conseguidas, em que os autores jogam na perfeição com a repetição de alguns motivos, como o bacio com a forma de John Bull no episódio inicial, desenhado por Jorge Coelho, ou o eléctrico (que não por acaso, está na capa do livro) no episódio final, desenhado por Daniel da Silva.
Um excelente álbum, pelo qual valeu bem a pena esperar um ano e que, para além de confirmar o talento de David Soares, Richard Câmara, Jorge Coelho e João Maio Pinto, dá a descobrir dois desenhadores muito promissores, como André Coelho e (especialmente) Daniel da Silva.
(“É de noite que faço as Perguntas”, de David Soares e vários desenhadores, Saída de Emergência, 64 pags, 18,00 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 8/10/2011

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Terror à portuguesa


Género sem grande expressão em termos da Banda Desenhada nacional, o terror parece ter conhecido nos últimos tempos um súbito acréscimo de popularidade, junto dos leitores e autores portugueses. Se esse facto, de que os dois títulos que motivam este texto são a confirmação, reflecte uma tendência internacional, que se alarga à literatura e ao cinema, através de fenómenos como a saga “Twilight”, ou a série televisiva “True Blood”, ou o notório renascer do interesse nos filmes (e nos livros) de zombies, até há bem poucos anos a realidade era bem diferente.
Com a excepção do trabalho de divulgação do material da Editora Warren feito por Roussado Pinto, durante os anos 70, pouco ou nada se publicou de terror em Portugal nos últimos 30 anos, com a excepção recente do trabalho de David Soares (tanto em termos de Banda Desenhada, como de literatura) e de alguns títulos da Vertigo, traduzidos pela Devir e Vitamina BD. Daí, que se saúde com particular agrado estas duas edições.
Mas comecemos por “Mucha”, título que assinala o regresso à BD de David Soares, 6 anos depois de “A Última Grande Sala de Cinema”, trabalho que lhe valeu uma das últimas Bolsas de Criação Literária concedidas à Banda Desenhada. Escritor com uma voz muito própria, patente em romances como “A Conspiração dos Antepassados”, ou nos contos que constituem o livro “Os Ossos do Arco-Íris”, Soares regressa à BD apenas como argumentista, deixando o desenho nas mãos (mais do que) competentes de Osvaldo Medina, o desenhador do excelente “A Fórmula da Felicidade”, cuja versatilidade fica bem patente nesta mudança de registo gráfico.
Livremente inspirado num conto de Ionesco, “Mucha” inverte a premissa da “Metamorfose” de Kafka (desta vez, não é o protagonista que se transforma num insecto, mas sim todos os que o rodeiam) e transfere a acção para a Europa durante a ascensão do nazismo, colocando o terror sobrenatural num diálogo (sem legendas) com o terror real das atrocidades cometidas pelas tropas nazis. Embora contada com grande eficácia, a (curta) história de “Mucha” sabe a pouco e deixa o leitor na expectativa de outros trabalhos de maior fôlego, como foram as anteriores incursões de Soares pela BD. Por fim, há que salientar o trabalho do editor Mário Freitas (que aqui assegurou também a passagem a tinta, design e legendagem do livro), que aos poucos está a construir o catálogo bastante interessante na sua editora Kingpin Comics.

Quanto a “Zona Negra”, novo projecto de Fil, depois da revista “Zona Zero”, a primeira constatação é que a excelente capa de Eduardo Monteiro merecia abrigar um conteúdo com outra consistência… Se a distância que separa “Mucha” de “Zona Negra” é a mesma que separa um produto profissional de outro feito por um grupo de amadores bem intencionados, há, além disso, uma clara quebra de nível entre o conteúdo do primeiro “Zona Zero” e este “Zona Negra”, até mesmo em termos de impressão. Se há algumas experiências visuais curiosas, como a história “A.L.I.E.N., de Bruno Bispo e Victor Freundt e histórias relativamente interessantes, como a de Roberto Macedo Alves (que só teria a ganhar com um desenho melhor), o nível geral é bastante fraco, até para o que é habitual nos autores envolvidos, ao que não terá sido alheio o pouco tempo que tiveram para entregar as histórias…
E se a estes dois títulos juntarmos “As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy”, o projecto de Filipe Melo (o co-realizador de “I’ll See you in My Dreams”, o primeiro filme de zombies português) que deverá chegar às livrarias nos próximos meses, numa edição da Tinta da China, não há grandes duvidas que o terror à portuguesa está bem vivo!
(“Mucha”, de David Soares e Osvaldo Medina, Kingpin Comics, 36 pags, 8,95 €
“Zona Negra”, vários Autores, Zona BD, 52 pags, 4,50 €)

Texto originalmente publicado no Diário As Beiras de 16/01/2010