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domingo, 22 de abril de 2018

Conversa com André Diniz sobre a BD no Brasil


Em Março do ano passado, por ocasião da segunda edição do Coimbra BD, onde teve uma exposição, o premiado autor brasileiro André Diniz passou por Coimbra e, além das actividades inerentes à mostra, participou também numa conversa na Faculdade de Letras, promovida pelo Instituto de Estudos Brasileiros, que tive a honra (e o prazer) de moderar, a convite do Professor Osvaldo Silvestre. Uma conversa/entrevista de quase uma hora, em que falamos sobre a Banda Desenhada (ou quadrinhos) no Brasil, detendo-nos mais no trabalho do André Diniz e, em especial, no Moro da Favela e em O Idiota, dois títulos que estavam em destaque na exposição que o Coimbra BD lhe dedico. Finalmente, mais de um ano depois, o vídeo dessa conversa está disponível na página do Instituto e também aqui, para os visitantes mais corajosos, que tiverem paciência para ouvir dois amigos a falar sobre Banda Desenhada durante quase uma hora...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Entrevista com Sérgio Godinho, Fernando Dordio e Osvaldo Medina, a propósito do lançamento de O Elixir da Eterna Juventude



Feita a 25 de Outubro, durante o lançamento do livro no auditório do jornal Público, a entrevista que fiz a Sérgio Godinho e os autores do livro que explora o seu universo, usando-o como personagem, acabou por sair, não no Ipsílon, como estava inicialmente previsto, mas no próprio jornal de sábado, no fim-de-semana em que o livro foi apresentado no AmadoraBD. Por questões de espaço, mais do que uma transcrição fiel da entrevista, tive de optar por fazer uma síntese do que foi dito na apresentação do livro e na conversa posterior com os intervenientes. Mesmo assim, penso que o essencial está cá.

MÚTUO CONSENTIMENTO

No passado dia 25 de Outubro, o auditório do Público foi palco do lançamento de O Elixir da Eterna Juventude, uma Banda Desenhada em que Sérgio Godinho é o protagonista, ao lado das personagens das suas canções. O pretexto ideal para uma conversa com o próprio Sérgio e com Fernando Dordio e Osvaldo Medina, o escritor e o ilustrador que o transformaram num herói de BD.

Querem contar-nos como é que nasceu este projecto?


Fernando Dordio - Este projecto começou há mais de três anos. Quando se ouvem as músicas do Sérgio, elas transmitem muitas ideias, e ideias visuais. Mesmo que ele não descreva fisicamente as personagens nas suas canções, nós imaginamo-las, pois conhecemos o seu comportamento emocional. Eu, como fã das músicas, fui construindo as imagens ao longo do tempo e depois o que faltava era um ponto de ligação entre essas imagens, um motor para a história e a música, o Elixir da Eterna Juventude acabou por ser esse motor.
Foi um processo gradual, que passou por ouvir as musicas e mergulhar no universo das personagens, até que um dia, depois de ter ido ver o espectáculo Liberdade, disse para mim mesmo "tenho de arranjar uma forma de traduzir estas ideias em BD.” Mesmo tendo o Sérgio Godinho como personagem, está é uma obra pessoal e, por isso, decidi colocar-me também na história.

Sérgio Godinho - O Fernando diz no livro que "este trabalho foi produzido em contacto e troca de ideias permanentes com o próprio Sérgio Godinho, de modo a que nada fosse feito à sua revelia". É verdade que nada foi feito à minha revelia e de facto o Fernando foi-me mandando o trabalho em progresso e sinopses parcelares, mas eu, muitas vezes, preferi ser surpreendido, em vez de ser o "controleiro" deste trabalho, pois não tenho essa função, nem vocação.
A minha intervenção principal foi na fase inicial, apontando ao Fernando que a história estava demasiado densa e tinha ideias a mais. O que até é bom, pois pode-se sempre desbastar. Já quando se tem ideias a menos, é uma chatice, pois a coisa torna-se mais complicada.
Há sempre coisas que estão a mais e é preciso tirar a chamada "palha". O Fernando acabou por fazer essa depuração, embora mantendo a sua veia exuberante. Mas foi tudo feito com “mútuo consentimento”, como na minha canção.

FD – Sim. Além de me ajudar a focar a história, o Sérgio influenciou a própria história. A primeira versão do argumento era mais baseada nas músicas antigas, foi o Sérgio que sugeriu que a história cobrisse a sua carreira toda.

SG - Embora eu seja o foco dela, está é uma história autónoma, e felizmente autónoma. Não há uma mera ilustração das minhas canções, mas uma história que vai para lugares improváveis, tendo como ponto de partida muitas das minhas canções e também a minha excelsa pessoa (risos) mas que toma liberdades narrativas enormes e nem podia ser de outra maneira.

As canções do Sérgio quase não têm descrições físicas das personagens. Isso ajudou ou complicou?

SG – Nem físicas, nem psicológicas. Mais do que o retrato psicológico das personagens, o que acontece às personagens é o que me interessa. Uma canção é forçosamente um exercício de síntese, por isso a caracterização das personagens acaba por ser feita através da acção

FD - As músicas do Sérgio têm ideias visuais que eu aproveitei na história. Por exemplo, na música O Rei do Zum Zum, ele aparece a contornar a rotunda a toda a velocidade e é precisamente assim que ele aparece na história.
São esses pequenos apontamentos visuais, que dão identidade às personagens.

Além do Sérgio Godinho, o Jorge Palma (dando a cara ao Jeremias, personagem de uma das suas canções) e o José Afonso também estão presentes. Porque não usaste apenas as personagens do Sérgio e o próprio Sérgio? 

FD - Como em Portugal não é fácil levar para a frente projectos de Banda Desenhada, quando percebi que este ia mesmo avançar, decidi, como dizia um treinador de futebol (Quinito) "colocar a carne toda no assador" e juntar na mesma história, as minhas principais referências musicais: José Afonso, Sérgio Godinho e Jorge Palma (que empresta as feições ao Jeremias). São universos musicais e poéticos que se tocam e que fazia sentido cruzar.
Estou muito curioso para ver a reacção do Jorge Palma, pois usei-o no livro sem falar com ele.

Osvaldo, como é que foi o processo de desenhar o livro?

Osvaldo Medina - Podia dizer agora que foram anos de pesquisa, mas não foi. Foi um processo rápido e intuitivo, de criar imagens que colem com aquilo que está descrito nas músicas e com o que as pessoas estão à espera de ver aqui. Não houve nenhuma busca incessante pelo personagem.
A BD é uma paixão e é algo que eu faço com paixão, mas além disso há o meu trabalho: eu dou aulas, trabalho em animação, faço ilustração. Ou seja, nunca me pude dedicar a este livro a tempo inteiro, até porque ao mesmo tempo estava a fazer outro livro (a biografia de Agostinho Neto em BD).
Por isso, o livro demorou cerca de um ano a ser desenhado. Quando nos encontrámos no Coimbra BD em Março do ano passado, eu tinha umas vinte páginas desenhadas, mas no último mês fiz mais de trinta páginas.

O que é que te custou mais desenhar?

OM- Os vampiros foi a parte mais fácil, o complicado mesmo foi desenhar o Zeca Afonso, pois tinha que ser uma imagem que as pessoas identificassem imediatamente com o José Afonso.

Os teus vampiros estão mais próximos das gárgulas, do que da imagem mais tradicional do vampiro. Qual a razão desta opção?

OM - O Fernando estava à espera de uma imagem diferente para os vampiros, uma coisa mais discreta mas eu decidi assumir completamente os vampiros. Temos de apontar o dedo aos vampiros, chamar os bois pelos nomes!

FD - o argumento ficou bastante melhor, a partir do momento em que o Osvaldo desenha os vampiros daquela maneira. O Osvaldo tem características de desenho muito específicas e eu, obviamente, queria tirar partido dessas características. O Final que eu tinha imaginado inicialmente, não tirava partido disso, mas quando o Osvaldo desenhou os vampiros da forma que desenhou então eu percebi finalmente como é que tinha de ser o final do livro.

Sérgio, que balanço fazes desta aventura?

SG - Foi uma experiência muito interessante e surpreendente ver tudo isto a aparecer e também perceber como o traço do Osvaldo dava vida à imaginação do Fernando.
Fiquei muito satisfeito e deu-me um certo orgulho ser assim retratado.
Entrevista publicada originalmente no jornal Público de 04/11/2017

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Entrevista ao Diário As Beiras


Curiosamente, tendo terminado recentemente a coluna de Banda Desenhada que mantinha no Diário As Beiras há exactamente 20 anos, não esperava voltar tão cedo às páginas do jornal. Mas esse regresso aconteceu na passada sexta-feira, no renovado suplemento "Gente", onde também saia a minha coluna, quando a minha disponibilidade e o espaço disponível no jornal o permitiam.
A entrevista, profusamente ilustrada com fotografias de Luís Carregã, foi feita pela Patrícia Cruz Almeida e teve lugar na Livraria Dr. Kartoon. Foi uma conversa muito agradável, que me deu também a oportunidade indirecta de me despedir dos leitores do jornal, pois a minha coluna foi interrompida sem qualquer aviso aos leitores, que me acompanharam  desde Maio de 1994, quando o então director Joaquim Rosa de Carvalho, me convidou a escrever para o Diário As Beiras que tinha ainda poucos meses de vida, até Maio de 2014.
Foram vinte anos de publicação regular dos meus textos, que durante grande parte desse tempo foram  pagos  (mesmo que mal..), que chegaram ao fim de forma natural, face à minha menor disponibilidade e às sucessivas remodelações gráficas do jornal, que resultavam invariavelmente em menos espaço para a minha coluna, nos últimos tempos reduzida a um máximo de 1.200 caracteres.
Longe vão os anos em que cheguei a dispor de uma página completa do jornal, para publicar textos que ultrapassavam os 5.000 caracteres. Ficam as recordações, o Prémio de Imprensa do Festival da Amadora em 1996, para um texto publicado nas Beiras sobre a Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt e entrevistas a grandes nomes da BD europeia, como François Bourgeon,  Miguelanxo Prado, Hermann, André Juillard e Milo Manara.
E fica já a saudade dos amigos que fiz no jornal, como a Lídia Pereira e o Paulo Marques e, sobretudo, dos leitores, que me podem continuar a acompanhar neste blog, sem limites de espaço, ou quaisquer constrangimentos editoriais.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A propósito do novo Astérix - Entrevista com Jean-Yves Ferri


A convite do jornal Público, tive a oportunidade de entrevistar Ferri, o novo argumentista de Astérix, aquando da sua vinda a Lisboa, em finais de Setembro, quando ele passou fugazmente pela capital portuguesa, para promover uma colecção de álbuns do Astérix que o jornal começou a lançar esta semana. Aqui fica a entrevista na sua versão integral. As imagens foram pilhadas de forma mais ou menos indiscriminada pelos quatro cantos da Internet. 

Desenhador e argumentista, nascido em 1959, tal como Astérix, o francês Jean-Yves Ferri é o responsável pelo argumento da nova aventura do irredutível gaulês e dos seus companheiros que, pela primeira vez, não conta com nenhum dos seus criadores como autor. Astérix entre os Pictos o 35º álbum da série é publicado a nível mundial no dia 24 de Outubro e sairá em Dezembro, numa versão em capa mole, com o Jornal Público, integrado na colecção As Viagens de Astérix. Ferri, que passou por Lisboa em Setembro, para a apresentação da colecção, falou ao Público deste importante desafio e da sua experiência como sucessor de Goscinny no argumento de umas das mais populares séries da BD mundial.

Nasceu em 1959, precisamente o mesmo ano em que a série Astérix começou a ser publicada na revista Pilote. Vê o facto de ser escolhido como o novo argumentista de Astérix como uma simples coincidência, ou um sinal do destino?

O mais engraçado é que também o desenhador, Didier Conrad, nasceu em 1959. Por isso, talvez o próprio Uderzo tenha visto nisso um sinal de que seríamos as pessoas certas para continuar Astérix.
Como é que foi escolhido para ser o novo argumentista de Astérix?
Fui contactado pela editora Hachette (que detém os direitos da série desde 2011), tal como vários outros argumentistas, para apresentar uma proposta para uma história. O processo foi rodeado de grande secretismo, tendo sido obrigado a assinar uma cláusula de confidencialidade, que não me permitia contar a ninguém, nem à minha família, o que estava a fazer. As diversas propostas foram apresentadas, sem indicação dos autores, a Uderzo, que escolheu uma, que por acaso era a minha.

Considera-se um fã de Astérix?

Claro! Tanto eu como o Conrad fazemos parte de uma geração que cresceu a ler BD nas revistas semanais como o Tintin, Spirou e Pilote. Por isso, conhecíamos perfeitamente todos esses heróis e temos uma ligação afectiva com o Astérix, o que faz com que abordemos a série de um modo algo particular. O nosso objectivo, com este álbum, é recuperar aquelas impressões de infância, que sentimos ao ler as histórias pela primeira vez.
Por isso, procurei que este álbum estivesse na linha de alguns dos meus álbuns preferidos da década de 70, como o Astérix Legionário, O Escudo de Arverne, Astérix na Hispania, ou Astérix na Córsega. Que fosse uma homenagem a esses álbuns que tanto me marcaram. Posteriormente, espero conseguir impor o meu cunho próprio à série, mas este ainda é um álbum de transição. Uma transição suave, marcada pela minha admiração pela escrita de Goscinny.

O tema do novo álbum, os Pictos e a Escócia. Foi ideia sua, ou sugestão de Uderzo?

Foi ideia minha. Tive inteira liberdade na criação da história. Entreguei uma primeira sinopse de uma página e quando foi aprovada, comecei a escrever o argumento. Como também sou desenhador, fiz também um story board com a planificação da história, quadrado a quadrado, para o desenhador seguir.

E a editora impôs algumas alterações? 

Praticamente nenhumas. Apenas Uderzo sugeriu duas pequenas alterações. Uma tinha a ver com a estação do ano em que se desenrola a acção e a outra consistiu em algumas pequenas observações a propósito da psicologia do Obélix. Uderzo esteve muito mais atento ao trabalho do desenhador.

Por falar em desenhador. Sei que Conrad não foi o desenhador inicialmente escolhido. Houve um primeiro desenhador Frédérick Mébarky, que acabou por abandonar o projecto. O que é que realmente se passou?

É simples. Frédérick não aguentou a pressão e literalmente explodiu. O problema é que ele era um desenhador do estúdio de Uderzo, que fazia ilustrações publicitárias e passava a tinta os desenhos de Uderzo, mas que não tinha nenhuma experiência da planificação e da narrativa em BD. Por isso, tinha muitas dificuldades em contar uma história em Banda Desenhada. Quando percebemos que a coisa não ia resultar, tivemos que arranjar um substituto, que foi Conrad.

 E Conrad introduziu alguma alteração na história, em relação à versão com que Mebarky tinha trabalhado?

Não, e por duas razões. Primeiro, por quando ele chegou, o story board já estava todo feito e depois, como ele teve um prazo muito curto para desenhar o álbum, o meu story board até lhe deu jeito.

E o que é que nos pode adiantar sobre o novo álbum?

Oficialmente, a única coisa que posso adiantar é que a história termina com um banquete na aldeia gaulesa, como sempre (risos)… De resto, não posso dizer nada, mas como há algumas pequenas informações que já apareceram na Internet, posso dizer que, como é habitual nos álbuns de Astérix, haverá uma série de elementos típicos da tradição do país, como o monstro de Loch Ness e vamos saber também a verdadeira razão porque a Muralha de Adriano foi construída.

Foi à Escócia fazer pesquisa para escrever a história?

Já conhecia a Escócia e voltei lá por causa do álbum. Mas o cenário não é o principal. A história passa-se numa Escócia que, mais do que corresponder à Escócia histórica real, tem que corresponder à ideia que as pessoas têm da Escócia. Ou seja, há que jogar com os estereótipos de forma divertida. Do mesmo modo, a pesquisa histórica é importante, mas não é decisiva. Quando decidi escrever sobre os Pictos, fui naturalmente investigar. Mas a verdade é que não há grande informação sobre os Pictos, o que até me deu jeito, pois assim pude inventar os meus Pictos que, na boa tradição de Astérix, são os ascendentes dos escoceses modernos.

E já tem ideias para os próximos álbuns?

Ideias, tenho algumas. Mas a verdade é que o contrato que assinei foi só para este álbum. Vamos a ver como é que as coisas correm, como é que o livro é recebido… E depois, se a editora estiver interessada, também é preciso que eu arranje uma boa história que queira contar e que agrade ao editor. Sem estar entusiasmado com a história, não consigo trabalhar.

Qual é a diferença entre trabalhar numa série como Astérix, ou em projectos mais pessoais como a série Le Retour à la Terre, feita com o seu amigo Manu Larcenet.

São coisas diferentes. Com um personagem que eu criei, sou eu que comando o jogo. No caso de Astérix, não me sinto inteiramente responsável pelo universo da série. Astérix já existia, não fui eu que o criei. As regras do jogo são outras. É um desafio muito particular.

Está em Lisboa para o lançamento de uma colecção de álbuns de Astérix, que vai ser distribuída com o jornal Público. Que pensa deste tipo de iniciativas?

Acho que estas colecções vêm de encontro à vocação da Banda Desenhada, que é chegar ao grande público. Na minha infância, lembro-me que os álbuns de Lucky Luke eram vendidos em edição de capa mole, mais baratas e isso funcionava muito bem! E acho que no caso do Astérix também vai funcionar bem. Os colecionadores têm as edições normais em capa dura e estas edições chegam a um público mais alargado. Além disso, juntar as histórias de viagem todas numa mesma colecção é uma boa ideia!


Até agora, a presença dos Lusitanos na série Astérix limitou-se a um escravo no álbum o Domínio dos Deuses, que não sabia cantar, mas recitava poesia. Será que vamos ver algum dia Astérix na Lusitânia?

Astérix na Lusitânia é um bom título para um álbum. Soa mesmo a um título de Astérix! Já vi algumas sugestões nesse sentido na Internet.
E porque não? Mas para isso preciso de conhecer Portugal. Esta é a primeira vez que aqui venho e não vou ter tempo para ver grande coisa. Tenho que voltar com tempo, conhecer o país e arranjar uma história que justifique a visita de Astérix.
Versão integral da entrevista publicada no suplemento Fugas do jornal Público de 19/10/2013