sábado, 3 de agosto de 2019

Novela Gráfica V 5 - Monika

MONIKA E O DESEJO

Novela Gráfica V - Vol. 5 
Monika
Argumento – Thilde Barboni 
Desenho – Guillem March
Quarta-feira, 04 de Julho
Por + 10,90€
Monika, o quinto volume da colecção Novela Gráfica, é um triller tão movimentado como sensual. Uma história de violência e desejo, com dramas familiares, máscaras, sociedades secretas, festas sadomaso, grupos terroristas, um andróide apaixonado e uma grande carga erótica, saída da imaginação da escritora belga Thilde Barboni e magnificamente ilustrada pelo espanhol Guillem March. 
Nascido em Maiorca, em 1979, Guillem March construiu recentemente uma extensa carreira no mercado americano como ilustrador da DC Comics, a editora de Batman e Superman, onde se estreou com uma história da Hera Venenosa que os leitores portugueses puderam já ler no volume Asilo do Joker, (publicado na colecção No Coração das Trevas DC). Ligado às séries da linha do Batman, para onde tem desenhado vários títulos, com destaque para a revista da Catwoman, March tornou-se principalmente conhecido pelas centenas de belíssimas capas que ilustrou, pondo normalmente em destaque a beleza e a sensualidade das personagens femininas do universo DC.
Até pelo título (um simples nome de mulher) este Monika faz a ponte entre as duas grandes etapas do trabalho de March: a europeia e a americana. Antes de entrar no mercado americano, o desenhador maiorquino tinha trabalho publicado como autor completo em Espanha, com obras como a trilogia Sofia, Ana y Victoria, pré-publicada entre 2001 e 2004 no suplemento dominical do Jornal de Mallorca, e Laura, livro de 2006 que encerra esse ciclo feminino e que foi realizado entre a publicação do primeiro e do segundo volume de Monika. E este Monika combina perfeitamente a sensualidade e a dimensão humana dos álbuns maiorquinos (a acção de Sofia, Ana y Victoria passa-se em Maiorca, onde March nasceu e ainda vive), com a acção e espectacularidade dos comics de super-heróis, de que March se tornou um nome incontornável.
Publicado originalmente no jornal Público de 27/07/2019 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Novela Gráfica V 4 - No Rasto de Garcia Lorca

RECORDANDO GARCÍA LORCA

Novela Gráfica V - Vol. 4 
O Rasto de García Lorca
Argumento – Carlos Hernández e El Torres 
Desenhos – Carlos Hernández
Quinta-feira, 25 de Julho
Por + 10,90€
Nome maior da poesia e do teatro espanhol e figura incontornável da cultura mundial, a quem a morte trágica deu uma dimensão mítica, Federico García Lorca é o protagonista do quarto volume da colecção Novela Gráfica, que chega aos quiosques de todo o país no dia 25 de Julho, mas que dois dias antes será objecto de uma apresentação e lançamento na Fundação José Saramago, com a presença de Pilar del Rio, uma das autoras do prefácio.
Se as biografias de escritores, ou poetas são um tema bastante presente na novela gráfica espanhola contemporânea – basta pensar em Gente de Dublin, a biografia que Alfonso Zapico fez de James Joyce, publicada na colecção de 2018 – este O Rasto de García Lorca, para além de ser o primeiro, é diferente. Uma diferença que passa por traçar o retrato do poeta através da marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram - desde figuras célebres como Buñuel e Dalí, que não sai nada bem visto, até personagens bem mais anónimas, como Eládio, o criado anão do Hotel em Havana, onde Lorca se hospedou - nos locais por onde passou: pessoas que partilharam a vida e a morte do poeta, em cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque.
O ilustrador Carlos Hernández, que tem aqui o seu primeiro trabalho de grande fôlego, aliou-se a El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, para traçar doze momentos da vida de Garcia Lorca. Doze peças de um puzzle que, uma vez juntas, apresentam ao leitor um retrato bastante nítido do fundador da Barraca.
Embora o nome dos dois autores apareça em pé de igualdade na capa, a verdade é como refere modestamente El Torres, foi Carlos “quem comandou o barco” enquanto ele, como vem na ficha técnica se limitou a “limpar e dar brilho e esplendor” às suas ideias. Algo natural, pois Carlos Hernández é natural de Granada e, como refere numa entrevista: “como granadino, Federico García Lorca está no meu subconsciente e tem sido, desde que me lembro, o referente cultural da minha cidade, apesar das cinzas do passado e de um controverso silêncio de que a cidade ainda não se conseguiu de todo libertar. Lorca significa muito para qualquer um que tenha sensibilidade para sentir os seus passos naqueles recantos da cidade que ainda conservam o seu rasto.” Por isso, a história abre e fecha com as memórias de Alfonsito, um vizinho de Lorca, personagem inspirada no pai do próprio Carlos Hernández, que foi contemporâneo do poeta.
Dando mais uma vez a palavra a Carlos Hernández: “A premissa inicial foi de não contar a sua vida como mais uma biografia, mas antes construir diferentes relatos biográficos com uma certa independência, de que Lorca é o protagonista elíptico, muitas vezes ausente e outras não, mas sempre reflectindo, através do olhar dos seus amigos ou conhecidos, esse magnetismo, vitalidade e carismática presença que encontramos nas descrições de todos aqueles que o conheceram em vida. Por isso, escolhemos os temas em função de diversas prioridades. Por exemplo, contar algo da sua viagem a Nova Iorque, a sua estadia em La Habana, falar de sua relação com Dalí e Buñuel, a Residência de estudantes, relatar o seu dia-a-dia com a Barraca, e também mostrar a face sinistra de Granada, através do antigo soldado que se gabava de ter morto Lorca, uma história autêntica que as pessoas mais velhas da minha cidade ainda recordam.”
Graficamente, Hernández, que fez um sólido trabalho de pesquisa que dá grande veracidade à sua reconstituição de época, optou por um registo a sépia, que nos remete para as fotografias antigas, com resultados extremamente evocativos e poéticos. Mas onde o seu trabalho brilha mais é em termos narrativos, em momentos como a (surreal, mas verídica) entrevista a Salvador Dalí, ou as memórias de Luís Buñuel, em 1928, em que as palavras dos dois são acompanhadas por imagens que remetem para o filme Un Chien Andalou, que Dalí e Buñuel realizaram.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/07/2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Novela Gráfica V 3 - A Febre de Urbicanda


Como acontece nos casos em que sou o autor do prefácio do livro, em vez de transcrever o texto do Público ( que podem sempre ler, carregando na imagem abaixo) aqui vos deixo o prefácio. É sempre um prazer escrever sobre As Cidades Obscuras e ainda mais sobre este livro, que foi o primeiro da série que comprei, em 1986, na FNAC de Les Halles, em Paris. Também por essas memórias, e pelo muito que me liga a essa série e aos seus autores, é sempre bom regressar a Urbicanda, ou a qualquer outra Cidade Obscura.

REGRESSO A URBICANDA


No mesmo ano em que nos países francófonos se conclui a edição integral em quatro volumes da série As Cidades Obscuras, eis que finalmente é reeditado em Portugal um dos títulos fundadores do universo criado por François Schuiten e Benoit Peeters, A Febre de Urbicanda. Objecto de uma primeira edição nacional, no final da década de 80 do século XX, o clássico de Schuiten e Peeters regressa agora numa edição definitiva que, para além de um dossier final sobre a lenda da Estrutura, inclui também a história A Última Visão de Eugen Robick, feita em 1997 para o número final da revista (A Suivre) onde a série nasceu.
Efectivamente, tudo começou em 1983, nas páginas da revista (A Suivre) com Samaris, a primeira das Cidades Obscuras dada a conhecer por Schuiten e Peeters. na história Les Murailles de Samaris.  O que era inicialmente para ser uma aventura independente, de homenagem à Arte Nova e à arquitectura em trompe l’oeil, viria a dar origem a uma série de histórias autónomas, passadas num mesmo universo que os próprios autores definem como sendo um reflexo deslocado da Terra, mas num tempo indefinido, parado algures na transição do século XIX para o XX.
Não sendo a primeira, A Febre de Urbicanda é, efectivamente a história que melhor abarca o conceito de “Roman BD” – termo associado à revista (A Suivre) que em França designou inicialmente a Novela Gráfica – com histórias preto e branco de longo fôlego, estruturadas em capítulos e marcadas pela ausência de um limite de páginas pré-estabelecido, e que, de facto, fundou o universo da série “a posteriori”. Aspecto que fica bem patente logo nas páginas iniciais de BD, ambientadas no gabinete de Robick, cujas paredes estão decoradas com um grande mapa do Continente Obscuro, onde são visíveis nomes de cidades como Alaxis, Xhystos e Samaris. Do mesmo modo, aquando da posterior reedição em livro de As Muralhas de Samaris, os autores acrescentaram algumas páginas no final, em que aparece um jovem Eugen Robick, então a viver em Xhystos, criando assim uma ligação entre os dois livros, cuja acção, percebe-se então, tem lugar no mesmo universo: o universo das Cidades Obscuras (designação inventada por Jean Paul Mougin, director da (A Suivre). Um universo que é constituído por uma série de cidades fantásticas, verdadeiros protagonistas de histórias fascinantes, que têm como pano de fundo as relações entre a arquitectura, as emoções e o poder. Histórias que procuram responder a uma questão fundamental: até que ponto as características de uma cidade podem moldar o comportamento dos seus habitantes e a evolução da própria narrativa?
Conforme refere Benoit Peeters: “o cenário, para nós não é um elemento secundário: é a partir dele que o conjunto da narrativa se organiza. Na maior parte das bandas desenhadas, o motor e o centro da narrativa é uma personagem que se reencontra, álbum após álbum. Completamente diferente é o projecto das Cidades Obscuras, em que é uma cidade que dá a cada história a sua unidade; não uma cidade real que trabalhos de localização permitissem alcançar, mas uma cidade inteiramente fictícia, fragmento de um universo paralelo cuja imagem global se desenha pouco a pouco”.
Neste caso, a cidade é Urbicanda, uma utopia arquitectónica baseada no rigor do planeamento e na simetria, em que o crescimento geométrico de um misterioso cubo feito de uma matéria desconhecida, vem perturbar e transformar a vida dos seus habitantes e a imagem da própria cidade. Embora o nome de Robick, o urbitecto responsável pela imagem uniforme da cidade, remeta para o cubo de Rubik, brinquedo quebra-cabeças muito em voga nos anos 80, e a história tenha precisamente seis capítulos – tantos quanto as faces de um cubo - a principal fonte de inspiração para o urbitecto foi o próprio pai de Schuiten, Robert Schuiten, arquitecto de profissão, tal como as cidades construídas de raiz, como Brasília -  que os autores só visitaram em 1997, ano da morte do pai de Schuiten – serviram de inspiração para Urbicanda. A mesma Brasília, traçada por Óscar Neimeyer,  onde reencontraremos Robick, na história curta para o último número da revista (A Suivre) que encerra este volume.

Para além da arquitectura fascista e dos projectos utópicos de Boulée e Ledoux,  expressamente citados na carta de Robick à Comissão das Altas Instâncias, que abre o livro, o universo imponente de Urbicanda é particularmente inspirado em trabalhos realizados por estudantes de arquitectura das Belas-Artes de Paris na década de 30. O que nos remete para outra das características marcantes da série, o recurso a uma ficção-científica “retro”, extrapolada a partir das utopias e dos projectos futuristas do princípio do século e de finais do século XIX.
Ao contrário de um Edgar P. Jacobs – de quem François Schuiten é um profundo admirador, como o demonstrar o recente Blake e Mortimer que desenhou - que, quando se propôs descrever o futuro em A Armadilha Diabólica, acaba, em vez disso, por retratar, com poucas extrapolações, a tecnologia de 1958, a tecnologia da Exposição Universal que vira dois anos antes em Bruxelas, o universo das Cidades Obscuras está mais fora do tempo. Nas palavras de Peeters, “o universo que descrevemos é um universo ligeiramente deslocado, mas cheio de elementos tirados do nosso universo. Evoca, de facto, aquilo que teria acontecido se tivesse havido uma espécie de falha temporal, se em lugar de evoluir no sentido que nós conhecemos, a arquitectura e as técnicas tivessem ligeiramente bifurcado a partir de um certo estádio, para seguir até ao fim uma direcção que, na realidade, foi muito depressa abandonada”.
Série maior da BD franco-belga, que cedo ultrapassou os limites da própria Banda Desenhada, para dar origem a livros ilustrados, documentários, um guia de viagens, exposições, intervenções cenográficas, um congresso que teve lugar em Coimbra em 1998 – cujas actas foram recolhidas no livro As Cidades Visíveis - e até a Estações de Metro, em Paris e Bruxelas, as Cidades Obscuras são um marco incontornável na história da Banda Desenhada e A Febre de Urbicanda é um das melhores portas de entrada nesse universo fascinante.
Publicado originalmente como prefácio do livro A Febre de Urbicanda, terceiro volume da colecção Novela Gráfica de 2019

domingo, 14 de julho de 2019

Novela Gráfica V 2 - Frango com Ameixas

O HOMEM QUE SE DEIXOU MORRER

Novela Gráfica V - Vol 2
Frango com Ameixas
Argumento e Desenhos – Marjane Satrapi
Quinta-feira, 13 de Junho
Por + 10,90 € 
Depois de Paco Roca no volume inicial, a Colecção Novela Gráfica de 2019 abre as suas portas a outro grande nome da BD europeia, Marjane Satrapi, que se estreia no catálogo do Público e da Levoir com o seu trabalho mais consistente, Frango com Ameixas.
Terceira mulher a assegurar presença na Colecção Novela Gráfica, depois de Zeina Abirached na Colecção de 2016 e Pénélope Bagieu na Colecção de 2018, Satrapi nasceu  no Irão em 1969, no seio de uma família de esquerda com grande peso no país (o bisavô foi o último Imperador da dinastia Qajar e o avô chegou a ser Primeiro Ministro) e tinha tinha apenas dez anos quando se deu a revolução que levou ao exílio do Xá e à instauração de uma República Islâmica, tendo vivido por dentro um momento fulcral da história do seu país. Um momento que soube transpor para o papel com eficácia, sensibilidade e rigor, em Persépolis, o título que lhe deu fama e que a própria adaptou ao cinema, num filme de animação co-realizado com Vincent Paronnaud.
Se Persépolis tinha uma carga autobiográfica dominante - algo natural em alguém como Satrapi, que viveu acontecimentos marcantes e que, como a própria confessou numa entrevista “tenho uma excelente memória, o meu cérebro não faz qualquer selecção. Lembro-me de tudo. O que é muito bom quando queremos trabalhar, mas é muito mau quando queremos viver” - Frango com Ameixas parte de factos reais relacionados com a história familiar da autora, para construir uma narrativa mais rica e muito menos linear do que em Persépolis, sendo evidente uma evolução de Marjane enquanto contadora de histórias, bem expressa na forma como ela gere a revelação sobre o verdadeiro motivo para Nasser se deixar morrer.
Actualmente a viver em França, Satrapi, que frequentou o Liceu Francês de Teerão até 1980, tem uma formação cultural muito próxima cultura francesa, incluindo no campo da BD. Também aqui as referências de Satrapi são francesas especialmente David B. e os autores da editora francesa L’Association, o que é natural pois para além de não existir tradição de BD no Irão, a autora partilhou o atelier com Cristophe Blain (o autor de “Isaac, o Pirata”, cuja namorada da altura era a melhor amiga de Marjane), Emmanuel Guibert, Joann Sfar e o próprio David B., que a encorajou a passar a sua vivência ao papel e assina a introdução do primeiro volume da edição original francesa de Persépolis. Muito longe de ter o virtuosismo de David B., um mestre do preto e branco, Satrapi defende-se ainda assim bastante bem, graças a um grafismo muito depurado e quase Naif mas de grande eficácia narrativa, servido por um preto e branco contrastado, que guia o olhar do leitor para o que é essencial. Um estilo que se mantém reconhecível em Frango com Ameixas, embora com evidentes melhorias em termos de utilização da perspectiva.
O livro que chegará às bancas com o Público na próxima quinta-feira e que venceu o prémio de melhor álbum no Festival de Angoulême de 2005 e foi adaptado ao cinema pela própria Satrapi em 2011, num filme com a portuguesa Maria de Medeiros no elenco, conta a história de Nasser Ali Khan, tio-avô de Marjane, um famoso músico que viveu no Irão de 1958. Na sequência de uma discussão familiar, o seu tar, o instrumento de que é virtuoso e que é o seu bem mais precioso, é partido. Nenhum outro tar o irá satisfazer e Nasser vai perder o gosto pela música. Tomado de uma melancolia imensa, decide deixar-se morrer, levando-nos numa viagem às suas emoções, aos seus sonhos e à sua história pessoal, que se mistura com a do seu Irão natal num período conturbado da sua história.
Se em Persépolis a realidade histórica é o fulcro da narrativa, aqui é apenas o ponto de partida, pois como a autora confessa a propósito do tio-avô: “dele, tudo o que vi, foi uma fotografia de família em que ele tinha um ar tão romântico e evocativo e, ao mesmo, muito intenso e muito belo... e sabia que tinha sido um grande músico e tinha morrido de tristeza. Só isso.” E “isso” é o ponto de partida para uma narrativa fascinante, que mistura sonho e realidade, história e ficção, amor e sofrimento e em que cada história contém em si outras histórias.
Publicado originalmente no jornal Público de 06/07/2019

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Os Caçadores de Tesouros em destaque na apresentação da colecção Novela Gráfica


OS CAÇADORES DE TESOUROS EM DESTAQUE 
NA APRESENTAÇÃO DA COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA 2019

Com moderação de Helena Pereira, editora do Público, o auditório do jornal recebeu na passada quarta-feira, 3 de Julho, a apresentação da colecção Novela Gráfica de 2019. Aposta arriscada, como alguns editores concorrentes fizeram questão de referir na altura, a Novela Gráfica soube conquistar um público próprio, mais alargado do que os habituais coleccionadores de Banda Desenhada e também mais diversificado em termos de género. 
Foi esta história de cinco anos que, a editora da Levoir, Sílvia Reig, e o autor deste texto, evocaram, satisfazendo a curiosidade dos interessados quanto ao critérios de selecção das diferentes colecções que, partindo de uma lista inicial de mais de uma trintena de títulos, a que se estão sempre a juntar novos títulos, tem permitido lançar ao logo dos últimos cinco anos, colecções anuais  de 12 a 15 volumes, onde clássicos incontornáveis como Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia, V de Vingança, de Alan Moore e David LloydUm Contrato com Deus, de Will Eisner, Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, O Diário do Meu Pai, de Taniguchi, ou Sharaz’De, de Toppi, convivem lado a lado com títulos mais recentes, de autores contemporâneos, principalmente espanhóis, que a colecção deu a conhecer aos leitores, com o sucesso que conhecemos.  Mesmo autores, como Paco Roca, ou Jiro Taniguchi que objectivamente já tinham trabalho publicado em Portugal, foi através da colecção Novela Gráfica que se tornaram verdadeiramente populares junto dos leitores portugueses. Outro aspecto abordado, foi a ausência de autores portugueses a partir da segunda série, o que se deve sobretudo à inexistência de propostas inéditas de autores nacionais que se encaixem nos critérios da colecção.
Marcada pela diversidade, de formatos (respeitando sempre o formato original de publicação, algo que causou alguma estranheza inicial aos leitores, mas que foi rapidamente vencida), de temas, de registos gráficos, de nacionalidades, a colecção Novela Gráfica é um bom exemplo de liberdade e de versatilidade. Liberdade e versatilidade que a linguagem da arte sequencial permite. Arte sequencial foi um termo utilizado por Will Eisner, autor que, com Contrato com Deus - título que, não por acaso, inaugurou a primeira colecção, em 2015 - também ajudou a vulgarizar o termo Graphic Novel, que numa tradução mais literal do que exacta, deu origem à Novela Gráfica, expressão usada tanto em Portugal, como em Espanha e no Brasil.
Naturalmente, esta quinta série reflecte essa aposta firme na liberdade e na diversidade, juntando clássicos como Frango com Ameixas,de Marjane SatrapiGoradze: área de Segurança, de Joe SaccoA Febre de Urbicanda, de Schuiten e Peeters, ou  Como uma Luva de Ferro Forjada em Aço,  de Daniel Clowes, a títulos extremamente recentes como O Tesouro do Cisne Negro, de Paco Roca e Guillermo Corral, ou Neve nos Bolsos, de Kim e obras estética e narrativamente mais arriscadas como O Número 73304-23-4153-6-96-8, de Thomas Ott, uma história inteiramente sem palavras ilustrada usando a técnica da grattage, que assinala a estreia em Portugal do autor suíço
Aproveitando o facto de O Tesouro do Cisne Negro, de Paco Roca e Guillermo Corral, título que abre esta colecção, ser inspirado em factos reais, presenciados pelo próprio Corral, mais concretamente no caso verídico, cujos desenvolvimentos o Público acompanhou, da fragata espanhola Nuestra Señora de las Mercedes, afundada no século XVII em águas territoriais portuguesas, junto à costa algarvia, que foi saqueada pela empresa americana Odyssey, liderada pelo conhecido caçador de tesouros Greg Stemm, a apresentação da colecção foi pretexto para uma interessantíssima conversa sobre as ameaças ao património subaquático, com Alexandre Monteiro, arqueólogo e Investigador da Universidade Nova de Lisboa (que prefaciou a edição portuguesa de O Tesouro do Cisne Negro ) e Paulo Costa, Investigador do Instituto de História Contemporânea.
Alexandre Monteiro explicou o método de funcionamento destas empresas de caçadores de tesouros, que quando descobrem um achado vão lá e destroem todo o contexto, aspirando literalmente os destroços, porque só lhes interessam mesmo os objectos de valor. Estas são empresas cotadas em bolsa, que mais do que dos tesouros que conseguem encontrar/pilhar, vivem do investimento dos seus accionistas - que adiantam dinheiro com mira nos lucros de tesouros fabulosos, que normalmente não passam de miragens - e que se aproveitam da fraqueza dos Estados com quem negoceiam.
A esse respeito, a situação que se passou em Cabo Verde é exemplar: “uma dessas empresas estabeleceu um protocolo como Governo, segundo o qual ficariam com todos os objectos descobertos repetidos, como moedas, mas deixando aos países a possibilidade de guardar os itens únicos. Só que, e é aqui onde está o truque, ressalvando a possibilidade de lhes cobrar a despesa de retirar esse objecto do fundo do mar. Na prática, quando no naufrágio de Passa Pau foi descoberto um astrolábio seiscentista banhado a prata e o Estado o quis guardar, apresentaram uma despesa de várias centenas de milhares de dólares. O resultado foi que o instrumento acabou vendido pela Sotheby’s, sem qualquer benefício para o país.”
Como explicou Paulo Costa, no caso dos navios de guerra do século XX, afundados durante as duas Guerras Mundiais, o que interessa aos caçadores de tesouros já não é o conteúdo dos navios, mas sim o seu metal, que por estar submerso antes do início da era atómica, em 1945, não tem vestígios de radiação, o que torna esse metal mais valioso.
Enquadrada com a realidade, a história contada por Roca e Corral ganha outra pertinência, até porque o que se passou com a Nuestra Señora de las Mercedes, ameaça repetir-se em 2019 com a nau Santa Rosa, uma embarcação portuguesa de 66 canhões, carregada com dezenas de toneladas de ouro, afundada em 1726, com 700 portugueses a bordo, que se encontra em águas territoriais brasileiras, ao largo do Cabo Santo Agostinho, Pernambuco. Um navio já localizado em 1998, mas que só agora, com a subida de Bolsonaro ao poder, o Governo brasileiro concedeu autorização à Odyssey, a Ithaca do Cisne Negro para operações de resgate deste navio português.
Resta esperar que o Governo português mostre a mesma coragem com a Santa Rosa que o Governo Espanhol demonstrou com a Nuestra Señora de las Mercedes. Embora a situação seja bastante melhor, desde que em 1997, Manuel Maria Carrilho revogou a lei promulgada por Santana Lopes, que abria a porta à concessão de partes da costa a empresas privadas para levantar naufrágios históricos e nesse mesmo ano foi criada uma lei para a arqueologia subaquática, que permitiu a Portugal ser um dos primeiros países a aderirem à Convenção da UNESCO para Protecção do Património Cultural Subaquático, a falta de meios continua a ser gritante.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/07/2019