quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Harley Quinn 2 - Miúdas Sem Regras

HARLEY E HERA CONQUISTAM CONEY ISLAND

Harley Quinn: Miúdas sem Regras
Argumento – Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin, Stéphane Roux e Marco Failla
Quinta, 21 de Dezembro, Por + 10,90 €
Depois de ajudar Sy Borgman a eliminar a rede de antigos espiões do KGB infiltrados em Nova Iorque e a resolver antigas questões pendentes durante mais de 50 anos, o que implicou, entre outros momentos memoráveis, uma visita ao Jardim Zoológico, Harley regressa a casa onde a espera a Hera Venenosa. 
Criada em 1966, por Robert Kanigher e Sheldon Moldoff, Pamela Isley, a Hera Venenosa apareceu pela primeira vez no nº 181 da revista mensal do Batman, mantendo-se desde então como um dos principais vilões do universo do Cavaleiro das Trevas, mesmo que desde as mudanças operadas com a Linha Novos 52, apareça mais como uma anti-heroina, numa posição de equilíbrio precário entre o crime a legalidade, um pouco na linha da própria Harley Quinn  e da Catwoman, outras duas mulheres fatais do Universo DC, com quem costuma interagir.
E se a amizade entre Harley e Pamela já vinha sendo explorada desde os tempos da série de animação Batman the Animated Series, na fase de Palmiotti e Conner, a relação entre as duas vai mais além, sendo descrita pelo próprio Jimmy Palmiotti como “uma relação sentimental sem os constrangimentos da monogamia”, o que vem confirmar a bissexualidade de Harley Quinn.
Mas não é só em relação às opções sexuais da sua protagonista que Harley Quinn é uma série pouco convencional. Também a forma como a violência (extrema) é tratada, está mais próxima dos desenhos animados dos Looney Toons, no seu exagero, do que das histórias de super-heróis tradicionais. Ou seja, embora essa violência tenha consequências, é apresentada de uma forma tão extrema, que chega a ser divertida. Um pouco na linha do que costuma fazer Garth Ennis, em séries como o Preacher, na BD, ou Quentin Tarantino no cinema.
E por falar em cinema, não faltam também as referências cinematográficas nos argumentos de Palmiotti e Conner, a começar pelo próprio Tarantino, logo no capítulo três deste volume, onde há uma homenagem, mais ou menos óbvia, aos filmes Pulp Fiction e Kill Bill. Aliás, este terceiro capítulo é claramente aquele em que os autores mais longe levam o jogo referencial, que além do cinema, com as homenagens aos filmes de Tarantino e ao Rollerball e Fight Club, conta com uma participação muito especial da chefia criativa da própria DC, presente numa reunião ultra-secreta num arranha-céus de Manhattan, que é bombardeado pelo engenhoso sistema criado por Tony Grande para reciclar os excrementos das centenas de cães e gatos que Harley resgatou no primeiro volume. Nessa divertida sequência é possível reconhecer Dan Didio (com uma camisa azul com símbolos do Super-Homem), Jim Lee e Geoff Johns, os três mais poderosos editores da DC que, uma vez que esta cena não foi cortada, revelam ter sentido de humor…Embora o trabalho gráfico de Marco Failla e sobretudo de Stéphane Roux, que ilustra o capítulo final que reconta a origem da Harley Quinn, seja atraente e eficaz, muito do sucesso desta fase da Harley Quinn repousa nos ombros de Chad Hardin, o desenhador principal da série. Excelente desenhador, Hardin consegue um equilíbrio perfeito entre eficácia narrativa, espectacularidade, erotismo, humor e legibilidade, que está ao alcance de poucos.
Publicado originalmente no jornal Público de 16/12/2017

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Apresentação da colecção Harley Quinn

O FABULOSO DESTINO DE HARLEY QUINN

Quem poderia imaginar que uma personagem criada inicialmente para ter apenas uma participação esporádica num episódio da série de televisão Batman: The Animated Series acabaria por se tornar, 25 anos depois da sua estreia, numa das mais conhecidas personagens do Universo DC. Uma personagem que só é ultrapassada em popularidade, que não em vendas, pela trindade Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha  e que chegou a estar presente simultaneamente em três revistas mensais –Harley Quinn, Harley and her Gang of Harleys e Suicide Squad -  para além de diversas mini-séries e números especiais. Uma personagem que é também a mais recriada pelos cosplayers (fãs que se mascaram em público das suas personagens favoritas) nos grandes Festivais de comics, como a San Diego Comic Con, ou a nossa Comic Con Portugal, que decorre esta semana em Matosinhos, e que chegou também ao cinema com igual sucesso, graças à excepcional interpretação da actriz Margot Robbie no filme Esquadrão Suicida.

Tudo em começou em 1992, no episódio Joker’s Favor da série de desenhos animados, Batman: The Animated Series criada por Dini e Timm, mas o que estava inicialmente previsto como uma aparição esporádica de uma ajudante do Joker vestida de Arlequim, que saia de dentro de um bolo, acabou por se transformar numa presença regular da série, face à imediata e extraordinária popularidade de Harley Quinn. Como refere Bruce Timm: “Quando o Paul (Dini) me falou em criar uma namorada para o Joker, eu achei que era boa ideia, por isso metemo-la no episódio Joker’s Favor.
Mas foi só quando a vimos, já animada, no ecrã, que toda a gente se apaixonou instantaneamente por ela. Era uma combinação da personalidade, da voz – a voz da actriz Arleen Sorkin – e do visual. É uma personagem fantástica. Apercebemo-nos logo que tínhamos acertado em cheio. Por mais que eu não quisesse usá-la muito, pois o seu lado mais divertido interferia com o nosso objectivo de tornar o Joker mais sinistro, a verdade é que todos adorávamos a personagem e por isso, o Paul enfiou-a em todos os episódios do Joker.”
A passagem da animação para a BD dá-se em 1993 no nº 12 da revista Batman Adventures, mas é no ano seguinte, com a novela gráfica Batman: Amor Louco, de Dini e Timm, história já publicada numa anterior colecção da Levoir, que a sua popularidade verdadeiramente explode pela primeira vez. Tudo começou com um convite de Denny O’Neil, um dos melhores escritores do Batman de sempre e então editor das revistas do Cavaleiro das Trevas, feito durante um almoço no San Diego Comic Con, para que Timm e Dini apresentassem uma proposta à DC para uma BD. Foi então que Paul Dini se lembrou de explorar a origem da Harley Quinn, que nunca tinha sido abordada na série de animação, revelando que Harley era inicialmente a Dra. Harleen Quinzel, uma Psiquiatra do Asilo Arkham, que acaba por se apaixonar pelo Joker, sendo arrastada por ele para o mundo da loucura, acabando por se transformar em Harley Quinn, a Arlequina, a sua namorada e cúmplice.
Para além da sua participação em aventuras do Batman, ao lado do Joker, com quem tem uma relação no mínimo complicada, em que é vítima de abusos e maus-tratos, Harley Quinn vai também integrar o novo Esquadrão Suicida, formar as Gotham City Sirens, com a Hera Venenosa e a Catwoman e ganhar a sua própria revista, mas a mudança que lhe garantiu um aumento exponencial de popularidade deu-se em 2013, já dentro da linha Novos 52, quando Jimmy Palmiotti e Amanda Conner, uma dupla de autores que são também marido e mulher, revitalizaram a personagem afastando-a de Gotham City e do Joker, numa nova revista, cuja fase inicial serve de base a esta colecção em três volumes.
Não foi a primeira vez que Harley Quinn teve a sua própria revista, pois já entre entre 2001 e 2003 tinha protagonizado uma série mensal que durou 38 números, em que colaboraram autores como Terry Dodson e Karl Kesel, mas esta nova série, em que surge com a nova imagem que ganhou na Linha Novos 52, mais próxima da que lhe conhecemos no cinema, do que do fato de Arlequim que envergou até então, teve um sucesso incomparável.
A mudança operada por Palmiotti e Conner na revista da Harley Quinn, foi tão simples como eficaz, fazendo-a abandonar o Joker e um passado ligado ao crime, recomeçando a vida noutro lugar: neste caso, Coney Island, um espaço que um nova-iorquino como Palmiotti, que nasceu no Brooklyn, conhece bem e que se revela o cenário perfeito para aventuras tão delirantes como divertidas, que incluem espiões na reforma, um texugo empalhado (que conversa com a heroína…) e heroínas e vilãs como a Poderosa e a Hera Venenosa (que, ficamos a saber pelo próprio Palmiotti, tem uma relação não-monogâmica com a Harley, cuja bissexualidade é assumida).

E com uma nova cidade, vem uma nova vida, com novos amigos, novos vizinhos e novos interesses amorosos, que os leitores poderão descobrir nesta colecção, mesmo que o seu passado com o Joker volte por vezes para a atormentar, como acontece numa das histórias do volume dois. Nas palavras de Jimmy Palmiotti: “Nós sabemos perfeitamente que ela tem esse passado. Não tentámos fazer como se esse passado nunca tivesse existido. Mas eu acho que é realmente importante que uma personagem possa crescer e é isso que nós estamos a tentar fazer com a Harley. Fazê-la crescer, ter novos relacionamentos, dar-lhe responsabilidades. E essa é outra razão porque ela é fantástica. Em Gotham não passava de um personagem secundário, enquanto que agora, que está em Coney Island, é ela a protagonista.
A colaboração entre os dois argumentistas é tão harmoniosa como o seu casamento e Amanda Conner descreve-a nestes termos: “sempre que me perguntam como é que escrever a Harley, respondo assim “o Jimmy constrói a casa e depois eu pinto-a e decoro-a”. Por isso, é mesmo um trabalho de equipa Eu não saberia exactamente o que fazer sem uma estrutura tão bem construída. Sabem, o Jimmy constrói mesmo casas fantásticas”
Fundamental para a nova casa que Pamiotti e Conner construíram para a Harley Quinn é o trabalho gráfico de Chad Hardin, o vencedor de um concurso internacional, em que participaram vários desenhadores portugueses, para escolher o desenhador de Harley Quinn. Hardin, contando com a colaboração ocasional de Stephane Roux e John Timms, cria uma Harley tão sexy como divertida, enchendo as pranchas de detalhes engraçados, que fornecem um nível de leitura suplementar. Mas tal como acontecia na série Jonah Hex, Palmiotti não perde uma oportunidade de colaborar com os melhores desenhadores do mercado. Algo bem patente na história publicada no Harley Quinn nº 0, que abre esta colecção, ou na aventura passada na Comic Con de San Diego, no volume 3, em que está igualmente patente, outra característica fulcral desta série: o uso da metalinguagem, através do quebrar constante da “quarta parede”, com a própria Harley, consciente de que é uma personagem de BD, a conviver com os seus criadores e com os editores e autores da DC, que se tornam eles próprias personagens destas mesmas histórias.
Mas o melhor elogio ao trabalho de Palmiotti e Conner, vem do próprio Bruce Timm, o criador da Harley Quinn, que refere: “o Jimmy e a Amanda inventaram uma excelente versão da Harley que a mantém relevante para os leitores actuais. Mantém a diversão e mantém-na divertida. É sempre fiel à personagem e é sempre nova. Adoro realmente ser surpreendido, como os outros leitores, em cada novo número e descobrir o que é que eles inventaram desta vez.”
Ironicamente, o momento em que a etapa de Palmiotti e Conner na Harley Quinn chega finalmente em Portugal coincide com o fim dessa etapa nos E.U.A, pois no dia 20 chega às Livrarias de Comics americanas, o nº 38 da série mensal, que é último escrito pela dupla, que será substituída pelo escritor Frank Tierry. Uma etapa de quatro anos, iniciada em Agosto de 2013, no mesmo mês do seu casamento, que agora chega ao fim porque, como refere Palmiotti: “Achámos que talvez fosse uma boa altura para fazer uma pausa, ir em Lua-de-mel, talvez gastarmos um com o outro algum do dinheiro que ganhámos, e termos tempo livre para gozar a vida e conhecermo-nos melhor. Adoramos a personagem, mas sabemos que, por vezes, estás a trabalhar num livro e as vendas caem e a personagem deixa de ser popular. Por isso, achámos melhor fazer uma pausa agora, que a personagem está no auge da sua popularidade.”
Para Amanda Conner, que desenhou mais de 100 capas da Harley Quinn, esta paragem é uma oportunidade de voltar ao seu principal amor: o desenhar BD. Algo de que teve de abdicar devido ao seu trabalho como co-argumentista numa série que, durante algum tempo, chegou a sair quinzenalmente.
Mais do que um “Adeus”, os autores dizem “Até Já” a Harley Quinn, pois ideias para novas aventuras da personagem são coisas que não lhes faltam. Como Palmiotii confessa: “o caderno onde a Amanda guarda os seus esboços e ideias para novas histórias da Harley Quinn é do tamanho de uma bíblia”. Ou seja, não faltam boas ideias para um eventual regresso, para além da garantia da DC de que seriam recebidos de braços abertos.

1 – Harley Quinn: À Solta na Cidade
14 de Dezembro
Argumento – Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin, Stéphane Roux e outros
Como é que uma rapariga se pode descobrir a si mesma no meio da confusão do Universo DC? Nada mais fácil que falar com os artistas que a desenham e escrevem, e impor algumas regras!  Esta aventura surreal ilustrada por alguns dos maiores nomes dos comics, dá o ponto de partida para a nova vida de Harley Quinn, escrita por Jimmy Palmiottti e Amanda Conner. No início desta nova série, Harley herda de um dos seus pacientes no Asilo Arkham, um prédio de habitação e comércio em Coney Island, Nova Iorque, o que lhe dá a oportunidade perfeita de recomeçar a vida longe de Gotham e do Joker. Mas, os impostos e os custos de manutenção do edifício são elevados e as rendas pagas pelos peculiares inquilinos não cobrem estes custos, o que obriga Harley a voltar a trabalhar como psiquiatra num lar de idosos de dia, e integrar uma equipa de Roller Derby à noite, para poder pagar as contas. Se a isto juntarmos os inúmeros assassinos que aparecem, atraídos por uma recompensa de dois milhões de dólares pela sua cabeça e uma rede de antigos espiões do KGB, que vai ajudar Sy Borgman, um agente reformado da CIA, a desmantelar, vemos que a nova vida de Harley está bastante preenchida.

2  – Harley Quinn: Miúdas sem Regras 
21 de Dezembro
Argumento -  Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin, Stéphane Roux e Marco Failla
Russos e ursos, assaltos a bancos, peças de teatro e jogos de Roller Derby. Descoberto o mistério sobre quem lhe tinha colocado a cabeça a prémio, há ainda muito com que Harley Quinn se pode entreter, para variar do seu enfadonho negócio de ser proprietária de um edifício em Coney Island, Nova Iorque! Sobretudo se conseguir juntar um grupo de amigas e não se deixar limitar por nenhumas regras. Regras que não existem no clube de combate clandestino que Harley descobriu, onde mais ganhas consoante os adversários que derrubares. Com um agente como Sy Borgman, o velho espião cheio de partes biónicas, a representá-la, Harley tem tudo para arrasar… em todos os sentidos.
Neste segundo volume, há ainda espaço para recontar, numa perspectiva diferente,  a origem secreta de Harley Quinn, numa história ilustrada por Stéphane Roux.

3  –Harley Quinn: o Fim da Macacada
28 de Setembro
Argumento –  Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin e outros
A Poderosa é atirada do seu mundo alternativo para a Terra, e não se lembra de quem é. Uma oportunidade perfeita para Harley Quinn se transformar finalmente naquilo que ela sempre quis ser... uma super-heroína. Num futuro alternativo, Harley sofre um acidente de avião e vai parar a uma ilha tropical, onde o Joker é adorado como um Deus e parece querer fazer dela novamente a sua princesa. Isto se os indígenas locais não os sacrificarem antes, para apaziguar a fúria do vulcão…
Finalmente, numa história onde volta a derrubar a “quarta parede”, Harley decide ir à Comic Con de San Diego para falar com um editor que publique o seu comic, e encontrar os seus editores e criadores. Um final tão divertido quanto épico, que conta com a arte de inúmeros artistas convidados, como Paul Pope, Javier Garrón, Damion Scott, Amanda Conner, John Timms, Marco Failla e Dave Johnson.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 14/12/2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Liga da Justiça 5 - A Guerra de Darkseid 2

O FIM DE UMA ERA 

Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid Vol. 2
Argumento – Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok, Francis Manapul e Ivan Reis
Quinta, 07 de Dezembro, Por + 10,90 €
Com a publicação da segunda e última parte de A Guerra de Darkseid, chega ao fim a colecção que o Público e a Levoir dedicaram à Liga da Justiça, por ocasião da estreia dos maiores heróis da DC no cinema. Uma colecção que, com a excepção de clássicos como Nova Ordem Mundial e O Prego: Teoria do Caos se centrou no trabalho incontornável de Geoff Johns com a Liga. Um trabalho que leva o conceito de épico a níveis poucas vezes vistos e que os leitores portugueses tiveram o privilégio de poder acompanhar na íntegra, através das diversas colecções dedicadas aos heróis da DC que foram saindo nos últimos quatro anos.
O primeiro volume de A Guerra de Darkseid tinha terminado com alguns dos membros da Liga da Justiça transformados em Deuses. Assim, Batman, que conquistou a Metron a cadeira de Mobius, tornou-se o Deus do Conhecimento; o Super-Homem, o Deus da Força; o Flash, O Deus da Morte; o Shazam, o Deus dos Deuses; o Lanterna Verde, o Deus da Luz; e Lex Luthor, o Deus de Apokolips. Mas, se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente e o novo estatuto de divindade vai transformar profundamente os maiores heróis da DC, fazendo-os perder a sua dimensão humana. Para os fazer reencontrar a humanidade perdida e combater os planos de Graal, a filha de Darkseid que, depois de matar o pai, tomou posse da sua mais poderosa arma, a equação antivida, os restantes membros da Liga, a que se juntou Barda, a mulher de Scott Free, o Sr. Milagre, vão precisar de aliados. Mesmo que sejam aliados improváveis como os membros do Sindicato do Crime, Ultra-Homem, Supermulher e Coruja, Reflexos distorcidos dos maiores heróis do mundo, vindos de um mundo paralelo destruído pelo Antimonitor, os membros do Sindicato do Crime combateram a Liga da Justiça em histórias como Terra Dois, de Grant Morrison e Frank Quitely, o clássico que inaugurou a primeira colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC, em 2013.
Uma das características das histórias de super-heróis passa pelo eterno recomeço das histórias e dos confrontos, em que nada é definitivo, muito menos a morte, fazendo jus à velha máxima do Príncipe de Falconeri no livro O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (que muitos conhecem graças ao fabuloso filme de Visconti), que diz que “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”.  Mas, no caso desta história, as mudanças, mesmo que temporárias vão afectar profundamente o Universo DC, pondo fim à era dos Novos 52, que tem estado em destaque nestas colecções, para dar lugar à mais recente versão do Universo DC, a DC Rebirth.
Mas ao abrir as portas do futuro do universo DC, de que é um dos principais arquitectos, Geoff Johns não esquece o seu passado e os grandes autores que contribuíram para ele, como Grant Morrison e, sobretudo, o “Rei”Jack Kirby. O universo que o King criou na Saga do Quarto Mundo (de que pudemos ter um vislumbre numa anterior colecção), com o eterno conflito entre Nova Génese e Apokolips, onde nasceram personagem incontornáveis como Orion, Metron, o Sr. Milagre e Barda, Steppenwolf, Desaad, Kalibak e a encarnação suprema do mal que é Darkseid, estão na génese desta Guerra de Darkseid e de todo o (inesquecível) percurso de Johns como escritor da Liga da Justiça.
 Publicado originalmente no jornal Público de 02/12/2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Liga da Justiça 4 - A Guerra de Darkseid 1

O REGRESSO (E A MORTE) DE DARKSEID

Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid
Argumento – Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok e Francis Manapul
Quinta, 30 de Novembro, Por + 10,90 €
Com a publicação de A Guerra de Darkseid, saga que vai ocupar os dois últimos volumes desta colecção dedicada à Liga da Justiça, fica bem evidente a magnitude do trabalho levado a cabo por Geoff Johns com a Liga, que os leitores portugueses puderam acompanhar nas últimas colecções dedicadas ao Universo DC. Um trabalho que, partindo de um profundo conhecimento da história da DC, procura ir mais além, de modo a surpreender o leitor. Como refere Johns. “As coisas que mais gozo me dão fazer, são aquelas que mal posso acreditar como é que ainda ninguém se lembrou de as fazer antes. Como é que ninguém se lembrou de meter o Lex Luthor na Liga da Justiça? Ou, como que ninguém se lembrou de colocar o Darkseid a combater o Anti-Monitor?”
A Guerra de Darkseid é o culminar do percurso de Johns como escritor da Liga, com todos as peças a convergirem para o local onde o escritor as queria. Nas palavras do próprio: “Quando comecei a escrever o Liga da Justiça nº 1, sabia que, pelo menos por um ano, queria que a equipa fosse apenas os sete maiores heróis da DC, mas, em última instância, quem é que eu poderia trazer para essa equipa que fosse capaz de a agitar no final do ano dois? Qual é o maior personagem do Universo DC que toda a gente conhece, alguém que até a minha mãe sabe quem é, mas que seria incrivelmente interessante para a dinâmica da equipa? E esse alguém é o Lex Luthor.
Então tentei perceber o que é que seria necessário para fazer evoluir uma personagem como esse, de modo a transformá-lo num potencial membro da Liga, tanto na sua mente como na de todos os outros, e foi assim que a história Mal Eterno surgiu. Eu sempre soube que queria apresentar o Anti-Monitor de uma maneira nova para que, quando Darkseid voltasse, não fosse apenas Darkseid Segundo Round. Foram esses dois gigantes, grandes vilões loucos, que foram as pedras angulares da minha passagem pela Liga. Darkseid foi uma grande força no começo, e em Mal Eterno, o Anti-Monitor era uma grande força que estava algo escondida. Agora, trouxemos esses dois para a primeira fila em A Guerra de Darkseid.”
Mas neste primeiro volume, que assinala o regresso de Scott Free, o Sr. Milagre, ao Universo DC, o confronto entre o Anti-Monitor e Darkseid não é o único grande conflito deste primeiro volume, em que ficamos a conhecer Graal, a filha de Darkseid e de uma amazona, que vai ser responsável pela morte do seu pai.
Graficamente, Jason Fabok revela-se perfeitamente à altura da dimensão épica da história, superando com distinção o teste de desenhar os maiores heróis da DC. Como o próprio refere: “Eu sempre fiz livros de personagens únicos, mas sempre fui atraído por livros que eram grandes, enormes livros de equipa, onde tenho oportunidade de desenhar cenas delirantes. Eu não estaria preparado para fazer isso há alguns anos atrás, mas com a experiência acumulada e com o que fui aprendendo nesta indústria, sinto-me pronto para o próximo desafio. Estou pronto para fazer a melhor arte de que sou capaz e, espero, a melhor arte que já viram na Liga da Justiça. Esse é o meu objetivo, e Geoff está a dar-me coisas para desenhar que são um verdadeiro sonho, como  o Sr. Milagre. Era uma personagem que sempre quis desenhar!”
Com Darkseid morto e alguns heróis como Batman e o Flash a deixarem-se corromper pelo poder absoluto, o Universo DC como o conhecemos está em profunda transformação, mas será preciso esperar pela 2ª parte, para ver o resultado dessa transformação.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/11/2017

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Fernando Relvas - 1954 - 2017


Foi hoje a enterrar (ou mais propriamente, a cremar) um amigo. Um amigo que foi  o mais importante autor de BD das duas últimas décadas do século XX e que,  nos anos 80, entre a revista Tintin e o jornal Se7e, foi o único profissional de BD em Portugal.
Para mim, o melhor Relvas está na primeira metade do Espião Acácio, no L123 e Chevadilha Speed e em histórias do Se7e, como Concerto para Oito Infantes e um Bastardo, Niuiork, Sangue Violeta, Nunca Beijes a Sombra do teu Destino, no incompleto O Rei dos Búzios e em algumas das histórias do Karlos Starkiller. Mas no resto da sua obra, mesmo quando as histórias acabavam por ir para onde lhe apetecia e não para onde o leitor gostava que elas fossem, havia sempre um diálogo, ou monólogo, inesquecível, ou uma sequência, ou imagem perfeita, no seu dinamismo, eficácia e simplicidade.
Conhecíamos-nos pessoalmente há mais de 20 anos, mais ou menos na mesma altura em que comecei a escrever sobre ele, primeiro para a revista Quadrado e depois, em 1997, para o catálogo de uma das primeiras exposições da Bedeteca de Lisboa (Relvas: à Queima-roupa), entre outros sítios, como este blog, mas muito antes disso, já eu guardava os recortes das BDs que ele publicava no Se7e.
Para além das tardes e noites de copos que partilhámos, em Lisboa, na Amadora e em Coimbra (onde ele viveu alguns meses) tive o prazer (e o privilégio) de comissariar duas das três exposições mais recentes que a cidade da Amadora lhe dedicou. A última, Relvas: Retrospectiva/Outras perspectivas, de que fui curador por indicação do próprio Relvas, teve lugar nas novas instalações da Galeria Artur Bual, um espaço que, por ironia do destino, acolheu o jantar de encerramento do último AmadoraBD, que teve lugar mais ou menos há mesma hora a que o Relvas dava entrada no Hospital. Durante o tal jantar, tive oportunidade de fazer uma visita guiada à exposição aos convidados estrangeiros presentes e um deles, Denis Kitchen (editor de Will Eisner) comentou que lhe parecia incrível como tantas histórias, em registos e técnicas diferentes, saíram todas das mãos de um mesmo autor.
O Relvas sempre foi um resistente. Com o apoio incansável da Nina, foi resistindo como pode à doença de Parkinson que o ia minando. Resistiu também a uma queda que o deixou paralisado e a uma operação à coluna. Só não conseguiu resistir à pneumonia provocado por uma infecção hospitalar.
Muito mais cedo do que todos gostaríamos, o Relvas lá se foi. Agora conto contigo, Júlio, para não deixares morrer o Espião Acácio, lançando rapidamente o tão aguardado livro que ele já não vai poder ver. Do mesmo modo que conto, convosco, Margarida e Marco, para darem vida às histórias do Relvas que ele e o Viriato vos contaram.