Mostrar mensagens com a etiqueta Sandman. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sandman. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Colecção 25 Anos Vertigo 2 - Morte

A MORTE SEGUNDO NEIL GAIMAN

25 Anos Vertigo - Vol 2
Morte
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos – Chris Bachalo, Mark Buckingham e Dave McKean
Sábado, 25 de Agosto
Por + 13,90 €
No seu segundo número, a Colecção 25 Anos Vertigo leva os leitores portugueses de regresso ao universo da série Sandman, através de um dos seus personagens mais emblemáticos. A Morte. Irmã de Morfeu e dos restantes Eternos, Morte é uma jovem rapariga gótica, pálida e simpática, mas implacável, e uma das personagens mais aclamadas e originais do escritor Neil Gaiman. Criada nas páginas da série Sandman, a sua popularidade tornou-a na heroína das suas próprias histórias a solo, a maioria das quais são recolhidas neste volume antológico, que além de duas mini-séries, inclui duas histórias curtas.
A história que abre este volume é O Alto Custo da Vida, a primeira aventura a solo da Morte publicado originalmente como uma mini-série em 1993, sendo, com Enigma, de Pete Milligan, um dos primeiros novos títulos da linha Vertigo. Esta primeira história desenvolve uma lenda abordada na série Sandman, de que, um dia por século, a Morte encarna num ser mortal e desce à Terra para conhecer melhor os mortais para quem ela será a visita final. Um desses mortais é Sexton Furnival, um adolescente deprimido, obcecado com a ideia do suicídio, que vai acompanhar Morte ao longo de vinte e quatro horas, em que se cruzam com outras personagens que os leitores já conheciam da série   Sandman, como a misteriosa Ettie Louca, uma mulher sem-abrigo com 250 anos, que perdeu o seu coração. Uma história de grande sensibilidade e poesia, ilustrada com grande elegância por Chris Bachalo, desenhador que se estreou profissionalmente no nº 12 da série Sandman, mas que só aqui teve oportunidade de desenhar a Morte, dando um toque pessoal à personagem criada visualmente por Mike Dringenberg. A principal diferença é que a Morte de Bachalo (que usou a sua sobrinha como modelo) parece mais nova do que a de Dringenberg, mantendo o mesmo visual gótico, a que Bachalo acrescentou um chapéu. A colaborar com Bachalo na passagem a tinta, está outro veterano colaborador de Gaiman, o inglês Mark Buckingham, com quem Gaiman já tinha trabalhado na série Miracleman.

O grande sucesso de O Alto Custo da Vida, história que esteve muito perto de ser adaptada ao cinema num filme escrito e realizado pelo próprio Gaiman, com produção de Guillermo Del Toro, levou a Vertigo a lançar outra mini-série da Morte com a mesma equipa, Morte: o Melhor Momento da tua Vida, publicada originalmente em 1996. Desta vez, a Morte tem um papel mais de espectadora, numa história sobre relações, centrada em Foxglove e Hazel, um casal de lésbicas que apareceu pela primeira vez em Um Jogo de Ti, um dos episódios da série Sandman, e que estão igualmente presentes, embora de forma mais episódica, em O Alto Custo da Vida. Lidando com a forma como a fama de Foxglove, transformada em  jovem estrela pop, afecta a sua relação com Hazel, esta história mostra como o verdadeiro“milagre da morte” é a beleza da Vida. Devido aos seus compromisso com a Marvel e à demora de Gaiman em entregar o argumento, Bachalo teve de abandonar a séries meio, mas Mark Buckingham, cuja versatilidade estética ficou bem evidente em Miracleman, em que cada história foi Desenhada num estilo diferente, deu perfeitamente conta do recado, mimetizando de forma perfeita o traço de Bachalo, de tal forma que só mesmo os leitores muito atentos se aperceberam da mudança do desenhador.
A completar este volume, temos ainda duas histórias curtas, A Roda, também ilustrada por Bachalo, em que Gaiman presta uma bela e sentida homenagem às vítimas do 11 de Setembro, e A Morte Fala sobre a Vida, uma das raras histórias do universo Sandman desenhada por Dave McKean, o autor das fabulosas capas da série, sobre a importância do uso do preservativo na prevenção do SIDA, que conta com uma participação muito especial de John Constantine.
Um belo regresso ao mundo dos Eternos, as divindades tremendamente humanas criadas por Neil Gaiman, que nos mostra como o universo de Sandman não se esgota nos onze volumes da série principal.
Publicado originalmente no jornal Público de 18/08/2018

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sandman 11: A Vigília

E assim chegou ao fim a publicação de uma das mais importantes colecções de BD já lançadas neste país e, com ela, também os textos que sobre ela escrevi no Público. Para mim, foi um prazer espacial trabalhar na série Sandman, até por ver chegar ao fim uma edição que ficou interrompida nos meus tempos da Devir. Um agradecimento à Levoir e ao Público por me permitirem participar neste belo projecto, quase de serviço público aos leitores  portugueses de BD.

DEPOIS DO SONHO TERMINAR

Sandman – Vol. 11
A Vigília
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos –  Michael Zulli, John J. Muth e Charles Vess
Quinta, 15 de Dezembro
Por + 11,90€
Com a publicação de A Vigília, na próxima quinta-feira chega ao fim a publicação da série original do Sandman, de Neil Gaiman, corrigindo assim mais uma grave lacuna na edição de BD em Portugal.
Apesar da morte de Morfeu no volume anterior a saga de Sandman não terminou aí. Em A Vigília, Gaiman dá tempo aos leitores e a si próprio, de se despedirem condignamente das personagens que os acompanharam durante uma década. Por isso, A Vigília é centrado no velório e no funeral de Morfeu, cuja vida é celebrada e evocada por ocasião da sua morte, numa cerimónia solene a que assistem literalmente todas as personagens da série.
A ilustrar esta história em três partes e o consequente epílogo, está Michael Zulli, um extraordinário desenhador cujo traço os leitores já tinham podido apreciar em outros volumes da série, mas que aqui mostra todo o seu talento em estado puro, sem uma passagem à tinta que roubasse a espontaneidade do seu desenho inicial a lápis. Aproveitando a evolução tecnológica, A Vigília foi um dos primeiros casos de um livro colorido e impresso a partir dos desenhos a lápis, mantendo intacta toda a subtileza do sumptuoso desenho de Zulli. Um traço de grande realismo e maior elegância onde são bem evidentes as influências da pintura pré-rafaelita e simbolista.
Se a história de Morfeu e a sua substituição por um novo Mestre dos Sonhos que, na essência continua a ser o mesmo Sadman embora, na verdade não o seja, tem o final perfeito nos episódios ilustrados por Zulli, havia ainda duas histórias que Gaiman queria contar, que funcionam como continuações e codas de Lugares Instáveis e Sonho de uma Noite de Verão.
Na primeira, Jon J. Muth ilustra, usando tinta-da-china, pincel e colagens, um conto oriental que reúne o velho e novo Sandman. E finalmente, tal como ficou estabelecido em Sonho de Uma Noite De Verão, Shakespeare entrega ao Senhor dos Sonhos a segunda da duas peças que lhe prometeu, em troca da imortalidade para o seu trabalho. Essa peça é, obviamente, A Tempestade, que foi a última peça que Shakespeare escreveu sozinho.
Um final perfeito para uma série magnífica, que continuará viva na cabeça e nos sonhos dos leitores.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/12/2016

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sandman 10: As Benevolentes - Parte 2


O ÚLTIMO COMBATE DE MORFEU

Sandman – Vol. 10
As Benevolentes - Parte 2
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Marc Hempel, Teddy Kristiansen, Richard Case
Quinta, 08 de Dezembro
Por + 11,90€
Com a publicação do 10º volume de Sandman, que chega aos quiosques na próxima quinta-feira, chega ao fim a mais épica (e a maior) das histórias de Sandman, As Benevolentes, cujo inevitável desfecho vem confirmar a dimensão trágica do percurso de Morfeu, o Mestre dos Sonhos.
Um dos segredos do sucesso de Gaiman em Sandman, para além do seu talento a articular inúmeras personagens e diferentes histórias, dentro de uma narrativa global complexa, como se fosse a coisa mais simples do mundo, é a sua capacidade invulgar de harmonizar os elementos e a mitologia da tragédia clássica, com a dimensão mundana do dia-a-dia, a brevidade da vida e a importância do amor. No fundo, Os eternos e as outras divindades e criaturas mitológicas que Gaiman convocou para a saga de Sandman, são profundamente humanos nos seus comportamentos e atitudes.
Como bem refere o académico e escritor Frank McConnell, no prefácio do volume anterior: “É esta a premissa básica de As Benevolentes, e da própria saga de Sandman: a lenta realização que Sonho tem da intensidade da vida mortal, e da sua inescapável implicação nessa mesma intensidade. As Benevolentes, as Erínias, as Euménides, caçam-no ao longo deste livro porque ele matou o seu filho, Orfeu: claro, a pedido dele, mas mesmo assim matou-o. E com esse acto, Sonho entrou no tempo, escolha, culpa e remorso - entrou na esfera do que é humano.
No capítulo onze, depois de abandonar a segurança do Domínio do Sonho, a fada Nuala, que o invocou, faz-lhe a pergunta que poderá ser o segredo central da história. “Tu... queres que elas te castiguem, não queres? Queres ser castigado pela morte de Orfeu.”
E a vinheta seguinte, a resposta de Morfeu, é simplesmente a cara dele, vista de perto, sem palavras, uma cara torturada. (E já agora, um efeito que, nem um romance, nem um filme, poderiam conseguir com a mesma força, já que o romance teria de descrever a cara dele, e o filme apenas nos poderia mostrar um actor a tentar imitar aquela máscara sombria do remorso. O comic, com o estilo de desenho brilhantemente redutor de Marc Hempel, dá-nos a coisa em si.)”
E neste último parágrafo, McConnell alerta-nos para outro inegável talento de Neil Gaiman que, para além do grande escritor que a sua carreira de romancista demonstra, é alguém que tem um profundo conhecimento dos mecanismos narrativos da Banda Desenhada e que domina a linguagem da BD como poucos. A prová-lo está a escolha de Marc Hempel para desenhar esta história. Hempel, não sendo o mais vistoso, ou o mais talentoso dos desenhadores da série, bem longe disso, é alguém cujo estilo único se adequava perfeitamente ao tipo de história que Gaiman queria contar. E é precisamente esse casamento perfeito entre o texto e a imagem que torna única a linguagem da Banda Desenhada.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 02/12/2016

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sandman 9: As Benevolentes - Parte 1

O PRINCÍPIO DO FIM

Sandman – Vol. 9
As Benevolentes  - Parte 1
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos –  Marc Hempel, D’Israeli, Glyn Dillon e Charles Vess
Quinta, 01 de Dezembro
Por + 11,90€
Com o nono volume, que chega aos quiosques nacionais na próxima quinta-feira, a história de Sandman entra no seu acto final e o preço que Morfeu terá de pagar por derramar o seu próprio sangue – ao conceder ao seu filho Orfeu, o alívio da morte por que ele ansiava há séculos – vai ser muito alto.
Se dúvidas ainda houvesse de que a história de Morfeu, o Mestre dos Sonhos, é uma tragédia clássica, o capítulo decisivo, que ocupa os próximos dois volumes da série, dissipá-las-á de vez.
Pensada inicialmente para ser contada em seis capítulos, As Benevolentes acabou por ocupar treze números da série mensal, sendo de muito longe, a mais longa história de Sandman, o que fez com que, por uma questão de equilíbrio entre o tamanho dos volumes, fosse dividida em dois na edição portuguesa. Mesmo assim, os leitores portugueses apenas terão de esperar uma semana pelo desenlace da mais decisiva história da série, ao contrário de quem leu na altura a edição original americana, em que a história se prolongou por mais de um ano.
História extraordinariamente meticulosa, em que todas as peças do puzzle que Gaiman foi construindo de forma rigorosa ao longo da série, se encaixam finalmente no espaço previsto desde o início, As Benevolentes foi o maior desafio que Gaiman enfrentou até então enquanto escritor. Como o próprio refere numa entrevista, “quando comecei a escrever As Benevolentes, vi-me a mim próprio dentro de um camião muito, muito, grande, apontado a uma parede e a meter o pé no acelerador”.  Mas, mostrando que tinha mãos para conduzir esse camião, o escritor evita o desastre com brilhantismo, construindo uma história fantástica a todos os níveis, que contribui de forma decisiva para a mitologia da série.
Falando de mitologia, As Benevolentes é o volume de Sandman em que a mitologia clássica está mais presente, começando logo nas Benevolentes, as Euménides, as Três Parcas que tecem o destino dos homens com os seus fios e que aqui aparecem com uma imagem de três simpáticas senhoras inglesas, a fiarem enquanto bebem o seu chá, mesmo que uma delas prefira acompanhar o chá com um rato morto, em vez de biscoitos de gengibre… E a imagem do fio da vida que se interrompe ao ser cortado por uma das Benevolentes está presente a abrir cada um dos capítulos, frisando a ideia que o destino de Morfeu está traçado e irá ser cumprido, tal como estava escrito no livro do seu irmão cego, Destino.
Em termos gráficos, Gaiman também optou por correr riscos. Numa fase em que a popularidade e prestígio da série lhe permitiriam ter qualquer desenhador que quisesse, Gaiman optou por Marc Hempel, cujo estilo expressionista está longe de ser consensual, mas que se adequa perfeitamente às necessidades de uma história carregada de emoções, em que as fronteiras entre o mundo real e a fantasia se esbatem.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/11/2016

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sandman 8: A Estalagem do Fim do Mundo

A CASA DAS HISTÓRIAS

Sandman – Vol. 8
A Estalagem do Fim do Mundo 
Argumento – Neil Gaiman
Desenho –Michael Allred, Gary Amaro, Mark Buckingham, Steve Leialoha, Vince Locke, Bryan Talbot e Michael Zulli
Quinta, 24 de Novembro
Por + 11,90€
Prosseguindo a alternância, que se tornou uma imagem de marca da série Sandman, entre volumes com histórias curtas e outros com narrativas mais longas centradas na jornada de Morfeu, A Estalagem do Fim do Mundo, volume a ser distribuído na próxima quinta-feira em todo o país, recolhe um punhado de histórias curtas, que confirmam Gaiman como um mestre da short story, também na BD.
Mas, ao contrário do que acontece em Terra do Sonho e Fábulas e Reflexões, desta vez há um dispositivo narrativo a unir todas essas histórias, com excepção de Ramadão, publicada originalmente na revista Sandman nº 50, que na edição americana foi incluída no volume 6 e que na versão portuguesa surge neste volume, por uma questão de equilíbrio de páginas entre cada volume e por, em termos da cronologia da série, ser a estória que precede o final de Vidas Breves (que termina no Sandman nº 49) e antecede A Estalagem… (que começa no nº 51 da edição americana).
Mas voltando ao tal dispositivo narrativo que agrupa todas as estórias, em A Estalagem… temos um grupo de viajantes refugiados numa estalagem, que contam histórias um aos outros para passarem o tempo. Se o conceito soar familiar ao leitor mais atento é porque este esquema narrativo remonta ao século XV e aos Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer, uma influência que o próprio Neil Gaiman é o primeiro a admitir, referindo: “agradava-me a ideia de usar um dos mais velhos dispositivos narrativos da história da literatura inglesa. Se vais roubar, é melhor roubares os melhores e os Canterbury Tales estão definitivamente nessa categoria.”
Assim, neste volume, temos histórias sobre cidades que sonham, fadas, monstros marinhos e necrópoles, e estórias dentro das histórias, que permitem a Gaiman e ao alargado leque de colaboradores que ilustram estas histórias, homenagear diversos géneros e autores, em singelos contos magnificamente construídos, em que as referências literárias mais ou menos explicitas, não perturbam em nada o fluir da narrativa.
E outra prova do génio de Gaiman, está na escolha do desenhador certo para cada história. Basta ver como o traço etéreo de Alec Stevens se revela perfeito para Um Conto de Duas Cidades que, apesar do título que remete para Dickens, é o mais borgesiano texto de Gaiman, ou como Michael Zulli, desenhador que estará em destaque no último volume da série, ilustra O Leviatã de Hob, uma história que recupera o fascínio da vida no mar dos romances de Conrad e Melville.
Publicado originalmente no jornal Público de 18/11/2016

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sandman 7: Vidas Breves


PELA ESTRADA FORA

Sandman – Vol. 7 
Vidas Breves
Argumento - Neil Gaiman
Desenho – Jill Thompson, Vince Locke
Quinta, 17 de Novembro
Por + 11,90€

Depois dos maravilhosos interlúdios que foram as histórias curtas de Fábulas e Reflexões, a jornada de Morfeu volta a ocupar o centro do palco em Vidas Breves, capítulo que dá início ao último acto da série e que os leitores poderão descobrir no capítulo 7 da premiada série de Neil Gaiman, disponível a partir da próxima quinta-feira.
Reflexão sobre a mudança e a brevidade da vida, Vidas Breves dá destaque a dois dos Eternos, Sonho e Delírio, na sua busca por outro irmão, Destruição, que abandonou as suas funções e desapareceu no mundo desperto. Assim, na aparência estamos perante a mais linear das histórias, centrada numa viagem on the road de Sonho e Delírio pelos Estados Unidos da América, em busca das pessoas que possam conhecer o paradeiro de Destruição.
Um capítulo que se serve sobretudo para fazer avançar a história central, fazendo convergir diversos fios da intriga para a intricada tapeçaria tecida pelo autor, pois como o próprio Gaiman refere: “Vidas Breves, fornece informações sobre como e porquê Destruição abandonou o seu cargo e a família; conta como Orfeu consegue finalmente morrer; concretiza o objectivo de Desejo de conseguir com que o Sonho derrame o sangue da família, o que já vem da história do Imperador Norton e da Casa de Bonecas; e revela também muito sobre a Delírio… que é um dos raros personagens que chega ao fim desta história mais ou menos incólume.”
Mas, como é habitual em Gaiman, nem tudo é tão simples como parece, e muitos dos (aparentemente) meros mortais que encontramos ao longo da história e que vão sendo mortos para evitar que Morfeu descubra o paradeiro de Destruição, são na verdade Deuses que perderam os seus poderes quando deixaram de ter quem os adorasse e que, longe do esplendor de outrora (sobre)vivem escondidos no meio da humanidade, como Ishtar, a deusa do sexo da Babilónia, que agora dança como stripper num bar decadente. Um tema que Gaiman irá explorar posteriormente de forma mais profunda e complexa no seu romance American Gods, que está a ser adaptado à televisão pelo canal americano de cabo Starz, numa série de grande orçamento com estreia marcada (possivelmente também em Portugal) em 2017.
Em termos gráficos, este é um dos volumes mais consistentes da série, sendo inteiramente desenhado por Jill Thompson, com o apoio de Vince Locke na passagem a tinta. Thompson, que já tinha desenhado O Parlamento das Gralhas, a história final do volume anterior e que empresta o corpo e o rosto a Etain, a rapariga que consegue fugir do seu apartamento antes dele explodir, faz um excelente trabalho no tratamento das personagens, dando grande expressividade ao rosto e aos gestos de Delírio e tem sequências de grande beleza, como o céu estrelado sob o qual os Eternos conversam, ou a sequência em que as gotas do sangue que escorre das mãos de Morfeu, se transformam em flores vermelhas ao cair no chão.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/11/2016

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Sandman 6: Fábulas e Reflexões


OS IMPERADORES, O VIAJANTE E OS FILHOS DO SONHO

Sandman – Vol. 6 
Fábulas e Reflexões
Argumento – Neil Gaiman
Desenho – Bryan Talbot, Stan Woch, Shawn McManus, Collen Doran, Jill Thompson
Quinta, 10 de Novembro
Por + 11,90€
Confirmando a alternância entre grandes sagas que fazem avançar a narrativa global e histórias curtas que permitem explorar aspectos distintos da relação entre o Domínio do Sonho e o mundo Desperto, Fábulas e Reflexões, o sexto volume da série Sandman que chega às bancas na próxima quinta-feira, centra-se no modo como os percursos individuais de diferentes personagens históricas são afectados pelo encontro com o Mestre dos Sonhos.
Agosto, Termidor e Três Setembros e um Janeiro, os três contos que abrem o livro, para além de terem em comum serem histórias que têm títulos com nomes de meses (Termidor era o equivalente ao mês de Julho no novo calendário que a Revolução Francesa tentou implementar) centram-se na relação de três diferentes Imperadores com Morfeu. Seja o maior Imperador romano, Augusto, em Agosto, mês que lhe deve o nome, Robespierre, um dos principais responsáveis pela Revolução Francesa e pelo banho de sangue que se lhe seguiu em Termidor e o Imperador Norton, em Três Setembros e um Janeiro, título inspirado no do filme Quatro Casamentos e um Funeral, cujo argumentista, Richard Curtis, é amigo de Gaiman.
Por mais estranho do que possa parecer, Joshua Abraham Norton, o primeiro (e único) Imperador dos Estados Unidos é um personagem com existência real, cuja incrível história inspirou também Goscinny numa aventura de Lucky Luke, O Imperador Smith, e que aqui é o alvo inconsciente de uma disputa entre três dos Eternos, em que a força do sonho se revela superior ao desespero e à tentação.
Também o explorador Marco Polo encontra Morfeu no deserto, numa história que, alem de nos explicar o porquê de Morfeu também ser conhecido por Sandman, mostra-nos como o tempo se escoa de modo diferente nas faldas do domínio do Sonho, onde existem lugares suaves, onde as fronteiras entre o sonho e a realidade são porosas e a geografia dos sonhos se intromete na realidade.
Na história mais importante do livro, A Canção de Orfeu, Gaiman recupera uma lenda da mitologia clássica, o mito de Orfeu, para incorporar Orfeu e Eurídice no universo da série, num conto  que vai ter consequências decisivas para o destino de Morfeu e em que descobrimos que Orfeu é filho de Morfeu e da musa Calíope. Finalmente, em O Parlamento das Gralhas, Daniel, o filho de Lyta Hall que Morfeu disse que viria buscar, faz a sua primeira vista ao Domínio do Sonho.
Em termos gráficos, os destaques deste volume vão para Bryan Talbot, o autor de História de um Rato Mau, que assina os desenhos de Agosto e de A Canção de Orfeu, com grande rigor e um domínio perfeito da narrativa, e para Jill Thompson que, na sua estreia na série cria uma versão infantil dos Eternos transbordante de “fufura”, cujo estrondoso sucesso junto dos leitores levou a que protagonizassem duas histórias autónomas, Little Endless Storybook e Delirium’s Party, escritas e desenhadas por Jill Thompson.
Publicado originalmente no jornal Público de 04/11/2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Sandman 5: Um Jogo de Ti

A PRINCESA E O CUCO

Sandman  – Vol. 5 
Um Jogo de Ti
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Shawn McManus, Collen Doran, Bryan Talbot, George Pratt e Stan Woch
Quinta, 03 de Novembro
Por + 11,90€
Depois de ter estado em grande destaque no volume anterior, Morfeu, o Mestre dos Sonhos desta vez quase que sai de cena, cedendo o protagonismo a Barbie, uma das personagens de Casa de Bonecas, o segundo volume da série, que aqui se revela uma personalidade muito mais complexa do que deixava transparecer, capaz de criar o seu próprio reino encantado num recanto distante do Domínio do Sonho.
O problema é que Barbie deixou de sonhar na sequência do vórtice provocado por Rosie Walker no volume 2 e o reino encantado onde reinava como Princesa Bárbara está abandonado, tendo ficado à mercê do misterioso Cuco, que o pretende destruir, bem como aos companheiros de brincadeiras da Princesa Bárbara.
Conforme Gaiman refere na introdução para a edição brasileira deste volume, Um Jogo de Ti: “é uma história que toca diferentes géneros de ficção, da aventura mais comercial, aos contos de fadas e às histórias de terror. Tenta entrelaçar muitas coisas sobre as quais penso e tenho reflectido – as relações entre as pessoas e as histórias, as diferenças entre homem e mulher, adultos e crianças, contos e realidade. Talvez seja realismo mágico, mas nem a magia nem a realidade são tão fáceis de separar, ou até, de identificar, como as pessoas gostariam.”  
Para esta complexa fábula profundamente humana, em que ninguém é o que parece ser, Gaiman encontrou o artista ideal em Shawn McManus, um desenhador que descobriu através de Pog, uma belíssima homenagem ao Pogo de Walt Kelly escrita por Alan Moore na série Swamp Thing, em que McManus demonstra uma capacidade única de conciliar um registo caricatural de grande elegância e ternura, na linha da Disney, com momentos de terror e de grande intensidade dramática. E se McManus tinha estado perfeito em Pog, aqui consegue ir ainda mais além, contribuindo de forma decisiva para um dos momentos mais altos da série Sandman que, não sendo das histórias mais populares junto dos leitores, é uma das raras que está realmente próxima das expectativas iniciais do seu autor.
 Publicado originalmente no jornal Público de 28/10/2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sandman 4: estação das Brumas


MORFEU NO INFERNO

Sandman – Vol. 4
Estação das Brumas
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Mike Dringenberg, Kelley Jones, Malcon Jones III, Matt Wagner, P. Craig Russell e George Pratt
Quinta, 27 de Outubro
Por + 11,90€
Depois do interregno proporcionado pelas histórias curtas de Terra do Sonho, o quarto volume da série Sandman que chega às bancas na próxima quinta-feira, volta a centrar-se na saga de Morfeu, o Mestre dos Sonhos, que tem de regressar ao Inferno onde tinha estado no 1º volume para recuperar o seu elmo.
Se há algo que fica bem evidente nesta série, é que as acções têm consequências, que mais tarde ou mais cedo, acabam por se revelar. Vimos na primeira história do 2º volume que Morfeu tinha condenado a uma eternidade no Inferno a princesa Nada, uma mortal por quem se apaixonou, mas que se recusou a ficar a seu lado, mas só durante uma reunião familiar convocada pelo Destino, em que somos apresentados a (quase) todos os Eternos, é que o Senhor do Sonho reconhece que errou e se propõe voltar ao Inferno para corrigir esse erro, mesmo que para isso tenha de enfrentar o poder de Lúcifer, o anjo caído que reina sobre as planícies infernais.
Depois de um episódio centrado nos preparativos para o combate que se adivinhava épico entre Lúcifer e Morfeu, Neil Gaiman surpreende o leitor, pois Morfeu encontra um Inferno deserto e um Lúcifer que, farto das intrigas do Inferno e da forma como os mortais o usam como justificação para os erros e os pecados que cometem, decide abandonar a sua função como guardião do Submundo e a gozar a eternidade no meio dos mortais, deixando o Inferno nas mãos de Morfeu. Uma decisão absolutamente inesperada, que vem alterar o equilíbrio cósmico e a relação entre Céu e Inferno, e que deixa o Mestre dos Sonhos como fiel depositário da chave do Inferno. Um Inferno fechado e deserto, mas que continua a ser uma propriedade muito cobiçada pelos Deuses das mais diversas religiões, que se dirigem ao Domínio do Sonho, para tentarem pelos mais diversos meios que o Mestre dos Sonhos lhes ceda a chave do Inferno.
Em termos gráficos, o principal desenhador deste volume é Kelley Jones, contando com Malcon Jones III na passagem a tinta. A mesma dupla que já tinha desenhado Caliope e Um Sonho de Mil Gatos, duas histórias do volume anterior e cujo estilo barroco se revela perfeito para uma história com um sopro épico como esta, cheia de anjos, deuses e demónios. Veja-se a escala monumental dos portões do Inferno (que parecem saídos de um desenho feito a duas mãos por Druillet e Giger), a forma como trata elementos visuais já familiares ao leitor, como o elmo ou o manto de Morfeu, dando-lhes uma nova aparência muito mais espectacular, ou o modo subtil como a própria imagem de Morfeu se altera conforme os Deuses com que fala, ou a elegância majestática dos seus anjos.
Talvez o mais estranho para os leitores americanos, para quem Thor e Odin são personagens da Marvel, é a imagem que Jones dá deles, muito mais próxima da mitologia nórdica, do que da versão dos Deuses de Asgard criada por Jack Kirby para a “Casa das Ideias”.
Tal como acontecia em Casa de Bonecas, também este volume tem um capítulo que funciona como interlúdio, permitindo algum fôlego aos desenhadores da história principal para conseguirem manter o ritmo de publicação mensal. No caso da história desenhada por Matt Wagner, protagonizada por Edwin Paine e Charles Rowland, dois rapazes mortos que se vão tornar detectives juvenis, descobrimos que o Inferno pode ser um colégio interno inglês, naquele que é o episódio da série mais inspirado na própria vivência de Gaiman. Como refere o autor: “apesar de tudo nesta história ser inventado, este número é autobiográfico. Ou noutras palavras, Charles Rowland sou, em grande parte, eu.”
Publicado originalmente no jornal Público de 21/10/2016

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sandman 3: Terra do Sonho

A MUSA, OS GATOS, O POETA E A MÁSCARA

Sandman - Vol 3
Terra do Sonho
Argumento - Neil Gaiman
Quinta, 20 de Outubro
Desenhos – Kelley Jones, Charles Vess, Colleen Doran e Malcon Jones III
Por + 11,90 €
Considerado por muita gente (entre os quais me incluo) como um dos melhores volumes da série, Terra do Sonho funciona como um interregno na longa história de Morfeu, para permitir a Neil Gaiman explorar as infinitas possibilidades que o tema do sonho oferece, num punhado de histórias que lidam com questões como a criatividade e o preço dos sonhos, tanto os concretizados, como os que ficam por cumprir.
Terra dos Sonho é pois constituída por quatro histórias autónomas e auto conclusivas, em que um escritor em busca de inspiração aprisiona uma musa, acabando por descobrir que há sempre um preço a pagar pelas ideias; uma gatinha descobre que houve um tempo em que o mundo era dominado pelos gatos e que só o poder dos sonhos poderá restaurar esse domínio; uma criatura superpoderosa anseia pela única coisa que lhe está vedada: a morte; e o poeta William Shakespeare apresenta a sua última peça para um público muito especial. Ou seja, histórias tão diferentes sobre a vida (e a morte), a criatividade, a solidão e o destino, unidas pela presença de Morfeu, o Senhor dos Sonhos e ilustradas por diferentes desenhadores que voltaremos a encontrar ao longo da série, numa demonstração do cuidado de Gaiman em encontrar sempre o artista com o traço mais adequado às diferentes histórias que quer contar.
Mesmo que seja muito difícil resistir ao encanto de Um Sonho de Mil Gatos, em que descobrimos que o Domínio do Sonho se estende também ao reino animal, a mais célebre dessas histórias é Sonho de uma Noite de Verão, em que Morfeu reencontra Shakespeare, depois de um primeiro encontro em Homens de Boa Vontade, história publicada no volume anterior, em que o poeta lhe diz “que queria dar aos homens sonhos que vivessem muito depois de ele ter morrido”. Um desejo que será satisfeito através de um acordo em que o dramaturgo se compromete a escrever duas peças para o Rei dos Sonhos.
Uma dessas peças é precisamente Midsummer’s Night Dream, conforme descobrimos nesta história de Terra dos Sonho, que foi justamente a primeira BD (e também a última, pois o regulamento foi imediatamente alterado para impedir que um sacrilégio desses voltasse a acontecer...) galardoada com o World Fantasy Award, um prestigioso prémio literário na área da literatura fantástica.
Ponto de entrada ideal no universo mágico de Sandman, o Mestre dos Sonhos, Terra do Sonho é o primeiro ponto alto de uma série incontornável, exemplo maior da obra de um autor tão criativo como talentoso, que sabe muito bem para onde vai e que se prepara para escrever algumas das páginas mais memoráveis da BD em língua inglesa.
Publicado originalmente no jornal Público de 14/10/2016 

domingo, 16 de outubro de 2016

Sandman 2: Casa de Bonecas


A CASA NO MUNDO DO SONHO 


Sandman - Vol 2
Casa de Bonecas
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos – Mike Dringenberg e Malcon Jones III
Quinta, 13 de Outubro
Por + 11,90 €
Neste segundo volume da série Sandman que, curiosamente, até foi o primeiro a ser originalmente publicado em livro, o leitor vai ficar a conhecer, para além de uma namorada de Morfeu, a quem o orgulho do Mestre dos Sonhos condenou à eternidade no Inferno, mais dois elementos da família dos Eternos, Desejo e Desespero. Mas a história centra-se sobretudo no modo como Morfeu tem de lidar com as consequências que o seu afastamento durante os anos em que esteve prisioneiro, teve sobre o Domínio do Sonho. Uma ausência que possibilitou a fuga de alguns pesadelos, como Bruto e Sebo, e especialmente, o Coríntio, um serial-killer com dentes no lugar dos olhos, que devora os globos oculares daqueles que mata e que serviu de inspiração a uma série de assassinos em série, que se vão reunir numa convenção, numa cena que serve a  Neil Gaiman para parodiar as convenções de ficção científica e de Banda Desenhada e a glamourização da figura do serial-killer que o aparecimento da Internet só veio acentuar.
Mas o ponto fulcral da história é Rose Walker, cuja simples existência ameaça o equilíbrio entre o Domínio do Sonho e o Mundo Desperto em que vivemos, e a casa na Flórida onde ela foi viver, a tal Casa de Bonecas do título (que, ao contrário do que muitos leitores pensaram, não é uma homenagem à peça homónima de Ibsen, mas sim ao romance infantil do mesmo nome de Rumer Godden) e os seus peculiares habitantes. Habitantes como Hal Carter, o simpático senhorio, o casal Barbie e Ken, as sinistras irmãs Chantal e Zelda e a sua colecção de aranhas e o misterioso Gilbert, que na verdade é Fidler's Green, um local mágico, um campo verdejante para onde os marinheiros vão depois de morrer, referido por Herman Melville no seu romance Billy Budd e a quem Gaiman e Mike Dringenberg dão as feições de G. K. Chesterton, num bom exemplo de como as referências literárias estão sempre presentes na série.
E por falar em literatura, em Homens de Boa Fortuna, episódio intermédio, em que Dringenberg cede o lugar a Michael Zulli, para além de conhecermos Hob Gadling, o homem que não queria morrer e o único amigo humano do Senhor dos Sonhos, descobrimos que Morfeu faz um acordo com William Shakespeare, garantindo a imortalidade para sua obra, em troca de duas peças, Sonho de uma Noite de Verão e A Tempestade, obras do poeta inglês que irão estar em destaque em futuros volumes.  
Depois da saída, por divergências criativas, de Sam Kieth, o desenhador inaugural de Sandman, que declarou numa entrevista que se sentia na série “como Jimmy Hendrix nos Beatles”, Dringenberg que o substituiu, contando com Malcon Jones III como arte-finalista preferencial, deu um toque mais realista à arte de Sandman, que assenta como uma luva à própria evolução da série, que se foi gradualmente centrando no lado humano das personagens, mesmo das que são muito mais do que humanos, como é o caso dos Eternos, ou das criaturas que povoam o Mundo do Sonho. 
O seu estilo mais tradicional, por oposição ao traço mais barroco e fantasista de Keith não colide com uma grande versatilidade, nem com o uso de soluções narrativas engenhosas, como as cenas em plano subjectivo, vistas através dos óculos escuros do Coríntio, a alteração do sentido de leitura da página, quando entramos no Domínio do Sonho (na mesma linha do que Guido Crepax tinha feito na história Valentina no Metro, recentemente publicada na série II da colecção novela Gráfica), ou a bela homenagem a Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCkay nos sonhos de Jed. 
Publicado originalmente no jornal Público de 06/10/2016

domingo, 9 de outubro de 2016

Sandman 1: Prelúdios e Nocturnos


SANDMAN DE NEIL GAIMAN 
FINALMENTE EM PORTUGAL, EM EDIÇÃO INTEGRAL

Sandman
Vol 1 - Prelúdios e Nocturnos
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Sam Keith, Mike Dringenberg e Malcon Jones III
Quinta, 06 de Outubro
Por + 11,90 €
No ano em que se completam vinte anos sobre o fim da publicação original em revistas mensais, Sandman, a série de culto de Neil Gaiman chega finalmente a Portugal em versão integral, suprindo assim mais uma grave lacuna da edição nacional de Banda Desenhada. São onze volumes inéditos em Portugal - com a excepção do primeiro e do terceiro - que o Público e a Levoir dão a descobrir aos leitores portugueses, numa cuidadosa edição em capa dura que faz justiça à obra de Gaiman, um dos maiores e mais populares escritores do fantástico, seja na literatura, na BD, no cinema e na televisão, campos em que o prolífico escritor inglês tem espalhado o seu talento, sempre com grande sucesso.
 Primeiro grande sucesso de Gaiman, que antes de Sandman tinha assinado apenas Violent Cases e Orquídea Negra, duas novelas gráficas ilustradas pelo seu amigo Dave McKean, a série é, nas palavras do seu autor: “um conto acerca dos sonhos, uma história acerca das histórias. É acerca do sentido dos sonhos, da razão pela qual precisamos deles e deles talvez precisarem de nós. E é acerca do Rei dos Sonhos, que é chamado por muitos nomes durante a história.”
Publicada pela DC, a editora de Batman e Super-Homem, a série Sandman oferecia aos leitores habituais da editora algo de diferente e inesperado, mas que permitiu que Sandman conquistasse tanto os fãs dos super-heróis, como o público da fantasia e do terror, ou os apreciadores das novelas gráficas, género que só então começava a ganhar o devido reconhecimento, graças ao sucesso de títulos como Maus, Batman: O Regresso do Cavaleiro das Trevas, ou Watchmen. Dando novamente a palavra a Gaiman: “eu estava realmente na corda bamba. Queria que a série se parecesse suficientemente com uma revista de super-heróis, para permitir que as pessoas que gostam de super-heróis a lessem; e ao mesmo tempo queria que se parecesse também com uma revista de terror, para me permitir escrever as histórias de fantasia que eu estava interessado em escrever.”
A estratégia do escritor é bem evidente neste primeiro volume, marcado pelo registo do terror, mas que segue a estrutura clássica da viagem do herói. Uma estrutura linear que acompanha o percurso de Morfeu, o Mestre dos Sonhos, que começa a história como prisioneiro de um grupo de ocultistas ingleses, que pensavam ter capturado a Morte e que, depois de conseguir escapar ao seu cativeiro, tem de recuperar os símbolos do seu poder. Um percurso em que conta com o auxílio de outras personagens da DC, como a Liga da Justiça e John Constantine e Hettie Louca, criadas por Alan Moore na série Swamp Thing e que leva Morfeu até ao Inferno, onde encontra Lúcifer, A Estrela-da-Manhã, o anjo caído e Senhor dos Infernos que irá ter um papel fundamental ao longo da série e ganhará até uma série própria,

escrita por Mike Carrey com a bênção de Gaiman.
Indo buscar personagens e locais a diversas mitologias clássicas, à literatura e à história da DC, a que se juntam inúmeras personagens criadas por si, Gaiman constrói um mundo de fantasia tão fascinante como coerente, onde reina a família dos Eternos, constituída por sete irmãos, que são a corporização de conceitos, sentimentos e ideais como o Destino, a Morte (Death, no original), o Sonho (Dream, no original), a Destruição, o Desejo, o Desespero e o Delírio (que antes de enlouquecer, era o Deleite).  
Depois de recuperar o capacete, a bolsa com areia e o rubi que são os símbolos do seu poder, Morfeu tem de reconstruir o seu Domínio do Sonho, deixado ao abandono durante o seu cativeiro, mas antes, este primeiro volume termina com um momento de pausa entre o Sonho e a sua irmã, Morte, que é também um momento de viragem na série, que deixou de ser apenas uma série de aventuras fantásticas, vividas por criaturas com poderes para além da imaginação, para se concentrar nas relações humanas, pois apesar de todo o seu poder, os Eternos são uma família perfeitamente disfuncional, muita humana nos seus comportamentos.
Publicado originalmente no jornal Público de 30/09/2016

domingo, 2 de outubro de 2016

Sandman - Apresentação da nova colecção da Levoir

Mal acabou a série II da colecção Novela Gráfica, eis que surge mais uma colecção Público/Levoir, neste caso dedicado a Sandman, a série de culto de Neil Gaiman, que finalmente vai ser publicado na integra em Portugal. Para a semana, aqui deixarei o texto sobre o 1º volume, mas antes disso, aqui fica o texto de apresentação da colecção e do seu autor.

BEM-VINDO À TERRA DO SONHO, O REINO DE SANDMAN


Para aqueles que, depois de duas séries da colecção Novela Gráfica, ainda têm dúvidas de que a Banda Desenhada possa atingir a qualidade e complexidade da literatura, a série Sandman que o Público e a Levoir vão finalmente publicar na íntegra - depois de uma primeira tentativa, por outra editora, que se ficou apenas pela publicação do primeiro e do terceiro volumes – deve ser suficiente para dissipar de vez essas dúvidas.
Desde os primórdios da Banda Desenhada, com o Little Nemo de Winsor McCkay que o mundo dos Sonhos se revelou um palco privilegiado para a imaginação dos autores de BD. Mas ninguém soube explorar tão bem as infinitas possibilidades do mundo dos sonhos como o britânico Neil Gaiman nesta série.
Pegando num obscuro personagem da DC Comics, a editora de Batman e do Super-Homem, criado nos anos 40 e recriado posteriormente por Jack Kirby e, partindo do universo dos super-heróis e dos contos de terror para muito rapidamente os transcender, Gaiman soube transformar uma série desconhecida, inicialmente ilustrada por desenhadores de segunda linha, numa obra-prima da BD, verdadeiro exemplo de como é possível contar histórias interessantes e bem escritas, em que a temática fantástica não perturba a profunda humanidade das personagens.
O Sandman que Neil Gaiman criou em 1989, a partir de um convite da editora da DC, Karen Berger, e a que deu vida ao longo de mais de 8 anos e 75 números mensais e um número especial que durou a revista, nada tem a ver com o Sandman de Kirby, mesmo que o escritor homenageie as diferentes incarnações da personagem, introduzindo-as, de forma tão hábil como eficaz, na história de Morfeu. O Senhor dos Sonhos é, nas palavras do seu criador, “uma personificação antropomórfica, quase uma ideia”, uma entidade mítica mais poderosa do que os Deuses (que morrem quando os homens deixam de acreditar neles) cujas aventuras têm como palco o Mundo dos Sonhos, onde reina.
Publicada numa editora especializada em super-heróis, por um escritor que sempre abraçou o fantástico nas suas mais variadas formas, Sandman mistura fantasia, mitologia e literatura, numa série protagonizada por criaturas fantásticas, mas que têm qualidades e defeitos muito próximos dos seres humanos cuja vida controlam e influenciam. A série, como refere Neil Gaiman no prefácio à primeira edição portuguesa, é: “um conto acerca dos sonhos, uma história acerca das histórias. É acerca do sentido dos sonhos, da razão pela qual precisamos deles e deles talvez precisarem de nós. E é acerca do Rei dos Sonhos, que é chamado por muitos nomes durante a história.”
E a história começa precisamente com Morfeu, o Rei dos Sonhos, a conseguir libertar-se da redoma mágica onde esteve aprisionado durante décadas. Mas o Mestre dos Sonhos terá de percorrer um árduo caminho para recuperar os símbolos dispersos do seu poder e restaurar o esplendor perdido do Domínio do Sonho e acabará por compreender que as decisões que tomar ao longo desse caminho terão custos elevados, que terá forçosamente de pagar.
Terminada a história de Sandman em 1996, após mais de duas mil páginas de BD, e um total de 26 Prémios Eisner, incluindo 3 de Melhor Série Mensal e 4 de Melhor Argumentista, Gaiman dedicou-se a outros projectos mas, ocasionalmente, acaba por voltar ao Reino dos Sonhos. Foi o que aconteceu com The Dream Hunters, um conto de Sandman ambientado no Japão medieval, ilustrado por Yoshitaka Amano (responsável pela concepção visual do jogo Final Fantasy), com Endless Nights, em que os membros da família dos Eternos são desenhados por grandes nomes da BD mundial, como Milo Manara e Miguelanxo Prado e, mais recentemente com Sandman: Overture, uma história maravilhosamente ilustrada por J. H. Williams III, que funciona simultaneamente como prólogo e epílogo da série e explica como é que Morfeu foi parar na situação de prisioneiro de um grupo de ocultistas ingleses, em que o encontramos no começo da série. Projectos paralelos, que talvez possamos ver um dia editados em Portugal, se o interesse dos leitores assim o justificar.
Mas o que é absolutamente garantido é a publicação integral dos 10 volumes da série principal (que serão 11 na versão portuguesa, já que o volume 9 da edição original será desdobrado em dois, por questões de equilíbrio no número de páginas de cada volume), que chega às bancas e quiosques nacionais já no próximo dia 6 de Outubro. Por isso, aqui fica o convite para viajarem com Morfeu até à Terra do Sonho e descobrirem uma das melhores séries de BD de todos os tempos. Com um guia como Neil Gaiman e as dezenas de artistas que dão vida e cor à sua imaginação, esta vai ser certamente uma viagem inesquecível.

OS ETERNOS E OUTRAS CRIATURAS DO SONHO

Embora dê nome à série, Morfeu, o Oneiromante, Mestre do Sonho, é apenas um de uma vasta galeria de personagens criadas por Neil Gaiman, a partir da mitologia clássica, da literatura, do panteão da editora DC, ou da sua própria imaginação. E, naturalmente o destaque maior vai para a família de Morfeu, os Eternos. Sete entidades que já existiam antes da humanidade sonhar com os Deuses e continuarão a existir depois de o último Deus morrer. Estes sete irmãos, por ordem de idade, são a corporização de conceitos, sentimentos e ideais como o Destino, a Morte (Death, no original) , o Sonho (Dream, no original), a Destruição, o Desejo, o Desespero e o Delírio. Depois do Sonho (Morfeu), o primeiro Eterno a entrar em cena é a Morte, a sua irmã mais velha, a quem Gaiman e os desenhadores que com ele trabalharam deram uma aparência inspirada na cantora Siouxsie Sioux, dos Siouxsie and the Banshees, cujo estilo e indumentária serviram parcialmente de modelo aos góticos, na mesma época em que se publicaram também os primeiros romances de vampiros da Anne Rice. Também por ir de encontro ao Zeitgeist da época, a Morte tornou-se a mais popular personagem da série e a primeira a protagonizar outras histórias, nas mini-séries The High Cost of Living e The Time of Your Life. Os restantes Eternos vão sendo introduzidos lentamente na trama, com Destruição a ser o ultimo a ser apresentado aos leitores.
Interagindo com os Eternos, encontramos personagens mitológicas, como a musa Calíope, com quem Morfeu, tem um filho, Orfeu, cuja trágica e infrutífera descida aos infernos para salvar a sua amada Eurídice, é um dos episódios mais célebres da mitologia clássica, que Gaiman recria na BD.
É também no Inferno que encontramos outra personagem mitológica e literária, que Gaiman vai reinventar: Lúcifer, A Estrela-da-Manhã, o Anjo Caído do poema de Milton que reina nos infernos. Um Lúcifer que, na versão de Gaiman, farto da vida que levava, decide abandonar o Reino das Trevas e gozar a eternidade no mundo da superfície, na companhia dos mortais, vivendo diversas aventuras numa série paralela a Sandman, escrita por Mike Carrey, com a bênção de Gaiman e cujo sucesso fez com que tenha sido recentemente adaptada à televisão.
Mas, para além de outras personagens mitológicas, como Caín e Abel, cuja presença já era recorrente no Universo DC, graças à série House of Secrets, ou do Coríntio, o mais terrível dos pesadelos criado por Morfeu, com dentes no lugar dos olhos, a série vive muito da interacção destas criaturas fantásticas com os humanos.
E aqui, dois humanos se destacam. O primeiro é Hob Gadling, o homem que não queria morrer e a quem Morfeu concede esse dom, para que se possam encontrar de cem em cem anos no mesmo bar. O outro humano em destaque, também obteve a vida eterna, não para si, mas para a sua obra. Falo de William Shakespeare, que em troca da imortalidade das suas criações literárias, se comprometeu a escrever duas peças para Morfeu; Sonho de uma Noite de Verão e A Tempestade. Peças que servem de base a dois dos mais famosos capítulos de Sandman, ilustrados por Charles Vess.

Neil Gaiman
Nascido a 10 de Novembro de 1960, Neil Gaiman é um dos mais importantes nomes da BD de língua inglesa, género em que se estreou em 1987, depois de uma curta carreira como jornalista musical, com Violent Cases, uma novela gráfica feita em colaboração com o seu amigo Dave McKean, com quem voltaria a colaborar em diversas ocasiões, mas foi a série Sandman que o ajudou permitiu atingir o estatuto impar que hoje detém no mundo da Banda Desenhada. Mas a actividade de Gaiman como escritor não se limita à BD, pois o autor inglês tendo espalhado igualmente o seu talento pela literatura, pelo cinema e pela televisão.
Escritor com presença assídua nas listas de Best Sellers do jornal New York Times, Gaiman escreveu contos, romances, livros infantis e ensaios, que lhe permitiram tornar-se num dos mais premiados escritores de sempre, vencendo quatro prémios Hugo, dois Nebulas, seis Locus, quatro Bram Stoker, as medalhas Newberry and Carnegie e muitas outras distinções importantes. Sendo um escritor eminentemente visual; Gaiman escreveu muitas vezes com a transposição para a imagem em mente não só na BD, mas também no cinema e na televisão. O criador britânico viu várias obras suas adaptadas ao cinema (como Coraline e Stardust), ou à televisão (como Neverwhere e American Gods). Além de participar na adaptação dos seus textos a outros meios, Gaiman adaptou os diálogos da versão inglesa do filme Princesa Mononoke, de Myiazaki; escreveu, a meias com Roger Avary (Pulp Fiction) o argumento do filme Beowulf e, com o seu amigo Dave McKean como director, escreveu o guião de Mirror Mask, para os estúdios de Jim Henson, o criador dos Marretas; para além de ter escrito e realizado uma curta-metragem chamada A Short Film About John Bolton, em que transforma o seu amigo e colaborador John Bolton numa personagem de ficção.



Dave McKean
Nascido em Maindenhead, Inglaterra, em 1963, Dave McKean é um extraordinário criador de imagens, um designer de nível mundial, conhecido pela forma harmoniosa (e talentosa) como mistura desenho, fotografia, pintura, colagens e imagens digitais, em ilustrações ou em Banda Desenhada, género pelo qual é mais conhecido em Portugal. Apesar da sua formação em Belas-Artes, o seu principal interesse sempre foi contar histórias e a Banda Desenhada revelou-se o meio ideal para o fazer. Conforme ele próprio confessa: “adoro o suporte (a BD). Adoro contar histórias. Adoro arte narrativa. Nunca me interessei muito em pintar para expor nas galerias de arte: Acima de tudo, o que eu gosto é de contar histórias. E mesmo nas ilustrações isoladas tento sempre que elas contenham uma história. Sempre adorei o cinema, mas acabei por fazer desenhos, pinturas e fotografias. E se juntarmos a arte com a narrativa temos Banda Desenhada. Sempre li BD desde miúdo e à medida que cresci e entrei nas Belas-Artes, continuei a fazê-lo.”

McKean é responsável pelo design e pela totalidade das capas da série Sandman, seja das revistas mensais, seja das várias edições encadernadas, criando uma imagem gráfica extremamente inovadora e imediatamente reconhecível, que rompia com as convenções da época, sendo o primeiro comic book mensal em que, por regra, o protagonista não aparece nas capas, afirmando-se como um elemento distintivo da série. Magníficas ilustrações, em que o design se sobrepõe ao desenho, as capas de Sandman são um exemplo da criatividade e da versatilidade de McKean, que adapta o seu registo, criando um estilo e uma abordagem distinta para cada arco de história, utilizando para isso as mais variadas técnicas artísticas.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 01/10/2016